Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Amália Max (Baú de Trovas)


A ermida à beira da estrada
plange seu sino de um jeito,
que eu sinto a corda amarrada
na saudade do meu peito...

A esperança em nossa vida,
pelo valor que ela ostenta,
pode até ser resumida
como o pão que nos sustenta.

A fonte, singelo fio,
contorcendo em cansaços,
encontra por fim um rio
e então se atira em seus braços.

A gota d'água nascida
de veio farto e profundo,
é a fonte da nossa vida
e a própria vida do mundo.

Ao cortar a trança loura,
minha infância em despedida,
deixou na fria tesoura
saudosos fios de vida.

A sombra que, meio arcada,
te segue pelos caminhos,
é minha alma ajoelhada
a beijar os teus pezinhos.

A sorte tem seus encantos,
seus agrados, seus engodos;
às vezes agrada a tantos,
mas jamais agrada a todos!

A vida anda tão tristonha:
pobreza... fome... agonia...
que chego a sentir vergonha
de às vezes ter alegria.

A vida deu-me esta dor;
e hoje entre a dor e a lembrança,
sou um cheque ao portador,
sem fundo para cobrança.

Com mil retalhos tristonhos,
que rasguei do coração,
fiz uma colcha de sonhos
e agasalhei a ilusão.

Da lembrança doce e calma,
quando a tarde se inicia,
tua imagem em minha alma
é saudade todo dia.

Depois do enxerto a coitada,
que quis o rosto alisar,
agora vive assustada...
Seu rosto só quer sentar!

Depois que, um dia, partiste,
nesta rua só choveu.
Será que esta rua é triste
ou triste nela sou eu?

Disfarçando... Disfarçando...
o sol, malandro das horas,
vai aos poucos levantando
a saia azul das auroras.

Em pedaços fui rasgando
tua foto pela praça.
Hoje os procuro chorando,
pedindo ajuda a quem passa.

Esta chuvinha pingando
do telhado sobre o chão,
vai aos poucos empoçando
saudade em meu coração.

Galanteios, que em verdade,
quis dizer-te ou ter escrito,
hoje, finda a mocidade,
sinto dor por não ter dito.

Laranjais de minha infância,
frutos que alegre colhi,
hoje olho para a distância
e choro porque cresci!

Levo na face enrugada
e na fronte embranquecida
a passagem, comprovada,
de que viajei pela vida.

Maria partiu... Maria
que nunca disse a verdade
mas era, quando mentia,
bem melhor que esta saudade.

Meus olhos azuis se embaçam,
acabando por chorar,
quando meus braços se abraçam
por não ter quem abraçar.

Muitos recebem de graça
o bom vinho da alegria;
eu pago mas minha taça
a vida deixa vazia.

Não vens há meses inteiros;
e enquanto conto as auroras
a tesoura dos ponteiros
lentamente corta as horas.

Não faça da despedida
um momento de revoltas;
o amor tem portas na vida
com chave de várias voltas.

Não fale, não diga nada,
aperte mais minha mão,
faça a promessa auebrada
não precisar de perdão.

Não vens... e, em tuas demoras,
na angústia das madrugadas,
o relógio bate as horas
e as horas dão gargalhadas.

Nas noites de paz eterna,
vigiando a escuridão,
toda estrela é uma lanterna
que um anjo leva na mão!

Na velha praça, embalado
por lindo sonho vadio,
apalpo o banco a meu lado
mas meu lado está vazio.

Na vizinha, a linda casa,
nem a vassoura descansa;
se acaso o marido atrasa,
a vassoura canta e dança!

No entardecer quem me dera,
ver teu vulto, ouvir teu passo,
e por magia ou quimera
ter teus braços num abraço!

No instante em que nossa prece
sobe a escada do infinito,
pela mesma escada desce
a paz que acalma o conflito.

Nos dedos eu conto as horas,
não sei contar diferente,
mas, hoje, sei que demoras
bem mais do que antigamente.

No sertão a chuva mansa
que torna a manhã cinzenta,
é mais que chuva e esperança,
é Deus regando água-benta.

Numa ternura infinita
a lua, com mãos de prata
vem prender laços de fita
nas tranças verdes da mata.

O arco-íris tão bonito
e de tão finos arranjos
é só o varal do infinito
secando a roupa dos anjos!

Oh! lembrança, vem com jeito,
não se perca em sonhos tardos,
porque este meu velho peito
já não aguenta tais fardos.

O tempo em sua investida,
como sentença, suponho,
rouba-me um pouco da vida
e muito de cada sonho.

Partindo da meninice
é que o trem do tempo avança
e na estação da velhice
deixa saltar a esperança.

Para os que seguem sozinhos,
descalços e combalidos,
que importa ter mil caminhos
se todos são proibidos?

Partiste... já não te importas
que em nossa casa singela
a ventura feche as portas
e a saudade abra a janela.

Pergunto frequentemente:
felicidade, onde estás?
Será que corres na frente
ou ficaste para trás?

Pobre titia, ao comprar
uma vassoura, é indagada:
será preciso embrulhar
ou já vai nela montada?

Poeira de estrelas cadentes
que à noite caem nos campos
são com certeza as sementes
que germinam pirilampos.

Quando o passado é turista
no trem do meu coração,
a saudade é maquinista
e o meu peito uma estação.

Quando nos chegam tardias,
esperanças sempre são
aquelas parcas fatias
de miolo velho…de pão!

Quanta ternura em agosto:
o vento que beija o ipê
vem também beijar meu rosto
depois de beijar você.

Ralhando com seus porquinhos
a porca, mãe exemplar,
vendo-os, assim, bem limpinhos...
- já pro barro se sujar !!!

Relógio, fique parado!
Não deixe o tempo passar...
Eu quero ser enganado
quando a velhice chegar!

Sabiá põe em seu canto
tal ternura que ao cantar,
mais parece um acalanto
para a alma cochilar.

Saudade... insônia que aspira
ouvir na calçada passos,
mesmo sendo outra mentira
a vir dormir nos meus braços.

Se é por um amor que choras
enxuga os olhos... Repara:
se o relógio pára as horas,
nem por isso a vida pára.

Se me deixas por vontade...
se vais para não voltar...
O que é que eu digo à saudade
amanhã, quando acordar?

Sem mesmo ter ido ao céu
já caminhei sobre a lua!
Foi um dia andando ao léu
pisando as poças da rua.

Sem ter com quem conversar,
o velhinho solitário,
usa as mãos para rezar
conversando com o rosário.

Sentindo a luta perdida,
nos fracassos e derrotas,
abraço o circo da vida
para as minhas cambalhotas.

Solidão é chuva fina
que encharca o chão sem correr;
e às vezes faz que termina
mas... recomeça a chover.

Solidão é vento frio,
vento calmo mas gelado
deixa o meu peito vazio
e ainda dorme ao meu lado.

Sonhos meus... jóias de outrora
qual ouro sem um quilate,
enferrujam na penhora
sem ter mais quem os remate.

Vejo ternuras pagãs
quando o sol, por entre os galhos,
cobre a nudez das manhãs
com seu lençol de retalhos.

Velhice... circo que a vida
armou no fim da ladeira,
de onde a solidão convida
para a sessão derradeira.

Voltaste... voltaste, eu sei,
mas o encanto foi desfeito;
agora já repintei
as paredes do meu peito.

Amália Max



Amália Max nasceu em Ponta Grossa, Paraná, no dia 13 de julho, filha de João Max e Maria Suckstorf Max.

Em 1981 lança seu livro de trovas "Escaninho" e daí em diante passou a concorrer em Jogos Florais e concursos e participar de antologias e coletâneas.

Em 1986 recebeu a homenagem máxima de sua vida quando o Colégio Estadual 31 de Março, ensino de 1º e 2º graus imortalizou-a dando seu nome para a sua biblioteca: "Biblioteca Poetisa Amália Max".

Tem seu nome, como trovadora, trabalhos inseriidos em inúmeras antologias e coletâneas. Figura em Enciclopédias, em livros e Jornais de todo o Brasil.

Professora de pintura, arte que domina com segurança.

Pertence a:
– Centro Cultural Euclides da Cunha, de Ponta Grossa, PR,
– Casa Juvenal Galeno – Ala Feminina, Fortaleza, CE,
– Academia de Letras José de Alencar, Curitiba, PR,
– Centro de Letras do Paraná, Curitiba, PR,
– Academia de Letras dos Campos Gerais, Ponta Grossa, PR, fundadora da cadeira nº 13.
– Já foi Presidente Municipal e Estadual da UBT durante 30 anos.
– Desde 2003, por convite do Cap. Alípio B. Rosenthal é assessora cultural da Associação dos Militares da Reserva.

Fontes:
- Vasco José Taborda e Orlando Woczikosky. Antologia de Trovadores do Paraná.
- Antologia dos Acadêmicos - edição comemorativa dos 60 anos da Academia de Letras José de Alencar.
- UBT Nacional.

Literatura Brasileira (Parte 9 = O Simbolismo)


É comum, entre críticos e historiadores, afirmar-se que o Brasil não teve momento típico para o Simbolismo, sendo essa escola literária a mais européia, dentre as que contaram com seguidores nacionais, no confronto com as demais. Por isso, foi chamada de "produto de importação". O Simbolismo no Brasil começa em 1893 com a publicação de dois livros: "Missal" (prosa) e "Broquéis" (poesia), ambos do poeta catarinense Cruz e Sousa, e estende-se até 1922, quando se realizou a Semana de Arte Moderna.

O início do Simbolismo não pode ser entendido como o fim da escola anterior, o Realismo, pois no final do século XIX e início do século XX tem-se três tendências que caminham paralelas: Realismo, Simbolismo e pré-Modernismo, com o aparecimento de alguns autores preocupados em denunciar a realidade brasileira, entre eles Euclides da Cunha, Lima Barreto e Monteiro Lobato. Foi a Semana de Arte Moderna que pôs fim a todas as estéticas anteriores e traçou, de forma definitiva, novos rumos para a literatura do Brasil.

Transição - O Simbolismo, em termos genéricos, reflete um momento histórico extremamente complexo, que marcaria a transição para o século XX e a definição de um novo mundo, consolidado a partir da segunda década deste século. As últimas manifestações simbolistas e as primeiras produções modernistas são contemporâneas da primeira Guerra Mundial e da Revolução Russa.

Neste contexto de conflitos e insatisfações mundiais (que motivou o surgimento do Simbolismo), era natural que se imaginasse a falta de motivos para o Brasil desenvolver uma escola de época como essa. Mas é interessante notar que as origens do Simbolismo brasileiro se deram em uma região marginalizada pela elite cultural e política: o Sul - a que mais sofreu com a oposição à recém-nascida República, ainda impregnada de conceitos, teorias e práticas militares. A República de então não era a que se desejava. E o Rio Grande do Sul, onde a insatisfação foi mais intensa, transformou-se em palco de lutas sangrentas iniciadas em 1893, o mesmo ano do início do Simbolismo.

A Revolução Federalista (1893 a 1895), que começou como uma disputa regional, ganhou dimensão nacional ao se opor ao governo de Floriano Peixoto, gerando cenas de extrema violência e crueldade no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Além disso, surgiu a Revolta da Armada, movimento rebelde que exigiu a renúncia de Floriano, combatendo, sobretudo, a Marinha brasileira. Ao conseguir esmagar os revoltosos, o presidente consegue consolidar a República.

Esse ambiente provavelmente representou a origem do Simbolismo, marcado por frustrações, angústias, falta de perspectivas, rejeitando o fato e privilegiando o sujeito. E isto é relevante pois a principal característica desse estilo de época foi justa-mente a negação do Realismo e suas manifestações. A nova estética nega o cientificismo, o materialismo e o racionalismo. E valoriza as manifestações metafísicas e espirituais, ou seja, o extremo oposto do Naturalismo e do Parnasianismo.

"Dante Negro" - Impossível referir-se ao Simbolismo sem reverenciar seus dois grandes expoentes: Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimarães. Aliás, não seria exagero afirmar que ambos foram o próprio Simbolismo. Especialmente o primeiro, chamado, então, de "cisne negro" ou "Dante negro". Figura mais importante do Simbolismo brasileiro, sem ele, dizem os especialistas, não haveria essa estética no Brasil. Como poeta, teve apenas um volume publicado em vida: "Broquéis" (os dois outros volumes de poesia são póstumos). Teve uma carreira muito rápida, apesar de ser considerado um dos maiores nomes do Simbolismo universal. Sua obra apresenta uma evolução importante: na medida em que abandona o subjetivismo e a angústia iniciais, avança para posições mais universalizastes - sua produção inicial fala da dor e do sofrimento do homem negro (observações pessoais, pois era filho de escravos), mas evolui para o sofrimento e a angústia do ser humano.

Já Alphonsus de Guimarães preferiu manter-se fiel a um "triângulo" que caracterizou toda a sua obra: misticismo, amor e morte. A crítica o considera o mais místico poeta de nossa literatura. O amor pela noiva, morta às vésperas do casamento, e sua profunda religiosidade e devoção por Nossa Senhora geraram, e não poderia ser diferente, um misticismo que beirava o exagero. Um exemplo é o "Setenário das dores de Nossa Senhora", em que ele atesta sua devoção pela Virgem. A morte aparece em sua obra como um único meio de atingir a sublimação e se aproximar de Constança - a noiva morta - e da Virgem. Daí o amor aparecer sempre espiritualizado. A própria decisão de se isolar na cidade mineira de Mariana, que ele próprio considerou sua "torre de marfim", é uma postura simbolista.

Fonte:
http://www.vestibular1.com.br/

terça-feira, 29 de junho de 2010

Vãnia Maria Souza Ennes (Paraná em Trovas)

artigo por José Feldman

Em 19 de junho de 2010, em um jantar integrante das festividades dos Jogos Florais de Curitiba, a presidente da União Brasileira dos Trovadores do Paraná, Vãnia Maria Souza Ennes realizou uma noite de autógrafos, ao lançar o seu livro Paraná em trovas, em sua 3a. edição, ocasião esta que tive a honra de conhecer pessoalmente esta trovadora, plagiando a definição do irmão trovador maringaense Assis, "encantadora".

Encantada olho os pinheiros,
Formosos! Iguais? não há.
Dos poetas são os parceiros
que versam o Paraná.
(VÃNIA M. S. ENNES)

Vânia Ennes, filha do Paraná, como uma regente que comanda a sua orquestra, sob o movimento de sua batuta faz com que nos embriaguemos em instantes de pura emoção. Através das trovas contidas no livro vivemos os acordes dos noturnos de Chopin, a Pastoral de Beethoven, a Cavalgada das Valquírias de Wagner, a Marcha Triunfal, da Aída, de Verdi. Sejam nas trovas, ou mesmo em textos de sua lavratura, podemos sentir a beleza que há no mundo que nos rodeia. Sempre otimista, essas trovas são o nascer do sol em toda a sua magnitude, o cantar dos passarinhos ao despontar da aurora, é o dia morno a nos aquecer o coração, é o final da tarde quando muitos de nós após um dia intenso de trabalho nos sentamos na varanda a saborear um tererê ou chimarrão. É a noite, não a escuridão, não a tristeza que muitos buscam nela, mas uma noite onde ela descortina uma lua brilhante envolvida por um véu de estrelas.

Quando sopra o vento sul,
a trova viaja e vai fundo.
Seu caminho é o céu azul…
Espalha-se pelo mundo!
(VÂNIA M. S. ENNES)

Paraná em trovas é um livro, onde esta fantástica trovadora reune trovadores paranaenses que deixam a sua marca no livro da história de nossa literatura tão vasta. Por seu intermédio mostra que neste estado verdejante, de terra vermelha, existe um povo que sabe cantar os seus momentos de emoção, com todo sentimento que pode ser contido em uma trovinha de quatro versos setessilábica.

Vem trovador, vem correndo,
ao meu Paraná, porque
O Pinheiro está morrendo…
De saudades de você…
NEIDE ROCHA PORTUGAL (Bandeirantes)

Ao Paraná, imagino,
dentro da graça altaneira,
o pinheiro é como o Hino
ou como a própria Bandeira.
FERNANDO VASCONCELLOS (Ponta Grossa)

Mas, Vânia não pára por aí. Seu livro é uma Arca de Noé que carrega todos que estão em seu caminho, Pernambuco, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, etc. e mesmo outros países como Estados Unidos, Portugal, Panamá, México, e outros, famosos e nem tão famosos.

Como já dizia a poetisa norte-americana Emily Dickinson (1830-1886) “Não há melhor fragata que um livro para nos levar a terras distantes”, e Vânia comanda esta fragata por este Brasil imenso levando os trovadores nesta viagem e trazendo até nós toda esta paisagem exuberante, vencendo fronteiras nacionais e internacionais, carregando a bandeira desfraldada da Trova “por mares nunca dantes navegados”.

O livro possui em seu bojo cerca de 400 trovas. Trovadores do Paraná, de outros Estados do Brasil, de outros Países e de trovadores já falecidos que imortalizam as suas trovas nesta obra. Nomes do quilate de, além da autora, Antonio Augusto de Assis, Amália Max, Dinair Leite, Gerson Cesar Souza, José Westphalen Corrêa, Lairton Trovão de Andrade, Fernando Pessoa, Carlos Drummond, Mario Quintana, José Ouverney, Glédis Tissot, entre tantos outros.

Como ela mesma diz “saber viver é saber quebrar as durezas normais da existência, ao conseguir enxergá-las com os olhos da alma e da serenidade de espírito.” É assim que é Vânia, tranquila cativando com seu sorriso a todos que estão em seu caminho. É a voz de nosso querido Paraná, é a voz do Brasil.

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A seguir algumas das trovas de seu livro

Que a amizade não se meça
por sorrisos e elogios,
mas por ser, sem que se peça,
o sol em dias sombrios.
DOMINGOS FREIRE CARDOSO – Portugal

O poeta é um fingidor.
finge tão completamente
que chega a fingir que é dor,
a dor que deveras sente.
FERNANDO PESSOA – Portugal

Linda musa brasileña
llena de amor y bondad
eres princesa risueña
que me da felicidad.
JOSELITO FERNÁNDEZ TAPIA – Perú

Este é o exemplo que damos
aos jovens recém-casados:
que é melhor se brigar juntos
do que chorar separados!
LUPICÍNIO RODRIGUES – Porto Alegre/RS

Tudo muda, tudo passa,
Neste mundo de ilusão:
Vai para o céu a fumaça,
Fica na terra o carvão.
GUILHERME DE ALMEIDA – Campinas/SP

Diz uma lenda tingui
que Tupã, Deus dos guerreiros,
enterrando a lança aqui
fez nascer muitos pinheiros…
HARLEY CLÓVIS STOCCHERO – Curitiba/PR

Pescador, pensa, avalia…
e diga se ainda crê
na graça da pescaria,
se o peixe fosse você…
HERIBALDO BARROSO – Acari/RN
___________
Fonte:
– ENNES, Vânia Maria Souza (organizadora). Paraná em Trovas: Seleção de Trovas. 3a. Edição revisada e ampliada. Curitiba: ABRALI, 2009.
– Comentário: José Feldman

Josias Alcântara (Como a Poesia Pode Revolucionar a Educação)

pintura à óleo de Diva do Val Golfieri
Educar é relativizar o eu humano; é um processo de abertura para o outro.
(Jean Jacques Rousseau)

Martins D’ Alvarez (Eu Sei Ler)

Eu sei ler corretamente,
faço contas de somar,
sou batuta em dividir,
gosto de multiplicar.

Quando a professora escreve
no quadro-negro da escola,
leio até de olhos fechados:
“Paulo corre atrás da bola.”

Pra somar uma banana
com mais duas e mais três,
vou comendo e vou somando
1 mais 2 mais 3 são 6.

Pra dividir três pães
comigo e com meu irmão?
Eu sou o maior, ganho dois.
Para ele basta um pão.

Se mamãe me dá um doce
na hora de merendar,
acabo comendo três.
Como eu sei multiplicar!

Os professores encontram sérias dificuldades na escolha sobre a melhor estratégia para inserir a poesia em suas aulas. Por que existe essa dificuldade? A resposta é muito simples. Desde a época da ditadura, a poesia e a filosofia, foram quase abolidas das salas de aulas, porque os praticantes se tornavam mais críticos em razão do aumento de conhecimento paralelo que adquiriam. A lacuna de quase cinqüenta anos, fez com que pelo menos duas gerações de educadores não tivessem acesso a essas matérias tão importantes na vida de muitos. Os cientistas descobrem o ápice da tecnologia presente, mas somente os poetas as tornam belas e únicas em seu devido tempo.

Não é a poesia jogada ao léu que mudará a estrutura pedagógica e sim o compromisso de cada profissional com os valores que dão sustentabilidade para a formação humana. *Viver é o que desejo ensinar-lhe. Quando sair das minhas mãos, ele não será magistrado, soldado ou sacerdote, ele será antes de tudo, um homem.*. (Jean Jacques Rousseau). A poesia é, em primeira instância, o ato de viver com alegria e solidariedade existencial.

Se a base estudantil for alimentada por meio de estímulos eficientes e interativos, teremos, com certeza no futuro, um aumento significativo de novos leitores, principalmente para aqueles que entenderam as dádivas que um livro proporciona. Torna-se importante a adesão da família e educadores, fortalecendo sobretudo o ato do pensar com prazer e evoluir conscientemente

Sugestões práticas para trabalhar com a poesia em sala:

1- Oficinas de poesias e literatura visando aguçar a criatividade e a imaginação de novos pensadores. *Um país se constrói com homens e livros* (Monteiro Lobato)

As escolas que beberam desta idéia tiveram incríveis resultados, não somente no crescimento intelectual, como também na disciplina de várias matérias, tais como, português, literatura, história, filosofia e artes.

2- Estimular a contação de histórias, realização de recitais, encenação de peças de teatro, utilizando temas construídos pelos próprios alunos. Os professores notarão a expressiva melhoria de repertório vocabular, no diálogo e na oralidade livre e descompromissada.
3- Incentivar e promover concursos internos e externos de eventos coletivos e competições esportivas.

Esse intercâmbio cultural os fará, com certeza, mais próximos e prósperos, todas as vezes que trabalharem em equipe, inserindo sobretudo, a honra, a verdade, a solidariedade e o amor ao próximo.

4- Desenvolver oficinas que agreguem valores, tais como: desenhos artísticos, canto, dança, jornais interno, oficinas manuais e jogos lúdicos. Havendo disposição para essa prática e exercício contribui-se para uma nova safra de preciosos cidadãos.

5- Motivar a participação dos pais, para que eles sintam mais interesse pela escola e pelos filhos. Se a arte for inserida desta forma, nos corações dos jovens, teremos não somente o resgate da poesia inserida como base, mas uma revolução educacional, propriamente dita...

6- Exemplo: Na escola municipal de Curitiba, Papa João XXIII, alguns professores conseguiram experimentar algumas das propostas citadas. Em razão do exercício prático e contínuo, de tais estímulos artísticos com seus educandos, conseguiram a classificação de melhor escola pública em todo estado do Paraná, e a quarta melhor do Brasil. Esta experiência validou-se, depois de cinco anos de muito interesse e dedicação de todos os envolvidos.

7- Para isso é necessário analisar todas as etapas experimentadas. Uma base de ensino bem fortalecida de valores e unidade, será a promessa de um futuro mais justo e humano.

Edifica-se, portanto, o homem, ou desmorona-se o ser.

Sem poesia, seremos viajantes desatentos, sem percebermos a beleza que nos rodeia.

Fontes:
Josias Alcântara. http://www.unicape.com.br/page7.php
Poema Eu Sei Ler = http://peregrinacultural.wordpress.com/

Literatura Brasileira (Parte 8 = O Parnasianismo)



A poesia parnasiana preocupa-se com a forma e a objetividade, com seus sonetos alexandrinos perfeitos. Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira formam a trindade parnasiana O Parnasianismo é a manifestação poética do Realismo, dizem alguns estudiosos da literatura brasileira, embora ideologicamente não mantenha todos os pontos de contato com os romancistas realistas e naturalistas. Seus poetas estavam à margem das grandes transformações do final do século XIX e início do século XX.

Culto à forma - A nova estética se manifesta a partir do final da década de 1870, prolongando-se até a Semana de Arte Moderna. Em alguns casos chegou a ultrapassar o ano de 1922 (não considerando, é claro, o neoparnasianismo). Objetividade temática e culto da forma: eis a receita. A forma fixa representada pelos sonetos; a métrica dos versos alexandrinos perfeitos; a rima rica, rara e perfeita. Isto tudo como negação da poesia romântica dos versos livres e brancos. Em suma, é o endeusamento da forma.
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Anteriores
Parte I - Origens = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-1-origens.html
Parte II - Quinhentismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-2-o.html
Parte III - Barroco = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-3-o-barroco.html
Parte IV - Arcadismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-4-o.html
Parte V - Romantismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-5-o.html
Parte VI - Realismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-6-realismo.html
Parte VII - Naturalismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-7.html

Fonte:
http://www.vestibular1.com.br/

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Trova 158 - Fiore Carlos (Limeira/SP)

Montagem sobre imagens obtidas em http://crisousil.blogspot.com e www.plinn.com.br/datas/junina/08/sinha/01.htm (fogueira)

Vanda Fagundes Queiroz (1938)

Curitiba (por Jean Baptiste Debret - 1827)
Nasceu em 20 de novembro de 1938, na vila de Santo Antonio da Boa Vista, município de São João da Ponte, norte de Minas Gerais.

Viveu parte de sua infância na Fazenda Tipis, segundo ela, “um paraíso, o melhor lugar do mundo”.

Filha de Aristides Fagundes de Souza (falecido em 1945) e Maria de Deus Ferreira (falecida em 1999).

Vanda, conforme narra em seu livro “UMA LUZ NO CAMINHO”, com sete anos de idade iniciou o curso primário na cidade de Ibiracatu, naquela época uma pequena vila. Logo de inicio, aflorou a tendência para a arte de ler e escrever, e a menina estudiosa e declamadora tornou-se poetisa, ainda adolescente.

Sua vida de infância, até a conclusão do curso primário, foi retratada com emoção no seu livro “UMA CANDEIA NA JANELA”, narração romanceada de seu contexto familiar, baseada em lembranças da infância, mas que indiretamente se faz registro de uma cultura regional, com seu linguajar próprio, culinária, costumes, tipos humanos, traços vivos de um determinado tempo e um determinado espaço restritos a uma rústica região do sertão mineiro.

Continuou os estudos no Colégio Imaculada Conceição, em Montes Claros, progressista cidade do norte de Minas Gerais, e ali fez o curso ginasial e depois se formou normalista (Curso Normal de Formação de Professores Primários).

Casou-se em 1958 e foi residir em Curitiba, Paraná.

Por concurso público, ingressou no então DCT (Departamento de Correios e Telégrafos), hoje ECT (Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos.

Ainda em Curitiba, fez o curso de Letras (Português e Francês) na Universidade Católica do Paraná (PUC), enquanto escrevia crônicas, poemas, trovas e sonetos.

Depois de 16 anos de trabalhos e estudos em Curitiba, em razão da transferência de seu marido para a Base Aérea de São Paulo, Cumbica – Guarulhos, a família mudou-se para Guarulhos, onde Vanda continuou trabalhando nos Correios, escrevendo e participando de concursos de Trovas e Poesia em todo o país.

Licenciada em Letras, tornou-se professora da rede escolar paulista, lecionando, inclusive Francês. Pouco depois, concursada, deixou a ECT e efetivou-se como professora na Escola Estadual de Primeiro e Segundo Graus “Professor Fábio Fanucchi”, em Guarulhos-SP.

Em 1984 recebeu medalha de “Professor do Ano”, uma promoção da Prefeitura Municipal.

Foi a primeira mulher a ingressar na Academia Guarulhense de Letras (AGL). Ainda em Guarulhos, fez o Curso de Pedagogia Plena, nas Faculdades Farias Brito.

Contando com trabalhos ainda inéditos, publicou até agora cinco títulos:
“TRAJETÓRIA” (Poesia), Editora do Escritor, São Paulo, 1981;
“DESCORTINANDO” (Poesia), J. Scortecci Editora, São Paulo, 1990;
“CONVERSA CALADA” (Sonetos), Editora Lítero-Técnica, Curitiba, PR, 1990;
“UMA CANDEIA NA JANELA” (Prosa), Torre de Papel Editora Gráfica, Curitiba, PR, 1997 e
“UMA LUZ NO CAMINHO” (Autobiografia), Editora Torre de Papel, Curitiba, PR, 2004.

Premiadíssima nos concursos de poesias e trovas por todo o Brasil e às vezes em Portugal, a poesia versátil de Vanda é repleta de ternura, sensibilidade, profundidade de sentimento, com domínio perfeito da língua portuguesa, mas sem rebuscamento. Emociona quem lê, porque escreve com o coração.

No livro CONVERSA CALADA, são sessenta (60) sonetos (incluindo uma versão para o Francês), versando sobre desencontro, esperança, tristeza, alegria, família, criança, flor, fantasia, filosofia, amor, saudade, vida, etc.

Assim, em seus versos encontramos a jovem apaixonada:

“Quando eu te conheci,
plasmou-se a infinitude
das coisas eternas.
Algum liame perene
para além firmou-se,
muito além das coisas menores.
Estrelas trocaram sorrisos,
anjos tocaram guizos.
Nasceu o inexplicável,
o essencial,
o verdadeiro”.

A mulher casada e mãe, embevecida com suas crianças, como escreveu no soneto A Meu Filho:

“Vejo a criança de ontem em você,
que embalei nos meus braços ternamente.
Sinto inundar-me de emoção porque
eu vi botão a flor hoje imponente”.

Ou ainda, a avó saudando o primeiro neto:

“A notícia é como afago,
traz-me ternura e carinho:
Que bênção! Chegou Tiago,
o meu primeiro netinho”.

Lendo a poesia espontânea, vibrante e suave de Vanda Queiroz é impossível não nos lembrarmos da grande poetisa de Goiás, Cora Coralina, com suas “Estórias da Casa Velha da Ponte”.

Retornando a família em 1985 para Curitiba, Vanda aposentou-se do magistério e passou a ocupar-se com trabalhos de revisão de texto, além de desempenhar serviço voluntário na igreja.

Ocupa, hoje, a cadeira nº 12 da Academia Paranaense de Poesia.

Pela sua obra literária, foi agraciada em 2008 com a Medalha de Mérito “Fernando Amaro”, promoção da Prefeitura Municipal de Curitiba.

Só no âmbito da trova, conta com mais de trezentas premiações. Eis uma pequena amostra:

Em Niterói, RJ:

“Sombra e luz fazem nuança
no largo painel da vida.
Luz é o raio de esperança,
e sombra, a ilusão perdida”.

Pouso Alegre, MG:

“Olhando o velho retrato
da praça, eu ouço à distância
acordes que são, de fato,
cirandas da minha infância”.

Bandeirantes, PR:

“A mais sublime lição
de grandeza, amor e fé,
foi ver um homem sem mão
pintando flores com o pé”.

Campinas, SP:

“Por mais que o progresso iluda,
deturpe e inverta valor,
o que Deus fez ninguém muda:
o amor será sempre amor!”

Sua preocupação social é patente no poema “Menino da feira”, 1º lugar no Concurso Rosacruz, em Guarulhos, SP:

“Menino da feira,
esperto e magrinho,
tão cedo na vida
perdeu seu lazer.
Carreto, moça?
Baratinho, dona!
Posso cuidar do carro, tia?
Menino insistente
pedindo com os olhos
que guardam no fundo
segredos do lar…
(Talvez o pai fugiu…
A mãe leva para fora…
Oito irmãozinhos com fome...)
Menino
sem direitos…
só deveres.
Seus pais, onde estarão?
Talvez você seja filho…
da minha própria omissão.”

Segundo Adélia Victória Ferreira, “Vanda não precisa de apresentações ou apologistas. Sua arte fala por si. Basta conhecê-la para se constatar que ali se desvenda uma das maiores poetisas brasileiras da atualidade”.

Bem definiu a professora Elisa Campos de Quadros, Mestre em Letras e Professora Adjunta de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Paraná, quando disse: “A alma doce e introvertida da autora demonstra, nesse impulso para o retraimento, que a poesia coabita mais com a solidão do que com o barulho, viceja mais no silêncio do que no burburinho”. E acrescenta que: “Conversa Calada é uma obra que traz canto, encanto e encantamento”.

Está presente no “Anuário de Poetas do Brasil – 1980 – 3º volume, organizado pelo saudoso poeta Aparício Fernandes, Rio de Janeiro, RJ, páginas 447/452 com dez sonetos primorosos. Figura também no “Anuário – Coletânea de Trovas Brasileiras (página 10) e em ESCRÍNIO, Seleção Anual de Trovas (página 14) ambos de 1981, organizados pelo saudoso trovador Fernandes Vianna, Recife – Pernambuco.

Assim, a mineira de nascimento e paranaense de coração, ou por adoção, vai construindo sua obra literária sem alarde, mas forte, vigorosa e contínua, sem abdicar, contudo, da ternura e da simplicidade, garantindo um lugar de destaque no Panorama da Literatura Brasileira.

Fonte:
Artigo de Filemon F. Martins para a Usina das Letras.

Silviah Carvalho (Sacrifício)



Altar! Onde deixo meus mais puros sentimentos,
Lugar de descanso e quietudes, de onde verte águas
Que purificam meus pensamentos, um caminho a seguir,
Uma busca exaustiva por um único momento.

Levo-te ao cume da montanha para que saiba que existe um abismo,
Que faz separação entre pureza e impureza, santo e profano,
Que nos leva a conhecer todos os nossos limites e percebemos
Que o bem que pensamos ter não é nosso... Somos humanos.

Não há conquista onde não há coragem!
Para que ir ao templo se tudo já é puro?
Nossas vontades tomam o espaço de nossas necessidades
Incoerentes decisões nos leva ao final do túnel.

“A lágrima é o direito da dor”, ao menos se tem esse direito!
Pois na solidão forma-se um talento, a índole na convivência,
Para que compreenda o meu amor por você, na sua essência,
Olhe para baixo de onde estamos deste cume tão alto...

Veja se pode ousar ver a terra, se pode ao menos sentir seu cheiro,
Saiba se estivesse lá em baixo, onde estou neste momento,
E se pedisse “se joga em meus braços”, eu me lançaria por inteira.
E voaria rumo a este profundo abismo... Seu sentimento!

Levaria comigo meu templo, e no altar te purificaria a consciência,
Mesmo sabendo que tudo isso pode nunca ser verdadeiro,
Mesmo sabendo que perderia o direito e a inocência.

Deste cume e deste chão me rendo aos seus encantos,
Fecho ante a mim a porta do meu templo e no meu recôndito a selo,
Pela tua liberdade, fecho-me à vida e aprisiono meu canto.

Prostro-me, para confessar que te amo tanto e sem razão,
Incapaz... Num altar de dor que passa a ser só meu. Procuro absorver
Num sacrifício infindo este resto de vida que agora é seu.

Fonte:
Colaboração da Autora

Literatura Brasileira (Parte 7 = Naturalismo)


O romance naturalista, por sua vez, foi cultivado no Brasil por Aluísio Azevedo e Júlio Ribeiro. Aqui, Raul Pompéia também pode ser incluído, mas seu caso é muito particular, pois seu romance "O Ateneu" ora apresenta características naturalistas, ora realistas, ora impressionistas. A narrativa naturalista é marcada pela forte análise social, a partir de grupos humanos marginalizados, valorizando o coletivo. Os títulos das obras naturalistas apresentam quase sempre a mesma preocupação: "O mulato", "O cortiço", "Casa de pensão", "O Ateneu".

O Naturalismo apresenta romances experimentais. A influência de Charles Darwin se faz sentir na máxima segundo a qual o homem é um animal; portanto antes de usar a razão deixa-se levar pelos instintos naturais, não podendo ser reprimido em suas manifestações instintivas, como o sexo, pela moral da classe dominante. A constante repressão leva às taras patológicas, tão ao gosto do Naturalismo. Em conseqüência, esses romances são mais ousados e erroneamente tachados por alguns de pornográficos, apresentando descrições minuciosas de atos sexuais, tocando, inclusive, em temas então proibidos como o homossexualismo - tanto o masculino ("O Ateneu"), quanto o feminino ("O cortiço").
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domingo, 27 de junho de 2010

Marly Nascimento Brasiliense (Poemas Escolhidos)



SEM TEU AMOR...

Meu amor, sem o teu, é tão triste
Perdido anda a Deus e a ventura
Faz da vida, a falsa fé, antítese
E vive lento se perdendo em toda rua.

Meu amor sem o teu é tão amargo
Corre em busca do teu olhar tão doce
A furto rouba-te um pequeno pedaço
E faz vida inteira...como se fosse.

Meu amor, sem o teu, não tem sentido
É um caminho estranho bipartido
Que nos afasta e nos enfurece...
E por mais que meu amor queira o teu
Sabe que minha pouca fé, é de um ateu
Que confia na ineficácia de toda prece!

MADRUGADA

Gosto das madrugadas não quentes
Onde escuto o som do silêncio
Cortado, de súbito, de repente
Pelo uivo do vento excêntrico.

...que faz tudo lhe fazer coral
Sinfonia imprevista e mutatória
Passando por minha janela, formal
Triunfante na sua brava vitória.

Ao longe um cachorro late
O som dum motor reanima
Vida que, na madrugada, sabe
onde o coração se aninha.

E...com, esperança, alguma
Minh`alma só se acostuma
Com o meu sonho de quimera!
Escuto todo o silêncio do mundo
No meu íntimo mais profundo
- minha madrugada te espera!

HARMONIA

O coração está em festa, a alma aguarda
O olhar prepara- se para se alegrar
A emoção preenche o vazio, o nada
E, de toda a tristeza, toma o lugar.

A aventura de rever o semblante
Que faz páreo cúmplice constante
Com nossa expectativa, nosso afeto...
E de lá vem o beijo e o abraço
Que não são maléficos ou mal dados
De harmonia e carinho, repletos!

Então a conversa flui sem tempo
Soltam-se as alegrias, os lamentos
E a vida parece mais alongada...
Podemos dizer tudo ao nosso amigo!
( amizade – sentimento tão antigo )
Rir por tão pouco... chorar por quase nada!

ESPONTÂNEO

Preciso de um coração generoso que resista
À influência do desânimo que, às vezes, sofro
Que ouça, da minha alma, as primícias
E seja o primeiro a pedir o meu socorro!

Que comigo empunhe a bandeira da alegria
Que não traia, do meu amor, as confidências
Que tenha sede de vitórias e de conquistas
Que nossas aspirações se tornem quase idênticas.

Que rasgue com os meus: momentos sofridos
Com cuidado consinta ser providente
Achar antes de um amante, um grande amigo
Que tento não ser, jamais, impaciente.

Que visione como eu, sem cogitação - paz
Que encontre em mim, de espelho, fragmentos
Que creia, ainda agora, na ressurreição capaz
De ensinar-me a soletrar outros novos sonhos.

Que velemos – estimar e sermos estimados
Risonhos sorrisos saídos do fundo do peito
Ternuras do afeto, por nós, compartilhado
E ...se assim tudo feito...nada desfeito
Que eu mate esta tortura de querer amar
E esta pouca vontade de querer ficar.....

...é tão nossa....

A liberdade é tão nossa, tão pessoal
Cúmplice de nossos sonhos íntimos
Desprovida de pecado parece legal
Mas, sabemos, o quanto fingimos...

O pensamento, pelo menos, é livre
Como não há frustração, não deprime
nossa mente e nosso corpo não arruína...
Como um encanto acontece lá distante
Dos olhares, dos ditadores, dos maçantes.
E aí a liberdade, no peito, fica recôndita!

HORA SAGRADA

Qual será a hora sagrada?
Os minutos daquela que nascemos?
Ou quando nossa mãe é amada
E amando, vão nos concebendo?

Será que é aquela que passa molhada
Por lágrimas de dor e sofrimento
Ou aquela de alegria desfrutada
Que gera novo encantamento?

Que hora será a hora sagrada
A da partida ou a da chegada?
A que fica ou foge da memória?

Hora sagrada...por Deus abençoada
É aquela que vem e que passa
E que inventa nossa história!

UM FILHO, UM LIVRO E UMA ÁRVORE

Que me pese a mão da morte
Não temo, não definho
Eu tive o poder e a sorte
De todo o dever cumprido...

Longa estrada, um só caminho
Amar , amparar e defender
Os que me deram carinho
Os que sofreram com meu sofrer!

A alma sabe, o coração sente
Quem sorriu comigo sempre
Quem enxugou o meu pranto.

Ficaram no caminho alguns sonhos
Mas esperanças ainda componho
Até meu derradeiro dia – santo!
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Fontes:
- Selmo Vasconcellos.
- Na hora Sagrada – e-book.

Marly Nascimento Brasiliense


Nasceu no bairro da Liberdade, em São Paulo.

Cursou o primário no Externato Santo Antonio.O colegial e o curso científico cursou no Colégio Paulistano.

Diplomou–se técnica em Análises Biológicas no Instituto Bioclínico e desempenhou suas funções nos laboratórios dos Hospitais: Modelo, do Câncer e Infantil Menino Jesus.

Autodidata, freqüentou cursos de literatura e poesia na busca de cada vez mais aprimorar seus conhecimentos do nosso riquíssimo idioma.

Laureada em vários concursos regionais e nacionais possui vasta gama de Diplomas e troféus.

Contribuiu com a Prefeitura de São Bernardo do Campos ministrando “wokshop” em colégios e bibliotecas.

Com 19 títulos e mais de 2.000 poesias registrados na *Fundação Biblioteca Nacional*
tem nos versos * a emoção e a vida que não cabem no dia-a-dia *.

Participa de vários sites relacionados à literatura e escrita poética.

Publicações:

• Vasos e Vértices (1997) – Lançado na Câmera de Cultura de São Bernardo do Campo. Segundo lançamento no Clube MESC – Movimento de Expansão Social Católica;
• Relançamento (1998) na 15* Bienal Internacional do Livro de SãoPaulo pela Editora Scortecci. Foi laureado com a Comenda do Mérito Poético da Academia de Letras e Ciências de São Lourenço (MG) e melhor livro de Poesia Moderna pela Sociedade de Cultura Latina do Brasil (Mogi das Cruzes);
• Réplica Poética (1998) – Lançado no Bufê Bordon`s numa festividade restrita em São Bernardo do Campo e no Salão Internacional do Livro de São Paulo (199?). Editora Scortecci;
• Amor sem limites (2000) – Lançado na FATI – Faculdade Aberta da Terceira Idade de São Bernardo do Campo.Opção2 – Porto Alegre RS;
• Quase todas as emoções (2001) – Lançado Na FATI – Faculdade Aberta da Terceira Idade de São Bernardo do Campo. Produção independente.

Ebooks:

• Na hora sagrada
• Amor sem limites
• *Tanto de Tempo* - Poesias
• *Amores Alados*
• Página por página.
• ...Calmarias e Temporais...
• ...truques e perseverança...

Marly usa as figuras de linguagem, o ritmo e as rimas para que seus Poemas transmitam emoções com mais encanto e harmonia.

É membro acadêmico da AVBL – Ocupa a cadeira 321
Presidente e Patronnesse Profa.Maria Inês Simões.
Aí tem seis e-books publicados, sendo este “...truques da perseverança...” o sétimo.
É Dra. Honoris Causa em Filosofia Universal/Ph.I e membro da ALB/ Nacional (12/09/2009)
É membro acadêmico da ALB de Piracicaba
Membro CLUBE-BRASILEIRO-DA-LÍNGUA-PORTUGUESA-BH-MG-BRASIL

Pertence ao Grupo Internacional Poetas del Mundo

Fonte:
Selmo Vasconcellos.
http://antologiamomentoliterocultural.blogspot.com/2010/04/marly-nascimento-brasiliense-entrevista.html

Rodolpho Abbud (Baú de Trovas)


Nasceu em Nova Friburgo/RJ, em 21 de outubro de 1926; filho de Dona Ana Jankowsky Abbud e de Ralim Abbud. Radialista, Locutor Esportivo, Poeta e Trovador, foi sempre muito bom em tudo aquilo que fez ou faz.

Contam até que, certa vez, transmitindo um jogo do Friburguense, teve a sua visão do campo totalmente coberta pelos torcedores. Sem perder a calma, e com sua habitual presença de espirito, continuou a transmissão assim: - "Se o Friburguense mantém a sua formação habitual, a bola deve estar com o zagueiro central, no bico esquerdo da área grande..."

Tem um livro de Trovas intitulado: "Cantigas que vêm da Montanha", e, recebeu, com inteira justiça e por voto unânime de todos os Trovadores que ostentam essa honra, o titulo de "Magnífico Trovador".

Na vida, lutar, correr,
não me cansa tanto assim...
O que me cansa é saber
que estás cansada de mim!

Naquele hotel de terceira,
que a policia já fechou,
a Maria arrumadeira
muitas vezes se arrumou!

Enquanto um velho comenta
sobre a vida: -"Ah! Se eu soubesse..."
um outro vem e acrescenta
já descrente: -"Ah! Se eu pudesse..."

Foram tais os meus pesares
quando, em silêncio partiste,
que, afinal, se tu voltares,
talvez me tornes mais triste...

Depois do sonho desfeito,
louvo o porvir que, risonho,
não me recusa o direito
de escolher um novo sonho!

Soube o marido da Aurora,
ela não sabe por quem,
que o vizinho dorme fora,
quando ele dorme também...

Seja doce a minha sina
e, num porvir de esplendor,
nunca transforme em rotina
os nossos beijos de amor...

-"Dê carona ao seu vizinho!"
E a Zezé, colaborando,
vai seguindo o meu caminho
e me dá de vez em quando!...

Na vida, em toscos degraus,
entre tropeços a sustos,
mais que a revolta dos maus,
temo a revolta dos justos!

Minha magoa e desencanto
foi ver, no adeus, indeciso:
- Eu disfarçando o meu pranto...
- Tu disfarçando um sorriso...

Em seus comícios, nas praças,
o casal cria alvoroços:
- Vai ele inflamando as massas!
- Vai ela inflamando os moços...

Vamos brincar de mãos dadas,
crianças pretas e brancas!...
O sol de nossas calçadas
não tem porteiras nem trancas!

Um Deputado ao rogar
ao Senhor, em suas preces,
pede que o verbo "caçar"
não se escreva com dois esses!...

À noite, ao passar das horas,
esqueço os dias tristonhos,
pois tuas longas demoras
dão-me folga para os sonhos!

Chegaste a sorrir, brejeira,
depois da tarde sem fim...
E, nunca uma noite inteira
foi tão curta para mim!...

Ao se banhar num riacho,
distraída, minha prima
lembrou da peça de baixo
quando tirava a de cima ....

Vejo em minhas fantasias,
em Friburgo, pelas ruas,
mil sois enfeitando os dias
e, à noite, a luz de mil luas.

Na ansiedade das demoras,
quando chegas e me encantas,
mesmo sendo às tantas horas,
as horas já não são tantas...

Nessa paixão que me assalta,
misto de encanto e de dor,
quanto mais você me falta
mais aumenta o meu amor!...

Hei de vencer esta sina
que num capricho qualquer,
me fez amar-te menina
depois negou-me a mulher!...

Vem amor, vem por quem és!
Pois já tens, em sonhos vãos,
minhas noites a teus pés,
meus dias em tuas mãos!...

Toda noite sai "na marra",
Dizendo à mulher: -"Não Torra!"
Se na rua vai a farra,
em casa ela vai à forra!...

Um longo teste ela fez
de cantora, com requinte...
Cantou somente uma vez,
mas foi cantada umas vinte!...

Vendo a viuva a chorar,
muito linda, em seu cantinho,
todos queriam levar
a "coroa" do vizinho...

Não sei como não soubeste
mas o amor veio, infeliz...
Eu te quis, tu me quiseste,
mas o Destino não quis...

Provando em definitivo
que o Brasil é de outros mundos,
há muito "fantasma" vivo
passando cheques sem fundos...

Nosso encontro ...O beijo a medo...
A caricia fugidia...
Nosso amor era segredo,
mas todo mundo sabia...

Aproveita, criançada,
o tempo, alegre, ligeiro,
que da a uma simples calçada,
dimensões do mundo inteiro!

Cama nova, ele sem pressa
ante a noivinha assustada,
quer examinar a peça
julgando já ser usada!...

Em tudo o que já vivi,
nessa passagem terrena,
se um pecado eu cometi
com ela, valeu a pena!...

Fonte:
UBT Juiz de Fora.

Álvaro de Campos (Aniversário)



No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui --- ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado---,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos, 15-10-1929
––––––––––––––––––––
Obs: Alvaro de Campos é um dos heterônimos mais conhecidos de Fernando Pessoa
____________________
A não distribuição uniforme dos versos e a despreocupação com a distribuição rítmica dão ao poema um tom confessional, aproximando-o de um texto em prosa. As lembranças relatadas no texto referem-se a uma data específica lembrada pelo eu-poético - o dia do aniversário. Esta data é a propulsora para outras recordações da infância e outras angútias do eu-poético, servindo também como ponto de referencia temporal quando o eu-poético intercala-se e contrapõe-se entre o passado e o presente. A época da infância no poema é marcada pela inocência, pois a criança ainda não tem noção do que se passa à sua volta: "Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma". A passagem da criança para o adulto é marcada por uma perda, pois ele percebe que a vida não tem mais sentido. O poeta hoje "é terem vendido a casa", ou seja, é um vazio, que perdeu, inclusive, o bem mais precioso, a sensação de totalidade, de alegria, de aconchego dado pela vida em família na infância longínqua. Assim, a festa de aniversário toma o aspecto simbólico de um ritual familiar e religioso, dentro do qual a criança se torna o centro de um mundo que a acolhe e protege carinhosamente. "As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa", denota, com esta adjetivação uma característica comum a toda infância: o egocentrismo.

No presente, não há mais aniversários nem comemorações: resta ao poeta durar, porque o pensamento amargurado, critico e pessimista da vida o impede de ter a inocência de outrora. O tom nostálgico e angustiado do poema dá a sensação de que o eu-poético vive uma introspecção conflitiva relembrando um passado supostamente mais feliz que o presente. O trecho "serei velho quando o for. Nada mais." parece querer dar fim a este conflito interno. "Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira !..." conclui o tom confessional do poema e enfatiza uma espécie de conformismo ríspido e amargurado com o presente melancólico e sem perspectiva em relação a vida. "O tempo em que festejavam o dia dos meus anos !" é repetida muitas vezes no texto dando ênfase a importância da data na lembrança do eu-poético, servindo também para marcar a justa contraposição entre passado e presente, respectivamente infância e fase adulta.

O ultimo verso do poema sugere uma acomodação amargurada em relação ao passado.

Em "Eu era feliz e ninguém estava morto" pode-se notar novamente o conformismo com o presente que pode não ser o idealizado, mas que está alicerçado em um passado inocente, de aspecto virginal, contrapondo-se com a atual falta de perspectivas e a desmotivação para a vida, onde ele diz: "Hoje já não faço anos. Duro." O eu-poético oraliza um tom de amargura versificado de forma clara, coesa e coerente, marcando com precisão verbal os estados temporais e emocionais a que se refere no poema. Por se parecer com uma "auto-confissão poética", pode-se afirmar que o eu-poético insere no texto características comuns às pessoas que estão prestes a deixar o mundo material, ou que neste não sentem mais vontade de estar por muito mais tempo. A reflexão conflitiva e melancólica sobre o passado, a amargura em relação ao presente e sensação de que o tempo passou e algo que deveria ser resgatado perdeu-se em um passado longínquo, são características comuns em pessoas que encontram-se neste estágio da existência humana.

Fonte:
CD Digerati CEC 003.

Izabel Leão (Ser Poeta, um Sentimento do Mundo: Lupe Cotrim Garaude)


Ser poeta
é meu resíduo
de tristeza
ao não ser triste
A dor que deveras sente
é a que sinto.
E o que vemos a mais
nas coisas simples
os subterrâneos cavados
nas doces superfícies
é nosso modo de unir
o solto e o que resiste.
(O dúplice, de Lupe Cotrim)

Trajetória breve, mas fulgurante, intensa, com brilho próprio. Assim foi Lupe Cotrim Garaude, poetisa e intelectual, professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, que morreu há 40 anos e que ganhou em março uma exposição no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, organizada pela professora Leila Gouvêa, numa homenagem à sua obra literária. Na abertura da mostra, um seminário e um recital com canções do compositor Almeida Prado inspiradas no livro Cânticos da Terra, de Lupe Cotrim.

Com a reunião dos documentos que hoje compõem o acervo no IEB, a exposição “Ser poeta: Lupe Cotrim, 40 anos depois” propõe uma revisita à trajetória intelectual e literária da poeta. “Será uma reconstituição do itinerário de Lupe, desde o projeto, formulado aos 12 anos de idade, até tornar-se escritora, depois metamorfoseado em ‘ser poeta’, como ela mesma escreve na poesia O dúplice”, ressalta Leila.

O seminário com três mesas-redondas aberto pelas professoras Ana Lucia Duarte Lanna, diretora do IEB, e Marta Amoroso. “A professora-poeta”, tema da primeira mesa-redonda, contou com as memórias e lembranças de alguns artistas e docentes que foram alunos de Lupe nos primeiros anos de funcionamento da ECA, entre eles Ismail Xavier, Djalma Batista, Luís Milanesi e José Possi Neto.

A segunda mesa-redonda, “Uma intelectual na travessia dos anos 60”, contou com vários pesquisadores e intelectuais, que fizeram uma apresentação mais acadêmica de Lupe. Telê Ancona Lopez analisou anotações, comentários e sublinhamentos feitos nas margens dos livros e textos de Lupe Cotrim. Fábio Lucas, Ana Maria Fadul e Eduardo Peñuela Canizal mostraram sua visão particular sobre a obra da poetisa e intelectual.

“A poesia lírica de Lupe Cotrim”, nome da terceira mesa-redonda, com a participação de vários poetas brasileiros, que analisaram a obra poética da autora, inclusive seu livro póstumo, Monólogos do afeto, publicado seis meses após sua morte, “uma poesia espontânea, sem elaboração, mas com poemas muito interessantes”, comenta Leila Gouvêa. Desse livro Leila destaca a poesia Hino dos comedidos, em que Lupe mostra um caráter de inconformismo com o mundo em que vive e uma certa rebeldia em relação às convenções sociais do tempo em que viveu:

Não me agradam esses homens
bem fracionados no tempo,
cedendo-se amavelmente
em todas ocasiões
e mais também não me agradam
os partidários tão vários,
de toda moderação.
Vou passando bem distante
desses homens comedidos
desses homens moderados (...)
Adeus homens moderados,
adeus que sou diferente.
Compreendo a mulher que rasga
as vestes em grande dor
e sinto imensa ternura
pelo homem desesperado.

Segundo Leila, Lupe foi uma professora muito estimada pelos alunos. Embora tenha tido uma passagem meteórica como professora da ECA, deixou marcas profundas. “Ela fugia ao padrão acadêmico, tinha uma comunicação fácil com os jovens alunos. Em homenagem, o Centro Acadêmico da ECA recebe seu nome.”

Filho de Lupe, o professor de Artes Visuais da ECA Marco Giannotti, que não chegou a conviver muito tempo com a mãe em razão de sua morte precoce, afirma que um evento como esse é importante para a comunidade acadêmica relembrar uma pessoa que teve destacado papel na formação de uma das suas unidades de ensino, a ECA. “Ela conseguiu viver em pouco tempo uma vida intensa, construindo uma obra pequena, mas de grande valor literário. Assim a USP, como instituição, está valorizando melhor os seus quadros de professores.”

O Fundo Lupe Cotrim Garaude, no IEB, contém cerca de 1.100 documentos. Foi organizado e catalogado graças a uma bolsa de pós-doutorado concedida a Leila Gouvêa pela Fapesp. A exposição “Ser Poeta: Lupe Cotrim, 40 anos depois” e o livro Estrela breve – Uma biografia da poeta Lupe Cotrim, a ser publicado no segundo semestre, são os produtos finais do trabalho de pesquisa. Leila teve como supervisora do seu pós-doutorado a professora Yêdda Dias Lima, do IEB.

Lupe Cotrim começou a lecionar Estética na ECA em 1967, aos 33 anos. Na mesma época, fez doutorado em Filosofia na então chamada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, na rua Maria Antonia, sob a orientação da professora Gilda de Melo Souza. Dizia ter necessidade de adensar sua concepção de mundo, pesquisar nova dicção poética e depurar sua escrita. No final da década de 60, na turbulenta época da ditadura militar, os alunos da ECA entraram em greve e Lupe teve um papel fundamental na intermediação e diálogo entre autoridades e estudantes.

Nesse período, combinou a escrita literária e a docência com a produção ensaística, além de compor uma peça de teatro cuja revisão não pode concluir, devido ao câncer que a levou, em 18 de fevereiro de 1970, com apenas 36 anos de idade.

Sua trajetória foi intensa, deixando um legado de sete livros de refinada poesia lírica. Também cultivou o diálogo e a troca de cartas com escritores, especialmente Carlos Drummond de Andrade, o maior interlocutor epistolar de sua breve vida.

No livro Raiz comum (1959), ela já mostra sinais de pesquisa formal, elaboração e ao mesmo tempo um pouco da chamada geração 45, praticante das formas fixas da poesia, especialmente o soneto. Os destaques são Destino mineral e Nem um profundo mar. Ainda com uma certa proximidade com a geração de 45, com um estetismo subjetivo, é em Entre a flor e o tempo, de 1961, que Lupe cria sonetos que revelam certa inquietação com a busca de uma nova dicção poética. “A poetisa sempre esteve em busca de uma dicção autoral em conformidade com o seu sentimento do mundo”, lembra Leila.

O quarto livro, publicado no final de 1962, Cânticos da Terra, são poemas sobre animais e, assim como poetas como Borges e Apollinaire, criou seu próprio bestiário – uma coletânea sobre animais. Essa coletânea teve uma preocupação estética maior, ganhando uma edição belíssima, com ilustrações a bico-de-pena do artista plástico Aldemir Martins. “No mundo poético de Lupe, também havia espaço para os animais, numa tentativa de sair da nebulosa do eu que caracterizou muito seus primeiros livros”, explica Leila. Em Cânticos da Terra, por exemplo, a poetisa afirma:

Ritmado andar azul
e calculado
de um solene pavão
– longa cauda em flor,
adorno de linguagem
e proteção

Vale lembrar que o bestiário foi publicado pelo editor Massao Ohno, que teve importante papel nos anos 60, divulgando a chamada poesia novíssima de Roberto Piva, Carlos Felipe Moisés, Lindolf Bell, Hilda Hilst e Lupe Cotrim.

Cartas do seu amigo Carlos Drummond de Andrade (cerca de 50 correspondências) mostram o poeta elogiando Cânticos da Terra. “Sou um velho apaixonado do mistério dos animais, Lupe, e encontro com emoção em seus poemas esse poder de ir até o mais delicado deles, essa essência de vida e significado que a natureza não oferece cabalmente senão através da intuição poética.”

Ainda sobre essa coletânea, Leila conta que seis desses poemas foram musicados pelo compositor Almeida Prado, que sempre admirou ciclos de canções sobre bestiários e, quando descobriu os poemas de Lupe, entusiasmado, fez um ciclo de seis canções. Três delas serão apresentadas ao vivo no final do evento do dia 23. São canções para canto e piano interpretadas pelo barítono Pedro Ometto e o pianista Eduardo Tagliatti.

Lupe Cotrim tinha grande interesse pelo canto lírico, chegando a estudar para ser soprano. Acabou descobrindo que a poesia era seu maior dom. “Mais de uma vez Lupe chegou a falar de sua alegria em ter algum dos seus poemas musicados”, relembra Leila.

Em 1964, Lupe publica seu quinto livro O poeta e o mundo, que reflete uma fase de transição. Na poesia Última passagem, por exemplo, o tema a morte é bem recorrente na obra.

Quando eu morrer,
se morrer,
quero um dia de sol,
denso, cintilante,
escorrendo-me pelo corpo
seus dedos quentes.
E quero o vento,
Um largo vento dos espaços
Que me respire e me arrebate
No seu fôlego
Por outros continentes.
(...)
quero pegar a vida,
palmo a palmo,
traço a traço,
num dia esfuziante de azul,
com o mar na boca e nos braços.

O início de uma certa maturidade literária, conta Leila, se deu no livro Inventos, de 1967, em que Lupe revela fugir do impacto da geração de 45 e ensaiar uma nova dicção literária. Esse livro divide-se em duas partes. A primeira, De Mar, tem como tema recorrente o mar e nela transparece o impacto que a leitura de João Cabral de Melo Neto exerce sobre a autora, assim como também uma geração de poetas.

É na segunda parte, denominada De Amor, que a autora consegue dar um salto, aproximando-se da dicção autoral que tanto buscava. Leila comenta que a autora, enfim, consegue uma poesia lírica de alta qualidade. “É um poema para vozes, onde comparecem um narrador e dois amantes. O diálogo dos amantes é extraordinário. Podemos afirmar ser esse o marco da obra de Lupe”, diz Leila, citando um dos poemas:

Se entre nós cada folha de silêncio
for linguagem de gestos desprendidos
e em clareiras tombar cada momento
o que outrora foi verde e preenchido,
segurarei na queda tua imagem.
Antes que perca todos os indícios
desta palavra dita na coragem
da posse em nós, hei de levar comigo
o último desejo, o corpo intenso
para tramar de novo um novo invento.


No período mais repressivo da ditadura militar, iniciado com a instauração do Ato Institucional número 5, Lupe Cotrim dá vazão a uma poética mais participante, com poesias de cunho social, de denúncia do cenário histórico e social do País e do mundo. Os livros dessa época são muito eloquentes e oratórios, como Memória barroca, que a poetisa dedicou ao amigo Carlos Drummond de Andrade. Segundo Leila, as poesias desse livro conseguem ser engajadas, conciliando denúncia com concisão e lirismo, “por isso são poesias de boa qualidade”:

Uma cola negra escorre
das calçadas, e o mar escurece
no pigmento do rosto.
Uma fratura na pedra; e mais outra.
Estátua que se ergue
ou entranha que se mostra.
O saveiro furta às águas
a sumária riqueza dos peixes
e no farol se acende
a história ameaçada; nem tudo será
resíduo e paisagem. A couraça
urbana acintura a nova cidade
cinza e domesticada.

A fase do lirismo participativo também resultou no livro Poemas ao outro, uma coletânea em duas partes, triplamente premiado ainda no original: recebeu, em 1969, o Prêmio Governador do Estado, desbancando os maiores poetas da época, o Prêmio Jabuti e o Prêmio Poesia, da Fundação Cultural de Brasília.

Na primeira parte desse livro, Lupe dialoga com um personagem imaginário, João, que ela considera aparentado do personagem Severino, de João Cabral de Melo Neto, e do personagem José, de Drummond:

O que é nosso, João,
entre o teu e o meu
o que separa em posse
a nossa solidão?
Não sei. Não sei
o que era de mim
no que te encontrei.

Na segunda parte de O dúplice – Alter ego, Desdobramento, o Outro –, eixo norteador da exposição no IEB, o ser poeta representa a busca de uma vida inteira de Lupe Cotrim. Giannotti, o filho, encontra na poesia da mãe o vínculo afetivo que não teve tempo de criar: “O que mais me encanta na poesia de Lupe é a grande vontade de atualização do eu lírico – aquele sujeito que se coloca perante o mundo, podendo sentir e escrever o que vive no mundo sem subterfúgios. Ela viveu o mundo intensamente, e na sua poesia eu sinto isso claramente”.
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Izabel Leão é jornalista e mestre em Educomunicação em São Paulo , SP.
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Fonte:
Extraído do Jornal da USP, março de 2010, adaptado para atualmente.

Literatura Brasileira (Parte 6 = Realismo)


"O Realismo é uma reação contra o Romantismo: o Romantismo era a apoteose do sentimento - o Realismo é a anatomia do caráter. É a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos - para condenar o que houve de mau na nossa sociedade." Ao cunhar este conceito, Eça de Queiroz sintetizou a visão de vida que os autores da escola realista tinham do homem durante e logo após o declínio do Romantismo.

Este estilo de época teve uma prévia: os românticos Castro Alves, Sousândrade e Tobias Barreto, embora fizessem uma poesia romântica na forma e na expressão, utilizavam temas voltados para a realidade político-social da época (final da década de 1860). Da mesma forma, algumas produções do romance romântico já apontavam para um novo estilo na literatura brasileira, como algumas obras de Manuel Antônio de Almeida, Franklin Távora e Visconde de Taunay. Começava-se o abandono do Romantismo enquanto surgiam os primeiros sinais do Realismo.

Na década de 70 surge a chamada Escola de Recife, com Tobias Barreto, Silvio Romero e outros, aproximando-se das idéias européias ligadas ao positivismo, ao evolucionismo e, principalmente, à filosofia. São os ideais do Realismo que encontravam ressonância no conturbado momento histórico vivido pelo Brasil, sob o signo do abolicionismo, do ideal republicano e da crise da Monarquia.

No Brasil, considera-se 1881 como o ano inaugural do Realismo. De fato, esse foi um ano fértil para a literatura brasileira, com a publicação de dois romances fundamentais, que modificaram o curso de nossas letras: Aluízio Azevedo publica "O mulato", considerado o primeiro romance naturalista do Brasil; Machado de Assis publica "Memórias Póstumas de Brás Cubas", o primeiro romance realista de nossa literatura.

Na divisão tradicional da história da literatura brasileira, o ano considerado data final do Realismo é 1893, com a publicação de "Missal" e "Broquéis", ambos de Cruz e Sousa, obras inaugurais do Simbolismo, mas não o término do Realismo e suas manifestações na prosa - com os romances realistas e naturalistas - e na poesia, com o Parnasianismo.

"Príncipe dos poetas" - Da mesma forma, o início do Simbolismo, em 1893, não representou o fim do Realismo, porque obras realistas foram publicadas posteriormente a essa data, como "Dom Casmurro", de Machado de Assis, em 1900, e "Esaú e Jacó", do mesmo autor, em 1904. Olavo Bilac, chamado "príncipe dos poetas", obteve esta distinção em 1907. A Academia Brasileira de Letras, templo do Realismo, também foi inaugurada posteriormente à data-marco do fim do Realismo: 1897. Na realidade, nos últimos vinte anos do século XIX e nos primeiros do século XX, três estéticas se desenvolvem paralelamente: o Realismo e suas manifestações, o Simbolismo e o Pré-Modernismo, que só conhecem o golpe fatal em 1922, com a Semana de Arte Moderna.

O Realismo reflete as profundas transformações econômicas, políticas, sociais e culturais da segunda metade do século XIX. A Revolução Industrial, iniciada no século XVIII, entra numa nova fase, caracterizada pela utilização do aço, do petróleo e da eletricidade; ao mesmo tempo, o avanço científico leva a novas descobertas nos campos da física e da química. O capitalismo se estrutura em moldes modernos, com o surgimento de grandes complexos industriais, aumentando a massa operária urbana, e formando uma população marginalizada, que não partilha dos benefícios do progresso industrial, mas, pelo contrário, é explorada e sujeita a condições subumanas de trabalho.

O Brasil também passa por mudanças radicais tanto no campo econômico quanto no político-social, no período compreendido entre 1850 e 1900, embora com profundas diferenças materiais, se comparadas às da Europa. A campanha abolicionista intensifica-se a partir de 1850; a Guerra do Paraguai (1864/1870) tem como consequencia o pensamento republicano (o Partido Republicano foi fundado no ano em que essa guerra terminou); a Monarquia vive uma vertiginosa decadência. A Lei Áurea, de 1888, não resolveu o problema dos negros, mas criou uma nova realidade: o fim da mão-de-obra escrava e sua substituição pela mão-de-obra assalariada, então representada pelas levas de imigrantes europeus que vinham trabalhar na lavoura cafeeira, o que originou uma nova economia voltada para o mercado externo, mas agora sem a estrutura colonialista.
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Raul Pompéia, Machado de Assis e Aluízio Azevedo transformaram-se nos principais representantes da escola realista no Brasil. Ideologicamente, os autores desse período são antimonárquicos, assumindo uma defesa clara do ideal republicano, como nos romances "O mulato", "O cortiço" e "O Ateneu". Eles negam a burguesia a partir da família. A expressão Realismo é uma denominação genérica da escola literária, que abriga três tendências distintas: "romance realista", "romance naturalista" e "poesia parnasiana".

O romance realista foi exaustivamente cultivado no Brasil por Machado de Asses. Trata-se de uma narrativa mais preocupada com a análise psicológica, fazendo a crítica à sociedade a partir do comportamento de determinados personagens. Para se ter uma idéia, os cinco romances da fase realista de Machado de Assis apresentam nomes próprios em seus títulos ("Brás Cubas"; "Quincas Borba"; "Dom Casmurro", "Esaú e Jacó"; e "Aires"). Isto revela uma clara preocupação com o indivíduo. O romance realista analisa a sociedade por cima. Em outras palavras: seus personagens são capitalistas, pertencem à classe dominante. O romance realista é documental, retrato de uma época.
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Parte I - Origens = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-1-origens.html
Parte II - O Quinhentismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-2-o.html
Parte III - O Barroco = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-3-o-barroco.html
Parte IV - O Arcadismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-4-o.html
Parte V - O Romantismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-5-o.html

Fonte:
http://www.vestibular1.com.br/

Luís Fernando Veríssimo (Edelvésio)


“Edelvésio.”

“Isso lá é nome?”

Edelvésio baixou os olhos, mas não sorriu. Depois ergueu os olhos e encarou o treinador, ainda sem sorrir.

“Que posição?”, perguntou o treinador.

“Meio.”

“Pé direito ou esquerdo?”

“Os dois.”

O treinador deu a camisa e disse:

“Entra.”

Edelvésio entrou. Era um treino para selecionar jogador. Fila de aspirantes. Cada jogador tinha poucos minutos para mostrar o seu futebol. Edelvésio mostrou. Era bom.

E chutava mesmo com os dois pés.

Depois o treinador disse:

“Você fica”. Mas fez uma ressalva: “Edelvésio não dá”.

“É o meu nome.”

“Você não tem apelido, não?”

“Não.”

“Dedé? Vevé? Delinho?”

“Não.”

“Como é que te chamam em casa?”

“Edelvésio.”

“Não dá. Tem que arranjar um apelido.”

“Não quero.”

O treinador encrespou.

“Como não quer? Desde quando jogador tem que querer? Eu quero. Edelvésio não pode.”

“Por que não?”

O treinador fez um gesto mandando Edelvésio embora.

“Quer saber de uma coisa? Ode ir indo. Te manda.”

Edelvésio deu as costas para o treinador e começou a se afastar.

“Espera”, disse o treinador.

Tinha se lembrado dos chutes de Edelvésio com os dois pés. Precisava de um jogador como ele. Botou uma mão no seu ombro e disse:

“Não precisa ser apelido. Como é seu sobrenome?”

“Santos.”

“Você pode ser Santos.”

“Não.”

“Inventa outro nome. Mauro. Você gosta de Mauro? Ou Silas. Silas é nome de jogador. olha aí: Mauro Silas. Você está com a carreira feita. Um Mauro Silas chega à seleção só pelo nome.
Já um Edelvésio não chega a lugar nenhum.”

“Não.”

“Edmilson. Pronto. Edmilson eu aceito. É parecido com Edelvésio.”

“Não.”

“Edel. Pode ser Edel.”

“Você também não ajuda! Por que não?”

“Por que meu nome é Edelvésio.”

O treinador perdeu a paciência. Definitivamente.

“Pode ir embora.”

Semanas depois, inicio da temporada, o time do treinador se viu mal diante do primeiro adversário. Era para ser um jogo fácil, mas o time adversário tinha um jogador infernal com a dez. Estava acabando com o jogo. E chutava com as duas. Tinha feito um gol com a esquerda e outro com a direita.

“Eu conheço esse cara”, disse o treinador.

Mas não havia nenhum Edelvésio na escalação do outro time.

O treinador consultou a escalação de novo. Lá estava ele. Só podia ser ele. Mas não aparecia o nome. Aparecia o apelido.

“Teimoso.”

Fontes:
VERISSIMO, Luis Fernando. Brasil Bom de Bola. Editora Tempo d´Imagem, 1998.
Imagem = por Junião em http://www.imagensporfavor.com

Luiz Carlos Felipe (Contar Histórias : Uma Arte?)



Antes eu contava histórias porque queria mudar o mundo. Hoje eu conto histórias para que o mundo não me mude.

Não é novidade para ninguém a imagem de um ancião reunindo um grupo de pessoas jovens para contar a elas um “causo”, uma “lição de vida” ou uma parábola. O fato é que em torno do fogo (ou de um fogão à lenha) ou ainda de um toco de vela, muitos já experimentaram sensações que vão da fé à incredulidade. O fato é que nos acostumamos a “viajar” na voz do outro, aceitamos partir com nosso herói para as aventuras da vida. Todavia, sempre torcemos pela vitória do herói, pois, como é sabido, a vitória dele é a minha vitória, o sucesso dele é o meu sucesso e estamos sempre em busca de um “...e viveram felizes para sempre...”

Por essas razões, dominar a arte de contar histórias é um ato de altruísmo. Somos instrumento, um elo entre o mundo de lá (onde vivem as histórias) e o mundo de cá (onde há gente sofrendo, precisando de uma palavra de estímulo, ou uma boa dose de humor). O contador de histórias é uma criatura que carrega muitas “pessoinhas” dentro de si. Sua sabedoria materializada no olhar e no gesto faz brotar em nossa mente e em nosso coração os sentimentos que com o tempo perderam-se no corre-corre de nossas atividades cotidianas.

Por isso posso definir a contação de histórias como um exercício de ampliação, transformação e/ou enriquecimento da própria experiência de vida, para que essa seja renovada. Num encontro com o imaginário, com os medos, com as frustrações e, também, com as possíveis realizações que almejamos, poderemos desenvolver, primeiro em nós, e depois em nossos alunos, além da construção da realidade social, a formação de valores e conceitos para uma aprendizagem mais significativa, mais valiosa, associando teoria e prática, diversão e aprendizagem, paixão e leitura...

Dessa forma a atividade de contação de histórias não deve servir como um “tapa-buraco”, ela deve estar incluída na rotina diária da sala de aula. O professor deve estar bem preparado e criar rituais, os quais podem variar desde a montagem de um ambiente agradável (brinquedoteca, cantinho da leitura, por exemplo), até a incorporação ao ambiente da sala de aula de elementos da natureza (uma flor, uma vela acesa, cristais coloridos, incenso, um vaso de argila, uma toalha bonita, etc.) até uma música adequada, a qual, sempre que for cantada, dará início à contação.

Assim, nossos alunos estarão preparados para o que irão ouvir, pois, “contamos histórias, não para fazer dormir, mas sim, para “fazer acordar”. Acordar sonhos, medos secretos, frustrações, desgostos, amores, desamores, acordar para a vida, para a imaginação do impossível, do abstrato, do irreal, os quais podem muito bem transformar-se em soluções para os problemas mais adormecidos e os quais nem imaginávamos existir.

Para encerrar, deixo uma reflexão a todos os educadores, utilizando-me das palavras do Grupo Morandubetá Contadores de Histórias: “contar histórias é revelar segredos, é seduzir o ouvinte e convidá-lo a se apaixonar... pelo livro... pela história... pela leitura. E tem gente que ainda duvida disso.” .
––––––––––––––––––-
Luiz Carlos Felipe é professor de Contos Velados e Desvelados, no Instituto Aprender, em Joinville, SC. Especialista em Estudos Literários, contador de Histórias formado pela Casa do Contador de Histórias.

Fontes:
Revista Escrita , edição 12.
Imagem = http://umatoradolescente.blogspot.com

sábado, 26 de junho de 2010

Trova 157 - Doralice Gomes da Rosa (Porto Alegre/RS)

Orientação para Participação em Concurso de Trovas



1 - Não envie a mesma trova para mais de um concurso.

2 - Nos envelopes (de mais ou menos 7 x 11 cm), não datilografe/digite nada além da trova, a não ser o tema (quando o concurso exigir - e a maioria o faz).

3 - Não datilografe/digite a trova toda em maiúsculas.

4 - Não utilize envelopinhos transparentes, nem de outra cor que não seja a branca.

5 - Os concursos apoiados por Seções ou Delegacias da UBT devem seguir a tradição do "sistema de envelopes", que consiste em datilografar-se a trova na face externa de envelopinhos, com a identificação, endereço e assinatura do concorrente colocados em seu interior. No envelope que conterá o/s envelopinho/s colocar como remetente: "LUIZ OTÁVIO" e o endereço do concurso como na face da frente, ou o nome do concurso com o respectivo endereço. Nunca colocar qualquer identificação pessoal do lado externo do envelope.

6 - Ao receber comunicado de classificação e convite para as festividades de um concurso, não deixe de responder, ainda que sem possibilidade de comparecimento, para que os coordenadores tomem as providências necessárias.

7 - Os concursos geralmente possuem âmbito municipal, âmbito estadual, âmbito nacional e/ou âmbito internacional. O trovador só poderá participar de um deles, aquele determinado pelo seu domicílio. Caso haja trovas líricas/ filosóficas e humoristicas, é facultativo ao trovador participar de um deles ou ambos.

8 - Alguns concursos não permitem o uso de derivados ou palavras cognatas. Outros, exigem que a palavra Tema conste da trova.

9 - Observar o número máximo de trovas que pode ser enviado ao concurso.

10 - A Comissão de seleção das trovas do concurso elimina apenas as trovas com erros, fora do tema, sem sentido, etc., não importando a qualidade.

Fontes:
- Izo Goldman
- UBT Porto Alegre
- Imagem = http://woc.uc.pt

Literatura Brasileira (Parte 5 = O Romantismo)


O Romantismo se inicia no Brasil em 1836, quando Gonçalves de Magalhães publica na França a "Niterói - Revista Brasiliense", e, no mesmo ano, lança um livro de poesias românticas intitulado "Suspiros poéticos e saudades".

Em 1822, Dom Pedro I concretiza um movimento que se fazia sentir, de forma mais imediata, desde 1808: a independência do Brasil. A partir desse momento, o novo país necessita inserir-se no modelo moderno, acompanhando as nações independentes da Europa e América. A imagem do português conquistador deveria ser varrida. Há a necessidade de auto-afirmação da pátria que se formava. O ciclo da mineração havia dado condições para que as famílias mais abastadas mandassem seus filhos à Europa, em particular França e Inglaterra, onde buscam soluções para os problemas brasileiros. O Brasil de então nem chegava perto da formação social dos países industrializados da Europa (burguesia/proletariado). A estrutura social do passado próximo (aristocracia/escravo) ainda prevalecia. Nesse Brasil, segundo o historiador José de Nicola, "o ser burguês ainda não era uma posição econômica e social, mas mero estado de espírito, norma de comportamento".

Marco final - Nesse período, Gonçalves de Magalhães viajava pela Europa. Em 1836, ele funda a revista Niterói, da qual circularam apenas dois números, em Paris. Nela, ele publica o "Ensaio sobre a história da literatura brasileira", considerado o nosso primeiro manifesto romântico. Essa escola literária só teve seu marco final no ano de 1881, quando foram lançados os primeiros romances de tendência naturalista e realista, como "O mulato", de Aluízio Azevedo, e "Memórias póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis. Manifestações do movimento realista, aliás, já vinham ocorrendo bem antes do início da decadência do Romantismo, como, por exemplo, o liderado por Tobias Barreto desde 1870, na Escola de Recife.

O Romantismo, como se sabe, define-se como modismo nas letras universais a partir dos últimos 25 anos do século XVIII. A segunda metade daquele século, com a industrialização modificando as antigas relações econômicas, leva a Europa a uma nova composição do quadro político e social, que tanto influenciaria os tempos modernos. Daí a importância que os modernistas deram à Revolução Francesa, tão exaltada por Gonçalves de Magalhães. Em seu "Discurso sobre a história da literatura do Brasil", ele diz: "...Eis aqui como o Brasil deixou de ser colônia e foi depois elevado à categoria de Reino Unido. Sem a Revolução Francesa, que tanto esclareceu os povos, esse passo tão cedo se não daria...".

A classe social delineia-se em duas classes distintas e antagônicas, embora atuassem paralelas durante a Revolução Francesa: a classe dominante, agora representada pela burguesia capitalista industrial, e a classe dominada, representada pelo proletariado. O Romantismo foi uma escola burguesa de caráter ideológico, a favor da classe dominante. Daí porque o nacionalismo, o sentimentalismo, o subjetivismo e o irracionalismo - características marcantes do Romantismo inicial - não podem ser analisados isoladamente, sem se fazer menção à sua carga ideológica.

Novas influências - No Brasil, o momento histórico em que ocorre o Romantismo tem que ser visto a partir das últimas produções árcades, caracterizadas pela sátira política de Gonzaga e Silva Alvarenga. Com a chegada da Corte, o Rio de Janeiro passa por um processo de urbanização, tornando-se um campo propício à divulgação das novas influências européias. A colônia caminhava no rumo da independência.

Após 1822, cresce no Brasil independente o sentimento de nacionalismo, busca-se o passado histórico, exalta-se a natureza pátria. Na realidade, características já cultivadas na Europa, e que se encaixaram perfeitamente à necessidade brasileira de ofuscar profundas crises sociais, financeiras e econômicas.

De 1823 a 1831, o Brasil viveu um período conturbado, como reflexo do autoritarismo de D. Pedro I: a dissolução da Assembléia Constituinte; a Constituição outorgada; a Confederação do Equador; a luta pelo trono português contra seu irmão D. Miguel; a acusação de ter mandado assassinar Líbero Badaró e, finalmente, a abolição da escravatura. Segue-se o período regencial e a maioridade prematura de Pedro II. É neste ambiente confuso e inseguro que surge o Romantismo brasileiro, carregado de lusofobia e, principalmente, de nacionalismo.

No final do Romantismo brasileiro, a partir de 1860, as transformações econômicas, políticas e sociais levam a uma literatura mais próxima da realidade; a poesia reflete as grandes agitações, como a luta abolicionista, a Guerra do Paraguai, o ideal de República. É a decadência do regime monárquico e o aparecimento da poesia social de Castro Alves. No fundo, uma transição para o Realismo.

O Romantismo apresenta uma característica inusitada: revela nitidamente uma evolução no comportamento dos autores românticos. A comparação entre os primeiros e os últimos representantes dessa escola mostra traços peculiares a cada fase, mas discrepantes entre si. No caso brasileiro, por exemplo, há uma distância considerável entre a poesia de Gonçalves Dias e a de Castro Alves. Daí a necessidade de se dividir o Romantismo em fases ou gerações. No romantismo brasileiro podemos reconhecer três gerações: geração nacionalista ou indianista; geração do "mal do século" e a "geração condoreira".

A primeira (nacionalista ou indianista) é marcada pela exaltação da natureza, volta ao passado histórico, medievalismo, criação do herói nacional na figura do índio, de onde surgiu a denominação "geração indianista". O sentimentalismo e a religiosidade são outras características presentes. Entre os principais autores, destacam-se Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias e Araújo Porto.

Egocentrismo - A segunda (do "mal do século", também chamada de geração byroniana, de Lord Byron) é impregnada de egocentrismo, negativismo boêmio, pessimismo, dúvida, desilusão adolescente e tédio constante. Seu tema preferido é a fuga da realidade, que se manifesta na idealização da infância, nas virgens sonhadas e na exaltação da morte. Os principais poetas dessa geração foram Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire e Fagundes Varela.

A geração condoreira, caracterizada pela poesia social e libertária, reflete as lutas internas da segunda metade do reinado de D. Pedro II. Essa geração sofreu intensamente a influência de Victor Hugo e de sua poesia político-social, daí ser conhecida como geração hugoana. O termo condoreirismo é conseqüência do símbolo de liberdade adotado pelos jovens românticos: o condor, águia que habita o alto da cordilheira dos Andes. Seu principal representante foi Castro Alves, seguido por Tobias Barreto e Sousândrade.

Duas outras variações literárias do Romantismo merecem destaque: a prosa e o teatro romântico. José de Nicola demonstrou quais as explicações para o aparecimento e desenvolvimento do romance no Brasil: "A importação ou simples tradução de romances europeus; a urbanização do Rio de Janeiro, transformado, então, em Corte, criando uma sociedade consumidora representada pela aristocracia rural, profissionais liberais, jovens estudantes, todos em busca de entretenimento; o espírito nacionalista em conseqüência da independência política a exigir uma "cor local" para os enredos; o jornalismo vivendo o seu primeiro grande impulso e a divulgação em massa de folhetins; o avanço do teatro nacional".

Os romances respondiam às exigências daquele público leitor; giravam em torno da descrição dos costumes urbanos, ou de amenidades das zonas rurais, ou de imponentes selvagens, apresentando personagens idealizados pela imaginação e ideologia românticas com os quais o leitor se identificava, vivendo uma realidade que lhe convinha. Algumas poucas obras, porém, fugiram desse esquema, como "Memórias de um Sargento de Milícias", de Manuel Antônio de Almeida, e até "Inocência", do Visconde de Taunay.

Ao se considerar a mera cronologia, o primeiro romance brasileiro foi "O filho do pescador", publicado em 1843, de autoria de Teixeira de Souza (1812-1881). Mas se tratava de um romance sentimentalóide, de trama confusa e que não serve para definir as linhas que o romance romântico seguiria na literatura brasileira.

Por esta razão, sobretudo pela aceitação obtida junto ao público leitor, justa-mente por ter moldado o gosto deste público ou correspondido às suas expectativas, convencionou-se adotar o romance "A Moreninha", de Joaquim Manuel de Macedo, publicado em 1844, como o primeiro romance brasileiro.

Dentro das características básicas da prosa romântica, destacam-se, além de Joaquim Manuel de Macedo, Manuel Antônio de Almeida e José de Alencar. Almeida, por sinal, com as "Memórias de um Sargento de Milícias" realizou uma obra total-mente inovadora para sua época, exatamente quando Macedo dominava o ambiente literário. As peripécias de um sargento descritas por ele podem ser consideradas como o verdadeiro romance de costumes do Romantismo brasileiro, pois abandona a visão da burguesia urbana, para retratar o povo com toda a sua simplicidade.

"Casamento" - José de Alencar, por sua vez, aparece na literatura brasileira como o consolida dor do romance, um ficcionista que cai no gosto popular. Sua obra é um retrato fiel de suas posições políticas e sociais. Ele defendia o "casamento" entre o nativo e o europeu colonizador, numa troca de favores: uns ofereciam a natureza virgem, um solo esplêndido; outros a cultura. Da soma desses fatores resultaria um Brasil independente. "O guarani" é o melhor exemplo, ao se observar a relação do principal personagem da obra, o índio Peri, com a família de D. Antônio de Mariz.

Este jogo de interesses entre o índio e o europeu, proposto por Alencar, aparece também em "Iracema" (um anagrama da palavra América), na relação da índia com o português Martim. Moacir, filho de Iracema e Martim, é o primeiro brasileiro fruto desse casamento.

José de Alencar diversificou tanto sua obra que tornou possível uma classificação por modalidades: romances urbanos ou de costumes (retratando a sociedade carioca de sua época - o Rio do II Reinado); romances históricos (dois, na verdade, voltados para o período colonial brasileiro - "As minas de prata" e "A guerra dos mascastes"); romances regionais ("O sertanejo" e "O gaúcho" são as duas obras regionais de Alencar); romances rurais (como “Til” e “O tronco do ipê”; e romances indianistas, que trouxeram maior popularidade para o escritor, como “O Guarani”, “Iracema” e “Ubirajara”).
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Parte III - O Barroco = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-3-o-barroco.html
Parte IV - O Arcadismo = http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/06/literatura-brasileira-parte-4-o.html

Fonte:
http://www.vestibular1.com.br/

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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