Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Fernando Pessoa (Quadras ao Gosto Popular)


A caixa que não tem tampa 
fica sempre destampada.
Dá-me um sorriso dos teus, 
porque não quero mais nada. 

Adivinhei o que pensas 
só por saber que não era 
qualquer das coisas imensas 
que a minh'alma sempre espera. 

A rosa que se não colhe 
nem por isso tem mais vida. 
Ninguém há que te não olhe 
que te não queira colhida. 

A terra é sem vida, e nada 
vive mais que o coração... 
E envolve-te a terra fria 
e a minha saudade não! 

Cantigas de portugueses 
são como barcos no mar — 
vão de uma alma para outra 
com riscos de naufragar. 

Deixa que um momento pense 
que ainda vives ao meu lado... 
Triste de quem por si mesmo 
precisa ser enganado! 

Depois do dia vem noite, 
depois da noite vem dia, 
e depois de ter saudades, 
vêm as saudades que havia. 

Dias são dias, e noites 
são noites e não dormi... 
Os dias a não te ver, 
as noites pensando em ti. 

Duas horas te esperei, 
dois anos te esperaria. 
Dize: – Devo esperar mais? 
Ou não vens porque inda é dia? 

Em vez da saia de chita 
tens uma saia melhor. 
De qualquer modo és bonita, 
e o bonita é o pior. 

Entreguei-te o coração, 
e que tratos tu lhe deste! 
É talvez por 'star estragado 
que ainda não mo devolveste ... 

Eu tenho um colar de pérolas 
enfiado para te dar: 
– As per'las são os meus beijos, 
o fio é o meu penar. 

Fomos passear na quinta, 
fomos à quinta em passeio. 
Não há nada que eu não sinta 
que me não faça um enleio. 

Levas chinelas que batem 
no chão com o calcanhar. 
Antes quero que me matem 
que ouvir esse som parar. 

Levas uma rosa ao peito 
e tens um andar que é teu... 
Antes tivesses o jeito 
de amar alguém, que sou eu. 

Morto, hei de estar ao teu lado 
sem o sentir nem saber... 
Mesmo assim, isso me basta 
p'ra ver um bem em morrer. 

Não digas mal de ninguém 
que é de ti que dizes mal. 
Quando dizes mal de alguém 
tudo no mundo é igual. 

Não sei se a alma no Além vive... 
Morreste!  E eu quero morrer! 
Se vive, ver-te-ei; se não, 
só assim te posso esquecer. 

No baile em que dançam todos 
alguém fica sem dançar. 
Melhor é não ir ao baile 
do que estar lá sem lá estar. 

Nunca dizes se gostaste 
daquilo que te calei. 
Sei bem que o adivinhaste. 
O que pensaste não sei. 

Ó minha menina loura, 
Ó minha loura menina, 
dize a quem te vê agora 
que já foste pequenina ... 

Ouvi-te cantar de dia. 
de noite te ouvi cantar. 
Ai de mim, se é de alegria! 
Ai de mim, se é de penar! 

Por um púcaro de barro 
bebe-se a água mais fria. 
Quem tem tristezas não dorme, 
vela para ter alegria. 

Quando é o tempo do trigo 
é o tempo de trigar, 
a verdade é um postigo 
a que ninguém vem falar. 

Quando olhaste para trás, 
não supus que era por mim. 
Mas sempre olhaste, e isso faz 
que fosse melhor assim. 

Se ontem à tua porta 
mais triste o vento passou — 
Olha: – levava um suspiro... 
Bem sabes quem to mandou... 

Tenho um relógio parado 
por onde sempre me guio. 
O relógio é emprestado 
e tem as horas a fio. 

Tens uma rosa na mão. 
Não sei se é para me dar. 
As rosas que tens na cara, 
essas sabes tu guardar. 

Tens um livro que não lês, 
tens uma flor que desfolhas; 
tens um coração aos pés 
e para ele não olhas. 

Teus brincos dançam se voltas 
a cabeça a perguntar. 
São como andorinhas soltas 
que inda não sabem voar. 

Teus olhos tristes, parados, 
coisa nenhuma a fitar... 
Ah, meu amor, meu amor, 
se eu fora nenhum lugar! 

Tive uma flor para dar 
a quem não ousei dizer 
que lhe queria falar, 
e a flor teve que morrer. 

Toda a noite ouvi no tanque 
a pouca água a pingar. 
Toda a noite ouvi na alma 
que não me podes amar. 

Trazes a rosa na mão 
e colheste-a distraída... 
E que é do meu coração 
que colheste mais sabida? 

Vai alta a nuvem que passa. 
Vai alto o meu pensamento 
que é escravo da tua graça 
como a nuvem o é do vento. 

Vale a pena ser discreto? 
Não sei bem se vale a pena. 
O melhor é estar quieto 
e ter a cara serena.

Antonio Brás Constante (A Armadilha)


   Fim de tarde. Sua namorada lhe convida para passearem juntos. Como é bom namorar. Você caminhando de mãos dadas com seu amor. A cabeça flutuando longe, imaginando uma parada em algum barzinho com sua amada para desfrutarem de um delicioso sorvete, ou quem sabe um chope geladinho. De repente sente a mão dela apertar mais forte a sua, puxando-o, ou melhor, arrastando-o para dentro de uma loja.

     Então era isto. Uma armadilha. Bem que você desconfiou que havia algo errado, quando sugeriu que entrassem em uma lancheria há alguns instantes atrás e ela fez que não lhe escutou. Agora você se encontra ali, no meio de uma infinidade de roupas, parecendo uma ilha perdida. Rodeado de “panos” por todos os lados.

     Nessas horas sentimos uma certa fragilidade em nossos bolsos. Um calafrio que percorre a espinha indo parar dentro de nossa carteira, que fica acuada entre todos aqueles preços, códigos de barras e placas de ofertas.

     Antes mesmo que se recupere do trauma inicial, sua companheira se aproxima de você. Umas três peças de roupa quase idênticas nas mãos. Mudando no máximo a nuance de cores entre tons pasteis e pastosos. Ela lhe olha com um olhar doce e pergunta se a primeira peça combina com uma das sandálias dela.

      Você procurando ser prático responde “aham”. Tem-se que ter muito cuidado ao se responder sobre algo a uma mulher que faz compras. Deve-se evitar polêmicas desnecessárias que fatalmente tornariam sua permanência ali ainda mais demorada e em muitos casos poderiam abalar a harmonia entre os dois.

      A melhor resposta nesses momentos delicados é um sonoro “aham”. Ela continua lhe mostrando roupas e mais roupas, e você se mantendo firme em suas afirmações, continua emitindo o seu bom e velho “aham”.

      Lá pelo décimo “aham” ela estoura. As mulheres são mesmo imprevisíveis. Você o tempo todo tentando ser gentil, concordando com ela e agora tem uma fera indomável na sua frente. Vociferando coisas sobre insensibilidade e incompreensão.

      A raiva logo dá lugar a um choro abafado e triste. Um beicinho de quem teve o coração partido. Tudo muito rápido e intenso. Fazendo-o derreter em remorsos e culpa.

Seguem em silêncio para o caixa. Ela não tem mais dúvidas sobre quais peças levar, pois está com todas elas nas mãos. Você seguindo atrás. Carteira na mão, tentando lembrar a senha do cartão.

       Por fim, seguem os pombinhos felizes para uma praça de alimentação. Ela com o rostinho cintilando de felicidade e você imaginando que no próximo carnaval sairá vestido em uma fantasia que lhe cairá como uma luva. Irá vestido de palhaço.

Fonte: O Autor

Paleta de Versos n. 3

Isabel Furini
(Curitiba/PR)

CABEÇAS DE RELÓGIOS MOLES
(de “Os Relógios de Dali”)

De repente surge uma ideia nas cabeças
(ocas)
de fugir da solidão
do vazio
dos medos criados pela civilização
fazendo selfie
(o celular é a nova magia)

logo é só postar nas redes sociais
(e se for possível nos jornais virtuais
nas portas dos shoppings
nos cartazes dos teatros
ou cinzelar nas estrelas próximas)

deixar as perdas e o amor e a saudade
no mar da Catalunha
e ser fiel às ideias de felicidade
ser fiel ao carrossel do mundo
essa é uma obsessão
(como os passos agitados
que fazem ranger
as tábuas do piso
e da escada de madeira)

ser feliz 24 horas por dia!
ser feliz sem pausa e sem monotonia

nossa civilização de faz de conta
está se derretendo como um relógio mole
nossa civilização
alimenta-se de estranhas utopias
enquanto é devorada pelas formigas
do medo e da obsessão.
_____________________

Ubiratan Lustosa
(Curitiba/PR)

FOLIA

Quis brincar no carnaval,
mas não tinha fantasia,
mesmo assim foi pra folia
e festou a se esbaldar.
Mostrou que pra ser igual
aos que dizem ser felizes
basta esconder cicatrizes
e pular, sorrir, cantar.
________________________

MIFORI
(São José dos Campos/SP)

Pantum:
APRENDER COM O SILÊNCIO 

Olhe suas qualidades,
respeitando a sua vida,
a viver em sociedade,
esse silêncio o convida...

Respeitando a sua vida,
saber ouvir e calar,
esse silêncio o convida:
é preciso meditar!

Saber ouvir e calar,
num silêncio poderoso
é preciso meditar:
o viver é prazeroso!

Num silêncio poderoso
surge a voz da consciência;
o viver é prazeroso
se houver amor e decência.

Surge a voz da consciência
mostra todas as verdades, 
se houver amor e decência, 
olhe suas qualidades.
_____________________

Luiz Poeta
(Rio de Janeiro/RJ)

ESPER...ÂNSIAS

Ela desenha uma letra... a mão pesa...
o lápis fura a folha lisa do caderno;
a professora a incentiva, o jeito terno
flui no silêncio com a pureza de uma reza.

Ela se esmera, o resultado é perfeito
e apesar de não ter tanta habilidade
com as palavras, é tanta felicidade
no seu olhar, que ela até sorri... sem jeito.

O mal de parkinson inibe o traço certo,
mas ela insiste, pressiona, comprimindo
a trajetória da palavra, no deserto
da folha em branco que o amor vai imprimindo.

Quando, afinal, a visão fraca está cansada,
ela repousa mansamente e descansa.
Na folha branca, uma palavra está grafada
trêmula, forte e poderosa: e s p e r a n ç a.
_________________

Francisco José Pessoa
(Fortaleza/CE)

VERSEJANDO

As palavras me faltam e, sem dizê-las,
A mudez verbaliza o sentimento
Tal a folha já morta entregue ao vento
Tal o céu tão escuro sem estrelas.
_______________________

Rubens Jardim
(São Paulo/SP)

O POEMA DO AVESSO

O que há em mim
é a lenta preparação
do que há em ti
sombra segada
sangrada 
e sagrada
até nos olhos dos meninos
que nasceram sem olhos

vidência única
(vide o verso)

visão múltipla
(vede o anverso)

e tudo que está
do outro lado 
do espelho.
_______________________

Samuel da Costa
(Itajaí/SC)

EM DIAS DE SOL E CALOR, EM NOITES DE TEMPESTADE E FRIO 
Para Victória Butler Rodríguez e 
Mari Gomes 

Em dias de sol e calor 
Minha alma serena 
Passeia livremente 
Pela charneca em flor 

Nesses dias de extrema felicidade 
Eu tenho sentimentos bons 
Eu tenho pensamentos probos 
Eu sou uma pessoa feliz 

Minha alma leve 
Navega serenamente 
Pelo mar da tranquilidade 
A brisa matinal oceânica 
Faina o meu negro cabelo 
E beija o meu rosto hialino 
Eu sou feliz 

Em dias de sol e calor 
Minha jovem alma aventureira 
Não conhece mais limites 
Percorre o mundo livremente 
Encontra e abraça a vida 
Aceita o convite dela 
Para um eviterno bailar 
Eu encontrei a felicidade 
Eu sou uma pessoa feliz 

Em noites de tempestade 
E de muito frio 
Minha cansada e sôfrega alma 
Voa perdidamente 
Pela negra noite sem fim 

Em noites de tempestade e frio 
Vagueio solitária e languidamente 
Pelo mítico vergel da solidão 
Choro e sofro 
Todas as dores do mundo 
Pelo amor que se foi 
Por tudo que não veio 
E por tudo que nunca virá 

Em noites 
De fortes ventos intempestivos 
E glaciais 
Minha alma diáfana 
Percorre o deserto dentro de mim 

Na alvorada 
No dilúculo de um novo dia 
A minha crença 
De tê-lo ao meu lado 
Esvaece por fim 

Na aurora de um novo dia 
Vivo sem esperanças alguma 
De viver dias melhores 
_______________________

Nei Garcez
(Curitiba/PR)

"Dentro e fora" do Universo, 
em que, aqui, tudo é infinito, 
um só Deus é tão diverso 
sobre tudo... Tenho dito!
______________________

Pedro Du Bois
(Balneário Camboriú/SC)

BARULHOS

No barulho das ruas
algumas horas
de paz e recolhimento

não há música no ar
nem palavra a ser dita

No barulho das casas
alguns minutos
de repouso e acolhimento

não há discurso
nem a fala do ator

no barulho em geral
instante em que o silêncio
aprofunda o gosto

não há como rasgar a folha
nem recitar a prece.
________________________

João Batista Xavier Oliveira
(Bauru/SP)

O CAMINHO DA ROSA

Se cada um fizer a sua parte
não sobra parte para repartir;
não sobra aparte que preocupe a arte...
mundo destarte só resta sorrir.

Se cada um plantar uma roseira
a vila inteira será um jardim;
não sobra beira à espinhosa asneira...
dessa maneira é sorriso sem fim.

Se cada um olhar-se na verdade
fraternidade romperá vereda;
o pensamento terá mais espaço

e minha parte será rosa e há de
ser a verdade daquele que ceda
do seu caminho todo seu abraço!
__________________________________

Olivaldo Júnior
(Mogi-Guaçu/SP)

EU MESMO

Pois é,
era uma vez
eu mesmo.

Eu mesmo,
que vou e que venho,
que risco e desenho,
que tenho e mantenho
esta (in)certa
dis - tân - cia.

Pois é,
era uma vez
distância.

Grades feitas de dor,
cola e muito isopor,
tudo que é anti-flor,
anti-sonho, anti-amor.

Pois é, 
era uma vez
o amor.

O amor 
que eu chamo e reclamo,
que eu amo e proclamo
o senhor
de mim mesmo.

Pois é,
era uma vez
eu:
uma vez
eu mesmo.

Estante de Livros (Lúcio Cardoso: Crônica da Casa Assassinada)

A história de “Crônica da Casa Assassinada” se passa no interior de Minas Gerais, no desenrolar do século XX. Naquele momento as famílias tradicionais estavam começando a temer o desenvolvimento urbano, pois tinham receio que essas novas construções oprimissem o brilho e a soberania dos casarões. E por falar em família, a história gira em torno dos Meneses, uma família que praticamente rege a cidade, sendo considerada a “realeza” local. Apesar do jeito petulante, eles estavam em decadência; suas propriedades já não tinham tanto valor. Com isso, uma coisa se torna muito importante para compreender o que Lúcio Cardoso desejava transmitir com sua Crônica: desconfiar de tudo o que você lê, pois a velha chácara dos Meneses contém segredos inimagináveis.

Em meio às fragilidades do momento, Valdo, membro da família Meneses, retorna do Rio de Janeiro. Porém, ele não estava sozinho, trouxe consigo a bela Nina como esposa, para ser a nova habitante da Chácara. Dona de gostos extravagantes e uma beleza extraordinária, ela rapidamente vai atraindo a atenção dos habitantes da região, também devido o seu jeito mais “liberal”. Os Meneses estavam um tanto quanto preocupados, pois manter as aparências de uma família real era imprescindível.

O próprio título do livro já anuncia o enigma em que ele se constituirá, ao se debruçar sobre as lembranças angustiadas e desconexas dos vários personagens, que não se fiam na memória que construíram sobre suas relações com os outros e com a realidade. O relato que se anuncia como sendo uma crônica carece de verdade, porque não há fatos claros e objetivos. Assim, cabe ao leitor desvelar o assassino e reconstituir o crime que baila entre sofisticadas técnicas narrativas, trabalhadas por uma linguagem meticulosa, que se desdobra em descrições quase líricas não fosse a exploração aguda dos perfis psicológicos elaborados e o grotesco que surge dos dramas apresentados:

"Decerto, quando as pessoas não nos interessam, esmaecem em torno a nós com a indiferença dos objetos. Alberto, para mim, sempre fora o jardineiro, e jamais conseguira identificar sua presença senão daquele modo. Eis que agora, pelo simples manejo da existência de Nina, eu o descobria como havia descoberto a mim mesma. Este deve ser, Padre, o primeiro dom essencial do demônio: despojar a realidade de qualquer ficção, instalando-a na sua impotência e na sua angústia, nua no centro dos seres." (Cardoso, 2008, p. 110)

Crônica da casa assassinada fala, de forma não linear, da decadência e fragmentação de uma família mineira burguesa e tradicional. É narrado por várias vozes, incluindo membros da família Meneses e habitantes de Vila Velha, cidade onde vivem. O romance é construído através de cartas, recordações saudosas, diários etc. Com esse tipo de narração, é preciso analisar os detalhes da obra e não acreditar em tudo que se vê/lê. Por exemplo: quando Nina narra a Chácara onde os Meneses vivem, a impressão que se tem é de que está caindo aos pedaços. Os Meneses são descritos como gente que ficou presa no século passado e o local onde vivem também. Mas é preciso levar em conta que Nina estava acostumada ao Rio de Janeiro, uma cidade grande e urbanizada. E como num passe de mágica, ela se vê numa cidade do interior de Minas Gerais, onde tudo parecia enferrujado e empoeirado, sem contar nas recusas dos Meneses para realizar e fazer parte dos raros eventos sociais que ocorriam na cidade.

Falando um pouco mais sobre os personagens, enquanto Nina era a bela moça da cidade grande, Valdo, seu marido, é um legítimo Meneses. Para ele era necessário conservar a imagem e boa aparência do casarão, pois seria de grande valia para o futuro da cidade. A história ainda aborda o homossexualismo, com Timóteo, homossexual assumido. Ele é confinado por Demétrio (seu irmão mais velho e que assume a chefia da família depois da morte de seus pais) num quarto esquecido da casa. Ali Timóteo é “livre” para viver como deseja. A consciência de Timóteo de que um nome não deve ser um fator limitante ou decisivo da sua identidade se choca com o conservadorismo dos irmãos e do restante da cidade, tornando-o prisioneiro do seu próprio eu. Ana, por sua vez, foi educada ao gosto de Demétrio (seu marido e membro real dos Meneses). Desse modo, ela não teve liberdade para pensar e fazer as coisas como queria. Foi criada para ser rígida, usar cores neutras e passar o mais despercebidamente possível. Mas com a chegada de Nina, Ana começa a despertar para sua realidade de submissa aos costumes do marido. Ana é o oposto de Nina, foi tão bem “domesticada” por Demétrio, que ao longo da narrativa ela é vista como um objeto que se funde às paredes da velha casa.

Composta por meio de cartas enviadas e não respondidas, de trechos de diários, de depoimentos, de confissões parciais, a narrativa é fragmentada, não-linear e sem nexos explícitos de causa e consequência. As primeiras páginas com que depara o leitor são parte do diário de André. Ele nos conta o momento final das tramas ainda a serem apresentadas, mergulhando na profunda dor e revolta que lhe causara a morte de Nina, mulher da capital carioca que aporta no conservadorismo rural sustentado pela casa dos Meneses. Encerrado em seu relacionamento, André se sente profundamente traído pela perda de seu objeto de desejo. Vivendo alienado de todos e do mundo, sua fuga e sua separação da casa dos Meneses ao fim da narrativa, depois do enterro da mãe, não significam uma possível libertação da engrenagem da dor em que se encontrava preso:

"18 de... de 19... - (meu Deus, que é a morte? Até quando, longe de mim, já sob a terra que agasalhará seus restos mortais, terei de refazer neste mundo o caminho do seu ensinamento, da sua admirável lição de amor, encontrando nesta o aveludado de um beijo - ‘era assim que ela beijava' - naquela um modo de sorrir, nesta outra o tombar de uma mecha rebelde dos cabelos - todas, todas essas inumeráveis mulheres que cada um encontra ao longo da vida, e que me auxiliarão a recompor, na dor e na saudade, essa imagem única que havia partido para sempre ?...)" (Cardoso, 2008, p. 19)

É preciso remexer os entulhos e viver o caos. O leitor, depois de cumprir a leitura, descobre que desde o início da trama narrativa também ele era vítima das aparências, pois o incesto, afinal, não ocorrera. André foge da casa sem conhecer a verdade e Valdo, que nem sequer desconfiava do que seu suposto filho pensava estar vivendo, abandona o território dos Meneses. O cadáver de Nina, mesmo enterrado, faz vibrar a urgência de se enxergar através da cortina, por entre alguma brecha possível. Esse desejo de rever o passado para que se faça a justiça é o que movimenta Padre Justino em seu último depoimento

Conhecido por travar polêmicas com os escritores nordestinos regionalistas de seu tempo, Lúcio Cardoso não nutria simpatia por esse tipo de literatura, enveredando por outras searas estéticas. Esse fato torna Crônica da casa assassinada um romance muito particular da história da literatura brasileira, porque não se enquadra facilmente em um único tipo de produção literária. O viés psicológico e o viés regionalista se encontram em processos metafóricos e metonímicos que se combinam sem que oponham. Desse modo, o tom intimista com que é realizada a exploração de personagens enigmáticas como Nina, que seduz seu suposto filho, André, dá forma e sustentação para a contestação da cultura mineira, lida na desagregação das tradicionais formas de relação familiar.

Lúcio Cardoso escreveu uma das obras mais belas e mais impactantes da literatura brasileira. Tratando de temas polêmicos como homossexualismo e o relacionamento incestuoso, o autor rompeu barreiras impostas pela sociedade. Tendo Nina, Valdo e Timóteo Menezes, como personagens principais, esse livro pretende levar o leitor a uma reflexão sobre o certo, o errado e se o imposto pela sociedade é o que deve realmente ser seguido. E cuidado, as aparências enganam! Então até que ponto podemos confiar nelas?

Fontes:
Thereza Cristina, in Catálise Crítica 
Prof. Dra. Giselle Larizzatti Agazzi in APROPUC-SP, 

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Olivaldo Júnior (Liberdade)

Ulisses era um menino de oito anos e meio que morava perto de casa. Cabelo nos olhos, sorriso nos lábios e pés firmes no chão, aprontava com os meninos da rua. Era um menino mágico, livre, que queria voar. Não voava, mas pensava que, se corresse muito, mas muito mesmo, nasceriam asas em suas costas e ele veria o mundo de outra forma. Ora, ele sonhava! Sonhar é voar?

Acontece que, em nossa rua, tinha um velho que não me lembro o nome, bem turrão, criador de passarinhos. "Um dia solto todos eles!", dizia para si mesmo o garoto com nome heroico, tão forte quanto os sonhos que ele tinha. Sonhar é para os fortes. Ouça.

O velho tinha treze gaiolas no quintal caipira, coberto de flores e de ervas daninhas, que ele não fazia separação entre as plantas. Não era um mau homem, mas tinha o mau hábito de cerrar os passarinhos em prisões, gaiolas que luziam o triste olhar de Ulisses assim que ele passava em frente à casa do velho. Ah, por que não se deixava livre um ser de asas, um sol a pino, um céu aberto?

Eram quase seis horas da tarde. Tinha chovido. A rua brilhava com as poças d'água que o choro da chuva formara. Os meninos estavam em casa. Menos um. Sabendo que o velho tinha saído, Ulisses, pé ante pé, pulou o muro da casa das aves e, com as mãos em fúria de quem toca os sonhos, soltou os pássaros ao céu azul, amarelo e rosa de um fim de tarde imenso, intenso, quase tão grande quanto a alma daquele "El Niño" que, radiante, em suas costas sentia o nascer das asas com que sempre sonhou. Um a um, ganhavam o mundo, pedindo licença para ser o que um dia foram: livres. Ulisses, um menino de oito anos e meio, voava com eles, partia com os pássaros rumo ao sem-fim! Libertava alguém e se libertava também, pode haver coisa melhor que aquela? Pulando em volta das grades, cabelo nos olhos, sorriso nos lábios e pés livres do chão, aprontava sua maior travessura. Era um menino mágico, livre e que fazia voar.

Fonte:
O Autor

Álvares de Azevedo (Poemas Escolhidos)


SONETO DO ANJO

Pálida, à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar! na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti — as noites eu velei chorando,
Por ti — nos sonhos morrerei sorrindo!
____________________

SONETO DOS MOÇOS PERDIDOS

Um mancebo no jogo se descora,
Outro bêbedo passa noite e dia,
Um tolo pela valsa viveria,
Um passeia a cavalo, outro namora.

Um outro que uma sina má devora
Faz das vidas alheias zombaria,
Outro toma rapé, um outro espia...
Quantos moços perdidos vejo agora!

Oh! não proíbam pois ao meu retiro
Do pensamento ao merencório luto
A fumaça gentil por que suspiro.

Numa fumaça o canto d'alma escuto...
Um aroma balsâmico respiro,
Oh! deixai-me fumar o meu charuto!
__________________

SONETO DA PREGUIÇA

Ao sol do meio-dia eu vi dormindo
Na calçada da rua um marinheiro,
Roncava a todo o pano o tal brejeiro
Do vinho nos vapores se expandindo!

Além um Espanhol eu vi sorrindo,
Saboreando um cigarro feiticeiro,
Enchia de fumaça o quarto inteiro...
Parecia de gosto se esvaindo!

Mais longe estava um pobretão careca
De uma esquina lodosa no retiro
Enlevado tocando uma rabeca!

Venturosa indolência! não deliro
Se morro de preguiça... o mais é seca!
Desta vida o que mais vale um suspiro?
____________

SONETO DA ARMIDA

Os quinze anos de uma alma transparente,
O cabelo castanho, a face pura,
Uns olhos onde pinta-se a candura
De um coração que dorme, inda inocente.

Um seio que estremece de repente
Do mimoso vestido na brancura,
A linda mão na mágica cintura,
E uma voz que inebria docemente.

Um sorriso tão angélico! tão santo
E nos olhos azuis cheios de vida
Lânguido véu de involuntário pranto!

É esse o talismã, é essa a Armida,
O condão de meus últimos encantos,
A visão de minh'alma distraída!
________________

SONETO DA MORTE

Já da morte o palor me cobre o rosto,
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!

Do leito embalde no macio encosto
Tento o sono reter!... já esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece...
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!

O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade.

Dá-me a esperança com que o ser mantive!
Volve ao amante os olhos por piedade,
Olhos por quem viveu quem já não vive!
__________________

SONETO DA VIRGEM

Passei ontem a noite junto dela.
Do camarote a divisão se erguia
Apenas entre nós — e eu vivia
No doce alento dessa virgem bela...

Tanto amor, tanto fogo se revela
Naqueles olhos negros! só a via!
Música mais do céu, mais harmonia
Aspirando nessa alma de donzela!

Como era doce aquele seio arfando!
Nos lábios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro-me chorando!

Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
É sentir todo o seio palpitando...
Cheio de amores! e dormir solteiro!
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SONETO DA DOR

Perdoa-me, visão dos meus amores,
Se a ti ergui meus olhos suspirando!...
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo uma estação de flores!

De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores...

Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora...

Sem que última esperança me conforte,
Eu — que outrora vivia! — eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!
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SONETO DA MÃE

Ó páginas da vida que eu amava,
Rompei-vos! nunca mais! tão desgraçado!...
Ardei, lembranças doces do passado!
Quero rir-me de tudo que eu amava!

E que doido que eu fui! como eu pensava
Em mãe, amor de irmã! em sossegado
Adormecer na vida acalentado
Pelos lábios que eu tímido beijava!

Embora — é meu destino. Em treva densa
Dentro do peito a existência finda...
Pressinto a morte na fatal doença!...

A mim a solidão da noite infinda!
Possa dormir o trovador sem crença...
Perdoa, minha mãe — eu te amo ainda!
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SONETO DO BEIJO

Um beijo ainda! os lábios teus, donzela,
Nos meus se pousem — junto de teu seio
Que treme-te e palpita em doce enleio
Beba eu o amor que teu olhar revela. —

Vem ainda uma vez! és pura e bela,
Arfa-te o seio, amor, n'olhos te leio...
Que importa o mais? vem, anjo, sem receio!
Um beijo em tua face! ind'outro nela!

Aperta-me ao teu colo — assim — um beijo
Desses em que ao céu um'alma se transporta!...
— E o mundo?... — Um louco. — E o crime? — Só te vejo.

— Mas quando a vida em nós gelou-se morta
— E o inferno? — Contigo eu o desejo.
— E Deus? — Meu Deus és tu. — E o céu? — Que importa!
________________

SONETO DO AMIGO

Perdoa se hoje em verso rude não cadente
Ledos os sentimentos de minha alma exprimo:
Tu verás que na arte de poeta eu não primo
Porém verás que só digo o que meu peito sente.

Mas os teus anos que me alegram a mente,
Triste pensamento me faz vir do imo
De meu peito alegre. De ti que eu tanto estimo
Para o ano, em igual dia hei de estar ausente!

Mas se de ti separar-me a extensão tão imensa,
A grande distância que entre nós estiver
Lembrança de ti não me fará perder.

Faz que tua alma a distância também vença,
Neste dia entre os amigos não te esquece
Daquele em quem tua lembrança não fenece.

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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