Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 31 de maio de 2011

A. A. de Assis (Trovia n. 138 - junho de 2011)

Inesquecíveis

Não furto beijos, que em suma
só furta quem é ladrão.
Mas não sou pobre soberbo...
e aceito quantos me dão!
Albano Lopes de Almeida

Senhor, em minha oração
eu peço em termos exatos:
- Fazei que os maus sejam bons
e os bons sejam menos chatos...
(Autor não identificado)

Mulher feia dá sossego,
mulher bonita aflição;
descobri que andar aflito
me faz bem ao coração...
Alcides Carneiro

Quando acaso sinto, crede,
vontade de trabalhar,
deito-me logo na rede
até a vontade passar...
Augusto Linhares

Teu coração me ofereces,
mas não o posso aceitar.
– Há lá dentro tanta gente,
que eu não encontro lugar...
Dieno Castanho

Com noventa anos de idade
a velha se confessou.
Pecado?... Não. Só vaidade
de dizer que já pecou...
Djalma de Andrade

Amigos tenho à vontade
quando a eles não recorro;
mas, se vem a adversidade,
fico até sem meu cachorro...
José Leite

"Que levas tu na mochila?",
diz ao corcunda um peralta.
E o corcunda: - "A alma tranquila
e a educação que te falta."
Lilinha Fernandes

Se os beijos todos ficassem
como furinhos, amor,
teu rosto seria como
um ralo de regador...
Luiz Edmundo

Muito esquisitos eu acho
teus vestidos, minha prima:
são altos demais embaixo,
e baixos demais em cima...
Nero de Almeida Senna

Radiografei o teu busto
para ver teu coração...
E quase morri de susto:
tinha a forma de um cifrão.
Paulo Edson Macedo

Se ela, afinal, com efeito,
deu-te os lábios a beijar,
com um pouco de audácia e jeito
tudo o mais hás de alcançar...
Petrarca Maranhão

Diz o homem, por vaidade,
que é parte fraca a mulher.
Mas, nessa fragilidade,
ela faz dele o que quer...
Rita Lara

Eu tive um mau pensamento,
e envergonhada coraste.
– Se de maldoso eu o tive,
de maldosa o adivinhaste.
Soares da Cunha

Trova é bom para a saúde, / faz amigos, dá prazer.
Talvez até nos ajude / a esquecer de envelhecer... (aaa)

Brincantes

No rosto só tem pintura:
rouge, pó, batom vermelho.
Mesmo com tanta feiúra
quer botar culpa no espelho!...
Ademar Macedo – RN

Se deu bem mal minha amiga,
e agora não tem mais jeito:
Escorregou pra barriga
o silicone do peito.
Darly O. Barros – SP

Uma fotinha mandai-me,
para enfeitar o meu book...
pruquê já faiz longue taime
que nós, amor, não se look...
Flor de Pádua – PR

No táxi, ao fazer um “bico”,
furei o pneu no buraco,
e só não “paguei um mico”
porque levei o “macaco”.
Edmar Japiassú Maia – RJ

Não toque no porco-espinho
com a mão desprotegida;
ele só quer um carinho
da porca de sua vida.
José Marins – PR

Não por acaso, sou fã
deste casal fascinante:
– o meu galinho é um “galã”;
minha galinha, “chocante”...
Osvaldo Reis – PR

Confuso, o dono do empório
não anda bom da veneta:
na orelha um supositório,
mas nem sinal da caneta!
Sérgio Ferreira – SP

Líricas e filosóficas

Na biblioteca há mil sábios
a nosso inteiro dispor.
– Sem sequer mover os lábios,
cada livro é um professor.
A. A. de Assis – PR

Não irá jamais embora
quem deixou tanta amizade;
a despedida de agora
é presença na saudade.
Almir Pinto de Azevedo – RJ

Depois de um chuvoso dia,
vendo o sol resplandecer,
eu sinto a mesma alegria
de quando te volto a ver.
Amaryllis Schloenbach – SP

Falar, se é dever calar-se;
calar, se é dever dizer,
são dois sinais sem disfarce
de um fraco de proceder.
Amilton Monteiro – SP

O café que aquece as almas
e adoça nossas lembranças
merece todas as palmas,
companheiro de esperanças.
Carmen Pio – RS

Vivo em busca de carinho,
em castelos de ilusão...
Tanto tempo estou sozinho,
quem me aquece é a solidão.
José Feldman – PR

Zarpei ao romper do dia
no meu barco a velejar
para “pescar” a poesia
que a Lua escondeu no mar.
José Lucas de Barros – RN

Que um dia o velho canhão,
neste mundo tão falaz,
feito a cruz para o cristão,
seja o símbolo da paz!
José Messias Braz – MG

Discórdias, sonhos frustrados,
e as mágoas não resolvidas,
são os nós não desatados
das cordas das nossas vidas...
José Valdez – SP

Teu beijo, bombom cremoso
de conhaque com anis,
é o manjar mais saboroso
que minha boca já quis!
Lisete Johnson – RS

Quem não sabe, quem não sente
que às vezes nos custa caro
essa audácia de ser gente,
quando ser gente é tão raro?!
Carolina Ramos – SP

Enganar que sou feliz
é coisa inútil, porque
meu sorriso triste diz
quanto sofro sem você.
Conceição de Assis – MG

Em contraposta à mentira,
somente a sinceridade;
mesmo quando também fira,
nada melhor que a verdade.
Diamantino Ferreira – RJ

Quem sai da terra querida,
em meio à dor e à saudade,
semeia o chão na partida
com sementes de saudade.
Djalma da Mota – RN

Eu ergo a taça a brindar
a noite que o quarto invade
e, no cristal do luar,
bebo o vinho da saudade!
Domitilla B. Beltrame – SP

Quem diz que o sonho acabou
se engana... a ilusão não finda.
Quanta gente já acordou,
e teima em sonhar, ainda!
Dorothy Jansson Moretti – SP

A realidade da vida
marca no rosto da gente
a distância percorrida
entre o passado e o presente!
Eduardo A. O. Toledo – MG

Com pás eram carregadas,
no frio de uma clareira,
as palavras congeladas
pra derreter na fogueira!
Eliana Palma – PR

Esse mundo feminino
de segredos permeado
é um gracejo do destino
pelos homens odiado.
Eliana Ruiz Jimenez – SC

O nosso beijo envolvente,
na rotina que amanhece,
é o apelo mais urgente
para que a noite se apresse!
Elizabeth Souza Cruz – RJ

O discípulo leal
três vezes negou Jesus.
Eis o motivo real:
medo dos cravos na cruz.
Evandro Sarmento – RJ

A bela flor de papel
que tu me deste outro dia
foi tão perfeita e fiel
que o cheiro dela eu sentia!...
Eva Yanni Garcia – RN

Amizade é aquele peito
com compasso diferente
que procura a qualquer jeito
bater igual ao da gente!
Francisco Pessoa – CE

No tronco de uma mangueira
escrevi: Felicidade...
Mas alguém, por brincadeira,
riscou e escreveu: Saudade!
Gasparini Filho – SP

Nesta vida tão inquieta,
o meu consolo é pescar.
Sou pescadora-poeta,
que pesca versos no mar!
Gislaine Canales – SC

Deus menino, por sinal,
fez de mim um puritano
orando ao mais divinal
hierosolimitano.
Haroldo Lyra – CE

A noite fria se eleva,
aberta de par em par...
Do infinito a lua neva
o lírio do seu luar.
Humberto Del Maestro – ES

Não choro o tempo perdido
num caminho mal traçado;
o que já foi percorrido,
bem ou mal foi caminhado...
Istela Marina – PR

A graça de Deus é tanta,
nos protege e faz tão bem...
Cada filho Ele acalanta,
sem se esquecer de ninguém.
Jeanette De Cnop – PR

Terias hoje a certeza
de que te amei de verdade,
se te alcançasse a tristeza
que me traz tua saudade!
José Fabiano – MG

Na pouca pressa que tens
de aliviar minha saudade,
enquanto espero e não vens,
transcorre uma eternidade!
Lucília Decarli – PR

En el polen de tu beso
nace la flor del amor;
mi corazón está preso
en tu fuego abrasador.
Mª Cristina Fervier – Argentina

O presente mais bonito
fui eu mesma que me dei:
num momento de conflito,
dei-me a paz... e perdoei!
Maria Ignez Pereira – SP

Imortal não sou agora,
mas eu tenho uma alegria:
– Sou poeta e ao “ir-me embora”...
deixo um rastro de poesia!
Mª Lúcia Daloce – PR

Para encantar a velhice,
ser tranquilo, sonhador,
há que desde a meninice
plantar sementes de amor.
Marina Valente – SP

Plácido, corres no leito,
às margens, onde nasci;
ó Iguaçu, trago em meu peito
a água que é parte de ti!
Mauricio Friedrich – PR

En alas de una paloma
viajará me beso amigo,
y el encanto de tu aroma
le dará su amor y abrigo!
Miguel Almada – Argentina

Sangra a terra, quando arada:
fica frágil, tão exposta...
Mesmo sofrendo calada,
com seus frutos dá a resposta.
Olga Agulhon – PR

Quando você se encontrar,
talvez não me encontre mais;
os tempos do verbo amar
são só agora ou jamais.
Olympio Coutinho – MG

No rodeio do existir,
peço a Deus, a todo instante,
que eu não caia e, se cair,
com mais força me levante.
Newton Vieira – MG

Assisto com emoção,
sob a luz dos candeeiros,
nas noites do meu sertão
ao cantar dos violeiros.
Roberto Acruche – RJ

O belo na juventude
traz orgulho, por costume.
Mas beleza sem virtude
é qual rosa sem perfume...
Ruth Farah – RJ

Uma lágrima dorida,
nos olhos turvos, tristonhos.
No encontro da despedia,
a renúncia dos meus sonhos.
Sônia Sobreira – RJ

Das bofetadas que a vida
me deu sem muita piedade,
tu foste a mais dolorida
e a que mais deixou saudade.
Thalma Tavares – SP

Agora peço somente,
ao tempo de que disponho,
que um tempo me dê, paciente,
para que eu viva o meu sonho...
Thereza Costa Val – MG

Tendo o amor por inquilino,
com coragem e artimanha,
meu coração é um menino
que ora bate... que ora apanha!
Therezinha Brisolla - SP

Em vez de gritar ao vento
que tens um grande saber,
mostra o teu real talento:
Age... sem nada dizer!
Vanda Fagundes Queiroz – PR

Redor do fogo no chão,
contos, histórias e lendas.
Assar na brasa o pinhão,
lindas noites nas fazendas.
Vidal Idony Stockler – PR

Luto por meus ideais,
com audácia entre os abalos,
que não abalam jamais
a esperança de alcançá-los!
Wanda Mourthé – MG

Nosso amor, nossos carinhos,
vão conosco na viagem,
pondo flores nos caminhos
e embelezando a paisagem!
Yedda Patrício – SP

Fonte:
A. A. de Assis

Mario Quintana (Livro de Poesias)


DOS MILAGRES

O milagre não é dar vida ao corpo extinto,
Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo...
Nem mudar água pura em vinho tinto...
Milagre é acreditarem nisso tudo!

DA INQUIETA ESPERANÇA

Bem sabes Tu, Senhor, que o bem melhor é aquele
Que não passa, talvez, de um desejo ilusório.
Nunca me dê o Céu... quero é sonhar com ele
Na inquietação feliz do Purgatório.

SE EU FOSSE UM PADRE

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
... a um belo poema ainda que de Deus se aparte
um belo poema sempre leva a Deus!

BILHETE

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

OBSESSÃO DO MAR OCEANO


Vou andando feliz pelas ruas sem nome...
Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano...
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas... e moças nas janelas
Com brincos e pulseiras de coral...
Búzios calçando portas... caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos...
Nisto,
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su'alma perdida e vaga na neblina...
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos...
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas...
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.

O MAPA

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...

(E nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...

Ha tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Ha tanta moca bonita
Nas ruas que não andei
(E ha uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso…

ESPELHO

Por acaso, surpreendo-me no espelho:
Quem é esse que me olha e é tão mais velho que eu? (...)
Parece meu velho pai - que já morreu! (...)
Nosso olhar duro interroga:
"O que fizeste de mim?" Eu pai? Tu é que me invadiste.
Lentamente, ruga a ruga... Que importa!
Eu sou ainda aquele mesmo menino teimoso de sempre
E os teus planos enfim lá se foram por terra,
Mas sei que vi, um dia - a longa, a inútil guerra!
Vi sorrir nesses cansados olhos um orgulho triste...”

A RUA DOS CATAVENTOS


Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Marcelo Spalding (Escrever não é Trabalho, é Ofício)


Poucos são os escritores consagrados em seu tempo, premiados pela crítica e queridos pelos leitores, e raros os que, depois de obter tal reconhecimento, ainda dispõem-se a compartilhar sua arte e ensinar jovens escritores sobre os ofícios e os mistérios da produção literária. Para sorte dos que moram em Porto Alegre, há nestes pagos uma destas raridades, e se trata nada mais, nada menos do que o maior romancista do Estado, Luiz Antonio de Assis Brasil.

Assis Brasil há mais de vinte anos ministra uma oficina de criação literária concorridíssima – oficina que lançou para a literatura nomes como Cíntia Moscovich, Amílcar Bettega, Michel Laub, Letícia Wierzchowski e Daniel Galera – em que ensina técnicas e discute possibilidades da criação em prosa nos moldes dos cursos de creative writting norte-americanos, de onde Assis não nega vir a inspiração. O aprendiz ouve dicas como “evite uma grande quantidade do pronome que”, “leia seu texto em voz alta”, “deixe seu texto dormir antes de reler”, “evite levar a personagem para a janela, os escritores quando não sabem o que fazer sempre colocam a personagem na janela”, e assim por diante. Mas há uma grande lição que fica de toda a oficina, de todo o pensamento do mestre: literatura é trabalho. Ou melhor, ofício.

Pois em Música perdida (L&PM, 2006, 220 págs.), mais recente romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, o protagonista é um músico com a mesma angústia de todo escritor, de todo artista, qual seja produzir uma grande obra de arte, o que permite ao narrador travestir-se daquele mestre das oficinas e dar-nos pequenas lições:

“O compositor musical convive com a natureza e os homens. Num determinado momento, sempre novo e inexplicável, uma pequena e desconhecida melodia aflora a seus lábios, e logo ele a está cantarolando. A isso pode se chamar de inspiração. O resto é trabalho de pendurar as notas no pentagrama, escolher a tonalidade, estudar os acordes, obedecer – ou não – às regras da harmonia e do contraponto. Isso, aliás, não é trabalho: é ofício, como o exercido por qualquer escritor”.

O protagonista da obra é Joaquim José de Mendanha, conhecido no Rio Grande do Sul por compor nosso hino, mas representado na obra desde a infância. Filho de maestro da pequena cidade de Itabira, Mendanha é abençoado com um ouvido absoluto (reconhece as notas musicais em cada som do cotidiano), o que motiva o pai a mandá-lo para Vila Rica a fim de estudar música. Na cidade, conhece um rico minerador, o ambíguo Bento Arruda Bulcão, que ajuda o jovem a prosseguir seus estudos no Rio de Janeiro com o célebre compositor Padre-Mestre José Maurício Nunes Garcia. E é a partir do contato com o mestre que Mendanha resolve compor, e de fato compõe uma belíssima cantata que o Padre-Mestre de pronto rejeita, mas a verdade é que ela o perturba por estar muito acima da capacidade dos ouvidos brasileiros. Por isso Mendanha, quando tiver oportunidade, deixará sua partitura com um francês que promete entregá-la a Rossini, ato este que marca sua existência, pois sua música acaba perdida. Por mais que se esforce, o músico não sabe repetir a composição que ele julga perfeita, e angustiado pela perda da música e dos entes queridos, alista-se no Exército, atravessa o Brasil e desafia a guerra de 1835 no Sul.

Como maestro do Exército, Mendanha é preso pelos rebeldes (leia-se Farroupilhas) e obrigado a compor o hino da República Rio-Grandense (melodia que se mantém no hino atual do Estado). Mas depois é recapturado pelos imperiais, pede baixa do exército e vai viver com sua esposa na longe e fria Porto Alegre do século XIX, onde trabalha como maestro, compõe diversos hinos mas convive com uma angústia que é o cerne da narrativa: não considera-se um artista. Não considera ter feito sua obra-prima. Ou melhor, acredita ter perdido para sempre a obra que lhe abriria as portas do céu devido a sua excelência.

Não é preciso forçar muito para vermos na ambição, na angústia e na meticulosidade do músico um pouco do mestre das oficinas. Logo num primeiro olhar se percebe que Música perdida é por si só fruto de muito trabalho, não este trabalho do mercado que nos exige tantas horas de produção em massa, mas um trabalho artesanal que mescla disciplina e rigor com inspiração e talento. As frases e os capítulos são curtos e densos, cada palavra foi pensada, medida, e o texto vai se desenhando como uma partitura musical repleta de ritmos e significados.

“O tio ensinou-lhe como as notas deveriam ser desenhadas, porque de desenhos se tratavam. Começou pela semibreve, um círculo branco, achatado. A semibreve soava por mais tempo. Durava quatro batidas do dedo sobre a mesa: 1, 2, 3, 4. Em seguida, a mínima, que era a semibreve com uma haste que subia, duas batidas: 1, 2. A semínima era uma notinha negra, com uma haste para cima. As colcheias eram como semínimas, mas a haste para cima. As colcheias eram como semínimas, mas a haste possuía uma bandeirola. As hastes poderiam ser para cima ou para baixo. E assim por diante. Pilar perguntou como os músicos, só olhando aquelas notas, sabiam o que tocar."Deus" – o tio respondeu – "lhes dá esse dom"”.

Quem não acompanha a carreira de Assis Brasil com cuidado e leu um ou outro dos seus romances iniciais (Videiras de Cristal, Bacia das almas, Cães da província), de certo ficará surpreso com a concisão e o minimalismo da linguagem de Música perdida. Mas há uma explicação, e esta é uma história interessante: na viragem do milênio, o autor escrevia seu décimo quinto romance quando, a certa altura, achou que estava se repetindo e apagou tudo o que tinha escrito. Conta o mestre que então abriu em sua biblioteca um livro de El Cid e deu-se conta de que dizer mais em menos espaço era a solução técnica que procurava. “Na Idade Média se fazia assim, a Bíblia é escrita assim”, ele diz. E desta forma escreveu Pintor de Retratos, lançado em 2001 e A margem imóvel do rio, de 2003, este premiado com o Jabuti e o Portugal Telecom.

Música perdida, neste contexto, é o terceiro livro depois da mudança estética, o fecho de uma trilogia que o autor chama de “Visitantes ao Sul”, e também um marco do trigésimo ano de sua estréia com Um quarto de légua em quadro, em 1976. De lá para cá, de obra em obra, sempre enraizado no Sul e com os olhos voltados para o passado de formação da nossa identidade, Assis Brasil tem se revelado um mestre em seu ofício, um mestre que não se contentaria em armar e medir com engenho palavras, frases e capítulos, mas também compor as obras e publicá-las cada uma a seu tempo, construindo assim uma sólida carreira e um conjunto ficcional perene e respeitável.

Fonte:
Artistas Gaúchos

Carlos Correia Santos (Romance de Escritor Amazônico é Lançado em Portugal)


Com prefácio assinado por José Louzeiro e nota de orelha escrita por Olga Savary, obra traz como pano de fundo polêmico projeto da Cia. Ford Motors.

Escritor também terá livro lançado na África

Registros e detalhes sobre uma marcante odisséia vivida pela Amazônia vão aportar em solo europeu graças à literatura. Emoldurado por referências sobre um dos mais polêmicos projetos industriais já realizados na História recente, o romance "Velas na Tapera", do escritor Carlos Correia Santos, será lançado em Lisboa no próximo dia 06 de junho em um recital litero-musical promovido pela FNAC Chiado. O evento promete ser uma fusão cultural que contará com uma mostra de música brasileira e amazônica a cargo dos artistas Fercy Nery (na voz e violão) e Attila Argay (na bateria). A programação incluirá um bate-papo com o autor, além da sessão de autógrafos.

Resultado de seis anos de pesquisa, "Velas na Tapera" tem como pano de fundo a colossal história de Fordlândia, núcleo urbano erguido pela Cia Ford nos anos 20, em plena selva amazônica, para produção de látex destinado à fabricação de pneus que seriam utilizados pela poderosa empresa automobilística. O projeto acabou abandonado depois que a plantação de seringueiras foi atacada por uma praga. É pelo cenário da abandonada cidade americana, em meio ao ermo da mata, que transitam os personagens da narrativa. Em especial, Rita Flor.

Rita perde sua filha de seis anos. Após um misterioso incêndio em sua tapera, ela acredita que sua menina virou uma milagreira e decide construir uma capela em sua homenagem. A jovem não tem dinheiro para cumprir seu intento. O único caminho que lhe resta é prostituir-se. O sagrado e o profano deitam-se na mesma cama. Em meio ao vazio e ao desencanto que transformam Forlândia numa vila fantasmagórica, Rita vende seu corpo para santificar a filha.

PRÊMIO E AVAL

"Velas na Tapera" venceu em 2008 o Prêmio Dalcídio Jurandir, promovido pela Fundação Tancredo Neves (FCPTN), uma das mais importantes entidades culturais da região amazônica. A obra tem prefácio assinado pelo romancista José Louzeiro (autor de clássicos da literatura brasileira, como Pixote e Lúcio Flávio - O Passageiro da Agonia) e orelha assinada por Olga Savary (uma das mais importantes poetas brasileiras, considerada a introdutora do hai-kai nas letras nacionais.

"Sinto que é uma honra em todos os sentidos poder lançar esse trabalho em Portugal. Primeiro porque consigo provar que, mesmo sem a cobertura de mercado de uma grande editora, é possível fazer circular a produção literária. O romance chegou aos leitores graças a um prêmio. Foi editado por uma fundação amazônica e, ainda assim, está trilhando um caminho sólido", ressalta Correia. E ele complementa: "Essa possibilidade de intercâmbio também é sempre fascinante. Para quem cria narrativas em língua portuguesa é uma experiência emocionante poder levar seus ditos ao país berço do idioma com o qual labuta".

Em breve, o trabalho de Correia também chegará à África. Em 2009, o romancista e dramaturgo venceu o concurso Literatura para Todos, promovido pelo Ministério da Educação do Brasil, com a peça infantil "Não Conte com o Número Um no Reino de Numesmópolis". O trabalho está sendo editado numa coleção com tiragem de 300 mil exemplares que serão distribuídos em escolas brasileiras e africanas.

TRECHOS DO PREFÁCIO DE VELAS NA TAPERA

PERSONAGEM EMBLEMÁTICA
José Louzeiro*

"(...) Em boa hora, o nome do injustiçado Dalcídio vira prêmio literário em Belém, Pará, e o vencedor é o talentoso Carlos Correia Santos - "Velas na Tapera" - que prima pela criatividade, e eu até diria, pela singularidade na maneira de expressar-se.

Isso faz com que este "Velas na Tapera" seja uma obra cativante e originalíssima. O autor brinca com as frases sincopadas e a elas dá espírito novo, através de sugestivas e oportunas expressões metafóricas. A par desses recursos, de certa maneira cultivados por Guimarães Rosa, há que se destacar a preocupação do autor com a questão social, coisa essa imanente em todas as obras de Dalcídio.

A personagem trabalhada, dramaticamente por Carlos Correia é Rita Flor que, com suas vestes pretas, transforma-se numa espécie de estandarte vivo do sofrimento e da desesperança; da mulher diante de seus problemas pessoais, mas funcionando como figura emblemática neste livro que é a narrativa, também, do desastre de uma grande aventura industrial - a Fordlândia (Companhia Henry Ford Motores e Cia.) - que se instala em plena selva amazônica, mas pouco depois sobrevém a desilusão: o projeto naufraga no mar de folhas de todos os verdes, os prédios tornam-se taperas, as máquinas são esquecidas no matagal, como a pedir socorro pelo abandono a que foram entregues.

Mas ao autor, experiente teatrólogo, não basta contar a história do naufrágio do ambicioso projeto industrial numa região da mais absoluta carência; ele se esmera na técnica do dizer, do inventar, literariamente, coisa essa que o coloca no plano mais alto que um escritor poderia aspirar. Claro está que neste "Velas na Tapera" há muitos e bem traçados personagens, mas a figura que transcende é a de Rita Flor, forte e decidida como certas personagens da obra de Bertolt Brecht.

O enterro que Rita faz da filha equivale, nas entrelinhas, ao verdadeiro e definitivo funeral (ou pá de cal?...) do projeto norte-americano que se tornou esperança de vida para uma comunidade inteira, na floresta que guarda tanto viço e riquezas a serem descobertas.

Neste "Velas na Tapera", Rita me faz lembrar, de certa forma, "A Alma Boa de Setsuan" (Brecht), pois ela é, na verdade, uma "parábola teatral," ao mesmo tempo em que pode ser o espírito da mata, da dor materializada no pólen das flores, da decadência, das malárias e pesadelos, dos que sonharam e acordaram perdedores, tremendo no frio da desesperança.

Com este primeiro romance, se Carlos Correia já era considerado versátil teatrólogo, agora estréia na condição de ficcionista que prima pelas inovações e capacidade narrativa. Depois de sepultar a filha Saninha, Rita "se deitaria para sempre sobre a solidão", pois ela passa a ser a personificação do que, popularmente, chamamos de "alma penada", sujeita a chuvas e trovoadas.

O autor traça de tal forma o desenho desta personagem que sua projeção estende-se sobre a narrativa, torna-se absoluta e por que não dizer, chocante, surpreendente, pois é clara a intenção do autor em revolucionar as velhas formas "do dizer e do sentir" no contar de uma história.

"Velas na Tapera" é o que se pode chamar de realismo mágico a envolver a pequena comunidade marcada pela ausência de caminhos. Apenas Rita trilha as picadas da ausência, na louca tentativa de resgatar Saninha, materialização da saudade, do que se foi, não é mais. Menos para Rita. Curioso: essa metáfora, criada com maestria pelo ficcionista, envolve todos os habitantes das taperas, inconscientes da realidade que é uma espécie de rio sem começo e sem fim.

Somente Rita Flor, com as pegadas que deixa pelos caminhos fundos, pulsa como sendo a dor e a oculta paixão de certos homens, que sabem não serem correspondidos, pois o coração de Rita foi sepultado com o corpo de Saninha.

No desvario dela própria e no dos outros é que Rita encontra forças para manter-se viva no seu "mudo prantear". Mas na visão estreita dos vizinhos ela é apenas a desmemoriada, que tudo perdeu - o marido, a casa incendiada - e, agora, vive das luzes que recebe da filha sepultada, mas que, para ela, mantém-se "vela acesa" ou sonho que não se deixa mesclar pelas cores soturnas do seu desafiador existir.

No mundo especial em que Rita transita, além das folhas verdes da floresta, há velas acesas a iluminar sua passagem. Pena que ela já tivesse "um ver que não via nada", nem seus ouvidos registravam os "sussurros do mato" e muito menos os "cochichos de reentrâncias".

As dores transformaram Rita Flor em assombração no inconsciente dos humilhados e ofendidos. Com este livro, Carlos Correia demonstra ser um grande conhecedor do poder das metáforas e de como utilizá-las com sutileza e sabedoria.

* Um dos mais importantes nomes das letras nacionais, José Louzeiro é autor de 40 livros e criador, no Brasil, do gênero intitulado romance-reportagem. Atuou em célebres veículos de comunicação, como "Última Hora", "Correio da Manhã" e Revista Manchete. No cinema já assinou, como roteirista, dez longas-metragens, dos quais pelo menos três se tornaram populares: "Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia", "Pixote" e "O Homem da Capa Preta". Lançou pela Editora Francisco Alves o estudo biográfico intitulado O Anjo da Fidelidade, sobre Gregório Fortunato, o "anjo negro" de Getúlio Vargas. Em 2001, pela Editora do Brasil: "Isto não deu no jornal" (memórias de sua passagem por cinco jornais cariocas). E em 2002, "Ana Nery, a brasileira que venceu a guerra" (Editora Mondrian): biografia da heroína baiana, patrona dos en fermeiros brasileiros. O trabalho foi adaptado para a televisão, tendo Marília Pêra como protagonista. Ainda na TV, foi o autor de novelas como "Corpo Santo".

ORELHA DE VELAS NA TAPERA

A VELA ACESA POR SAVARY
Olga Savary*

Da complexidade do ser, da própria solidão e solidariedade humana, da sua simplicidade e estranheza, são realizados os textos de Carlos Correia Santos, seja na poesia, nos contos, no teatro ou no romance. Sua dedicação à cultura e à Arte faz deste autor paraense, deste grande brasileiro, um candidato constante às premiações importantes nas áreas citadas: poesia, ficção, peças teatrais.

Assisti com orgulho a uma premiação obtida por ele no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro, em 2006. Carlos Correia Santos destacou-se entre dezenas e dezenas de concorrentes. Seu talento impulsionou-o a sobrepujar os demais candidatos. Uma platéia seleta e atenta assistia a apresentação do trabalho de Correia e tinha o direito de votar no melhor participante.

A literatura e a arte foram os meios de expressão eleitos por Carlos Correia Santos, que bem poderia pertencer à Academia Paraense de Letras. Seria uma honra para a APL tê-lo junto aos Acadêmicos, que só teriam a ganhar.

Além de seus méritos pessoais, no trabalho em seus livros, em tudo o que faz, Carlos Correia Santos é um guerreiro, um lutador pela cultura geral e pela cultura paraense em particular, sem falar na sua esplêndida atitude como pessoa, em sua admirável postura diante da vida e dos outros.

Pela extrema elegância e gentileza, pela classe e nobreza com que se conduz em tudo, Carlos Correia Santos é um príncipe. Orgulho-me de ter o privilégio de ser sua fraterna amiga.

* Poeta, contista, tradutora e organizadora de antologias. Artista nacionalmente aclamada, é uma das introdutoras do hai-kai no Brasil.

CARLOS CORREIA SANTOS (CONTATOS)

Poeta, dramaturgo, romancista
E-MAIL: carloscorreia.santos@gmail.com
MSN: cacopoeta@hotmail.com
TWITTER: @cacopoeta
BLOG 01: http://nadasantostudoalma.blogspot.com
BLOG 02: http://mesmoquenaoqueiraseutecontos.blogspot.com
BLOG 03: http://graosparahistoria.blogspot.com


Fonte:
Carlos Correa Santos

Carlos Correia Santos

  1. Carlos Correia Santos é paraense, natural de Belém. Bacharel em Direito. Poeta, contista, cronista, dramaturgo, roteirista e romancista, Carlos Correia Santos tem feito da diversidade uma grande marca de sua carreira. É escritor vencedor do Prêmio Dalcídio Jurandir 2008, na categoria romance, com a obra "Velas na Tapera", concurso de vulto nacional criado para celebrar o centenário do romancista Dalcídio Jurandir. É autor do premiado livro de poemas "O Baile dos Versos", obra que ganhou especial saudação da Academia Brasileira de Letras, em 1999. Também são de sua autoria as obras "Poeticário" (poemas), "No Último Desejo a Carne é Fria" (coletânea de contos), "Nu Nery" (teatro), Ópera Profano (teatro / Prêmio Cidade de Manaus) e "Batista" (teatro).
Como escritor na área de artes cênicas, coleciona importantes láureas nacionais, como o Prêmio Funarte de Dramaturgia por três anos consecutivos (2003, 2004 e 2005), o Prêmio Funarte Petrobras de Fomento ao Teatro (2005), o Prêmio Funarte Petrobras de Circulação Nacional (2006) e o Edital Seleção Brasil em Cena do Centro Cultural Banco do Brasil.

Incluídos no Catálogo da Dramaturgia Brasileira da renomada autora Maria Helena Kühner (iniciativa detentora do Prêmio Shell), seus textos teatrais já ganharam diversas montagens e já foram apresentados nas cidades brasileiras de Belém, São Luís, Natal, Recife, Camaçari, Piracicaba, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

Suas peças já foram traduzidas para o francês e espanhol. Importantes artistas brasileiros, como Stella Miranda (que interpretou a síndica do humorístico "Toma La, Dá Cá", de Miguel Falabella, exibido na TV Globo), já assinaram direção de suas obras.

Em 2009, foi o autor vencedor da categoria dramaturgia do III Concurso Literatura para Todos, promovido pelo Ministério da Educação. O texto premiado chama-se "Não Conte com o Numero Um No Reino de Numesmópolis". No cinema, foi agraciado com o Prêmio do Edital Curta Criança do Ministério da Cultura. Assinou a seção Contando Um Conto, no jornal O Liberal (um dos maiores da região Norte) e Portal ORM. É colaborador, com seus contos, do jornal O Estado do Acre e dos sites BV News (Roraima), Amapá Digital (Amapá), Manaus On Line (Manaus), Madeira On Line (Rondônia) e Timor On Line (Timor Leste).

Fonte:
Texto enviado pelo Autor

Monteiro Lobato (Histórias de Tia Nastácia) XL – A História dos Macacos


Antigamente, lá no começo do mundo, os macacos moravam com os homens nas cidades. Falavam como eles, mas não trabalhavam.

Certa vez houve uma grande festa. Durante um dia e uma noite o tanta não parou de soar. Todos dançavam e bebiam um vinho feito de caldo de palmeira, porque ainda não era conhecida a uva. O velho chefe da tribo saiu dali cambaleando e foi parar no bairro dos macacos.

Antes não fosse! Os macacos judiaram dele. Uns puxavam-lhe a tanga, outros punham-lhe a língua, outros beliscavam-lhe a pele. Tamanha foi a falta de respeito que o velho chefe enfureceu-se a ponto de queixar-se a Nzame, a divindade da tribo.

Nzame mandou chamar o chefe dos macacos. Passou-lhe uma grande descompostura e disse:

— De hoje em diante, como castigo, os macacos têm que trabalhar para os homens.

Mas os macacos revoltaram-se contra a ordem do deus. Juraram não trabalhar.

Quando iam para a roça, penduravam-se nas árvores do caminho, davam pulos pra aqui, pra ali, fugiam. Não houve meio de conseguir deles nenhum trabalho. O chefe da tribo danou.

— Preciso dar uma lição nesta macacada.

Depois de refletir algum tempo deu ordens, para uma grande festança, onde houvesse muito vinho. Mas dividiu as cabaças de vinho em dois lotes — um de vinho puro e outro de vinho misturado com uma erva dormideira. "Este é para os macacos" disse ele.

Quando os macacos souberam da grande festa e da grande vinhaça, aproximaram-se todos muito xeretas. Dançaram, pularam e beberam até não poder mais. Meia hora depois dormiam sono profundo.

O chefe, então, mandou que os seus homens metessem o chicote nos macacos até deixá-los peladinhos — e no dia seguinte botou-os no serviço.

Mas quem pode com macaco? — O berreiro que fizeram foi tamanho que o chefe, completamente zonzo, deu ordem para que lhes cortassem a língua.

"É o único meio de acabar com esta gritaria." Ficaram os macacos sem línguas — mas dois dias depois sumiram-se da aldeia, afundando no mato. Nunca mais quiseram saber dos homens — e também nunca mais falaram. Quem tem língua cortada não fala.
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— Esta história se parece, com as nossas daqui — disse Narizinho. — Bem bobinha.

— Sim, mas que havemos de esperar dos pobres negros do Congo? Sabem onde é o Congo?

— Sei — disse Pedrinho. — É quase no centro da África, do lado daquela costa que o senhor Pedro Álvares Cabral evitou de medo das calmarias. Há o Congo Belga e o Congo Francês. E sei também que cá para o Brasil vieram muitos escravos desses Congos.

— É verdade. O pobre Congo foi uma das zonas que forneceram mais escravos para a América, de modo que muitas histórias dos nossos negros hão de ter as raízes lá.

— Quem sabe se tia Nastácia é do Congo? — lembrou Narizinho.

— Não — disse dona Benta. — Nastácia é neta dum casal de negros vindos de Moçambique.

— Hum, hum! — exclamou Emília. — Moçambique! Que luxo...

— Conte outra, vovó — pediu Pedrinho. — Conte uma história dos esquimós.
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Continua… XLI – O Rato Orgulhoso
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Fonte:
LOBATO, Monteiro. Histórias de Tia Nastácia. SP: Brasiliense, 1995.
Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source

Sidnei Schneider (Cuidados Com Quem Faz da Palavra Arte)


Ao ficcionista ou poeta, explorar o vórtice das contradições do ser humano, da sociedade e do mundo não é algo ocasional, mas parte inafastável do seu cotidiano. O que outros varreriam para baixo do assoalho, a fim de se ocuparem das responsabilidades, o escritor coloca sobre a mesa e usa como matéria-prima para dar conta das suas.

Daí que talvez não seja exatamente mais sensível, como se acredita serem os artistas, mas simplesmente mais aberto a manusear o que, de uma forma ou outra, a todos atinge. Contudo, ao transformar tais questões em palavras, se obtém alguma gratificação, paga um custo. Entrar na caverna do Minotauro pode ser heróico, mas também doloroso. Seja para Ariadne, seja para Teseu.

Alie-se a isso as dificuldades criadas pelo fato de exercer uma atividade que exige longa formação; trabalho solitário e exaustivo, normalmente contabilizado em anos a cada obra; certo desapego para encarar uma remuneração inadequada ou inexistente. Mesmo distante de uma escrita autobiográfica, expõe-se até os ossos, oferecendo a face à crítica e ao público. O conjunto faz do escritor alguém potencialmente frágil.

As histórias de superação ou sucumbência a situações de miserabilidade, internamentos e suicídio são bem conhecidas na literatura. Recordo sempre do que disse o poeta russo Nicolai Assiéiev após a morte de Vladimir Maiakóvski, ao avaliar que a essa fábrica de felicidade, de aspecto invulnerável, os amigos e cidadãos deveriam ter dedicado maiores cuidados.

A um artista da palavra (ou a qualquer outro), esse cuidado recompensa de forma peculiar e distinta. Pequenos gestos sinceros o tocam seguramente mais do que a estrondosa pompa de um prêmio. Gestos desse tipo me fazem relembrar certa madrugada. Um ônibus com a ventarola quebrada circundava os picos de neve, entre Cuzco e Arequipa, a trinta graus abaixo de zero. Nos vidros, cristalizavam-se as infinitas formas das rosáceas de gelo. Três pares de meia nos coturnos, duas calças e camisas, blusão de lhama e sobretudo não me aqueciam o suficiente. A mulher do condutor enrolava e queimava revistas para descongelar o parabrisa e manter o velho ônibus a caminho. Um homem de aspecto incaico levantou e sem dizer nada me estendeu um cobertor. O gesto entalhou-se para sempre na xilogravura da memória. Não exatamente em função de me salvar do frio, mas porque ali estava um ser humano ajudando a outro sem outro interesse a não ser o de lhe fazer bem. Não tenho medo de errar: de tais coisas, mais do que de benesses ou facilidades, alimentam-se poetas e prosadores. De alguma forma, buscam reparti-las com o leitor. E no campo oposto, as execráveis são apontadas e dissecadas.

Há pouco tempo, tive de cumprir algo que não fazia parte das minhas tarefas habituais. Criticar comparativamente e por escrito, enquanto jurado de um concurso, obras de autores meus amigos. Fazê-lo e ser ao mesmo tempo cuidadoso não é simples de alcançar fora de uma conversa informal com o colega. Não sei se obtive o bom termo, o fato me ocupa até hoje. Pois quem escreve não está imune à necessidade de prestar atenção e cuidados a seus pares. E, evidentemente, a todos que o cercam, leitores ou não. Assim, ser cuidadoso em relação aos outros é também cuidar-se, no sentido de habilitar cada vez mais a sua humanidade para o convívio.

Sugestionado por uma amiga, escrevi este pequeno texto para meninos e meninas que faziam quimioterapia e seus familiares. Talvez com ele se possa ampliar a discussão.

CONFIANÇA

Vi um pai e uma mãe ao redor de uma pedra redonda de granito, três as filhas. Elas subiam na pedra, deixavam-se cair de costas, e o pai as salvava. A menor, numa das vezes, olhou para trás, insegura. Então o pai falou, olha pra frente, fecha os olhos. Ela fez, e se deixou cair, livre de ter de confiar apenas em si.

Penso que esse liame, a possibilidade de poder contar um com o outro, por mínimo que seja, mina a lei da selva que nos quer indiferentes ou inimigos. Move cordilheiras e outras galáxias.

Tema sugerido pela revista O Cuidador. Texto originalmente publicado na edição Ano III, N° 14, 2011/ 1.

Fonte:
Artistas Gaúchos

Tânia Tomé (Livro de Poesias)


MOÇAMBIQUE

Quando me sento descalça
sobre o sapato do menino pobre
que me enche o pé
muito mais que outro qualquer
me lembro que existir
não é sozinha
é com toda gente.
E me lembro
que tenho de embebedar-me de ti
Moçambique
Porque tenho saudades de mim

SONS EM UNÍSSONO

A mão que me lê
ganha no espelho
a pupila
de uma luz imensa
no fundo da concha.

É o que se me vê(m) além
da cotilédone da pele:
sons ruidosos
em uníssono.

SERMENTE

E se Paul Celan
me entrasse
aqui, no futuro verso
eu seria a flor
tu serias a morte
e não te escreveria
neste desejo
incerto
de morrer-te
como murcha a flor
para ser semente

SE O MEU PESCADOR PESCASSE

Se o meu pescador me pescasse
pelo arpão me agarrasse os versos
um a um, sem pressa
a melhor palavra do mar...

Mas em que lugar da asa
a palavra poderia ser mais bela?
Com que cheiro? Com que sabor?
Onde seria o lugar do sol
Com que cor? Com que brilho?

E sei que hei de escolher
depressa mas devagar
a palavra mais carnuda para comer
E vou comer intensamente
Com toda forca dos meus (d)entes
na ponta dos dedos
as palavras que não me calo
E um peixe com asas
Há de nascer
E há de pescar-me no alto
o pescador
Espero

ENCANTOEMA

Pois ha urna verdade,
é a verdade do poema.
Urna verdade que não existe
e que não importa.
O que importa és tu
e és tu que existes
no peixe que sonhas.

ENCANTAMENTE

Uma confusão de dedos
procurando as mãos
da menina
— Onde estão, mãe,
as minhas asinhas da loucura?

A PALAVRA

A palavra quer deitar-se
sozinha, reflexa
contemplar devagar
o sol morre ao silêncio
Não há pressa, não há medo
A palavra quer morrer
quantas vezes for preciso

SONHO

Inspirada num poema que de igual forma me caracteriza de poeta amigo CAVALAIRE (Adilson Pinto).
Não tenho medo de assumir quem sou, uma eterna sonhadora que luta por aquilo em que acredita. (Tânia Tomé)

Eu tenho um sonho,
e dentro dele milhares
de sonhos possiveis...
em que acredito,
quase sempre
na plenitude
como na forma
em que respiro.

AMOR

Meu poema infinito
Tu escreves-me tão bem
esse amor todo nos teus dedos
escrevives-me exactamente
como me sonhei

Tânia Tomé (1981)


Cantora, poeta e compositora moçambicana.

Tânia Teresa Tomé, nasceu a 11 de novembro de 1981, na cidade de Maputo, Moçambique. Ingressa na vida artística aos 7 anos, ao vencer o prêmio de melhor voz no Concurso de Música organizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em Moçambique..

Aos 13 anos, participa do seu primeiro sarau, onde canta, declama e toca ao piano poemas de José Craveirinha, em espetáculo que inclui a presença do homenageado.

Com 17 anos, entra para a Universidade Católica Portuguesa, no curso de Economia..È Licenciada em Economia e Pos-graduada em Auditoria e Controlo de Gestão pela Universidade Católica Portuguesa (Portugal,Porto).

Em 2002, adere ao Movimento Humanista, e faz algumas atuações em Portugal para angariar fundos para as crianças desfavorecidas de Moçambique.

Um ano mais tarde, ganha o Prêmio de Mérito da Fundação Mario Soares de Portugal pelo bom desempenho acadêmico e por conciliar estudos e atividades artístico-sociais.

Em 2004, é co-autora da antologia Um abraço quente da Lusofonia, com outros jovens poetas representantes de cada país da CPLP. Nesse mesmo ano, faz parte do CD intitulado Encontro (Iniciativa dos Leigos da Boa Nova), cuja totalidade dos lucros se destina a apoiar os projetos em favor das crianças e jovens de Angola e Moçambique. Regressa a Moçambique, e contribui para diversos movimentos artísticos e culturais, a destacar Movimento 100 crítica, Clave de Soul e Amigos do Livro. Faz-se então Membro da Associação dos Escritores Moçambicanos, da Associação dos Músicos Moçambicanos e dos Poetas del Mundo.

Em 2006, produz e apresenla, ao lado do músico Julio Silva, um programa cultural na Televisão de Moçambique (TVM).

Em 2008, realiza e produz o espetáculo "Poesia em Moçambique", em tributo a José Craveirinha, onde todas as artes interagem para tornar vivo o poema. Introduz o conceito de Showesia (neologismo criado por ela) em Moçambique, com o qual se faz espetáculo de poesia com urna banda de músicos, ao lado da qual Tânia canta e recita poemas, havendo teatro da poesia, dança da poesia, entre outros.

Participou em alguns projectos de poesia e declamação, de referenciar "Dentro de mim outra ilha de Júlio Carrilho" com Jaime Santos (Declamador Moçambicano), e participação na Feira da Voz no Franco-Moçambicano como Júri de Declamação e actuação com Eduardo White (Poeta Moçambicano), ganhou alguns prémios de poesia, e têm "mão" alguns projectos para o futuro presente. Já foi igualmente Júri Residente de Musica em Programas de Descoberta de Novos Talentos na Televisão Nacional de Mocambique.

E em 2009 nasce o seu primeiro bebe germinado no processo de mais de 15 anos intensos de vida artística bebendo a arte e a cultura e fazendo o casamento profundo entre a música e a poesia, o seu DVD SHOWESIA (primeiro e único DVD de Poesia em Moçambique) que é o espectáculo de poesia produzido e realizado pela mesma em 2008 em homenagem ao poeta José Craveirinha.

Showesia é um conceito e movimento criado e divulgado pela Tania que designa Show/ espectáculo de Poesia, um evento cultural que incorpora poesia, declamação de poesia e todas as outras formas de expressão artística, tais como dança tradicional e moderna, e musica nas suas mais diversas variantes desde tradicional com instrumentos tradicionais (tais como as timbilas, tambores, mbiras entre outros), e outros instrumentos como Baixo, Guitarra, Piano, voz, e Skach teatral com cenários diversos para dar vida a poesia.

O objetivo num mundo de constante desenvolvimentos tecnológico e globalizado é resgatar e valorizar o patrimônio cultural mundial, criando uma plataforma e nekwork cultural mundial.
A ideia subjacente é a de que é possível fazer algo pela educação e pela cultura que seja aliciante e interessante, através de um formato entretido chamado Edutainement (Educação e cultura com entretenimento). Contribuir para mudança deste conceito linear de que a poesia, a literatura, a educação e cultura não são atractivas e são apenas elitistas e para um grupo de pessoas.

Existe uma consciência plena da dificuldade, mas nada é impossível, e a mudança mesmo que lenta acontecerá, e mesmo que não aconteça enquanto vivos estaremos a contribuir para as gerações vindouras.

Em seguida, lança oficialmente a página web www.showesia.com, e faz parte do Poetry África em Maputo, representando Moçambique, repetindo atuação e representação no Festival Internacional Poetry África na África do Sul.

Faz parte da antologia Worid Poetry Almanac 2009 (Com 190 poetas oriundos de 100 países).

Participa do primeiro ano de comemoração de Celebração da língua e Cultura Portuguesa da CPLP em Moçambique, ao lado de Mia Couto e Calane da Silva.

Lançou em Maio de 2010 em Moçambique seu livro de poesia “Agarra-me o Sol por traz” que é uma das referências bibliográficas da Pós-graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Finais de 2010 a editora brasileira escrituras lançou o livro “Agarra-me o Sol por traz, outros escritos e melodias” com prefácio do Brasileiro Floriano Martins e pintura de Eduardo Eloy.

Participa do livro The bilingual anthology on african poetry (China).

Atualmente preside a associação Showesia com objetivo de resgatar o patrimônio cultural através de uma plataforma de interação entre o tradicional e o tecnológico/ocidental e de uma network cultural mundial.

Conta já com vários prêmios internacionais entre os quais se destacam premio academico da Fundação Mário Soares (presidente de Portugal), Premio Festival da Canção, Porto, Portugal, Premio soundcity music award (África), Premio de música da Organização Mundial de Saude, Premio de Poesia Millenium Bim.

" Escrevo, para que numa dimensão sem espaço e sem tempo, eu possa interagir comigo e com os outros. Promovendo cultura para todos, conscientizando pessoas, alimentando espíritos e fazendo emergir por momentos constantes e incessantes "PRAXIS" E "GNOSES". Para que possa eu, ver de mim a crescer e aprender com tudo e todos os que me possam guiar. E com isso contribuir com o que tenho na alma e na mente para fazer crescer outrem, fazer crescer meu MOÇAMBIQUE, fazer crescer MUNDO "
Tânia Tomé

www.taniatome.com
www.showesia.com

Fontes:
http://www.antoniomiranda.com.br
http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=4351

Suely Braga (A Mulher Na Literatura Brasileira)


A mulher historicamente teve um papel secundário. Relegada ao espaço doméstico, as mulheres viviam enclausuradas. As meninas, desde cedo, aprendiam as prendas domésticas, preparando-se para o casamento. Saiam do jugo do pai, para entrar debaixo do jugo do marido, seu chefe. Sem direito a aprender a ler, escrever e votar.

Houve desde o século VI alguns nomes femininos com relevante atuação em suas comunidades: heroínas, guerreiras, beneméritas,administradoras como Ana Pimental, que geriu a capitania hereditária em lugar do seu marido.

A imprensa inexistia no Brasil. colônia, só facultada por D. João em 1808. Assim desde a década de1820 a mulher começou a expressar em letra de forma seus sentimentos, anseios e ideais. Interessante que foram as mulheres as primeiras a produzir literatura, porque ao homem cabia atividades expansionistas e econômicas.

De abrangência nacional,as primeiras intelectuai foram: a sul rio-grandense Maria Clemência da Silveira Sanpaio com suas Poesias de exaltação ao imperador, em 1823, Nísia Floresta, do Rio Grande do Norte, com sua Tradução Feminista, em1832, a cega Delfina Benigna da Cunha de São José do Norte, RS com suas poesias sentimentais e sofridas, em1834. Ana Eurídice de Barandas de Porto Alegre, em 1845, trouxe poesias e crônicas de denúncia à Guerra dos Farrapos, Ana Luiza de Azevedo Castro, de Florianópolis e Maria Firmina dos Reis,do Maranhão, foram as primeira romancista, em 1859. Nísia Floresta Brasileira Augusta publicou seu primeiro Livro: ”Direitos das mulheres e injustiça dos homens “, em 1932 e o primeiro a tratar dos direitos das mulheres à instrução e ao trabalho.

Em 1910, Raquel de Queiroz, de Fortaleza, ensaísta, cronista, dramaturga, tradutora, em 1940, integrou a União das Classes Femininas do Brasil. Recebeu o prêmio Machado de Assis, em 1977, da Academia Brasileira de Letras, na qual foi a primeira mulher a ingressar, em 1977. Também romancista.

Escreveu o Quinze (1932), Caminho de pedras, (1937). Muitas de suas obras são traduzidas no estrangeiro.

No regime militar, algumas escritoras se posicionaram contra o governo ditatorial, revelando suas posições politicas como Nélida Pinõn.Eleita para a Academia Brasileira de Letras(1989), foi a primeira mulher a presidir a entidade, em 1996. Nossa gaúcha Lila Ripoll, professora, poetisa.

Foi militante comunista, desde o assassinato de seu irmão.
Ganhou o prêmio Pablo Neruda com Poemas e canções, em 1957.

O rol das grandes escritora do século XX é vasto:
Cecília Meirelles, Lígia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Hilda Hist , Marina Colassanti, Lya Luft, Maria Dinorath do Prado, Patrícia Bins,Marta Medeiros, Letícia Wierzchowski e tantas outras.

As mulheres vêm conquistando seu espaço na literatura.

Atualmente está surgindo uma plêiade de escritoras e poetisas jovens, outras nem tão jovens, que se espalham pelas editoras com suas obras literárias. A Historiadora Hilda Flores buscou as escritoras para seu livro “ Dicionário de mulheres”, que já está no prelo e vai ser lançado em Porto Alegre, em 17 de maio próximo.

Ela escreveu o “Dicionário de Mulheres” , em Porto Alegre, em 1999.. Surgiram também muitas Academias Literárias femininas. Com a internet é infindável o número de escritoras com seus sites, seus blogs e seus twitters.

As mulheres de hoje deixaram de ser Amélias, para navegarem em todos os setores da sociedade e no mundo das letras.
Link
Bibliografia: Flores,Hilda –Dicionário de Mulheres - 1999.

Fonte:
Artistas Gaúchos

Biblioteca Comunitária de Itu (VERBALIZE - Sarau Literário e Musical) sábado, 4 de junho


ITU-SP | Neste sábado, 4 de junho, o Ponto de Leitura de Itu - Biblioteca Comunitária prof. Waldir de Souza Lima - realizará o VERBALIZE!, um Sarau Literário e Musical. O evento terá início às 19 horas e é gratuito e livre para todas as idades.

Haverá apresentações musicais e recitais livres de poesia, inclusive com a participação do público. A ideia é mostrar que um Sarau não é necessariamente um evento feito pela e para a elite, e sim um local de troca de conhecimentos e experiências de pessoas das mais diversas idades e classes sociais. Através da variedade de poemas e canções apresentadas, pode-se ter uma visão da diversidade da cultura brasileira.

Quem desejar apresentar algum poema ou música é só se dirigir ao local do evento. Não há necessidade de inscrição. O participante pode levar um ou mais textos pré-selecionados ou escolher no acervo literário da biblioteca, que contempla autores clássicos e modernos.

A Biblioteca Comunitária fica na rua Floriano Peixoto, 238, Centro, Itu. Mais informações pelo telefone (11) 8110.3598.

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PONTO DE LEITURA
BIBLIOTECA COMUNITÁRIA PROF. WALDIR DE SOUZA LIMA
Rua Floriano Peixoto, 238, Centro, Itu.SP
CEP 13300-005
Contatos: (11) 8110.3598
www.bibliotecacomunitaria.wordpress.com

Feira Literária de Londrina Seleciona Atividades, até 24 de junho


O Festival Literário de Londrina 2011 (Londrix), está recebendo para inscrições de propostas na área de literatura. Os proponentes, poderão realizar debates, lançamentos e exposições de livros, apresentações artísticas, shows e outras atividades ligadas ao mundo literário.

Londrix acontece na cidade norte-paranaense no mês de setembro. As inscrições para o festival permanecerão abertas até o dia 24 de junho.

Em sua sétima edição, o encontro , realizado todos os anos, reúne em Londrina os grandes nomes da literatura nacional para refletir a produção e as experiências desenvolvidas no país. O objetivo final do evento é estimular a formação de leitores e divulgar escritores e obras.

O festival promove debates, palestras, shows, lançamentos de livros, sessões de autógrafos, oficinas e leituras. Em 2010, Londrix contou com lançamento de livros de autoras como Tríade Beatriz Bajo, Célia Musilli e Edra Moraes, debates com Fausto Fawcet e Alex Lima, entre outros eventos.

As inscrições de atividades literárias no Londrix devem ser feitas pela internet e são gratuitas.


EDITAL DE SELEÇÃO DE TRABALHOS PARA O FESTIVAL LITERÁRIO DE LONDRINA LONDRIX2011

O presente edital institui normas para seleção de trabalhos para o Festival Literário de Londrina – Londrix2011, que acontecerá de 20 a 24 de setembro de 2011.

1. ORGANIZAÇÃO

1.1. A seleção será organizada pela AARPA – Atrito Arte Artistas e Produtores Associados e pela Equipe Organizadora do Festival sob Coordenação do Curador Marcos Losnak.

2. DAS CATEGORIAS

2.1. Cada candidato deverá inscrever apenas uma proposta em cada uma das categorias:

2.1.1 DEBATES/PALESTRAS / NACIONAL: os candidatos devem possuir currículo representativo no cenário literário nacional. Serão selecionados dois trabalhos nesta categoria.

2.1.2 DEBATES/PALESTRAS DE ARTISTAS / LOCAL: os candidatos devem possuir vínculo com a cidade de Londrina, ter nascido em Londrina, e/ou desenvolvido sua carreira em Londrina e/ou residir em Londrina comprovadamente há mais de um ano. Serão selecionados 6 trabalhos nesta categoria.

2.1.3 PERFORMANCES, APRESENTAÇÕES TEATRAIS, SHOWS / NACIONAL: os candidatos devem possuir currículo representativo no cenário literário nacional. Será selecionado um trabalho nesta categoria.

2.1.4 PERFORMANCES, APRESENTAÇÕES TEATRAIS, SHOWS / LOCAL: os candidatos devem ter este trabalho desenvolvido na cidade de Londrina. Serão selecionados 3 trabalhos nesta categoria.

2.1.5 LANÇAMENTO DE LIVROS: os candidatos deverão possuir trabalho publicado em 2011 na área literária. Serão aceitos 10 trabalhos nesta categoria.

3 DAS INSCRIÇÕES

3.1 Período de 30 de abril a 24 de junho de 2011

3.1.1 INSCRIÇÃO PELO CORREIO: cada candidato deverá enviar 01 (uma) cópia da sua proposta, o currículo e a ficha de inscrição preenchida (anexo 1). A postagem deverá ser efetuada até 24 de junho, comprovadas pelo carimbo do Correios até esta data.Endereço: Festival Literário de Londrina – Londrix2011 Rua João Pessoa, 103 A Londrina Pr CEP 86020-220).

3.1.2 INSCRIÇÃO PELA INTERNET: a inscrição será efetuada no site do Festival: www.festivalliterariodelondrina.com.br, devendo enviar 01 (uma) cópia da proposta, o currículo e preencher a ficha de inscrição, que estará disponível no site.

4. PARTICIPAÇÃO

4.1 As inscrições são gratuitas.

4.2 É vetada a participação de funcionários públicos municipais de Londrina. Por funcionário público municipal entende-se, além dos funcionários contratados e estatutários da Administração Direta, também os funcionários de autarquias e fundações municipais e os funcionários terceirizados.

4.3 O ato da inscrição implica, automaticamente, na cessão dos direitos de imagem para uso específico na divulgação do Festival Literário de Londrina – Londrix2011.

5. SELEÇÃO

5.1 A equipe organizadora do Festival Literário de Londrina – Londrix2011, sob coordenação do Curador Marcos Losnak é responsável pela seleção dos trabalhos e se baseará nos seguintes critérios: análise de currículo, representatividade na área literária, tema da proposta e perfil do Festival.

5.2 A decisão da Comissão é soberana não cabendo recursos.

6. DIVULGAÇÃO DO RESULTADO

6.1 O resultado será divulgado em 24 julho de 2011 através do site do Festival. A partir desta data a Organização do Festival entra em contato com os autores dos trabalhos selecionados.

7. DOS VALORES

7.1 Os valores a serem pagos são diferenciados para cada categoria:

7.1.1 DEBATES/PALESTRAS / NACIONAL: Serão selecionados dois trabalhos nesta categoria com valor de R$ 1.000,00 (hum mil reais) cada. Para pagamentos de pessoas físicas serão descontados 16% (dezesseis por cento) correspondentes aos tributos legais (INSS e ISS).

7.1.2 DEBATES/PALESTRAS / LOCAL: Serão selecionados 6 trabalhos nesta categoria com valor de R$500,00 (quinhentos reais) cada. Para pagamentos de pessoas físicas serão descontados 16% (dezesseis por cento) correspondentes aos tributos legais (INSS e ISS).

7.1.3 PERFORMANCES, APRESENTAÇÕES TEATRAIS, SHOWS / NACIONAL: Será selecionado um trabalho nesta categoria com valor de R$2.000,00 (dois mil reais). Para pagamentos de pessoas físicas serão descontados 16% (dezesseis por cento) correspondentes aos tributos legais (INSS e ISS).

7.1.4 PERFORMANCES, APRESENTAÇÕES TEATRAIS, SHOWS/ LOCAL: Serão selecionados 3 trabalhos nesta categoria com valor de R$ 1.000,00 (hum mil reais) cada. Para pagamentos de pessoas físicas serão descontados 16% (dezesseis por cento) correspondentes aos tributos legais (INSS e ISS).

7.1.5 LANÇAMENTO DE LIVROS: Serão aceitos 10 trabalhos. Não há pagamento de cachê nesta categoria.

8. OUTRAS DISPOSIÇÕES

8.1. Não serão aceitos trabalhos que não estiverem estritamente de acordo com este REGULAMENTO e não tiverem a ficha de inscrição preenchida corretamente.

8.2. Os trabalhos enviados que não estiverem de acordo com o REGULAMENTO terão automaticamente suas inscrições invalidadas.

8.3. A inscrição dos trabalhos implica conhecimento integral dos termos do presente.

8.4. Pedidos de informações sobre este Edital poderão ser feitos pelo e-mail festivalliterariodelondrina@bol.com.br.

CHRISTINE DO CARMO VIANNA
Diretora do Festival Literário de Londrina – Londrix2011

segunda-feira, 30 de maio de 2011

José Feldman (Poesia para um Amigo Querido)













Ao meu cãozinho Fluffy, falecido há um ano, que estaria fazendo 11 anos.

O sol nasceu cedinho
E seus raios de calor
Caíram sobre a terra adormecida.
A manhã despontou
E você despertou
E seus olhos brilhavam
E havia um calor intenso
Em cada gesto seu.

O dia começava e
Você estava feliz,
Mais feliz ainda
Ao me ver junto a si.

Seu rabo negro e branco
Agitava de felicidade,
E voce pulou,
E voce me lambeu,
E voce me abraçou.

Corremos pelo quintal,
E senti o seu calor,
O seu amor…incondicional.

Briguei contigo,
Mas sua amizade
Era muito forte.
E sempre fui
Dominado pelo seu amor.

As borboletas voavam pelas flores,
Os passarinhos cantavam alegremente,
O próprio dia era mais radiante.

Mas,
O céu foi ficando escuro,
Os raios estremeceram a terra,
O sol sumiu nas trevas,
Seus olhos perderam o brilho
Seu rabo parou de agitar,
Suas pernas já não se moviam.

O sol se foi para sempre,
E só restou a noite,
Só restou as lágrimas,
Encharcando minhas lembranças.

Nem houve um tempo para um adeus!
Um ano sem voce, meu amigo!
Ainda parece que foi ontem
Que estavamos juntos.

Um dia estaremos juntos,
Novamente,
E o sol voltará a brilhar!
Até mais, meu amigo!

Adolfo Casais Monteiro (Poesias Avulsas)


FADO

Música triste
desenganado
canto nocturno
a pouco e pouco
vai penetrando
meu coração
Nocturna prece
ou pesadelo
não sei que sombra
aquele canto
em mim deixou.
Febre ou cansaço?
Não sei! Nem quero.
lúgubre pranto
de roucas vozes
não tem beleza
- só emoção.
É como um eco
de noites mortas
de vidas gastas
ao deus dará.
Mas eu o recebo
dentro de mim.
Entendo. Choro.
Eu o recebo
Como um irmão.

EU FALO DAS CASAS E DOS HOMENS

Eu falo das casas e dos homens,
dos vivos e dos mortos:
do que passa e não volta nunca mais.. .
Não me venham dizer que estava materialmente
previsto,
ah, não me venham com teorias!
Eu vejo a desolação e a fome,
as angústias sem nome,
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas
das vítimas.
E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,
uma insignificante parcela da tragédia.
Eu, se visse, não acreditava.
Se visse, dava em louco ou em profeta,
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,
- mas não acreditava!
Olho os homens, as casas e os bichos.
Olho num pasmo sem limites,
e fico sem palavras,
na dor de serem homens que fizeram tudo isto:
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,
esta lama de sangue e alma,
de coisa a ser,
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,
se o ódio sequer servirá para alguma coisa...
Deixai-me chorar - e chorai!
As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição,
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio,
por um segundo seremos os mortos e os torturados,
os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,
seremos a terra podre de tanto cadáver,
seremos o sangue das árvores,
o ventre doloroso das casas saqueadas,
sim, por um momento seremos a dor de tudo isto. . .
Eu não sei porque me caem as lágrimas,
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,
eu que estou na minha casa sossegada,
eu que não tenho guerra à porta,
- eu porque tremo e soluço?
Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós?
Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:
as ruas são ruas com gente e automóveis,
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis,
e a miséria é a mesma miséria que já havia...
E se tudo é igual aos dias antigos,
apesar da Europa à nossa volta, exangüe e mártir,
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...

VEM, VENTO, VARRE
A José Rodrigues Miguéis

Vem, vento, varre
sonhos e mortos.
Vem, vento, varre
medos e culpas.
Quer seja dia,
quer faça treva,
varre sem pena,
leva adiante
paz e sossego,
leva contigo
nocturnas preces,
presságios fúnebres,
pávidos rostos
só cobardia.

Que fique apenas
erecto e duro
o tronco estreme
de raiz funda.

Leva a doçura,
se for preciso:
ao canto fundo
basta o que basta.

Vem, vento, varre!

ODE AO TEJO E À MEMÓRIA DE ÁLVARO DE CAMPOS

E aqui estou eu,
ausente diante desta mesa -
e ali fora o Tejo.
Entrei sem lhe dar um só olhar.
Passei, e não me lembrei de voltar a cabeça,
e saudá-lo deste canto da praça:
"Olá, Tejo! Aqui estou eu outra vez!"
Não, não olhei.
Só depois que a sombra de Álvaro de Campos se sentou a meu lado
me lembrei que estavas aí, Tejo.
Passei e não te vi.
Passei e vim fechar-me dentro das quatro paredes, Tejo!
Não veio nenhum criado dizer-me se era esta a mesa em que Fernando
Pessoa se sentava,
contigo e os outros invisíveis à sua volta,
inventando vidas que não queria ter.
Eles ignoram-no como eu te ignorei agora, Tejo.
Tudo são desconhecidos, tudo é ausência no mundo,
tudo indiferença e falta de resposta.
Arrastas a tua massa enorme como um cortejo de glória,
e mesmo eu que sou poeta passo a teu lado de olhos fechados,
Tejo que não és da minha infância,
mas que estás dentro de mim como uma presença indispensável,
majestade sem par nos monumentos dos homens,
imagem muito minha do eterno,
porque és real e tens forma, vida, ímpeto,
porque tens vida, sobretudo,
meu Tejo sem corvetas nem memórias do passado...
Eu que me esqueci de te olhar!

O FIM DA NOITE


A nossa história é simples: somos
neste momento todo o amor na terra
e nada mais importa, senão
o que sou, verdade em ti,
o que és, verdade em mim.
Por isso este poema talvez não seja
mais que um silêncio pela noite,
nem verso, nem prosa, só
uma oração ao deus desconhecido.

Não é talvez senão o teu olhar,
e tua esquiva mágoa,
o teu riso e tuas lágrimas.
E o apelo dentro de mim
ao milagre de nos querermos,
com a mágoa e com o riso,
- e teu olhar que vê em mim.

Não sei pedir, sei só esperar.
Mas já houve o milagre. Estava
agora comigo ao longo das ruas, que antes
eram só casas de pálpebras cerradas.
Estava no silêncio, que antes
era mortal.

E tu, sem eu saber, estavas comigo.
E sem eu saber de súbito na treva
buliram asas
e sem eu saber era já dia.

PERMANÊNCIA

Não peçam aos poetas um caminho. O poeta
não sabe nada de geografia celestial.
Anda aos encontrões da realidade
sem acertar o tempo com o espaço.
Os relógios e as fronteiras não tem
tradução na sua língua. Falta-lhe
o amor da convenção em que nas outras
as palavras fingem de certezas.

O poeta lê apenas os sinais
da terra. Seus passos cobrem
apenas distâncias de amor e
de presença. Sabe
apenas inúteis palavras de consolo
e mágoa pelo inútil. Conhece
apenas do tempo o já perdido; do amor
a câmara escura sem revelações; do espaço
o silêncio de um vôo pairando
em toda a parte.

Cego entre as veredas obscuras é ninguém e nada sabe
- morto redivivo.
Tudo é simples para quem
adia sempre o momento
de olhar de frente a ameaça
de quanto não tem resposta.

Tudo é nada para quem
descre de si e do mundo
e de olhos cegos vai dizendo:
Não há o que não entendo.

AURORA

A poesia não é voz - é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:

vôo sem pássaro dentro.

Adolfo Casais Monteiro (1908 – 1972)


Adolfo Victor Casais Monteiro nasceu no Porto em 1908 e morreu em São Paulo em 1972.

A sua juventude foi típica de um filho da burguesia portuense ilustrada e liberal, cedo revelando propensão artística. É ainda durante a sua licenciatura, na Faculdade de Letras do Porto, em Ciências Históricas e Filosóficas, num meio influenciado por Leonardo Coimbra, que se estreia nas Letras com os poemas de Confusão em 1929. Embora nunca ostente a sua formação em Filosofia, ela será indelével em dois aspectos: o interesse pela conceptualização e pela Linguagem, e o norte orientador da liberdade.

Depois de ter obtido qualificação pedagógica em Coimbra, começa a ensinar no Porto em 1934 no Liceu Rodrigues de Freitas. Casa-se com Alice Pereira Gomes, irmã de Soeiro Pereira Gomes, de quem só se separa um ano após partir para o Brasil, duas décadas mais tarde. No final dos anos 30 e na década seguinte foi demitido do ensino pela ditadura e preso sete vezes, vivendo uma vida profissional atribulada por motivos políticos, mantendo a sua atividade de poeta e crítico através de trabalhos de tradução e edição. Sob anonimato, coordena o semanário Mundo Literário. Não menos relevante é a sua ligação com Fernando Pessoa, que data dos dias em que dirigirá a Presença. Logo em 1942 organizara e prefaciara uma antologia poética de Pessoa, que conhecerá sucessivas re-edições e influenciará sucessivas gerações de leitores. Essa atividade iniciada na crítica e correspondência com o próprio Pessoa na década de 1930 e prosseguida editorialmente na década seguinte, terá no início de 1950 expressão em Francês, traduzindo «Tabacaria» com Pierre Hourcade.

Grande parte do trabalho destas duas décadas encontra-se na reunião de ensaios O Romance e os Seus Problemas de 50; edição modificada no Brasil, mais tarde, como O Romance: Teoria e Crítica. É também sua a fixação do texto primitivo e versão em português moderno da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto (2 vols., Lisboa e Rio de Janeiro, 1952/3).

Em 1954, ano em que parte para o Brasil para participar num congresso mas já com a intenção de aí ficar e enviar uma «carta de chamada» para a mulher e o filho, João Paulo Monteiro, que se lhe juntará em 1963, publica Voo sem Pássaro Dentro (poesia) e vê uma antologia de poema seus surgir em castelhano.

No Brasil mantém atividade poética. Surgirá em 1969, como original nas Poesias Completas, O Estrangeiro Definitivo, além de continuar a organizar antologias, com destaque para A Poesia da Presença em 1959, no Brasil e 1972 em Portugal, re-editada aqui em 2003. Contudo, é sobretudo à crítica e à teoria literária que se dedica. Colaborador habitual de órgãos de comunicação social influentes como O Globo e O Estado de São Paulo, publica regularmente crítica literária que incide equitativamente sobre autores brasileiros, portugueses e escritores de outras línguas.

Tendo ensinado em várias universidades brasileiras, fixa-se em 1962 na Universidade de São Paulo, lecionando Teoria da Literatura, o que lhe permite elaborar aspectos conceptuais da crítica a que dava atenção desde a sua estreia ensaística em 1933.

Manteve sempre em vista a atividade artística e literária em Portugal onde nunca voltou, como as dedicatórias dos poemas dos últimos livros deixam perceber. Depois de décadas sem que a Censura permitisse, sequer, a publicação do seu nome, em 1969 a Portugália Editora lança o volume Poesias Completas, marcando a recepção da sua Obra pela geração que fará o 25 de Abril. Morreu em S. Paulo em 1972 a 24 de Julho.

Será entre essa recepção imediata (à falta de melhor termo) que outras obras surgiram, por iniciativa de seu filho e nora, Maria Beatriz Nizza da Silva, no imediato pós-revolução, como O país do absurdo (textos políticos, edição República em 1974 e A Poesia Portuguesa Contemporânea editada pela Sá da Costa em 1977. Progressivamente, as Obras Completas de Adolfo Casais Monteiro começam a ser (re)publicadas na Imprensa Nacional.

Fonte:
Estudo Raposa

Olivaldo Junior (Pois é, está frio...)


Ainda estamos no outono.
Eu sei: ninguém é meu dono.
Mas eu também sei: sonho.
Sonho com o sol mais risonho,
nestes dias que abandono.

Pois é, está frio...
Faz tempo que não nos escrevo.
Mas inda sorrio.
É difícil, mas inda lhe prescrevo,Alinhar ao centrofeito um médico,
pílulas de alegoria, “o” remédio.
Pois é, é o tédio...

Durante a falta de versos,
ninguém que me importasse
mandara um dos servos
da alegria (notícias), nem fax,
nem carta, nem uns versos...

Pois é, está frio...
Durante a falta de assunto,
fui negado ao pedir perdão,
fiquei sozinho no mundo,
esqueceram-me com violão,
poesia e pão, num segundo.
Pois é, está frio...

Sonhei que estaria cantando.
Cantei que estaria ensinando.
Ensinei que acordaria sonhando.
Sonhei com amigos tocando.
Toquei, sozinho, o acalanto.
Acalento o frio. Mas até quando?

Fonte:
Texto enviado pelo autor

Monteiro Lobato (Histórias de Tia Nastácia) XXXIX – O Camponês Ingênuo


Era um camponês muito ingênuo, que um dia partiu para a cidade de Bagdá a fim de vender uma cabra; foi montado num jumento, a puxar a cabra, que ia, tlin, tlin, tlin, com um cincerro ao pescoço. Três ladrões resolveram roubá-lo.
— Eu me encarrego de furtar a cabra — disse um deles.

— E eu, de furtar o jumento — disse o segundo.

— E eu, de furtar-lhe as roupas — disse o terceiro.

Assim combinados; os três malandros seguiram o pobre camponês. O primeiro deu jeito de passar a campainha do pescoço da cabra para o rabo do burro sem que o pobre homem percebesse. Sempre a ouvir o toque da campainha, só muito lá adiante é que olhou para trás e não viu cabra nenhuma.

Desesperado com aquilo, porque aquele animalzinho representava muito para ele, pulou do jumento abaixo e pediu a um homem que viu por ali que o segurasse enquanto ele ia em procura da cabra. Com a maior boa vontade o homem prontificou-se a segurar o jumento — e, assim que o camponês se afastou, fugiu. Esse homem era o segundo ladrão.

Quando o camponês voltou e não encontrou nem sinal do jumento, abriu a boca, desesperado. Nisto deu com outro homem que olhava para dentro dum poço, com grande aflição.

— Que houve? — perguntou o camponês. — Perdeu também algum jumento?

— Perdi muito mais — disse o homem com voz de desespero. — Imagine que fui encarregado de entregar um escrínio de ouro ao califa, e sentando-me à beira deste poço, para descansar, não sei que jeito dei que o escrínio caiu lá dentro.

— Por que não desce para pegá-lo?

— Já pensei nisso, mas tenho medo de resfriar-me. Sou muito sujeito a resfriados. Estou esperando que apareça alguém que queira prestar-me este serviço.

— Quanto paga? — perguntou o camponês.

— Oh, pago dez moedas de ouro, porque se trata dum escrínio riquíssimo.

O camponês não disse mais nada. Sacou fora a roupa e desceu ao poço. E o tal portador do escrínio, que não era portador de escrínio nenhum e sim o terceiro ladrão, fugiu com a roupa dele...
=============
— Coitado! — exclamou Narizinho. — A vida é bem cruel. Os ingênuos e os bons são sempre iludidos pelos maus.

— Verdade, sim — concordou dona Benta.

— Os homens de boa fé saem sempre perdendo. Por isso o meu bisavô, que foi o homem mais matreiro da sua zona, costumava dizer: "Quando alguém me procura para propor um negócio, eu fico ouvindo e pensando cá comigo: "Onde estará o gato?" e descubro, porque em todo negócio que alguém propõe há sempre um gato escondido." Nesse pau tem "mé"! — dizem os caboclos.

Mas Narizinho não tirava da idéia o pobre camponês.

— Coitado! Perder a cabrinha já foi um desastre. Perdeu depois o jumento, que valia muito mais que a cabrinha. E por fim acabou nu em pêlo. E por quê? Só porque teve boa fé, só porque acreditou nos três homens...

— Por isso é que eu não gosto de gente — gritou Emília. — São os piores bichos da terra. Entre as formigas ou abelhas, por exemplo — quem é que já viu uma furtando outra, ou mentindo para outra, ou amarrando outra em rabo de burro bravo? Vivem em sociedade, aos milhares de milhares, na mais perfeita harmonia. Ah, quem quiser saber o que é honestidade de vida, vá a um formigueiro ou a uma colméia. Aqui entre os homens é que não fica sabendo disso, não. Quanto mais conheço os homens, mais aprecio as abelhas e as formigas.

— E agora vovó? Que história vai contar? — perguntou Pedrinho.

— Vou contar uma do Congo, na qual os negros explicam como é que apareceram os macacos.
–––––––––––––
Continua… XL – A História dos Macacos
–––––––––––––-
Fonte:
LOBATO, Monteiro. Histórias de Tia Nastácia. SP: Brasiliense, 1995.
Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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