Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 31 de março de 2008

André Carneiro em Ação

No fim do ano passado uma pesquisa internacional selecionou 24 fotógrafos artísticos considerados "Pioneios na Criação de uma Arte Fotografica Modernista, no Brasil". André foi incluído, com destaque para uma foto "Trilhos" premiada nacionalmente em 1949. A Galeria de Arte de S. Paulo Madalena mais a Galeria Bergamin, fizeram exposições dessas fotos em S. Paulo e no Rio de Janeiro. Tambem estão vendendo (só os direitos de reprodução da foto), até para exposições de galerias estrangeiras como "Tate Galery of London". Essa noticia provocou o interesse de uma editora que esta fazendo capas de uma grande Editora com fotos abstratas de sua autoria.

Em 2007 praticamente publicou três livros: O fac-símile do seu jornal Literário “Tentativa”, apresentado por Oswald de Andrade e titulo desenhado por Aldemir Martins, considerado o melhor do Brasil naquela época, além da maior coletânea de contos de Ficção Científica até hoje publicada, "Confissões do Inexplicável", com 600 páginas, mais a Antologia Poética "Quânticos da Incerteza", extraida de sua obra de 700 poemas inéditos, por Osvaldo Duarte, editado por Araceles Stamatiu e impresso na Imprensa Oficial de São Paulo.

Seu conto “Escuridão”, vendido a um cineasta espanhol está com seu roteiro quase terminado.

A Oficina de Literatura e Poesia orientada por André, em Curitiba, continua em alto nivel, já com dois "oficinados" Dr. Mustafá Ali Kanso e Dr. Bertoldo Schnadey ganhadores do Primeiro Lugar em Concurso Nacional de Contos.

A Oficina esta com um livro pronto para ser lançado, com o titulo: “Proibido Ler de Gravata”.

Nos últimos 12 meses em Antologias dos melhores contos Brasileiros e outros sairam meia dúzia de contos do André Carneiro.
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Fontes:
E-mail enviado pelo André Carneiro.

Origenes Lessa (1903 - 1986)

Orígenes Lessa nasceu em Lençóis Paulista, a 12 de julho de 1903.
- Colaborou e trabalhou em diversos veículos de comunicação, tendo feito sua estréia nos jornaizinhos escolares, com 12 ou 13 anos.
- Tentou, sem continuidade, diversos cursos superiores. Ingressou como tradutor no Departamento de Propaganda da General Motors, que teria grande influência na sua vida profissional: tornar-se-ia um dos publicitários de maior renome do País.
- Tomou parte ativa na Revolução Constitucionalista em 1932.
- Em 42, fixou-se em Nova York trabalhando no Coordinator of Inter-American Affairs, tendo sido redator da NBC em programas irradiados para o Brasil.
- Regressou ao Rio de Janeiro em meados de 43. Escritor, com uma obra bastante extensa, publicou, entre outros: Rua do Sal (Prêmio Carmen Dolores Barbosa — romance); O Escritor proibido (contos); Garçon, Garçonette, Garçonnière (menção honrosa da Academia Brasileira de Letras); O Feijão e o Sonho (romance — Prêmio António de Alcântara Machado, 15 edições com mais de 200.000 exemplares vendidos); 9 Mulheres (contos — Prêmio Fernando Chinaglia); O Evangelho de Lázaro (romance — Prêmio Luíza Cláudia de Souza do Pen Club do Brasil, 1972); e Beco da Fome.
- Incursionou pela literatura infanto-juvenil com muito sucesso, publicando oito ou dez volumes, um dos quais, Memórias de um Cabo de Vassoura, bateu a vendagem de O Feijão e o Sonho. Seus contos têm sido traduzidos para o inglês, espanhol, romeno, tcheco, alemão, árabe, hebraico, e várias vezes radiofonizados, não só no Brasil, mas também na Polônia.
- Foi eleito em 9 de julho de 1981 para a Cadeira n. 10 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Osvaldo Orico. Casado com Elsie Lessa, jornalista, é pai do escritor Ivan Lessa.
- Faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 13 de julho de 1986.

Fonte:
http://www.releituras.com/olessa_calu.asp

Adriana Maria Toniolo Jacon (As várias faces da escritura lessiana)

Em um de seus artigos, Josué Montello, falando de Orígenes Lessa em virtude de seu octogésimo aniversário, pergunta-se:

"Que fez Orígenes Lessa para as nossas palmas em redor de sua mesa, e para a festa da Casa de Rui Barbosa? Fez livros. Ou melhor, romances, contos, novelas, livros para crianças, artigos de jornal..."

Porém, mais do que palmas, talvez falte ao escritor Orígenes Lessa ter suas obras conhecidas e estudadas de maneira mais aprofundada, pois como se lê no artigo de Josué Montello, foi significativa a contribuição de seu trabalho para a cultura e para a literatura brasileira. O autor que nasceu em Lençóis Paulista em doze de julho de 1903 e faleceu em treze de julho de 1986, aos oitenta e três anos ainda se encontrava em plena atividade profissional. Sua obra chama a atenção pela variedade e qualidade de material. Tanto nas narrativas curtas, quanto nos romances, o autor elabora o enredo de forma a obter um resultado que revela expressão e estilo singulares, ou seja, uma linguagem do cotidiano, bem próxima do leitor, o que permitiu que suas obras fossem bem recebidas pela crítica e pelo público que com elas tiveram contato.

Henrique L. Alves, em texto escrito para a revista da Academia Brasileira de Letras, reproduziu uma opinião de Genolino Amado sobre o estilo de Orígenes Lessa, afirmando:

Orígenes Lessa - segundo Genolino Amado - é um desses olhares excepcionais que sabem surpreender a novidade das coisas ou dos homens vulgares e o humanismo oculto nos temas aparentemente mais sisudos.

Ao desenvolver esse aspecto da obra lessiana, Henrique L. Alves, acrescenta uma pista de leitura sobre a linguagem de Orígenes Lessa:

Escritor que sabe manejar situações irônicas com verve descontraída. Procura flagrantizar o cotidiano, diversificando temas, catalisando frases fáceis, sem preciosismos ou busca de palavras inacessíveis ao leitor.

Pedro Bloch, leitor, amigo e estudioso das obras de Orígenes Lessa, ressaltou a importância da escritura de Lessa pelo fato de ser constituída pela observação de acontecimentos triviais que acabam por encontrar ressonância em quem a lê. Afirma o crítico: "Orígenes Lessa conduz sua narrativa com aquela fluidez, segurança e originalidade que lhe são próprias." E, completando, ressalta as características da escritura de Orígenes Lessa:

...quando, ao voltar do México, alguém lhe perguntou se tinha falado com Cantinflas ou Diego Rivera, ouviu: ‘Não, mas falei com mendigos, gente de rua, prostitutas.’ Seus episódios de viagem estão repletos de seres humildes, de vida colorida. É por isso que seus contos traduzem tanta humanidade, pulso tomado na alma de cada um.

Dr. Marcos Almir Madeira, em uma homenagem póstuma a Orígenes Lessa, ratificou todas as opiniões anteriores sobre o estilo de Orígenes Lessa, ao afirmar:

...escritor em cuja obra personalíssima o contista, o romancista, o novelista puseram singularidades de temática e de forma, de conteúdo e expressão - um estilo de narrador diferente.

No entanto, o fato de as obras de Orígenes Lessa serem fruto de uma observação do cotidiano não quer dizer que sejam desprovidas de talento artístico. Muito pelo contrário, as obras lessianas demonstram a capacidade do autor em criar histórias que sejam compreendidas pelo público, o que não significa pobreza de linguagem. O feijão e o sonho, por exemplo, foi reelaborado em várias edições.

Quanto à capacidade artística de Orígenes Lessa, Olney Borges Pinto de Souza do Jornal Correio da Manhã, afirmou:

... o notável contista logrou compor toda uma série de narrações, em que seu talento, jogando com uma riqueza extraordinária de cenário, esparzindo humor ou colhendo uma funda movimentação anímica, lança toda uma galeria de tipos humanos a realizar-se plenamente no centro de cada história, com todos os atributos de legitimidade artística.

A primeira obra, editada em 1929, o livro de contos O escritor proibido , foi muito bem recebida por Medeiros e Albuquerque, João Ribeiro, Menotti del Picchia e Jorge Amado, este último, admirador do trabalho de Lessa, como fica claro na reportagem de Bella Jozef publicada no Jornal O Estado de São Paulo , em 31 de julho de 1983 ao reproduzir as palavras do autor de Os Velhos Marinheiros:"Sempre fui de opinião que Orígenes Lessa é um dos maiores contistas de toda a nossa história."

No entanto, confirmando a afirmação de Peri Augusto sobre Orígenes Lessa:"Difícil asseverar, entre o romancista e o contista, qual o melhor.", torna-se difícil dizer em qual gênero literário Lessa se sobressai, pois tanto nos contos quanto nos romances, sabe tecer seus textos que estabelecem um diálogo com o leitor, favorecendo a recepção e a apreciação de suas obras, sejam elas histórias curtas ou não.

Dos trabalhos realizados por Orígenes Lessa e citados por Josué Montello no Jornal do Brasil, como vimos na citação do início deste capítulo, não foi mencionado o trabalho como publicitário, iniciado em 1928. A essa faceta desconhecida, acrescenta-se a de tradutor, no período em que trabalhou na General Motors (1931). Outro trabalho realizado por Lessa foi o de padrinho da Biblioteca Municipal de Lençóis Paulista, que leva o seu nome, para a qual solicitou a doação de obras de escritores renomados, com autógrafos e dedicatórias. O acervo dessas obras chega, atualmente, a oitenta e quatro mil volumes, sendo que a cidade possui por volta de sessenta mil habitantes, ou seja, mais de um livro per capita, o que fez com que Arnaldo Niskier em discurso na Academia Brasileira de Letras afirmasse:

Qual é a singularidade de Lençóis Paulista? É a cidade que tem mais livros do que habitantes. Seguramente dos quatro mil e duzentos municípios brasileiros, Lençóis Paulista deve ser exemplo único da cidade pequena, no interior paulista, em que os livros são mais numerosos do que os habitantes. Isso revela o interesse cultural que transbordou da simples presença de Orígenes Lessa para ser uma preocupação dominante em toda sua população.

Orígenes Lessa também obteve consagração como escritor de literatura infantil e infanto-juvenil, tendo-se iniciado nesta vertente quando solicitado para palestrar sobre O feijão e o sonho em uma escola para crianças. Acabrunhou-se com isso, pois, para ele, este romance era uma leitura para adultos como fica claro na reportagem do Jornal Correio do Povo:

Orígenes Lessa confessou que sempre escreveu para as crianças com extremo temor e mesmo pavor, pois sente imensa responsabilidade, tendo fugido muito a um encontro cara a cara com elas desde que soube que elas liam seu livro O feijão e o sonho.

Assim escreveu, em menos de quinze dias, Memórias de um cabo de vassoura , editado em 1971 e, a partir daí, devido ao sucesso com o público infantil, não parou mais de escrever para crianças, sem deixar, porém, de escrever para adultos.

Em entrevista concedida a Edilberto Coutinho, Orígenes Lessa, questionado quanto ao seu relacionamento com as crianças, declarou sentir-se mais jovem, depois de ter-se dedicado à literatura infantil e juvenil.

Fantástico. Incrível...Quando cheguei aos 60 anos, pensei que estava velho. Aos 70, me sentia mais jovem. Acho que devo isto, em parte, aos meus livros infantis e juvenis. Com eles, parece que liberto o menino que há em mim.

Contudo, sua maior preocupação foi com o leitor. Nos textos de literatura infanto-juvenil Lessa demonstrou para com o leitor a mesma preocupação já existente na sua literatura para adultos, pois tinha consciência da estreita relação entre autor, obra e leitor, o que pode ser lido nas declarações feitas ao Jornal Estado de Minas:

Escrever para crianças é muito gostoso se a gente acerta o gosto delas, mas é uma barra muito pesada, pois seremos os responsáveis pelas suas futuras preferências. Daqui a algum tempo seremos os culpados ou não pela receptividade da leitura pelos adolescentes.

O sucesso com o público infanto-juvenil fez com que Maria Antonieta Antunes Cunha estabelecesse uma comparação entre Orígenes Lessa e Monteiro Lobato, ressaltando as características que os aproximam, como a comicidade e o humor, elementos que prendem a atenção das crianças, além de certo olhar crítico diante da vida. Essa criticidade se apresenta de forma lúdica e atinge um alto nível de comunicação com o público infantil. Tanto Lobato quanto Lessa tinham a qualidade de exímios contadores de histórias, porém cada um possuía, apesar das semelhanças, as suas peculiaridades estilísticas, ainda que ambos produzissem obras voltadas para a esperança, revelando fé em um mundo melhor. Maria Antonieta Antunes Cunha observou em seu estudo semelhanças entre os dois autores, o que a levou a tecer o seguinte comentário: "Na literatura infantil é legítimo sucessor de Monteiro Lobato. As mesmas emoções a criança experimenta na leitura de um e de outro."

A afirmação de Maria Antonieta Antunes Cunha leva-nos à questão das leituras de Orígenes Lessa e da presença lobatiana em suas obras. E, assim como ela, outros estudiosos também viram nas obras de Orígenes Lessa certa similaridade com as de Lobato. Francisco de Assis Barbosa afirmou:

Seguis a mesma trilha, senhor Orígenes Lessa, sem pretender o lugar deixado por Lobato. Vossa mensagem é bem diferente, sem agressividade, espírito polêmico ou depreciativo.

Ainda sobre a comparação de Lessa com Lobato, a reportagem do jornal Tudo é Diálogo de Porto Alegre, também apontou semelhanças entre os dois autores, no que diz respeito ao interesse do leitor pela obra.

Como autor de obras destinadas ao público infanto-juvenil, Orígenes Lessa talvez só possa ser nivelado em nosso país, com seu co-estaduano, o genial Monteiro Lobato. De fato, cada um com suas características fundamentais no modo de realizar a narrativa, ambos conseguiram que suas criações, suas histórias e suas personagens prendessem a atenção dos leitores não só dos jovens, mas igualmente dos adultos.

O interesse do público permitiu que se comparasse Orígenes Lessa a Monteiro Lobato. Porém, em entrevista cedida a Jorge de Aquino Filho para o especial da Revista Manchete o autor de O feijão e o sonho afirmou ser apenas um admirador de Monteiro Lobato, não tendo a pretensão de substituí-lo:

-É possível observar na sua obra características que o aproximam de Monteiro Lobato, como a presença da fantasia, da aventura, do humor e da comicidade, além da preocupação em não dissociar no seu texto o entretenimento da reflexão sobre a vida humana. Você se considera o legítimo sucessor de Monteiro Lobato?

- Nunca tive essa pretensão. Admirei Monteiro Lobato a vida inteira. Foi o autor da minha adolescência. Foi um escritor extraordinário. Não tenho capacidade para substituí-lo(...) Monteiro Lobato tem o lugar dele, que é dele. Há em mim uma grande admiração destituída de qualquer pretensão em substituí-lo.

Outra face de Orígenes Lessa revela o estudioso da Literatura de Cordel, pois chegou a publicar estudos sobre o assunto, e obteve, com essas publicações, repercussão internacional.

Depois de ter participado da Revolução de 1932, e ter sido preso, experiência que resgata em Não há de ser nada em 1932 e Ilha Grande em 1933, foi para os Estados Unidos, onde morou, no início da década de quarenta. Lá trabalhou, em 1942, como coordenador de assuntos internacionais e foi repórter e entrevistador de Charles Chaplin, Sinclair Lewis, Langston Hughes, John Steinbeck, figuras que colaboraram para a formação de sua bagagem intelectual.

Toda essa vivência com escritores estrangeiros, o aprendizado e o contato com outras leituras foram importantes. Ainda nos Estados Unidos, escreveu reportagens sobre brasileiros que lá viviam, surgindo então OK América em 1945, obra jornalística que revela em sua escritura, o autor de literatura. Na biografia de Noel Nutels, trabalho jornalístico e crítico sobre a vida deste médico nascido em Odessa na Rússia e que se preocupava com a saúde dos índios, intitulada O índio cor-de-rosa e editada em 1978,Orígenes Lessa pôde revelar sua habilidade artística .

Os primeiros exercícios de linguagem têm origem na infância, pois ainda criança tentava desvendar o mundo através da linguagem, queria aprender a ler para escrever com carvão nos muros e calçadas, como faziam as outras crianças. Quando, enfim, começou a aprender a ler, isso aos seis anos, ensaiou escrever alguns textos, parte deles copiados, mesmo sem entendê-los, do livro de grego do pai que era professor e pastor protestante. Depois disso, escreveu o que para ele foi o primeiro livro, conforme se lê na entrevista concedida a Cláudia Miranda e Luiz Raul Machado: "Foi em São Luís que escrevi meu primeiro ‘livro’, aos seis anos: A bola."

Após ser alfabetizado, tido como mau aluno, era, no entanto, um leitor ávido. Lia tudo. Na adolescência, leu mais de duzentos livros e foi nesta época que, na escola, por volta dos seus treze e quatorze anos, tendo aguçada a sua criticidade por meio de tantas leituras, fundou o jornal escolar O beija-flor , que se tornou o primeiro degrau na sua escalada como jornalista, chegando a trabalhar, mais tarde, no Jornal Folha da Manhã em 1931.

Fica, então, a questão: quem nasceu primeiro, o escritor de literatura ou o jornalista?

Se respondermos a esta pergunta, tendo como ponto de vista o profissional, responderemos que foi o jornalista. Mas, se analisarmos do ponto de vista da linguagem de seus textos e das conclusões a que chegamos após ler as entrevistas, diremos que foi o escritor que, desde criança, já ensaiava as primeiras letras.

Em estudo sobre o autor, Reynaldo Valinho Alvarez chega a sugerir que o tripé jornalista-publicitário-escritor forma o eixo da obra de Orígenes Lessa:

Como jornalista e publicitário, Orígenes Lessa tinha o sentido da comunicação objetiva, direta, imediata, precisa bastante para a clareza da mensagem, mas ambígua na isca dos subentendidos com que a publicidade atrai e fisga o consumidor.

Nas entrevistas concedidas por Orígenes Lessa, pode-se observar o desejo inato de ser escritor, ainda que para isso tivesse que fazer o percurso do jornalismo e da publicidade.

- Sempre fui muito vadio, mas sempre quis ser escritor. No começo creio não ter manifestado a menor vocação. Meu irmão Vicente, sim (somos seis irmãos). Mais de um deles tinha muito mais jeito para as letras do que eu. Mas, mesmo pequeno, eu tinha a mania da coisa. Queria aquilo e sabia que queria.

Desenvolvendo suas habilidades escriturais enquanto jornalista e publicitário, Orígenes Lessa ia em busca do sonho: tornar-se escritor. Não chegou a formar-se em curso superior, mas pode ser chamado, como o foi Machado de Assis, de autodidata, pois desde muito jovem, a exemplo do pai, cultivava o hábito da leitura de clássicos da literatura, da filosofia e , embora se tivesse afastado da religião na década de vinte, era um estudioso da Bíblia.

Os temas abordados na obra lessiana contemplam os dramas humanos vividos no cotidiano, com ênfase ao drama do homem como vítima do contexto social e econômico que aniquila o sentimento e a sensibilidade. Orígenes Lessa trabalha esses dramas num misto de tristeza e alegria, uma sátira dos sofrimentos beirando a ironia. Fantasia, humor, amor, misturados ao cômico e à tristeza, tudo que compõe o vasto universo interior do homem está presente na obra de Orígenes Lessa, levando-nos a refletir criticamente sobre situações diversas: tudo pode ser pensado e repensado pelo leitor que encontra nos textos a constância dos erros e acertos do homem, vítima das paixões individuais e dos problemas existentes na sociedade, levando-nos a reflexões sobre questões universais, filosóficas, sobre o ser e o estar no mundo. Esse enfoque foi analisado por Mário da Silva Brito em um de seus textos sobre Orígenes Lessa:

Às pesquisas formais, Orígenes Lessa tem preferido, ao longo de sua carreira de narrador, a preocupação do conteúdo ficcional. Em vez da aparência pretende a essência. Daí interessá-lo, na prática literária, o drama humano, pequeno ou grande, profundo ou intenso, extenso ou raso.
Homero Senna, ao tecer comentários sobre os contos de Orígenes Lessa, compara-o a Wilde e Maupassant, afirmando:

Como são os contos de Orígenes Lessa? São maliciosos, irônicos, mordazes, não raro pungentes. Sabendo, como leitor de Wilde, que a vida, freqüentemente, é mais inverossímil do que a arte, inspira-se em fatos e figuras do viver cotidiano, procurando fazer de suas histórias, como queria o mestre Maupassant, uma fatia da vida.

Embora, segundo Mário da Silva Brito, Lessa tenha-se utilizado, também, do aprendizado de técnicas narrativas de autores como Luigi Pirandello, Franz Kafka, Gilbert Keith Chesterton e James Joyce, no entanto, aproveitou-se dessas "raízes inspiradoras" para compor "a seiva de sua própria e pessoal dicção literária."

Orígenes Lessa foi criador de seu próprio estilo e, embora não tenha desprezado todas as propostas literárias surgidas entre os idealizadores da Semana de Arte Moderna, como o uso de uma linguagem extremamente brasileira, sem resquícios e ornamentos eruditos, manteve-se fiel às suas próprias tendências. A escritura de Orígenes Lessa conduz o leitor mansamente como as águas calmas de um rio conduzem seu fluxo à grandiosidade do mar.

Artur Eduardo Benavides, em artigo publicado na Revista Leitura, refere-se ao defeito da imitação, isentando Orígenes Lessa de tal defeito. Segundo seu ponto de vista, o autor é:

...simples e liberto de qualquer defeito de imitação de mestres ou de escolas, qualidades essas que se manifestam em todas as suas páginas, algumas das quais podem ser consideradas verdadeiramente antológicas.

A dramaticidade da vida humana proposta nas obras de Lessa, assim como de obras de autores do seu repertório de leitura tem, como pano de fundo, a realidade urbana, com personagens e ambientes bem próximos da vida real, figuras do dia-a-dia, quase sempre de uma vida moderna que são flagrados e trabalhados pelo autor. Orígenes Lessa retirava do mundo as mais diversas situações e transformava-as em arte, algo que só alguém que viveu às voltas com a escritura, num trabalho de dedicação para com as letras, e tem uma base intelectual como a sua, pode fazer.

Francisco de Assis Barbosa, escritor e membro da Academia, no discurso de posse de Orígenes Lessa na Academia Brasileira de Letras, parece ter fechado a questão em relação ao trabalho do jornalista que teria contribuído para a produção literária de Orígenes Lessa, ao afirmar: "Viestes do jornal, uma universidade."

Sem dúvida, o estilo literário de Orígenes Lessa tem muita relação com o estilo jornalístico e publicitário de que herdou a construção instantânea de frases de impacto, juntamente com a experiência na escolha e uso de determinadas palavras, adquirindo versatilidade e agilidade.

Orígenes Lessa aprendeu no jornalismo e na publicidade a ser conciso, sem por isso dizer pouco. Exercitou o trabalho de lapidador, retirando o excesso que pode sobrepujar em textos de autores inexperientes, conferindo à sua literatura características difíceis de serem alcançadas: precisão e arte, com o emprego certo das palavras certas, um trabalho de artesão da escrita, o que fica patente na reelaboração de seus textos. As peculiaridades inerentes à profissão de jornalista e propagandista, Lessa conseguiu transportar para a de ficcionista. O compromisso de escrever por encomenda, como escrever para uma determinada campanha, para uma data também determinada, foi mantido na construção da ficção, como Lessa mesmo ressaltou: "...eu gosto mais daquilo que estou fazendo naquele momento. Ou então, escrever por encomenda..."

Escrever por encomenda não desmerece quem domina a técnica da linguagem. Nos textos jornalísticos, publicitários e literários, a linguagem se faz de maneira natural, consolidando beleza e utilidade, aumentando o poder de comunicação.

Mas Orígenes Lessa sabia que, assim como na publicidade, na ficção, apenas o uso da palavra não garante público. Na propaganda, ele dizia ser necessário não só argumentar, mas criar no anúncio a necessidade no comprador pelo produto anunciado.

Na literatura, o processo de cativar o leitor não se dá de forma diferente. Suas obras vão ao encontro dos anseios e necessidades de cada leitor, possibilitando a fruição da obra, num jogo de perguntas e respostas que envolvem o escritor e o leitor na dialética do texto. A literatura de Lessa é, para usar um termo de Mário da Silva Brito, escritor e amigo pessoal de Orígenes Lessa, "de comunhão" e, porque não dizer, de diálogo com seu leitor que se vê envolvido pela ficção. Um diálogo velado, de forma indireta, que ocorre por meio do diálogo das próprias personagens do qual o leitor participa vivendo, encarnando seus problemas, tomando partido, envolvendo-se e opinando.

O diálogo, uma constante nas obras de Lessa, que fez render-lhe o título de "mestre do entrecho e do diálogo", embora usado demasiadamente, não afeta a qualidade dos textos, pois o autor sabe dosá-lo com equilíbrio às situações, às tramas e às personagens, tornando favorável a adaptação de seus textos para o teatro, cinema e novelas de rádio e T.V. como aconteceu com Noite sem homem em 1968, O feijão e o sonho em 1976, e Juca Jaboti, Dona Leôncia e a super-onça em 1976 e fez render a Orígenes Lessa uma crítica favorável, quanto ao enredo de suas obras, pelo crítico Hugo Barcellos:"Machado de Assis, Orígenes Lessa e outros contistas brasileiros forneceram, afinal, aquilo que estava faltando ao cinema pátrio - enredo."

O uso do diálogo confere às personagens lessianas uma vivacidade, dá alma aos seres ficcionais e constitui um elemento importante para o entendimento do processo criador de Orígenes Lessa e da recepção de sua obra pelo leitor.

Os artifícios utilizados por Lessa na criação de suas obras sempre foram frutos de sua preocupação com o leitor, seja ele adulto, infantil ou juvenil.

Orígenes Lessa merece toda a atenção dos educadores e dos pais com toda a segurança da maior seriedade e do maior carinho para com a formação conveniente de seus pequenos patrícios.

Daí a busca de uma perfeição, almejada por ele, quando fez mais de quinhentas alterações da quarta para a quinta edição de O feijão e o sonho e a humildade em dizer que não seria leitor de suas próprias obras. Isso faz parte de um comprometimento com o leitor e de uma visão perfeccionista de quem é capaz de afirmar:

Não gostei de nenhuma de minhas obras, não gostei porque sempre procuro escrever outras em busca da perfeição.

E ainda:

Gostaria de encontrar tempo para fazer uma grande varredura em tudo que escrevi.

O feijão e o sonho conta com mais de sessenta edições e teve repercussão nacional e internacional e, mesmo assim, Orígenes Lessa foi capaz de dizer que com esse romance teve sorte. Segundo Orígenes Lessa, O feijão e o sonho foi escrito em três semanas num escritório de propaganda, o que fez sofrer, nas novas edições, cortes e correções: "Cortar é mais importante e difícil do que acrescentar. Da quarta para quinta edição fiz mais de 500 modificações."

As vendas do romance aumentaram muito após a apresentação da novela pela T.V. Rede Globo, conforme a comprovação pelo bilhete enviado em dez de outubro de 1976 por Orígenes Lessa ao amigo Clóvis Pacheco que o publicou, mais tarde, no jornal de São Carlos de nome A Tribuna: "Clóvis, com a novela na T.V. Globo, saíram cinco edições sucessivas num total de 88.000 exemplares. Valeu o risco... Um abraço do Orígenes."

Contudo, a obra já havia sido lida por muitas pessoas e editadas várias vezes, antes mesmo do sucesso na televisão, o que mostra que não foi a obra televisiva que favoreceu a literatura, uma vez que esta já havia conquistado seu espaço por si própria, pois uma obra sem sucesso não seria adaptada para a televisão. Ao ser adaptado, o romance sofreu muitas alterações e Lessa nem quis ler o script antes de ir ao ar. Apenas acompanhou a reação do público que consumiu, só das Edições de Ouro, mais de 80 mil exemplares.

No ano de 1988, O feijão e o sonho foi traduzido para o Braille. Porém, com tanto sucesso obtido pelo romance, Orígenes Lessa se viu descontente com sua repercussão no meio infanto-juvenil com o qual, talvez, o enredo se identificasse, o que favoreceu a leitura, mas a contragosto de Lessa que via no romance uma leitura destinada a um público mais amadurecido, fugindo por muito tempo de um encontro direto com as crianças e adolescentes, quando convidado para dar palestras nas escolas.

Lessa afirmava não ser O feijão e o sonho sua obra preferida, embora fosse a do público. Dizia gostar mais de Rua do Sol editado em 1955,que trazia lembranças de sua infância e de Evangelho de Lázaro editado em 1972,que tinha muita relação com suas crises existenciais. Mas, sendo este o primeiro romance do autor, ficou evidente, seguindo o sucesso com seus livros de contos O escritor proibido editado em 1929 e Passa-três editado em 1935, a qualidade de romancista e "senhor da carpintaria do romance", devido à habilidade no trato com as palavras e na construção de textos, o que lhe conferiu valor como escritor de literatura.

Por todo este vasto trabalho no campo da escrita, Orígenes Lessa foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras no dia nove de julho de 1981 e, para encerrarmos estes apontamentos, voltemos às palavras de Josué Montello que termina seu artigo sobre Orígenes Lessa dizendo:

Todos nós temos duas datas para o ponto de partida de nossa biografia: a do dia em que nos puseram no berço, aos gritos, e a do dia em que tomamos conhecimento da vida e do mundo. A primeira é a que efetivamente conta para a banalidade usual de nossa cronologia; a segunda, mais importante para o ser humano, é aquela em que nos inserimos na vida consciente, começando a recolher as impressões lúcidas e indeléveis que nos acompanharão por toda a existência e com as quais criamos o nosso próprio mundo.

A data de partida da biografia de Orígenes Lessa, além da primeira, a de seu nascimento, aquela que os anos se encarregaram de levar, é, também, a de sua primeira escrita, que começou aos seis anos com o seu provável primeiro livro, A bola, momento a partir do qual Lessa foi despertado para a arte literária e não parou mais, despertando em nós, seus leitores, o prazer pela literatura, pela arte e a consciência da vida.

Fonte:
Adriana Maria Toniolo Jacon. trecho de Dissertação de Mestrado apresentada à Unesp-Assis, em julho de 1999, ORÍGENES LESSA: A LETRA E O SONHO. Disponível em
http://www.lencoispaulista.sp.gov.br/bmol/CURIOSIDADES/_AS_VARIAS_FACES_DA_ESCRITURA_/_as_varias_faces_da_escritura_.html

Origenes Lessa (O Natal de tia Calu)

Tia Calu deixara a porta semi-aberta, para não correr a todo instante a receber os rapazes. Maria Augusta, sozinha, não daria conta do recado. Eram salgadinhos de toda sorte, delicados pastéis, empadinhas apimentadas, camarões recheados, canapés de salmão importado, caprichosas invenções do seu reconhecido gênio culinário. Entre os presentes recebidos àquela manhã havia dois vidros grandes de caviar. Seriam a surpresa da noite. Cortava, amassava, picava, colocava, com requintes de decoradora, trabalho amoroso e sutil, em que punha a alma. Naquela noite todos viriam! Pela primeira vez todos estariam em sua casa, na doce festa de Natal.
Soaram passos na sala.

— Vai ver quem chegou, Maria Augusta.

A preta espiou à porta, viu um jovem oficial, de malinha na mão, contemplando risonho a grande árvore, fulgurante de luzes.

— Tem um que eu não conheço. Está fardado.

— Fardado?

Seu rosto subitamente se fechou. Tia Calu, em suas festas, não gostava que eles viessem de uniforme e todos sabiam disso. O uniforme era a lembrança viva do perigo permanente, da ceifadora implacável.

Tia Calu, em silêncio, lavou as mãos à torneira, enxugou-as lentamente.

— Você, meu filho?

— Pois é, tia Calu — disse o rapaz, alegre, ligeiramente constrangido. — Tenho que estar no campo às cinco horas. Vou para Assunção. Posso dormir aqui, depois da festa?

— Claro, seu pirata! — disse tia Calu abrindo-lhe os braços, beijando-o na testa.

E já brincalhona:

— Mas quem não trabalha não come e não dorme. Venha ajudar na cozinha, que está tudo atrasado e às dez horas a Maria Augusta vai-se embora. Tem festa também...

O capitão deixou a malinha a um canto, sacou fora o dólmã, arregaçou as mangas da camisa.

— Assim que eu gosto. Soldado enfrenta o inimigo em qualquer terreno. E se adapta... A capacidade de adaptação é tudo...

— Eh! Eh! Eh! — riu Maria Augusta, feliz. Ela gostava daquela rapaziada porque topava tudo, não tinha orgulho. Onde é que já se viu um capitão cheio de medalhas botar pastel na frigideira e ficar todo salpicado de gordura?

— Eh! Eh! Eh! Essa Dona Calu tem cada idéia! Mas já havia rumor novo na sala.

— Ô de casa! Pode-se entrar?

— Rua! — disse tia Calu aparecendo, os claros dentes abertos num sorriso. — Rua! Isto aqui não é casa da sogra! — Rua! Rua!

Estava com as mãos cheias de pacotinhos, que os dois lhe passavam.

— Vocês são umas crianças! Pra que essa bobagem?

E colocou, numa alegria de mãe feliz, os pacotes junto ao embrulhinho que o capitão auxiliar de cozinha depositara timidamente sobre um móvel.

— Vocês são impossíveis!

— Sabem que hoje não vai faltar ninguém?

— Não diga! — exclamou surpreso um dos recém-chegados.

— Não falta ninguém! O Guilherme chegou hoje do Pará. Já me telefonou. O Oto conseguiu habeas-corpus da família. Prometeu que vem. E até o Mesquita. Ele me telegrafou de Bagé. Conseguiu licença. Deve estar chegando...

E já dona-de-casa:

— Vão se servindo. Uísque tem à bessa.

— Uísque? Com os preços que andam por aí?

— Ora! Pra que é que a tia Calu trabalha? Não é pra vocês? Sobe o preço do uísque eu subo o preço das aulas, ora essa! Eu acompanho a marcha do câmbio...

Voltaram-se os três. Dois braços apontavam na porta, cada um terminando por uma garrafa de uísque. Tia Calu sorriu de novo:

— E depois, nem era preciso. Eu trabalho com um corpo incansável de contrabandistas... Eles não falham nunca!

Abraços e gargalhadas festejaram a aparição dos braços e garrafas.

— Gelo é só buscar lá dentro!

Voltou à cozinha:

— Vai fazer sala, capitão de bobagem. Seus companheiros estão chegando. Aqui você serve só para atrapalhar.

Vozes e exclamações festivas animavam a sala. Duas horas da manhã!

— Um uísque só — pediu o oficial que chegara primeiro.

— Guaraná, capitão. Hoje você é donzela. Também, pra que é que foi aceitar serviço para a manhã de Natal? É guaraná, se quiser. Você tem de voar muitas horas. E não amola, não, que daqui a pouco eu te ponho na cama...

Tia Calu se mirava amorosa nos doze rapazes. Estavam todos! Não faltava nenhum. Uma juventude magnífica, alguns prematuramente graves, alguns melancólicos, a família longe. O Heitor, um dos bravos da campanha na Itália, fumava muito sério, o copo de uísque na mão esquerda. No mundo, só tinha tia Calu. O único irmão perecera num desastre, dois anos antes, nas margens do Guaporé. Subira num avião obsoleto, que ele sabia sem condições de vôo. Dois outros recordavam uma viagem por Mato Grosso, em que o avião caíra. Haviam escapado por milagre. O mecânico desaparecera.

Tia Calu contemplava a sua macacada, como sempre dizia.

— Vocês não podiam respeitar um pouco esta casa? Isto é família, tá bem?

— Ora, tia Calu, não chacoalha — sorna um rapaz moreno, de sobrancelhas espessas.

Estava a contar ao amigo a história de uma garota conhecida em Anápolis.

E continuando, já alto de uísque:

— Você não faz idéia! Nunca vi criatura mais clara, cabelos mais louros! Mas louro natural, entendeu? Uma coisa maravilhosa! Custei a acreditar que fosse goiana. A gente sempre acha que goiano tem de ser índio...

— O Lauro era goiano e parecia alemão — disse tia Calu.

Ouve um silêncio pesado. Rápido. Lauro caíra seis meses antes. O motor falhara. O avião fora descoberto uma semana depois, quatro homens carbonizados em plena floresta. Tia Calu sentiu um arrepio. Ouvia ainda as três descargas em funeral, diante da cripta dos aviadores, no São João Batista. Vinte e oito anos.

(— Estou ficando velho, tia Calu. Parece que vou ficar pra semente...)

Tia Calu ergueu o copo de uísque à altura dos lábios. Sorria para o Capitão Eduardo:

— Está com inveja, hem, seu boboca? É pra você não aceitar vôo em véspera de Natal, tá bem?

O rapaz fez um muxoxo infantil:

— Ora, tia Calu.

— É pra aprender, entendeu? Olha, prova esses camarões... Trabalho de mestre... Duvido que você já tenha comido coisa melhor... Alguém cantarolava na cozinha, procurando mais gelo.

— Pára com essa taquara rachada — ordenou uma voz, ligeiramente engrolada.

Tia Calu se ergueu, dirigiu-se para o interior. Voz tinha o Meira. Estava agora em Pistóia. Tia Calu mordeu os lábios. Meira deixara um filhinho, tinha agora oito anos.

(— O que é que você vai ser quando homem, Vadinho?

— Ué! Aviador, tia Calu!)

Ela já estava na cozinha, um amontoado de bandejas, pratos, panelas, garrafas.

— Puxa! Você não presta nem pra tirar gelo, Simão. Nunca vi cara mais sem jeito! Escorre um pouco de água em cima, que eles se desprendem .

O rapaz olhou-a, atarantado. Tia Calu aproximou-se, em voz baixa:

— Você não tinha arranjado uma colocação no Ministério?

— Falhou, tia Calu.

Ela ficou séria, olhando a testa larga, os olhos ingênuos do moço. Fazendo viagens longas, voando em ferro velho, a mulher esperando bebê. Era o mais imprudente de todos. Na escola, até os instrutores tinham medo de subir com ele. Fora várias vezes censurado, até punido. Adorava os malabarismos no espaço. Ficava possuído, ao subir, de verdadeiro delírio. Dos malucos da turma, dos tidos como malucos, era o único sobrevivente. Por que não tivera ainda a sorte de cair e ficar inutilizado para os vôos, arranjando sinecura numa base qualquer, pegando uma promoção, livrando-a daquela agonia permanente?

— Vai ser menino ou menina?

— Pelo jeito, menina.

— Graças a Deus — disse tia Calu, arrumando uns canapés.

Voltou para a sala com a bandeja. O grupo cantava, agora, um dos sambas do pré-carnaval. Tia Calu parou à porta, contente de ver aquela sadia despreocupação. Eram o seu orgulho, aqueles rapazes. Caíam como pássaros atingidos em bando, por invisíveis caçadores. Tinham filhos, mãe, esposa, irmãs, gente que vivia em terra, sempre de coração pequenino. Voavam sempre, os nervos de aço, a vontade inquebrantável. Pela primeira vez os tinha todos ao mesmo tempo em casa. Rapazes de escol, exemplares raros de coragem, de saúde física, de saúde moral. Era como se fossem filhos. Nunca mãe nenhuma tivera tantos filhos, tantos filhos tão jovens, tão fortes, tão belos. Pena que não estivessem todos como Carlos. Ah! antes estivessem! E o coração apertado, pousou os olhos enternecidos em Carlos. Somente Carlos não cantava. Levava aos lábios um pastel de camarão. Uma entrada profunda no frontal, que lhe deformava a cabeça, garantia que Carlos não voaria mais.

Olhou o relógio de pulso.

— Duas e meia, capitão! Berço! Chega de guaraná! Vai dormir! Quer que eu te chame a que horas?

O rapaz, que cantava também, quis protestar.

— Não tem choro não. Vai dizendo boa-noite, dá um beijo na mamãe, vai dormir.

O capitão se ergueu, obedeceu docilmente. Pouco depois, um a um, o grupo se dispersava.

— Bom Natal, tia Calu.

Quando se viu só — o capitão ressonava. Maria Augusta saíra às dez horas, o apartamento em silêncio — tia Calu olhou a sala. Parecia um campo de batalha. Precisava pôr em ordem tudo aquilo, senão Maria Augusta resmungaria o dia inteiro. Começou a reunir os copos numa bandeja. Treze copos, doze de uísque, um dela, e o de guaraná, do capitão que ressonava. Aproximou-se, na mão a bandeja, ficou a observar-lhe o sono vagamente atormentado. A seguir, voltou e, a bandeja sempre na mão, atulhada de copos, enfrentou o retrato do filho na parede principal da sala, medalhas e citações ao lado. Durante toda a noite passara despercebido. Havia como que um acordo tácito. Tia Calu agora encarava o filho. Depois, os olhos enxutos, agitou a cabeça:

— E pensar que vocês eram setenta e oito, tenente, setenta e oito!

Fonte:
Balbino, Homem de Mar, Livraria José Olympio Editora — Rio de Janeiro, 1960, e extraído do livro Entrevero, publicação da L&PM Editores — Porto Alegre, especialmente para a MPM Propaganda, pág. 264. Disponível em http://www.releituras.com/olessa_calu.asp

domingo, 30 de março de 2008

Osman Lins (Lisbela e o Prisioneiro)

Osman Lins participou da vida literária e cultural do Brasil entre 1955, quando publicou seu primeiro romance, O visitante, até sua morte, a 08 de julho de 1978. Autor de uma obra vasta e variada (contos, romances, novelas, peças de teatro, livros de viagem, poesias, casos especiais para televisão, ensaios e artigos), este pernambucano de Vitória de Santo Antão sempre deixou claro que a menina de seus olhos era a ficção narrativa.

De fato, contos e romances foram objeto de extrema dedicação, imune a concessões que garantiriam a Osman Lins sucesso de público, mas que o desviariam de seu projeto literário, direcionado pela idéia de encontrar uma forma específica para dar conta da visão de mundo a que chegara em sua maturidade. Visão expressa literariamente a partir de Nove, novena (1966).

Além do romance inaugural já mencionado, antecederam este livro composto por nove narrativas, Os gestos (contos1957) e O fiel e a pedra (romance, 1961). Todos gravitam em torno da narrativa tradicional e demonstram um feliz domínio de fusão de técnica e estilo, regado por frases com ritmos adequados, por palavras exatas, por acertadas e belas imagens.

Os mesmos tipos de personagens de seus primeiros livros (velhos, doentes, crianças, adolescentes, mulheres em situações prosaicas da vida, em geral, em solo nordestino) se mantêm ao longo de sua obra, num registro lírico de literatura introspectiva, marcada pela solidão, mas também impregnada de problemática de ordem social, às vezes com sutileza, outras, com tintas mais fortes. Nove, novena e os romances Avalovara (1973) e Rainha dos Cárceres da Grécia (1976) diferenciam-se, no entanto, de seus primeiros livros pela quebra da ilusão da realidade com a rarefação e a dispersão do enredo, por novos processos de composição da personagem e por alta dose de reflexão sobre o romance, o que lhes permite representarem um “momento de decisiva modernidade”, na Literatura Brasileira dos anos de 1970. A fidelidade de Osman Lins à busca de uma expressão própria na ficção, decorrente de uma recusa à cômoda retomada do já conquistado e de uma fé inabalável no poder criador da palavra, foi reconhecida e admirada pela crítica brasileira e estrangeira, com raras exceções. No entanto, ele é um autor ainda pouco difundido. Por isso é oportuna esta publicação de Lisbela e o prisioneiro.

O reaparecimento desta obra é especial porque permite ao público entrar em contato com o texto, no registro dramático, de um autor meticuloso no uso da palavra e na arquitetura da peça. Além disso, revela um aspecto decisivo de sua personalidade literária e cultural no sentido de procurar dar o melhor de si, mesmo na esfera que, a rigor, não é a de sua preferência. Consciente e cioso de seu ofício com a palavra, tudo o que dispõe para seus leitores é fruto de um período de preparação.

Para escrever Lisbela e o prisioneiro, Osman Lins não demorou dez anos de exercício constante até atingir a configuração harmoniosa como ocorrera com seu livro de contos Os gestos. Ao contrário, iniciou-a em 25 de julho e a concluiu a 9 de setembro de 1960, tendo se dedicado às modificações que lhe pareceram necessárias nos dias restantes do referido mês, conforme seu depoimento, publicado no programa distribuído por ocasião da primeira temporada de encenação da peça pela Companhia Tonia, Celi, Autran (CTCA) no Teatro Mesbla, no Rio de Janeiro, em 1961.

No entanto, Lisbela e o prisioneiro é fruto de um meticuloso trabalho preparatório, pois Osman Lins já tinha obtido menção honrosa no I Concurso Nacional da Cia. Toni-Celi-Autran, com a peça, O vale sem sol, em 1958. Insatisfeito com sua incursão como dramaturgo, considerando-a deficiente, matricula-se, nesse mesmo ano, no Curso de Dramaturgia da Escola de Belas Artes de Recife, onde vem a ser aluno de Joel Pontes, de Hermilo Borba Filho e de Ariano Suassuna. Numa entrevista, Osman Lins mencionará este último como professor da disciplina de play-writer, que teria exercido uma possível influência sobre ele, no que diz respeito às normas de composição de Lisbela e o prisioneiro.

Ao concluir o curso, em 1959, escreve um drama em três atos, Os animais enjaulados. No ano anterior, solicitado por uma de suas filhas, compusera num só dia um auto de Natal, O cão do segundo livro, em dois atos. Depois deste paciente exercício, assumido com humildade (Osman Lins já tinha publicado dois livros de ficção, reconhecidos e premiados, quando se tornou aluno no Curso de Dramaturgia), o obstinado escritor pernambucano obteve o primeiro lugar de comédia no 2 Concurso Nacional da Cia. Tônia , Celi , Autran.

Outras peças serão ainda escritas por Osman Lins: Guerra do cansa-cavalo (prêmio Anchieta, 1965; encenada em 1971, na inauguração do Teatro Municipal de Santo André); peça infantil, Capa Verde e o Natal (prêmio Narizinho, da Comissão Estadual de Teatro, 1965); Mistério das figuras de barro (dirigida pelo autor e encenada pelos alunos da Faculdade de Marília, em 1974); Santa, automóvel e soldado (coleção de três peças, publicadas em 1975); Romance dos soldados de Herodes (encenada no Rio Grande do Sul e em São Paulo, em 1977).

Lisbela e o prisioneiro foi sua primeira peça a ser encenada, com retumbante sucesso. E com certeza é a que até hoje teve mais alcance de público. Se muito da fama de uma peça deve ser creditado ao trabalho de direção, ao desempenho dos atores, à cenografia, ao figurino, à iluminação, ao som; outro tanto pelo menos também deve ser atribuído ao texto do dramaturgo.

No caso específico desta peça, adensa-se a função do texto porque se inscreve no ideário do teatro tradicional, sob a pena de um autor obsessivo com a arquitetura da estória e com a atenção à palavra. Desse modo, trata-se de uma peça que também pode ser lida com prazer tanto pelo leitor que se contenta apenas com o divertimento como por aquele mais exigente, que busca, além da fruição, incursões em diferentes níveis de significação que a obra lhe oferece.

Lisbela e o prisioneiro é uma comédia de caracteres, embora as ações desenvolvidas na cadeia de Vitória de Santo Antão desempenhem uma função considerável na sua estrutura tradicional, com exposição, desenvolvimento, falso clímax, clímax, desfecho de situações, vivenciadas por personagens nordestinas e muito bem amarradas.

Lisbela, filha do Tenente Guedes, delegado da Cadeia de Santo Antão, forma par amoroso com o funâmbulo Leléu, um Don Juan nordestino. Esse casal anticonvencional assume riscos em nome de sentimentos intensos. Lisbela foge com Leléu, no dia de seu casamento com Dr. Noêmio, advogado vegetariano, por isso mesmo personagem destoante do meio em que se encontra, prestando-se a alvo de muitas tiradas cômicas. Ao marido, doutor, representante do estabelecido e da segurança, a jovem prefere Leléu, o artista de circo preso, com tudo o que este significa de risco e subversão dos valores vigentes em seu meio.

A peça é dominada pela presença de personagens masculinas. Além das já referidas, atuam na cadeia de Vitória de Santo Antão, Jaborandi, soldado e corneteiro, afeiçoado a fitas em série; Testa-Seca e Paraíba, outros presos; Juvenal, outro soldado; Heliodoro, cabo de destacamento, casado, já com uma certa idade, apaixonado por uma jovem, o qual chega a forjar um falso casamento para possui-la; Tãozinho, vendedor ambulante de pássaros, que rouba a mulher de Raimundinho; Frederico, assassino profissional, à procura de Leléu, que deflorou sua irmã Inaura,e que por ele é salvo, sem saber, de um ataque de boi; Lapiau, artista de circo, amigo de Leléu, que participa da farsa de casamento de Heliodoro com a jovem; Citonho, o velho carcereiro, esperto e dinâmico, cúmplice, no final, de Lisbela e de Leléu e mais dois soldados, personagens mudas.

Lisbela, a única filha do tenente Guedes, é também a única mulher que atua em cena; as outras são apenas mencionadas nos diálogos. E atua com força, porque enfrenta a autoridade patriarcal, representada pelo pai e pelo noivo, ao tomar iniciativa para colaborar com a fuga de Leléu da prisão e a se dispor a abandonar o marido no dia de seu casamento para aventurar-se na vida com o equilibrista. Como se não bastasse isso, é ela quem livra Leléu da morte, ao atirar, aparentemente, em Frederico, o assassino profissional, quando este lhe apontava a arma, pouco antes do desfecho da peça. Parece e julga-se tornar-se uma criminosa, colocando o pai numa situação incômoda. Para livrar a própria filha da cadeia, este usará expedientes comprometedores para a lisura de uma autoridade, com o fito de embaralhar ou ocultar a autoria do suposto crime, pois no desfecho da peça revela-se que Frederico morreu de morte natural. Por suas ações, Lisbela não apenas renega os mesquinhos valores, mas também expõe as fraturas da sociedade patriarcal.

O gênero comédia aliado ao perfil anticonvencional da dupla protagonista foi muito bem escolhido por Osman Lins para pôr em cena, no contexto de uma região de valentias, de sentimentos exaltados, de honra e vinganças, um crime inesperado, porque aparentemente cometido pela jovem Lisbela. Inesperado, mas plenamente justificado, se tivesse ocorrido.

Atitudes que causam surpresa também compõem Leléu, que nada tem de prisioneiro em termos dos valores estabelecidos, garantidores de acomodada segurança, mas negadores da “flama da vida”. Volúvel nos amores, experimentador de várias profissões, portador de diferentes identidades, afeiçoado a riscos e deslocamentos, o circence Leléu, que tanto quer e tanto faz para sair das grades da cadeia de Vitória de Santo Antão, não hesita a ela retornar, só para ficar próximo de Lisbela, quando fracassa o plano de fuga dos dois. O paradoxal retorno à prisão é mais um movimento desta personagem para a libertação das amarras de valores que lhe são menores do que os impulsos da vida. Ele vive sempre com fervor seu minuto de aflição ou de alegria, como bem acentuou o próprio Osman Lins, ao apontar para o efeito contaminador de sua ”flama”, no programa da primeira temporada desta comédia: Leléu acende, mesmo na cadeia, as apagadas chamas de Lisbela e desperta em Citonho, o velho carcereiro, o herói escondido.

Aliás, essa personagem é uma daquelas que mais se destacam na peça e atraem a atenção e a conivência do leitor, porque de velho caduco e fraco, propício a gozações dos mais jovens e fortes, ele não tem nada. Com maestria, Osman Lins desvela na personagem octogenária, enfraquecida, em tese, pela faixa etária e pela categoria da função exercida, a mais desqualificada do contexto da peça, sua perspicácia, lucidez, força e coragem. O velho solitário considerado caduco pelo tenente Guedes é o que, de todos os seus submissos, mais o enfrenta: toma partido de Lisbela e de Leléu, em prol do amor libertário, com todos os seus riscos, e age com esperteza para proteger a jovem da suposta autoria de seu crime. Enfim, do velho também emanam vida e movimento.

Essa poética do avesso contribui ainda para relativizar o lado antipático do tenente Guedes, representante da polícia. Apesar de suas atitudes condenáveis, como os desmandos, a prepotência, a conivência com o crime, o delegado mostra-se humano quase todo o tempo. Por causa de sua função, não consegue se desvencilhar do “encarceramento profissional” e se vê obrigado a tomar atitudes contrárias a seu temperamento. Eis um dos motivos pelos quais está sempre a afirmar que “a autoridade é um fardo”. Bordão com efeitos cômicos, de acordo com as situações nas quais é proferida. No fundo, o tenente Guedes é mais prisioneiro de sua profissão que todos seus subalternos.

Dentre estes, merece menção especial o soldado e corneteiro, Jaborandi, que vive fugindo do local de trabalho, para assistir fitas em série no cinematógrafo, interrompendo seus momentos de fantasia, na hora que tem de tocar a corneta. Em meio a idas e vindas, ele vive entre o sonho e a realidade, mas uma realidade na qual sua função, tocar corneta, é desprovida de sentido conseqüente, a não ser o de acentuar a sua falta de sentido naquele contexto: para quê tocar corneta numa prisão? No mínimo, tais cenas provocam o riso, cumprindo sua função na comédia, e abrem brechas para o próprio Jaborandi e outras personagens estabelecerem ligação entre as estruturas das fitas em série (filmes de bandido e mocinho) e os episódios da comédia, além de interiorizarem na própria peça alusões às relações entre a vida e a fantasia.

Por mais despretensioso que tenha sido Osman Lins na composição simples e direta desta comédia, quando se encontrava ainda na fase da busca de caminhos próprios para sua ficção e para seu teatro, como ele próprio afirmou em entrevista concedida em 1961, o fato é que Lisbela e o prisioneiro é uma peça de um autor seguro, engenhoso e talentoso, que tem muito ainda a dizer em nossos dias, desde o que se refere aos desmandos e à conivência da polícia com o crime até questões de ordem existencial.

O regionalismo de Lisbela e o prisioneiro, fundado no aproveitamento de incidentes testemunhados por amigos, por familiares e por Osman Lins bem como apoiado na transposição de ditados, expressões populares e dísticos encontrados em pára-choques de caminhões, é transfigurado sob a pena de seu autor. Matéria e linguagem re-elaboradas tecem esta peça, regada por uma equilibrada dosagem de leveza, comicidade e ternura, e assentada em valores libertários em prol da vida, o que lhe abre as portas para outros tempos e outros espaços.

O Filme
Lançado no Brasil em 2003, por Natasha Filmes / Fox Film do Brasil / Globo Filmes / Estúdios Mega. Direção: Guel Arraes. Elenco: Selton Mello (Leléu); Débora Falabella (Lisbela); Virginia Cavendish (Inaura); Bruno Garcia (Douglas); Tadeu Mello (Cabo Citonho); André Mattos (Tenente Guedes); Lívia Falcão (Francisquinha); Marco Nanini (Frederico Evandro)

Premiações
Ganhou 2 prêmios no Grande Prêmio Cinema Brasil, nas seguintes categorias: Melhor Ator (Selton Mello) e Melhor Trilha Sonora. Recebeu ainda outras 10 indicações, nas seguintes categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Bruno Garcia e Tadeu Mello), Melhor Atriz Coadjuvante (Virginia Cavendish), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Figurino, Melhor Maquiagem, Melhor Montagem e Melhor Som.

Curiosidades
- Lisbela e o Prisioneiro é o primeiro longa-metragem do diretor Guel Arraes feito especificamente para o cinema. Seus filmes anteriores, O Auto da Compadecida e Caramuru - A Invenção do Brasil, eram adaptações de miniséries exibidas pela Rede Globo.

- Antes de levar Lisbela e o Prisioneiro aos cinemas, Guel Arraes adaptou o texto de Osman Lins para um especial de 50 minutos exibido pela Rede Globo e ainda uma peça teatral.

- Foi o 7º filme mais visto em 2003 no Brasil, tendo levado 3.146.461 pessoas aos cinemas.

Fontes:
Sandra Nitrini. Planeta, junho de 2003
http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php?op=resumos/docs/lisbela

Érico Veríssimo (Um Lugar ao Sol)

Vasco caminha pela vida numa incansável e persistente busca: de emprego, de amor, de dias melhores... Mas não importa. Já se habituou a viver em constante contradição. Busca as aventuras da boemia e descobre os prazeres de um viver regrado. Como será o amanhã? Não se sabe... Há dificuldades imensas, mas é certo que também existe Clarissa, sua paixão, o elo que o prende à realidade. A vida ainda vale a pena! Permanecer e lutar ou ganhar mundo com seu pai, num percurso solitário? Erico Verissimo consegue, neste livro contundente e atual, mostrar que, apesar dos pesares que marcam o destino inexorável do homem, todos nós temos direito a Um Lugar ao Sol. Neste livro, o escritor consegue elaborar de modo impecável um retrato vivo da complexidade do ser humano e das questões que o inquietam. Reunindo personagens já conhecidas de suas obras anteriores, coloca-as a nu, com uma linguagem sincera e comovente, criando situações em que o cotidiano se impõe sempre, implacável. Assim, à miséria e à violência que marcam o destino do homem, somam-se aspectos do mais profundo humanismo: a solidariedade irrestrita, a esperança de uma vida melhor, a amizade, a paixão.

Sempre crítico, o autor analisa a sociedade procurando compreendê-la de forma realista, isenta. E as personagens, vivendo o presente intensamente, ao sabor dos acontecimentos, não se preocupam com o amanhã. É melhor "seguir ao acaso, como os barcos antigos, sem bússula nem porto certo, guiados apenas pelas estrelas". Com uma temática atual e forte, o enredo envolve o leitor e leva-o a refletir sobre o próprio destino, seus encantos e desencantos, sua impotência e pequenez frente à vida.

Fontes:
http://www.coladaweb.com/resumos/lugarsol.htm
http://www.traca.com.br/ (figura)

José Saramago (A Jangada de Pedra)

O romance se inicia com a narração de alguns casos insólitos - Joana Carda e a vara de negrilho, Joaquim Sassa e o arremesso de uma pedra ao mar, José Anaiço e os estorninhos e Pedro Orce e o tremor da terra e Maria Guavaira e o fio de lã - onde são interligados mais adiante na narrativa. A Península Ibérica acaba por se soltar do continente europeu. Joaquim Sassa fica sabendo do fenômeno ocorrido com José Anaiço, indo em sua procura para saber a correlação desses fatos com a desagregação da Península. Joaquim Sassa e José Anaiço partem em Dois Cavalos ( carro de Joaquim Sassa ) rumo à Venta Micena (Espanha) à procura de Pedro Orce , que sente constantemente a terra tremer. As autoridades, comprovando tal fenômeno, e, embora não consigam explicá-lo, pedem a Pedro Orce que não comente isso com ninguém. No encontro dos três, viajam à região fronteiriça da Espanha com a França para verem o fenômeno. Decidem por ir à Lisboa. A caminho da capital portuguesa, fazem uma pequena estada em Albufeira. O caos nesta e noutras cidades se torna generalizado. A população, sem ter moradia, começa a invadir os hotéis, que estão vazios por falta de turistas. Choques entre o povo e as tropas do governo geram um clima de intranqüilidade.

A parcela rica da Península ibérica acaba por abandoná-la, levando consigo boa parte de seus capitais por receio dos movimentos populares que aconteciam. Ao chegarem à Lisboa, hospedam-se no Hotel Bragança. O fenômeno dos estorninhos chama a atenção da imprensa, que descobre os nossos protagonistas. Manchetes nas redes de televisão, rádios e jornais levam as autoridades a buscarem Joaquim Sassa e Pedro Orce para averiguações. Joana Carda vai ao encontro do grupo por ser portadora de outro fenômeno (aludido no início do enredo). Joana Carda hospeda-se no Hotel Borges. O grupo empreende uma viagem à Ereira, onde Joana passou a viver depois de separada e se dá o fenômeno da vara de negrilho. Inicia-se um romance entre Joana e José Anaiço. Ao chegarem ao local do risco, encontram o Cão Constante, carregando um fio de lã azul à boca, que se junta ao grupo, afeiçoando-se a Pedro Orce. Os quatro seguem o cachorro que os leva à região da Galiza, hospedando-se no caminho na casa de Joaquim Sassa no Porto.

O destino do grupo é a casa de Maria Guavaira, viúva há três anos, portadora de outro fenômeno: "... não fiz mais do que desmanchar uma meia velha, dessas que serviam para guardar dinheiro, mas a meia que desmanchei daria um punhado de lã, ora o que aí está corresponde à lã de cem ovelhas, e quem diz cem diz cem mil, que explicação se encontrará para este caso,...". Começa um idílio amoroso entre Maria Guavaira e Joaquim Sassa . O rádio noticia a probabilidade de colisão entre a Península e o arquipélago de Açores. Inicia-se outra etapa da viagem, em direção ao oeste peninsular. A viagem é feita pelo grupo em uma galera, pois Dois Cavalos não funcionara mais. Maria Guavaira conduz a galera que é puxada inicialmente por um, posteriormente por dois cavalos (Pigarço e Alasão). A evacuação do leste português é generalizada, deixando cidades abandonadas e a população em desespero.

Os governos português e espanhol se mostram ineficientes quanto ao amparo desse grande contigente de emigrantes. Já distantes da Europa, os Estados Unidos e o Canadá se preparam para dar as boas vindas à Península, começando a idealizar as novas relações estrangeiras entre esses dois grupos. Acontece o inesperado - a Península acaba por se desviar do arquipélago de Açores, mudando naturalmente seu curso ao norte. Todos reiniciam o retorno às suas casas. Nossos viajantes, entretanto, resolvem continuar viajando - agora em direção aos Pirineus. As duas mulheres do grupo acabam por ter relações com Pedro Orce, o que provoca um clima instável nos viajantes. Os viajantes permanecem juntos,mesmo com um certo ressentimento que predominava. Chegam ao fim da Península, extasiados com o espetáculo natural que presenciam. A Jangada de Pedra pára. Portugal fica voltado aos Estados Unidos e a Espanha para a Europa.

Pedro Orce ainda afirma que a terra treme, o que acaba por se confirmar com a retomada do movimento peninsular, que fica a girar em torno de seu próprio eixo durante um mês. "Dois Cavalos seguia devagar (...), agora os viajantes demoravam-se nos lugares (...)". Por essa ocasião, as mulheres percebem que estão grávidas, não sabendo ao certo sobre a paternidade. O grupo encontra Roque Lozano, o qual viera em seu burro ( Platero) para ver o desregramento. Roque Lozano junta-se aos viajantes para retornar à sua casa (Zufre), como era idéia de todos. A Península começa a vagar rumo ao sul. Os Estados Unidos perdem o interesse de antes pelos povos peninsulares, onde "todas" as mulheres ficam grávidas. Joana Carda tem pressentimentos quanto a Pedro Orce . Este morre no momento em que a galera pára e ele não sente mais o tremor da terra. O grupo descansa para retomar a viagem.

O tempo da narrativa é psicológico. Embora haja referências cronológicas, elas não predominam, além de serem em grande parte imprecisas.

O espaço é a Península Ibérica a vagar pelo Oceano Atlântico.

Os narradores são múltiplos e alternados (variando entre 10 pessoa do singular e plural e 30 pessoa ), o que anula um pouca a presença do narrador tradicional.

Personagens principais: Joana Carda Portuguesa divorciada que mora na região de Ereira. Ao riscar o chão com uma vara de negrilho, os cachorros de Cerbère começam a ladrar, ação que não faziam a séculos. Joaquim Sassa Português (Porto), trabalha em um escritório, estando de férias por uma praia ao norte de Portugal. Lança uma pesada pedra no mar, espantando-se com a grande distância que ela vem a tomar antes de afundar. José Anaiço Português (Ribatejo) com o ofício de professor que fica sendo acompanhado constantemente por uma nuvem de estorninho. Pedro Orce Próximo dos sessenta anos, espanhol da região de Orce, farmacêutico no vilarejo de Venta Micena. Ele sente a terra tremer enquanto que os sismógrafos não conseguem detectar nenhum tremor. Maria Guavaira Habitante da região rural da Galiza, puxa um fio azul de lã de uma meia que se multiplica exageradamente em comprimento. É este fio, através do cão Constante, que traz os outros personagens acima à sua casa.

Linguagem e o estilo da obra O autor se utiliza de períodos e parágrafos muito longos (estes chegando às vezes a uma página ou mais). Há uma total erradicação dos sinais de pontuação (usando predominantemente a vírgula e o ponto). As falas de narrador e personagens são às vezes confundidas, onde o uso do discurso indireto livre é bastante influenciador. A metalinguagem também se faz presente no romance, onde se percebe leves doses de ironia. Dividida em 23 capítulos, a obra preserva o português lusitano (imposição do autor aos países de língua portuguesa), fazendo-se valer de expressões populares típicas de Portugal.

Fonte:
http://www.coladaweb.com/resumos/jangadapedra.htm

Edmond Rostand (Cyrano de Bergerac)

O Valente espadachim e romântico poeta Cyrano de Bergerac não é fruto da imaginação criativa de Edmond Rostand : Saviniano Hércules Cyrano de Bergerac nasceu em Paris em 1619. Aos 19 anos abraça a carreira militar, tornando-se cadete da Guarda de Paris. Participa de várias batalhas, inclusive do cerco de Arras , onde recebe forte golpe na garganta, o que encerra sua vida militar. Em 1653, passa a trabalhar na casa do duque de Arpajon, instalando-se no palácio de Marais, onde é ferido na cabeça devido à queda de um pedaço de madeira do teto. Em 1655, pressentindo a morte, vai para a casa de uma prima- a baronesa de Neuvillette-, vindo a falecer cinco dias depois. Cyrano talvez não tenha tido a coragem, o heroísmo e a nobreza do personagem de Rostand. Mas era um homem polêmico e dedicado à cultura. Foi escritor, teatrólogo, filósofo, ensaísta, comediante e boêmio. E parece que tinha realmente um enorme nariz, motivo de zombarias que o levavam a bater-se em duelo com muita freqüência. Sua obra é pouco expressiva, mas curiosa. Escreveu um volume de Cartas, muitas contendo ataques vigorosos a personalidades da época; uma comédia, Le pédant joué, onde critica seus antigos chefes militares; uma tragédia. A morte de Agripina, citada na peça de Rostand; e uma obra audaciosa, chamada O outro mundo. Muitos dos fatos e personagens incluídos em Cyrano de Bergerac são verídicos, como a batalha de Arras e o inimigo Montfleury.

O famoso escritor Moliér foi realmente contemporâneo de Cyrano, e parece Ter sofrido alguma influência dele ( na peça , é acusado de plagiá-lo). Rostand cita também personagens de outros autores do século XVII, como por exemplo D'Artagnan, o conhecido herói da obra Os três mosqueteiros, de Alexandre Dumas. Quanto a Roxana, teria sido a prima que acolheu Curano pouco antes de sua morte. Não se sabe , porém, se a devotada paixão do célebre narigudo era real, nem tão intensa. Na peça , a jovem aparece como uma "preciosa", uma típica mulher da sociedade parisiense de meados do século XVII, que frequentava salões mundanos, usando linguagem rebuscada e artificial. Embora Molière as tenha satirizado em sua peça As Preciosas ridículas, Rostand não apresenta uma Roxana caricatural, apesar de ela se mostrar um tanto frívola e fascinada pela literatura empolada de Cyrano. Cyrano de Bergerac foi representada em inúmeros paises. No Brasil foi traduzida em 1907 por Carlos Porto Carreiro, cujo trabalho admirável é uma verdadeira proeza de habilidade lingüística.

Fonte:
http://www.coladaweb.com/resumos/cyrano.htm
www.soundtrackcollector.com (figura)

Henry Rider Haggard (As Minas do Rei Salomão)

As minas do Rei Salomão, publicado originalmente em 1885, é um best-seller escrito por Henry Rider Haggard, escritor vitoriano de aventuras e fabulista. O livro narra uma jornada ao coração da África feita por um grupo de aventureiros liderados por Allan Quatermain em busca de lendária riqueza que diz-se estar oculta nas minas que dão nome ao romance. É considerado o primeiro romance de aventura a se passar na África e é considerado o precursor do gênero literário "mundo perdido", em que se descobre um novo mundo, daí sua importância.

Tornou-se um imediato best-seller. No final do século XIX, exploradores estavam descobrindo civilizações perdidas em volta do mundo, como o Vale dos Reis no Egipto, a cidade de Tróia, o Império Assírio. A África ainda era largamente inexplorada e "As minas de Salomão" foi o segundo romance de aventura africana publicado em inglês, capturando a imaginação do público. O primeiro foi Cinco Semanas em Um Balão, publicado em 1863 pelo escritor francês Júlio Verne.
O "Salomão" do título do livro é, claro, o rei bíblico renomado tanto por sua sabedoria quanto por sua riqueza. Um número de locais foi identificado como sendo o lugar onde estariam localizadas as minas de Salomão, incluindo Timna (pequena cidade no Iêmen) perto de Éilat, e muitos lugares "fictícios".

Haggard conhecia bem a África, pois havia penetrado no continente como um jovem de dezenove anos envolvido com a guerra Anglo-Zulu e a Primeira Guerra Bôer, as quais forneceram sua base e inspiração para esta e muitas outras histórias.

Análise

Conta-se que o livro surgiu como resultado de uma aposta de Haggard com seu irmão, a saber, que ele não conseguiria escrever um romance com a metade da qualidade da "A Ilha do Tesouro" (1883) de Robert Louis Stevenson.

Como "A Ilha do Tesouro", a maior parte do livro foi escrita com a perspectiva em primeira pessoa como em um diário de viagens, relatando a aventura, em contraste com a maioria das ficções vitorianas que tinha adotado a perspectiva em terceira pessoa, onisciente, favorecida por escritores influentes como Charles Dickens, Wilkie Collins e Anthony Trollope.

"As Minas do Rei Salomão" foi bastante influente, originando o gênero "mundo perdido", seguido depois por Edgar Rice Burroughs em "A terra que o tempo esqueceu", "O mundo perdido" de Arthur Conan Doyle, "King Kong" de Edgar Wallace e "O homem que queria ser rei" de Rudyard Kipling.

O livro ganhou pelo menos quatro adaptações para o cinema. A obra homónima do escritor português Eça de Queirós, mais que uma mera tradução, constitui uma obra com valor próprio.

Resumo do enredo

Allan Quatermain, um caçador e aventureiro inglês, morando em Durban, África do Sul, é abordado por um aristocrata inglês, Sir Henry, e seu amigo, Capitão Jhon, buscando a ajuda de Quatermain para encontrar o irmão perdido de Sir Henry, visto pela última vez viajando pelo interior em direção ao norte, em uma busca pelas lendárias minas do rei Salomão. Quatermain havia obtido, anos antes, um mapa que levava às minas, sem nunca tomá-lo a sério, mas concorda em liderar uma expedição em troca de parte do tesouro, ou uma pensão para seu filho, se ele for morto no caminho. Ele tem poucas esperanças de retornar vivo. Eles também levam um misterioso nativo, Umbopa, que parece ter uma maneira de falar mais educada e ser mais majestoso e bonito que a maioria dos carregadores, mas que está muito ansioso para juntar-se ao grupo.

Viajando em bois e em carruagens, eles chegam aos limites de um deserto. O mapa de Quatermain mostra um oásis a aproximadamente 96 quilômetros de distância, ou a metade do caminho, e eles continuam a pé, quase morrendo de sede, antes de chegar até ele. Eles completam a segunda metade do deserto sem incidentes e chegam ao sopé de uma cordilheira. Eles sobem até o topo e entram em uma caverna aonde encontram o corpo seco e congelado de José Silvestre, o explorador português do século XVI que havia desenhado o mapa de Quatermain. Eles cruzam as montanhas em direção a um vale cultivado e exuberante, habitado por uma tribo de nativos conhecida como Kukuanas, que são militarmente bem organizados e falam um antigo dialeto Zulu.

Eles são levados para ver o rei Twala, que comanda seu povo com implacável violência. Ele assumiu o poder anos antes quando assassinou seu irmão, que seria rei, e exilou a esposa e o filho de seu irmão, supostamente mortos no deserto. O rei Twala é apenas um rei de fachada, pois o verdadeiro cérebro por trás dele é uma velha embusteira chamada Gagool.

Secretamente é revelado que o majestoso servente que veio com os ingleses é, na verdade, o filho exilado do rei assassinado. Uma rebelião tem início e em maior número, os rebeldes obtêm sucesso em derrubar Twala e, de acordo com a tradição Kukana, Sir Henry mata Twala em um duelo. Os ingleses capturam a malvada Gagool e ela promete guiá-los para a montanha onde estão localizadas as minas de Salomão. Ao achar o tesouro, Gagool engana os ingleses e uma pedra gigante os prende dentro da montanha. Sem luz e com pouca água, eles preparam-se para morrer. Com sorte, encontram uma rota de fuga, trazendo consigo, do enorme tesouro, apenas uns poucos bolsos cheios de diamantes, mas ainda o suficiente para fazê-los ricos.

O grupo deixa o vale e retorna ao deserto, tomando uma rota diferente, na qual acham o irmão de Sir Henry "encalhado" em um oásis com uma perna quebrada, incapaz de ir em frente ou de voltar. Todos voltam para Durban e, por fim, para a Inglaterra, ricos o suficiente para viver confortavelmente.

Fonte:
http://pt.wikipedia.org

sábado, 29 de março de 2008

Cláudio Willer (1940)

Poeta, ensaísta e tradutor. Sua formação acadêmica é como sociólogo e psicólogo. Depois de ocupar outros cargos e funções em administração cultural, foi assessor na Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, responsável por cursos, oficinas literárias, ciclos de palestras e debates, leituras de poesia, de 1994 a 2001. Dezenas de participações em congressos, seminários, ciclos de palestras, apresentações públicas de autores etc., no Brasil e no exterior.

Presidente da União Brasileira de Escritores, UBE, eleito em março de 2000 para o cargo que já exerceu em dois mandatos anteriores, entre 1988 e 92; reeleito em março de 2002; além disto, também secretário geral da UBE em outros dois mandatos (1982-86), e presidente do Conselho da entidade (1994-2000).

Livros publicados

  1. Anotações para um Apocalipse, Massao Ohno Editor, 1964, poesia e manifesto.
  2. Dias Circulares, Massao Ohno Editor, 1976, poesia e manifesto.
  3. Os Cantos de Maldoror, de Lautréamont, 1ª edição Editora Vertente, 1970, 2ª edição Max Limonad, 1986, tradução e prefácio.
  4. Jardins da Provocação, Massao Ohno/Roswitha Kempf Editores, 1981, poesia e ensaio.
  5. Escritos de Antonin Artaud, L&PM Editores, 1983 e sucessivas reedições, seleção, tradução, prefácio e notas.
  6. Uivo, Kaddish e outros poemas de Allen Ginsberg, L&PM Editores, 1984 e sucessivas reedições, seleção, tradução, prefácio e notas; nova edição, revista e ampliada, em 1999; edição de bolso, reduzida, em 2.000.
  7. Crônicas da Comuna, coletânea sobre a Comuna de Paris, textos de Victor Hugo, Flaubert, Jules Vallés, Verlaine, Zola e outros, Editora Ensaio, 1992, tradução.
  8. Volta, narrativa em prosa, Iluminuras, 1996.
  9. Lautréamont - Obra Completa - Os Cantos de Maldoror, Poesias e Cartas, edição prefaciada e comentada, Iluminuras, 1997.
  10. Estranhas experiências (poesia). Editora Lamparina. Rio de Janeiro. 2004.
  11. Poemas para leer en voz alta (antología poética). San José, Costa Rica: Ediciones Andrómeda, 2007. [traducción de Eva Schnell]

Como crítico e ensaísta, colaborou em suplementos e publicações culturais:

  • Jornal da Tarde,
  • Jornal do Brasil,
  • revista Isto É,
  • jornal Leia,
  • Folha de São Paulo,
  • revista Cult,
  • Correio Braziliense,
  • Xilo etc,

    Projetos da imprensa alternativa como Versus e revista Singular e Plural.

    Filmografia e videografia, com destaque para Uma outra cidade, documentário de Ugo Giorgetti com os poetas Antonio Fernando de Franceschi, Rodrigo de Haro, Roberto Piva, Jorge Mautner, Claudio Willer, exibido na TV Cultura, São Paulo e na Rede Pública de TV, disponível em vídeo, produção SP Filmes e TV Cultura de São Paulo.

Textos seus foram incluídos em antologias e publicações coletivas, como por exemplo:

  • Folhetim - Poemas Traduzidos, org. Nelson Ascher e Matinas Suzuki, ed. Folha de S. Paulo, 1987, com uma tradução de Octavio Paz;
  • Artes e Ofícios da Poesia, org. Augusto Massi, ed. Artes e Ofícios - Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, 1991;
  • Sincretismo - A Poesia da Geração 60, org. Pedro Lyra, Topbooks, 1995;
  • Antologia Poética da Geração 60, org. Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, Editorial Nankin, 2.000;
  • 100 anos de poesia brasileira - Um panorama da poesia brasileira no século XX, Claufe Rodrigues e Alexandra Maia, organizadores, O Verso Edições, Rio de Janeiro, 2001;
  • Paixão por São Paulo - Antologia poética paulistana (comemorativa dos 450 anos de fundação da cidade), Luiz Roberto Guedes, organizador, Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2004.
  • Narradores y Poetas de Brasil, coletânea de Floriano Martins, revista Blanco Móvil, primavera de 1998, México, DF;
  • Un nuevo continente - Antologia del Surrealismo en la Poesía de Nuestra América, antologia de poesia surrealista latino-americana, organização de Floriano Martins, vários tradutores, Ediciones Andrómeda, San José, Costa Rica, 2004.
    entre outros.
  • Bibliografia crítica formada por ensaios, resenhas, reportagens e citação em obras de consulta por Afrânio Coutinho, Alfredo Bosi, José Paulo Paes, Luciana Stegagno-Picchio, entre outros.

    Fonte:
    Revista de Cultura Agulha - 2000 - 2008 Disponível em http://www.revista.agulha.nom.br/ageditores.htm

Claudio Willer (Brasil e Portugal: nossa língua, nossas literaturas)

O texto a seguir é uma versão ampliada e atualizada do que foi lido por mim, seguindo-se debate, em uma mesa no Salon du Livre de Paris que teve Portugal como tema central, a 18 de março de 2000. Naquela sessão sobre lusofonia, intitulada “Je t’aime; moi non plus”, tive a companhia, também como expositores, da escritora brasileira Betty Milan (que teve a idéia do debate), e dos autores portugueses Maria Isabel Barreno e Eduardo Prado Coelho. Foi mais uma oportunidade para falar da necessidade de ampliar nosso contato com a literatura de Portugal e dos demais países de língua portuguesa (e também, reciprocamente, deles conosco), conforme o que havia dito e publicado em outras ocasiões. [CW]

Em abril de 1998, no jornal Folha de S. Paulo, Eduardo Prado Coelho comentou lacunas no conhecimento de quase todos os campos da produção artística e, em especial, da literatura, entre Brasil e Portugal. Em outubro daquele ano, no ciclo de palestras intitulado Nossa Língua – Nossa Literatura, realizado pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo sob minha coordenação, Alçada Batista também se manifestou, entendendo a língua, acertadamente, não como reflexo da realidade, mas como produtora da cultura. De modo enfático, declarou que, se não pensarmos a língua de Portugal, do Brasil e, hoje, de mais seis países, como sendo a mesma, então desapareceremos, culturalmente.

Esses pronunciamentos, corroborados por outros participantes daquele evento, tanto brasileiros como portugueses, não são apocalípticos. A propósito, quando, como presidente da UBE - União Brasileira de Escritores, em fevereiro de 1989, participei da coordenação do Primeiro Congresso de Escritores de Língua Portuguesa, já considerava essa iniciativa como estratégica, instrumento para ativar relações entre países de língua portuguesa. Pela mesma razão, compareci ao ato de criação do Instituto da Língua Portuguesa pelos chefes de estado dos países lusófonos, em novembro daquele ano. Em várias ocasiões, através de artigos na imprensa, pronunciei-me em favor da aproximação cultural e, nesse contexto, do Acordo Ortográfico entre os países de língua portuguesa.

A propósito desse Acordo Ortográfico, valerá a pena trazer de volta a ruidosa discussão sobre a conveniência de suprimir o caráter oficial das duas ortografias distintas? O tema é irresistível, nem que seja para lembrar que Brasil e Portugal são os únicos países do planeta que, com a mesma língua, resolveram institucionalizar umas poucas diferenças ortográficas. Se hispano-americanos houvessem seguido por esse caminho, teriam uma babel de ortografias: em cada país, o mesmo livro teria que ser refeito para adaptar-se à ortografia local. Se alemães e austríacos convertessem em escrita oficial os modos pelos quais se expressam um típico vienense e um berlinense, teriam que resolver o destino, não só, como em nosso caso, de algumas consoantes e acentos, mas das vogais, cujo valor fonético varia bastante, conforme o lugar. E o Instituto Goethe teria que desistir de trazer autores austríacos contemporâneos, ou de promover sessões sobre Rilke, Kafka e outros colossos da literatura de língua alemã. Iria cavar-se um fosso entre Thomas Mann e seus interlocutores vienenses.

Em 1991, em resposta a um artigo meu em favor do Acordo Ortográfico (no Jornal da Tarde de São Paulo), um leitor afirmou que concordava com meus argumentos, exceto pelo seguinte: o português de Portugal e do Brasil já seriam línguas diferentes. Devia ter-lhe perguntado qual dicionário utilizava para ler Fernando Pessoa.

Estou dando um exemplo extremo? Não: a existência de duas línguas, portuguesa e brasileira, tem sido sustentada por especialistas. Sua argumentação, apontando diferenças no modo de expressar-se nos dois países, não leva em conta a diferença entre língua e fala, langue e parole, entre o corpus de uma língua e a diversidade e riqueza de seus modos de uso. Claro: para o relativismo sócio-cultural, com efeitos tão devastadores em nosso ensino, com sua contribuição tão decisiva para que no Brasil tenhamos 70% de analfabetos funcionais, norma culta é imposição autoritária, pois língua é aquela usada ou praticada pelo grupo, “comunidade”, tribo urbana. O erro seria legítimo, expressão da identidade de cada um… E assim avançamos, por obra desse populismo rasteiro, na rota do desentendimento.

Releiam Mário de Andrade: não é evidente que aqueles de seus textos escritos em “brasileiro” são os mais datados, anacrônicos? Ninguém, aqui, está querendo o retorno ao purismo beletrista dos Rui Barbosa ou dos Laudelino Freire. Mas é inegável que a dinâmica dos modos coloquiais é outra; a própria mudança acelerada da sociedade contribui para seu tempo de vida mais curto. Institucionalizá-las como indícios de língua autônoma será, sempre, burocratizá-las.

Há qualquer coisa de preconceituoso em invocar modos de uso e diferenças vocabulares para justificar a insularidade do Brasil e Portugal, transformando em problema que ultrapasse os exercícios de humor onde deveria permanecer, a hilaridade brasileira diante do significado de estar em uma bicha, tomar uma bica e comer um prego em Portugal, e vice-versa. Essa estranheza diante das diferenças revela ignorância de um vocabulário também nosso, da língua que é nossa. São amostras do que ainda não conhecemos ou do que esquecemos, enquanto vamos desaprendendo a nos ver, ao deixarmos de nos traduzir uns para os outros. Uma vez alguém nos esclarecendo o significado desses vocábulos, deixam de oferecer dificuldade. Podem ensinar-nos palavras norueguesas ou gregas à vontade: isoladamente, isso não nos fará avançar no domínio desses idiomas.
* * *
Quando apresentei essas observações em Paris, em 2000, a polêmica fervia. Na véspera de nossa mesa no Salon, saíra no Le Monde um artigo de Antonio Tabucchi, secundando os ataques de Lobo Antunes a Saramago, defensor da lusofonia. O argumento de Tabucchi: unidade da língua portuguesa seria coisa de velhos salazaristas, nostálgicos do império. Representaria uma ameaça à alofonia, às línguas locais. Bobagem – em que pese todo o respeito literário que merecem Tabucchi e, especialmente, Lobo Antunes. Nós nos expressarmos em português ou “brasileiro” não altera em um milímetro a situação de nossos indígenas. Para os dialetos e crioulismos, o papiamento, ou então o portunhol e o brasiguaio sustentados por Saúl Ibargoyen e Wilson Bueno, tanto faz a língua oficial ser uma ou outra. Idem, para nosso principal dialeto (e talvez língua matricial), o galego. E, nos países nos quais efetivamente se fala mais de um idioma, é evidentemente legítimo adotar o bilingüismo ou plurilingüismo. No Paraguai, fala-se duas línguas, espanhol e guarani; na Bolívia, com toda justiça, o quéchua e o aimara foram oficializados. Mas uma coisa nada tem a ver com a outra: Cabo Verde é bilíngüe: tem língua crioula e português; para os naturais desse país, lúcidos e pragmáticos, o português deveria ser aquele de todo o mundo lusófono.

Notem bem: nada disso significa concordância plena com este acordo agora aprovado, e em implantação. Talvez tenham avançado o sinal, unificando e ao mesmo tempo modernizando. Bastava revogarem o absurdo, a dupla oficialização da mesma língua, e tomarem as diferenças como aquilo que são, meras variantes. É o que fazem os anglófonos, mais pragmáticos, menos burocráticos neste e em outros aspectos.
* * *
Para ajudar a entender a relação entre língua e difusão literária, examinei, no texto de apresentação daquele evento Nossa Língua, Nossa Literatura, o caso das literaturas espanhola e hispano-americanas do século XX. Lembrei algumas relações que se iniciaram em um modernismo influenciado pelo nicaragüense Rubén Darío. Que viajante, que personagem transnacional, passando com naturalidade da Nicarágua à Guatemala e El Salvador, ao sabor do mercado de trabalho, da conveniência política e do grau de reconhecimento de seus poemas de juventude (ah, se o mundo de hoje fosse assim, como seria melhor), para atuar no Chile e, depois de seu estágio simbolista francês, consagrar-se como modernista, interlocutor de Lugones e outros inovadores, através do trabalho em jornais de Buenos Aires. Tal cosmopolitismo foi possível por haver uma comunidade de autores da mesma língua, acima das nacionalidades.

Um capítulo decisivo dessas relações transnacionais foi a consagração de García Lorca em Buenos Aires, em 1932, não evitando, porém, que Jorge Luis Borges o antagonizasse e chamasse de "andaluz profissional". Borges, por sua vez, freqüentava grupos literários argentinos de vanguarda, influenciados por Darío. Na ocasião, Lorca acolhia Neruda, que reconheceria a importância desse encontro em sua Ode a García Lorca. Neruda, por sua vez, hostilizava César Vallejo, acusando ainda Vicente Huidobro de contribuir para essa ruptura. No início da guerra civil espanhola, emergia para a vida literária Octavio Paz, em um momento em que se confundiam criação e resistência antifascista. Por conta de divergências na organização de uma antologia de autores hispano-americanos, Paz e Neruda acabariam pegando-se em um banquete (o registro desse e outros episódios, em Sombras de Obras de Paz).

Uma geração de espanhóis influenciada por um nicaragüense; o poeta de maior prestígio dessa geração hostilizado por um argentino, o que não o impediu de fascinar a um chileno rompido com um peruano, em um ambiente literário que logo receberia a um mexicano. Tais episódios podem parecer um registro menor, da petite histoire. Mas a série de aproximações e afastamentos entre poetas de diferentes países, porém da mesma língua, do começo do século XX até hoje, constitui uma rede de afinidades e antagonismos, atração e distanciamento, de evidente relevância. Decisiva para que Octavio Paz, a uma dada altura de Os Filhos do Barro, pudesse declarar: Meu ponto de vista é parcial: é o ponto de vista de um poeta hispano-americano. Note-se: poeta hispano-americano, e não apenas mexicano.

E nem falei dos prosadores, e os modos de escrever em língua castelhana que devem muito ao guatemalteco Astúrias, a cubanos, a pelo menos um colombiano, a argentinos, a peruanos, a… Ampliaria o inventário de relações simpáticas e idiossincráticas, da qual não escapou nenhum país de língua espanhola.

Há um poema de Octavio Paz, Carta a León Felipe, publicado em Ladera Este, que serve, a meu ver, como símbolo desses relacionamentos cosmopolitas entre literaturas e escritores. Nele, o mexicano então residente na Índia escreve uma carta sobre um desencontro que foi um encontro, um poema sobre a poesia, para o espanhol exilado no México. É o diálogo através de dois continentes, e entre duas gerações, pois Felipe foi contemporâneo e amigo de Lorca. Cidadãos do mundo, ambos; integrantes de um corpus literário no qual, de tantos modos, se combinam o universal e o regional. O trânsito de textos e dos seus autores ajudou a converter cidades em metrópoles literárias: Madri, Cidade do México, Buenos Aires, por sua vez em contato com outros pólos mundiais, Paris, Londres ou Nova Iorque. Emblema da mesma convivência de literaturas e autores é, também, uma das fotos que ilustram o livro de entrevistas de Octavio Paz, Solo a dos voces, que contém observações sobre a importância de Borges. Nela, lado a lado, o próprio Paz e Julio Cortázar: o argentino que se instalou em Paris, o mexicano que já havia estado na Paris dos surrealistas, com tanto em comum e outro tanto de divergência, fotografados em 1967 na Índia.

Seria incorreto associar tais relações apenas a escritores partilharem a mesma língua. A afirmação contrária, ou recíproca, de que a comunidade lingüística hispano-americana se consolidou graças ao trânsito entre literaturas e autores, também é verdadeira. As diásporas desde o início do século, passando pela fuga de latino-americanos frente a tantos caudilhos, daquela de espanhóis da ditadura de Franco, até os terrores argentino, uruguaio e chileno (entre outros) dos anos de 1970-80, também foram decisivas para o diálogo literário e interlocução pessoal. Obrigados ao cosmopolitismo, como exilados e auto-exilados, como diplomatas, pesquisadores, ou alternadamente em todas essas condições, instalaram-se nos países de língua espanhola e em boa parte do restante do mundo.

Por essas razões, uma vez saído do anonimato, tornando-se literariamente conhecido, o espanhol, peruano, boliviano, equatoriano, nicaragüense, cubano, argentino, chileno, etc, dirige-se à comunidade de língua castelhana. O boom hispano-americano de 1970 em diante teve, como ponto de partida, esse grande mercado constituído por leitores em sua própria língua. Começaram internacionalizados, com uma circulação de livros que ultrapassava fronteiras nacionais.

O mesmo vale para alemães e austríacos, ingleses e norte-americanos, franceses e francófonos. Podia falar da quantidade de americanos que, desde Henry James, passando por Pound e Eliot, beberam na fonte britânica. Da língua alemã, mencionaria Rilke, para mostrar que a língua é maior que a nacionalidade. Contudo, é a língua francesa que nos dá os melhores exemplos, pelo modo como autores das ex-colônias, inclusive os expoentes francófonos da negritude, Senghor, Césaire, Depestre, Saint-Aude, Glissant, se incorporaram a seu corpus, assim podendo ser universais sem perder a particularidade.
* * *
Essa modalidade de relação foi se enfraquecendo ao longo do século XX, entre Brasil e Portugal. Houve a influência da narrativa realista brasileira dos anos 30, notadamente de Graciliano Ramos, sobre um realismo literário português. E o impacto da descoberta de Fernando Pessoa em gerações de poetas brasileiros, graças, reconheçamos, à contribuição de intelectuais portugueses que ali se instalaram durante a vigência do salazarismo, os João Gaspar Simões, Jorge de Senna, Adolfo Casais Monteiro, João Alves das Neves e outros. Ninguém negará que o Brasil lê, hoje, poesia portuguesa da primeira metade do século XX: Pessoa, Sá Carneiro, Florbela Espanca. Prosadores portugueses, não apenas Saramago, mas Cardoso Pires e Lobo Antunes, foram publicados com êxito no Brasil. E, mais recentemente, poetas como Herberto Helder.

Mas, coligindo nossos exemplos de aproximação e antagonismo, ainda ficamos muito aquém do que houve entre hispânicos desse século. Talvez o formato bipolar da relação Brasil-Portugal, contrastando com a multipolaridade hispânica, seja determinante desse quadro. E, ao traçá-lo, jamais fugirei à responsabilidade especificamente brasileira. Nosso modernismo, através de Mário de Andrade e outros defensores da incorporação de uma fala coloquial à criação literária, acabou identificando língua, nacionalidade e cultura autóctone. Em alguns momentos, uma língua brasileira foi apresentada como um anti-português de Portugal, desconhecendo a renovação que era empreendida naquele país, movida pela mesma influência futurista e vanguardista.

Pela mesma razão, não eximirei ninguém de omissões brasileiras na política cultural, mencionando oportunidades recentes de aproximação desperdiçadas. Nunca deveria ter sido interrompida a implantação do Instituto da Língua Portuguesa. Presidindo a União Brasileira de Escritores, insisti, em todas as ocasiões em que isso coube, na retomada desse projeto. E não deviam ter obliterado Portugal em 98, no Salon du Livre de Paris, cujo tema central foi o Brasil; ainda mais em um ano de eventos alusivos a navegações e descobrimentos.

Seria ingênuo querer que um acordo ortográfico e mais alguns encontros de escritores venham, por si só, a criar o tipo de comunidade linguístico-literária das nações de língua castelhana. E utópico esperar que, de uma hora para outra, apareça um mercado de livros tão forte. Resultados no plano editorial passarão por mudanças na política educacional. A propósito, em meu tempo Machado e Eça, Alencar e Herculano chegavam juntos aos bancos escolares. Hoje, estuda-se “literatura brasileira” como algo distante de Portugal. Isso, no Brasil; leitores de língua portuguesa em outros lugares, sabe-se o que acontece – em Budapeste, biblioteca de literatura de língua portuguesa provavelmente continuará sendo uma biblioteca de literatura portuguesa. Em L’Aquila, Itália, conheci uma exceção: um dedicado professor que dava literatura brasileira… Nem preciso dizer o quanto a inércia de nossas delegações culturais, com adidos que, na maior parte dos casos, nem estão aí, contribui para esse lamentável estado de coisas.

Reconheço, finalmente, que muito já foi feito através das entidades e instituições culturais, em favor da circulação do livro e da literatura no âmbito da lusofonia. O Centro de Estudos Portugueses da Universidade de São Paulo, criado por Antônio Soares Amora, ampliou, e muito, sua atividade. Há mais encontros universitários dedicados à lusofonia; e a revista Crioula, da USP, especializada. Houve as publicações de autores africanos lusófonos, a boa circulação dos Mia Couto e Agualusa, estimuladas pelo trabalho pioneiro da recém-falecida Maria Aparecida Santilli. As pioneiras antologias (lá e cá) de Carlos Nejar. Arnaldo Saraiva promoveu a publicação de autores brasileiros, como Álvaro Alves de Faria, e de antologias. Nicolau Saião publica brasileiros em revistas e coletâneas.

A internet veio para mudar, no sentido de melhorar, esse estado de coisas: no TriploV de Maria Estela Guedes, dialogam brasileiros e portugueses. E também aqui, em Agulha. Herberto Helder saiu, desde 2000, por três editoras distintas (Iluminuras, Azougue, Girafa). Novas edições de Lobo Antunes, Lídia Jorge, Cardoso Pires e outros foram bem recebidas. Mia Couto, o público letrado já sabe quem é. O mais importante, e merecedor, seguramente, de maior atenção: uma coleção como a Ponte Velha, da Escrituras Editora, agora sob coordenação de Floriano Martins, com a publicação de autores do calibre de Cruzeiro Seixas, Rosa Alice Branco, Isabel Meyrelles, António Barahona, João Barrento, Ana Hatherly, Armando Silva Carvalho, Luiz Pacheco. Agora em 2008 serão publicados, dentre outros, Luiza Neto Jorge, Fernando Echevarría, Luiz Carlos Patraquim e José Luis Tavares - estes dois últimos de países afro-portugueses (ampliando assim o universo da coleção). Essa coleção tem apoio da DGLB: cadê a recíproca brasileira?

A todos esses trabalhadores da cultura, os que vêm contribuindo para a consolidação da lusofonia, minhas homenagens. Pessoas são barradas em guichês de aeroportos. Mas que a língua e a literatura continuem a circular, cada vez mais livremente.

Fonte:
Revista de Cultura Agulha - n. 62 - março/abril de 2008
Disponível em http://www.revista.agulha.nom.br/ag62willer.htm
Figuras: do artista colombiano Alfredo Vivero
As figuras não foram colocadas exatamente como no texto original, propositadamente.

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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