Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Milton Nunes Loureiro (9 junho 1923 - 31 Janeiro 2011)


Falecimento de Milton Nunes Loureiro, presidente da UBT Niterói-RJ e da UBT/RJ


Meus Queridos Irmãos,

O mundo Trovadoresco perdeu hoje um dos seus mais atuantes filhos.
Recebi de Edmar e de Tereza Costa Val a notícia que o Milton Nunes Loureiro nos deixou nesta manhã. Em meu nome e em nome de toda a ATRN (da qual sou 1º Secretário) deixo aqui os nossos votos de pesar a todos os parentes e Amigos.
Fraternalmente;

ADEMAR MACEDO
União Cultural - Natal-RN
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Não sou trovadora e no dia de hoje também não sei usar de palavras bonitas... Sou neta de Milton Nunes Loureiro e quero deixar aqui um recado para todos:
Onde ele estiver, ele sempre vai "olhar" pela trova e seus amigos trovadores... A trova era a vida dele! Sentirei saudades não somente dele como meu avô, mas também de ouvir uma trova para cada momento da minha vida... Tenho certeza que ele está em um lugar melhor do que nós e olhando por todos nós! Descanse em paz!...

MARIA GABRIELA
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Perdemos um dos maiores baluarte do movimento trovadoresco. Milton Nunes Loureiro é o símbolo dos trovadores do Estado do Rio de Janeiro. Todos nós da Delegacia da UBT de São Francisco de Itabapoana-RJ estamos de luto. A perda é sentida e irreparável!

Roberto Pinheiro Acruche
UBT – São Francisco de Itabapoana/RJ
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Caríssimos amigos.

Foi com imenso pesar que recebemos a notícia de falecimento do nosso destacado poeta e trovador Milton Nunes Loureiro, ilustre presidente da UBT Seção de Niterói.

Uma perda irreparável!

Homem extraordinário e grande amigo que nos deixa magnânimos exemplos de amor, de cultura, de civismo e de trabalho.

Distinguido por sua brilhante personalidade, sólidos princípios e memória privilegiada, Milton legou rastros de gigantes exemplos para a história de Niterói e do Brasil, diante de suas importantes referências poético-trovadorescas, de talento, garra e determinação.
Hoje, no plano Divino, a nossa saudade!

Vânia Maria Souza Ennes
Vice-presidente do Centro de Letras do Paraná.
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Milton Nunes Loureiro

Foi muito mais que um trovador.
Foi um dos mais importantes e dedicados apóstolos da Trova.
Durante cerca de meio século impulsionou o trovismo não somente em Niterói e em todo o RJ, mas em todo o Brasil.
Perdemos, realmente, um grande amigo e um queridíssimo irmão.
Mais um parceiro para São Francisco de Assis e Luiz Otávio no parnaso azul do céu.

A. A. de Assis
UBT Maringá/PR
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Agradeço ao Acadêmico JOSÉ FELDMAN do Blog Pavilhão Literário Singrando Horizontes , que me enviou esta triste NOTA DE FALECIMENTO do AMIGO TROVADOR.

Tive a honra de comparecer, com a Trovadora Zeni de Barros Lana, à inesquecível comemoração dos 4O anos dos Jogos Florais na UBT de Niterói-RJ, no períoido de 27 a 28 de novembro de 2010, sob a PRESIDÊNCIA DE MILTON LOUREIRO,

Em nome do CLUBE BRASILEIRO DA LÍNGUA PORTUGUESA outorgamos a ele, merecidamente, o TÍTULO DE POETA-TROVADOR-HUMANISTA HONORIS CASA, EM LÍNGUA PORTUGUESA,
em razão da excelência de sua obra a favor dos DIREITOS HUMANOS.

Prestamos também, ao anfitrião MILTON NUNES LOUREIRO, a homenagem-acróstica nº 3233, publicada em nosso site:
http://clubedalinguaport@gmail.com/ e no Recanto das Letras.

Apesar do falecimento do nosso amigo, entristecidos, oramos para que ele descanse em Paz e que tenha um lugar iluminado na Casa do Pai Celestial, onde certamente merecerá ficar eternamente feliz.

Para os Famíliares e Trovadores enlutados agradecemos a oportunidade de ter conhecido e aprendido tanto com MILTON LOUREIRO...

Bênçãos poéticas imortais,

Sílvia Araújo Motta, Poeta-Trovadora da UBT-BH,Vive-Presidenta da Academia Mineira de Trova,Presidenta do Clube Brasileiro da Língua Portuguesa, Cônsul Poeta del Mundo/BH, Embaixadora Universal da Paz/Brasil/França/Suissa.
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Muitos homens deixaram a sua marca nas páginas da história do Brasil, não só de palavras, mas de ação, e cada um deles sempre visou o enriquecimento da cultura de nossa nação, e na data de hoje, 31 de janeiro de 2011, mais um brasileiro de valor cumpre a sua missão entre nós e deixa a sua marca neste livro e dentro de nós que acompanhamos o seu trabalho. Um trovador se vai, mas a sua garra, o seu trabalho, as suas trovas continuam vivos e presentes sempre e sempre, incrustados em nosso coração, e seu nome continuará sempre a brilhar e nos servir de inspiração. Brindemos a este homem: Salve, Milton Nunes Loureiro!!!

José Feldman
Academia de Letras do Brasil/ Paraná

Milton Nunes Loureiro (1923 – 2011)


Nasceu em Campos dos Goitacases (RJ) no dia 9 de junho de 1923 e faleceu em 31 de janeiro de 2011.

Advogado, exerceu durante quarenta e três anos o cargo de delegado de polícia em diversas delegacias do interior do estado do Rio de Janeiro, da Baixada Fluminense e da capital.

Além de pertencer à ANL, presidiu a União Brasileira de Trovadores – seção Niterói e integrou os quadros das seguintes instituições culturais:
  • Academia Fluminense de Letras,
  • Ateneu Angrense de Letras e Artes,
  • Academia Itaboraiense de Letras, Ciências e Artes,
  • Academia de Letras de Uruguaiana,
  • Associação Uruguaiense de Escritores e Editores,
  • Academia de Letras Sudoeste,
  • Associação Niteroiense de Escritores,
  • Academia Internacional de Heráldica e Genealogia de Uruguaiana,
  • Academia Internacional de Letras Três Fronteiras,
  • Academia Internacional de Ciências Humanísticas de Uruguaiana e
  • Centro Cultural Literário e Artístico de Filgueiras (Portugal).

    Vinculou-se, também, à
  • Ordem dos Advogados do Brasil,
  • Associação dos Delegados de Polícia do Estado do Rio de Janeiro,
  • Associação dos Delegados do Brasil,
  • Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra,
  • Associação Fluminense de Jornalistas,
  • Sindicato dos Jornalistas Profissionais/RJ,
  • Associação Fluminense de Relações Públicas,
  • Conselho Regional de Relações Públicas,
  • Associação Fluminense de Turismo
  • Loja Maçônica Antônio Vieira de Macedo.

    Possui o título de Cidadão Honorário dos municípios fluminenses de Niterói, Cantagalo, São Gonçalo, Petrópolis, Cabo Frio e Teresópolis, além do de Cidadão Benemérito do Estado do Rio de Janeiro.

    Foi agraciado com a comenda Ordem do Mérito Araribóia e com as seguintes medalhas:
    Mérito Policial, José Cândido de Carvalho, José Clemente Pereira, Oswaldo Cruz e Jubileu de Ouro da Academia Niteroiense de Letras.

    Atuou como noticiarista e repórter nas rádios Tamoio, Tupi, Continental, Copacabana, Club de Niterói e na Agência Meridional.

    Participou de programas nas emissoras de televisão Tupi, Continental e Rio.

    Tem poemas publicados em revistas, jornais e antologias.

    Livros editados:
  • Dos sonhos brotaram versos (1976),
  • Sonetos de outono (1990) e
  • Varanda de sonhos (1992).

    Fonte:Academia Niteroiense de Letras

Elizabeth Souza Cruz (Livro de Trovas)


Declarar-me não me atrevo,
com palavras mais ousadas...
E assim os versos que escrevo
são propostas camufladas!...

Qualquer que seja o motivo
que a razão nos tente impor,
não se passa o corretivo
quando um erro é por amor!

Se o teu amor foi miragem
no deserto da paixão,
que importa... me deu passagem
para o oásis da ilusão.

É tão forte a intensidade
das loucuras da paixão,
que no amor a insanidade
é o que eu chamo de razão.

É surpresa repetida,
surpresa mesmo... e bendigo
cada instante em minha vida
me repetindo contigo!

Nem mesmo a ilusão remenda,
com seus fios de saudade,
os velhos sonhos de renda
que eu teci na mocidade!

No desfile à fantasia,
de um carnaval de ilusão,
a saudade é a alegoria
que enfeita meu coração!

Minha saudade é um desvio
que a solidão me propõe
para fugir do vazio
que a tua ausência me impõe!

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n.112)


Uma Trova Nacional

Uma lágrima, sequer,
eu vi no adeus... Nem depois.
Não faz mal... Eu sou mulher,
posso chorar por nós dois!
(DIVENEI BOSELI/SP)

Uma Trova Potiguar

A lágrima, na verdade,
por seu poder infinito,
traduz com fidelidade
o que não pode ser dito...
(REINALDO AGUIAR/RN)

Uma Trova Premiada

2008 > Balneário Camboriú/SC
Tema > LÁGRIMA(s) > Venc.

Em meus momentos aflitos
deixo-as nas faces rolando,
porque as lágrimas são gritos
dos meus sonhos se afogando.
(ALMERINDA LIPORAGE/RJ)

Simplesmente Poesia

– Inoema Nunes Jahnke/RS –
SAUDADE.

Se do nada uma lágrima
rolar no seu rosto...
Não tente entender,
se mesmo, sem você querer,
outra lágrima teimar
em embaçar teu sorriso...
Não procure nem tente entender,
com certeza é teu coração,
com vontade de me ver.

Uma Trova de Ademar

Da bebida fiquei farto,
bebendo, perdi quem amo;
hoje bebo no meu quarto,
as lágrimas que eu derramo!
(ADEMAR MACEDO/RN)

...E Suas Trovas Ficaram

Quem já foi homem de bem,
e se fez trapo na vida,
sabe as lágrimas que tem
cada copo de bebida...
(ALOÍSIO ALVES DA COSTA/CE)

Estrofe do Dia

Nossas conquistas são feitas,
o mundo é nosso cartório,
a vida é um laboratório
de diferentes receitas,
as lágrimas não são aceitas
como nossos risos são,
serenidade é canção
na voz que Deus abençoa;
passa a vida o tempo voa
nas asas da ilusão.
(GERALDO AMÂNCIO/CE)

Soneto do Dia

– Félix Pacheco/PI –
ESTRANHAS LÁGRIMAS.

Lágrimas... noutras épocas verti-as.
Não tinha o olhar enxuto como agora.
- Alma, dizia então comigo, chora!
Que assim minorarás as agonias!

Ah! Quantas vezes pelas faces frias,
umas, outras após, a toda hora,
gota a gota rolando elas, outrora,
marcaram noites e marcaram dias!

Vinham do oceano d’alma, imenso e fundo,
de espuma as ondas salpicando o flanco,
numa fremência amargurada e louca.

Nos olhos hoje as lágrimas estanco...
rolam, porém, sem que as descubra o mundo
sob a forma de risos pela boca.

Fonte:
Ademar Macedo

Elisabeth Souza Cruz (Cristais Poéticos)


MISSÃO TERRESTRE

Não vim ao mundo para um breve passo,
trouxe roteiro e amor dentro da mala...
Deus me mandou... e me estendeu Seu braço,
deu-me os conselhos e eu sei bem da fala...

Deus me disse assim: - “- Pega o teu espaço,
usando... o amor, o teu traje de gala...
Prossegue o bom destino que eu te traço
e faz teu rumo, azul, em alta escala!!”

E muito atenta à fala do bom Deus,
estou na Terra e... esses caminhos meus
são adornados pelo verbo amar...

Porque eu tenho uma Rosa que viceja,
não pego o lugar de quem quer que seja...
eu me assumo e... conquisto o meu lugar!

SEGREDO

Viver a vida é parte de um mistério
na encenação da qual somos atores,
sem ter ensaio, sem qualquer critério,
misto de sombra e luzes multicores...

E nesta vida há sempre um revertério,
um dissabor, espinhos entre as flores...
Mas há segredos, sempre há um refrigério,
há muita luz atrás dos bastidores!

Então... comece a desvendar segredos,
descubra o sol brilhando entre os seus medos...
e ante a tristeza não se entregue ao léu!

Ouvir estrelas no breu da tormenta
é o grande alento de quem se alimenta
do Pão da Vida... o Pão que vem do céu!

AMOR DE EXTREMOS

O nosso Amor é um mar cheio de extremos...
Mar perigoso de navegação...
Às vezes... temo e abandonar os remos
parece a diretriz... a solução.

Eu me amedronto, mas, ante o que temos,
dou meia volta... vejo a salvação
nos tempos de prazer... tantos... supremos,
e eu sigo em frente, atrás dessa emoção...

O nosso Amor é uma cumplicidade...
é todo feito de diversidade....
é guerra... é fogo... é paz... é rebeldia...

É plantação... estio com fartura,
É sensatez vestida de loucura...
É breu... é noite... é Sol de meia dia!!!

BACHAREL

Não entristeço a folha de papel
que ela merece uma canção feliz...
Então, eu pego um sonho, o meu batel,
mudo o roteiro e inverto a diretriz!!!!

Meu sonho é diplomado... é um bacharel
contorna os desenganos com seu giz...
Conhecedor da vida, em seu farnel,
tem sempre uma ilusão... pedindo bis...

Meu sonho... faz a vez de um navegante,
pega a alegria, o seu farol constante,
e adentra os mares onde houver tristeza...

Eu sei que o mar nem sempre é meu amigo,
mas eu me exponho às ondas do perigo,
porque a esperança é sempre uma certeza!

DIA DE RESGATE

O caos, a fome, o medo, a frustração...
e os trinta e três guerreiros no combate...
dia após dia... a espera... a indecisão
da vida, por um fio, em xeque-mate!

Uma Esperança vence a escuridão,
porque o mineiro bom, jamais se abate
e enfrenta a fúria da Mineração
para esperar o Dia de Resgate!

O Chile comprovou a sua fibra
e o mundo, em energias, todo vibra
para trazer à Luz esses guerreiros!

E o Atacama emerge para a história
e escreve no deserto a trajetória
da inesquecível saga dos Mineiros!

Fonte:
1a. Antologia Poética Momento Litero Cultural

Plinio Linhares (Trovamando V - Helena)


A HELENA
(minha musa inspiradora)

As forças da natureza,
Venham todas em amparo;
Que haja maior riqueza,
Para musa que preparo.

Que ela tenha as virtudes,
De um anjo divinal;
E venha com atitudes,
De uma dama bem formal.

Desejo que seja linda,
Num corpo escultural;
Espírito na berlinda,
Rainha universal.

Veja o bem nos irmãos,
Ampare o deserdado;
Estenda sempre as mãos,
A alguém desamparado.

Que sorria e mais encante,
O adulto e a criança;
Doando, sempre avante,
A paz e a esperança.

E com um simples olhar,
Faça o doente são;
O aflito acalmar,
Ao acenar de sua mão!

Precisa o trovador,
Receber a sua parcela;
Deste anjo salvador,
Do bem e paz, que ele sela.

Presentes eu lhe darei,
E todo dia bela rosa;
Amor, afeto, farei,
Pra ficar rindo e prosa.

Pra ela, como fiz outrora,
E deixando-a bem grata;
Na noite, em qualquer hora,
Farei linda serenata.

Passou bela, flutuante,
Fui, perguntei-lhe o nome;
E com voz estonteante,
Disse só o seu prenome: -

- HELENA, a sua criada,
Vejo que é bom rapaz;
Só serei a sua amada,
Se a trova for capaz!

Andar firme, bem andante,
Olhar doce e suave;
Fala macia, bem galante,
Linda, soberana ave.

HELENA, musa perfeita,
Ornamento, belo brinco;
Deusa mor de gala seita,
És, no TROVAMANDO CINCO...

Por seu passado seguro,
Pelo presente bem são;
Para um feliz futuro,
HELENA, quero sua mão!

Lavarei seus pés com flores,
Ao recebe-la por minha;
Demonstrando meus amores,
Mesmo quando não a tinha.

Pra poder lhe merecer,
Erradicarei defeitos;
Farei puro o meu ser,
E verás cantar meus feitos...

Cercar-lhe-ei de afetos,
Como mar cerca a terra;
Tal qual avós aos netos,
Como neblina na serra.

Amparo eu lhe darei,
E amor compreendido;
O afeto que farei,
Há de ser correspondido.

Haverá companheirismo,
E um trato fraternal;
Dose de cavalheirismo,
União no ideal.

Dois corpos a caminhar,
E as almas siamesas;
Impossível separar,
Nem com doutas sutilezas.

DON QUIXOTE DE LA MANCHA,
Eu, a derribar moinhos;
Terei a grata ensancha,
De mostrar os meus carinhos.

Eu, andante cavaleiro,
Montado no ROCINANTE;
Para ser-lhe prazenteiro,
E tornar apaixonante.

És estrela que me guia,
De luz deveras brilhante;
Clara noite, como dia,
Você é o meu calmante...

Meu amor, por que mantém?
Seu querer adormecido;
O meu ser só se sustem,
Com seu beijo aquecido.

Que coisa linda o beijo!
Exalta todo meu ser;
Põe cérebro em lampejo,
Dá vontade de viver...

Aquele abraço doce,
Que você me deu um dia;
Não esqueço nem que fosse,
O rei momo da folia!...

Seu arfar, no meu ouvido,
Nele, seu beijo ardente;
Ao chamar-me de querido,
Diz verdade, ou me mente?

No dia em que me levou,
Provar sua intimidade;
A minh’alma se lançou,
No orgasmo da verdade.

Você me deu o maná,
Que dado ao prometido;
E ainda o fará,
Com amor arremetido.

Seu afago, carinhoso,
O olhar mais dardejante;
Meu querer fica formoso,
O meu ser eletrizante!

Dançando, rostos colados,
E corpos em conjunção;
Ficam cupidos corados,
E anjos em aflição...

Você me põe no espaço,
Naquele, o sideral;
Sempre ledo no regaço,
Do seu bom manancial.

Me ame, minha querida,
Deixe-me amar também;
Extinga minha ferida,
Meu amor, meu forte bem!

O céu, dar-lhe-ei em verso,
Pois na prosa, se esvai;
Mas o grande universo,
Pra lhe dar, só nosso PAI!

Fundo extrato d’amor,
Perfumarei meu querer;
Far-lhe-ei do meu fulgor,
Como o amanhecer.

Para seu luxo, a teia,
Tecerei com fios d’ouro;
De amor, será a ceia,
Imortal e porvindouro.

Adorná-la e vestir-lhe,
Faze-la mais preciosa;
Do mar, pérolas roubar-lhe,
Do jardim, mais bela rosa...

Vamos, na realidade,
HELENA, meu bem querer;
Dar-lhe-ei a faculdade,
Em mi’a fala escolher.

Quero fazer, como dantes,
Amar-lhe na velha forma;
Sermos os finos amantes,
Na melhor, perfeita norma.

Prazeirar a natureza,
Atirar pedras no lago;
Sentir a lua benfazeja,
E acreditar em mago...

Em todas as coisas belas,
Igualá-las à você;
E a mais bonita delas,
Nunca há lhe merecer!

Agrupar as nossas almas,
Na mais doce lua de mel;
Pairar sobre nuvens calmas,
Sob bênçãos de lindo céu.

Vindo fundo sentimento,
Com amor forte, seguro;
Dar-lhe-ei enlaçamento,
De agora ao futuro...

Qualidade de amor,
Terá nosso matrimônio;
Afeto e esplendor,
Será o nosso binômio.

Ajuda lhe prestarei,
E você me cuidará;
Bom amor receberei,
Mais ternura hei de dar.

O amor é como luz,
E nas trevas ilumina;
Fortalece e seduz,
A sua saga, contamina.

Os casais indiferentes,
Ao verem nosso exemplo;
Tornar-se-ão firmes crentes,
E virão ao nosso templo.

Que bom, é o bem viver,
Que maldade, é discórdia;
Ore muito pra não ter,
Que pedir misericórdia.

Para viver desta forma,
E Ter essa harmonia;
Há de se seguir a norma: -
Só com DEUS, em sintonia!

No jantar a luz de velas,
Com a paz dos querubins;
Comporei trovas mais belas,
Na lira, dos serafins.

Suave música de fundo,
Aflorando sentimento;
Dar-lhe-ei do mais fecundo,
Amor e desprendimento.

O casamento perfeito,
Há de ter a BOA discórdia;
Pois, de rosas, não há leito,
Nem a forçada concórdia.

Ter bom senso de ouvir,
Mais a arte de calar;
Para tudo discernir,
E a vida aclamar.

A fala mansa, macia,
O cenho descontraído;
Forma a paz e sacia,
De bênçãos, um lar caído.

Um casal prenhe de paz,
Faz do lar, foco de luz;
Qualquer treva se desfaz,
Pois ali, está Jesus!

O amor não tem espécie,
É amor sem discussão;
É natural de sua messe,
E não tem comparação.

Não existe confusão,
Há de ter contentamento;
Sem amor, é ilusão,
O perfeito casamento.

A relação em conflito,
Só bem querer modifica;
Faz bendito o maldito,
E amor solidifica!

Quer viver fatal inferno?
É em casa atritar;
Ampare e seja terno,
Chegue até lisonjear.

Casamento com problema,
Já são muitos o da vida;
Só o amor como lema,
Há de faze-la querida!

Se no lar houver disputa,
E só uma eu admito: -
De amor e de labuta,
Pois a paz não é um mito.

Com uma linda atafona,
Lavarei seus pés com flores;
Bem, que a fada abona,
Prometendo meus amores...

Enxugar com alvo linho,
Com sândalo perfumado;
Que fará do nosso ninho,
Aposento consagrado.

Enfim, ó bela HELENA,
Você é minha gracinha;
É a mais linda pequena,
Entre moças da pracinha.

Com HELENA, há certeza,
De perene bem viver;
A sua alma de beleza,
Seu eterno bem querer.

Você é o douro trigo,
Saciando minha fome;
É caminho que eu sigo,
HELENA, sublime nome.

Bela de TRÓIA, viesse,
Mi’a HELENA, visitar;
A sua beleza fenece,
Se a minha comparar!

Adjetivo gentílico,
HELENA, igual à grego;
Povo culto e idílico,
Pelo amor têm apego.

HELENA, larga estrada,
Caminhou a minha vida;
De sedenta na parada,
É a água mais querida.

Com um sexo respeitoso,
Sempre, sempre sublimado;
No sagaz harmonioso,
Do OLIMPO, consagrado.

E será sempre assim,
Pois és deusa que encanta;
Muito mais que um jasmim,
Minha musa, minha mantra!

Eu tivesse um harém,
Amaria a todas elas;
Somente você porém,
É a bela, das mais belas!...

Sonho em ser um sultão,
Dono de gema formosa;
Todos reis invejarão,
Você, pedra preciosa!

A fausta tiara rica,
Que orna cabeça nobre;
Em vossa mercê, que fica,
Para quem o sino dobre.

E como agradecer,
Inspiração de HELENA;
Me fez mais enternecer,
Com sua beleza serena.

Despeço emocionado,
Minha musa, minha luz;
Sou o seu apaixonado,
Com auspícios de JESUS!

ANA PAULA, também AMANDA,
VALQUIRIA, linda pequena;
MARIA, a mais veneranda,
A Quinta, bela HELENA...

Digo sempre o que sinto,
E inspiro em SUAS, leis;
Para terminar o CINCO,
E a começar o SEIS.

O trovador sempre faz,
Consigo auto-ajuda;
Deseja ao LEITOR – PAZ!
Mais amor, que tudo muda.

Ao meu querido LEITOR,
Sou grato em profusão;
Minhas trovas de amor,
Em você, INSPIRAÇÃO!...

Fonte:
http://blogdodegasdc.blogspot.com/2010/04/trovamando-v-helena.html

Machado de Assis (Adão e Eva)


UMA SENHORA de engenho, na Bahia, pelos anos de mil setecentos e tantos, tendo algumas pessoas íntimas à mesa, anunciou a um dos convivas, grande lambareiro, um certo doce particular. Ele quis logo saber o que era; a dona da casa chamou-lhe curioso. Não foi preciso mais; daí a pouco estavam todos discutindo a curiosidade, se era masculina ou feminina, e se a responsabilidade da perda do paraíso devia caber a Eva ou a Adão. As senhoras diziam que a Adão, os homens que a Eva, menos o juiz-de-fora, que não dizia nada, e Frei Bento, carmelita, que interrogado pela dona da casa, D. Leonor:

— Eu, senhora minha, toco viola, respondeu sorrindo; e não mentia, porque era insigne na viola e na harpa, não menos que na teologia.

Consultado, o juiz-de-fora respondeu que não havia matéria para opinião; porque as cousas no paraíso terrestre passaram-se de modo diferente do que está contado no primeiro livro do Pentateuco, que é apócrifo. Espanto geral, riso do carmelita que conhecia o juiz-de-fora como um dos mais piedosos sujeitos da cidade, e sabia que era também jovial e inventivo, e até amigo da pulha, uma vez que fosse curial e delicada; nas cousas graves, era gravíssimo.

— Frei Bento, disse-lhe D. Leonor, faça calar o Sr. Veloso.
— Não o faço calar, acudiu o frade, porque sei que de sua boca há de sair tudo com boa significação.
— Mas a Escritura... ia dizendo o mestre-de-campo João Barbosa.
— Deixemos em paz a Escritura, interrompeu o carmelita. Naturalmente, o Sr. Veloso conhece outros livros...
— Conheço o autêntico, insistiu o juiz-de-fora, recebendo o prato de doce que D. Leonor lhe oferecia, e estou pronto a dizer o que sei, se não mandam o contrário.
— Vá lá, diga.
— Aqui está como as cousas se passaram. Em primeiro lugar, não foi Deus que criou o mundo, foi o Diabo...
— Cruz! exclamaram as senhoras.
— Não diga esse nome, pediu D. Leonor.
— Sim, parece que... ia intervindo frei Bento.
— Seja o Tinhoso. Foi o Tinhoso que criou o mundo; mas Deus, que lhe leu no pensamento, deixou-lhe as mãos livres, cuidando somente de corrigir ou atenuar a obra, a fim de que ao próprio mal não ficasse a desesperança da salvação ou do benefício. E a ação divina mostrou-se logo porque, tendo o Tinhoso criado as trevas, Deus criou a luz, e assim se fez o primeiro dia. No segundo dia, em que foram criadas as águas, nasceram as tempestades e os furacões; mas as brisas da tarde baixaram do pensamento divino. No terceiro dia foi feita a terra, e brotaram dela os vegetais, mas só os vegetais sem fruto nem flor, os espinhosos, as ervas que matam como a cicuta; Deus, porém, criou as árvores frutíferas e os vegetais que nutrem ou encantam. E tendo o Tinhoso cavado abismos e cavernas na terra, Deus fez o sol, a lua e as estrelas; tal foi a obra do quarto dia. No quinto foram criados os animais da terra, da água e do ar. Chegamos ao sexto dia, e aqui peço que redobrem de atenção.

Não era preciso pedi-lo; toda a mesa olhava para ele, curiosa.

Veloso continuou dizendo que no sexto dia foi criado o homem, e logo depois a mulher; ambos belos, mas sem alma, que o Tinhoso não podia dar, e só com ruins instintos. Deus infundiu-lhes a alma, com um sopro, e com outro os sentimentos nobres, puros e grandes. Nem parou nisso a misericórdia divina; fez brotar um jardim de delícias, e para ali os conduziu, investindo-os na posse de tudo. Um e outro caíram aos pés do Senhor, derramando lágrimas de gratidão. "Vivereis aqui", disse-lhe o Senhor, "e comereis de todos os frutos, menos o desta árvore, que é a da ciência do Bem e do Mal."

Adão e Eva ouviram submissos; e ficando sós, olharam um para o outro, admirados; não pareciam os mesmos. Eva, antes que Deus lhe infundisse os bons sentimentos, cogitava de armar um laço a Adão, e Adão tinha ímpetos de espancá-la. Agora, porém, embebiam-se na contemplação um do outro, ou na vista da natureza, que era esplêndida. Nunca até então viram ares tão puros, nem águas tão frescas, nem flores tão lindas e cheirosas, nem o sol tinha para nenhuma outra parte as mesmas torrentes de claridade. E dando as mãos percorreram tudo, a rir muito, nos primeiros dias, porque até então não sabiam rir. Não tinham a sensação do tempo. Não sentiam o peso da ociosidade; viviam da contemplação. De tarde iam ver morrer o sol e nascer a lua, e contar as estrelas, e raramente chegavam a mil, dava-lhes o sono e dormiam como dous anjos.

Naturalmente, o Tinhoso ficou danado quando soube do caso. Não podia ir ao paraíso, onde tudo lhe era avesso, nem chegaria a lutar com o Senhor; mas ouvindo um rumor no chão entre folhas secas, olhou e viu que era a serpente. Chamou-a alvoroçado.

— Vem cá, serpe, fel rasteiro, peçonha das peçonhas, queres tu ser a embaixatriz de teu pai, para reaver as obras de teu pai?

A serpente fez com a cauda um gesto vago, que parecia afirmativo; mas o Tinhoso deu-lhe a fala, e ela respondeu que sim, que iria onde ele a mandasse, — às estrelas, se lhe desse as asas da águia — ao mar, se lhe confiasse o segredo de respirar na água — ao fundo da terra, se lhe ensinasse o talento da formiga. E falava a maligna, falava à toa, sem parar, contente e pródiga da língua; mas o diabo interrompeu-a:

— Nada disso, nem ao ar, nem ao mar, nem à terra, mas tão-somente ao jardim de delícias, onde estão vivendo Adão e Eva.
— Adão e Eva?
— Sim, Adão e Eva.
— Duas belas criaturas que vimos andar há tempos, altas e direitas como palmeiras?
— Justamente.
— Oh! detesto-os. Adão e Eva? Não, não, manda-me a outro lugar. Detesto-os! Só a vista deles faz-me padecer muito. Não hás de querer que lhes faça mal...
— É justamente para isso.
— Deveras? Então vou; farei tudo o que quiseres, meu senhor e pai. Anda, dize depressa o que queres que faça. Que morda o calcanhar de Eva? Morderei...
— Não, interrompeu o Tinhoso. Quero justamente o contrário. Há no jardim uma árvore, que é a da ciência do Bem e do Mal; eles não devem tocar nela, nem comer-lhe os frutos. Vai, entra, enrosca-te na árvore, e quando um deles ali passar, chama-o de mansinho, tira uma fruta e oferece-lhe, dizendo que é a mais saborosa fruta do mundo; se te responder que não, tu insistirás, dizendo que é bastante comê-la para conhecer o próprio segredo da vida. Vai, vai...
— Vou; mas não falarei a Adão, falarei a Eva. Vou, vou. Que é o próprio segredo da vida, não?
— Sim, o próprio segredo da vida. Vai, serpe das minhas entranhas, flor do mal, e se te saíres bem, juro que terás a melhor parte na criação, que é a parte humana, porque terás muito calcanhar de Eva que morder, muito sangue de Adão em que deitar o vírus do mal... Vai, vai, não te esqueças...

Esquecer? Já levava tudo de cor. Foi, penetrou no paraíso, rastejou até a árvore do Bem e do Mal, enroscou-se e esperou. Eva apareceu daí a pouco, caminhando sozinha, esbelta, com a segurança de uma rainha que sabe que ninguém lhe arrancará a coroa. A serpente, mordida de inveja, ia chamar a peçonha à língua, mas advertiu que estava ali às ordens do Tinhoso, e, com a voz de mel, chamou-a. Eva estremeceu.

— Quem me chama?
— Sou eu, estou comendo desta fruta...
— Desgraçada, é a árvore do Bem e do Mal!
— Justamente. Conheço agora tudo, a origem das coisas e o enigma da vida. Anda, come e terás um grande poder na terra.
— Não, pérfida!
— Néscia! Para que recusas o resplendor dos tempos? Escuta-me, faze o que te digo, e serás legião, fundarás cidades, e chamar-te-ás Cleópatra, Dido, Semíramis; darás heróis do teu ventre, e serás Cornélia; ouvirás a voz do céu, e serás Débora; cantarás e serás Safo. E um dia, se Deus quiser descer à terra, escolherá as tuas entranhas, e chamar-te-ás Maria de Nazaré. Que mais queres tu? Realeza, poesia, divindade, tudo trocas por uma estulta obediência. Nem será só isso. Toda a natureza te fará bela e mais bela. Cores das folhas verdes, cores do céu azul, vivas ou pálidas, cores da noite, hão de refletir nos teus olhos. A mesma noite, de porfia com o sol, virá brincar nos teus cabelos. Os filhos do teu seio tecerão para ti as melhores vestiduras, comporão os mais finos aromas, e as aves te darão as suas plumas, e a terra as suas flores, tudo, tudo, tudo...

Eva escutava impassível; Adão chegou, ouviu-os e confirmou a resposta de Eva; nada valia a perda do paraíso, nem a ciência, nem o poder, nenhuma outra ilusão da terra. Dizendo isto, deram as mãos um ao outro, e deixaram a serpente, que saiu pressurosa para dar conta ao Tinhoso.

Deus, que ouvira tudo, disse a Gabriel:

— Vai, arcanjo meu, desce ao paraíso terrestre, onde vivem Adão e Eva, e traze-os para a eterna bem-aventurança, que mereceram pela repulsa às instigações do Tinhoso.

E logo o arcanjo, pondo na cabeça o elmo de diamante, que rutila como um milhar de sóis, rasgou instantaneamente os ares, chegou a Adão e Eva, e disse-lhes:

— Salve, Adão e Eva. Vinde comigo para o paraíso, que merecestes pela repulsa às instigações do Tinhoso.

Um e outro, atônitos e confusos, curvaram o colo em sinal de obediência; então Gabriel deu as mãos a ambos, e os três subiram até à estância eterna, onde miríades de anjos os esperavam, cantando:

— Entrai, entrai. A terra que deixastes, fica entregue às obras do Tinhoso, aos animais ferozes e maléficos, às plantas daninhas e peçonhentas, ao ar impuro, à vida dos pântanos. Reinará nela a serpente que rasteja, babuja e morde, nenhuma criatura igual a vós porá entre tanta abominação a nota da esperança e da piedade.

E foi assim que Adão e Eva entraram no céu, ao som de todas as cítaras, que uniam as suas notas em um hino aos dous egressos da criação...

... Tendo acabado de falar, o juiz-de-fora estendeu o prato a D. Leonor para que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam uns para os outros, embasbacados; em vez de explicação, ouviam uma narração enigmática, ou, pelo menos, sem sentido aparente. D. Leonor foi a primeira que falou:

— Bem dizia eu que o Sr. Veloso estava logrando a gente. Não foi isso que lhe pedimos, nem nada disso aconteceu, não é, frei Bento?
— Lá o saberá o Sr. juiz, respondeu o carmelita sorrindo.

E o juiz-de-fora, levando à boca uma colher de doce:

— Pensando bem, creio que nada disso aconteceu; mas também, D. Leonor, se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na verdade, uma cousa primorosa. É ainda aquela sua antiga doceira de Itapagipe?
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Fonte:
ASSIS, Machado de. Várias Histórias. Ed. Martin Claret.

Machado de Assis (Análise dos Contos de “Várias Histórias”: 8. Adão e Eva)


Análise realizada pelo Prof. Bartolomeu Amâncio da Silva. Bacharel em Letras, pela USP, professor de literatura da rede Objetivo (colégios e cursos pré-vestibular).
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Outro conto que apresenta o esquema de história dentro de história. Em meio à degustação de doces, começa a discussão sobre quem é mais curioso: o homem ou a mulher? Um dos convivas apresenta uma narrativa com um quê de enigmático e que vem de um livro apócrifo (livro que não é reconhecido pela Igreja e que, portanto, está fora da Bíblia) da Bíblia.

É um relato que inverte a história de Adão e Eva. Primeiro porque apresenta a criação do Universo como fruto da ação do Diabo – Deus é que ia consertando as falhas provocadas pela malignidade. Dentro desse aspecto está a criação do homem e da mulher. Na forma crua, estavam dominados por instintos ruins. O toque divino atribui-lhes alma, tornando-os sublimes, sendo levados para o Paraíso. Inconformado com a destruição de sua obra, mas impossibilitado de entrar no campo divino, convence sua criação dileta, a serpente, a tentar Adão e Eva a comerem o fruto proibido. De pronto o animal o atende, mas, por mais que insistisse, não obteve sucesso. Satisfeito com tal proeza de caráter, Deus conduz os dois para o caminho da glória.

Termina assim o relato que deixa incrédulos entre a platéia, a maioria achando que tudo não passava de brincadeira do seu narrador. No entanto, o comentário final de um dos convivas é bastante interessante: “Pensando bem, creio que nada disso aconteceu; mas também, D. Leonor, se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na verdade, uma coisa primorosa”. Além de o conto apresentar o oposto (mais uma vez a visão dilemática machadiana!) de uma questão, ou seja, uma outra história da criação, há uma idéia já desenvolvida, por exemplo, em Dom Casmurro: a graça de nossa existência está justamente na imperfeição em que se processa.
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Continua… Análise do Conto “O Enfermeiro”
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Fonte:
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/v/varias_historias

Sonetos Soprados ao Léu


Silviah Carvalho
SONETO AO SOPRO DO SEU CARINHO

Traz no seu olhar um ar de menino ausente
Que me faz viajar por outros ares
Ao encontro de algo desejado, um presente
Como as águas dos rios encontram seus mares

O vento que toca de leve em meu rosto
É o sopro do seu meigo e doce carinho
Essa paz que recebo de bom gosto
Que vem e ilumina o meu caminho

Eu faria mornar o vento marinho pra você
Eu daria a brisa da noite por seu calor
Aquela que sopra a doçura e exala amor

Eu te daria a lua e a luz do amanhecer
Provaria no inverno o calor do seu verão
No cio eterno do amor na propicia estação

José Rainho Caldeira
ESPLENDOR

O azul que se confunde seja da água ou do céu.
Leva-nos à plenitude, da beleza natural,
Que só a sensibilidade, de um olhar sereno,
Consegue achar normal.

Este olhar, ainda que belo,
Remete-nos pra pequenez
Do humano Ser, perante a grandeza
Do mar imenso, do Céu pleno de incenso.

Cores várias, Arco-íris incendiado,
No negrume das nuvens, de gotículas de água,
Em Céu carregado, que se transforma em chuva,
Que rega os campos floresce a primavera,
De um coração atribulado.

Depende do ângulo de visão e dos olhos de quem vê.
Pode ser de mansidão ou, quem sabe?
De olhares perdidos, pra lá do horizonte,
Sem esperança e com revolta, pela triste vida,
Que de fronte, lhe aparece pela frente.

É, talvez, pela injustiça que sente no coração.
Pela vaidade, luxo, devassidão,
Paredes meias co'a pobreza,
A fome, a miséria, a falta de pão.

Só olhos limpos e claros, livres de todos os apegos,
Poderão sentir prazer, neste olhar de mar e céu,
Onde consegue vislumbrar
Obra magnífica de Deus.

Quem assim consegue olhar, ver, apreciar, beleza, enfim.
Talvez possa dar ao Mundo, a idéia de que é possível
Viver em harmonia, Criador e criaturas,
Natureza e seus elementos, floresta, arbustos e capim.

Álvares de Azevedo
SONETO

Passei ontem a noite junto dela.
Do camarote a divisão se erguia
Apenas entre nós - e eu vivia
No doce alento dessa virgem bela...

Tanto amor, tanto fogo se revela
Naqueles olhos negros! Só a via!
Música mais do céu, mais harmonia
Aspirando nessa alma de donzela!

Como era doce aquele seio arfando!
Nos lábios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro-me chorando!

Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
É sentir todo o seio palpitando...
Cheio de amores! E dormir solteiro!

Antero de Quental
MORS - AMOR

Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fantásticas estradas,

Donde vem ele? Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavaleiro de expressão potente,
Formidável, mas plácido, no porte,
Vestido de armadura reluzente,

Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: "Eu sou a morte!"
Responde o cavaleiro: "Eu sou o Amor!"

Florbela Espanca
EM BUSCA DO AMOR

O meu Destino disse-me a chorar:
"Pela estrada da Vida vai andando,
E, aos que vires passar, interrogando
Acerca do Amor, que hás-de encontrar."

Fui pela estrada a rir e a cantar
As contas do meu sonho desfiando...
E a noite e dia, à chuva e ao luar,
Fui sempre caminhando e perguntando...

Mesmo a um velho eu perguntei: "Velhinho,
Viste o Amor acaso em teu caminho?"
E o velho estremeceu... olhou...e riu...

Agora pela estrada, já cansados,
Voltam todos pra trás desanimados...
E eu paro a murmurar: "Ninguém o viu!”…

Guilherme de Almeida
SONETO XXV

O nosso ninho, a nossa casa, aquela
nossa despretensiosa água-furtada,
tinha sempre gerânios na sacada
e cortinas de tule na janela.

Dentro, rendas, cristais, flores... Em cada
canto, a mão da mulher amada e bela
punha um riso de graça. Tagarela,
teu cenário cantava à minha entrada.

Cantava... E eu te entrevia, à luz incerta,
braços cruzados, muito branca, ao fundo,
no quadro claro da janela aberta.

Vias-me. E então, num súbito tremor,
fechavas a janela para o mundo
e me abrias os braços para o amor!

J. G. De Araújo Jorge
CARTAS

Vou correndo buscá-las - são tão leves!
mas trazem a minha alma um grande encanto,
- por que as cartas que escreves custam tanto?
- por que demora tanto o que me escreves?

Não deves torturar-me assim, não deves!
- Do teu silêncio muita vez me espanto...
Mando-te longas cartas - e entretanto
como tuas respostas são tão breves!...

Recebes cartas minhas todo dia,
e elas não dizem tudo o que eu queria
mas falam-te de amor... de coisas belas!

Tuas cartas... Mas dou-te o meu perdão,
- que me importa afinal ter razão,
se gosto tanto de esperar por elas!

Martins Fontes
O QUE SE ESCUTA NUMA VELHA CAIXA DE MÚSICA

Nunca roubei um beijo. O beijo dá-se,
ou permuta-se, mas naturalmente.
Em seu sabor seria diferente
se, em vez de ser trocado, se furtasse.

Todo beijo de amor, longo ou fugace,
deve ser u prazer que a ambos contente.
Quando, encantado, o coração consente,
beija-se a boca, não se beija a face.

Não toquemos na flor maravilhosa,
seja qual for a sedução do ensejo,
vendo-a ofertar-se, fácil e formosa.

Como os árabes, loucos de desejo,
amemos a roseira, olhando a rosa,
roubemos a mulher e não o beijo.

Roberto Pinheiro Acruche lança a Revista Virtual Trovas e Poemas Nº 24 – FEVEREIRO DE 2011


Além das abaixo muito mais trovas, além dos poemas “Os Pratos da Vovó”, de Antonio Roberto Fernandes, “Poema para o meu amor” e “Indagações”, de Roberto Pinheiro Acruche, trovas formatadas deste, livros, fotos, etc. Baixe para seu computador clicando sobre a imagem ao lado.
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Se diante de algum tropeço
a minha fé sofre entraves,
perdão, Deus! É que me esqueço
de olhar os lirios e as aves.
Vanda Fagundes Queiroz-PR

Nessa paixão que me assalta,
misto de encanto e de dor,
quanto mais você me falta
mais aumenta o meu amor!…
Rodolpho Abbud - RJ

Rogo em preces, sem engodos,
ouvindo o planger do bronze,
que Deus Pai conceda a todos
um Feliz Dois Mil e Onze!
Antônio Juraci Siqueira-PA

A paz, numa sociedade,
entre tantas coisas boas,
só depende, na verdade,
da consciência das pessoas.
Nei Garcez-PR

O mar é o mais doce amante
pois não cansa de beijar,
num lirismo alucinante,
toda praia que encontrar!
Gislaine Canales - SC

Áureo outono, que beleza...
Nada abate o teu fulgor!
A esplendida natureza
te fez tão encantador.
Roberto Pinheiro Acruche - RJ

Quem conhece não contesta
esta verdade provada:
Na boca de quem não presta
quem é bom não vale nada!
Pedro Ornellas - SP

Os lábios, num beijo, unidos,
despertam grande paixão...
Tornam um só, dois sentidos,
de dois, um só coração.
Francisco Neves Macedo-RN

Fonte:
R. P. Acruche

Antonio Augusto de Assis lança Trovia n. 134 – fevereiro de 2011


Além das abaixo, muitas outras podem ser encontradas na Revista Virtual de Trovas Trovia n. 134, fevereiro de 2011 baixando para o seu computador, ao clicar sobre a figura ao lado.
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INESQUECÍVEIS

Onde anda o corpo da gente,
a sombra vai pelo chão...
– É assim também a saudade,
a sombra do coração!
Adelmar Tavares

Dotada de amor profundo,
meiga e doce em seu mister,
que graça teria o mundo,
sem a graça da mulher?
Aparício Fernandes

Miséria de pão maltrata...
Mas quanta gente, Senhor,
sabeis que morre ou se mata
quando há miséria de amor!
Lilinha Fernandes

Se duas almas tivesse
– meu coração bem me diz –,
ainda que uma eu te desse,
seria a outra feliz...
Luiz Otávio

BRINCANTES

Fugindo pela janela,
o “dom juan” quis “dar no pé”.
– Um fantasma!, gritou ela.
E o marido: – Agora é!
Angélica V. Santos – SP

Toda vez que eu chego tarde,
lá em casa, rente ao portão,
minha esposa dá “boa-tarde”
com a vassoura na mão...
Nei Garcez – PR

Casa velha, quanto encanto!
... tem cobras, cupins, lagartos!
Uma história em cada canto
e fantasmas pelos quartos.
Nilton Manoel – SP

LÍRICAS E FILOSÓFICAS

Nos passos do bailarino,
na garganta do cantor,
em cada tango argentino
geme uma história de amor.
A. A. de Assis – PR

O amigo que nos quer bem
é aquele que, sem temor,
oculta uma dor que tem
e vem sanar nossa dor...
Ademar Macedo – RN

Somos anões sem idade,
a perseguir-te sem tréguas,
enquanto, felicidade,
tens botas de sete léguas...
Carolina Ramos – SP

Na esperança verde e bela
há o otimismo de luz!
Se a porta fecha, a janela
se abre em par e o sol reluz!
Dinair Leite – PR

Oh, minha mãe, quando eu falho,
tua lágrima rolada
é qual pérola de orvalho
sobre a rosa machucada!...
Domitilla B. Beltrame – SP

O verde em brasa estalando;
uivos doridos da mata:
gritos horrendos compondo
uma fúnebre sonata!
Eliana Palma – PR

A saudade dos meus filhos,
dói, machuca, me amordaça.
Comparo-me aos velhos trilhos,
Por onde o trem já não passa.
Francisco Macedo – RN

Ausência do bem, o mal
só traz sofrimento a quem
não conhece o especial
prazer que é se querer bem!
Jeanette De Cnop – PR

Minha amada foi-se embora
para bem longe de mim...
O que vou fazer agora
se a lembrança não tem fim?
Luiz Antonio Cardoso – SP

Amanhã... Depois... Depois...
Foi assim a vida inteira...
E entre os sonhos de nós dois,
a intransponível fronteira...
Milton Nunes Loureiro – RJ

Na vida, lutar, correr,
não me cansa tanto assim...
O que me cansa é saber
que estás cansada de mim!
Rodolpho Abbud – RJ

Agora peço somente,
ao tempo de que disponho,
que um tempo me dê, paciente,
para que eu viva o meu sonho...
Thereza Costa Val – MG

Fonte:
A. A. de Assis

domingo, 30 de janeiro de 2011

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n.111)

(Imagem de São Francisco de Assis em Nova Friburgo, na tragédia ocorrida)
Uma Trova Nacional

“A bolsa ou a vida” – eu ouço
e retruco as ironias:
- Que leve as duas, seu moço,
pois ambas estão vazias.
(ROBERTO MEDEIROS/MG)

Uma Trova Potiguar

Nessa vida de rancores,
de fatos imprevisíveis,
coragem faz vencedores,
concórdia faz invencíveis.
(FABIANO WANDERLEY/RN)

Uma Trova Premiada

1999 > Niterói/RJ
Tema > TIMIDEZ > Menção Honrosa

Sou tímida, na verdade,
e você já percebeu.
Porém... me beije à vontade
porque a tímida sou eu...
(ALCY RIBEIRO S. MAIOR/RJ)

Simplesmente Poesia

– Eduardo A. O. Toledo/MG –
POR SOBRE AS NUVENS.

Por sobre as nuvens, meu sonho
vai dedilhando, disperso,
as ilusões que componho
na pauta azul do universo.
Por sobre as nuvens me ponho,
preso às estrelas, imerso,
como se fosse um risonho
canteiro cheio de versos.
Por sobre as nuvens, são tantos
devaneios e acalentos,
que o céu parece um coreto
de estrelas doidas, vadias,
declamando poesias
sob as nuvens de um soneto!!!

Uma Trova de Ademar

Vejo sentadas no chão,
trajadas de desamor;
crianças comendo pão
amanteigado de dor!
(ADEMAR MACEDO/RN)

...E Suas Trovas Ficaram

A morte não me intimida...
Perfil de dor que eu descarto.
A morte é somente a vida
fazendo um segundo parto!
(PAULO CESAR OUVERNEY/RJ)

Estrofe do Dia

Por decreto de um pai onipotente
e por ordem expressa de Jesus,
eu carrego pra sempre a minha cruz
que de Deus eu ganhei como presente;
e agradeço por eu ser tão contente
sem ter mágoa, sem dor, sem fantasia,
a minha vida é um poema de alegria
que eu me sinto feliz em declamar;
no “cotoco” da perna de Ademar
Deus plantou a semente da poesia.
(ADEMAR MACEDO/RN)

Soneto do Dia

– Sônia Sobreira/RJ –
EU GOSTO DA CHUVA.

Gosto da chuva, do seu marulhar,
dos pingos caindo com precisão,
do vento alegre que teima em soprar
folhas molhadas caídas no chão.

Gosto da chuva, do seu gotejar,
águas rolando, enxurrada em roldão
deixando nas pedras brilho sem par,
como o trabalho de fino artezão.

Gosto da chuva a cair sobre mim,
névoa de prata a envolver meu jardim,
que todo encharcado, em brilhos reluz!

Eu gosto de ouvir o som que ela faz,
qual retinir dos mais finos cristais
jorrando do céu, pedaços de luz!

Fonte:
Ademar Macedo

sábado, 29 de janeiro de 2011

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n.110)


Uma Trova Nacional

Num pesadelo bem chato,
o infeliz grita: “socorro!”
Sonhava que era um gato
e a sua sogra... um cachorro!
(ÉLBEA PRISCILA SILVA/SP)

Uma Trova Potiguar

Sem querer ser mandingueiro,
nem que o corpo não se abra;
respeito o pai de chiqueiro
que manda em tudo que é cabra!
(MARCOS MEDEIROS/RN)

Uma Trova Premiada

1993 > Nova Friburgo/RJ
Tema > “LIVRE” > Menção Honrosa

Com sotaque nordestino
e usando linguagem chula,
grita o ladrão: “Seu menino,
mãos pra riba e não se bula!”
(ALOÍSIO GENTIL PIMENTA/MG)

Simplesmente Poesia

MOTE:
Mulher perto dos setenta,
Já não tem gosto de nada.

GLOSA:
Ela mesma se lamenta
e a cada dia piora,
por tudo, lamenta e chora
Mulher perto dos setenta;
nem o marido aguenta
porque só vive amuada,
fria, nervosa, apagada,
isto aí não é fofoca;
é como comer pipoca...
Já não tem gosto de nada.
(AUGUSTO MACEDO/RN)
(Mulherada, não xinguem meu irmão, Ele já está no Andar de cima! - Ademar Macedo)

Uma Trova de Ademar

O que a mulher não entende
é o seu marido na cama;
seu fogo nunca se acende...
Enquanto ela vive em chama!!!
(ADEMAR MACEDO/RN)

...E Suas Trovas Ficaram

O dentista colocou
nos dentes de Guiomar,
uma ponte e ela pensou:
- deve ser pra dor passar!...
(JOSÉ M. MACHADO ARAUJO/RJ)

Estrofe do Dia

Para montar o balanço
do que já fiz e não faço,
eis o meu novo compasso:
não fumo, não bebo, danço;
desse jeito eu não me canso
quando a velhice vier;
só meto minha colher
naquele prato pequeno...
mulher demais é veneno,
só quero minha mulher.
(JOSÉ LUCAS DE BARROS/RN)

Soneto do Dia

Renata Paccola/SP –
AZAR

Certo dia, acordei de mau humor –
resquício de uma noite mal dormida.
Peguei o carro, e então fundiu o motor,
Segui para o metrô, enfurecida.

Tentei continuar com minha lida,
mas fiquei presa num elevador.
Neste compartimento sem saída,
passei horas de angústia e terror,

e saí sob o som de bate-estaca.
Depois, no meio de um supermercado,
senti a dor de um burro quando empaca.

Foi aí que vi, quase ao meu lado,
irônicos dizeres numa placa:
“Sorria. Você está sendo filmado!”

Fonte:
Ademar Macedo

Ederson Cardoso de Lima (Livro de Trovas)


Cigana e bela mulher...
Dessa romance eu me ufano.
- Não vive um amor qualquer,
quem vive um amor cigano!

Em cada canto da mente,
o vulto dela flutua!
Não é passado, é presente,
o meu amor continua!

Eu sou quem anula planos
(os grandes planos, talvez).
Rainha dos desenganos,
o meu nome é timidez!

Grita para a garçonete,
um homem simples do povo:
- Vou querer um omelete...
e traga também um ovo!

Imensa expressão na vida,
a renúncia pode ter:
- Quanto mais nobre e doída,
mais nos pode engrandecer!

Já de "porre" um ladrão bronco
cai no sono em casa alheia,
e, traído pelo ronco,
foi roncar lá na cadeia...

Lá, num canto do planeta,
é o siri que “ bota banca” .
O país é tão “careta”
que se chama Siri-Lanca...

Nessa angústia desmedida,
ficou mais do que provado:
eu só me encontro na vida,
se me encontrar ao seu lado!

Nos meus sonhos de guri,
tudo levei de vencida,
mas esse encanto eu perdi
pois hoje apanho da vida!

O café - fonte de renda -
traz-me o tempo de meus pais:
Fui menino da fazenda
no Brasil dos cafezais!

Os pensamentos dispersos
agora tomaram jeito,
pois a Musa de meus versos
divide comigo o leito!

Quem meditar por instantes,
certos conceitos refaz:
- O mais caro dos brilhantes
não vale o brilho da paz!

"Quem sabe ela quer voltar..."
Meu coração não se emenda,
pois não consegue riscar
seu nome de minha agenda!

Somente a troco da “bóia”
trabalhava o comilão.
E foi com essa tramóia
que quebrou o seu patrão.

Sua lira foi – em suma –
de romantismo repleta.
Hoje uma orquídea perfuma,
esse ocaso do poeta!

- Vá com Deus, "bebum" amigo...
E ele, em tropeço, ao andar,:
- Deus, tu podes vir comigo,
mas não precisa empurrar!

Folclore, Superstição, Lendas e Histórias (Aves do Brasil: Japim)


O Castigo do Japim

O japim é um lindo passarinho. Sua penas são pretas e amarelas. É também chamado de xexéu e joão-conguinho. E, - coisa curiosa – não tem canto próprio. Vive a imitar o canto de outros pássaros. Os índios contam, sobre o japim a seguinte história:

Este passarinho vivia no céu, cantando para Tupã. Quando o chefe dos deuses queria dormir, chamava o japim e ele cantava até que o seu senhor dormisse.

Certa vez, os índios ficaram muito triste, por causa de uma peste terrível que havia atacado as tribos. Resolveram, então, implorar a Tupã que os levasse para o céu, onde não há doenças nem tristezas. É claro que não foram atendidos. Mas Tupã enviou o japim à terra para os consolar.

Com seu canto maravilhoso, o japim expulsou a peste e fez desaparecer as tristezas dos índios. Estes voltaram ao trabalho e ficaram de novo, tranqüilos e felizes. Por isso, pediram a Tupã que lhes desse o japim. Desta vez, o chefe dos deuses os atendeu.

O japim ficou, então, muito orgulhoso. Julgou-se o dono da floresta. E passou a imitar o canto dos outros pássaros por zombaria. Resolveram estes queixar-se a Tupã.

O deus dos índios mandou chamar o japim e censurou-o severamente. Mas o danado do passarinho não se emendou. E continuou a imitar o canto dos outros pássaros.

Tupã ficou indignado e disse para o japim:

- De hoje em diante, perderás o teu canto e só poderás imitar o cantos de outras aves. Além disso, todos os pássaros hão de te odiar e de te perseguir.

E foi o que aconteceu. O japim passou a ser atacado pelas outras aves, que lhe destruíram o ninho e os filhotes. Resolveu então o japim, pedir auxílio às vespas. Estas ficaram com pena do pássaro e disseram:

- Não te aflijas, amigo japim. Farás sempre o teu ninho perto de nossas casas, e coitado daquele que se atrever a destruí-lo. Nós os mataremos com nossas ferroadas.

E, desde então, o japim constrói o seu ninho junto da casa das vespas. Ele perdeu seu canto, mas pode criar seus pássaros.

Fontes:
SANTOS, Teobaldo Miranda. Lendas e mitos do Brasil. 9ª Ed., São Paulo, Ed. Nacional, 1985.

Lubarrel (Poesias Avulsas)

Pintura a óleo de Constable
View of Dedham. 1814
AS FADAS

Seres iluminados
Cheios de bondade
São como anjos encarnados
Repartindo caridade.

Quem quiser ser uma fada
é tão fácil como o soprar do vento
Basta ter sempre na alma
o amor doando a todo o tempo.

Fada que se presa não empresta
doa o coração sem espera
pois seu galardão é seguro
Quando o seu sentimento é puro.

Fadas no mundo são poucas
mas valem por uma multidão
pois repartindo a bondade
vai ganhando coração.

A cada coração conquistado
Sua aura resplandece
Seu esplendor se enaltece
e o céu sutilmente , agradece.

Procure em seu interior
a fada então adormecida.
Desperte-a cheia de fulgor
e sejas feliz por toda a vida.

TRIBUTO AO MAR

Quando chego à praia
Fico a observar,
Como é revolto
O crepúsculo do mar.

O inefável murmurar das ondas
Induz meu peito a palpitar.
Dilacera a minh’alma,
Faz meu corpo trepidar.

O negrume da noite
Em contraste com a luz do luar,
Adorna, reluz e inebria
Essa imensidão salutar.

E eu fico a observar
O quase inexorável,
Adorável e infinito
Esplendor divino.

Oh, doce paz!
Ameaçada pelo ser audaz
Que se diz inteligente
E polui...Polui...Somente.

PLACIDEZ NOTURNA

Sento-me embaixo do arvoredo
Sob a sombra plácida e noturna.
Observo atentamente e percebo
Que a sublimidade não se desfigura.

Ainda em meu olhar atento
Pressinto que não estou só.
A altivez da folha farfalhando ao vento
Dá-me a certeza do que há ao redor.

As nuvens que povoam o céu
Não são as que me povoam por dentro.
Dentro, minhas nuvens fazem escarcéu
E as do céu incitam o meu sentimento.

O arrebol que a pouco se findara,
Aliciou a terra e debelou o momento.
Cheia de fulgor a terra se depara
Com a mágica transformação do tempo.

Aos poucos a natureza adormece
E os vigias soturnos sobrevoam ao léu.
Ouço sons suaves que enaltecem
A beleza inexprimível desse imenso véu.

REFÚGIO

Amo a noite cálida.
Inebriada fico a vagar,
Por entre as sombras plácidas,
Acalentadas pela luz do luar.

Noites de amores e súplicas,
Eternos e afoitos desejos,
Propicia a um amor encontrar.
Oh, noite! Irás me ajudar?

Procuro um amor saliente
Que preencha o meu coração.
Aplaca a minha sede,
Invada a minha existência
E suga a minha razão.

Na noite ardilosa,
Razões e incertezas
Caminham lado a lado.
Na aurora do porvir,
Quem vencerá de fato?

Sentimentos que me afloram
São incertos devaneios.
Tento vencer o medo,
Buscando fins através dos meios
Pra sair da solidão.

E por isso me refugio
Sob o véu negro do céu,
Que toca o meu ego.

Oh, noite!
Tira-me desse ardor,
Dessa dúvida...
Não me deixe ao léu.

ODE A IARA

Doce veneno
Entorpece o meu ego,
Aniquila a minha razão,
Esmaga o meu coração
Que sedução!

Debruço-me sobre o teu olhar
Que me inebria e enlouquece.
Ponho-me a admirar
Tua cauda escamada
A sacolejar ao léu,
Mostrando-me os recôncavos do céu.

Musa de meus sonhos
Desvairados e inconseqüentes.
És onisciente presente
Com teus lábios tão eloqüentes.

De teus lábios as notas que saem
Chegam suaves aos ouvidos meus.
Um dia, hei de sagrar o teu canto
Deixarei os meus prantos
E me entregarei aos encantos teus.

REENCONTRO

Quando os meus olhos se detêm aos seus
Em apenas um milésimo de segundo
O tempo perde-se no infinito,
A razão não tem mais razão de ser...
As entranhas de minh’alma se estremecem
Quando estou perto de você.

Meus pensamentos se põem a vagar
Em busca dos pensamentos seus.
Diga-me onde poderei lhe encontrar
Para o meu sol se pôr junto ao seu.

Procuro no ar, nas estrelas e no luar,
Solução para os anseios meus.
Sua presença em mim é salutar,
Reaviva o meu ego, inebria o meu “eu”.

Quero encontrar novamente
Você no íntimo do meu ser
Para que eu possa finalmente,
Ver o amor em mim, florescer.

Fonte:
http://www.revista.agulha.nom.br/lubarrel.html

Luciene Barrel (Lubarrel)


Autobiografia

Lubarrel nasceu em Governador Valadares, situada a leste de Minas Gerais. Quando pequena, ativa e conversadeira, se dava bem com todas as coleguinhas do meio em que vivia. Gostava de ficar horas e horas lendo um livro de literatura que sua irmã mais velha estudava no curso superior de Letras. Fato esse que a ajudou muito.

Hoje, é professora primária, graduada no curso Normal Superior, Magistério de 2º grau , Adicional de Pré-escolar, Curso Técnico em Administração de Empresas.

Apaixonada pela literatura e pela arte de forma geral, teve duas poesias classificadas em 6º lugar, no X Concurso Internacional de Primavera promovido por Arnaldo Giraldo, as quais foram publicadas no livro "A Forja da Liberdade". Tem uma poesia publicada na 16ª e outra na 21ª antologia, do CBJE (Clube Brasileiro dos Jovens Escritores).

Suas poesias encontram-se registradas na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Escreveu vários contos: Renascimento, que retrata a vida de uma conhecida; Uma pequena peça de teatro “O Debate Ecológico” que fala sobre a fotossíntese e repassa a mensagem de amizade; “Perdão Assustador” que retrata uma realidade vivenciada por um antepassado, e outros.

Fonte:
http://www.revista.agulha.nom.br/lubarrel.html

Machado de Assis (Análise dos Contos de “Várias Histórias”: 7. Trio em Lá Menor)


Análise realizada por Maria Inês Werlang Ghisleni (Mestre em Letras pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC)) , sob o título Machado de Assis e a Música: Uma Análise do Conto “Trio em Lá Menor”
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O conto se encontra em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/03/machado-de-assis-trio-em-la-menor.html
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A TEORIA MUSICAL NO CONTO “TRIO EM LÁ MENOR”

No conto “Trio em lá menor”, Machado de Assis utiliza elementos da teoria musical no título, subtítulos e em toda a seqüência narrativa, relacionando a linguagem musical ao significado do próprio conto. Percebe-se ainda o intuito do autor de traduzir o que se passa no interior das personagens nas diferentes partes do texto através da música.

Segundo Kiefer (1987,) nas escalas musicais, há tons maiores e tons menores. Os tons maiores, como, por exemplo, lá maior (Lá M) ou dó maior (Dó M) transmitem alegria, júbilo, são festivos, cheios, harmônicos. Já os tons menores, como lá menor (Lá m) ou dó menor (Dó m), são tristes e traduzem sentimentos de melancolia e tristeza. Com o título “Trio em lá menor”, Machado de Assis quer nos adiantar a informação de que o conto vai tratar de uma história cujo desfecho não será feliz. Para o leitor menos avisado, poderá parecer que não há relação entre o texto e as expressões da teoria musical que Machado usou em todo o percurso da sua narrativa. Entretanto, a cada ocorrência de um desses signos, corresponde um sentido no desenrolar das ações. O título e os subtítulos são marcadores de significado musical que direcionam o pensamento do leitor para o que vai acontecer a seguir.

As expressões musicais presentes no texto nos apontam características da personalidade e também dos sentimentos de Maria Regina, protagonista da história, ilustrando seu estado de espírito em cada um dos momentos da seqüência narrativa.

“Trio em lá menor” narra o que poderia ter sido uma história de amor, mas não chegou a se concretizar. Maria Regina amava dois homens ao mesmo tempo: Maciel com 27 anos e Miranda, de 50 anos. Com esse cenário, surge o triângulo amoroso, o que já se poderia imaginar a partir das idéias que o título sugere.

Ao levarmos em consideração a teoria musical da qual Machado magistralmente se serve, poderemos antever que esse será um conto com um triângulo amoroso marcado pela tristeza, cujo final será, possivelmente, também infeliz.

ADAGIO CANTABILE

Machado introduziu a primeira parte do conto com o subtítulo de Adagio cantabile. Nessa primeira parte, o problema é apresentado e, após a visita dos dois homens que estavam enamorados por ela, Maria Regina sozinha, em seu quarto, põe-se a pensar em ambos. Há para este cenário um fundo musical, cantarolado pela personagem enquanto reconstitui, de memória, cada palavra da conversa ocorrida. É a melodia da sonata por ela executada ao piano momentos antes na sala, durante a visita.

Em linguagem musical, conforme Cosme (1959), Adagio refere-se a um andamento lento. Andamento é o grau de velocidade com que um trecho musical é executado. Uma composição pode conter várias partes que são chamadas de movimentos. Cada um poderá ser escrito para uma velocidade diferente. Os andamentos podem ser lentos, moderados ou rápidos. Dentro da sua categoria, Adagio é o menos lento, já próximo ao moderado. A primeira parte de uma música sempre mostra o tema, isto é, a melodia que vai ser desenvolvida a seguir. Por exemplo: a introdução, em música, é um movimento não muito longo, que costuma apresentar variações sobre o fraseado melódico que a peça contém no seu corpo principal.

Na primeira parte, portanto, aparece uma pequena amostra do tema. É o caso do Adagio cantabile no conto “Trio em lá menor”. Segundo Kiefer (1987), outra característica do Adagio é que permite ornamentos. Em música, ornamentos são sons extras com o objetivo de embelezar sem, no entanto, modificar ou se sobrepor ao tema melódico.

Esses significados de Adagio para a música podem ser aplicados para explicar essa primeira parte do conto. Sendo Adagio cantabile, o subtítulo significa um andamento lento que pode ser cantado, isto é, o tema deve ser interpretado como se estivesse sendo cantado. O fraseado melódico é executado com esse espírito para causar essa mesma sensação em quem ouve. Fica nítido para quem escuta que a música ainda não terminou. Não contém som conclusivo. É um movimento para o qual haverá seqüência. Poder-se-ia dizer que haverá solução. De acordo com Harnouncourt (1990), na música, essa solução chama-se resolução, que é o som que finaliza.

Ao ler a primeira parte descobrem-se pistas do que vai ser tratado. Tal como na música, são apresentadas pinceladas sobre o assunto principal do conto. Como no Adagio cantabile, os eventos surgem um tanto lentos, mas carregados de sentimentos como se estivessem sendo cantabile. A história começa enfeitada por detalhes de beleza da personagem e dos seus sentimentos de amor, respeito e busca da perfeição. Já que também o Adagio pode conter floreios, essa é uma relação direta com a apresentação do triângulo amoroso nesse início do conto: ressaltando o que é bom e belo.

ALLEGRO MA NON TROPPO

Na segunda parte do conto, chamada de Allegro ma non troppo, inicia o desenvolvimento da história. Há um fato envolvendo um dos homens. Maciel arrisca sua vida jogando-se na frente dos cavalos de uma carruagem para salvar um menino que imprudentemente atravessara a rua. Na carruagem, estão Maria Regina e sua avó. A tragédia é evitada, com ferimentos inexpressivos para ambos: vítima e salvador. A partir desse episódio, são ressaltados atributos positivos da personalidade do novo herói, Maciel. Maria Regina reconhece nele tantas qualidades que chega a se perguntar onde arranjaria melhor noivo.

Nessa segunda parte não aparece Miranda e nem Maria Regina menciona ter lembrado dele. Esse fato inclina o leitor a pensar que ela poderia ter se decidido a escolher Maciel, colocando fim ao triângulo amoroso, já predizendo um clássico final feliz, mas tal não acontece.

Analisando pela teoria musical, podemos referir dois significados. O primeiro seria em relação ao andamento dos eventos no conto. Allegro é um andamento rápido. Essa segunda parte chama-se Allegro ma non troppo, isto é, rápido, mas não muito. O desenrolar das ações acontece exatamente como a música descreve esse andamento. O fato concreto, ou seja, o salvamento protagonizado por Maciel, ocorre no início e logo Maria Regina devota-lhe profunda admiração.

Em seguida, transfere indevidamente seu deslumbramento pela atitude do rapaz para os sentimentos que nutria por ele, confundindo o próprio coração. Tal falta de discernimento deixa o leitor em dúvida sobre o futuro do triângulo amoroso.

A direção dos acontecimentos, no relato de Machado, aponta para um lado, vai mais rápido do que no Adagio, que é a primeira parte, mas não com muita velocidade. Em seguida, no final desse segmento, ficamos com uma concreta sensação de que os fatos não estão se encaminhando para a resolução do problema.

O segundo significado, de acordo com Wisnik (2004), o qual também pode ser relacionado com a música é a alegria no real sentido da palavra. Allegro ma non troppo começa com um ato heróico. A mocinha fica feliz, como que inebriada pela coragem do seu herói e, na seqüência, há demonstrações de contentamento. Em cada acontecimento, ela vai sendo tomada por uma satisfação comparável à alegria. Tal sentimento, porém, não é consistente, o que pode ser referido ao significado de ma non troppo porque, já no início da parte seguinte, seu encantamento por Maciel vai enfraquecendo até tornar-se insuficiente.

ALLEGRO APPASSIONATO

Allegro appassionato, terceira parte do texto, é a continuação da visita que Maciel estava fazendo a Maria Regina na noite do mesmo dia do salvamento. A conversa entre Maciel e a avó sobre futilidades corre solta e os sentimentos de Maria Regina vão passando de interesse para indiferença pelo rapaz. Ela tentava se prender na admiração ao belo gesto dele, mas tudo era insuficiente. Logo se descobria entediada de sua presença. Recorria, então, a um singular expediente: criava um personagem que existia só na sua imaginação. Construía uma combinação entre o presente (Maciel, na sua frente) e o ausente (Miranda que não a estava visitando naquele momento). Olhava para um, escutando o outro, de memória. Sua imaginação era tão eficaz que ela conseguiu, por algum tempo, contemplar uma criatura perfeita e única, porém inexistente, pela qual se via completamente apaixonada. Sua paixão era por uma pessoa ficcional.

Mais tarde, quando chegou Miranda, o seu segundo enamorado, Maciel se retirou. Maria Regina, então, na ordem inversa recorreu ao mesmo artifício. Voltou a construir na sua imaginação a complementação de um pelo outro. Na sua frente agora estava Miranda, que, embebido, a escutava na execução de uma sonata ao piano. Nele encontrava a expressão de uma porção de idéias que dentro dela lutavam vagamente sem forma. Tinham o mesmo gosto artístico: amavam a música. Ao contemplá-lo, sentiu nele uma expressão de pedra e fel.

Lembrava-se, então, do Maciel franco, meigo e bom. E, no seu pensamento, um ser irreal tomava forma, mais uma vez, reunindo o que a encantava em cada um deles.

Voltando-se para a interpretação através do que a música apresenta, Allegro appassionato, conforme Kiefer (1987) e Cosme (1959), é um andamento de certa velocidade, mas com claro tom apaixonado. Traduz paixão, move-se pela paixão. É executada apaixonadamente. A paixão é marca forte capaz de transmitir e despertar esse sentimento em quem a ouve.

Enquanto Maria Regina tocava ao piano a sonata ouvida por Miranda, ia formulando mentalmente a figura que amava: juntava este (Miranda) com o outro (Maciel). Amava as idéias e gostos do Miranda com a imagem e a bondade de Maciel. Estava apaixonada por esse terceiro homem, que ela não conhecia. Ele representava o objeto da sua espera e motivo da sua indecisão.

Com o fragmento “... e a música ia ajudando a ficção, indecisa a princípio, mas logo viva e acabada“ (p.135), confirma-se a intenção de Machado em se servir da teoria musical para explicar o conto como um todo, cada uma das partes separadamente e, dentro delas, os eventos que vão se entrelaçando rumo ao final do texto ou em busca de solução.

MINUETO

Minueto, a quarta parte do conto “Trio em lá menor”, inicia com incerteza de tempo transcorrido e reconhecimento da insuficiência individual dos dois homens. A indecisão de Maria Regina aborreceu-os até que, perdidas as esperanças, saíram para nunca mais. Após várias noites transcorridas, quando se convenceu de que estava tudo acabado, Maria
Regina foi até a janela observar os astros. Procurou no céu a confirmação de uma notícia lida no jornal, informando haver estrelas duplas que parecem ser um só astro. Não encontrando no firmamento o que buscava, procurou dentro de si mesma, fechando os olhos. Ao penetrar em seu interior, viu ali dentro a estrela dupla e única. Separadas, valiam bastante, juntas, davam um astro esplêndido. Ela queria o astro esplêndido. Ao abrir os olhos, percebeu a imensa distância que a separava do céu. E se desesperou porque teve consciência da impossibilidade de alcançar o astro escolhido. Notou que estava visualizando fora de si os astros que edificara em sua mente, então deitou e dormiu. Em seu íntimo, transitavam sentimentos de insaciedade, ambição, não contentamento e exigência de perfeição. Maria Regina sonha. No seu sonho, voa na direção de uma bela estrela dupla. O astro desdobra-se e ela fica vagando entre as duas porções em busca do sentimento de satisfação. Foi então que surgiram do abismo palavras incompreensíveis para ela, mas não para o leitor.

A voz disse que a pena de Maria Regina seria oscilar, por toda a eternidade, entre dois astros incompletos. No mesmo instante, a voz afirma que a eterna busca da personagem será sempre acompanhada pelo som da sonata do absoluto: lá, lá, lá... . O leitor entende que as palavras que a protagonista ouviu em sonhos reforçam a idéia do triângulo amoroso na sua vida. Ou ela não encontra o que idealiza ou então não se satisfaz com os valores de um único personagem, não conseguindo assumir uma escolha. Persiste, portanto, a insatisfação que gera o triângulo, antes caracterizado pelos dois homens e agora concretizado na busca por duas estrelas.

Continua, porém, na vida de Maria Regina a constante companhia da música que, nesse momento, é registrada pelo fundo musical proveniente da “velha sonata do absoluto: lá, lá, lá” (p.138).

Ao dizer velha, Machado quer se referir à sonata que a personagem central costumava tocar ao piano desde o início do texto. Ao referir-se a essa composição como “absoluto”, o autor quer defini-la como completa, perfeita, significando que, embora a vida das personagens possa ter tomado um rumo sem final feliz, o mesmo não acontece com a música cujo final repousa sobre um som harmônico.

Tentando entender essa quarta parte pela teoria musical, precisamos lembrar que Minueto é uma peça composta em compasso de três por quatro ao qual chamamos ternário. Conforme Cosme (1959), surgiu em 1650 e serviu para acompanhar uma dança francesa de mesmo nome na corte do rei Luís XIV. É importante registrar que há outra composição musical em compasso de três tempos chamada valsa. Embora possua certa semelhança, há características que a diferenciam do Minueto, sendo que a valsa popularizou-se através dos tempos, ficando conhecida, especialmente, como composição musical de três tempos para dança de salão.

Os episódios aqui relatados mostram eventos marcados por três personagens. Há uma tentativa de solucionar o problema do triângulo amoroso na segunda parte (Allegro ma non troppo), porém, nas seqüências descritas, percebe-se que tal situação é insolúvel já que a possibilidade de resolvê-lo é ficção: foi edificada no plano da imaginação. Quando dois personagens saem da história finalmente se desfaz o triângulo amoroso e Maria Regina continua sua busca. Duas estrelas tornam-se seus dois objetos de interesse. A personagem passa a se movimentar de uma para outra sem conseguir sentir satisfação com uma ou outra. Há, portanto, a manutenção de uma situação em que três elementos estão novamente em jogo.

Podemos relacionar tais fatos com os três tempos da composição chamada Minueto. Do início ao fim da peça, as notas se sucedem sempre obedecendo ao compasso ternário. Exatamente como no conto. Inicialmente com três personagens e, no final, com Maria Regina entre dois astros, os eventos vão seguindo seu percurso, mantendo o ritmo de três tempos como acontece com as notas musicais nos tempos do Minueto.

É importante também mencionar que Minueto é uma composição musical completa e não um andamento da música como são as outras partes do conto. Da mesma forma, Machado, na quarta parte do conto, não se refere a um andamento do romance, pois extinguiu-se. Fala, porém, da vida de Maria Regina, que se move entre dois objetivos. Aborda o tema da eternidade, afirmando que, para a personagem exigente de perfeição e incapaz de sentir satisfação, o ritmo da vida será sempre de três tempos tal qual o Minueto. Na dança de mesmo nome, os pares se deslocam em movimentos variados. Tomam direções diversas, ora para um lado, ora para outro e a dança, como os dias, as semanas e a vida, vai transcorrendo. O som da música acompanha todos os movimentos da dança.

Assim também ocorre no texto de Machado de Assis. Durante todo o conto há a presença da música no enredo, todas as vezes em que a personagem executa a sonata ao piano. E, em outros momentos, a sonata aparece como pano de fundo enquanto a protagonista relembra fatos e conversas. No final do conto, há o registro de que a sonata do absoluto é um fundo musical permanente para a vida daquela que, não conseguindo satisfazer-se com o que encontrou de bom num ponto, continua a oscilar entre dois objetos. A única companhia absoluta, completa que lhe restou foi a da sonata.

Machado de Assis se serve da teoria musical com muita propriedade e não por acaso usa a sonata para sugerir perfeição, porque sonata é uma composição musical em três ou quatro movimentos destinada a um instrumento de teclado. Suas diferentes partes têm começo, meio e fim, revelando-se completa. Movimentos são cada uma das partes que compõe a sonata. Os movimentos são escritos em diferentes andamentos, pois, dentro do mesmo tema, cada um deles tem algo diferente a comunicar. Formam um conjunto harmoniosamente belo, completo, perfeito e absoluto. O som da sonata, sempre presente no pano de fundo, complementa o clima significativo dos eventos.

Também no conto “Trio em lá menor”, as partes são individuais, com características próprias. Juntas formam, como na sonata, um todo completo, com início, desenvolvimento e fim.

Diante de tudo o que foi descrito pode-se dizer que não foi acidentalmente que Machado utilizou a linguagem musical para descrever o conto. Ficou demonstrado que o autor era profundo conhecedor da teoria musical, pois a música referendou o significado de cada uma das partes do conto em particular. Esteve presente no decorrer de toda a narrativa, deixando marcada sua função em todos os momentos. E, mais especialmente, quando a personagem principal colocava-se em silêncio para recordar. Nesses momentos as palavras calavam, mas o som musical continuava a ser escutado por Maria Regina como acompanhamento para seus pensamentos, acrescentando-lhes maior significância. Essa é uma amostra da intensa ligação de Machado e das suas personagens com a música e, nesse conto, com a sonata, em particular.

CONCLUSÃO

No título “Trio em lá menor”, e em todo o desenrolar dos acontecimentos percebe-se claramente que a teoria musical, permeia os eventos, agregando significado ao desenrolar da trama e oferece ao leitor uma oportunidade extra de conhecimento, que o torna capaz de melhor entender a personalidade que o autor pretende para a personagem central de sua obra. A narrativa assume uma maior significância, não ficando limitada ao enredo em si, pois desvenda muito mais do que os simples fatos. O leitor, ao enxergar através do véu, que é o texto de Machado, abre um leque de interpretações e descobre a música.

“Trio em lá menor” é mais uma obra machadiana em que o autor se releva como grande analista da alma humana. Pouco importam as circunstâncias que envolvem a protagonista, a não ser para perscrutar o que se passa em seu íntimo. A ânsia de perfeição que Maria Regina busca em seus namorados reflete a intenção de Machado em mostrar que a criatura humana jamais vai alcançar seus intentos, ficando irremediavelmente só, nesse caso, com sua música. Revela uma visão da vida, em as pessoas da sociedade de sua época têm ambições desmedidas em busca da perfeição numa sociedade imperfeita.

Ao utilizar-se da música como complemento do texto, Machado revelou seu profundo conhecimento e admiração por ela. Em cada momento em que se percebeu a presença da música entrelaçada ao conto, ela colaborou para que o leitor sentisse maior prazer na leitura. A música vai além dos limites que as palavras impõem. Seu entendimento é amplo e, principalmente, subjetivo, outra marca machadiana.

REFERÊNCIAS
ASSIS, Machado de. Trio em lá menor. In:__. Várias histórias. São Paulo: Mérito, 1961, p.125-
138.
COSME, Luís. Introdução à música. 2. ed. porto Alegre: Globo. 1959.
HARNONCOURT, Nikolaus. O discurso dos sons. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990.
KIEFER, Bruno. Elementos da linguagem musical. 5. ed. Porto Alegre: Movimento, 1987.
TOMÁS, Lia. Ouvir o lógos: música e filosofia. São Paulo: UNESP, 2002.
WISNIK, José Miguel. O som e o sentido. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
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Continua… análise do conto 8. Adão e Eva
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Fonte:
Santa Cruz do Sul, v. 33 n especial, p. 88-98, jul., 2008. http://online.unisc.br/seer/index.php/signo/index

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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