quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Henrique Oliveira (André Carneiro: O Mago das Palavras)


André Carneiro, o homem que divide textos com os maiores escritores do planeta e é pouco conhecido no Brasil.

O primeiro encontro

Maio de 1922, nasce em Atibaia, interior paulista, André Carneiro. 85 anos se passam e vou à casa do escritor, cineasta, artista plástico, fotógrafo, inventor e pensador. Busco suas obras e sua história, mais conhecidas fora do Brasil. Chego de táxi ao conjunto de prédios, em um bairro de classe média de Curitiba. Nosso encontro estava agendado para as 19 horas. Atraso-me apenas cinco minutos. Horas depois iria me orgulhar do feito responsável.

O simpático porteiro abre a porta e pelas escadas, chego ao segundo andar do pequeno edifício. Na porta, sorridente, espera-me o homem, que mora só. “Como vai? Entre e sente-se onde você quiser”, recebe-me o anfitrião.

Atento, observo a casa do poeta. O modesto e pequeno apartamento é decorado com inúmeros quadros e retratos, todos produzidos por ele. Nas paredes têm ainda poemas moldurados e cartazes das suas obras literárias. As três estantes são cobertas por livros, arranjos e esculturas, também feitas pelo artista. “Gosto de arte, independente de qual seja”.

Nos sentamos. Ele no sofá, eu numa cadeira de madeira preta. O começo do papo é tímido. Falo um pouco sobre mim e comento sobre uma amiga que temos em comum.

- Então, conversei com a Carmem hoje pela internet e ela mandou um beijo para você.

- Está bem.

Noto, que o homem, escritor de quinze livros de poesias, novelas, contos, romances, críticas literárias e teorias de hipnose, publicados no Brasil e em doze países; roteirista e diretor de seis filmes-artes; autor de gravuras, esculturas, fotografias e quadros, expostos e vendidos nos Estados Unidos e na Europa; está arisco. Desconfiado sobre minha real intenção, questiona-me sobre minha cidade de origem, meu trabalho e minhas opiniões. Nosso encontro não tinha a proposta de ser uma entrevista. Intermediada por nossa amiga Carmem, era apenas para ser uma conversa sobre literatura.

- Eu vim aqui para te conhecer, pois li sobre seu trabalho e algumas pessoas que admiro falaram de você.

- Esse é um motivo muito bom.

Após conversarmos superficialmente sobre a decoração de sua casa, mulheres, vinhos, cinema, viagens e obviamente literatura, lhe proponho uma entrevista para uma reportagem. Já mais “chegados”, André topa e agendamos um outro encontro, para oficialmente realizarmos a entrevista. Minha missão estava cumprida.

O poeta me mostra alguns dos seus livros. O último, “Confissões do Inexplicável”, foi lançado em maio de 2007. Reunindo 27 contos, a obra tem na capa um invejável elogio: “André Carneiro merece a mesma audiência de um Kafka”. A comparação com o autor tcheco, um dos mais admirado e respeitados escritores do século XX, é assinada pelo romancista americano A. E. van Vogt. “Depois dessa descrição não preciso de mais nada, não é mesmo?”, indaga André, que ainda me mostra outros livros seus. Tudo o que o poeta pega, com cuidado devolve no mesmo lugar. “Não sou sistemático, mas tenho que ser organizado para achar minhas coisas, pois eu quase não enxergo”. Vítima da trombose, André tem apenas 10% da visão. “Vejo apenas um vulto”. Dificuldade que não o impede de ler e escrever incansavelmente.

Para suas leituras, adaptou uma câmera de vídeo de segurança em um copo de plástico, onde a imagem captada é exibida em uma TV. “Isso foi criado por um amigo meu, eu apenas adaptei. Essa invenção facilita muito minha vida”.

O poeta me convida para conhecer seu escritório. Uma sala apertada, também cheia de livros e papéis. Neles, o poeta anota seus compromissos e seus comentários sobre o que lê, ouve e vê. Seis, talvez sete lâmpadas estão instaladas no quarto adaptado. O fio de uma delas passa sobre a mesa, formando um varal. Pendurado ali, tem uma folha com meu nome, meus telefones e o horário que havíamos combinado. Foi nesta hora que senti orgulho da minha pontualidade. “Não gosto de pessoas que se atrasam. E se for para furar comigo que me avise e que seja por um bom motivo. Aceito ser trocado apenas por mulher. Outros compromissos eu não admito, é mais importante conversar comigo“, resmunga o poeta com um tom de irritação e ironia.

Para suas escritas, André usa um computador, cuja tela é configurada com a resolução máxima. As letras ficam enormes. O poeta senta-se em uma cadeira toda cheia de espuma, que ele mesmo adaptou, coloca uns óculos com lentes extremamente grossas e com o rosto quase encostando no monitor, digita. Por dia, escreve em média quatro horas. “É, mas tem dia que nem durmo e passo a noite toda escrevendo. Também escrevo nos finais de semana e nos feriados”.

Já são quase 22h, quando ensaio minha despedida. Agendo com André nosso próximo encontro para a semana seguinte. Despeço-me do poeta e parto.

No dia seguinte começo a escrever a reportagem e pesquiso na internet mais informações sobre o poeta, que é citado em inúmeros sites. Seus textos estão publicados em importantes antologias da literatura nacional e mundial. O premiado poeta divide textos com consagrados autores, como Machado de Assis, Oswaldo de Andrade, de quem se tornara amigo pessoal e Carlos Drummond de Andrade, que escreveu: “A poesia de André Carneiro transfigura as coisas cotidianas”.

O segundo encontro

Exatamente uma semana se passa e volto à casa do poeta. Chego no meio da noite e desta vez levo comigo um câmera de vídeo, pois a reportagem ganhara uma nova dimensão. Mais uma vez o homem só, me recebe com atenção. Fica feliz ao saber que seria também personagem de uma videoreportagem. Vaidoso, vai fazer a barba. Termina e senta-se em frente ao provavelmente seu maior amigo do momento, o computador. Enquanto o poeta vasculha e-mails, gravo imagens da situação.

Em seguida partimos para a sala, onde escolhemos a maior estante para ser o cenário do depoimento. Antes de por o microfone, André troca de camisa, põe o lenço que sempre o acompanha no pescoço e ajeita o cabelo. Sem nenhum roteiro preparado, começamos a entrevista, que é mais justo defini-la como um papo informal. O poeta conta que começou a escrever por acaso para um jornal de Atibaia.

Anos mais tarde, em 1949, é lançado “Ângulo e Face”. Seu primeiro livro é uma coletânea de poesias. No mesmo ano, junto com sua irmã e um amigo, o poeta cria “Tentativa”, um jornal literário que possuiu correspondentes em Portugal, na França e na Argentina. Apresentado ao público por Oswald de Andrade, “Tentativa” foi distribuído por três anos e teve textos de Vinicius de Moraes, Graciliano Ramos, Sérgio Milliet e tantos outros escritores conceituados.
A noite se afunda. São 22h30, hora de André pingar colírio. O homem interrompe a entrevista e com a ajuda de uns óculos com um furo na lente, coloca seu remédio com precisão.

A gravação continua.

- Você tem dois livros que tratam de hipnose. Como aprendeu essa técnica?

- Eu sou um grande interessado em ciência evidentemente, e a hipnose é uma coisa fascinante, pois tem esse aspecto misterioso. Um dia eu comprei alguns livros sobre o assunto, experimentei as técnicas com uma pessoa e percebi que eu tinha a hipnotizada. Daí eu comecei a analisar o nascimento das crianças e criei a hipótese de que era possível uma mãe programar o dia e a hora do nascimento do seu filho através da hipnose. Para eu levar adiante essa experiência, tive que receber a ajuda de um médico. Daí então, fizemos a experiência com uma mulher. Com a hipnose, tentamos provocar o nascimento do bebê em um determinado horário.

- E deu certa a experiência?

- (Risos) Não. O bebê nasceu na hora desejada, mas no dia seguinte.

Os conhecimentos científicos e as habilidades artísticas de André são frutos apenas da sua curiosidade, das suas experiências e da sua vocação. O poeta não tem nenhuma formação acadêmica, porém é um assíduo estudioso. Lê tudo e todos. Fluente em francês e capenga inglês, já ministrou palestras e cursos sobre literatura em diversas universidades do mundo. Sua obra é objeto de estudos, além de ser analisada em teses de doutorados da Universidade Estadual Paulista e da University of Arizona.

- Você fica triste em não ter seu trabalho reconhecido pelos brasileiros?

- Olha, de certa forma eu aceito, pois o Brasil é um país onde se lê muito pouco. Têm pouquíssimas livrarias, a cultura é essa. Você vai na Europa, nos Estados Unidos, na Argentina, têm bibliotecas e livrarias espalhadas em todos os cantos, e todas sempre lotadas. Até em Cuba é diferente. Certa vez, estava em Havana e não consegui comprar um livro porque ela estava completamente cheia. Essa falta de leitura e de incentivo à leitura que existe no Brasil é lamentável. É uma coisa dolorosa.

- A indústria editorial brasileira não é profissional. Como é para um escritor depender dela para sobreviver?

- Com a idade que eu tenho, fazendo tanta arte e ganhando dinheiro com obras que eu fiz há quase 60 anos são situações interessantes. Pouquíssimos escritores ganham dinheiro com literatura em nosso país. Veja minha casa, eu não sou rico. Nunca ganhei muito dinheiro escrevendo, mas é o que eu gosto de fazer. Escrevo por prazer, por ideal. Não me incomoda ser pobre, sou feliz. Se não já tinha parado com tudo.

Encerramos a entrevista e eu peço a André para ler uma de suas poesias. Ele escolhe "A Edênica Tarefa".

Ao encerrar, pede que eu fique um pouco mais para continuarmos com nossa boa prosa. Enquanto guardo o equipamento, ele pinga mais uma vez o colírio, com a ajuda de sua invenção ocular. O poeta me oferece um livro de presente e na contra capa, escreve uma dedicatória. Ganho “Quânticos da Incerteza”, uma coletânea de poemas, lançada também em 2007.

Reparo que os olhos do velho homem já pedem o descanso. Passa da meia-noite quando me levanto para partir. Combinamos manter contato, nos despedimos e eu vou. Apesar de André ter escrito contos, críticas, novelas e romances, na reportagem sempre o chamei de poeta, porque ele sabe como ninguém a essência desse ofício. Entende que poeta não é apenas quem cria poemas. É a pessoa que através de atos, artísticos ou não, transforma, constrói e principalmente emociona. Essa sensibilidade é privilégio para poucos. André Carneiro é um desses, um privilegiado.

Livros publicados por André Carneiro
Ângulo e Face, 1949. Poesia.
Diário da Nave Perdida, 1963. Contos.
O Mundo Misterioso do Hipnotismo, 1963. Ensaio científico.
Espaçopleno, 1963. Poesia.
O Homem que Adivinhava, 1966. Contos.
Introdução ao Estudo da “Science Fiction”, 1967. Crítica Literária.
Manual de Hipnose, 1968. Ensaio Científico.
Piscina Livre, 1980. Romance.
Pássaros Florescem, 1988. Poesia.
Amorquia, 1997. Romance.
Lês Ténèbres, 1992. Novela
A Máquina de Hyerónimus e outras Histórias, 1997. Contos.
Birds Flower, 1998. Poesia.
Confissões do Inexplicável, 2007. Contos.
Quânticos da Incerteza, 2007. Poesia.
===========================
Vídeos do escritor podem ser encontrados no blog abaixo.
Biografia detalhada e poesias podem ser encontradas na postagem de 25/12/2007
Conto "Do outro lado da Janela" em 31/01/08 e Artigo "Ficção Científica, Evolução Genética e o Cinema, em 03/01/08.
==========================
Fonte:
http://oliveirando.blogspot.com/2007/10/teste-de-udio.html

Nenhum comentário: