quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Renato Modernell (Elogio da miopia (e do binóculo))



A inquietude do jornalista ao lidar com um mundo fluido, massificado e globalizado pode ensejar suposições enganosas. Uma delas, por exemplo, é a de que antes não era assim. Teria havido um tempo feliz em que a realidade era virgem, e não virtual; e a poesia estava em cada esquina da cidade, pronta para ser colhida. Outra suposição perigosa é a de que a platitude dos dias de hoje teria sua fonte nos fatos e nos objetos, e não em nossa maneira pouco poética, quase burocrática, de olhar para eles. Se folheamos jornais antigos, encontramos coisas surpreendentes.

Em 11 de novembro de 1900, Machado de Assis publicava em “A Semana” uma crônica confessional: “Eu gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto. Daí vem que, enquanto o telégrafo nos dava notícias tão graves como a taxa francesa sobre a falta de filhos e o suicídio do chefe de polícia paraguaio, cousas que entram pelos olhos, eu apertei os meus para ver cousas miúdas, cousas que escapam ao maior número, cousas de míopes. A vantagem dos míopes é enxergar onde as grandes vistas não pegam.”

Feita a ressalva (ou, se quisermos, o elogio da miopia), Machado envereda machadianamente por assuntos prosaicos do Rio de Janeiro naquele começo do século 20. Seu poder de sedução faz com que, ao final do texto, tenhamos a impressão de que as tais “cousas miúdas” não são aquelas das quais ele trata, mas sim as que “entram pelos olhos” dos consumidores de jornais – no caso, a curiosa notícia telegrafada da França e a tragédia pessoal transmitida do Paraguai. Porém Machado, nesse parágrafo de abertura da crônica, está dizendo muito mais que isso. Anuncia que há um mundo lá fora, indiferente ao filtro representado pelo telégrafo, que clama por ser visto com outros olhos. Olhos raros, embebidos de certa condição poética. Raros, mas existentes. Era o caso de Lima Barreto, que cobriu para o “Correio da Manhã” a lendária demolição do Morro do Castelo, em 1905, texto depois publicado em forma de folhetim. E foi o caso também de outro escritor-jornalista, João do Rio, que anos depois mergulharia com os cinco sentidos no que chamou poeticamente de “alma encantadora das ruas”.

O que valia era a experiência direta das coisas, a entrevista, o incidente de esquina, pequeno mas carregado de significado. De resto, o telégrafo (na época, o supra-sumo da tecnologia da comunicação) dava conta das “cousas que entram pelos olhos”, ou seja, do cenário oficial ou, pelo menos, objetivo. Vamos fazer de conta, para todos os efeitos, que o suicídio do chefe da polícia paraguaia importasse mais ao cidadão carioca do que os camelôs que, já nos tempos machadianos, atravancavam o encanto das ruas.

Machado sugere que nas ruas de sua cidade (e, por extensão, nas de qualquer outra) em se colhendo, tudo dá. Era natural pensar assim, numa época em que também os peixes e as árvores pareciam inesgotáveis. O jornalista que enveredasse por algum beco obscuro e infecto, afastando-se dos corredores dos palácios ou das calçadas da Rua do Ouvidor, esquivando-se da notícia imposta pelo telégrafo, com certeza encontraria assunto.

Imaginamos que antes era mais fácil meter o nariz em trilhas não trilhadas, para quem se dispusesse a isso. Supomos que nem Machado, nem Lima Barreto, nem João do Rio encontrariam as mesmas facilidades se vivessem em nossos dias. Enfim, o mundo não é mais aquele.

Em crônica publicada em 22 de fevereiro de 2001, no semanário italiano “L’Espresso”, Umberto Eco adverte para o fato de que as ruas principais das grandes cidades do mundo se parecem cada vez mais umas às outras. Com engenhosa argumentação, mostra que nós, de certo modo, viajamos sempre para o mesmo lugar. O elemento “achatador” da realidade já não é mais o telégrafo, como no tempo de Machado, mas outro engenho que leva no nome o mesmo prefixo. É fácil: aquele caixote barulhento e despótico, com uma face de vidro, que fica em frente ao sofá da sala, onde está o controle remoto. Controle? Não temos controle de nada, exceto duns botõezinhos. “Conhecemos o mundo por meio da televisão, que com freqüência não o capta tal como é”, escreve Eco, e cita como exemplo a cobertura da Guerra do Golfo. “Vemos cada vez mais simulacros da realidade. No entanto, na nossa época, as pessoas se põem a viajar como nunca aconteceu antes. Cada vez mais gente, cujos pais se moveram no máximo a uma cidade próxima, me dizem ter visitado lugares com os quais eu, viajante compulsivo, diria até profissional, limito-me apenas a sonhar. Nenhuma praia exótica, nenhuma cidade perdida permanece inacessível.”

Conheço tal situação por experiência direta, por trabalhar em “Terra”. Ao longo de dez anos de existência, a revista consolidou seu prestígio com base em uma atitude de desbravamento. Mostrava lugares incomuns, remotos e inexplorados pelo turista tradicional. Agora, porém temos um dilema: quase já não existem mais (pelo menos no Brasil) esses lugares tidos como “virgens” ou “exóticos” que constituíram a própria identidade da revista perante o leitor.

Se pensássemos numa “alma encantadora das praias”, com a licença de João do Rio, teríamos de reconhecer que Jericoacoara se parece mais a Copacabana do que uma década atrás. Uma avenida de Calcutá cruza a nossa São João, e ninguém percebe. A crônica de Eco explora essa ironia contemporânea de que, quanto mais nos movemos, mais os lugares se parecem uns com os outros.

Onde meter o nariz, se tudo já foi farejado e visto? Transmitir o que, se tudo já foi retransmitido?

Para nós, jornalistas do século 21, modestos súditos de Machado, longínquos filhotes de Lima Barreto e João do Rio, saudosos sucessores de Marcos Faerman, só resta uma saída: a grandeza das “cousas miúdas”, a nitidez das “cousas de míopes”. Enfim, aquelas “cousas” que o telégrafo não dizia e a televisão, hoje, continua não dizendo. Lima Barreto, João do Rio, Marcão. O que cada um desses homens teria descoberto (ou captado, eis a melhor palavra) se por acaso vivesse no Paraguai, em novembro de 1900, sobre o suicídio daquele chefe de polícia? Cirrose oculta? Traição amorosa? E com que tintas teriam pintado o quadro? Vamos lá: o que fez o chefe de polícia nesse último dia de vida? Afinal, que “cousas” são essas, além do suicídio, que o tornaram diferente de todos os outros chefes de polícia do Paraguai? Marcão não estava lá.

Por isso essa notícia, aos olhos de Machado, perdeu-se no caudal diário da Grande Imprensa, que sempre percorre as mesmas avenidas, assim como nós viajamos para os mesmos lugares. Pegando carona com Umberto Eco, poderíamos dizer que, quanto mais se noticia, em volume e rapidez, menos as notícias se distinguem umas das outras, como as ruas e as cidades. A alma encantadora do mundo dá lugar a uma vertigem. Estamos a bordo de um carrossel em aceleração crescente, que no fim das contas não vai a lugar nenhum. É preciso saltar fora para voltar a captar as “cousas miúdas” de Machado, para “catar o mínimo e o escondido” que poderiam devolver o frescor que já não encontramos na realidade, por falta de condição poética.

Precisamos de olhos míopes – no sentido machadiano, não oftalmológico, evidentemente. Míopes no sentido de dissonantes, assim como os músicos mais ousados buscaram caminhos para além do sistema tonal, no momento em que o consideraram esgotado. Para se livrar da aceleração do carrossel, que paralisa os sentidos, o jornalista precisa redescobrir a alma encantadora das ruas, onde Marcão gastou muitas e muitas solas de sapatos.

O repórter precisa compreender e, nem que seja de vez em quando, experimentar um sentimento do mundo semelhante ao que o poeta polonês Czeslaw Milosz expressa no texto “A Condição Poética”, traduzido por Ana Cristina Cesar e Grazyna Drabik: “Como se tivesse, em vez de olhos, binóculos ao contrário, o mundo se distancia e as pessoas, árvores, ruas, tudo diminui, mas nada, nada perde a clareza, fica mais denso. Já tive antes momentos assim, escrevendo poemas; conheço então a distância, a contemplação desinteressada, sei assumir um eu que é não-eu, mas agora é sempre assim e me pergunto o que significa isso, se entrei numa permanente condição poética. As coisas antes difíceis agora são fáceis, mas não sinto desejo forte de transmiti-las por escrito. Só agora estou sadio, e era doente, porque o meu tempo galopava e afligia-me o medo do que viria. A cada momento o espetáculo do mundo é para mim de novo surpreendente e tão cômico que não entendo como a literatura podia querer dominá-lo. Sentindo fisicamente, ao alcance da mão, cada momento, amanso o sofrimento e não suplico a Deus que queira afastá-lo de mim: por que o afastaria de mim se não o afasta dos outros? Sonhei que me encontrava numa estreita borda sobre o oceano onde se viam nadando enormes peixes marinhos. Tive medo de que, se olhasse, cairia. Virei então, agarrei-me nas asperezas da parede rochosa, e movendo-me lentamente, de costas para o mar, cheguei a um lugar seguro. Eu era impaciente e irritava-me a perda de tempo com coisas triviais, incluindo entre elas a faxina e a preparação da comida. Agora corto com cuidado a cebola, espremo os limões, preparo vários tipos de molho.”

Fonte:
http://www.renatomodernell.com.br/texto1_ensaios.php?id=121

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