Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

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Paraná Poético
Almanaque Paraná de Trovas
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Almanaque Literário O Voo da Gralha Azul

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domingo, 19 de maio de 2013

José Feldman (Universo de Versos n. 35)

Uma Trova do Paraná
-
DÂMILA FERNANDA FIGUEIREDO – Bandeirantes

No alto daquele gramado,
que linda flor amarela!
Mas, que destino malvado…
Hoje, enfeita uma lapela!!!
========================
Uma Trova sobre a Trova, de São Paulo
-
LUIZ ANTONIO CARDOSO
E no princípio era o verso…
mas Deus, que tudo renova,
iluminou o universo,
formando a estrofe da trova!
========================
Uma Trova Lírica/Filosófica de Santos/SP
-
CAROLINA RAMOS

Uma rosa rubra e bela
Brasão de Irmãos sonhadores,
traz a mensagem singela:
UNIÃO DOS TROVADORES.
========================
Uma Trova Humorística de São Paulo/SP
-
TEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA

Gritei: “Pare, seu Joaquim!”,
quando o trem apareceu.
Ele ainda olhou pra mim,
Falou “impare” … e morreu.
========================
Uma Trova do Ademar
-
ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

========================
Uma Trova Hispânica do Chile
-
JAIME CORREA

Es otoño, y con su viento,
Las hojas cayeron tristes.
Solas en ese momento
Isla, dime: ¿Acaso existes?
========================
Uma Quadra Popular Portuguesa
-
Tenho um relógio parado
Por onde sempre me guio.
O relógio é emprestado
E tem as horas a fio.
========================
Trovadores que deixaram Saudades
-
CATULO DA PAIXÃO CEARENSE – São Luis/MA
1863 – 1946

Morto, peço-te uma esmola,
peço a ti, que és minha luz.
que partindo, esta viola,
faças dela a minha cruz.
========================
Outra Trova sobre a Trova, do Príncipe da Trovas
-
LUIZ OTÁVIO
1916 – 1977

A Trova tomou-me inteiro,
tão amada e repetida,
que agora traça o roteiro
das horas da minha vida!...
========================
Um Haicai de Sena Madureira/AC
-
JORGE TUFIC

Cadeira antiga.
Nela sentou-se a família,
agora a fadiga.
========================
O Universo de Leminski
-
PAULO LEMINSKI
Curitiba (1944 – 1989)


já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma
========================
Uma Poesia de Monteiro Lobato/SP
-
PAULO VINHEIRO
Engasgado no Éden


Em tufos de fumaça que rolam
Em ondas de desinformações
Querências tolas entre bombas
Que explodem entre multidões

Maratona desengonçada partiu
Pedaços de mim e minas gerais
Atravessou a sala e já sumiu
Esperando manchete de amanhã

Não engulo tanta notícia vil
Não sinto medo por estar vivo
Apenas não respiro mais, engasgo
A repetição contínua e histérica

Não sinto medo da morte, morro
Só assim, morrendo a cada dia
Só assim sobrevivo, sobrevôo
Sobre a vida à toa atolam olhos

E a tv não te vê, faz ver que há
E mesmo não havendo sugere
E conta que faz um faz de conta
E tanta gente tonta despetala

Enterrados em rasa vala resvalam
Revelam seus sonhos toscos mais
Entremeados reclames vendem
Entre meados de maio que virá

Abril a porta do outono no sul assim
Que da prima Vera do norte medeia
A esperança da flor atômica e verde
Das florestas frientas do mar sem fim

Querem nosso medo, assim se fartam
Como se nosso medo fosse barato
Mas é barato sim e cara a ignorância
Mas a mais procurada em nosso jardim
========================
Septilhas do Rio Grande do Norte
-
ZÉ LUCAS X ADEMAR MACEDO X FRANCISCO GARCIA
Nos Arpejos das Septilhas (Debate pela Internet)


01 - Prof. Garcia
Ademar, vate dos vates
de uma inspiração sagrada,
convide o mestre dos mestres
para a nova caminhada;
fomos heróis em sextilhas,
vamos tentar em septilhas
chegar ao fim da jornada.

02 - Ademar
Zé Lucas, meu camarada,
para atender ao Garcia
formulo então o convite
para a nossa parceria;
são três vates de valores,
três poetas trovadores
se desmanchando em poesia...

03 - Zé Lucas
É, de fato, uma alegria
cantar nossos ideais.
Em seis pés, fomos tão longe,
onde vão poucos mortais
por este mundão afora,
mas em sete pés, agora,
vamos correr muito mais.

04 - Prof. Garcia
Somos três pobres mortais,
três artistas sonhadores;
não somos três repentistas
nem somos três cantadores,
somos três vates poetas,
três respeitados estetas,
três amantes trovadores.

05 - Ademar
Nós somos três locutores
na freqüência da poesia,
botando versos no ar
com cadência e melodia;
e na verdade eles são
produtos da inspiração
que nasce em nós todo dia!

06- Zé Lucas
A ciência humana cria
os mais belos instrumentos,
foguetes que vão à Lua
e toda sorte de inventos,
mas não cria, aqui no chão,
fábrica de inspiração
nem prisão de pensamentos.

Obs. Debate concluído com 150 estrofes.
========================
Uma Poesia de Lisboa/Portugal
-
Sóror VIOLANTE MONTESINO
1602 – 1693
Ao Amado Ausente


Se apartada do corpo a doce vida,
Domina em seu lugar a dura morte,
De que nasce tardar-me tanto a morte,
Se ausente d’alma estou, que me dá vida?

Não quero sem Sylvano já ter vida,
Pois tudo sem Sylvano é viva morte;
Já que se foi Sylvano venha a morte,
Perca-se por Sylvano a minha vida.

Ah, suspirando ausente, se esta morte
Não te obriga a querer vir dar-me vida.
Como não vem dar-me a mesma morte?

Mas se n’alma consiste a própria vida,
Bem sei que se me tarda tanto a morte,
Que é porque sinta a morte de tal vida.
========================
Um Soneto do Rio de Janeiro/RJ
-
EDMAR JAPIASSU MAIA
Auto Retrato


Nem sei há quanto tempo que um sorriso
não enfeita o meu rosto macerado
pelas dores que têm m dominado,
pelos árduos caminhos que hoje piso…

Bem sei o quanto tenho me esforçado
para encontrar o amor de que preciso,
e transportar-me em luz ao paraíso
de sonhos que a ilusão me tem negado…

Quando tristonho ao pranto me condeno,
percebo ser no pranto um Ser pequeno,
que na apatia busca o seu abrigo.

E a sorte, nos seus rasgos de avareza,
não deixa que eu me dispa da tristeza,
e possa parecer menos comigo!
========================
Uma Poesia de Longe
-
BERTOLT BRECHT – Augsburg/Alemanha
1898 – 1956
Elogio do aprendizado


Aprenda o mais simples!
Para aqueles cuja hora chegou
Nunca é tarde demais!
Aprenda o ABC; não basta, mas
Aprenda! Não desanime!
Comece! É preciso saber tudo!
Você tem que assumir o comando!

Aprenda, homem no asilo!
Aprenda, homem na prisão!
Arenda, mulher na cozinha!
Aprenda, ancião!
Você tem que assumir o comando!
Frequente a escola, você que não tem casa!
Adquira conhecimento, você que sente frio!
Você que tem fome, agarre o livro: é uma arma.
Você tem que assumir o comando.

Não se
envergonhe de perguntar, camarada!
Não se deixei convencer
Veja com seus olhos!
O que não sabe por conta própria
Não sabe.
Verifique a conta
É você que vai pagar.
Ponha o dedo sobre cada item
Pergunte: O que é isso?
Você tem que assumir o comando.
========================
Um Poetrix de São Luiz Gonzaga/RS
-
RENEU BERNI
porões


Vão-se os fantasmas
ficam os medos
vazios de nós!
========================
Uma Poesia de Drummond
-
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902– 1987
Toada do Amor


E o amor sempre nessa toada:
briga perdoa perdoa briga

Não se deve xingar a vida,
a gente vive, depois esquece.
Só o amor volta para brigar,
para perdoar,
amor cachorro bandido trem.

Mas, se não fosse ele,
também que graça que a vida tinha?
========================
Versos Melodicos

LEOPOLDO FRÓES
Mimosa (canção, 1921)

 

Mimosa !
Tão delicada e melindrosa...
Mimosa !...Mimosa!
Mimosa!
Deus que te fez assim formosa
Tens o perfume de uma rosa
Mimosa! ... Mimosa!

Quando tu passas pela estrada
Ou pela fresca madrugada
Ou pela noite enluarada
minha alma fica magoada
E o meu amor te apoteosa
Maldosa!... Mimosa!
==========

Nota: No soneto da Renata Paccola do Universo de Versos n. 34, faltou o último verso:
que pudesse atender aos teus desejos!  

sábado, 18 de maio de 2013

Amadeu Amaral (Memorial de Um Passageiro de Bonde) Reticências


Encontrei-me hoje no bonde, depois do almoço, com o Nicolau Coelho. Como eu lhe dissesse, um dia, que lera com prazer a sua crônica sobre finados, desse dia em diante se aproximou de mim, e não me vê sem que me venha apertar a mão. Ainda hoje pagou a minha passagem. 

Conheço Nicolau desde menino, fui amigo de seu pai, professor gratuito de um dos seus irmãos, e nunca se julgara obrigado a usar de cortesias comigo. Passei a ser alguém para ele no dia em que lhe elogiei uma crônica, a ele que tantas e tão aplaudidas tem escrito, a ele carregado de glórias. 

Nicolau, vendo-me no último banco, ergueu-se do seu e desfechou-se de lá. Sacou de cinco tiras de papel e disse, com modéstia: 

-"Isto é curtinho... Gostaria que lesse, preciso da sua opinião." 

Fixei os meus olhos nos seus. 

-"Precisa da minha opinião?" 

-"Sim pois..." 

-"Mas isso é grave, meu amigo. Então a minha opinião vale?" 

-"Muito." 

-"Nesse caso, eu necessitaria ler com vagar, com toda a atenção." 

-"Mas, eu tenho de levar o original à folha. É curtinho. Lerá num momento." 

Li. Li e não achei mal. Ao contrário. Certa harmonia agradável e constante, harmonia de forma, harmonia de fundo, feitas de pequenas audácias de pensamento e de expressão, difíceis de orquestrar. Notei apenas um exagero de sinais sintáticos, travessões, virgulas, pontos-e vírgulas, pontos finais, e sobretudo, reticências. 

O abuso das reticências me é particularmente enervante (a não ser quando entram, num sistema personalíssimo de notações, compreensível em certos indivíduos muito irregularmente "individuais".) Ponham quantas forem necessárias para indicar suspensão ou transição inesperada. Mas este costume de derramar ao pé de cada período uma série de pontinhos, para denotar que a frase é aguda, que ali há coisa, que a passagem envolve malícia ou profundidade 

-não, não. 


O leitor (sempre inteligente) irrita-se por não se lhe deixar o gosto de descobrir por si mesmo as sutilezas, as intenções, os valores velados. E depois o autor acaba por botar reticências em tudo, porque é difícil que um autor não veja coisas a realçar em cada um dos seus períodos. Afinal, a função dos pontinhos desaparece, e onde eles não estão é que a gente vai ver se desentoca o melhor. 

A mania das reticências não tarda em semeá-las no próprio pensamento. Recolhem, como as bexigas. E lá se vai o amor da claridade e da justeza, lá vem o prazer vicioso do equívoco, do ambíguo, do flutuante. 

Os antigos não usavam reticências. Faltou-lhes pois uma boa forma de notação, hoje indispensável. Mas o fato é que a estreiteza do sistema de suplementares da palavra tinha as suas vantagens. Forçava-os a tudo exprimir e sugerir com os recursos únicos da frase nua e dos seus ritmos naturais. Em vez de pôr um sinal de ironia tinham de açacalar a ironia através da rede dos períodos. Em vez de indicar com que óculos cinzentos ou vermelhos se havia de ler o capítulo ou a página, davam à página ou ao capitulo a tonalidade sentimental ou mental conveniente. Era o processo direto, que penetrava até às carnes e aos nervos do estilo. 

Podiam falecer-lhe a este as flexibilidades e esfumaturas da sensibilidade moderna, mas ainda isso era uma vantagem, porque era uma disciplina. O escritor havia de se resignar, por muito indeciso e ondulante que tivesse o espírito, ao freio de um métier e havia de viver perpetuamente em busca do límpido, do incisivo, do luminoso. Nunca se entregava senão a construções de pensamento com uma classificação e um fim. Toda a sua aspiração era fabricar obras acabadas, portáteis, que representavam aquisições (como diz Emerson a propósito já não lembra de que autor) coisas que se poderiam sopesar, palpar, pôr no bolso e levar para casa como um utensílio, como uma jóia, como uma fruta. 

Representei tudo isto por outras e mais breves palavras, a Nicolau, cujo valor não deixei de tomar para estribilho. Guardou os originais, acendeu um cigarro e perguntou, com um sorriso reticente: 

-"Então, só um excesso de... pontinhos?" 

"Só, Nicolau, só. Mas isso mesmo, ó Artista, ó Imaginífico, ó Mistagogo! é talvez mania ou sutileza do meu bestunto emperrado. Quando vejo um desses escritos retalhados em pequenos parágrafos cada parágrafo seguido de uma secreção de pontinhos, tenho logo a idéia de uma desfilada de cabritos. 

"Mas, pensando bem, penso que um escritor moço precisa de ter certa porção de cacoetes e singularidades, até de erros, dentro de certo limite porque tudo isto serve exatamente de lhe dar um ar de viçoso verdor e de divinatória inexperiência, a graça do gênio ainda ignorante de si próprio, todo em flor e esperança. 

"As pequenas carepas envolvem uma promessa festiva de aperfeiçoamento ao passo que a lixa insistente e minuciosa, tirando todas as titicas e asperidades da superfície, deixa ver melhor as imperfeições essenciais da matéria e da construção. 

"Esses cacoetes, essas singularidades, esses descuidos constituem uma garantia para o escritor. Ninguém suspeita nele um gramático, um espírito peco e miúdo, preocupado com a língua e outras superfluídades peróbicas. Perdoam-lhe por simpatia, numa absolvição geral, as faltas cometidas, e ainda as que venha a perpetrar. Ao passo que os escritores corretos dão ganas a todo o mundo de lhes descobrir trincas e manchas. 

E isto sempre se consegue: a correção é uma zona ideal de equilíbrio instável..." 

Ia eu assim dissertando, alheio ao bonde e ao tempo, quando uma brecada instantânea fez estralejar todo o arcabouço do carro. Gritos, borborinho. O bonde havia pegado uma carroça pela rabeira e arremessado esse veículo, com os seus dois animais, a três metros de distância. 

A carroça adernara, com uma das rodas meio fora do eixo, e os burros, presos ao correame e aos varais abatidos, resfolegavam largamente, com estremeções espaçados de toda a courama. 

O pior é que o próprio carroceiro, cuspido para o chão, raspara a poeira e se estatelara ao lado, a verter sangue da cabeça, as mãos meio enclavinhadas, o peito a arquejar sob a camisa aberta. 

Magotes de curiosos iam e vinham enquanto dois homens de maior iniciativa tratavam de recolher a vítima a uma casa próxima e de levantar os animais. 

Válidos, prestantes bons homens! Surgiram de repente da massa amorfa, como os que sabemquerer e mandar. E eu era da massa amorfa, imprestável distraída, hesitante. Ó céu, cada dia me reservas uma humilhação! 

Depois, que, vinda a polícia e o carro da assistência, o bonde pôde continuar a viagem, os passageiros consternados ainda pormenorizavam o ocorrido, explicavam o desastre, discutiam as culpas. Quanto a mim, conservava-me quieto, com a visão pasmada daquele homem caído no chão, a derramar sangue na poeira, e do triste do motorista que parecia fulminado de estupor, na balorda prostração do animal tocado de raio. 

Nicolau catucou-me de repente no braço. Voltei-me para ele como quem despertava. 

-"Mas!... quer que lhe diga?" (recomeçou) "não estou de acordo com o senhor." 

E tinha um arzinho entre provocador e mofento. 

-"Comigo?! Em que?!..." 

- "Nesse negócio de reticências. A mim me parecem indispensáveis. A questão está naquilo que se pretende dizer ou sugerir." 

E por aí foi, a traçar com o indicador o desenho dos argumentos. Dei-lhe sempre razão até o termo do discurso e da linha. "Sim. Claro. Sim! Pois não. Sim, sim!" 

Afinal, disse um adeus veloz a esse espírito gentil e corri a um café, onde fui tomar a minha xícara em silêncio e em penitência, e reatar os fios inacabáveis do meu perene diálogo comigo mesmo -com o único indivíduo que não se aborrece quando o contrario, com o único indivíduo que me aborrece quando o não quero contrariar. 

Alcântara Machado (Carmela)


Dezoito horas e meia. Nem mais um minuto porque a madama respeita as horas de trabalho. Carmela sai da oficina. Bianca vem ao seu lado.

 A Rua Barão de Itapetininga é um depósito sarapintado de automóveis gritadores. As casas de modas (AO CHIC PARISIENSE, SÃO PAULO-PARIS, PARIS ELEGANTE) despejam nas calçadas as costureirinhas que riem, falam alto, balançam os quadris como gangorras.

 - Espia se ele está na esquina.

 - Não está.

 - Então está na Praça da República. Aqui tem muita gente mesmo.

 - Que fiteiro!

 O vestido de Carmela coladinho no corpo é de organdi verde. Braços nus, colo nu, joelhos de fora. Sapatinhos verdes. Bago de uva Marengo maduro para os lábios dos amadores.

 - Ai que rico corpinho!

 - Não se enxerga, seu cafajeste? Português sem educação!

 Abre a bolsa e espreita o espelhinho quebrado, que reflete a boca reluzente de carmim primeiro, depois o nariz chumbeva, depois os fiapos de sobrancelha, por último as bolas de metal branco na ponta das orelhas descobertas.

 Bianca por ser estrábica e feia é a sentinela da companheira. 

 - Olha o automóvel do outro dia.

 - O caixa-d'óculos?

 - Com uma bruta luva vermelha.

 O caixa-d'óculos pára o Buick de propósito na esquina da praça.

 - Pode passar.

 - Muito obrigada.

 Passa na pontinha dos pés. Cabeça baixa. Toda nervosa.

 - Não vira para trás, Bianca. Escandalosa!

 Diante de Álvares de Azevedo (ou Fagundes Varela) o Ângelo Cuoco de sapatos vermelhos de ponta afilada, meias brancas, gravatinha deste tamanhinho, chapéu à Rodolfo Valentino, paletó de um botão só, espera há muito com os olhos escangalhados de inspecionar a Rua Barão de Itapetininga.

 - O Ângelo!

 - Dê o fora.

 Bianca retarda o passo.

 Carmela continua no mesmo. Como se não houvesse nada. E o Ângelo junta-se a ela. Também como se não houvesse nada. Só que sorri.

 - Já acabou o romance?

 - A madama não deixa a gente ler na oficina.

 - É? Sei. Amanhã tem baile na Sociedade.

 - Que bruta novidade, Ângelo! Tem todo domingo. Não segura no braço!

 - Enjoada!

 Na Rua do Arouche o Buick de novo. Passa. Repassa. Torna a passar.

 - Quem é aquele cara?

 - Como é que eu hei de saber?

 - Você dá confiança para qualquer um. Nunca vi, puxa! Não olha pra ele que eu armo já uma encrenca!

 Bianca rói as unhas. Vinte metros atrás. Os freios do Buick guincham nas rodas e os pneumáticos deslizam rente à calçada. E estacam.

 - Boa tarde, belezinha...

 - Quem? Eu?

 - Por que não? Você mesma...

 Bianca rói as unhas com apetite.

 - Diga uma cousa. Onde mora a sua companheira?

 - Ao lado de minha casa.

 - Onde é sua casa?

 - Não é de sua conta.

 O caixa-d'óculos não se zanga. Nem se atrapalha. É um traquejado.

 - Responda direitinho. Não faça assim. Diga onde mora.

 - Na Rua Lopes de Oliveira. Numa vila. Vila Margarida n.0 4. Carmela mora com a família dela no 5.

 - Ah! Chama-se Carmela... Lindo nome. Você é capaz de lhe dar um recado?

 Bianca rói as unhas.

 - Diga a ela que eu a espero amanhã de noite, às oito horas, na rua... na.... atrás da Igreja de Santa Cecília. Mas que ela vá sozinha, hein? Sem você. O barbeirinho também pode ficar em casa.

 - Barbeirinho nada! Entregador da Casa Clark!

 - É a mesma cousa. Não se esqueça do recado. Amanhã, as oito horas, atrás da igreja.

 - Vá saindo que pode vir gente conhecida.

 Também o grilo já havia apitado.

 - Ele falou com você. Pensa que eu não vi?

 O Ângelo também viu. Ficou danado.

 - Que me importa? O caixa-d'óculos disse que espera você amanhã de noite, às oito horas, no Largo Santa Cecília. Atrás da igreja.

 - Que é que ele pensa? Eu não sou dessas. Eu não!

 - Que fita, Nossa Senhora! Ele gosta de você, sua boba.

 - Ele disse?

 - Gosta pra burro.

 - Não vou na onda.

 - Que fingida que você é!

 - Ciao.

 - Ciao.

 Antes de se estender ao lado da irmãzinha na cama de ferro Carmela abre o romance à luz da lâmpada de 16 velas: Joana a Desgraçada ou A Odisséia de uma Virgem, fascículo 2.0

 Percorre logo as gravuras. Umas tetéias. A da capa então é linda mesmo. No fundo o imponente castelo. No primeiro plano a íngreme ladeira que conduz ao castelo. Descendo a ladeira numa disparada louca o fogoso ginete. Montado no ginete o apaixonado caçula do castelão inimigo de capacete prateado com plumas brancas. E atravessada no cachaço do ginete a formosa donzela desmaiada entregando ao vento os cabelos cor de carambola.

 Quando Carmela reparando bem começa a verificar que o castelo não é mais um castelo mas uma igreja o tripeiro Giuseppe Santini berra no corredor:

 - Spegni la luce! Subito! Mi vuole proprio rovinare questa principessa!

 E - raatá! - uma cusparada daquelas.

 - Eu só vou até a esquina da Alameda Glette. Já vou avisando.

 - Trouxa. Que tem?

 No Largo Santa Cecília atrás da igreja o caixa-d'óculos sem tirar as mãos do volante insiste pela segunda vez:

 - Uma voltinha de cinco minutos só... Ninguém nos verá. Você verá. Não seja má. Suba aqui.

 Carmela olha primeiro a ponta do sapato esquerdo, depois a do direito, depois a do esquerdo de novo, depois a do direito outra vez, levantando e descendo a cinta. Bianca rói as unhas.

 - Só com a Bianca...

 - Não. Para quê? Venha você sozinha.

 - Sem a Bianca não vou.

 - Está bem. Não vale a pena brigar por isso.

 - Você vem aqui na frente comigo. A Bianca senta atrás.

 - Mas cinco minutos só. O senhor falou...

 - Não precisa me chamar de senhor. Entrem depressa.

 Depressa o Buick sobe a Rua Viridiana.

 Só pára no Jardim América.

 Bianca no domingo seguinte encontra Carmela raspando a penugenzinha que lhe une as sobrancelhas com a navalha denticulada do tripeiro Giuseppe Santini.

 - Xi, quanta cousa pra ficar bonita!

 - Ah! Bianca, eu quero dizer uma cousa pra você.

 - Que é?

 - Você hoje não vai com a gente no automóvel. Foi ele que disse.

 - Pirata!

 - Pirata por quê? Você está ficando boba, Bianca.

 - É. Eu sei porquê. Piratão. E você, Carmela, sim senhora! Por isso é que o Ângelo me disse que você está ficando mesmo uma vaca.

 - Ele disse assim? Eu quebro a cara dele, hein? Não me conhece.

 - Pode ser, não é? Mas namorado de máquina não dá certo mesmo.

 Saem à rua suja de negras e cascas de amendoim. No degrau de cimento ao lado da mulher Giuseppe Santini torcendo a belezinha do queixo cospe e cachimba, cachimba e cospe.

 - Vamos dar uma volta até a Rua das Palmeiras, Bianca?

 - Andiamo.

 Depois que os seus olhos cheios de estrabismo e despeito vêem a lanterninha traseira do Buick desaparecer, Bianca resolve dar um giro pelo bairro. Imaginando cousas. Roendo as unhas. Nervosissima.

 Logo encontra a Ernestina. Conta tudo ã Ernestina.

 - E o Ângelo, Bianca?

 - O Ângelo? O Ângelo é outra cousa. E pra casar.

 - Há!…

Fonte:
Alcântara Machado. Brás, Bexiga e Barra Funda.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

José Feldman (Universo de Versos n. 34)

Uma Trova do Paraná
-
AMÁLIA MAX – Ponta Grossa

A esperança em nossa vida,
pelo valor que ela ostenta,
pode até ser resumida,
como o pão que nos sustenta.
========================
Uma Trova sobre a Trova, de Pedro Leopoldo/MG
-
WAGNER MARQUES LOPES
 Trova é dom que se insinua...
E, entre sombras, prevalece:
raio de sol ou de lua,
hino de amor, uma prece.
========================
Uma Trova Lírica/Filosófica de São Paulo/SP
-
CAMPOS SALES
Distante de quem adoro
minha alma triste se queixa,
tento fingir que não choro,
mas meu semblante não deixa!
========================
Uma Trova Humorística de São Paulo/SP
-
ROBERTO TCHEPELENTYKY

De político do “avesso”,
a gente já tem calombo...
pois, quando ele dá tropeço,
é o povo que leva o tombo!!!
========================
Uma Trova do Ademar
-
ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

Com minha alma enternecida,
confesso com todo ardor;
Deus me deu dois dons na vida:
ser “Pai” e ser “Trovador”!…
========================
Uma Trova Hispânica da Republica Dominicana
-
CLAUDIO MARTÍNEZ

Brasil queda vertical
en una trova infinita,
tan tierna y angelical
que en el alma nos palpita.
========================
Uma Quadra Popular Portuguesa
-
Não digas mal de ninguém,
Que é de ti que dizes mal.
Quando dizes mal de alguém
Tudo no mundo é igual.
========================
Trovadores que deixaram Saudades
-
HELENA FERRAZ – Rio de Janeiro/RJ

Muito cuidado, se mentes
 e se o mentir te seduz:
 – a mentira é, das sementes,
 a que mais se reproduz!
========================
Outra Trova sobre a Trova, do Príncipe da Trovas
-
LUIZ OTÁVIO

Fazer trova de improviso
não me arrisco, e nunca tento;
só faz quem não tem juízo
ou quem tem muito talento.
========================
Um Haicai de Belém/PR
-
PAULO MARCELO BRAGA

Haicai Educativo
 
Se ofender é objetivo,
jamais nenhum debate
poderá ser educativo.
========================
O Universo de Leminski
-
PAULO LEMINSKI
Curitiba (1944 – 1989)

-
 Uma poesia ártica
claro, é isso que eu desejo.
Uma prática pálida,
tres versos de gelo.
Uma frase-superfície
onde vida-frase alguma
não seja mais possível.
Frase, não. Nenhuma.
Uma lira nula,
reduzida ao puro mínimo,
um piscar do espírito,
a única coisa única.
Mas falo. E, ao falar, provoco
nuvens de equívocos
(ou enxame de monólogos?)
Sim, inverno, estamos vivos.
========================
Uma Poesia do Rio de Janeiro/RJ
-
CECÍLIA MEIRELLES
1901 – 1964
Despedida


Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.
Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces ? - me perguntarão. -
Por não Ter palavras, por não ter imagem.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.
Que procuras ?
Tudo.
Que desejas ?
Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.
A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação ...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?
Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão !
Estandarte triste de uma estranha guerra ... )
Quero solidão.
========================
Uma Trova Ecológica, de Balneário Camboriú/SC
-
ELIANA RUIZ JIMENEZ
Desfazendo a natureza,
vai o homem construtor
desconstruindo a certeza
de um futuro promissor.
========================
Diálogo em Sextilhas do Rio Grande do Norte
-

ZÉ LUCAS x ADEMAR MACEDO x FRANCISCO GARCIA.

Três à Mesa da Poesia

01 - Zé Lucas
Com Ademar e Garcia
vou pelejar desta vez,
enchendo a taça dos versos
com carinho e lucidez,
para que o vinho sagrado
das musas dê para os três.

02 - Ademar
Vou beber com honradez
uma taça todo dia,
e eu peço a Deus neste verso
talento e sabedoria,
e que este vinho sagrado
me embriague de poesia.

03 - Prof. Garcia
Eu vou beber todo dia
para afastar o meu pranto,
deste vinho que embriaga
e nunca me causa espanto,
porque o vinho do verso
tanto é puro quanto é santo.

04 - Zé Lucas
Pai, Filho e Espírito Santo,
eis a Trindade Divina;
Jesus, Maria e José
brilham na mesma doutrina;
TRÊS À MESA DA POESIA
cantam porque Deus ensina.

05 - Ademar
Tem a Trindade Divina
e a Trindade da poesia,
a Divina, todos sabem:
Jesus, José e Maria;
na poesia somos nós:
Zé Lucas, Eu e Garcia.

06 - Prof. Garcia
A trindade que eu queria
desta vez está formada:
Eu, Ademar e Zé Lucas
trilhando na mesma estrada,
atrás da outra Trindade
que é santa, pura e sagrada.

Obs. Debate pela Internet, com 150 estrofes
========================
Uma Poesia de Funchal, Ilha da Madeira/Portugal
-
DALILA TELES VERAS
Do amor e seus silêncios


No destempero e ardências
da fúria inaugural
a palavra sem proveito
(verbalização de corpos)

No rito já maturado
do caminho reconhecido
a muda comunhão
(frêmito de carne e espírito)

Urgências mitigadas
os silêncios primordiais
já agora interpretáveis
(epifania outonal)
========================
Um Soneto de São Paulo/SP
-
RENATA PACCOLA
Feitiço


Se eu tivesse os poderes de uma fada,
estaria contigo o tempo inteiro,
iluminando tua madrugada
como se fosse a luz de um candeeiro.

Seria teu bordel e teu mosteiro,
seria teu refúgio e tua estrada,
do nascer ao momento derradeiro,
da hora da partida até a chegada.

Eu te seduziria qual sereia.
Então, nos amaríamos na areia;
depois te afogaria com meus beijos.

E no final eu me transformaria
numa estrela repleta de magia

que pudesse atender aos teus desejos!
 ========================
Uma Poesia de Longe
-
CHARLES BAUDELAIRE – Paris/França
1821– 1867
O gato


Vem cá, meu gato, aqui no meu regaço;

Guarda essas garras devagar,
E nos teus belos olhos de ágata e aço
Deixa-me aos poucos mergulhar.

Quando meus dedos cobrem de carícias
Tua cabeça e o dócil torso,
E minha mão se embriaga nas delícias

De afagar-te o elétrico dorso,
Em sonho a vejo. Seu olhar, profundo
Como o teu, amável felino,
Qual dardo dilacera e fere fundo,

E, dos pés à cabeça, um fino
Ar sutil, um perfume que envenena
Envolvem-lhe a carne morena.
(Tradução de Ivan Junqueira)
========================
Um Poetrix do Rio de Janeiro/RJ
-
RICARDO INGENITO ALFAYA
porcelana chinesa


Luz na água do chá
O rosto de um monge
Dentro da xícara
========================
Uma Poesia de Drummond
-
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902– 1987
Soneto da Perdida Esperança


Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para a casa.
A rua é inútil e nenhum auto
passaria sobre meu corpo.

Vou subir a ladeira lenta
em que os caminhos se fundem.
Todos eles conduzem ao
princípio do drama e da flora.

Não sei se estou sofrendo
ou se é alguém que se diverte
por que não? na noite escassa

com um insolúvel flautim
Entretanto há muito tempo
nós gritamos: sim! ao eterno.
========================
Versos Melodicos
-
J. RESENDE e MIRANDELA
A rolinha do sertão (assim é que é) – (samba/carnaval, 191
9)

Eu quizera ser a rola (Pois é)
A rolinha do sertão (Pois é)
Para fazer o meu ninho (Pois é)
Na palma de sua mão (Assim que é)

Não precisa ser a rola (Pois é)
A rolinha do sertão (Pois é)
Que o teu ninho já está feito (Pois é)
Dentro do meu coração (Assim que é)

O fogo nasce da lenha (Pois é)
A lenha nasce do chão (Pois é)
Bem querer nasce dos olhos (Pois é)
O amor do coração (Assim que é)

Sexta-feira faz um ano (Pois é)
Que meu coração fechou (Pois é)
Quem morava dentro dele (Pois é)
Tirou a chave e levou (Assim que é)

Eu vi a garça voando (Pois é)
Lá pra banda do sertão (Pois é)
Levava a Maria no bico (Pois é)
E Teresa no coração (Assim que é)

Um anjo me disse agora (Pois é)
Eu amendrontado ouvi (Pois é)
Que no céu Nossa Senhora (Pois é)
Tinha ciúmes de ti (Assim que é)

quinta-feira, 16 de maio de 2013

José Feldman (Universo de Versos n. 33)

Uma Trova do Paraná-
-

ELIANA PALMA – Maringá
Tão preguiçoso o noivinho
que trocou o seu papel
com o papel do padrinho
em plena lua de mel…
========================
Uma Trova Lírica/Filosófica de São Paulo/SP
-
ALBA CHRISTINA CAMPOS NETTO

Quebro a taça do passado
e o vinho espalhado ao chão
é meu brinde apaixonado
aos cacos de uma ilusão!
========================
Uma Trova Humorística de São Paulo/SP
-
IZO GOLDMAN

No paraquedas fechado
uma etiqueta dizia:
– “Se falhar ao ser usado,
reclame. Tem garantia…”
========================
Uma Trova do Ademar
-
ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

Cada verso que componho,
nele, eu conto um sonho meu;
todos nós temos um sonho…
E cada um que conte o seu!
========================
Uma Trova Hispânica do México
-
LEONARDO HUERTA

Bendita sea la amistad,
esa emoción tan bonita
que nos trae felicidad
dulce, divina e infinita!!!!
========================
Uma Quadra Popular Portuguesa
-
No baile em que dançam todos
Alguém fica sem dançar.
Melhor é não ir ao baile
Do que estar lá sem estar.
========================
Trovadores que deixaram Saudades
-
ANIS MURAD – Rio de Janeiro/RJ
1904 – 1962

Debaixo de nossa cama,
que tu deixaste vazia,
o meu chinelo reclama
o teu chinelo, Maria…
========================
Uma Trova sobre a Trova de Araçatuba/SP
-
DÉBORA NOVAES DE CASTRO

Trovador que faz as trovas
e as diz com real calor,
é um anjo de boas novas
na sementeira do amor.
========================
Um Haicai de Curitiba/PR
-
HELENA KOLODY
1912 – 2004

O brilho da lâmpada,
no interior da morada,
empalidece as estrelas.
========================
Uma Poesia de Porto Príncipe/Haiti
-
GEORGES CASTERA
Agite Antes de Usar


até a alvorada
hermética da pedra
te entrego ao abandono
das pontuações
à espreita das dissonâncias

a conivência do vento
em minha paixão
a eternidade nos desnuda.
(tradução Anderson Braga Horta)
==========================
O Universo de Leminski
-
PAULO LEMINSKI
Curitiba (1944 – 1989)

eu ontem tive a impressão
que deus quis falar comigo
não lhe dei ouvidos

quem sou eu para falar com deus?
ele que cuide dos seus assuntos
que eu cuido dos meus
========================
Uma Poesia de Curitiba/PR ( rad.)
-
WALMOR MARCELLINO
Sonetilha


É possível que este amor
seja mais que fome e sede
uma ferida na solidão, cutelada:
a dor física que não se mede.
Mais ainda que qualquer dor,
uma retribuição que se perde,
dor-surpresa, punção sangrada
Amor de fruição perdida, apaixonada.
========================
Sextilhas a Quatro Vozes (Debate)
-
ADEMAR MACEDO (RN) ; PROF. GARCIA (RN) ; ZÉ LUCAS (RN) ; THALMA TAVARES (SP)


01 – Ademar
Convido o mestre Garcia,
Poeta que tanto brilha,
E José Lucas de Barros,
Um “poeta maravilha”,
Para compormos com Thalma
“QUATRO VOZES EM SEXTILHAS”.

02 =- Garcia
Juntos nesta mesma trilha,
Aumenta o nosso conceito.
Ademar, grande poeta,
Zé Lucas quase perfeito,
Thalma Tavares conosco
Brilhará do mesmo jeito.

03 – Zé Lucas
O convite foi aceito,
O pacto já está firmado;
Somos quatro nordestinos
Caminhando lado a lado,
Um quarteto que tem tudo
Pra dar conta do recado.

04 – Thalma
Caminhar de braço dado
Com três poetas divinos,
Três gigantes da sextilha,
É cometer desatinos
Querendo igualar-se aos grandes,
Sendo um dos mais pequeninos.

05 – Ademar
Nós que somos nordestinos,
Recanto dos cantadores,
Onde o verso se reflete
Num arco-íris de cores,
Mostramos, pois, para o mundo
Nossos mais puros valores.

06 – Garcia
Somos quatro vencedores
Nesta luta de titãs,
Quatro amantes da poesia,
Quatro irmãos e quatro fãs
Das belezas nordestinas
Nas auroras das manhãs.

07 – Zé Lucas
Eu ericei minhas cãs
Com tanto verso bonito
De quatro cabras da peste
Mandando aos céus o seu grito,
Ou quatro marretas de aço
Arrebentando granito.

08 – Thalma
Os céus conhecem meu grito
- clamor de cabra da peste –
Que junto ao de vocês três
Fará tremer o Nordeste,
Fará tremer o Brasil
No Centro, Sul e Sudeste.

Obs. Debate concluído com 200 estrofes.
========================
Uma Trova Ecológica de Sorocaba/SP
-
DOROTHY JANSSON MORETTI

Velho tronco, na queimada
em dolorosa utopia,
sonha ouvir a passarada
que em vida abrigou… um dia.
========================
Uma Poesia de Curitiba/PR
-
EDIVAL ANTONIO LESSNAU P
ERRINI
O Surfista


Olhos de águia
olham
sobre o hálito do mar
estrelas que só eles veem.

O corpo abre um talho na água.

Entre vagalhões,
a prancha
é lança e é guerreira.

Soberano,
o surfista
põe-se de pé
e costura a onda
tantas e tantas vezes
que o fio
interminável
é o da linha do horizonte.

Na areia
uma vestal sorri,
e molha-se também.
========================
Uma Trova Sobre Esperança, de Pouso Alegre/MG
-
ALFREDO DE CASTRO

No verdor da mocidade,
quanta esperança entretive! 
Agora tenho saudade
das esperanças que tive!
========================
Um Soneto de Lisboa/Portugal
-
FERNANDO PESSOA

1888 – 1935
Não quero rosas, desde que haja ros
as.

Não quero rosas, desde que haja rosas.
Quero-as só quando não as possa haver.
Que hei-de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher?
Não quero a noite senão quando a aurora
A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir. Para quê?...
Se o soubesse, não faria
Versos para dizer que inda o não sei.
Tenho a alma pobre e fria...
Ah, com que esmola a aquecerei?...
========================
Uma Poesia de Longe

RUDYARD KIPLING – Bombain/India
1865 – 1936
Se

Se consegues manter a calma
quando à tua volta todos a perdem
e te culpam por isso.
Se consegues ter confiança em ti
quando todos duvidam de ti
e aceitas as suas dúvidas
Se consegues esperar sem te cansares por esperar
ou caluniado não responderes com calúnias
ou odiado não dares espaço ao ódio
sem porém te fazeres demasiado bom
ou falares cheio de conhecimentos
Se consegues sonhar sem fazeres dos sonhos teus mestres
Se consegues pensar sem fazeres dos pensamentos teus objectivos
Se consegues encontrar-te com o Triunfo e a Derrota
e tratares esses dois impostores do mesmo modo
Se consegues suportar a escuta das verdades que dizes
distorcidas pelos que te querem ver cair em armadilhas
ou encarar tudo aquilo pelo qual lutaste na vida
ficar destruído e reconstruíres tudo de novo
com instrumentos gastos pelo tempo
Se consegues num único passo
arriscar tudo o que conquistaste
num lançamento de cara ou coroa,
perderes e recomeçares de novo
sem nunca suspirares palavras da tua perda.
Se consegues constringir o teu coração,
nervos e força para te servirem na tua vez
já depois de não existirem, e aguentares
quando já nada tens em ti a não ser a vontade que te diz:
"Aguenta-te!"
Se consegues falar para multidões
e permaneceres com as tuas virtudes
ou andares entre reis e pobres
e agires naturalmente
Se nem inimigos ou amigos queridos
te conseguirem ofender
Se todas as pessoas contam contigo
mas nenhuma demasiado
Se consegues preencher cada minuto
dando valor a todos os segundos que passam
Tua é a Terra e tudo o que nela existe
e mais ainda, tu serás um Homem, meu filho!
========================
Um Poetrix de Porto Alegre/RS
-
RICARDO MANIERI
do tempo

Contemplo o tempo
do alto de meus dias
e sinto alguma vertigem…
========================
Cancioneiro Popular Português – Cancioneiro de Barqueiros (Alto Douro)
-
MARIA ADELAIDE DA SILVA PAIVA
Cantilena de Pedreiros

CANTILENA DOS PEDREIROS


  Ó pedra, ó!
Esta é a nossa surriba
ó pedra ó,
vai pelo monte arriba.

 Ó pedra, ó!
Gosto deste entremês
ó pedra ó,
rola mais uma vez

  Ó pedra, ó!
Está o trabalho feito.
Anda, vem ao meu mando,
que eu empurro com jeito.
=============================
Uma Poesia de Drummond
-

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902– 1987
Sonetilho do Falso Fernando Pessoa


Onde nasci, morri.
Onde morri, existo.
E das peles que visto
muitas há que não vi.

Sem mim como sem ti
posso durar. Desisto
de tudo quanto é misto
e que odiei ou senti.

Nem Fausto nem Mefisto,
à deusa que se ri
deste nosso oaristo,

eis-me a dizer: assisto
além, nenhum, aqui,
mas não sou eu, nem isto.
========================
Versos Melodicos
-
PIXINGUINHA e CHINA
Já te digo (samba / carnaval, 1919)


Considerando-se atingidos pelo "Quem São Eles", os irmãos Pixinguinha e China (Otávio da Rocha Viana) revidaram com o "Já Te Digo", em que achincalham o rival Sinhô. Terceira resposta ao "Quem São Eles" esta foi também a de maior sucesso e a mais cruel ( "Ele é alto, magro e feio / e desdentado / ele fala do mundo inteiro / e já está avacalhado..."), sendo as outras o "Fica Calmo que Aparece", de Donga, e "Não És Tão Falado Assim", de Hilário Jovino.
O curioso é que, a rigor, a polêmica foi gratuita, pois não havia no samba de Sinhô qualquer alusão ofensiva aos adversários.
Pela repercussão alcançada no carnaval de 1919, "Já Te Digo" projetou Pixinguinha como compositor. Com uma forma musical mais definida do que a maioria criada por seus contemporâneos, ele extravasava em suas composições um conhecimento teórico de música superior. "Já Te Digo" tem a forma A-B-A-C-A-D-A, sendo que cada grupo de quatro compassos é repetido sempre ao longo de cada segmento. A composição é ainda o primeiro exemplo da extraordinária capacidade de Pixinguinha de prender ouvinte já na introdução, um primor neste caso. Mais tarde, como arranjador de música alheia, isso se repetiria constantemente. Por coincidência, "Já Te Digo" e "Quem São Eles" foram lançados por um mesmo cantor, o Bahiano da Casa Edison.


Um sou eu, e o outro não sei quem é
Um sou eu, e o outro não sei quem é
Ele sofreu pra usar colarinho em pé
Ele sofreu pra usar colarinho em pé

Vocês não sabem quem é ele, pois eu vos digo
Vocês não sabem quem é ele, pois eu vos digo
Ele é um cabra muito feio, que fala sem receio
Não tem medo de perigo
Ele é um cabra muito feio, que fala sem receio
Não tem medo de perigo

Um sou eu, e o outro não sei quem é
Um sou eu, e o outro não sei quem é
Ele sofreu pra usar colarinho em pé
Ele sofreu pra usar colarinho em pé

Ele é alto, magro e feio
É desdentado
Ele é alto, magro e feio
É desdentado
Ele fala do mundo inteiro
E já está avacalhado no Rio de Janeiro
Ele fala do mundo inteiro
E já está avacalhado no Rio de Janeiro

Vocês não sabem quem é ele, pois eu vos digo
Vocês não sabem quem é ele, pois eu vos digo
Ele é um cabra muito feio, que fala sem receio
Não tem medo de perigo
Ele é um cabra muito feio, que fala sem receio
Não tem medo de perigo

(Cifrantiga)
==============================

quarta-feira, 15 de maio de 2013

José Feldman (Universo de Versos n. 32)

Uma Trova do Paraná-
-

LUIZ HÉLIO FRIEDRICH – Curitiba
Como “Luiz Hélio” ou “anônimo”,
meu trovar não é bem sábio.
Necessito de um pseudônimo…
Quem me dera Luiz Otábio!
========================
Uma Trova Lírica/Filosófica do Piauí
-
WALDIR RODRIGUES

Para meu mal não existe
um remédio com certeza
como é triste ser-se triste
e sofrer-se de tristeza.
========================
Uma Trova Humorística de Curitiba/PR
-
HELENA KOLODY

Cresceu estranho tumor
no pé descalço do Zé.
Será que eu tenho, doutor,
apendicite no pé?
========================
Uma Trova do Ademar
-
ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

Almoço e janto poesia.
E neste meu universo,
mastigo um pão todo dia
amanteigado de verso.
========================
Uma Trova Hispânica da Argentina
-
NERINA THOMAS

El hombre avaro se muestra
bajo la piel de una oveja
por su ambición tan siniestra
la justicia muerta deja.
========================
Uma Quadra Popular Portuguesa
-
A caixa que não tem tampa
Fica sempre destampada
Dá-me um sorriso dos teus
Porque não quero mais nada.
========================
Trovadores que deixaram Saudades
-
APARÍCIO FERNANDES – Rio de Janeiro/RJ
1935 – 1996

Dia a dia vai se impondo
este conceito batata:
a terra é um mundo redondo
repleto de gente chata…
========================
Uma Trova sobre a Trova do Pará
-
“NATO” AZEVEDO

A trova é peça singela
que o artista inspirado lavra,
retoca, molda, cinzela,
unindo cada palavra.
========================
Um Haicai de Curitiba/PR
-
SUZANA LYRA STRAPASSON

Manhã de inverno -
o marulhar das ondas
na concha vazia.
========================
Uma Soneto de Lisboa/Portugal
-
LUIZ VAZ DE CAMÕES
c.1524 – 1580


Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo amor?
========================
O Universo de Leminski
-
PAULO LEMINSKI
Curitiba (1944 – 1989)

de colchão em colchão
chego à conclusão
meu lar é no chão
========================
Uma Poesia de Rio Verde/PR
-

ADY XAVIER DE MORAES
Mulher


És bela, não porque se fez bela,
mas porque tens no íntimo
o brilho de uma estrela
que durante o dia se esconde
e, durante a noite, no infinito,
mostra tua face que resplandece.

És linda, não porque se fez linda,
mas porque a natureza preparou
para nascer e brilhar.
Tu não precisas de arranjos,
porque uma flor já nasce
com toda a beleza, tenra
e perfumada.

És perfeita, não porque te fez perfeita,
mas porque a vida deu-te de tudo.
A simplicidade de um anjo.
A inocência de uma criança.
O carisma de uma rainha
quando sorri…
sorri com os olhos,
com os lábios, com o coração.

Mostras com muita esperança,
a vontade de vencer na vida
e não sabe da virtude que tens,
por isso, és linda, és bela,
como a flor do meu jardim.
========================
Setilha de Crato/CE
-
JOSENIR A. DE LACERDA

Todo poeta de fato
é grande observador.
Seja da rua ou do mato,
seja leigo ou professor.
Faz verdadeira pesquisa.
Vasto estudo realiza,
buscando essência e teor.
========================
Uma Trova sobre Esperança, de Campos/RJ
-
DENANCY MELLO  ANOMAL

Entre o meu pai - já velhinho
e o meu filho - uma criança,
vejo estender-se o caminho
por onde passa a esperança.

========================
Um Soneto de Santiago/Chile
-
PABLO NERUDA
1904 – 1973
Soneto de Amor


Talvez não ser é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando o meio-dia
como uma flor azul, sem que caminhes
mais tarde pela névoa e os ladrilhos,

sem essa luz que levas na mão
que talvez outros não verão dourada,
que talvez ninguém soube que crescia
como a origem rubra da rosa,

sem que sejas, enfim, sem que viesses
brusca, incitante, conhecer minha vida,
aragem de roseira, trigo do vento,

e desde então sou porque tu é,
e desde então é, sou e somos
e por amor serei, serás, seremos.
========================
Um Poetrix de Santo Antonio de Jesus/BA
-
RONALDO RIBEIRO JACOBINA
problemas, eis a questão


Não me envolvo em novelos:
Se posso resolve-los, resolvo, sem alaridos.
Se não, já estão resolvidos.
========================
Cantigas Populares Portuguesas de Trás-os-Montes e Alto Douro
-
Cantigas à Desgarrada


"Nas feiras, festas e arraiais, dois cantadores, ou cantador e cantadeira, divertiam os romeiros curiosos improvisando ou repetindo versos, ao som da concertina ou de simples gaita de boca. Se havia cantadeira, era dela a última estrofe.

Havia, pois, as cantigas improvisadas e as decoradas, geralmente do tipo pergunta e resposta.

Como é habitual na poesia popular, exprimiam-se em quadras de redondilha maior, mas transformadas em sextilhas divididas em dois grupos de três versos, com os seguintes esquemas (Folclore de Portugal):


1º b a b, b c d
2º a a b, b c d

Exemplo duma quadra com dois esquemas:


Boa noite, meus senhores,
Vamos então começar:
Diz-me lá, ó cantador,
Quantos peixes há no mar.

1º esquema

Vamos então começar:
Boa noite, meus senhores,
Vamos então começar.

Pausa

Vamos então começar:
Diz-me lá, ó cantador,
Quantos peixes há no mar

2º esquema

Boa noite, meus senhores,
Boa noite, meus senhores,
Vamos então começar.

Pausa

Vamos então começar:
Diz-me lá, ó cantador,
Quantos peixes há no mar.”
=========================
Um Soneto de Assaré/CE
-
PATATIVA DO ASSARÉ
1909 – 2002
O burro


Vai ele a trote, pelo chão da serra,
Com a vista espantada e penetrante,
E ninguém nota em seu marchar volante,
A estupidez que este animal encerra.

Muitas vezes, manhoso, ele se emperra,
Sem dar uma passada para diante,
Outras vezes, pinota, revoltante,
E sacode o seu dono sobre a terra.

Mas contudo! Este bruto sem noção,
Que é capaz de fazer uma traição,
A quem quer que lhe venha na defesa,

É mais manso e tem mais inteligência
Do que o sábio que trata de ciência
E não crê no Senhor da Natureza.
========================
Uma Poesia de Longe
-
WALT WHITMAN – Huntington/Estados Unidos
1819 – 1892
Enquanto eu lia o livro


Enquanto eu lia o livro, a famosa biografia:
- Então é isso (eu me perguntava)
o que o autor chama
a vida de um homem?
E é assim que alguém,
quando morto e ausente eu estiver,
irá escrever sobre a minha vida?
(Como se alguém realmente soubesse
de minha vida um nada,
quando até eu, eu mesmo, tantas vezes
sinto que pouco sei ou nada sei
da verdadeira vida que é a minha:
somente uns poucos traços
apagados, uns dados espalhados
e uns desvios, que eu busco
para uso próprio, marcando o caminho
daqui afora.)
========================
Uma Poesia de Drummond
-
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902– 1987
Sentimento do Mundo


Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados

ao amanhecer esse amanhecer
mais noite que a noite.

========================
Versos Melodicos
-
MÁRIO DE SÃO JOÃO RABELO (Portugal)
A baratinha (marcha, 1918)


A marcha A baratinha composta pelo português Mário de São João Rabelo, foi divulgada no Brasil por companhias de teatro musicado e foi o grande sucessso no carnaval de 1918. Primeira gravação na Casa Edison em 1917 por Bahiano, e em 1918 na Odeon, pelo grupo O Passo no Choro (instrumental).

Chega, chega, minha gente,
Que o choro vai começá,
Repara como é gostoso,
Este samba de matá.

A baratinha,a baratinha,
A baratinha, bateu asas e voou.
A baratinha, iaiá,
A baratinha, ioiô,
A baratinha, bateu asas e voou.

Perna de porco, é presunto,
Mão de vaca, é mocotó,
Quem quiser viver feliz,
Deve sempre dormir só...

Minha menina faceira
Cinturinha de retrós
Põe a chaleira no fogo
Vai quentá café pra nós...

Menina da saia curta
Que mora lá no riacho
Atrepa neste coqueiro
Joga-me os cocos pra baixo…
(Cifrantiga)
=======================

terça-feira, 14 de maio de 2013

José Feldman (Universo de Versos n. 31)

Uma Trova do Paraná
-
SARA FURQUIM – Rio Branco do Sul

A vida é um mar de rosas
legando beleza e olor,
às criaturas bondosas,
que sabem semear o amor.
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Uma Trova contra a Dengue, de Pedro Leopoldo/MG
-

WAGNER MARQUES LOPES
Sucata empoçando chuvas -
à dengue, bom ambiente,
onde ela cresce... E põe luvas
para atacar muita gente!
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Uma Trova Lírica/Filosófica de Fortaleza/CE
-
LEDA COSTA LIMA

Vivi de amor, de alegria
hoje, a saudade, em surdina,
jorra sonhos e a poesia,
deixa um verso em cada esquina!
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Uma Trova Humorística de Juiz de Fora/MG
-
DULCÍDIO DE BARROS MOREIRA SOBRINHO

Nhoque, foi esta a razão
da causa morte do Roque:
deu um tapa no leão
e o leão fez nele ... nhoque!
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Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

Adotei o isolamento,
feito um ermitão qualquer.
Pra fugir do casamento
e das manhas de mulher!...
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Uma Trova Hispânica da Argentina
-
MIRTA CORDIDO

En el medio de la mar
encontré yo una botella
que decía: “Me has de amar,
y serás mi flor mas bella”
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Uma Quadra Popular Portuguesa
-
Não sou esperto nem bruto,
nem bem nem mal educado:
sou simplesmente o produto
do meio em que fui criado.
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Trovadores que deixaram Saudades
-
FÉLIX AIRES– Buriti Bravo/MA
1904 – 1979

 Por esses campos azuis,
 ó lua do meu sertão,
 tu és um pente de luz
 nas tranças da escuridão!
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Uma Trova sobre a Trova, de Maringá/PR
-
ALBERTO PACO

Cada momento vivido,
na vida que se renova,
às vezes é definido
apenas em uma trova!
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Um Haicai do Rio de Janeiro/RJ
-
MILLÔR FERNANDES
1923 – 2012

Usucapião
É contemplar as nuvens
Do próprio chão.
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O Universo de Leminski
-
PAULO LEMINSKI
Curitiba (1944 – 1989)


a uma carta pluma
só se responde
com alguma resposta nenhuma
algo assim como se a onda
não acabasse em espuma
assim algo como se amar
fosse mais do que a bruma

uma coisa assim complexa
como se um dia de chuva
fosse uma sombrinha aberta
como se, aí, como se,
de quantos se
se faz essa história
que se chama eu e você
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Uma Poesia de São Paulo/SP
-
MÁRCIA SANCHEZ LUZ
Melodia
 
Não há que negar
nossas diferenças
posto que existem
o claro e o escuro
na mais densa mata
de todos os palcos
desta melodia
cujo nome é vida!

Transportada em redes
de luares rentes
pois que a ti concedem
o clarão da alma
da mais pura calma
concebida em noites
de total silêncio
onde a dor acaba
e o furor transcende
transpassando a mente
doce e saborosa
pois que vicejante
em tua fala quente
que atordoa e mente!

Faz-se soberana
como em ti emana
a presença humana...
Mãos que se entrelaçam
entregando espaços
antes tão restritos
a ínfimos laços!
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Uma Poesia de Porto/Portugal
-
VITOR OLIVEIRA JORGE
Superfície


Às vezes o mar enruga-se como uma cortina horizontal.
Até ao infinito.
Como um cântico dos defuntos
Que sob ele jazem, e que voltam com as suas rugas
À superfície, clamando redenção.

 Mas como os defuntos estão reduzidos a fragmentos,
Só se vêem à superfície pequenos pedaços do que foi
O passado de cada pessoa, a história de cada biografia.
São ecos longínquos, que vêm de outro universo,
E entre os quais vamos avançando numa praia baixa,
Afastando cortinas, descortinando sussurros,
Vendo por vezes rostos mortos mais belos
Do que quando eram em vida.

 Passeamos por este mar em pregas.
Como se atravessássemos a saia do mundo
Em busca do que sempre a saia esconde, e mostra,
O seu umbigo cheio de algas, o seu odor.

 E nestas experiências empíricas nos perdemos,
Caminhando, caminhando, enquanto os defuntos cantam,
E o mar ondula como uma cortina, como uma toalha
Nunca lisa, enrugada sobre o passado, num sentimento
De que nada está jamais pronto, reencontrado, completo,
E apenas nos ficam imagens e sons, o coração trespassado
Por cruzes, as mãos incapazes de alisar tudo.
===============================
Sextilhas do Ceará
-
GINA CARLA NUNES SILVA
Poema Nordestino

 
"Oxente" sou da terra do cangaço
Somos "cabra" bom de braço
Com "coragi" prá dar e vender
"Num" aceito "disafouro"
Mas, "tumbém" busco o tesouro
Que a vida têm a oferecer

"Nois" aqui dessa terra
"Festejamu" as "primavera"
Com festa de arrasta pé
Tem uns bestas que "manga"
Do "sutaqui" que encanta
E da forma da nossa fé

Mas, chamo mãe de "mainha"
Piaba aqui não é sardinha
Que nos açudes "vamu" pescar
Galinha de angola é capote
Novilha pequena é garrote
No sertão tudo tem seu lugar

"Muié" aqui "num" é perdida
Apenas ela foi "bulida"
Por um tal da "capitá"
Se engravidou ficou prenha
A gente chama Sinhá Penha
Prá "mó" da criança chegar

Somos povo festeiro, sem igual
É festa junina e carnaval
"Inventamu" até a micareta
E o país todinho gosta
E quando a morena "incosta"
É no forró que vou me acabar

Meu "viu" aqui é um "visse?"
Não confundam com o "vixe!"
São duas "afirmação" diferente
O "visse?" pergunta se entendeu
O "vixe!" admiração que sofreu
Essa é a língua de minha gente.

Meu lugar começa na Bahia
Vem em Sergipe, Alagoas, que alegria!
Quando chega no Pernambuco
Vou fazendo "vuco-vuco" "inté" o Ceará
Coração Paraibano, Piauiense e Potiguá
É somente no Maranhão que vai se acabar.

As moças aqui são formosas
Os "machus" de roupa cheirosa
E as praias têm sabor de sal
Somos felizes de água na boca
Das comidas que me deixam "louca"
Eu como "inté" passar mal.

Assim são os nordestinos
Dispostos, guerreiros e contínuos
Ninguém é melhor do  que nós
Vivemos em eterna labuta
Nunca fugimos à luta
E não vão calar minha voz.
========================
Uma Trova sobre Esperança, do Rio de Janeiro/RJ
-
JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAUJO
1922 – 2004

Neste mundo que nos cansa
tanta maldade se vê,
que a gente tem esperança
mas já nem sabe de quê...
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Uma Poesia de Drummond
-
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902– 1987
Segredo


A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.

Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.

Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.

Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.
========================
Um Soneto de Uberlândia/MG
-
RAQUEL ORDONES
Amo-te


Amo-te desde sempre e além do fim
Antes da essência da estrela e do céu
Após a curva do infinito de onde vim
Em circuito inicio, meio e fim do anel.

Amo-te com a carne e de toda a alma
Na tua presença e na minha saudade
Amo-te em vendaval que me acalma
Em todo instante é minha eternidade.

Amo-te, simples assim naturalmente.
Com a emoção; sem nem um segredo.
Amo-te; amo-te, digo isso sem medo.

Amo-te desde antes do nascer do mar
Maciço é o desejo quem vem na onda
Amo-te, ininterruptamente me ronda.
========================
Uma Poesia de Longe
-
EDMOND JABÈS – Cairo/Egito
1912 – 1991
Canção Para Uma Noite de Luar


Tu deslocas as ruas.
A cidade é um labirinto.
Sempre acabo em tua rua.

Tu mudas de nome.
Os dias são meus degraus.
Tua janela é tão alta.

Perco-te de vista.
À tua porta, um ladrão
ataca a fechadura.

Circundas meus sonhos.
Escapas à terra,
Ao inverno, às lágrimas.

    (tradução: Mário Laranjeira)
========================
Um Poetrix de Manaus/AM
-
ROSA CLEMENT
borboleta


centro da cidade
a mariposa entra no ônibus
e passa pela borboleta
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Uma Poesia de Maputo/Moçambique
-
JOSÉ CRAVEIRINHA
1922 – 2003
Um Homem Nunca Chora


Acreditava naquela história
do homem que nunca chora.

 Eu julgava-me um homem.

 Na adolescência
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.

 Agora tremo.
 E agora choro.

 Como um homem treme.
Como chora um homem!
========================
Versos Melodicos
-
Pelo Telefone (Samba, 1917)


Primeira composição classificada como samba a alcançar o sucesso, "Pelo Telefone" marca o início do reinado da canção carnavalesca. É a partir de sua popularização que o carnaval ganha música própria e o samba começa a se fixar como gênero musical. Desde o lançamento, quando apareceram vários pretendentes à sua autoria, e mesmo depois, quando já havia sido reconhecida sua importância histórica, essa melodia seria sempre objeto de controvérsia, tornando-se uma de nossas composições mais polêmicas em todos os tempos.
Quase tudo que a este samba se refere é motivo de discussão: a autoria, a afirmação de que foi o primeiro samba gravado, a razão da letra e até sua designação como samba. Todas essas questões, algumas irrelevantes, acabaram por se integrar à sua história, conferindo-lhe mesmo um certo charme. "Pelo Telefone" tem uma estrutura ingênua e desordenada: a introdução instrumental é repetida entre algumas de suas partes (um expediente muito usado na época) e cada uma delas tem melodias e refrões diferentes, dando a impressão de que a composição foi sendo feita aos pedaços, com a junção de melodias escolhidas ao acaso ou recolhidas de cantos folclóricos.
Outra versão, relatada por Donga a Ary Vasconcelos e ao jornalista E. Sucupira Filho, é a de que "Pelo Telefone" teria surgido de uma estrofe a ele transmitida por um tal Didi da Gracinda, elemento ligado ao grupo de Hilário Jovino. Já Mauro de Almeida, que parece nunca ter-se preocupado em afirmar sua participação na autoria, declarou, em carta ao jornalista Arlequim, ser apenas o "arreglador" dos versos, o que corresponderia à verdade. "Pelo Telefone" foi lançado em discos Odeon, em dezembro de 1916, simultaneamente pelo cantor Bahiano (foto) e a Banda da Casa Edison.
Em 1917, o samba Pelo Telefone se transformou no marco inicial da história fonográfica daquele gênero musical. Historiadores, porém já registraram, em suas pesquisas, gravações anteriores que podem ser reconhecidas como samba e que comprovadamente foram gravadas antes da composição assinada pela dupla Donga/Mauro de Almeida.
A história oral menciona vários autores para o samba Pelo Telefone, mas quando Donga fez seu registro na Biblioteca Nacional omitiu todos declarando ser seu único compositor. As primeiras partituras, ainda na ortografia da época, que grafava Telephone, exibiam apenas o nome de Donga. A grita que se seguiu não teve muitos resultados, mas pelo menos serviu para que Mauro de Almeida (foto) fosse reconhecido como um dos parceiros. O Peru dos Pés Frios, como era conhecido o jornalista carnavalesco, aparece aqui em raríssima foto, mesmo porque faleceu pouco tempo depois da gravação do samba, ficando todas as luzes apenas sobre Donga, que delas sempre soube tirar proveito pessoal.
O sucesso cercou Pelo Telefone de aspectos os mais variados, fugindo da simples conseqüência musical, de cair na preferência popular, no assobio das calçadas e na cantoria das festinhas de subúrbio. Logo um sem-número de pais-da-criança apareceu, cada um puxando a brasa para sua sardinha, todo mundo ignorando a iniciativa de Donga (foto ao lado) em registrar oficialmente sua autoria na Biblioteca Nacional.
Da cantoria, lá pelo ano de 1916, participavam também Donga, o jornalista Mauro de Almeida - a quem Almirante credita a autoria indiscutível do samba -, João da Mata, o dono do refrão, e o conflituoso Sinhô, que como autor da frase "samba é como passarinho, está no ar, é de quem pegar", evidentemente tentou também se apossar da paternidade da novidade. Ironizando a atuação de Aurelino Leal, o novo chefe de policia do Rio de Janeiro, o samba teve seus versos fixados por Mauro de Almeida, que nem assim foi reconhecido como co-autor no registro da Biblioteca Nacional.
Cantado em público pela primeira vez (segundo Almirante) no Cinema Teatro Velo, à rua Haddock Lobo, na Tijuca, despertou de imediato a cobiça alheia e - com razão ou sem ela - contestações quanto à autoria de Donga pipocaram de todos os lados. A principal veio de Tia Ciata, criando uma briga que jamais chegou à reconciliação, com um anúncio publicado no Jornal do Brasil garantindo que no Carnaval de 1917, na avenida Rio Branco, seria cantado o "verdadeiro tango Pelo Telefone dos inspirados carnavalescos João da Mata, o imortal Mestre Germano, a nossa velha amiguinha Ciata, o bom Hilário, com arranjo do pianista Sinhô, dedicado ao falecido repórter Mauro", seguindo-se a letra com o nome de Roceiro, denunciando Donga nas entrelinhas:


"Pelo telefone
A minha boa gente
Mandou avisar
Que meu bom arranjo
Era oferecido
Para se cantar 

Ai; ai, ai
Leve a mão na consciência,
Meu bem
Ai, ai, ai
Mas porque tanta presença
meu bem? 

Ó que caradura
De dizer nas rodas
Que esse arranjo é teu
E do bom Hilário
E da velha Ciata
Que o Sinhô escreveu 

Tomara que tu apanhes
Para não tornar a fazer isso,
Escrever o que é dos outros 
Sem olhar o compromisso".

Não faltaram também os aproveitadores, que na esteira do êxito da gravação de Bahiano correram atrás dos lucros que se imaginava para os autores de Pelo Telefone (Mauro de Almeida jamais recebeu um tostão de direitos...). Carlos Lima editou Chefe da Folia no Telefone; J. Meira registrou Ai, Si A Rolinha Sinhô, Sinhô e Maria Carlota da Costa Pereira se apresenta como autora de No Telefone, Rolinha, Baratinha & Cia.
 

Pelo Telefone (samba, 1917) - Donga e Mauro de Almeida
 

O chefe da folia pelo telefone manda lhe avisar
Que com alegria não se questione para se brincar
O chefe da polícia pelo telefone manda lhe avisar
Que na Carioca tem uma roleta para se brincar
: - Ai, ai, ai,
- Deixa as mágoas para trás ó rapaz
- Ai, ai, ai,
- Fica triste se é capaz, e verás :
: Tomara que tu apanhes
Pra nunca mais fazer isso
Tirar o amor dos outros
E depois fazer feitiço :
 Ai se a rolinha (Sinhô, sinhô)
Se embaraçou (Sinhô, sinhô)
É que a avezinha (Sinhô, sinhô)
Nunca sambou (Sinhô, sinhô)
Porque este samba (Sinhô, sinhô)
De arrepiar (Sinhô, sinhô)
Põe perna bamba (Sinhô, sinhô)
E faz chorar

A versão do povo

No dia 20 de outubro de 1916, Aureliano Leal, chefe de polícia do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, determinou por escrito aos seus subordinados que informassem "antes pelo telefone" aos infratores, a apreensão do material usado no jogo de azar. Imediatamente o humor carioca captou a comicidade do episódio, que ao lado de outros foi cantado em versos improvisados nas festas de Tia Ciata e registrado rapidamente por Donga em seu nome, na Biblioteca Nacional. É lógico que os versos "oficiais" eram diferentes daqueles que ridicularizavam o chefe de polícia. Sua versão popular, a que corria na boca das ruas dizia:

"O chefe da polícia
Pelo telefone
Mandou avisar
Que na Carioca
Tem uma roleta
Para se jogar
Ai, ai, ai
O chefe gosta da roleta,
Ô maninha
Ai, ai, ai
Ninguém mais fica forreta
É maninha.

Chefe Aureliano,
Sinhô, Sinhô,
É bom menino,
Sinhô, Sinhô,
Prá se jogar,
Sinhô, Sinhô,
De todo o jeito,
Sinhô, Sinhô,
O bacará
Sinhô, Sinhô,
O pinguelim,
Sinhô, Sinhô,
Tudo é assim".

A letra registrada por Donga, que passou a ser conhecida como original e aparece nas gravações até hoje, é alongada, homenageando o "Peru", o jornalista Mauro de Almeida, co-autor da obra, e o "Morcego", Norberto do Amaral Júnior, conhecido no Clube dos Democráticos. Incorpora também elementos do folclore nordestino:
 

"O chefe da folia
Pelo telefone
Manda avisar
Que com alegria
Não se questione
Para se brincar.
Ai, ai, ai,
Deixa as mágoas para trás
Ó rapaz!
Ai, ai, ai,
Fica triste se és capaz
E verás
Tomara que tu apanhes
Pra nunca mais fazer isso
Tirar amores dos outros
E depois fazer feitiço…
Ai, a rolinha
Sinhô, Sinhô
Se embaraçou
Sinhô, Sinhô
É que a avezinha
Sinhô, Sinhô
Nunca sambou
Sinhô, Sinhô,
Porque esse samba,
Sinhô, Sinhô,
É de arrepiar,
Sinhô, Sinhô,
Põe a perna bamba
Sinhô, Sinhô,
Me faz gozar,
Sinhô, Sinhô.
O "Peru" me disse
Se o "Morcego" visse
Eu fazer tolice,
Que eu então saísse
Dessa esquisitice
De disse que não disse.
Ai, ai, ai,
Aí está o canto ideal
Triunfal
Viva o nosso carnaval.
Sem rival.
Se quem tira o amor dos outros
Por Deus fosse castigado
O mundo estava vazio
E o inferno só habitado.
Oueres ou não
Sinhô, Sinhô,
Vir pro cordão
Sinhô, Sinhô
Do coração,
Sinhô, Sinhô.
Por este samba".

Fonte dos Versos Melódicos:
Excertos obtidos em A Canção no Tempo (Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello), História do Samba - Ed. Globo. Disponível em Cifrantiga

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Trova Brasil especial n.4 - Luiz Carlos Abritta

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Almanaque Parana n. 12

Trovadora Destaque: Olga Agulhon (Maringá) Leia em seu Monitor ou Baixe para seu Computador

Paraná Poético n.3

Emiliano Perneta Poetisas Paranaenses

Paraná Poético 2

Leia no Monitor ou Baixe para seu Computador Emílio de Menezes Alberto Paco - Janske Schlenker - José Feldman...

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Almanaque Literário O Voo da Gralha Azul


Almanaque Literário O Voo da Gralha Azul

Almanaque criado por José Feldman, com artigos nos moldes do blog.


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NUMERO 7 (163 paginas)
NUMERO 8 (184 paginas)
NUMERO 9 (242 paginas)

Especial do número 9 - Francisco Neves de Macedo

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