sábado, 20 de março de 2010

Armindo Trevisan (Poesias Escolhidas)


NÃO ESCOLHI A COR DE MINHA PELE
(tradução da poesia, do espanhol, por José Feldman)

Não escolhi a cor de minha pele
que é igual a pele de qualquer homem
ela que me envolve por todos os lados
mas, dentro desta pele estou eu: um negro!

Tenho a mesma imagem e semelhança
de homens que possuem outra cor de pele
e eu sei que foi o sol que me queimou
para fazer-me mais resistente e mais formoso.

Como negro, eu habitei um continente
amaldiçoado durante séculos,
fui perseguido por outros homens
e, algumas vezes, também perseguido por homens de minha cor.

Que profundas são as feridas que sangram,
dentro e fora de mim! Pode acaso esquecer
o látego, os suplícios e a morte
daquele tempo em que cobiçavam meu ouro e meu marfim?

Eu sei que nada me serve crucificar-me
em minha propria historia! Nem com fúria selvagem
sonhar a destruição de meus perseguidores.
Antes de ser negro, eu sou simplesmente um homem.

Minha gloria é elevar-me à altura
das palmeiras de meus desertos,
e, quando bradem os leões, deixar-me
ao largo dos rios que inundam minhas florestas.

Não escolhi a cor de minha pele!
Vejo que a noite borbulha de estrelas,
e que a lua, mais que o sol, suaviza
os recantos inacessíveis de minha alma.

Sempre foram brancos vossos Deuses e vossos anjos!
Meu coração sabe que o espírito voa
tão veloz que não se consegue ver sua cor .
Sim! A cor de Deus é a cor do vento.

Eu sou negro e eu sou homem! Agora
que a história abriu aos poucos suas portas
eu posso, pela primeira vez, ser um homem negro.
A humanidade se tornou maior comigo.

Me toca a responsabilidade de perdoar
Eu que não posso tirar, para sempre,
de sobre os ombros de homens vivos: eu com eles
carregar meu fardo até a grande Aurora.

Não escolhi a cor de minha pele
Que é igual a pele de qualquer homem!
Voces também compreenderão que o sangue dos homens
está debaixo da pele, e é um rio de fogo.

Posto que sou um homem livre, me amo
como se ama a vida, que também oferece
a brancura dos dentes para sorrir.
A vida – que nos submerge em sua noite luminosa.

A LUZ DE TUA PELE

À luz de tua pele invento a noite.
Nela me embrenho até à morte alheia.
Ninguém é mais sozinho do que o açoite
que apaga tua luz, e me incendeia.

SOBRE AS PLUMAS

Sobre as plumas da noite quando, amada,
a carne lhe varria o pensamento,

olhou à sua volta, e viu na estrada
os ossos de milhões que a lua ungia:

crematórios, bengalas, dentaduras,
retratos esmaecidos, tristes óculos ...

E meditou no sonho e na loucura.
Como podia amar uma outra carne

se a carne, donde lhe nascera o sexo,
era esse fogo que lavrava forte

nos campos e cidades, semeando
vitríolo e estrume com a mão da morte?

QUISERAM HOSPEDAR-SE

Quiseram hospedar-se no silêncio,
que embriaga o amor depois que os corpos lassos
derramam o perfume de seu vinhos.

Mas não puderam. Triste e sozinhos,
falaram de si mesmos como ausentes.

EMBORA TUA CARNE

Embora tua carne seja a mesma:
quem põe no teu braseiro outro carvão,
e irrita a flama que se torna azul
para variar de língua e de bailado?

Quem faz girar o teu robolo, e afia
a lâmina que não te deixa fria?

O TRÂNSITO

Que fica deste trânsito? É a seda
com sua larva dentro do casulo,

cobrindo a solidão. E, no seu músculo,
a forte pontaria de uma flecha

que, no ar gelado e azul, abate e ave,
sem destruir-lhe vôo tão suave.

A QUEM TE ALÇA

A quem te alça às nuvens, desvalida,
doas teu corpo. E apóias tua mão

numa outra mão, ciente de que o coito
é uma aventura de soldado afoito.

Pois essa subita valentia
te reconduz aos pés da noite fria,

onde tua mão é garra de animal:
e vence, de ambos, quem não desconfia.

REFÚGIO

Às praias dão garrafas com mensagens,
ou tábuas em que flutuaram náufragos.

Às praias dão navios com equipagens,
pinguins, baleias que se desnortearam.

Não é diverso o porto de teus lábios:
ali também vão dar tristes suspiros,

Gemidos, alaridos, menoscabos,
e a alegria de giros e regiros

em que te perdes quando amas de fato,
e o teu corpo se rende a um ultimato.

PRIMAVERA

Por que será que penso nos teus lábios
quando avisto, em quintais, limões maduros?

Serão eles, dobrados sobre os muros,
Livreiros que esquadrinham alfarrábios?

Ou hão de perecer polidos cabos
Rumorejando sobre os ares puros?

Eu sempre penso nos limões: dourados,
Guardam-se incorruptíveis, e fechados.

QUEM DIRÁ AOS AMANTES

Quem dirá aos amantes
o caminho
pelo qual os corpos vão
ao termo do que souberam?
E depois foi noção,
espaço, letra,
e não quiseram o retorno?
Quem os aguardará do outro lado
onde o riso,
a aveia, são o preâmbulo
da carícia no seio?

Quem dirá aos
amantes que o amor há de despir
o acontecido
e passará pela mão
como passou o frio
de flor em flor?

POEMA QUE COMEÇA EM SÁBADO

Foi então que as ervas
se dobraram a língua dos cactos enrugou-se
e subiram pelos telhados os pombos

e ambos na medula da noite ao pé do copo
e da lâmpada resolveram amar-se por toda
a eternidade e isto durou até à véspera do sim

e o não reboou
silenciosamente dentro da boca onde um beijo
polia os ossos o homem apalpou-se e por fim
rolaram em cima dessa coisa chamada mundo

e houve um mundo chamado amor.

SALMO NUPCIAL

Sejas visível
Senhor

quando a carne
de outra carne
florescer na minha

e um enxame
de abelhas brancas
beber no umbigo
dela

e nossa escuridão
servir à noite

e erguermos
à altura do mundo

a solidão
dos animais.
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Fontes:
Armindo Trevisan. A Dança do Fogo. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2001.
Armindo Trevisan. Abajur de Píndaro & Fabricação do Real. São Paulo: Edições Quíron; INL, 1975

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