Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Visitas ao Blog entre Maio e Agosto de 2010

Vânia Maria Souza Ennes (Trovador)

Fonte:
ENNES, Vânia Maria Souza. Chuva de trovas, junho de 2008. Biblioteca Virtual do Portal CEN (Cá Estamos Nós).
Arte de Iara Melo.

Tristão Alencar Pereira Oleiro (Poemas Avulsos)


SAUDADE

Saudade é vento que passa
Na estrada poeirenta da vida,
Deixando lembranças gravadas
Na velocidade não percebida.
É lembrança de coisas boas,
Chegadas da estação da aurora.
É desencanto das despedidas,
É alegria dos tempos de outrora.
Saudade é ouvir as cantigas,
Do sorrir e do cantar,
Dos tempos de minha infância.
Do perfume das flores no ar.
Das brincadeiras nas calçadas,
Nas praças e jardins
Correndo pelas alamedas,
Entre rosas e jasmins.
Ah! como é bom lembrar
O conviver com inocência,
Das amizades sinceras,
Com amor em sua essência.
O tempo é o melhor amigo
Que faz a lembrança voltar
Para casar a saudade comigo
E jamais nos separar.
Saudade que fica para sempre
Assim a vida se esvai,
Trazendo muitas lembranças ,
Dos tempos que não voltam mais.
––––––––––––––––

AMANHECER

O sol desponta no horizonte amarelando areias da praia.
Alaranjadas nuvens traduzem a temperatura elevada que está por vir.
Suaves ondas desenham a orla repleta de agitadas aves em busca de alimentos.
A brisa faz farfalhar folhas dos coqueiros.
O coração do poeta segura a produção literária da madrugada, empilhada sobre a mesa para não voar ao léu.
O dia inicia e com muita nostalgia encerra-se o que passou.
Dia após dia, a sequência criadora grava no tempo a história presente.
Vida de escritor...
––––––––––––––––––––

LAGUNA AO LUAR...

Teus meus cabelos soltos
Na brisa que afaga...
Luar, trilha de prata
brilha ao teu/meu olhar...
Laguna, lagoa, mar,
Peixes (des)embainhados, reluzem...
Ondas em colares perolados
Amores ardentes, seduzem...
Praia orlada, dourada,
a sonhar, momentos
Sonhados, conduzem...
És minha lua, luar,
Claridade infinita, paixão...
Luz irradiada, clarão
A iluminar minha vida...
------

Fontes:
Antologia de Poetas Brasileiros. volume 44. março 2008.
Revista Aquilo que a gente sente. n.1. novembro 2009. Portal CEN.
Academia Virtual Sala de Poetas e Escritores 2009. A Natureza em Versos. http://www.avspe.eti.br/coutinho/poesiaamigos/narureza5.htm

Tristão Alencar Pereira Oleiro (1946)



Tristão Alencar Pereira Oleiro nasceu em Valparaiso-SP a 9 de outubro de 1946.

É Contador e Servidor Público Municipal de Pelotas, onde é Diretor de Manifestações Populares da SECULT.

Ativista Cultural, Escritor e Poeta.

Tem publicado o livro “Crônicas, Contos e Poesias”, Ed. E Gráfica UFPEL, no ano de 2007. Trabalhos publicados na 44ª Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos, na Antologia de Contos Fantásticos e no Livro de Ouro da Poesia Brasileira Contemporânea ambos no RJ.

Possui contos, poesias e prosas premiadas pelo Centro Literário Pelotense (CLIPE) Pelotas/RS, Academia Sul Brasileira de Letras (ASBL) Pelotas/RS, Casa do Poeta Rio-Grandense (CAPORI) Porto Alegre/RS, Centro de Escritores Lourencianos (CEL) São Lourenço do Sul/RS, Editora PorArt (Volta Redonda-RJ) e CBJE – Câmara Brasileira de Jovens Escritores (Rio de Janeiro-RJ). Presidente da CBC – Casa Brasileira de Cultura (2008-2010) Pelotas/RS,

Membro Acadêmico Correspondente da Academia de Artes, Ciências e Letras Castro Alves Cadeira 12 (Porto Alegre/RS, 2009) e

Membro Correspondente da Academia Rio-Grandina de Letras- ARL (Rio Grande/RS, 2009).

Recebeu o Título de Cidadão Pelotense (Câmara de Vereadores e Prefeitura Municipal de Pelotas/RS, 2005), o Brasão da Academia Pelotense de Letras (APelL, 2005), a Medalha do Mérito Tradicionalista João Simões Lopes Neto (Movimento Tradicionalista Gaúcho / 2008), além de várias menções honrosas por participação em concursos literários.

Participa das coletâneas do Centro Literário Pelotense, onde participa; do Centro de Escritores Lourencianos e da Casa do Poeta Riograndense.

Recebeu Menções Honrosas no Concurso Nacional de Poesias Érico Veríssimo em 2005, no Concurso Literário de Poesias Pedro Baggio da Associação Brasileira de Letras em 2007. Recebeu o Título de Cidadão Pelotense da Câmara de Vereadores e o Brasão da Academia Pelotense de Letras, ambos em 2005, além do Troféu Obelisco em Administração Pública, em 2006.

É Diretor de Divulgação da Casa do Poeta Rio-grandense gestão 2008/2009 e Presidente da Casa Brasileira de Cultura sediada em Pelotas gestão 2008/2010. Escreve crônicas para jornais da cidade.

No Tradicionalismo, foi fundador da 10ª Região, em 1976, com sede em Santiago/RS e foi seu primeiro Secretário por dois anos.

Participou de vários Congressos Tradicionalistas, Convenções e Festas Gaúchas do MTG. Foi Posteiro Cultural do CTG Negrinho do Pastoreio em 1992, concorreu ao cargo de Coordenador da 26ª Região em 1994.

Escritor Imortal da Academia de Letras do Brasil, pelo Rio Grande do Sul.

Fontes:
http://www.artistasgauchos.com.br/portal/?id=1271
http://www.camarapel.rs.gov.br/imprensa/noticias/2008/0104/0104t.htm

Ialmar Pio Schneider (Baú de Trovas VII)


Alta noite, escrevo versos,
sentindo a falta de alguém;
quem me dera que dispersos,
ela os ouvisse também...

A trova que canto agora
tem sabor de nostalgia,
por alguém que foi embora
quando mais bem a queria.

De manhã cedo levanto
e ao Senhor dos Céus imploro,
que me ajude quando canto
e me console se choro.

Desejo que o nosso amor
nunca seja de mentira;
por isto sou trovador
romântico, ao som da lira.

De tudo que amo e venero,
vem em primeiro lugar,
teu beijo doce e sincero
que me faz revigorar.

Dos versos soltos que faço,
um deles tem mais calor;
porque lembra teu abraço
e nossos beijos de amor..

Este amor que não resiste
às tentações deste mundo,
se não fosse assim tão triste,
pudera ser mais profundo.

Estivemos frente a frente,
mas nenhum de nós sorriu;
parecias diferente
que me deixaste arredio.

És uma estrela tão alta,
brilhando no firmamento,
que a minha canção exalta
no calor do sentimento.

Eu caminho lentamente
pelas areias do mar,
debaixo do sol ardente
que descamba devagar...

Eu levo a vida cantando
minhas trovas e canções;
só assim vou afastando
mágoas e desilusões.

Eu te esperei tantos anos,
até não conseguir mais
agüentar os desenganos
que o teu desprezo me traz.

Faze da trova teu lema
com grande satisfação
e terás em cada tema
um motivo de emoção.

Não façamos desta vida
um motivo de revolta;
nesta estrada sem saída
é tão difícil a volta.

Não há mentira mais louca
da que sai do coração,
pois a que nasce da boca
quase sempre é pretensão.

Nesta manhã radiante
de sol claro e resplendente,
por seres tão inconstante,
me deixas tão descontente...

Nosso amor já teve fim,
pois não esteve ao alcance
o que você quis de mim
pra ter sucesso o romance.

O amor de quem não desiste,
seja forte, seja brando,
há de permanecer triste
que nem flor que vai murchando.

O amor platônico vive
em minhas trovas também;
foi um que uma vez eu tive
e não me fez muito bem.

O amor tem prazer e pranto,
também mágoas e carinhos;
pois assim sendo, portanto,
não há rosas sem espinhos!

Para esquecer-te procuro
me envolver na multidão,
mas não me sinto seguro
e retorno à solidão.

Pelo amor sempre sonhado
e nunca correspondido,
vou cantar um verso alado
pra que chegue ao teu ouvido.

Penso em ti quando a saudade
me visita de surpresa
e na minha soledade
recordo a tua beleza.

Perdido em divagações
sento à beira do caminho,
como se as recordações
não me deixassem sozinho.

Quando te vejo sorrindo,
não consigo disfarçar,
este desespero infindo
de não poder te beijar.

Se amei e fui preterido,
pouco me importa até quando,
pois não me dou por vencido
e continuo te amando.

Se tens amor não o escondas,
proclame-o para quem é;
as paixões são como as ondas
que aproveitam a maré.

Trovas de amor e saudade
trazem mil temas diversos,
mas predomina a amizade
nascendo de tantos versos...

Tu me procuras sorrindo
e te recebo contente,
como se fosse surgindo
um novo amor de repente!

Vida de amor e saudade,
que junto com nossos sonhos,
também traz a realidade
e momentos enfadonhos.

-----------------

Fonte:

O Autor

1ª Oficina de Redação no Ponto de Leitura de Itu


O Ponto de Leitura de Itu - Biblioteca Comunitária Prof. Waldir de Souza Lima - realizará todas as quartas-feiras, das 18h30 às 21 horas, a partir de 15 de setembro, a 1ª Oficina de Redação. O curso é gratuito e o público alvo são estudantes de Ensino Médio de escolas públicas (normal, técnico e supletivo), porém as inscrições estão abertas a toda a população.

Serão onze encontros durante os meses de setembro a dezembro, com encerramento previsto para o dia 08 de dezembro.

Durante o curso os participantes irão trabalhar com o acervo da biblioteca comunitária nos seus diversos formatos: dicionários, livros, revistas, jornais, fanzines e cordéis. Será dada ênfase à produção literária contemporânea e reflexões sobre temas do cotidiano, nas variadas formas de expressão literária: descrição, narração, dissertação e outras. Por meio de exercícios e técnicas de leitura e escrita os participantes serão estimulados a criar textos em diversos formatos, tanto individuais como coletivos.

A oficina será coordenada por José Renato Galvão, graduando em Letras pela UNIP e voluntário da biblioteca comunitária. O limite é de 30 vagas, sendo 20 para estudantes de escolas públicas e 10 para o público em geral. A idade mínima é de 14 anos. Para se inscrever é necessário informar nome, endereço e documento de identidade (RG).

As inscrições podem ser feitas pelo e-mail bibliotecacomunitariaitu@gmail.com , pelo telefone (11) 8110.3598 ou pessoalmente (apenas aos sábados) na biblioteca, que fica na rua Floriano Peixoto, 238, Centro, Itu.

SERVIÇO

1ª Oficina de Redação

ONDE
: Ponto de Leitura de Itu - Biblioteca Comunitária prof. Waldir de Souza Lima - Rua Floriano Peixoto, 238, Centro, Itu.

QUANDO: A partir de 15 de setembro de 2010, às quartas-feiras, das 18h30 às 21 horas.

QUANTO: atividade gratuita.

INSCRIÇÕES: (11) 8110.3598, bibliotecacomunitariaitu@gmail.com ou pessoalmente no local (apenas aos sábados das 9 às 18 horas).

Fonte:
Biblioteca Comunitária prof. Waldir de Souza Lima

domingo, 29 de agosto de 2010

A. A. de Assis lança Trovia n. 129 – setembro de 2010


Você pode adquirir este número no site: https://sites.google.com/site/pavilhaoliterario/Home
ou fazer o download diretamente em
https://sites.google.com/site/pavilhaoliterario/Home/TROVIAmaring%C3%A1n129setembro2010.pdf?attredirects=0&d=1
----------------
Paraná em Trovas
Se alguém se torna importante,
por certo alguém o ajudou.
Mesmo o Amazonas, gigante,
de afluentes precisou.
A. A. de Assis
Pela ambição do poder,
até guerra o homem faz.
Traz a morte por não ver
que o poder está na paz.
Adélia Woellner

O barro de que fui feito,
em tempo que longe vai,
foi modelado com jeito
por bom oleiro: meu pai!
Alberto Paco

A vida é dura, patrão,
rarissimamente bela...
Porém não há solução
senão conviver com ela.
Antônio da Serra
Vendo o ovo da avestruz,
suspira fundo a galinha:
– ”Puxa, eu pensava que a cruz
mais pesada fosse a minha!!!
Eliana Palma
Por medo de te perder,
não errei – pobre aprendiz!
– Não soube me conceder
o risco de ser feliz...
Jeanette De Cnop
Quem tem sonhos hoje em dia
nunca perca a esperança.
Diz velha sabedoria:
Quem espera sempre alcança.
José Feldman
Primeira noite... pijama,
camisola de babado...
Ela acordada na cama,
tudo o mais... desacordado!
Lucília Decarli
Em algo simples se encerra
raro prazer e emoção:
O cheiro que exala a terra
quando a chuva cai no chão.
Olga Agulhon
E’ dia sim, dia não...
Dia anão?... Ou dia assim?...
Sei lá... mas que confusão!
O jeito é rimar com “fim”...
Osvaldo Reis
Vai trolinho carruagem...
todo mundo atrás do trem!
Vou logo comprar passagem
para encontrar o meu bem...
Renato Leite Goetten
Eu não troco o meu feitiço
por um feitiço qualquer;
meu charme eu não desperdiço:
meu feitiço é ser mulher!
Roza de Oliveira

Nos acordes da poesia,
versos de muito valor
traduzem a nostalgia
do peito de um trovador.
Sônia Ditzel Martelo
Meu tempo tornou-se esparso...
Por mais que eu tente retê-lo,
nem com tintura eu disfarço
o cinza do meu cabelo...
Vanda Alves

Nas curvas da caminhada,
tento a paisagem mudar.
Se não pode ser mudada,
mudo meu jeito de olhar!
Vanda F. Queiroz
Eu sonho no meu viver
e vivo no meu sonhar...
Na saudade o reviver,
no presente o caminhar...
Vidal Idony Stockler

-----------

além destas, muitas outras de diversos estados e Portugal podem ser encontrados na Revista Virtual de Trovas Trovia n. 129, setembro de 2010 em https://sites.google.com/site/pavilhaoliterario/Home

Efigenia Coutinho (A Poetisa e sua Poesia)


RECOMEÇAR

Na ousadia de recomeçar a Vida
eu tentaria refazer meus sonhos
tornando-os ainda mais grandiosos!...
Embelezando ainda mais a vida!

Porque os sonhos são infindos
sem opressão, sendo mais formosos
depois que se conhece e vive o Amor
como um salmo do próprio amor!

Nada mais grandioso que um Lacre
entre duas almas solidamente selado
do mesmo ideal do sonho encantado!

Não padeças se achares meu coração
triste, mas fique triste e desolado
se não encontrares o meu coração!

TEUS AIS

Por noites de esplendor e exaltação
desfrutávamos dos sonhos o alento!
Ainda, inquietação em mim provocas
Transmutando desejos com alento!...

Ao arrebatamento íntimo a caricia
Dos teus anelos sentindo na memória
Que retorna deixando-me enleada
Somente em recordar a nossa estória:

Duas almas enamoradas juntas,
reencontros pelas escritas
Não há todavia como esquecer!

Neste tempo, magia e rituais
da paixão, na derradeira cavalgada
você vinha, com vinho e teus ais!...

TEMPESTADE

Por essa pupila luzente e molhada,
um enigma sacro soberbo de ternura,
vem pela ampla noite de gozo e loucura
estende-se, quente e perfumada.

É por onde ansioso olhar alucinado,
embebe-se da noite espessa,
rompendo dela uma voz em cruz,
chega murmurando cânticos de Luz.

Parece a voz dos Anjos, com teu olhar
falando, murmuras sonhos a completar,
contando todas as histórias de Amores.

E chegas por ela, qual divindade sorrindo,
por silfos de sonhos de volúpia, ao enredo
duma Tempestade de Risos e Lágrimas!

CORAÇÃO

Conheço um coração, onde elevado sonho,
qual filho de um rei, dono de império vasto,
entre galas se alojou. E, cercando-o risonho,
um bando de ilusões mais lhe aumentava o fasto!

Contemplando-o agora, dolorido e tristonho,
por querer palmilhar do ideal o augusto rasto
sem de todo o lograr, a animá-lo me ponho,
para que não se abata o golpe tão nefasto!

Portanto, à veemência que ele se vai despindo
de um manto santeiro, acetinado e lindo,
e enverga de vagar vestes faltas de brilho...

As minhas lágrimas de dor, eu vou contendo,
e em bom tom digo: volta ao meu coração,
dentro dele você hospedou tua canção!...

TERNURA MATINAL

Na manhã, o sonho terno
lá longe em outro mar,
alguém me causa clamor
sem contudo me alcançar.

Uma brisa de desejos
sobe mansa,vem chegando,
borrifando aroma delicado
de sonhos enamorados...

Seria comigo o sonho dele
ou eu que sonho com ele
pelas noites de luar!...

A vida pulsa ardente, longe...
chegando-me por tuas
mãos lençóis de Ternuras!

CONFIDÊNCIAS

Se existe algum segredo
sem medo ou receio dar
a cada dia novo sentido
no amor que sentimos...

Não sendo egoísta, onde
tudo arrisca ,vem até mim.
aroma delido de jasmim
pela espessa romaria...

Acolhe em teu peito
sorve os rumores que
brado, sentindo o feito!

Pode ser loucura o lume
somente desejaria
que este se consume!...

CORAÇÃO DE CRISTAL

Tenho um coração de Cristal,
minha fonte pura de magia;
rei de minhas noites de luar
aos tons suaves duma cantoria.

Fonte cristalina que vida encerra,
com sua luz engravida a terra,
de todo bem que em ti alcança
o sonho, se imortalize a senda!

Vem em mim amoroso sonho
ânsias infinitas, olor e desejo
palpitando rumores - teu beijo!...

Ó fonte cristalina que corre cheia,
que eu me desmanche alva e sonora
em teu coração, por dentro e por fora!

UM ACENO

Um aceno, e a terna recordação.
Na tua presença, sigo pela Vida
A cada segundo,tua imagem querida
Faz um ninho dentro do meu coração!

Vem um bailado por tuas mãos
Envolvendo uma suave atração
Não tem como conter o sonho
Esse murmurar cheio de afeição.

Clamo céus, que possam me dar
Tua presença eterna para sempre
Que, em minha alma vem acalentar!

Por este teu carinho resplandecente
Juntos, perpetuaremos, iremos exultar
Por infinitos reencontros premente!...

QUANDO ANOITECE

Quando anoitece gosto de te sentir
meu corpo colado ao seu,docemente
acolhemos o amor que é presente
esse contentamento que enternece

Hospedada em ti, teu corpo me aquece
sublimando, são momentos de desejos
ardentes, colados, ficam nossas peles
somos tu e eu exaltar numa prece...

Queridas são tuas mãos em mim
caricias que enaltecem o interior
amor ardente, é pecado Amar assim!

Quando me beijas e me mordes infindo,
é magia e loucura sem ter fim, extenso
é teu gemido do meu prazer sentido!

AMOR INFINITO

Dos sonhos e ilusões, os tons
mais azuis, se é verdadeiro o
Amor com que me queres, tornando-me
a primeira entre todas as Mulheres!

Eu nada mais desejo neste mundo, sendo
senhora de um afeto tão profundo,
certo suportarei as horas duras,
ditosas e altivas até nas amarguras!!!

Que na poesia fecundem todos os Mistérios
e inflame a rima clara e ardente, que
brilhem sonoramente, luminosamente...

O Amor, constelamento Puro, em suas
formas claras, fluídas e cristalina!
Amor que repurifica, canta Paz Infinita!

Fonte:
http://www.avspe.eti.br/coutinho/sonetos_efigenia.htm

Efigenia Coutinho


Nascida em Petrópolis-RJ, cresceu em São Paulo-SP, e na caminhada da vida, morou no Rio e Janeiro-RJ, Florianópolis-SC e atualmente vive em Balneário Camboriu-SC.

Formada em Artes, se especializou em Tapeçaria de TEAR, buscando os seguimentos Indígenas e sua História Natural,tendo participado de várias exposições.
Em 1977 foi residir em Florianópolis SC, e há três anos mudou-se para Balneário Camboriú -SC - 1999 -

A poesia surgiu em minha vida ainda nos sonhos de adolescente, quando menos esperava , lá estava eu com o papel e a caneta na mão, extravasando a minha emoção...Com o passar dos anos, acho que fui me perdendo, esquecendo de como era gostoso embarcar nesta viagem.

Não segui carreira ligada ao mundo das letras, e pouco conhecimento tenho de Literatura. Escolhi Artes como profissão, mesmo sem haver retorno financeiro, pois nada se compara aos tesouros da alma.

Este dom maravilhoso de escrever ficou hibernado durante muitos anos, e como na vida nada acontece por acaso, foi em um desses acasos, na paixão, que ressurgiu a poetisa. Percebi que existiam em mim sentimentos que extasiavam meu coração, mas a única forma de vivenciá-los era através de palavras. Meu estilo preferido é o
lírico, onde escrevo sobre as inquietações do coração, mas também adoro o erotismo, estimula a minha libido.

O incentivo para continuar a escrever surgiu em Junho/1989, quando tive uma das minhas poesias, editada pelo grande poeta VALDEZ, para divulgar o meu trabalho em seu Site.

Fontes:
http://www.avspe.eti.br/efi/efigenia.html
http://www.nadirdonofrio.com/biografia_efigenia_coutinho/biografia_efigenia_coutinho.htm

Lígia Antunes Leivas (Teia de Poemas)


QUANTAS VEZES QUIS TE DIZER...
PAIXÃO

Quantas vezes quis te dizer "Te amo!"
Não sei por que dobrei essa vontade.
Não sei por que guardei essas palavras.
Nem sei por que tanto adiei esse dizer
que tão feliz faz quem o declara calmamente!
Estranho... talvez não possas entender tão fácil
(assim também comigo acontece)
mas já naquela primeira frase
que me escreveste tão desinteressadamente
fascínio intenso assomou-me inteiramente...
o coração e todos os melhores sentimentos
(eu os senti no entusiasmo do meu viver)
Sim!... Como foi bom! Foi como pensei
devesse ser o verdadeiro amor:
contemplação, ardor, arrebatamento
carinho mel, enlevo céu, doce afeição
sentidos e aquerenciados
sem qualquer presença além da imaginação.
Sei... neste 'ser mais ser' vivi o pranto, a dor,
senti o coração sofrido...
transparente, porém... muito mais bonito!
Nenhum silêncio foi suficientemente forte
para constranger tão fiel amor
que a ti dediquei sem nada pedir em troca.
Sim! Este amor que hoje ainda tanto se propaga
e que não cansa de andar por todo meu ser
me faz feliz mesmo que por todo lado
com ele - tão calado - eu sempre ande!

Teu - desconhecido(?) - amor

NAMORADO

Veio chegando junto com a juventude
Veio sorrateiro, disfarçado, de mansinho
E eu cuidava nos olhos seus o sorriso
e em sua boca eu buscava todo riso

Algo invisível (não sei se era o silêncio)
dizia-me muito... tudo que meu coração queria
e eu o seguia, espreitava-o em cada canto
e nesse jeito ia encantando todo meu dia

Passou o tempo, a hora, cada momento
e no meu peito foi brotando um sentimento
que era mel (não era fel!...) era começo
de um amor que igual até hoje desconheço!

Ah! mas veio o destino, a sina e não sei mais
Ele se foi... pra onde? ...não soube jamais
Voltou a vida em seus caminhos na calçada
e aqui fiquei... às lembranças abraçada.

CARÍCIA MANSA NO HORIZONTE DE MUITOS SILÊNCIOS

A tarde começa calma... uma carícia mansa diante de um horizonte
de muitos silêncios que aparentam guardar expectativas que, de verdade, estão mesmo é dentro de nós.
Me acomodo na varanda da casa (... da casa ou do mundo?)
Aqui é meu mundo, a intimidade de mim mesma e tudo mais que vive em mim.
De onde estou descortina-se um horizonte sem fim, me parece. Não faço a menor idéia se ele termina logo ali ou não: onde o fim? onde o limite? ...Infinito!
Mar, areia, certa aragem. Alguma coisa de um sol tímido aparece de vez em quando pra me dizer que a luz não sumiu totalmente. De repente, uma rajada de vento atira montes de folhas da goiabeira que já pressente o ar outonal chegando.
Aqui me derramo... a mim mesma e tudo mais que existe em mim... meu próprio recolhimento, meus subterrâneos, meu sentimento. Cato
presságios que dominam o ar, este estado de ficar refletindo sobre, enfim, o que é 'estar no mundo'. Mas não... Hoje não dá. Não me arrisco a fazer rodar a manivela da tristeza. Deixa pra lá, deixa pr'amanhã... ou sei lá pra quando, pra onde...
Afinal, é Sexta-Feira da Paixão!
ELE morreu...
Nós estamos vivos no mundo... infinito!

QUISERA SER PÁSSARO SEM TER DE DIZER 'ADEUS'

Pelo vidro da janela, a paisagem viaja embaçada.
(- ... meus olhos marejados? - ou o vidro esfumaçado?)
Afinal,em que destino embarquei ao entrar por esta porta?

Já não sei mais nada... Já faz tempo demais...

No bilhete que ficou, jaz uma única palavra.

Quisera eu que nenhuma saudade me afligisse.
Quisera ser pássaro sem ter de dizer 'adeus'...

QUANDO O AMOR SE DESPEDE

"Adeus!", dissemos... nunca mais nos vimos
Nem mesmo nos procuramos sequer...
Permutamos olhares... tantos mimos!!
(Ele? Garoto sem plano qualquer.)

Menina eu (quando nos despedimos),
Jamais supunha um dia ser mulher
Para ter prova do que nós sentimos,
Mesmo sabendo o que o amor requer.

Hoje sozinha aqui, vou refletindo
E concluo que mesmo ele partindo,
Foi puro o nosso amor... quase fraterno.

Pois sem a dúbia sensação carnal,
A nossa união foi divinal
E fez nosso amor tornar-se eterno.

SOB O MESMO CÉU

Por muito tempo fiquei sem prumo
perdida e só não distinguia o rumo
e sobre mim, silencioso e triste,
prostrou-se o mal, quase punhal em riste.

Jamais julguei ter a paixão assim
motivo (in)justo de impor-se um fim
eis que quem ama humanamente o faz
sem nem pensar que tudo se desfaz.

Se a distância, o não-encontro, a dor
se o calvário deste louco amor
nos impediram a vida sob um mesmo teto,

se o chão não temos, se tudo é dissabor,
(por Deus!)temos estrelas, um céu compensador
a nos cobrir com a vastidão do afeto.

Fontes:
http://www.ligia.tomarchio.nom.br/ligia_amigos_ligialeivas.htm
http://www.avspe.eti.br/sonetos/LigiaAntunesLeivas.htm

sábado, 28 de agosto de 2010

Orlando Brito (1927 - 2010)

Orlando Brito era natural de Niterói-RJ, onde nasceu aos 27 de novembro de 1927, filho de Amaro Brito e de Irma Denti Brito.Residiu em Pindamonhangaba de 1966 a 1975, sendo diretor da Tribuna do Norte e do jornal Sete Dias (extinto). Foi redator do Diário de Pindamonhangaba e correspondente do jornal 'Agora', de São José dos Campos. Também em Pinda, foi membro do Lions Clube e exerceu grande atividade artística, participando de muitas atividades culturais da cidade.

Notabilizou-se como trovador, tendo merecido capítulo especial no livro 'Nós os Trovadores', do escritor e poeta Eno Teodoro Wanke, editado em 1991, no Rio de Janeiro. É citado no Dicionário de Poetas Contemporâneos, de Francisco Igreja, e em várias antologias e coletâneas de trovas. Autodidata, publicou os livros seguintes: 'Lua de sonho' - trovas (1958), 'Cantigas de ninar tristezas' - trovas (1962), 'Viola de marinheiro' - trovas (1991), 'Cantigas do céu e da terra' - trovas (1992). 'Esta vida é uma graça' - trovas (1994), 'Sonetos' (1996), 'Ruas de São Luís' - poesia (1998).

No estilo cordel, publicou: 'O estranho amor de um médico por um esqueleto' (1987), 'Os lírios do professor' (1988), 1ª Canção de Eleusa' (1989), 'Histórias de Silvestre, o pintor vaidoso' (1991), 'Coxinho, dono dos bois' (1991), 'Viola fuxiqueira' (1994). Em 1986, uma indústria do Maranhão publicou um livro dele que foi considerado de utilidade pública: 'Normas de Prevenção de Acidentes de Trabalho'.

Provavelmente, houve outras publicações de Orlando após 2001, data em que Francisco Piorino publicou o valioso 'Biografias' contendo dados de todos os membros da Academia Pindamonhangabense de Letras e os patronos de suas respectivas cadeiras. Orlando Brito era acadêmico titular da APL, ocupava a cadeira nº 9

Fonte:
http://www.tribunadonorte.net/noticias.asp?id=6097&cod=4&edi=128

Orlando Brito: Uma Eterna Saudade


(artigo de José Valdez de Castro Moura, para a Tribuna do Norte, seção Cultura e Lazer)

Orlando Brito, um dos maiores trovadores do Brasil, que teve marcante atuação intelectual na década de 70 aqui em Pindamonhangaba, um mestre na arte de trova, já não está entre nós. Faleceu na madrugada do dia 21 de agosto em São Luiz do Maranhão. Publicou vários livros de trovas e poesias, entretanto, um dos livros de poesias mais elogiados no meio literário nos últimos anos é uma bela obra de sua autoria, obra marcada pelo lirismo, pelo uso da linguagem simples e correta e, sobretudo, pela inspiração dos temas cujo título é "Sonetos".

A poesia de Orlando Brito caracteriza-se, acima de tudo, por um profundo humanismo, no conteúdo e na forma, e por uma simplicidade impressionante. Ele é o artista ciente e consciente das virtualidades expressivas de seu instrumental: o verso espontâneo e o idioma pátrio, mostrando o mundo com o poder sintético das imagens, metáforas, onde o intimismo, a ternura, o amor e a nostalgia dos entes familiares e amigos queridos constituem os "leit - motivos" do seu mundo poético. E, é o que apreciamos nesse soneto simples e magistral:

MINHA MÃE

Minha mãe era quase analfabeta,
quase nada sabia de leituras,
mas tinha o instinto dessas almas puras
que sabe, entre as ações, a mais correta.

Criou dez filhos, boas criaturas,
fiéis a Deus, de educação seleta.
Sabia ser valente ou ser discreta
nos momentos de dor, nas horas duras.

Os filhos, todos eles são felizes,
pois ela, não deixando coisa alguma,
deixou, com seu exemplo, as diretrizes.

Uns herdaram seus olhos, outro, a calma,
outro, seu jeito simples, mas, em suma,
fui o mais bem- dotado- herdei-lhe a alma!

Como verdadeiro Poeta, Orlando Brito tinha consciência de que toda poesia é um ato de assombro que conduz às paragens da filosofia, espantando-se ante as belezas do universo e aterrorizando-se perante o sofrimento humano. Assim, estabelecendo a dialética: emoção diante da beleza e indignação ao conscientizar-se da dor humana, constrói o seu ato poético, conduzindo-o à altura do ato filosófico. E, o nosso poeta Orlando mostra isso, muito bem, nos sonetos : "A Última Árvore ", "A Voz da Terra" e "O Rio ". Por outro lado, os objetos que o impressionam são comuns: as gaiolas, as pombas, os amigos que foi encontrando ao longo do caminho, a montanha...

As sensações que o fazem pulsar são, portanto, as do cotidiano: "o vento que passa", o "palhaço" que, no seu desejo," abra, a quem chora, a porta da esperança, e não permita que a maldade apague o sorriso nos lábios de uma criança".
Em uma análise sucinta, vamos desvelar um poeta em que o poema é a consubstanciação perfeita entre o viver e o cantar (como me confessou, certa vez, outro grande poeta, o Mestre da Trova: Waldir Neves, nosso amigo fraterno) entre sofrer vivendo e sofrer cantando.

O nosso estimado Orlando Brito teve o talento e o gênio dos grandes poetas líricos, que apresentam resistência à passagem do tempo, possuindo domínio da forma e, ao mesmo tempo, trazendo consigo uma fantástica agilidade criadora que lhe dão amplas condições de passar de um estado a outro, de uma inspiração a outra, sem afundar nos lugares comuns.

Platão, no Fedro, assim se referiu ao êxtase vivenciado pelos Aedos, poetas da antiga Grécia: "A possessão e o delírio das musas apoderam-se de uma alma sensível, despertam-na e extasiam-na em cantos". É o que acontecia com o inesquecível Orlando Brito. Para deleite nosso e para o maior enriquecimento da poesia Brasileira!

Orlando Brito foi cantar nas paragens celestiais levando consigo as flores da nossa admiração e da nossa eterna saudade.Com a sua partida o mundo,com certeza, ficou mais pobre.

Fonte:
http://www.tribunadonorte.net/noticias.asp?id=6096&cod=4&edi=128

Carlos Drummond de Andrade (Livro de Poemas)


AO AMOR ANTIGO

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

A RUA DIFERENTE

Na minha rua estão cortando árvores
botando trilhos
construindo casas.

Minha rua acordou mudada.
Os vizinhos não se conformam.
Eles não sabem que a vida
tem dessas exigências brutas.

Só minha filha goza o espetáculo
e se diverte com os andaimes,
a luz da solda autógena
e o cimento escorrendo nas formas.

A FOLHA

A natureza são duas.
Uma,
tal qual se sabe a si mesma.
Outra, a que vemos. Mas vemos?
Ou é a ilusão das coisas?

Quem sou eu para sentir
o leque de uma palmeira?
Quem sou, para ser senhor
de uma fechada, sagrada
arca de vidas autônomas?

A pretensão de ser homem
e não coisa ou caracol
esfacela-me em frente à folha
que cai, depois de viver
intensa, caladamente,
e por ordem do Prefeito
vai sumir na varredura
mas continua em outra folha
alheia a meu privilégio
de ser mais forte que as folhas.

BEIJO-FLOR

O beijo é flor no canteiro
ou desejo na boca?
Tanto beijo nascendo e colhido
na calma do jardim
nenhum beijo beijado
(como beijar o beijo?)
na boca das meninas
e é lá que eles estão
suspensos
invisíveis

CANÇÃO AMIGA

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

CIDADEZINHA QUALQUER

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar...as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus.

DIANTE DE UMA CRIANÇA

Como fazer feliz meu filho?
Não há receitas para tal.
Todo o saber, todo o meu brilho
de vaidoso intelectual

vacila ante a interrogação
gravada em mim, impressa no ar.
Bola, bombons, patinação
talvez bastem para encantar?

Imprevistas, fartas mesadas,
louvores, prêmios, complacências,
milhões de coisas desejadas,
concedidas sem reticências?

Liberdade alheia a limites,
perdão de erros, sem julgamento,
e dizer-lhe que estamos quites,
conforme a lei do esquecimento?

Submeter-se à sua vontade
sem ponderar, sem discutir?
Dar-lhe tudo aquilo que há
de entontecer um grão-vizir?

E se depois de tanto mimo
que o atraia, ele se sente
pobre, sem paz e sem arrimo,
alma vazia, amargamente?

Não é feliz. Mas que fazer
para consolo desta criança?
Como em seu íntimo acender
uma fagulha de confiança?

Eis que acode meu coração
e oferece, como uma flor,
a doçura desta lição:
dar a meu filho meu amor.

Pois o amor resgata a pobreza,
vence o tédio, ilumina o dia
e instaura em nossa natureza
a imperecível alegria.

"EU HOJE JOGUEI TANTA COISA FORA...."

Não importa onde você parou...
em que momento da vida
você cansou...
o que importa
é que sempre é possível
e necessário" recomeçar".
Recomeçar é dar
uma nova chance a si mesmo...
é renovar as esperanças
na vida e o mais importante...
acreditar em você de novo.
Sofreu muito nesse período?
foi aprendizado...
Chorou muito?
foi limpeza da alma...
Ficou com raiva das pessoas?
foi para perdoá-las um dia...
Sentiu-se só por diversas vezes?
é por que fechaste
a porta até para os anjos...
Acreditou
que tudo estava perdido?
era o indício da tua melhora...
Pois ...agora é hora de reiniciar... de pensar na luz...
de encontrar prazer
nas coisas simples de novo.
Que tal um novo emprego?
Uma nova profissão?
Um corte de cabelo
arrojado... diferente?
Um novo curso...
ou aquele velho desejo
de aprender a pintar...
desenhar...
dominar o computador...
qualquer
outra coisa...
Olha quanto desafio...
quanta coisa nova
nesse mundo de meu Deus
te esperando.
Está se sentindo sozinho? besteira...
tem tanta gente
que você afastou
com o seu período de isolamento
tem tanta gente esperando
apenas um sorriso teu
para "chegar" perto de você.
Quando nos trancamos
na tristeza...
nem nós mesmos nos suportamos...
ficamos horríveis...
o mal humor
vai comendo nosso fígado...
até a boca fica amarga.
Recomeçar...
hoje é um bom dia
para começar
novos desafios.
Onde você quer chegar?
ir alto...
sonhe alto...
queira o melhor do melhor...
queira coisas boas para a vida...
pensando assim trazemos
prá nós aquilo que desejamos...
se pensamos pequeno...
coisas pequenas teremos...
se desejarmos fortemente
o melhor e principalmente
lutarmos pelo melhor...
o melhor vai se instalar
na nossa vida.
É hoje o dia da faxina mental...
joga fora tudo
que te prende ao passado...
ao mundinho de coisas tristes... fotos...
peças de roupa...
papel de bala...
ingressos de cinema...
bilhetes de viagens...
e toda aquela tranqueira
que guardamos
quando nos julgamos apaixonados...
jogue tudo fora...
mas principalmente...
esvazie seu coração...
fique pronto para a vida...
para um novo amor...
Lembre-se somos apaixonáveis...
somos sempre capazes
de amar muitas
e muitas vezes...
afinal de contas...
Nós somos o "Amor"...
––––––––––––––––––––––––-

Mais poesias de Drummond no Blog

Livro de Poesias
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/04/carlos-drummond-de-andrade-livro-de.html
A casa do tempo perdido
A Corrente
A Lebre
Fim
Importância da escova
Lembrança do Mundo antigo
Pavão
Quero me casar
Sentimental

Antologia Poética
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/02/carlos-drummond-de-andrade-antologia.html
A Falta de Érico
A palavra mágica
A poesia (não tires poesia das coisas)

Poesias Além da Terra, Além do Céu
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/04/carlos-drummond-de-andrade-poesias-alem.html
A bruxa
A hora do cansaço
Alem da terra, além do céu
As sem razões do amor
Cantiga de Viúvo
Confidência do Itabirano
Memória
O amor bate na porta
O Tempo passa? Não passa
Poema patético

Campo de Flores – análise da poesia
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/12/carlos-drummond-de-andrade-campo-de.html

Caso Pluvioso
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/11/carlos-drummond-de-andrade-caso.html

Os Ombros Suportam o Mundo
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2008/02/carlos-drummond-de-andrade-poesia-os.html

José
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2008/02/carlos-drummond-de-andrade-poesia-jos.html

Mãos Dadas
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2008/05/carlos-drummond-de-andrade-mos-dadas.html

Certas Palavras
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/03/carlos-drummond-de-andrade-certas.html

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) – Biografia
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2007/12/carlos-drummond-de-andrade-1902-1987.html

Ivan Jaf (A Gata Apaixonada)

Ilustração: Andréa Ebert
Quando perguntam como é que eu consegui sair com a Carla, eu respondo que foi por causa do Aldemir Martins. O pintor famoso.

Eu estava, tranqüilo, estudando. Juro. Lá pelas 3 da tarde o telefone tocou. Era ela, a vizinha da casa 3.

A mãe morreu há uns quatro anos. O pai é superciumento, não a deixa satir de casa nunca.

– Oi, Rodrigo... Você tem um gato grande, malhado?

– Tenho. O nome dele é Sorvete.

– Sorvete?

– Quando a gente encosta a mão, ele se derrete todo.

– Ele briga com a minha gata, a Tati. Já aconteceu várias vezes. Acho que é ciúme.

– De outro gato?

– Não. De um quadro. Uma pintura. Do Aldemir Martins.

Dez minutos depois eu estava na sala da casa dela. Só nós dois.

– Você vai ver – ela disse.

– É sempre na mesma hora. Já ouviu falar do Aldemir Martins?

– Já. É um pintor famoso pra caramba. Mora aqui em São Paulo.

– Morava. Morreu há pouco tempo. Minha mãe era apaixonada pela pintura dele. Ele ilustrava livros, revistas, jornais... Pintava cangaceiros, galos, passarinhos, peixes...

– Tô sabendo. Desenhava até rótulos de maionese, de vinho...

– Minha mãe comprava tudo que podia. A gente comia em pratos desenhados por ele, tinha lençóis, tapetes, cortina de banheiro...

Carla me levou pra um canto da sala. Em cima de uma imitação de lareira, havia uma tela do Aldemir Martins, pequena, com o desenho de um gato. Um gato gordo, vermelho e azul, um focinho enorme, mostrando as garras, sedutor, os olhos verdes calmos, hipnóticos.

– Minha mãe adorava esse quadro.

Então ela me puxou pra trás de uma cortina pesada, que cobria a vidraça que dava pro jardim.

Tati entrou na sala. Pulou pro beiral da falsa lareira e parou em frente ao quadro, olhando pro gato pintado. Ficamos assim uns 20 minutos, escondidos, calados. Até que ele apareceu. O velho Sorvete. O gato mais descolado do pedaço. Veio gingando, passou entre os móveis, parou na frente da lareira, olhou pro alto e não gostou nada do que viu.

Carla segurou no meu braço.

Sorvete pulou pro beiral.

Briga de gato é mais rápido que videogame. Tati pulou, atravessou uma janela aberta e fugiu pro jardim, com o Sorvete atrás.

– Minha mãe dizia que um artista é capaz de recriar a vida. Se Deus existe, com certeza é um artista. Mas acho que você vai ter de trancar o Sorvete em casa, Rodrigo. Não gostei daquilo.

– Não, Carla. A gente encontra outro jeito. Pra mim as pessoas, os bichos, qualquer coisa que se mexa... têm de ter liberdade. Têm de ter uma janela aberta.

– Mas o Sorvete é meio selvagem...

– Isso. É assim que eu gosto dele. Eu também sou meio selvagem. Sabe o que eu faço? Eu como o tomate inteiro. Eu não fico esperando a minha mãe partir e colocar na salada!

Ela riu. Não sei de onde eu tirei essa história do tomate. Aí me empolguei, e ia dar mais exemplos de como eu era selvagem, mas a cortina se abriu de repente e o pai dela apareceu.

O cara ficou nervoso, quase chamou a polícia, mas depois a gente explicou, ele se arrependeu e acabou até deixando a filha sair comigo.

Eu e a Carla estamos namorando. Juro.
==================
Mais sobre Ivan Jaf
Biografia
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/01/ivan-jaf-1957.html
Entrevista
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/01/ivan-jaf-o-escritor-em-xeque.html
Livro: O Vampiro que Descobriu o Brasil
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/01/ivan-jaf-o-vampiro-que-descobriu-o.html

Fonte:
Revista Nova Escola. abril de 2007

Ialmar Pio Schneider ( Baú de Trovas VI)


A cigarra e a formiga,
pelo destino do amor:
uma executa a cantiga,
outra executa o labor.

A manhã surge radiante,
envolvendo de esplendor,
na alegria contagiante
toda a natureza em flor.

Consegues viver sozinha,
enfrentando a solidão?!
Recorda que “uma andorinha
sozinha não faz verão...”

Deixa-me ficar sonhando
em meu mundo de ilusão,
pra que vá me acostumando
a viver na solidão.

De tudo o que já perdi,
nada me causa mais dor,
do que estar longe de ti
e viver sem teu amor!

Enfrentar alegremente
as incertezas da vida,
é a maneira inteligente
de tardar a despedida.

Entre amar e ser amado,
eu não sei o que é melhor;
porém, viver desprezado,
é, sem dúvida, o pior!

Eras bonita... Eu tão feio...
mas nos queríamos tanto,
que num mesmo devaneio
nos amamos por encanto...

Mágoas de amor não tem preço:
tudo pode acontecer;
um final sem ter começo,
impossível entender...

Mas antes que a chuva caia,
prefiro sentir o vento
levantando a tua saia
para meu contentamento.

Mistura de mágoa e tédio,
esta carência de amor;
e se tomo algum remédio
mais aumenta minha dor.

Não sei se devo olvidar-te
ou ficar nesta ansiedade;
pois te encontro em toda parte,
vivendo em minha saudade...

Não sei se foi desagrado,
ou talvez ingratidão,
este punhal afiado
ferindo meu coração...

Neruda... Grande Neruda,
da “Canção Desesperada”,
careço de tua ajuda
pra cantar a minha amada!

O amor daquele que chora
por ter sido desprezado,
não tem jeito de ir embora,
fica no peito guardado.

O amor, sem paz nem sossego,
também merece louvor;
mas se não traz aconchego,
impossível ser amor.

Pelas trovas benfazejas
que solitário componho,
peço que ditosa sejas
e concretizes teu sonho.

Pelos momentos vividos
longe de ti que me encanta,
meus soluços reprimidos
vão morrendo na garganta.

Porque já chegou o outono
e foi embora o verão,
vou ficando no abandono
e minhas folhas cairão...

Por te querer me atormento
e de te amar não desisto;
para tanto sofrimento,
antes não te houvesse visto.

Por viver apaixonado
me chamam de sonhador;
porém, se amar é pecado,
sou o maior pecador.

Quando em pensamento a beijo
não sinto felicidade,
porque, afinal, meu desejo
é beijá-la de verdade.

Quantas noites mal dormidas,
pensando em que não me quer;
são as ilusões perdidas
por causa de uma mulher!...

Quem ama por conveniência
não conhece a sensação
que causa em nossa existência
o fogo de uma paixão.

Se não puderes me amar,
eu acato teu direito,
embora fique a chorar
o coração em meu peito.

Sócia de dor é paixão,
sem ter reciprocidade,
porque nos traz ilusão
e nos deixa na orfandade.

Teu encanto me seduz
nas horas que te contemplo,
toda cercada de luz
qual uma deusa num templo.

Vai romper a madrugada
neste começo do outono,
e sem pensar mais em nada
quero me entregar ao sono...

Vou caminhando sozinho
pela estrada sem ninguém,
sinto falta do carinho
que já me fez tanto bem.

Vou fazer-lhe uma proposta,
pense bem no que lhe digo:
se disser que não me gosta,
quero ser só seu amigo!

Fonte:
O Autor

O Nosso Português de Cada Dia



1 - "Custas só se usa na linguagem jurídica" para designar despesas feitas no processo. Portanto, devemos dizer: "O filho vive à custa do pai". No singular.

2 - Não existe a expressão "à medida em que". Ou se usa à medida que correspondente a à proporção que, ou se usa na medida em que equivalente a tendo em vista que.

3 - 'O certo é " a meu ver" e não ao meu ver.

4 - "A princípio" significa inicialmente, "antes de mais nada": Ex: A princípio, gostaria de dizer que estou bem. "Em princípio" quer dizer "em tese". Ex: Em princípio, todos concordaram com minha sugestão.

5 - "À-toa", (com hífen), é um adjetivo e significa "inútil", "desprezível". Ex: Esse rapaz é um sujeito à-toa. "À toa", (sem hífen), é uma locução adverbial e quer dizer "a esmo", "inutilmente". Ex: Andava à toa na vida.

6 - Com a conjunção se, deve-se utilizar acaso, e nunca caso. O certo: "Se acaso vir meu amigo por aí, diga-lhe..." Mas podemos dizer: "Caso o veja por aí...".

7 - 'Acerca de' quer dizer 'a respeito de'. Veja: Falei com ele acerca de um problema matemático. Mas há cerca de é uma expressão em que o verbo haver indica tempo transcorrido, equivalente a faz. Veja: Há cerca de um mês que não a vejo.

8 - Não esqueça: alface é substantivo feminino. A Alface está bem verdinha.

9 - Além pede sempre o hífen: 'além-mar', 'além-fronteiras', etc.

10 - Algures é um advérbio de lugar e quer dizer 'em algum lugar'. Já alhures significa 'em outro lugar'.

11 - Mantenha o timbre fechado do o no plural dessas palavras: 'almoços', 'bolsos', 'estojos', 'esposos', 'sogros', 'polvos', etc.

12 - O certo é 'alto-falante', e não auto-falante.

13 - O certo é 'alugam-se casas', e não aluga-se casas. Mas devemos dizer precisa-se de empregados, trata-se de problemas. Observe a presença da preposição (de) após o verbo. É a dica pra não errar.

14 - Depois de ditongo, geralmente se emprega x. Veja: 'afrouxar', 'encaixe', 'feixe', 'baixa', 'faixa', 'frouxo', 'rouxinol', 'trouxa', 'peixe', etc.

15 - Ancião tem três plurais: 'anciãos', 'anciães', 'anciões'.

16 - Só use ao 'invés de' para significar 'ao contrário de', ou seja, 'com idéia de oposição'. Veja: Ela gosta de usar preto ao invés de branco. Ao invés de chorar, ela sorriu. Em vez de quer dizer em lugar de. Não tem necessariamente a idéia de oposição. Veja: Em vez de estudar, ela foi brincar com as colegas. (Estudar não é antônimo de brincar).

17 - Ainda se vê e se ouve muito aterrisar em lugar de aterrissar, com dois s. 'Escreva sempre com o s dobrado'.

18 - 'Não existe preço barato ou preço caro'. Só existe preço alto ou baixo. 'O produto, sim, é que pode ser caro ou barato'. Veja: Esse televisor é muito caro. O preço desse televisor é alto.

19 - Ainda se vê muito, principalmente na entrada das cidades, a expressão bem vindo (sem hífen) e até benvindo. As duas estão erradas. Deve-se escrever 'bem-vindo', sempre com hífen.

20 - Atenção: 'nunca empregue hífen depois de bi, tri, tetra, penta, hexa, etc'. O nome fica sempre coladinho. O Sport se tornou tetracampeão no ano 2000. O Náutico foi hexacampeão em 1968. O Brasil foi bicampeão em 1962.

21 - Veja bem: 'uma revista bimensal é publicada duas vezes ao mês', ou seja, 'de 15 em 15 dias'. 'A revista bimestral só sai nas bancas de dois em dois meses'. Percebeu a diferença?

22 - Hoje, tanto se diz 'boêmia' como 'boemia'. Nelson Gonçalves consagrou a segunda, com a tonacidade no mia.

23 - Cuidado: 'Eu caibo' dentro daquela caixa. A primeira pessoa do presente do indicativo assim se escreve porque o verbo é irregular.

24 - Preste atenção: 'o senador Luiz Estêvão foi cassado'. Mas 'o leão foi caçado' e nunca foi achado. Portanto, 'cassar' (com dois s) quer dizer tornar nulo, sem efeito.

25 - Existem palavras que 'só devem ser empregadas no plural'. Veja: os óculos, as núpcias, as olheiras, os parabéns, os pêsames, as primícias, os víveres, os afazeres, os anais, os arredores, os escombros, as fezes, as hemorróidas, etc.

26 - Pouca gente tem coragem de usar, mas o plural de caráter é 'caracteres'. Então, Carlos pode ser um bom-caráter, mas os dois irmãos dele são dois maus-caracteres.

27 - 'Cartão de crédito e cartão de visita não pedem hífen'. 'Já cartão-postal exige o tracinho'.

28 - 'Catequese se escreve com s', mas 'catequizar é com z'. Esse português...

29 - O exemplo acima foge de uma regrinha que diz o seguinte: os verbos derivados de palavras primitivas grafadas com s formam-se com o acréscimo do sufixo -ar: análise-analisar, pesquisa-pesquisar, aviso-avisar, paralisia-paralisar, etc.

30 - 'Censo é de recenseamento'; 'senso refere-se a juízo'. Veja: O censo deste ano deve ser feito com senso crítico.

31 - 'Você não bebe a champanhe. Bebe o champanhe'. É, portanto, palavra masculina.

32 - ' Cidadão só tem um plural: cidadãos'.

33 - Cincoenta não existe. 'Escreva sempre cinquenta'.

34 - Ainda tem gente que erra quando vai falar gratuito e dá tonicidade ao i, como de fosse gratuíto. 'O certo é gratuito', da mesma forma que pronunciamos intuito, circuito, fortuito, etc.

35 - E ainda tem gente que teima em dizer rúbrica, em vez de rubrica, com a sílaba bri mais forte que as outras. 'Escreva e diga sempre rubrica'.

36 - 'Ninguém diz eu coloro esse desenho'. Dói no ouvido. Portanto, o verbo colorir é defectivo (defeituoso) e não aceita a conjugação da primeira pessoa do singular do presente do indicativo. 'A mesma coisa é o verbo abolir'. Ninguém é doido de dizer eu abulo. Pra dar um jeitinho, diga: Eu vou colorir esse desenho. Eu vou abolir esse preconceito.

37 - 'Outro verbo danado é computar'. Não podemos conjugar as três primeiras pessoas: eu computo, tu computas, ele computa. A gente vai entender outra coisa, não é mesmo? Então, para evitar esses palavrões, decidiu-se pela proibição da conjugação nessas pessoas. Mas se conjugam as outras três do plural: computamos, computais, computam.

38 - Outra vez atenção: os verbos terminados em -uar fazem a segunda e a terceira pessoa do singular do presente do indicativo e a terceira pessoa do imperativo afirmativo em -e e não em -i. Observe: Eu quero que ele continue assim. Efetue essas contas, por favor. Menino, continue onde estava.

39 - A propósito do item anterior, devemos lembrar que os verbos terminados em -uir devem ser escritos naqueles tempos com -i, e não -e. Veja: Ele possui muitos bens. Ela me inclui entre seus amigos de confiança. Isso influi bastante nas minhas decisões. Aquilo não contribui em nada com o progresso.

40 - 'Coser significa costurar'. 'Cozer significa cozinhar'.

41 - 'O correto é dizer deputado por São Paulo', 'senador por Pernambuco', e não deputado de São Paulo e senador de Pernambuco.

42 - 'Descriminar' é absolver de crime, inocentar. 'Discriminar' é distinguir, separar. Então dizemos: Alguns políticos querem descriminar o aborto. Não devemos discriminar os pobres.

43 - 'Dia a dia (sem hífen) é uma expressão adverbial que quer dizer todos os dias, dia após dia'. Por exemplo: Dia a dia minha saudade vai crescendo. Enquanto que 'dia-a-dia (com hífen) é um substantivo que significa cotidiano' e admite o artigo: O dia-a-dia dessa gente rica deve ser um tédio.

44 - 'A pronúncia certa é disenteria', e não desinteria.

45 - A palavra 'dó (pena) é masculina'. Portanto, 'Sentimos muito dó daquela moça'.

46 - 'Nas expressões é muito, é pouco, é suficiente, o verbo ser fica sempre no singular', sobretudo quando denota quantidade, distância, peso. Ex: Dez quilos é muito. Dez reais é pouco. Dois gramas é suficiente.

47 - 'Há duas formas de dizer': é proibido entrada, e é proibida a entrada. Observe a presença do artigo a na segunda locução.

48 - Já se disse muitas vezes, mas vale repetir: 'televisão em cores', e não a cores.

49 - Cuidado: 'emergir é vir à tona', vir à superfície. Por exemplo: O monstro emergiu do lago. Mas 'imergir é o contrário': é mergulhar, afundar. Veja o exemplo: O navio imergiu em alto-mar.

50 - A confusão é grande, mas 'se admitem as três grafias': 'enfarte, enfarto e infarto'.

51 - Outra dúvida: nunca devemos dizer estadia em lugar de estada. Portanto, a minha estada em São Paulo durou dois dias. Mas a estadia do navio em Santos só demorou um dia. Portanto, 'estada para permanência de pessoas, e estadia para navios ou veículos'.

52 - E não esqueça: 'exceção é com ç', mas 'excesso é com dois ss'.

53 - Lembra-se dos 'verbos defectivos'? Lá vai mais um: 'falir'. No presente do indicativo só apresenta a primeira e a segunda pessoa do plural: nós falimos, vós falis. Já pensou em conjugá-lo assim: eu falo, tu fales...Horrível, não?

54 - Todas as expressões adverbiais formadas por 'palavras repetidas dispensam a crase': 'frente a frente', 'cara a cara', 'gota a gota', 'face a face', etc.

55 - Outra vez tome cuidado. Quando for ao supermercado, 'peça duzentos ou trezentos gramas' de presunto, 'e não duzentas ou trezentas'. Quando significa unidade de massa, grama é substantivo masculino. 'Se for a relva, aí sim, é feminino': não pise na grama; a grama está bem crescida.

56 - É frequente se ouvir no rádio ou na TV os entrevistados dizerem: Há muitos 'anos atrás...' Talvez nem saibam que estão construindo uma frase redundante. Afinal, há já dá idéia de passado. Ou se diz simplesmente 'há muito anos...' ou 'muitos anos atrás...' Escolha. Mas não junte o há com atrás.

57 - Cuidado nessa arapuca do português: as palavras paroxítonas terminadas em -n recebem acento gráfico, mas as terminadas em -ns não recebem: 'hífen', 'hifens'; 'pólen', 'polens'.

58 - Atenção: 'Ele interveio' na discórdia, 'e não interviu'. Afinal, 'o verbo é intervir, derivado de vir'.

59 - 'Item não leva acento'. Nem seu plural itens.

60 - O certo é 'a libido', feminino. Devo dizer: 'Minha libido' hoje não tá legal.

61 - Todo mundo gosta de dizer 'magérrima', 'magríssima', mas o superlativo de magro é 'macérrimo'.

62 - Antes de particípios não devemos usar melhor nem pior. Portanto, devemos dizer: os alunos mais bem preparados são os do 2o grau. E nunca: os alunos melhor preparados...

63 - Essa história de 'mal com l', e 'mau com u', até já cansou: É só decorar: 'Mal' é antônimo de bem, e 'mau' é antônomo de bom. É só substituir uma por outra nas frases para tirar a dúvida.

64 - Pronuncie 'máximo', como se houvesse dois ss no lugar do x. (mássimo)

65 - Toda vez que disser: 'É meio-dia e meio você estará errando. 'O certo é: meio-dia e meia', ou seja, meio-dia e meia hora.

66 - Não tenho 'nada a ver' com isso, e 'não haver' com isso.

67 - 'Nem um nem outro' leva o verbo para o singular: Nem um nem outro conseguiu cumprir o que prometeu.

68 - Toda vez que usar o 'verbo gostar' tenha cuidado com a ligação que ele tem com a preposição de. Ex: a coisa de que mais gosto é passear no parque. A pessoa de que mais gosto é minha mãe.

69 - Lembre-se: 'pára', com acento, é do verbo parar, e 'para', sem acento, é a preposição. Portanto: Ele não pára de repetir para o amigo que tem um carro novo.

70 - E tem mais: 'pelo', (sem acento), é preposição (contração da preposição por com o artigo a) e pêlo, com acento, é o cabelo.

71 - E quer mais? 'Pêra', a fruta, leva acento, só para diferenciar de uma antiga preposição também chamada 'pera'. Já o plural dispensa o acento: 'peras'. Dá pra entender? O jeito é decorar.

72 - Ainda tem mais uma palavra com acento diferencial: 'pôde', terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do verbo poder. É para diferenciar de 'pode', a forma do presente. Então dizemos: Ele até que pôde fazer tudo aquilo, mas hoje não pode mais. Percebeu a diferença?

73 - 'Pôr só leva acento quando é verbo': "Quero pôr tudo no seu devido lugar". Mas 'se for preposição, não leva acento': Por qualquer coisa, ele se contenta.

74 - Fique atento: nunca diga, nem escreva 1 de abril, 1 de maio. Mas sempre: 'primeiro de abril', 'primeiro de maio'. Prevalece o ordinal.

75 - É chato, pedante ou parece ser errado dizer quando eu 'vir' Maria, darei o recado a ela. Mas esse é o emprego correto do 'verbo ver' no futuro do subjuntivo. Se eu o vir, quando eu o vir. Mas quando é o verbo vir que está na jogada, a coisa muda: quando eu 'vier', se eu 'vier'.

76 - Só use 'quantia' para somas em dinheiro. Para o resto, pode usar 'quantidade'. Veja: Recebi a quantia de 20 mil reais. Era grande a quantidade de animais no meio da pista.

77 - O prefixo 'recém' sempre se separa por hífen da palavra seguinte e deve ser pronunciado como oxítona: recém-chegado de Londres.

78 - Não esqueça: 'retificar é corrigir', e 'ratificar é comprovar, reafirmar': "Eu ratifico o que disse e retifico meus erros.

79 - Quando disser 'ruim', diga como se a sílaba mais forte fosse - im. Não tem cabimento outra pronúncia.

80 - Fique atento: só empregamos 'São' antes de nomes que começam por consoante: 'São Mateus', 'São João', 'São Tomé', etc. Se o nome começa por vogal ou h, empregamos 'Santo: 'Santo Antônio', 'Santo Henrique', etc.

81 - E lembre-se: 'seção, com ç', quer dizer 'parte de um todo, departamento': a seção eleitoral, a seção de esportes. Já 'sessão, com dois ss', significa intervalo de tempo que dura uma reunião, uma assembléia, um acontecimento qualquer: 'A sessão do cinema demorou muito tempo'.

82 - Não confunda: 'senão', (juntinho), quer dizer"caso contrário" e 'se não', (separado), equivale a "se por acaso não". Veja: Chegue cedo, senão eu vou embora. Se não chegar cedo, eu vou embora. Percebeu a diferença?

83 - Tire esta dúvida: quando 'só' é adjetivo equivale a sozinho e varia em número, ou seja, pode ir para o plural. Mas 'só' como advérbio, quer dizer somente. Aí não se mexe. Veja: Brigaram e agora vivem sós (sozinhos). Só (somente) um bom diálogo os trará de volta.

84 - É comum vermos no rádio e na tv o entrevistado dizer: O que nos falta são 'subzídios'. Quer dizer, fala com a pronúncia do z. Mas não é: pronuncia-se 'ss'. Portanto, escreva 'subsídio' e pronuncie 'subssídio'.

85 - 'Taxar' quer dizer 'tributar', 'fixar preço'. 'Tachar' é 'atribuir defeito', 'acusar.

86 - E nunca diga: 'Eu torço para o Flamengo'. Quem torce de verdade, 'torce pelo Flamengo'.

87 - Todo mundo tem dúvida, mas preste atenção: 50% dos estudantes passaram nos testes finais. Somente 1% terá condições de pagar a mensalidade. Acreditamos que 20% do eleitorado se abstenha de votar nas próximas eleições. Mais exemplos: 10% estão aptos a votar, mas 1% deles preferem fugir das urnas. Quer dizer, concorde com o mais próximo e saiba que essa regra é bastante flexível.

88 - 'Um dos que' deixa dúvidas,mas, pela norma culta, devemos pluralizar. Há gramáticos que aceitam o emprego do singular depois dessa expressão: Eu sou um dos que foram admitidos. Sandra é uma das que ouvem rádio.

89 - 'Veado' se escreve com e, e não com I.

90 - Esse português da gente tem cada uma: 'tem viagem com G e viajem com J' . Tire a dúvida: viagem é o substantivo: A viagem foi boa. Viajem é o verbo: Caso vocês viajem, levem tudo.

91 - O prefixo 'vice' sempre se separa por hífen da palavra seguinte: vice-prefeito, vice-governador, vice-reitor, vice-presidente, vice-diretor, etc.

92 - Geralmente, se usa o 'x depois da sílaba inicial en': enxaguar, enxame, enxergar, enxaqueca, enxofre, enxada, enxoval, enxugar, etc. Mas cuidado com as exceções: encher e seus derivados (enchimento, enchente, enchido, preencher, etc) e quando -en se junta a um radical iniciado por ch: encharcar (de charco), enchumaçar (de chumaço), enchiqueirar (de chiqueiro), etc.

93 - Não adianta teimar: 'chuchu' se escreve mesmo é com 'ch'.

94 - 'Ciclo vicioso' não existe. O correto é 'círculo vicioso'.

95 - E qual a diferença entre 'achar' e 'encontrar'? Use 'achar' para definir aquilo que se procura, e 'encontrar' para aquilo que, sem intenção nenhuma, se apresenta à pessoa. Veja: Achei finalmente o que procurava. Maria encontrou uma corda debaixo da cama. Jorge achou o gato dele que fugiu na semana passada.

96 - 'Adentro' é uma palavra só: meteu-se porta adentro. A lua sumiu noite adentro.

97 - Não existe 'adiar para depois'. Isso é redundante, porque adiar só pode ser para depois.

98 - 'Afim' (juntinho) tem relação com afinidade: gostos afins, palavras afins. 'A fim de' (separado) equivale a para: veio logo a fim de me ver bem vestido.

99 - Pode parecer meio estranho, mas pode conjugar o 'verbo aguar' normalmente: eu águo, tu águas, ele água, nós aguamos, vós aguais, eles águam.

100 - 'Centigrama' é uma palavra masculina: dois centigramas.

Fonte:
Colaboração de Carlos Leite Ribeiro. Portal CEN

Literatura na Escola (Plano de Aula - Narrativa de Dyonelio Machado)



OBJETIVOS

– Estimular o gosto pela leitura;
– desenvolver a competência leitora;
– desenvolver a sensibilidade estética, a imaginação, a criatividade e o senso crítico;
– estabelecer relações entre o lido/vivido ou conhecido (conhecimento de mundo);
– reconhecer e analisar os elementos da narrativa (narrador e seu ponto de vista, tempo);
– reconhecer e interpretar o discurso indireto livre.

CONTEÚDOS

Elementos da narrativa: narrador, tempo
discurso indireto livre

TEMPO ESTIMADO : Nove aulas

ANO : 9º ano

MATERIAL NECESSÁRIO

- Livro Os Ratos. Dyonelio Machado. São Paulo: Planeta, 2004.

DESENVOLVIMENTO

1ª etapa: Antecipação/Motivação/Sensibilização
.

LANCE A PERGUNTA À CLASSE:

Você já ouviu falar do escritor Dyonelio Machado? Conhece alguma obra que ele publicou?
Apresenta a biografia do autor.

Dyonelio Machado
Dyonelio Machado nasceu em Quarai, RS, em 21 de agosto de 1895. Além de escritor, Dyonelio foi médico psiquiatra. Aos 12 anos, já trabalhava no semanário O Quaraí, no qual teve seus primeiros contatos com a imprensa. Em 1929 formou-se médico e ingressou na psicanálise, constituindo-se num dos responsáveis pela sua divulgação no Rio Grande do Sul. Em 1934 traduziu a obra Elementos de Psicanálise, de Eduardo Weiss, livro fundamental na área. O interesse pela literatura surge por esta época, tendo seu primeiro livro de contos – Um pobre homem – publicado em 1927. Sua obra não é vasta, porém é bastante significativa: Os ratos, publicado em 1935, recebeu o prêmio Machado de Assis, depois veio O louco do Catí (1942), ambos considerados clássicos da literatura brasileira.
Faleceu em 19 de junho de 1985.
http://www.tirodeletra.com.br/biografia/DyonelioMachado.htm

Explique aos alunos que os dados biográficos interessam-nos só para conhecer um pouco da vida do autor, quantas obras escreveu, quais prêmios ganhou, a qual partido político pertencia. Deixe claro que uma análise literária que leva apenas em consideração a vida do autor tende ao equívoco, já que o escritor é decisivo só no momento da escritura. Depois de a obra estar pronta, ela fala por si só. O autor apenas cria, imagina a história, as personagens, o cenário e cria alguém responsável pelo ato de narrar: o narrador. Sendo assim, como afirma o contista Dalton Trevisan (Record, 1979), "nada tem a dizer fora dos livros. Só a obra interessa, o autor não vale o personagem. O conto é sempre melhor que o contista.”

PEÇA QUE OS ALUNOS RESPONDAM ORALMENTE:

A partir do título “Os Ratos”, o que você espera da história?

2º, 3º e 4º etapas:

Leitura compartilhada dos capítulos 1 e 2, seguida de troca de impressões gerais.

Pergunte à classe:
a- Qual é o drama vivido por Naziazeno e sua família?
b- Após o episódio do leiteiro, Naziazeno toma o bonde e segue em direção à repartição pública, da qual era funcionário. No caminho, trava conversa com um viajante, sentado ao seu lado. Veja:
" - Que horas serão?
— Sete horas passadas.
— Vou com atraso.
— A que horas você entra?
— Faltando um quarto pras oito.”

No bonde, perguntam ao viajante, companheiro de viagem de Naziazeno, o que ele levava consigo.

O moço responde: “ Leite. É o meu almoço”.

Naziazeno acha estranho e pensa:” — Como é que um homem pode se contentar apenas com um vidro de leite ao meio dia?”

- O que a fala do moço gera no íntimo de Naziazeno?

c- Ainda no bonde, Naziazeno escuta os viajantes conversando sobre os cavalos de corrida. A partir disso, Naziazeno parece sair do momento vivido e, via memória, é transportado para outro momento. Que momento é esse?

d- O narrador em 3ª pessoa parece conhecer Naziazeno a ponto de mencionar, logo após o episódio dos cavalos:“ Essa história agora lhe causou um mal-estar”. Que mal-estar é esse?

Leia o fragmento a seguir, que servirá de discussão para as questões e, f e g

“Já pôs o pé na calçada do mercado. O “café do Duque” fica na outra esquina. Toda essa calçada é uma sombra fresca e alegre, cheia de passos, de vozes.[...] Não enxerga o duque nos lugares habituais...E, entretanto, é a “ hora dele”. Vai ficar por ali, pelas portas, alguns minutos.Ele não poderá tardar. Nunca deixa de ir a esse café. Só por doença. Naziazeno bem que sentaria. Quem sabe?...talvez haja um conhecido nalguma mesa...Olha!...lá no fundo!...o Carvalho ...Mas desvia vivamente a cara, faz que não vê o Carvalho.”

e- O fragmento acima é narrado em qual pessoa? Que efeito de sentido a escolha desse ponto de vista gera na narrativa?

Professor, insista com o aluno que as formas verbais “pôr” e “ enxergar” indicam ao leitor que se trata de uma 3ª pessoa. Veja: Quem pôs o pé= ele; Quem não enxerga o duque nos lugares= ele. Sendo assim, quem nos conta a história é um narrador de fora dela, não um narrador personagem.

Feito isso, lance a seguinte pergunta:

f- No trecho acima, apesar de ser contado por um narrador fora da história, em 3ª pessoa, é possível conhecer os pensamentos e sentimentos do personagem principal, Naziazeno?

É o momento de explicar/ retomar com o aluno o discurso indireto livre. Diga a ele que quando lemos uma narrativa, há um narrador, que é quem conta o fato. Esse locutor ou narrador pode introduzir outras vozes no texto. Ao modo como as falas/ vozes são introduzidas na narrativa, damos o nome de discurso. Ele pode ser classificado em: direto, indireto e indireto livre. Se considerar necessário, entregue-lhe o quadro abaixo:

Discurso direto

Reproduz fiel e literalmente algo dito por alguém.
Exemplo: Não gosto disso” – disse a menina em tom zangado.

Discurso indireto

O narrador, usando suas próprias palavras, conta o que foi dito por outra pessoa.
Exemplo: A menina disse em tom zangado que não gostava daquilo

Discurso indireto livre

Este tipo de discurso envolve a combinação de diferentes pontos de vista. O narrador insere “falas- pensamentos” das personagens no seu próprio discurso, dificultando a identificação precisa de quem seria o responsável pelo que está sendo dito (narrador ou personagem). É necessário que se tenha atenção para não confundir a fala do narrador com a fala do personagem, pois esta surge de repente em meio a fala do narrador.

Exemplo: A menina perambulava pela sala irritada e zangada. Eu não gosto disso! E parecia que ninguém a ouvia.

Agora que já explicou os tipos de discurso, pergunte ao aluno:

g- A que tipo de discurso pertence o trecho selecionado?

Fixação: o discurso indireto livre

h- Após o mal-estar, Naziazeno lamenta ter como esposa uma mulher tímida. Veja:

“ Também a sua mulher com os outros é tímida, tímida demais. Fosse a mulher do amanuense, queria ver se as coisas não marchariam doutro modo. Ela se encolhe ao primeiro revés[...] Ele precisava dum ser forte a seu lado. Toda a sua decisão se dilui quando vê junto de si, como nessa manhã, a mulher atarentar-se, perder-se empalidecer[...] Sentir-se-ia fortificado, ou ao menos” justificado”, se visse a seu lado a mulher do amanuense franzindo a cara ao leiteiro, pedindo-lhe para repetir o que houvesse dito, perguntando-lhe o que é que estaria porventura pensando deles. A sua mulher encolhida e apavorada é uma confissão pública de miséria humilhada, sem dignidade_ da sua miséria.”

Sabemos da lamentação de Naziazeno via narrador ou pela personagem. Retire fragmentos que comprovem sua resposta.

Após garantir o entendimento dos tipos de discurso, releia o fragmento da lamentação de Naziazeno sobre a mulher. Diga aos alunos que apesar de a narrativa não ser em 1ª pessoa, nós, como leitores, conhecemos os pensamentos e sentimentos de Naziazeno pelo narrador que, empregando o discurso indireto livre, dá a impressão de a fala, carregada de subjetividade, ser da personagem.

Tarefa: Peça que os alunos leiam os capítulos 3, 4 e 5.

5º etapa: Retome os capítulos lidos em casa. Peça que os alunos respondam às questões a seguir, por escrito:

a- Qual é o único interesse de Naziazeno?

b- Ao descer do bonde, Naziazeno entra em um café. Via narrador, sabemos que o fato de ele ter saído do bonde lhe proporciona uma sensação mais agradável. Leia o fragmento a seguir:

“ Sente-se outro, tem coragem, quer lutar. Longe do bonde não tem mais a ‘morrinha’ daquelas ideias...”

Interprete o fragmento. Por que sair do bonde causa bem-estar em Naziazeno?

c- Após o café, devido às horas, sente-se obrigado a se dirigir à repartição, visando por em prática o seu primeiro plano. Que plano é esse?

d- Do momento em que Naziazeno saiu de casa até a sua chegada à repartição, percebemos o transcorrer das horas, que no romance são bem marcadas. Veja:

"- Faltando um quarto pras oito”
“O relógio da Prefeitura marca pouco mais de oito horas.”
“– Este relógio ainda está marcando oito e dez”
“Os relógios não andam certos. Mas já há de ser umas oito e vinte ou oito e meia. Às nove ele se encaminhará pra repartição”
“São oito e meia quase no relógio do café.”
“9 horas! Já está arrependido daquela longa ‘folga’”
[...]

É importante retomar com o aluno o conceito de tempo narrativo. Predomina em Os ratos o tempo cronológico, mensurado precisamente pelo relógio.

Chame a atenção do aluno pelas horas bem definidas.

Depois lance a seguinte pergunta. Peça que os alunos respondam oralmente:

a- Por qual motivo há no romance a obsessão pela hora marcada? O que o passar das horas representa para Naziazeno?

Às 9 horas, Naziazeno pretende falar com o diretor, porém antes de o fazê-lo, fica imaginando o que lhe dizer e o que receberá como resposta. Veja:

“— Doutor, vejo-me outra vez forçado a recorrer...” — Não ! isto é vago, geral. Deve dizer o fato, o que se passa. “— Doutor, imagine a minha situação, o meu leiteiro...” — Não ! Não! Trivialidade...uma trivialidade... “— O meu filho, doutor...” — Outra vez o teu filho, Naziazeno...sempre o teu filho...”

b- Após refletir sobre isso, como se sente Naziazeno? Sua postura é de alguém diferente do perfil tímido e humilde da mulher?

Tarefa: Peça que os alunos leiam os capítulos 6 a 10.

6º etapa: Retome os capítulos lidos em casa. Depois, inicie uma conversa sobre a cidade.

É na cidade, locus por excelência do consumo, do aumento do nervosismo e da tensão, do domínio do exterior, das aparências e da indiferença que os indivíduos estabelecem uma relação com o dinheiro, único meio de sobrevivência. Em Os ratos, Naziazeno precisa de cinquenta e três mil réis para pagar a dívida que contraíra com o leiteiro e, por isso, sai pela cidade em busca de dinheiro. A narração segue, ao longo de 24 horas, as andanças desse funcionário público, movido por uma das mais básicas necessidades — a garantia de alimento. Ao tentar emprestar o dinheiro, Naziazeno sente a angústia de estar preso à condição urbana e sob o regime de terror imposto pelo dinheiro. Em decorrência do estado de tensão do protagonista, tudo ao seu redor lhe faz lembrar do problema que o atormenta.

Feito os comentários, pergunte aos alunos. Pode ser uma atividade escrita.

a - Como Naziazeno era recebido pelos possíveis credores?

b- Você considera Os Ratos uma crítica à maneira como o dinheiro acabou se tornando a mola propulsora das relações sociais?

Tarefa: Peça que os alunos leiam os capítulos 10 a 25. Estabeleça um cronograma de leitura, de modo a deixar para cada dia dois capítulos.

7º etapa: Retome os capítulos lidos em casa.

Peça que, oralmente, os alunos recuperem a saga de Naziazeno. O intuito é fazê-los perceber o sofrimento de um homem fadado à condição urbana: a máquina inescrupulosa das grades cidades.

Feito isso, peça que respondam por escrito:

Apesar de a trama passar em Porto Alegre, por nenhum momento o narrador afirma tratar-se desta cidade. Arrisque uma interpretação: por qual motivo não foram mencionados detalhes pelos quais pudéssemos reconhecer Porto Alegre?

8º e 9º etapas- leitura compartilhada dos capítulos 26 a 28

Lance a seguinte pergunta à classe. Pode ser uma atividade escrita:

O desfecho dado à narrativa é garantia de resolução dos problemas de Naziazeno?

AVALIAÇÃO

Com o livro em mãos, peça uma atividade escrita e individual.

1- Agora que já conhece a obra, analise o título “Os ratos”. Leve em consideração as suas inferências no início do projeto, o significado do título: suas expectativas para a história se mantiveram ou foram alteradas? Por quê?

2- O título Os Ratos é uma referência ao drama psicológico de Naziazeno Barbosa, protagonista da história, depois de ter conseguido o dinheiro para saldar a dívida com o leiteiro. Naziazeno, meio dormindo, tem o seguinte pesadelo: os ratos estão roendo o dinheiro que ele deixara à disposição do leiteiro sobre a mesa da cozinha.

Arrisque uma interpretação: qual o significado do sonho de Naziazeno?

Fonte:
Revista Nova Escola, disponível em
http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/pratica-pedagogica/literatura-escola-9o-ano-narrativa-dyonelio-machado-578513.shtml

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Donzilia Martins (Fim de Tarde)


Recostada na cadeira fecho os olhos!
O mar de prata brilha, rebrilha
E traz até mim um perfume sonhador.
A brisa beija, acaricia, bafejando o meu rosto
Numa ternura eterna de um amante sedutor.

Ergue-me os cabelos, brinca com meus fios brancos
Em desalinho inebriante e descomposto, como o mar.

O mar! Fim de tarde! A cor da paleta multicor
Semeia na praia dourados pingos de luz e maresia.
A onda vai, vem, volta, some, foge e de novo em magia
Espraia, recomeça, indiferente à água que em tango dança.
E o meu olhar mergulha e jamais cansa.

Para esfriar o tempo, o banhista embarca de prancha
Agarrando o mar num frio abraço.
Para ele é vida, sal, sol, céu azul
Salpicando de chuva o dourado espaço.

Alguém o interpela:
Por que é que você vai à água?
Simpático e sonhador, sacudindo as gotas da pele bronzeada
Solta a voz do olhar num sorriso alongado pelo mar adentro.
- Venha também. Empresto-lhe a minha prancha…
A sedução! O grão de sol! A gota da vida que vale a pena agarrar
Neste fim de tarde à beira mar
E embrulhá-la na morna luz que dança.

Fonte:
Carlos Leite Ribeiro. Portal CEN.
Imagem =
http://poucoimporta.blog.terra.com.br

Sonhos de Encantar de Donzília Martins


Donzília Martins, natural de Murça, é uma autora cuja produção literária foi dada a público quase na totalidade na primeira década do séc. XXI. Apenas o primeiro livro, em poesia, com o título Lágrimas e Sorrisos em Sonhos de Vida, é de 1991. Os dois seguintes, Lírios Do Campo e Quando o teu Olhar, também em poesia, já são respectivamente de 2004 e de 2006.

Em 2007 publicou a sua primeira obra em prosa, com o título Um país na Janela do meu Nome, com a qual, através das histórias que conta relacionadas com momentos da sua infância passada na área geográfica de Murça, contribui para a preservação da memória cultural de Trás-os-Montes dos anos cinquenta e sessenta do século XX. Um país na Janela do meu Nome é um livro que resulta de uma memória que se vai construindo. É como uma caixinha de música que, ao abrir-se nos delicia com sons da nossa infância, só que esta caixinha é mágica e, em vez de nos dar apenas sons, dá-nos também imagens, cheiros, sabores de um tempo e de um espaço trasmontano. Nele o leitor encontra vivências que a Autora pretende fazer crer “sem utopias nem ficção”, considerando-o “um livro de memórias, de vivências”, “um livro branco onde abriu e estendeu a alma” (Martins 2007: 14), como há já algum tempo escrevemos (Monteiro 2008: 101-108).

Os dois últimos livros que Donzília Martins publicou são de literatura infanto-juvenil e têm por título História do Zé Luís, o menino petiz, de 2008, e Sonhos de Encantar, publicado em 2009. É dele que vamos falar com mais detalhe:

Donzília Martins no “Prefácio” afirma “Só há pouco tempo descobri a magia que é sonhar contos do imaginário com crianças” e essa possibilidade resulta sobretudo do fato de ser avó e de se ter aposentado. Assim, tem agora mais tempo disponível para se ver “transportada para o tempo tempo em que, à lareira, ouvia as lindas histórias de encantar”.

Antigamente, sem televisão, sem computador, sem as atividades e as condições de vida que hoje as crianças têm, o tempo em família era muitas vezes ocupado à lareira, em ambiente comunitário e de aconchego. O tempo e o espaço eram propícios ao relato de contos tradicionais e de histórias do quotidiano. Mas havia também os serões comunitários que Miguel Torga, alterónimo de Adolfo Rocha, apresenta no conto «Abre-te, Sésamo», no qual nos aparecem “as mulheres a fiar, a dobar ou a fazer meia, os homens a fumar e a conversar, e a canalhada a dormitar ou nas diabruras do costume” (Torga 1988:101). Mas, quando chegava “a hora do Raul ler as histórias do seu grande livro, todos arrebita[va]m a orelha”. As pessoas da aldeia reuniam-se numa “loja de gado, ao quente bafo animal” e “todos os moradores se cotizavam para pagar a luz do carboneto ou de petróleo e o serão começava” (Torga 1988: 102). Como escreve aquele autor trasmontano, natural de S. Martinho de Anta, “é no Inverno, nas grandes noites sem-fim, que se goza na aldeia essa fraternidade” (Torga 1988: 102). Nos anos quarenta do século passado, era assim em algumas aldeias. Hoje, no séc. XXI, os serões são bem diferentes, na maior parte das vezes mais solitários, em que cada um se ocupa a estudar, a ver televisão ou com os telemóveis, os jogos de computador, a Internet.

Em Sonhos de Encantar, Donzília Martins refere que tem a preocupação de reinventar os sonhos que os contos tradicionais faziam surgir e também a cultura popular que foi a sua escola para a vida, até porque, como escreve no mesmo “Prefácio”:

É dessa cultura popular que vim e da qual me orgulho. Foi ela a minha escola para a vida. Por isso quero dar o meu testemunho às crianças, a fim de que também elas no seu imaginário possam sonhar e serem mais felizes.” (Martins 2009: 4)

Essa escola da vida já o leitor a conhece de uma obra que a Autora escreveu anteriormente, Um País na Janela do meu Nome, e é ela que leva a que uma menina diga que vale mais estudar do que ter dinheiro. Falamos do conto «A caixinha mágica», no qual encontramos uma lição de vida que é dada pela menina, para quem estudar era mais importante do que as moedas, porque “o dinheiro gasta-se e a sabedoria fica” (Martins 2007: 25). Ao preferir a sabedoria ao dinheiro, a adolescente revela a sua prioridade, porque com sabedoria poderia ter um melhor trabalho mais tarde. Assim, o dinheiro que a avó queria deixar-lhe após a morte, foi utilizado para pagar os estudos e realizar o seu sonho. O sonho da menina do conto «A caixinha mágica» tornou-se realidade na história de Donzília Martins, mas nesse tempo nem sempre assim acontecia, como muito bem o demonstrou o escritor duriense Soeiro Pereira Gomes (cujo centenário do nascimento ocorreu em 14/04/2009 e que aqui homenageamos de forma singela). Na sua obra Esteiros, Soeiro Pereira Gomes deu a conhecer a exploração do trabalho infantil e a desigualdade de oportunidades no Portugal dos finais da década de trinta, princípios da de quarenta do séc. XX.

Em Sonhos de Encantar Donzília Martins refere que tem a preocupação de apresentar ao leitor “textos mais didácticos e reais do que lúdicos ou ficcionais” (Martins 2009: 4), contudo a fórmula encantatória com que abre as histórias “Era uma vez...” transporta logo o leitor para o mundo mágico da ficção intemporal. Existe também um apelo à imaginação de quem lê o livro, procurando-se desenvolver a criatividade infantil. E isso é feito de maneira natural, quando no fim de cada uma das histórias encontramos expressões como:

“Agora conta tu...” (Martins 2009: 9);
“Entra. Vem, para ficares a saber.” (Martins 2009: 15);
“Queres vir também? Anda. Sobe.” (Martins 2009: 22);
“Também tens uma cãozinho? Fala-nos dele. Se não tens e gostavas de ter, imagina que tens um...” (Martins 2009: 28).
.
Mas vejamos mais de perto cada uma das histórias. A primeira, «A menina que aprendeu com o olhar», estabelece um contraste entre uma menina que não gostava de comer a sopa e um menino que não tinha sopa para comer. O problema da fome e da desigualdade social é abordado com simplicidade, acabando a menina por compreender a diferença de condições de vida. E assim, a partir daí, “nunca mais deixou ficar a sopa arrefecida, ou a merenda da escola (...) na pasta esquecida” (Martins 2009: 9).

Na história «No Jardim do Alfabeto» fala-se de um jardim “muito verde, muito especial, muito engraçado” que ficava perto de uma escola. Esse jardim era especial porque em vez de flores os meninos viam nascer letras de muitas cores, tamanhos e formas. É uma história que, de forma, lúdica e divertida, pretende chamar a atenção das crianças para o fato de as letras poderem formar palavras quando bem agrupadas. Tudo é feito naturalmente:

“Um dia, andando a passear por entre elas uma abelha e uma borboleta, ambas deliciadas com tão doce perfume e tamanha beleza, pediram às letras que se juntassem no meio do jardim para fazerem um baile de roda.” (Martins 2009: 10-11)

E, ao juntarem-se, as letras formavam palavras, surgindo uma série delas com cada uma das letras do alfabeto.

A experiência docente com crianças que a Autora possui permite-lhe fazer uma espécie de aula onde, de maneira lúdica, os meninos podem ver palavras iniciadas com cada uma das letras do alfabeto. A essas, mais tarde, juntam-se outras começadas pela mesma letra e, ordenadas, acabam por viverem “felizes para sempre no DICIONÁRIO” (Martins 2009: 15). Donzília Martins, de forma alegre e divertida, usando a imaginação que lhe permite criar histórias, ensina aos meninos o abecedário e o que é um dicionário, um livro para onde “todas as letras, ordenadas, cada uma no seu lugar e a seu tempo, puderam entrar” (Martins 2009:15). No final, há um apelo ao pequeno ouvinte/leitor: “Entra. Vem, para ficares a saber” (Martins 2009:15).

Um dos temas do livro é a morte, um tema pouco usual para crianças, e que aparece tratado com alguma poesia, idealismo, apelando à imaginação, em contos como «A gatinha Kokas», «O Flash» e «A morte é uma flor (Filosofia para crianças)».

No primeiro, depois de a gata Kokas ter morrido, a Mariana, de oito anos, tem esperança de voltar a vê-la, uma vez que dizem que os gatos têm sete vidas. Então:

E como por magia, uma nuvem branca, que ia a voar nas costas do vento, acenou-lhe.
– Não me reconheces? Sou a Kokas. Vou andar sempre aqui em cima a passear. Quando te apetecer brincar comigo basta olhares e sonhar. Aqui posso transformar-me em tudo o que tu imaginares: fada, príncipe, castelo, rio, ponte, livro, amigos, escola, jardins floridos, o pôr-do-sol, comboios a correr, tudo o que quiseres. Sobe nesse raio de sol e vem brincar.
A menina, embalada, subiu por um fio de cabelo de oiro que o sol estendeu e foi brincar com a sua linda gatinha de olhos cor de mar e céu...” (Martins 2009: 22)

Sugestivamente, encontramos a pergunta: “Queres vir também? Anda. Sobe.” E é assim que termina o conto, com este apelo à imaginação das crianças, tal como sucede com a história do cão Flash, um pastor alemão que dá o título ao conto.

Em «O Flash» temos a Catarina que, “sentada no baloiço, entretanto adormecera e sonhava! Então entrámos todos no sonho dela e vimos o Flash com umas asas, que um anjo lhe emprestara, a voar, a voar, a voar, a voar...” (Martins 2009: 28).

E a história termina com um convite ao leitor para falar de um cão, seja ele real seja imaginário:

Nas asas do Flash, feito vento, todos subiram. A brisa serena beijava os rostos dos meninos que sorriam, sorriam, sorriam...
Também tens um cãozinho?
Fala-nos dele. Se não tens e gostavas de ter, imagina que tens um...” (Martins 2009: 28)

Nas páginas 29-36 temos a história «Na caixinha da Biblioteca», na qual se fala de uma “menina ‘Grande’” que entra na Biblioteca de Guimarães. É uma projeção da Autora que, com um grupo de colegas está a festejar os 44 anos do Curso do Magistério e vai ver um filme no edifício da Biblioteca de Guimarães.

A “menina ‘Grande’”, ao ver o filme, recordou-se da sua meninice, junto dos avós. “Como por magia” e atraído pelo sonho de a menina ter um exemplar da sua autoria no conjunto dos livros do Plano Nacional de Leitura, um livro poisou-lhe no colo e deu-lhe a esperança de um dia poder ver um livro seu naquele conjunto: “Ainda um dia hás-de dar-me um irmão por companhia” (Martins 2009: 33). E, mais adiante:

Também tu terás a tua fada boa a tocar com a sua varinha mágica na tua mão, porque no teu coração ela já tocou. (...) Ainda não chegou a tua hora. Não desesperes e nunca desistas. Caminha. É com pequenos passos que se fazem os caminhos.” (Martins 2009: 35)

Com esta mensagem para a personagem, Donzília Martins torna mais abrangente o conselho, fazendo com que se aplique a todos, deixando-nos um incentivo para uma caminhada gradual no sentido de alcançarmos os ideais almejados.

A história termina com a “menina ‘Grande’” a descer as escadas e então, “como por magia, transformou-se em livro!!! “Sonhos de Encantar”... com sete histórias para imaginar!...” (Martins 2009: 36). É um livro em que duas crianças querem pegar, um livro desconhecido para a bibliotecária, mas que elas dizem que fala e salta, porque o viram a descer as escadas.

Esta história e as duas seguintes «Aliz no País dos sonhos» e «A morte é uma flor» (Filosofia para crianças» são as únicas em que não existe o apelo final ao leitor.

Em «Aliz no País dos sonhos» Donzília Martins retoma o gênero de histórias de Um país na Janela do meu Nome, na medida em que evoca cenas da infância passadas na província, numa aldeia de gente “sofrida e pobre que vive escondida e perdida no meio das fragas, por entre as montanhas...” (Martins 2009: 40).

Nesta história aparece-nos a personagem Aliz, anagrama de Zila, forma abreviada de Donzília. Esta personagem, que é o alter ego da Autora, vive num meio rural, onde passam poucas pessoas, num tempo em que os colchões ainda eram de palha, numa casa em que sobressai a “lareira da cozinha, que era também sala e para a qual davam os quartos sem portas” onde ainda “brilhavam algumas brasas dos paus grossos de castanheiro que o avô colocara à noite para se aquecerem e e esquentar a pedra que serviria de botija para os pés” (Martins 2009: 38).

É neste ambiente que Aliz vive com os avós, sentindo-se muito só e desejando conhecer tudo o que a avó lhe conta nas historias. Uma das pessoas que passa na rua, uma vez por dia, é a moleira que também se sente só e se queixa do isolamento em que vive, já que o seu único companheiro é o burro, o Jeremias, com quem fala todo o caminho e a entende como ninguém. Esta situação da moleira lembra-nos a do protagonista de O Malhadinhas de Aquilino Ribeiro em que a personagem também trata o animal como um ser humano, ele que é a única companhia nas longas viagens que faz.

E, dado que estamos num conjunto de “Sete histórias para imaginar”, esta é mais uma em que se apela à imaginação e, assim, também surge uma fada. É uma fada flor de pessegueiro que consola a menina, incentivando-a a não se lamentar pela solidão:

Para se ser feliz basta olhar e ver a beleza das coisas que dançam e passam à nossa volta. Depois, beber toda a poesia que vive nelas...Um dia hei-de levar-te a viajar e a conheceres o mundo, como é teu desejo, e terás muitas escolas com meninos.” (Martins 2009: 42).

A história termina com a menina a ser acordada do sonho pelo barulho do ranger do ferrolho da porta, quando o avô chega, carregado de cogumelos. Enquanto o avô prepara uma refeição com eles, a Aliz vai à varanda e agora “ela era a fada encantada, e aquela varanda a torre do seu castelo de chuva dourado” (Martins 2009: 42).

O livro Sonhos de Encantar termina com a história «A morte é uma flor (Filosofia para crianças)», e nela se fala de uma avozinha. É um texto em que no início se fala, com alguma poesia, das avós:

“A maior parte delas tem os cabelos pintados de branco como a neve e lisos ou grifados a fazer de rios ou de pontes. Por cima das avós brilham duas estrelas que, de vez em quando, descem devagarinho e vão pousar-se-lhes nos olhos. Aí, nascem dois lagos grandes, redondos, umas vezes muito azuis, outras muito verdes, outras cinzentos, a baralharem a luz, mas neles, nas cores, brincam duas contas de azeviche, negras, fundas, onde vivem adormecidas mil histórias. É nesses olhares profundos que muitos meninos, sentados nos seus colos, gostam de mergulhar.” (Martins 2009: 43).

E Donzília Martins escreve, a propósito das lágrimas das avós, que muitas vezes também são de alegria:

“Na cara das nossas avós passam rios naturais, com leitos vincados, por onde de vez em quando correm grandes caudais em cataratas de lágrimas.”
Essas gotinhas de água transparentes são quase sempre de alegria por serem testemunhas vivas das crianças a crescerem.” (Martins 2009: 43).

Em «A morte é uma flor (Filosofia para crianças)» a Autora opta por falar livremente das avós, que são “exímias a ser ‘cadeirinhas’ de colo e que “são eternas! Nunca morrem. Ficam sempre connosco, deixando sempre um pouco delas em todos os passos do nosso caminho e, sobretudo, ficam para sempre a viver nas nossas almas.” (Martins 2009: 46). Nesta última história reflete-se claramente, por um lado, a relação afetiva muito forte que ligou Donzília Martins à sua avó e, por outro lado, a sua experiência, cheia de entusiasmo, de ser avó no momento presente.

Em conclusão, resta-nos dizer que, em Sonhos de Encantar, Donzília Martins, agora avó e a gostar de contar histórias aos netos, aproveita para nos contar pequenas histórias nas quais mostra de forma suave, idealizada e com alguma poesia, problemas com que as crianças e os adultos são confrontados no dia a dia das suas vidas. No seu livro encontramos páginas de encantar, com mensagens de amor, de fraternidade, de saudade motivada pela ausência eterna, uma saudade que pode ser colmatada ou atenuada através da imaginação.
-------------------
Os outros autores e respectivos livros citados no texto acima são:
Miguel Torga. Novos Contos da Montanha e
Maria da Assunção Monteiro. Trás-os-Montes e Alto Douro em contos/memórias de Donzília Martins
------------------------------------
Fonte:
Mª da Assunção Morais Monteiro. In Jornal dos Poetas e Trovadores, n.º 50, Outubro/Dezembro 2009, 3.ª Serie, Ano XXIX. Disponível no Grêmio Literário Vila-Realense, http://gremio.cm-vilareal.pt/

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to