terça-feira, 9 de março de 2010

Luís de Camões (Soneto 3)


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.
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Mor = maior
Soía = do verbo soer: costumava, era comum, ocorria com frequência.
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Mudanças são contínuas. O interessante deste soneto de Camões é o jogo de imagens sucessivas que em si mesmas expressam a movimentação dos acontecimentos, pontos de reflexão do autor. Deve-se perceber que o ritmo vai acompanhando a estrutura do soneto até o final inesperado, quando é revelada uma mudança da própria mudança.

Fonte:
Luís de Camões. Lírica de Camões – melhores poesias. Seleção e notas de Célia A. N. Passoni. 2. ed. SP: Núcleo, 1997.

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