terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Poetrix - uma linguagem para o novo milênio

Autores: Edison Veiga Junior, Marina Torres, Sarah Maldonado Porchia, Rodrigo Gomes Lobo

PARTE I

1. Sobre a vanguarda

"A arte apresenta novas faces. Fala línguas
novas. Cria vozes diferentes e novos gestos.
Está farta de sempre falar a língua de ontem,
do passado." (HESSE, 1971:143)


A palavra vanguarda, de origem francesa, significa "tudo aquilo que precede, anuncia, prepara". Essa atitude abrange toda a atividade humana, encerrando o seu ímpeto, sua ânsia de invenção, de modificação da realidade, o impulso vital de enriquecer e aperfeiçoar seus instrumentos de inteligência e de ação.

"Falar de vanguarda é falar do novo, do que se cria; é falar do que se pesquisa, do que se procura acrescentar ao mundo ou à experiência do homem." (AVILA, 1969:59)

A poesia já é, intrinsecamente, considerada uma atitude inovadora. Isso se dá pelo fato de que é nesse gênero que a língua é testada em seu limite. O poeta apura e concretiza todas as potencialidades e possibilidades expressivas do idioma; cabe à ele a função de caminhar à frente, experimentando, inventando e adicionando formas e estruturas novas à linguagem.

Sempre houve poetas de vanguarda. São homens que tomam para si o papel de conduzir a sua arte para a renovação quando as formas em uso se tornam estanques. Sem eles, a arte ficaria estagnada.

A poesia, aliás a arte em geral, deve ser capaz de exprimir o mundo em evolução, o devir muitas vezes ilógico que nos rodeia, as inquietações de espírito e as transformações materiais.

No entanto, se a vanguarda é o posicionamento do artista perante o fenômeno estético, pode-se dizer que o Brasil ficou muito tempo sem saber o que é isso.

"Conformado por limitações de ordem econômica e social, (...) não passou, durante quatro séculos, de mero diluidor de uma cultura transplantada, quase sempre servida ao gosto duvidoso e ao interesse imediatista de pequenos grupos, que ao lado do controle da agricultura e do comércio, controlavam a vida pública." (AVILA, 1969:61)

É só a partir do Simbolismo que o poeta brasileiro inicia um processo de amadurecimento, culminando com a revolução de valores que foi o Modernismo, no qual a consciência poética consolidou-se como expressão criadora do homem. Os manifestos da época assumem postura tipicamente vanguardista.

Entretanto, à primeira vista, o poema de vanguarda é encarado como absurdo e exótico, por ferir o senso comum estabelecido. Somente após um esforço de atenção é que acaba se convencendo que o mesmo atende às imposições contemporâneas de síntese e concisão, aproveitando os recursos técnicos do atual processo comunicativo. Assim sendo, a poesia de vanguarda propõe, concomitantemente, uma abertura semântica atrelada a novas estruturas e soluções verbais, sempre de acordo com o contexto em que se vive.

Portanto, vanguarda não é a aventura inconseqüente que a muitos parece ser. É um fato real, um fato novo e vivo, sem o qual não se empreenderia a atividade literária.

2. Breve histórico do Movimento Internacional Poetrix (MIP)

O poetrix surgiu em 1999, com a publicação do livro "Trix - Poemetos Tropi-Kais", do baiano Goulart Gomes. Na verdade, esse tipo de terceto foi inspirado na arte milenar japonesa do hai-kai (daí a alusão "tropi-kais") e incorporou características brasileiras, tais como: sensualidade, interação autor/leitor, uso de figuras de linguagem, entre outras.

Por ser uma arte minimalista, é adequada à Internet, seja pela rapidez com que flui pela rede, seja pelo dinamismo exigido pela vida moderna. Isso, somado ao fato de que é através de um grupo de discussão on-line que são traçadas as metas e debatidas as tendências do MIP, rendeu ao poetrix o apelido de "poeminha da Internet".

O movimento já tem adeptos em várias partes do mundo. Atualmente está organizado em coordenadorias: há um responsável em cada região brasileira e diversos espalhados em outros países, entre os quais Colômbia, Venezuela, Argentina, Chile, Uruguai, Estados Unidos, México, Espanha, Portugal e Cuba.

O poetrix representa a vanguarda poética e é reconhecido pela Unesco, além de ter menções especiais outorgadas pela Academia Carioca de Letras e União Brasileira dos Escritores.

O grande desafio dos poetrixtas é, através de um projeto de divulgação, ultrapassar as barreiras da Internet, para que o MIP seja conhecido também fora da rede.

PARTE II

1. As teorias literárias e o poetrix

Pretendemos expor aqui alguns aspectos teóricos presentes em praticamente todos os poemas analisados a seguir, a fim de evitar a repetição exaustiva dos conceitos.

Para o escritor norte-americano Edgar Allan Poe, um texto deve ser feito para uma leitura rápida, "de uma assentada". "Um poema, só o é quando emociona, intensamente, elevando a alma; e todas as emoções intensas, por uma necessidade psíquica, são breves". (POE, 1945:63). A preocupação com a originalidade, uma constante nos poetrixtas, também é citada por Poe. Ele alerta, inclusive, acerca da necessidade de provocar a curiosidade do leitor, interatividade esta amplamente explorada pelo poetrix.

Pode-se destacar o caráter minimalista do poetrix, enquadrando-o no pensamento de Anatol Rosenfeld, que afirma como uma das características fundamentais das obras modernas a focalização ampliada, microscópica. O poetrix é como um flash, ou seja, mostra os fatos universais em uma expressão pontual e sucinta. Outra hipótese proposta pelo autor é a da arte sendo influenciada pela realidade, pela "precariedade da situação num mundo caótico, em rápida transformação, abalado por (...) imensos movimentos coletivos, espantosos progressos técnicos". (ROSENFELD, 1969:84). Sendo assim, o poetrix pode ser um representante de uma nova arte, fruto de uma "época com todos os valores em transição e por isso incoerentes, uma realidade que deixou de ser 'um mundo explicado', exige adaptações estéticas capazes de incorporar o estado de fluxo e insegurança dentro da própria estrutura da obra". (ROSENFELD, 1969:84)

Além disso, outro ponto que nos remete à obra de Rosenfeld é o fato de que no MIP, passado, presente e futuro são uma só dimensão: Tempo, podendo ser usado indistintamente. Nas palavras do autor: "na estrutura [da narrativa], os níveis temporais passam a confundir-se, sem demarcação nítida entre passado, presente e futuro". (ROSENFELD, 1969:81)

Quanto às propostas teóricas de Italo Calvino, julgamos desnecessário esmiuçá-las, já que Goulart Gomes o faz de forma clara e coerente em seu artigo "Poetrix: uma proposta para o novo milênio", anexado ao trabalho.

2. Interpretação de alguns poetrix

MORTE
(Regina Benitez)
manhã, tarde, noite
passou o dia, a vida
foice

Fica visível a retomada do valor árcade carpe diem. Aqui, a fugacidade da vida manifesta-se na progressão temporal dos versos: "manhã, tarde, noite / passou o dia...".

A palavra "foice" possui vários sentidos agregados. Pode-se entendê-la como a junção do verbo foi com o pronome se, reforçando o tema da vida efêmera. É possível também depreender a foice como objeto de trabalho, significando a impossibilidade do trabalhador desfrutar dos prazeres da vida, diante de sua alienação, sua necessidade de trabalhar para ganhar sustento. Em última análise, foice pode ser entendida como o símbolo da morte, finalizando o poema com a idéia de que a morte é progressiva: morre-se um pouco a cada dia e não há como fugir disso.

Em relação às propostas de Calvino, o poetrix "Morte" apresenta leveza, pois apesar de tratar de um tema denso e relativamente carregado, o poeta abstrai-lhe seu pesadume e opacidade, abordando-o de maneira sutil, com certo grau de luminosidade e rarefeita consistência, contrapondo-se com a idéia que temos do obscuro e inevitável destino de todos; rapidez, por ser caracterizado pela economia verbal; exatidão, pela escolha da palavra foice, que sintetiza precisamente o pensamento do eu-lírico e por fim visibilidade e multiplicidade, expressas também na imagem da foice, que dá vazão a várias interpretações.

A oposição semântica estabelecida é facilmente reconhecida no par vida vs. morte, passando por um estágio intermediário de não-morte, que é justamente sua latência no cotidiano. É a morte a cada dia. A idéia de que cada dia a mais que se vive é um dia a menos que se tem de vida.

BRAILE
(Gilson Luiz Siqueira)
cego de amor
leio-te
com a ponta dos dedos

O poema apresenta forte dose de erotismo e estabelece uma analogia entre o braile (forma de leitura dos cegos, por meio do tato) e a necessidade do contato físico entre os amantes. A expressão "cego de amor" complementa o sentido do título.

A sutileza com que é tratada a sensualidade nesse poema explicita seu caráter de leveza. Além disso, a visibilidade é perceptível na figura do cego. Sua exatidão manifesta-se na escolha das palavras certas para dar determinado significado. A possibilidade de fazer várias interpretações do tema abordado caracteriza sua multiplicidade.

Existe uma oposição entre não-conhecimento vs. conhecimento: por estar "cego de amor" (não perceber os defeitos da pessoa amada), o amante não consegue "ver" sua parceira, portanto estão em disjunção. O sujeito só se torna eufórico diante do objeto (pessoa amada) a partir do tato, daí a alusão ao braile. A análise tátil pode ser muito mais minuciosa do que a visual.

ASSALARIADO
(Goulart Gomes)
vende a vida inteira
pelo pão de cada dia
a liberdade bóia, fria

O poetrix, por suas características abrangentes, também pode abordar temas de forte cunho social, denunciando as mazelas da realidade, a exemplo do poema acima: um retrato que expõe as agruras da forma de trabalho capitalista.

O embate presente nos versos se expressa na estrutura não-liberdade vs. liberdade. O trabalhador é tratado como mercadoria, torna-se um produto, "vende a vida inteira", coisifica-se, aliena-se de sua condição humana. O assalariado perde sua individualidade, vira somente mais uma força de trabalho, mescla-se a uma categoria abstrata sem perspectiva de futuro a longo prazo, em que o importante é conseguir ganhar o "pão de cada dia".

A leveza com que um tema tão chocante, tão marcadamente pesado é tratado, é explícita na figura da liberdade morta, cadavérica, fria, boiando, o que porém não prejudica a mensagem engajada do texto. Além disso, pode se fazer leituras diversificadas, como no trecho "... bóia, fria" em que transparece a alusão aos trabalhadores bóias-frias.

INUNDAÇÃO
(José Sergival)
Enquanto a chuva não chega,
os olhos do torrão marejam
com os versos do poeta.

A princípio, esses versos parecem transcrever a emoção que a arte do poeta pode causar nos sertanejos. O título "Inundação" pode ser uma alusão ao sofrimento dos flagelados pela seca do nordeste (inundação decorrente de suas lágrimas). Do verso "os olhos do torrão marejam" é possível depreender que, enquanto não há chuva para fertilizar o solo árido, a cultura ("... os versos do poeta") é uma espécie de "adubo" para sua terra, bem como um conforto para o seu povo humilde e castigado.

Há uma oposição entre o tema da aridez do sertão nordestino e a virtual inundação desencadeada pelos versos do poeta (carência vs. abundância), que reforça a idéia que o contexto difícil em que vivem os sertanejos não os impedem de produzir uma cultura que emocione.

A beleza do poetrix reside na sua multiplicidade de interpretações, que só foi efetivada pela visibilidade da palavra "torrão". Além disso, há algo de muito sutil no tratamento dado a um assunto tão preocupante para a sociedade brasileira. A leveza do poema manifesta-se na maneira suave como tal problema é tratado.

CONSEQÜÊNCIA
(Jurandir Argolo)
na barriga
o vazio cria calo
a fome gera presídio

A rapidez e a força do silogismo final "a fome gera presídio" é de uma clareza, de uma evidência incontestável. É pungente a intenção de alertar que o estado de miséria permanente cria a criminalidade; que a fome, na imagem do calo (forma de defesa, de resistência corporal contra a dor cotidiana) que se forma com o tempo, é um incômodo social gerador de atritos desgastantes, de desordem civil.

A multiplicidade de sentidos se revela no título "Conseqüência", irônico por dar a entender uma relação causal determinista e inevitável contra a qual nada se pode fazer. Afinal, não é só a fome dos miseráveis a responsável pela marginalidade. Ao contrário, ela é sintoma de um contexto, de uma conotação mais abrangente que o poema mostra. Na barriga, o vazio cria calo, mas na mente o vazio de idéias, a falta de planos de ação eficazes, gera uma carência na sociedade, uma fome que é "tapeada" com resoluções paliativas, com presídios que trazem a falta de liberdade tanto para os presos quanto para os cidadãos trancafiados em suas casas, com medo.

A crítica social faz, desse modo, o esquema de confronto ação (criar, gerar) vs. não-ação (calo, fome).

NU
(Maristela Straccia)
temo o silêncio
quando ouço a nudez
de meu pensamento

A imagem construída pelas palavras "... nudez / de meu pensamento" caracteriza um estado de total desproteção do fluxo de idéias do eu-lírico, ou seja, sua mente está desprovida de qualquer carapaça que a possa disfarçar e, por isso, o temor do silêncio ao ficar sozinho, introspectivo, consiste no receio de constatar o "nada" em sua consciência, de descobrir-se uma pessoa vazia de conteúdo.

É possível fazer outra leitura à medida que se considera o pensamento como algo que agride a voz poética, e o temor do silêncio procede porque é nesse momento em que se está em contato com o próprio fluxo psíquico, o que se constitui um processo doloroso para o eu-lírico.

O embate semântico reside no par de antíteses superficialidade vs. conteúdo, que caracteriza o conflito pessoal de achar-se entre essas classificações.

A visibilidade do poema está manifestada na imagem da nudez do pensamento, que dá margem a uma multiplicidade de sentidos. A seleção das palavras, para construir um jogo de significados, comprova a exatidão do poetrix.

SONSAS
(Lilian Maial)
Estrelas
não dizem a verdade;
Elas piscam.

O poema nos leva a contemplação das estrelas e conseqüente conclusão de que somos apenas um ponto ínfimo no Universo. No entanto, a voz poética nos conforta, alegando que estrelas mentem, são sonsas, dissimuladas; talvez ainda sejamos importantes e a vida valha a pena.

Pode ser abordada de outra forma a questão da mentira. As estrelas iludem quem as vê, seja na dimensão, seja no tempo. Primeiro porque, devido à distância, somos incapazes de ter a noção do tamanho real delas; segundo, que olhar para o céu, é como observar o passado: muitas estrelas já se extinguiram há séculos, milênios, e sua luz ainda nos chega.

O último verso é uma evidência que comprova o "caráter" das estrelas. Afinal, fisicamente, o movimento do ar na atmosfera faz com que tenhamos a ilusão de ótica de que tais astros piscam. Ora, isso nos leva a conclusão popular de que "quem pisca, mente".

Há uma oposição semântica verdade vs. mentira presente no texto. A visibilidade nos é evocada pela própria imagem da piscadela e a multiplicidade é a possibilidade de várias interpretações.

SOS
(Pedro Cardoso)
em mim,
explodem os canhões.
sem motivos, estendo as mãos.

O poetrix retrata o conflito interior enfrentado pelo eu-lírico: é como uma guerra, onde canhões explodem, fazendo com que ele se veja na necessidade de pedir socorro. Essa mensagem está sintetizada no título "S O S".

Percebe-se a oposição semântica guerra interior vs. paz interior, sendo que a paz só será obtida com a ajuda de um ente externo. Por isso, o último verso diz: "... estendo as mãos".

Aliás, o ato de estender as mãos pode ser tanto um pedido de socorro como um gesto simbolizando a trégua. E é essa a grande imagem do poema.

A expressão "sem motivos..." também dá margem a uma ambigüidade. Ele está sem motivos aparentes para estender as mãos ou sem motivação alguma?

SÍSIFO
(Aila Magalhães)
gravidade e esperança
na pedra que não se contenta
com o meio do caminho apenas!

A evocação do mito grego Sísifo, logo no título, já sugere um certo cuidado com acréscimos interpretativos externos. Segundo CALVINO

"... toda interpretação empobrece o mito e o sufoca: não devemos ser apressados com os mitos; é melhor deixar que eles se depositem na memória, examinar pacientemente cada detalhe, meditar sobre seu significado sem nunca sair de uma linguagem imagística. A lição que se pode tirar de um mito reside na literalidade da narrativa, não nos acréscimos que lhe impomos do exterior." (1990:16-17)

O mito, na potência de sua imagem significativa, explora diversas interpretações. Sísifo, em sua eterna tarefa de rolar a pedra até o cume de um monte para que após isso a rocha deslize novamente e o trabalho recomece infinitamente, nos retrata a própria condição humana. Por outro lado "com o meio do caminho apenas!" remete-nos ao célebre poema de Carlos Drummond de Andrade.

O conflito se instaura de forma abrangente, segundo o esquema alto (esperança) vs. baixo (gravidade). O texto flui entre as oposições, entre a imagem da pedra, pesada, estorvo, e a leveza da esperança que não se contenta com os obstáculos, com o meio do caminho, com a força da gravidade agindo sobre os corpos, trazendo-os para o chão. O poema ganha vida, oscila, desliza, como a pedra em seu eterno trajeto, ora no alto, ora nas profundezas, num movimento dinâmico e ininterrupto.

SEMIÓTICOS
(Aníbal Beça)
A pá lavra
para a semeadura
A colheita se escolhe.

O tema desse poetrix já se manifesta no título "Semióticos". Fica clara a intenção de lidar com o sentido do texto, tanto em seu significante, no jogo "pá lavra", quanto no seu significado como um todo, aberto a múltiplas interpretações, porém com a ressalva de que a analogia cultivo/colheita com escrever/ler é propícia. O autor que "planta" um texto não sabe o que o leitor vai "colher". Cria-se então um conflito que pode ser expresso desta maneira: autor (plantar) vs. leitor (colher).

A visibilidade, a imagem fixada no poema é a palavra tornada semente, unidade que pode se potencializar de forma fecunda, dando frutos inesperados, dependendo de quem "escolhe o que vai colher", alimentando o espírito. Trata-se mesmo de um exercício semiótico, de construção de significados, de decifrar os diversos frutos que podem ser extraídos da terra lavrada pelo autor: o texto, com toda a sua multiplicidade latente, esperando pelo leitor coletor atento.

APÊNDICE: Entrevista com Goulart Gomes

O fundador do Movimento Internacional Poetrix, poeta Goulart Gomes, concedeu-nos uma breve entrevista. A seguir, os principais trechos.

1) De onde veio a idéia do poetrix? Como tudo começou?

R: Eu, como muitos outros poetas, escrevia tercetos acreditando que eram hai-kais. A maioria dos escritores não procura conhecer a essência do hai-kai antes de escrevê-lo ou, quando a conhecem, simplesmente passam por cima. Não concordo com isto, acredito que o hai-kai deva ser preservado como ele é desde há mil anos. Quando descobri que eu fazia algo diferente veio a necessidade de dar um nome diferente a isso. Em 1999, na Feira Internacional do Livro da Bahia (hoje, Bienal) lancei meu livro TRIX POEMETOS TROPI-KAIS - que foi premiado pela Academia Carioca de Letras e União Brasileira de Escritores - RJ, em 2000 - no qual coloquei o MANIFESTO POETRIX, propondo a nova linguagem.

2) Notamos certa resistência, sobretudo do meio acadêmico, frente ao poetrix. Por que o movimento não é tão conhecido? Há a idéia de intensificar a divulgação do projeto? Como?

R: Não diria que haja resistência ao poetrix no meio acadêmico. Talvez, pouco conhecimento. Como eu disse, meu livro de poetrix foi premiado pela Academia Carioca de Letras; nossa homepage está listada no site da UNESCO; professores da Faculdade Jorge Amado (Bahia) o tem disseminado; no curso de pós-graduação em Literatura Brasileira da Universidade Católica de Salvador, onde sou aluno, o poetrix também tem sido muito bem recebido. Vários críticos têm elogiado nossa proposta. Não temos do que reclamar. É verdade que o poetrix é pouco conhecido fora da Internet. Dentre outras ações para popularizá-lo estamos organizando, agora, uma antologia luso-brasileira que será distribuída aos "protocolos de consagração".

3) Quais as metas para o MIP num futuro próximo?

R: A única meta do MIP a curto, médio e longo prazo é continuar divulgando o Poetrix e os poetrixtas, nacional e internacionalmente.

4) Já que a principal mídia utilizada pelo movimento é a Internet, como você encara a questão dos direitos autorais?

R: É uma questão polêmica, sobre a qual nem mesmo a Justiça chegou a um consenso. O plágio sempre existiu e sempre existirá, seja lá qual for a mídia. Se plagiam obras impressas, com seus direitos autorais registrados, quanto mais o que é divulgado virtualmente! Sempre recomendo aos autores que registrem seus trabalhos que julgarem mais importantes, antes de divulgá-los.

5) Qual a relação entre Poetrix e Internet? O Poetrix é a poesia da Era Digital?

R: Uma das características da Era Digital é a velocidade. Velocidade na transmissão das informações, velocidade de consumo, velocidade na interatividade. Por ser breve, o poetrix guarda grande afinidade com esta característica. Além disso, ele se afina muito bem com os novos recursos tecnológicos, como apresentações em Power Point, Flash, etc. Há quem chame o Poetrix de "poeminha da internet", sem nenhum caráter pejorativo.

6) Você acredita que o Poetrix, por ser mais dinâmico, mais "rápido", é mais acessível para o público? Como tem sido a receptividade?

R: As pessoas dispõem de cada vez menos tempo para ler as tantas mensagens que lhes chegam. Talvez, por isso, o poetrix seja tão bem aceito. Ele é breve (apesar de que nem sempre deva ser lido com brevidade), busca a síntese e, ao mesmo tempo, com sua subjetividade, deixa uma grande margem para interação com o leitor. Geralmente quem lê um bom poetrix, duplix, triplix ou multiplix, gosta

7) Quais são as suas influências literárias? Quais poetas você lê dos "clássicos"? E dos contemporâneos?

R: Dos clássicos, Machado de Assis, Fernando Pessoa e Guimarães Rosa são minhas leituras preferidas. Dos contemporâneos gosto muito de João Cabral, Manoel de Barros, Ferreira Gullar e Affonso Romano (citando apenas os de língua portuguesa).

8) Como você vê a qualidade, no geral, da literatura contemporânea?

R: Em todas as épocas coisas boas e ruins foram escritas. Os autores contemporâneos têm, a seu favor, um vastíssimo acervo cultural herdado. É preciso conhecê-lo bastante, estudá-lo, antes de se ter a pretensão de escrever.

9) Você acredita que o MIP pode entrar para a história da literatura brasileira, como os movimentos que costumamos estudar?

R: Estamos trabalhando para que isso aconteça. "É a parte que nos cabe neste latifúndio". Mas, não depende apenas de nós. Como diria o Ariano Suassuna, pode ser que sejamos vanguarda hoje e, amanhã, retaguarda. Só o tempo dirá.

10) Com a Internet, você acha que o brasileiro está lendo mais?

R: A Internet ainda não faz parte da realidade de milhões de brasileiros, que não tem nem o que comer, dependendo de esmolas públicas e privadas para sobreviver. São milhões de Sem-Terra, Sem-Teto, Sem-Saúde, Sem-Trabalho, Sem-Educação. Acho, sim, que a Internet propicia um incremento na leitura, apesar de que nem sempre a leitura certa. Sete dos dez sites mais visitados na Internet são de pornografia! Mas tenho certeza que se lê cada vez mais. Meus e-books gratuitos têm sido bastante lidos, assim como textos que tenho disponibilizado na Usina de Letras. Gostaria de convidá-los a conhecer os sites www.poetrix.org e www.goulartgomes.tk.

Fonte: http://www.movimentopoetrix.com/

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