segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Amosse Mucavele (Luzí(a)das e Voltas do Avô Camões)

Ao Manuel António Pina - Prêmio Camões 2011

Feito dos homens, que em retrato breve
A muda poesia ali descreve(vii,76)
E como a seu contràrio natural
A pintura que fala querem mal(viii,41)
in Os Lusíadas-Luis V.de Camões

Caro poeta, o inesperado acabou por acontecer, não tardou, ele anda a uma velocidade cósmica tal como a luz em brasas.

O velho adágio dizia: esperança é a última a morrer, mas consigo foi diferente, ela chegou de forma inusitada, em ti ainda não tinha nascido, coitado morreu ainda no ventre da sua mãe.

Eu o vi no Rio de Janeiro de mãos dadas com os seus dois netos - João Ubaldo Ribeiro e Ferreira Gullar à entrada da Biblioteca Nacional , digo-te que o avô está rejuvenescido, ele passou todo o ano 2010 com Ferreira Gullar, foram a Maranhão. Na última conversa que tive com o avô, quando perguntei-lhe sobre a poesia, ele disse-me que já não sabe escrever, bem sabe sujar o poema pois aprendera com F.Gullar.

Quando chegarem a Portugal não o deixe ficar em Lisboa, porque aí, ele vai te largar, pois o Rio Douro reflete a luz do sol após a sua enciclopédica voz, a Torre de Belém evoca os seus cantos e o Mosteiro dos Jerónimos tem o seu rosto, e com certeza ele perguntar-te-a sobre Miguel Torga, Sophia de Melo Breyner Anderssen e José Saramago (não o diga que subiram às estrelas), diga-o que exilaram-se na memória do povo, pois com o Saramago aprendeu a viajar como o Elefante, ele não se esquece de nada, vai te contar as estórias da Indía e do Vasco da Gama, A terra Sem Fim, foi por isso que António Lobo Antunes chamou-o “Memória de Elefante". Volto a repisar nunca aborde a questão da morte com ele: porque para ele a morte é um Reflexo num Espelho Ausente, como ele vive de lembranças irá procurar o espelho em todos cantos do mundo, vai te falar da ilha dos amores e da casa do rei , você conhece? Foi o que aconteceu comigo, Autran Dorado, João Ubaldo Ribeiro e Ferreira Gullar quando passeávamos com ele, e alguém disse aquela é a casa dos Budas Ditosos, sorriu e em seguida mandou parar a viatura. Descemos juntos com ele, chegamos perto da casa, dentro da mesma tinha um monte de gente armada a intelectual, politicos e bebâdos, dirigiu-lhes a palavra -Tudo bom com vocês, posso ler um poema para vocês?, e eles responderam:

-Nós somos do partido no poder, nos distinguimos com os ideiais do FMI, Banco Mundial e da NATO.

-ELE RESPONDEU-...vão se danar, vocês todos mentirosos, mentirosos, a esmagadora maioria hipócrita e santarrona, viva nós os mentirosos a força, os conscientes (1).

Saimos com o velho Camões a arder de nervos e de repente disse: - Vamos a Bahia. Mandem um fax ou liguem para o Jorge Amado dizendo que estamos a caminho.

Ficamos em silêncio, sem saber qual seria a resposta a dar ao velho Camões.

- Serà que não ouviram o que eu disse. Querem que eu repita? - retorquiu ele

- Oh, VÔ! O Jorge Amado não està na Bahia - respondemos em coro com vozes a tremer de medo.

- Para onde ele foi, digam-me o que esta a acontecer. Vocês estão estranhos, digam onde ele esta afinal!

O Ferreira Gullar disse-lhe o seguinte: O Jorge foi ao Japão ajudar o Kenzaburo OE da tragédia que assolou aquele País Niponico irmão. Não se trata de uma questão Pessoal, mas de uma questão Natural.
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- Prezado amigo previna-se e não toque neste assunto, leve-o a (Sabugal) Guarda de carro. Não se atreva a viajar com ele de barco, pois falar-te-á da Indía e quando chegarem e ele perguntar-te se jà chegaram a Casa Perdida?

Responda-o: - Ainda Não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma ! É Apenas um Pouco Tarde

E quando perguntar-te onde estão?

Responda-o seguinte:

-Estamos No País das Pessoas de Pernas Para o Ar,nunca diga que estão em Portugal, porque irà te pedir ir à Leiria.

Sei que da África Portuguesa conhece pouco ou por outra ainda nao visitou. Peça para que te conte sobre a sua estadia em Moçambique com José Craveirinha, veràs o sorriso que dilacera os seus olhos e a doçura do mel que unta as suas sábias palavras. Falar-te-a das doces tangerinas de Inhambane, daquela dança denominada Chigubo e daquela mulher linda que ele apadrinhou quando do seu casamento com Craveirinha, a Maria.

Conheceu Angola pelas mãos do Pepetela, e foi là onde acreditou que o homem é o melhor amigo do cão, quando viu o Cão e os Caluandas sempre juntos, e se quiser saber mais da guerra da Unita e o MPLA. Peça–o, ele vai te falar do Mayombe, e foi em Angola onde escalou a Estepe e o Planalto.

Volvidos 9 anos voltou de novo a Angola ,ao encotro do José Luandino Vieira, mas para a desilusão de todos nós, o Luandino não quis recebê-lo,a legando não sendo ele a pessoa indicada para o receber, e recusou por motivos íntimos e pessoais.

Mas o avô Camões não voltou, foi recebido como rei pela comunidade de Luaanda, gente humilde onde o singular não tem expressão, o coletivo é a palavra de ordem.

Quando interpelou um deles perguntando-lhe o nome, responderam todos em coro dizendo:

-Nós Os do Makulusu.

Ficou muito feliz, coisa jamais vista. Sairam da cidade a caminho do subúrbio onde vive esta humilde comunidade.

O avô Camões inconformado, irrequieto, quando viu aquelas casas de madeira e zinco, questionou:

-Esta não é a Mafalala do José Craveirinha?

Responderam: - Não, este é o Nosso Musseque.

Questionou de novo: - E aquela senhora não é a Dona Flor com os Seus Dois Maridos?

Responderam: - Não, aquele é o João Vêncio e Os Seus Amores.(2)

E sobre Cabo-Verde, onde esteve em 2009 com o Arménio Vieira, será a partir deste debate, o papo com o velho Camões que perceberás que em África não estamos no Inferno, como todo mundo diz.

Aquela beleza da Cidade de Praia, ímpar é um verdadeiro Eleito Do Sol, a Ilha do Sal é a raiz de todas Mitografias deste povo Crioulo - assim ele definiu Cabo-Verde.

E quando estiveres a pintar as palavras não deixe os Papeis espalhados, o velho Camões não gosta de ver desarrumações, caso isto acontecer, ouvirás a seguinte questão.

-São Papeis de K?

Responda o seguinte: - São Livros - e não o diga que são poemas,percebeu? Porque com o Poema, o Velho Camões encontra a sua Viagem e o Sonho.

Caro poeta, abrace-o e ande com ele com muita cautela, pois ele está velho ,esta é a sua 25ª viagem ao mundo Lusófono, depois de ele te contar todo o essencial das suas digressões. Conte aquela interessante História do Sabio Fechado na sua Biblioteca.

Mande muitos abraços, beijos, cumprimentos e larguras, e diga a ele que estamos a espera dele muito em breve. E quando perguntar-te de mim, diga que estou trancado na biblioteca a aprender a recriar mundos, tal como fez Saramago no seu Memorial do Convento (o Convento de Mafra).
Kanimambo pela atenção dispensada, poeta.
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Notas:
(1) in a casa dos budas ditosos pag 144 de João Ribeiro
(2) Romance de Luandino Vieira

Fonte:
Texto enviado pelo escritor moçambiquano.

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