Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 30 de junho de 2011

J B Xavier (O Bandolim e o Piano)

Bandolinistas Contemporâneos, por Mário Beltrame
13-04-2007 Dedicado a Mário Beltrame

Ainda ouço o bandolim,
e no céu também me irmano,
pois sempre terás de mim
os carinhos de um piano.

Em tuas pirogravuras,
nas cores de tuas telas,
cantavas tuas agruras
tornando-as coisas belas...

Vida é cristal que se parte,
que carece polimento,
E tu poliste com arte
da vida, cada momento.

A nota que sai ligeira
do mágico bandolim,
pela minha vida inteira
soará dentro de mim...

Chora a nota ressentida
que tua ausência nos traz,
embora nesta outra vida
saibamos que estás em paz.

Sendo do Choro um doutor,
deixaste triste, a cantar
em nosso peito uma dor.
O Chorinho está a chorar...

Mário se foi, nos deixou.
Quisera fosse um engano!
Alçou asas e voou:
Caiu finalmente o pano.

E enquanto se chora a ausência
de tua ida de nós,
meu piano, sem clemência,
transforma-se em tua voz.

Bem sabemos que és saudade,
que serás luz noutro plano.
Nasce uma nova amizade:
Um bandolim e um piano.

Fontes:
http://ubtsp.com.br/page2.aspx
http://www.bandolim.net/bandolinistas-na-contempor%C3%A2nea-pain%C3%A9-m%C3%A1rio-beltrame

Cláudio de Cápua (Livro de Trovas)


É neste "Canto que eu Canto"
belezas que a vida tem
que ao meu mundo dão encanto
e tanto me fazem bem!

Ante ao talento me ajoelho...
E o teu talento invulgar,
tanto me serve de espelho
como me serve de altar.
(uma homenagem a Carolina Ramos)

Esta foto é mais um fato,
que nos traz para o presente,
através deste retrato,
lembranças de antigamente.

Palhaços de profissão?
Ah, Como é bom, fazem bem.
O triste é ter coração
e ser palhaço de alguém!

Unindo a seresta ao verso
quero compor na amplidão.
Sou menestrel do universo,
em tardes de solidão.

Olha! A noite é uma criança,
diz o refrão popular -
que sacode e balança
presa às tranças do luar.

Só por descuido é que a Helena
acabou por se casar...
Pois, pensou que Cibalena
fosse a pílula... Que azar!

Avisto do alto da serra
a pujança do sertão
e sinto orgulho da terra
que mora em meu coração!

Quando o rei sol estorrica,
tortura, com seu clarão,
mais forte é aquele que fica
e dá valor ao seu chão!

De "mau jeito" o Zé Baleia,
pescador de sorte estranha,
noivou com uma sereia,
casou com uma piranha..

Certo bispo ouve uma "história"
de um padre chamado Hilário
e grava, assim, na memória
um bom "Conto do Vigário"

Servidor da tributária,
bem "Severo", sem igual,
ergue a saia à secretária,
por ser, de "rendas", fiscal.

O delegado Pereira...
Êta Pereira bacana,
- É de pouca brincadeira,
não dá pêra, só da "cana"!…

Fonte
http://www.de-capua.com/publicacoes.html

Claudio de Capua


O dia oito de março marca a data do nascimento de Cláudio de Cápua, que é natural de São Paulo, e que em 1960 mudou-se para Araraquara, tendo mais tarde ingressado na Escola Superior de Agrimensura. Paralelamente aos estudos, Cláudio começou a colaborar no jornal semanário "A Cidade" onde respondia pela edição da "Coluna do Estudante". A partir deste momento, Cláudio não parou mais de escrever. Escrever tornou-se a forma de comunicação marcante em sua existência. Foi escrevendo que Cláudio de Cápua passou a escrever em jornais paulistanos como a antiga "A Gazeta", "Diário da Noite", "A Tribuna Italiana", "Diário Popular"; colaborou também na revista "Destaque", de Santos, além de outras assim como ainda em cerca de 30 jornais de bairro, do interior de São Paulo e até de outros estados.

Em sua volta a São Paulo, Cláudio de Cápua teve de abandonar em definitivo os estudos de Agrimensura, uma vez que não existia este curso em nível superior na Capital. Foi nesta época que começou a conviver com poetas como Guilherme de Almeida, Paulo Bomfim, Judas Isgorogota. Bernardo Pedroso, Orlando Brito, Oswaldo de Barros, Antônio Lafayette, Plínio Salgado, Menotti Del Picchia, Laurindo de Brito, Ibrahim Nobre, só para mencionar os mais conhecidos. Para aperfeiçoar sua vocação natural e satisfazer seu desejo de ampliar os conhecimentos e adquirir um maior lastro profissional, Cláudio ingressou num curso de jornalismo. A partir daí, o jornalismo constituiu-se a base de todas as variadas atividades nas quais Cláudio de Cápua se envolveu e nas quais deixou sempre a marca de sua integridade e força de trabalho. Ainda no jornalismo, tornou-se professor de jornalismo eletrônico, na Universidade Mackenzie, na década de 80.

Cláudio de Cápua fez ainda algumas incursões pelas artes dramáticas, tendo participado como ator no filme "A Marcha" baseado no romance de Afonso Schmidt. Na televisão, foi ator coadjuvante na telenovela "Hospital" da extinta TV Tupi, isso em 1971, e na TV record trabalhou como assistente de produção de externas na telenovela "O Leopardo".

Cláudio de Cápua atuou sempre de forma marcante na vida literária paulista, tendo participado ativamente de diversas eleições da União Brasileira de Escritores. Nesta entidade deixou marcas de sua defesa intransigente dos direitos do escritor, e tem lutado pela divulgação de suas obras e do pensamento do escritor paulista. Nenhum movimento sugnificativo que tivesse por objetivo a valorização e a divulgação dos escritores e suas obras deixou de contar com o apoio e iniciativa decisiva de Cláudio de Cápua. Da mesma forma teve ainda atuação destacada junto ao Sindicato dos Escritores do Estado De São Paulo e Centro de estudos Euclides da Cunha de São Paulo.

Como escritor, Cláudio de Cápua publicou livros que não foram brindados com edições fantásticas, mas que foram procurados avidamente pelos conhecedores das obras de qualidade, esgotando rapidamente suas edições. Estão nessa categoria, a começar por 1980, a biografia do escritor e político Plínio Salgado, livro que alcançou 4 edições e vendeu 11 mil exemplares mantendo-se durante 9 semanas entre os livros mais vendidos. (...) Em 1981, Cláudio de Cápua lançou o livro "Meu Caderno de Trovas", editado por Mestre das Artes; anos depois publicou em co-autoria com sua esposa, Carolina Ramos, o livro "Paulo Setúbal - Uma Vida - Uma Obra", que teve sua primeira edição esgotada em apenas 90 dias. Entre os projetos de Cláudio de Cápua está a publicação de um ensaio sobre a revolução de 1924, obra que demandou muita pesquisa e anos de trabalho.

Nas palavras de Carolina Ramos, “Ninguém passa pela Trova saindo impune. Rendido aos seus encantos, sempre deixa com ela um pedaço do coração, quando não o coração inteiro. No passado, grandes poetas como Vicente de Carvalho, Martins Fontes, Bilac, Colombina e outros, passaram por ela, ainda que de raspão. Naquele tempo, a Trova não tinha a força nem o prestígio que hoje tem. Mas, convém lembrar que o santista Ribeiro Couto conquistou Prêmio Internacional com o livro "Jeux de l'apprenti animalier", com suas fábulas consideradas superiores às de La Fontaine pela concisão com que eram apresentadas, ou seja, sob o formato de Trovas.

Cláudio de Cápua não seria uma exceção.

Biógrafo, prosador e poeta, esbarrou na Trova e deixou-se cativar por ela. Em 1969, foi um dos fundadores da "União Brasileira de Trovadores", Seção de São Paulo e, desde 1980, faz parte do quadro associativo da Seção de Santos.

Embora concorrente bissexto, Cláudio de Cápua conquistou vários prêmios em Concursos de Trovas realizados em território nacional.

Seu trabalho em prol da Trova, sincero e despretensioso, merece o respeito daqueles que cultuam o gênero e fazem do Movimento Trovadoresco Nacional, uma das mais ativas e populares facções da literatura do nosso país.”

Fonte:
Trechos extraídos do Discurso de Saudação de Henrique Novak em recepção a Cláudio de Cápua. 31 de outubro de 1998 . Disponível em http://www.de-capua.com/biografia.html
Excerto da Introdução por Carolina Ramos ao livro “Canto que eu Canto”, de Cápua.

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 259)

Domitila Borges Beltrame, da UBT São Paulo
(desenho com lápis e carvão, por J B Xavier)
Uma Trova Nacional

Desfeitas as esperanças
de alcançar felicidade,
vou vivendo de lembranças
e morrendo de saudade...
–JOÃO COSTA/RJ–

Uma Trova Potiguar

Olhos fundos; enfadonhos,
tez crestada, mão ferida...
Só você, pai, por meus sonhos,
foi capaz de dar a vida...!
–MANOEL CAVALCANTE/RN–

Uma Trova Premiada


2007 - UBT-Natal/RN
Tema: TEMPO - M/H.

Tempo – museu da lembrança,
que, entre relíquias saudosas,
tem nos sonhos de criança
as peças mais valiosas...
–EDMAR JAPIASSÚ MAIA/RJ–

Uma Trova de Ademar

Eu quero ver retratada,
por sobre os meus cacarecos,
a minha vida encenada
num teatro de bonecos.
–ADEMAR MACEDO/RN–

...E Suas Trovas Ficaram

Nesta guerra entre nações,
onde o mundo se desfaz,
por que, em vez de aviões,
não usam pombas da paz?
–JORGE MURAD/RJ–

Simplesmente Poesia

–MÁRIO QUINTANA/RS–
Os Poemas

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

Estrofe do Dia

Nas paredes da casa que morei
só vi rato pardal e andorinha,
vi rachão na parede da cozinha
que com medo de cobra não entrei;
mesmo assim lá de fora eu avistei
a panela de mãe fazer coalhada
e num torno, sem pavio, pendurada
avistei uma velha lamparina
a coruja tornou-se a inquilina
dos escombros da casa abandonada.
–LUCAS CORREIA/CE–

Soneto do Dia

–EDMAR JAPIASSÚ MAIA/RJ–
Gota a Gota

Um pingo apenas, percorreu-me a face;
um pingo estranhamente caudaloso,
que, umedecendo o meu perfil nervoso,
mostrou-me um veio que no peito nasce...

A lembrança do tempo desditoso
permitiu à tristeza que afogasse
numa só gota, as rugas que encontrasse
em meu semblante austero, ainda ansioso...

Aquele pingo foi a gota d'água
que fez extravasar a intensa mágoa
há muito represada a contragosto...

E as lágrimas, vazadas do celeiro
de minha alma angustiada de guerreiro,
fluíram nas ruínas de meu rosto!

Fonte:
textos enviados pelo autor

quarta-feira, 29 de junho de 2011

V Concurso Literário “Cidade de Maringá” (Poemas Livres Vencedores) Troféu Cássia Arruda


ANTÔNIO ROSALVO R. ACCIOLY
(Nova Friburgo/RJ)

Ofertório


A aurora manchava de sol
o corpo verde das planícies.
No eitão do terreiro,
a vó conversava com os ventos.
Um branco giz de nuvens escorregava
no claro azul do céu.
“Deus está presente em nós.”
Dizia minha mãe.

Era domingo.
Um domingo vazio de ruídos.
Tão intenso que escutávamos o ruminar
do capim nos dentes dos bois.
Pai vestia uma calça cáqui.
Amarela...
Mais berrante que o amarelo do milho.
Nosso celeiro também era amarelo.

À noite, à luz de velas,
mãos erguidas aos mistérios da fé,
a vó rezava.
Pedia fartura.
Uma fartura que muitas vezes não vinha.
Só a fé,
na invisibilidade dos mistérios,
permanecia no Celeiro vazio.

CARLOS BRUNNO SILVA BARBOSA
(Valença/RJ)

Celeiro Dulcinéia


Evita meu celeiro, triste homem das vontades básicas,
Meus trigos não alimentam tua fome,
São grãos colhidos no solo do lirismo;
Vêm do mundo das idéias, da mente de um sonhador
Que protesta por alimentos reais,
Mas só protesta, só, protesta, em vão, pois não te alimenta.
Evita este meu arroz invisível, colhido na safra da solidão,
Pois minhas composições não enchem teu estômago vazio.
Meu depósito de alimentos não perecíveis é eterno
Mas impróprio para o consumo de teus olhos famintos.
Lamento, escravo senhor! Os latifúndios continuam florindo cancerígenos
No solo da ambição desmedida dos homens que pisam em tua campina sem vida,
Enquanto meu armazém só contém produções aquém dos teus anseios.
Para teus desejos cereais, trago um galpão seco de comida,
Poemas, gigantes fingidos, nada mais que meros moinhos de vento...
Procura outro reino, Sancho Pança da realidade rocinante,
Pois este meu celeiro é de um fidalgo errante castigado de ilusão...

Larí Franceschetto
(Veranópolis/RS)

DE SILOS & DE SONHOS


Tempo de perdoar-se.
O tempo de ontem nunca mais
mas ao invés de obeso ócio
o grito
ao invés de caco de vidro no olho
o riso.
Colher amoras com a boca,
reacender o verde da terra
alimentar a fome dos moinhos
a fértil(idade) das maçãs do berço,
o sabor de renovar os vinhos
acarpetem de janeiros meu celeiro
onde deságuam meus rios.
Sim! Plantar com o coração
girassóis no parapeito das janelas,
abrir os braços,
deixar as chuvas de verão
e o pôr-do-sol dos calendários
amanhecerem os meninos.

A colheita o trigo da vida
(re)abasteça de sonhos os silos.

ROBERTO RESENDE VILELA
(Pouso Alegre/MG)

Testemunho do Silêncio


O silêncio desse rancho...
... agora entregue aos marimbondos e cupins,
aos morcegos e aranhas;
agora entregue aos caprichos do tempo...
confessa, envolto em nostalgia:
- A alegria que saiu daqui
continua quebrando escuros;
e o suor é a chuva que mata a sede
de um mundo que transcende as distâncias.

Os buracos são ouvidos abertos
às pérolas do imaginário campestre;
aos causos contados à sombra das árvores;
às palavras ajustadas ao meio ambiente.

Tudo o que aconteceu ganhou tantos sabores
quantas foram as amizades...

Esse rancho...
não foi somente a ribalta azul
em que o sonho e a esperança,
com alma e elegância,
dançavam de rosto colado.

Esse rancho...
permitiu que a missão de heróis anônimos
fosse cumprida com dignidade.

À tardinha, cinzenta e lânguida,
cantando, dolentemente,
ainda chega o carro de bois,
trazendo as dádivas do chão
a esse memorável celeiro;
levadas, logo depois,
nos ombros incansáveis do roceiro.

ROSANA DALLE LEME CELIDONIO
(Pindamonhangaba/SP)

Eterno Celeiro


Sou menina...

Leio o livro;
sei-o lido... - arquivo.
Pulo a sela, divirto-me, brinco.
Selo o morto, descarto, bato o jogo.

Sou mulher...

Selo o cavalo, cavalgo, apeio.
Selo a carta, envio,
Antes disso... - releio.

Sou mãe:

No meu ventre - a vida.
No meu seio - o leite,
Mato fome e sede.
Se não sabes...- sei-o.

Aos rebentos:

Fiz um silo, só de sentimentos.
Muitos deles...
Todos eles farturentos.

Se sentirem o vazio,
Procurem o abrigo:
A certeza do alimento.

Amor de mãe - Eterno celeiro:

Provento!

Fonte:
AGULHON, Olga e PALMA, Eliana. V Concurso Literário “Cidade de Maringá”. 1.ed. Maringá: Academia de Letras de Maringá, 2011.

Paulo Bomfim (Antologia Poética)


BASTA DE SER O OUTRO

Basta de ser o outro... O herdeiro da terra,
O neto de seus avós!
Basta de ser
O que leu
E o que ouviu...
À terra devolvo
O cálcio, o ferro, o fósforo;
À nuvem devolvo a água rubra,
Aos mortos,
As angústias herdadas,
Aos vivos
Os gestos e as palavras recebidas...
Basta de ser o outro,
Colcha de retalhos alheios,
Cobrindo um frio verdadeiro.

SONETO L

No ramo a flor será sempre segredo
Moldando realidades no vazio,
Caminho de perfume, rosa e estio,
Crescendo além dos roseirais do medo.

História das raízes sem enredo...
Rolam frases de terra pelo rio,
As consoantes de luz tremem de frio
E as vogais orvalhadas morrem cedo.

No ramo a flor será sempre futuro,
Haste e corola nos confins do sonho,
Marcando de infinito a cor do muro...

Sempre a cor sobre a senda debruçada,
E o perfume crescendo onde reponho
O sentido da flor despetalada.

SONETO II

O livro que hoje escrevo foi escrito
Em outro plano estático e diverso,
Sei que morro no fim de cada verso
E renasço no início de outro mito.

Em cada letra tinta de infinito
Há um diálogo mudo que converso
Com nebulosas de meu universo
Onde nasceu a página que dito.

Sei que sou neste instante o que já fui,
E aquilo que recebo agora flui
De um campo superior onde me deito.

Durmo além, nessa plaga que recordo:
Só escrevo neste plano onde hoje acordo,
Aquilo que ainda sonho no outro leito.

SONETO IV

Não construo estes barcos, pois se fazem.
Cedro crescido em minha serrania,
Velas sugadas pela maresia,
E as âncoras, vocábulos que jazem

Em múltiplas jornadas que perfazem
Circuitos de hipocampos e euforia.
Sim, o leme nasceu em minha manhã fria
Da solidão das mãos que embora casem

No instante de criar, depois são fugas
Em corpos, em trajetos, em contactos,
Ou tripulantes percorrendo rugas.

Passam por mim as forças que se enfeixam
No cerne de estaleiros e do atos:
— Não construo estas naus, elas me deixam!

SONETO V

Alquimia do verbo. Em minha mente
Recriam-se palavras na hora vária,
A poesia se torna necessária
E as flores rememoram a semente.

É preciso que exista novamente
A aventura distante e temerária
De em ouro transformar a dor precária
E em nós deixar correr a lava ardente.

Que uma emoção profunda e mineral
Corra nos veios desta carne astral
E encontre em mim aquilo que procura.

Na paisagem que for, já sou nascido:
Nas formas criarei o elo perdido,
e, em lucidez, serei minha loucura.

A VIDA

Sonhei existir
Quando o universo circulava ainda
No sangue dos deuses.
Em mim criei a forma
E fui árvore,
Idealizei o mar
E fui peixe,
Aspirei a nuvem
E fui pássaro.
Na boca dos oráculos
Sou a palavra sagrada
Que brota da terra,
No corpo dos amantes
A semente que nasce do beijo.
Expirada pelos deuses
Trouxe o formato de seus corpos múltiplos;
Agora sou o ar divino
Formando realidade,
Impulso gerando impulso.
Retorno aos pulmões da noite
Com rostos, árvores e oceanos gravados em mim:
- Nos caminhos do sangue, toco-me de eternidade.

DESCOBERTA

Deixa que as coisas te interpretem,
Que o vento sinta tua pele,
Que as pedras meditem teus passos,
E as águas criem tua realidade.
Vive o mistério da terra,
O segredo da semente,
O caminho da seiva,
O milagre do fruto.
Deixa que as coisas meditem sobre ti,
Que ventos, pedras e águas recriem tua imagem;
Entende a mão que te colhe,
A lâmina que te despe
E sangra teu silêncio,
Reflete o mundo branco que te mastiga,
Transforma-te em carne, e em galeras de sangue
Regressa.
A vida terá partido, com bicos noturnos,
A casca da palavra.

OS DIAS MORTOS

Os dias mortos, sim, onde enterrá-los?
Que solo se abrirá para acolhê-los
Com seus pés indecisos, seus cabelos,
Seu galope de sôfregos cavalos!

Os dias mortos, sim, onde guardá-los?
Em que ossário reter seus pesadelos,
Seu tecido rompido de novelos,
Seus fios graves, relva além dos valos.

Tempo desintegrado, tempo solto,
Fátuo fogo de febre e de fuligem,
Canteiro de sereia em mar revolto.

Em nossa carne, sim, em nossos portos,
Quando o fim regressar à própria origem,
Repousarão também os dias mortos!

CIMENTO ARMADO

Batem estacas no terreno morto,
No terreno morto surge vida nova,
As goiabeiras do velho parque
E os roseirais abandonados,
Serão cortados
E derrubados

Um prédio novo de dez andares,
Frio e cinzento,
Terá seu corpo de cimento-armado
Enraizado no velho parque
de goiabeiras
De roseirais

Batem estacas no terreno morto.
Século vinte...
Vida de aço...
Cimento-armado!

Batem as estacas
Um prédio novo, de dez andares,
Terraços tristes,
Pássaros presos,
Rosas suspensas,
Flores da vida,
Rosas de dor.

Paulo Bomfim (1926)


Paulo Lébeis Bomfim nasceu no dia 30 de setembro de 1926 em São Paulo (SP). Abandonou o curso de Direito, que havia iniciado por volta de seus 20 anos, preferindo continuar trabalhando como colaborador dos jornais “Diário de São Paulo”, “Correio Paulistano” e “Diário de Notícias”. Seu primeiro livro, “Antônio Triste”, lançado em 1946, com prefácio de Guilherme de Almeida e ilustrações de Tarsila do Amaral, recebeu o Prêmio Olavo Bilac, concedido pela Academia Brasileira de Letras, em 1947.

Atuou como relações públicas da "Fundação Cásper Líbero" e fundador, com Clóvis Graciano, da Galeria Atrium. Produziu "Universidade na TV" juntamente com Heraldo Barbuy e Oswald de Andrade Filho; "Crônica da Cidade" e "Mappin Movietone". Apresentou na Rádio Gazeta, "Hora do Livro" e "Gazeta é Notícia". Entre 1971 e 1973 foi curador da Fundação Padre Anchieta, diretor técnico do Conselho Estadual de Cultura de São Paulo e representante do Brasil nas comemorações do cinqüentenário da Semana de Arte Moderna, em Portugal.

Publicou, em 1951, "Transfiguração". Em 1952, "Relógio de Sol". Lança as primeiras cantigas, musicadas por Dinorah de Carvalho, Camargo Guarnieri, Theodoro Nogueira, Sérgio Vasconcelos, Oswaldo Lacerda e outros.

Publica, em 1954, "Cantiga de Desencontro", "Poema do Silêncio", "Sinfonia Branca" e depois, em 1956, "Armorial", ilustrado por Clóvis Graciano. Em 1958, lança "Quinze Anos de Poesia" e "Poema da Descoberta". Publica a seguir "Sonetos"(1959), "O Colecionador de Minutos", "Ramo de Rumos" (1961), "Antologia Poética" (1962), "Sonetos da Vida e da Morte" (1963). "Tempo Reverso" (1964), "Canções" (1966), "Calendário" (1968), "Poemas Escolhidos" (1974), "Praia de Sonetos" (1981), com ilustrações de Celina Lima Verde, "Sonetos do Caminho" (1983), "Súdito da Noite" (1992), "50 Anos de Poesia" e "Sonetos" pela Universitária Editora de Lisboa. Em 2000 e 2001 publicou os livros de contos e crônicas “Aquele Menino” e “O Caminheiro”. Publicou, em 2004, “Tecido de lembranças” e, em 2006, quando o poeta completou 80 anos de idade, “Janeiros de meu São Paulo” e “O Colecionador de Contos”.

Suas obras foram traduzidas para o alemão, o francês, o inglês, o italiano e o castelhano. No dia 23 de maio de 1963, passou a ocupar a cadeira 35 da Academia Paulista de Letras tendo sido saudado por Ibrahim Nobre. Presidente do Conselho Estadual de Cultura e do Conselho Estadual de Honrarias e Mérito, na década de 70. O poeta é, ao completar 80 anos, o decano daquela Academia.

Em 1982, recebeu o título Personalidade do Ano, concedido pela União Brasileira de Escritores

Recebeu, em 1982, o Troféu Juca Pato de Intelectual do Ano, concedido pela União Brasileira de Escritores.

Em 1993, foi agraciado com o Prêmio pelo Cinquentenário de Poesia, concedido pela União Brasileira de Escritores.

Fonte:
Jornal de Poesia

J. B. Xavier (O Pedágio)


À minha frente, a luz baça dos faróis se ia esmaecendo, vencida pela claridade do dia que surgia.

Confuso com a súbita claridade, percebi vagamente o incêndio avermelhado que o sol fazia ao levantar-se das colinas distantes.

As faixas brancas do asfalto, no entanto, tomavam toda a minha atenção, enquanto eu maldizia ter que percorrer esse trecho todos os dias.

A paisagem passava ao meu redor como uma névoa verde que se contorcia deformada pela velocidade. Absorto, eu já estava a uma hora no futuro, pensando em tudo o que me esperava no escritório.

Como eu começaria? Pior! por onde eu começaria?

Um ar gélido penetrava por alguma fresta do veículo, e me fez perceber o quanto a temperatura havia caído. Irritado, fui obrigado a parar e vestir um casaco, logicamente inadequado para aquela queda de temperatura.

A parada me irritou ainda mais, de maneira que quando cheguei ao pedágio, eu já me sentia sufocado pelo colarinho apertado que insistia em marcar minha pulsação, estrangulando-me a jugular.

-Bom dia - disse a moça num sorriso como há muito eu não via.

-Oi? - respondi - retirando o fone de ouvido, enquanto me irritava procurando trocados, por não ter comprado passes.

-É bonita a música que está ouvindo?

Pela primeira vez, a olhei nos olhos. " O que ela tem com isso?" - pensei irritado, mas aqueles olhos me fitaram diretamente, e o sorriso que o acompanhou desarmou meu espírito e ficará para sempre gravado em minha memória. Quis responder, mas não consegui lembrar de música alguma. Olhei para o walk-man no banco ao lado e ele estava chiando, porque há muito a seleção de músicas já havia acabado.

- É, sim, é bonitinha - respondi meio sem graça.

- É ótimo iniciar o dia ouvindo músicas - respondeu ela. O senhor passa sempre por aqui?

- Todos os dias - respondi prestando um pouco mais de atenção à moça – Você é nova aqui - perguntei?

- Sim. Comecei há alguns dias! Estou muito contente, porque esse posto fica num dos trechos mais bonitos da rodovia. Se o senhor passar quinze minutos mais cedo, verá um grande milagre da natureza nas curvas adiante - disse ela - enquanto me oferecia o troco, antes mesmo que eu lhe desse o dinheiro. - Em dias claros o sol parece sair de dentro da terra, e em dias chuvosos formam-se cascatas na encosta dos morros. É muito bonito.

- Eu conheço cada centímetro dessa rodovia - disse-lhe, num risinho irônico. - Há anos passo por aqui...

- Mas o senhor “curte” o trecho? - perguntou ela inocentemente enquanto pegava o dinheiro que eu lhe oferecia.

Eu ia responder qualquer coisa, mas um businaço atrás de mim, me assustou e me fez arrancar quase instantaneamente: Outro apressado, como eu.

Em poucos segundos eu estava novamente em velocidade. Mas a frase da moça mudou a minha vida.

No silêncio do carro, enquanto o vento zunia no espelho retrovisor, eu fiquei pensando na falta de sentido que minha vida estava tomando. Repentinamente fui colocado diante de mim mesmo por uma frase fortuita, casual.

Girei o retrovisor interno e olhei-me nos olhos. Vi um homem ansioso, correndo para atingir uma meta mal definida, que se esfumaçava sempre que eu pensava tê-la atingido. Vi um olhar vago, inquieto, onde havia resquícios de medo. Um medo insidioso, muito bem disfarçado, mas latente e presente, gerando inseguranças.

Mas acima de tudo, vi um homem solitário, envolvido demais na corrida desenfreada em busca do sucesso para ter tempo de cultivar amizades fortes. Apressado demais, ocupado demais, para ter tempo de confraternizar.

Minha desatenção à estrada me levou para a outra pista de rodagem e por pouco não causo um acidente. E se o acidente tivesse acontecido? De que teria valido toda essa correria?

Então, a consciência do efêmero da vida atingiu-me em cheio!

Como eu pude ter tanta certeza de que teria o tempo à frente disponível para todos os planos que tracei? Quem foi que me garantiu isso, a não ser minha própria mania de pensar que o Universo está sempre à minha disposição para me servir?

Meu pensamento foi então para minha esposa e filhos. Teria eu o direito de fazê-los esperar mais pela atenção que nunca vinha? Eu já não tinha conquistado o suficiente para estar alegre, ao invés de estar sempre tenso pelo que ainda me propunha conquistar?

A voz da menina do pedágio voltou aos meus ouvidos: “O senhor curte o trecho?”
No silêncio do carro eu finalmente a respondi: Não, eu não curtia o trecho!

Nos dias que se seguiram eu acatei o seu conselho e saí um pouco mais cedo. Sem a pressa habitual, pude observar o maravilhoso espetáculo que a natureza nos oferece todas as manhãs. Um espetáculo diferente a cada dia.

Como pude praguejar contra a chuva, quando era ela que limpava e tornava brilhantes as flores das copas da floresta; se, graças a ela, desfilavam diante de mim imensos mosaicos coloridos, de formas insondáveis? Como pude me irritar com o sol batendo em meu rosto, se era ele que arrancava cintilâncias de diamante do regato que corria ao longo da rodovia e me lembrava a toda hora que eu era parte de tudo aquilo?

Em que momento eu parei de me extasiar diante da vida? Quando aconteceu de eu não prestar mais atenção ao momento presente? Quando foi que eu deixei de "curtir os trechos" das minhas várias jornadas pela vida? Como pude permitir que isso acontecesse?

E o meu trabalho no escritório? Ora! Calma! Ele ainda está a mais de uma hora no futuro!

Fontes:
JB Xavier
Imagem = Caldeira Motors

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 258)

Trovador Izo Goldman (desenho a lápis e carvão por JB Xavier)
Uma Trova Nacional

Amanhece... De repente,
tomando o corpo da terra,
o sol beija, ardentemente,
o rosto bruto da serra...
–DIVENEI BOSELI/SP–

Uma Trova Potiguar

Há na mente da criança
um ideal tão fecundo,
que toda desesperança
torna-se lenda no mundo.
–PAULO ROBERTO/RN–

Uma Trova Premiada


2010 - Curitiba/PR
Tema: MADRUGADA - Venc.

Madrugada. A lua sonda
minha rede e, sem vacilo,
entregue à exaustão da ronda,
se deita, para um cochilo...
–DARLY OLIVEIRA BARROS/SP–

Uma Trova de Ademar

Amar – verbo transitivo
que ao coração de nós dois
será sempre um lenitivo
hoje, amanhã e depois...
–ADEMAR MACEDO/RN–

...E Suas Trovas Ficaram

Seria a vida enfadonha
sem as dúvidas que tive.
Quem tem certeza não sonha,
e que não sonha, não vive...
–ORLANDO BRITO/MA–

Simplesmente Poesia

–DALINHA CATUNDA/CE–
Décima Final

Um dia eu fui cativa
De beijos que eram só meus.
Depois dissestes adeus
Fiquei mais morta que viva.
O gosto de tua saliva
Deixava-me alucinada
Virou saudade e mais nada
Vagando dentro de mim
Se já chegamos ao fim
Fique de boca calada!

Estrofe do Dia

Quem preserva a cultura do sertão,
a quadrilha, o forró, o violeiro,
tá zelando o folclore brasileiro
que não vai ao programa do Faustão;
que a mídia não quer dar proteção
ao poeta que vive do repente,
tá tirando do solo essa semente
que precisa nascer nos arraiais;
quem preserva as raízes culturais
eterniza o valor da sua gente.
–MARIVALDO GONÇALVES/PE–

Soneto do Dia

–PROF. GARCIA/RN–
Obstinação

Quando eu vejo no espelho a crueldade,
que o tempo indiferente me causou,
começo a perceber, que na verdade,
minha infância tão linda já passou!

Até hoje carrego com saudade
tudo aquilo que o tempo me levou,
dos feitiços banais da mocidade
a lembrança foi tudo que restou!

E por lembrar da infância tão querida,
nunca esqueço do amor de minha vida
que descobri na infância, certa vez;

pois este amor, tão lindo e tão sonhado,
inda vive comigo do meu lado,
a encher meu lar de paz e sensatez!

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

Ialmar Pio Schneider (Inverno e Saudades)


Sempre quando chega o inverno eu me transporto aos tempos de criança, andando de pés descalços sobre a geada que cobria os campos da minha terra. Hoje, distante, a saudade me visita e eu leio o soneto que fiz há alguns anos, lembrando aquele pedaço de chão onde ensaiei os primeiros passos e de que me afastei, por contingências da vida, mas do qual conservo as mais gratas recordações da infância. Diz assim:

“SONETO A SERTÃO-(Minha terra natal)

– Oh! terra onde nasci, berço de minha infância,
que sempre levarei dentro do coração,
batendo com ardor, em serena constância,
lembrando os tempos bons que já bem longe vão !…

Teu nome a recordar saudades e distância,
flores silvestres e quem sabe solidão,
há de permanecer tal suave fragrância
cá dentro de minh’alma, oh! saudosa Sertão !

Se assim Deus o quiser, em teu solo bendito
reviverei um dia o passado aos pedaços,
como o filho que volta ao lar: cansado, aflito…

Porém que, em retornando ao seu torrão natal,
lugar onde ensaiou os seus primeiros passos,
consegue um elixir pra curar o seu mal…”

No entanto, meus familiares já não residem mais lá. Estão espalhados pelo Paraná e Santa Catarina, também pelas citadas contingências da vida que os levaram à procura de melhores condições para enfrentar o dia-a-dia. Isto faz-me lembrar o romance Éramos Seis, de Maria José Dupré, que depois virou uma novela do SBT de grande audiência, protagonizada pela inigualável atriz Irene Ravache, entre outros não menos importantes atores. Só que nós éramos oito, os saudosos pai e a mãe (hoje falecidos), e seis irmãos (duas mulheres e quatro homens, um dos quais também falecido há pouco, meu saudoso mano Remi, para o qual escrevi umas palavras doridas aqui, quando do seu passamento, por assim dizer, prematuro, em consequência de cirurgia de vesícula mal-sucedida e hérnia, ao que me consta, tendo tido hemorragia e sua pressão baixado a zero. Tenho como um baque em minha vida esta perda, pois tratava-se de um irmão que também trilhava o caminho da poesia e se identificava comigo. Dir-se-ia fatalidade para justificar. Quem o sabe ?

Entrementes, os invernos foram se sucedendo, e agora fico recitando os versos do romântico Guilherme de Almeida:

“SAUDADE

– Só.
Para além da janela,
nem uma nuvem, nem uma folha amarela
manchando o dia de ouro em pó…
Mas, aqui dentro, quanta bruma,
quanta folha caindo, uma por uma,
dentro da vida de quem vive só !
Só – palavra fingida,
palavra inútil, pois quem sente
saudade, nunca está sozinho: e a gente
tem saudade de tudo nesta vida…
De tudo ! De uma espera
por uma tarde azul de primavera;
de um silêncio; da música de um pé
cantando pela escada;
de um véu erguido; de uma boca abandonada;
de um divã; de um adeus; de uma lágrima até !

No entanto, no momento,
tudo isso passa
na asa do vento,
como um simples novelo de fumaça…
E é só depois de velho, uma tarde esquecida,
que a gente se surpreende a resmungar:
“Foi tudo o que vivi de toda a minha vida !”
E começa a chorar…

Guilherme de Almeida”

Por outro lado, sabe-se que os invernos já não são os mesmos daqueles tempos, não obstante na serra gaúcha todos aguardem – residentes e turistas – a queda da neve que quase todos os anos acontece nesta época. Enquanto isto, os visitantes vão se deliciando com a gastronomia e os hotéis e pousadas ficam lotados, ainda mais que está para ocorrer o 31º Festival de Gramado – Cinema Latino e Brasileiro, a ser realizado de 18 a 23 de agosto.

Assim vou finalizando esta crônica em que mesclei inverno e saudade, ainda que me louvando no inigualável poeta romântico Guilherme de Almeida, para dizer do estado de minha alma no momento. Que tenhamos todos um salutar inverno do qual sintamos saudades amanhã !
Publicado em 12 de julho de 2003 – no Diário de Canoas.

Fontes:
Texto enviado pelo Autor
Imagem = geada em Canoas disponível em Metsul Meteorologia

Monteiro Lobato (Caçadas de Pedrino) XI – Inaugura-se a linha


A linha telefônica foi construída com todo o luxo, como é de costume nas obras do governo. Os postes foram até pintados! Era a mais curta linha do mundo: com cem metros de comprimento e dois postos apenas, um no terreiro da casa e outro no acampamento dos caçadores. Um poste foi pintado de verde, outro de amarelo. No dia da inauguração, porém, aconteceu um fato imprevisto: o rinoceronte não veio deitar-se à porteira na hora do costume. Nem apareceu no dia seguinte, nem durante toda a semana. Os caçadores tiveram de armar barracas e ficar ali esperando, pacientemente, que ele se resolvesse a voltar.

Por que isso? Porque ficava sem jeito inaugurarem a linha sem o rinoceronte atravessado na porteira. Sem rinoceronte poderiam entrar duma vez no terreiro e falar diretamente com a dona da casa. Mas precisavam justificar a construção da linha, e por isso resolveram esperar que o monstro voltasse.

Vendo as coisas assim encrencadas, Emília resolveu intervir. Foi à Figueira-Brava pedir ao rinoceronte que não desapontasse a gente do governo e continuasse a ir dormir na porteira. Não se sabe de que argumentos a boneca usou; o que se sabe é que no dia seguinte, exatamente às três da tarde, o rinoceronte veio de novo, pachorrentamente, deitar-se de atravessado na porteira.

Houve vivas de entusiasmo no acampamento dos caçadores. Podiam, enfim, inaugurar a linha.

Trlin, trlin... soou na varanda a campainha do aparelho.

— Vá atender — disse Dona Benta ao Visconde, que estava cochilando por ali.

— Eu atendo — gritou Cléu, que tinha muita prática em falar ao telefone. E numa vozinha muito clara e espevitada atendeu: — Alô! Quem fala?

— Fala aqui o detetive X B2, chefe do Departamento Nacional de Caça ao Rinoceronte — respondeu uma voz grossa. — E quem está falando aí?

— Aqui fala Cléu, por ordem da proprietária da casa, Dona Benta Encerrabodes de Oliveira, avó de Narizinho, Pedrinho e Rabicó. Que deseja Vossa Rinocerôncia?

— Desejo participar à dona da casa que a linha telefônica está concluída e que agora podemos discutir as operações necessárias à caçada do rinoceronte, tendo o gosto de fazer com que as nossas palavras passem bem por cima dele sem que o bruto perceba, ah! ah! ah!...

— Mas por que não discutiu isso durante a semana em que o rinoceronte andou sumido e a passagem pela porteira estava completamente franca? Acho que Vossa Rinocerôncia perdeu um tempo precioso.

— Menina — respondeu, meio ofendido, o detetive X B2 —, não se meta no que não é da sua conta. O governo sabe o que faz. Quero falar com a dona da casa.

Cléu tapou com a mão o bocal do telefone e voltou-se para Dona Benta.

— Ele quer falar com a senhora mesma.

Mas a velha não estava pelos autos. Considerava aquela gente uma súcia de idiotas, um verdadeiro bando de exploradores.

— Diga-lhe que não me aborreça. Estou muito velha para andar servindo de instrumento a piratas.

Cléu deu o recado, com outras palavras para não ofender o governo, e então o detetive X B2 explicou que necessitava da autorização de Dona Benta para construir outra linha...

— Segunda linha telefônica? — indagou Cléu, admirada.

— Não, menina abelhuda. Agora será uma linha de transporte aéreo, que nos permita levar para aí as nossas armas e bagagens. Só assim poderemos assestar o canhão-revólver e a metralhadora na escadinha da varanda, de modo a abrir fogo de barragem contra o inimigo, sem dano para os vidros das vidraças de Dona Benta.

— E foi só para pedir tal licença que os senhores levaram tanto tempo construindo esta linha telefônica? — perguntou Cléu, admiradíssima.

— Não discuta os nossos processos, menina impertinente — disse com cara feia o detetive X B2. — O governo sabe o que faz, torno a dizer.

Cléu tapou de novo a boca do aparelho, enquanto consultava Dona Benta.

— Ele pede licença para construir uma nova linha — uma linha de cabos aéreos, como aquela do Pão de Açúcar...

Dona Benta respondeu que fizessem como entendessem e não a incomodassem mais.

Pedrinho estava assombrado da esperteza daqueles homens. Iam construir uma linha de cabos só para levar ao terreiro um canhãozinho e uma metralhadora!... Muitos rinocerontes já haviam sido caçados desde que o mundo é mundo, mas nenhum seria caçado tão caro e com tanta ciência como aquele. Apesar de nunca saídos daqui, tais homens bem que podiam mudar-se para a África, a fim de ensinar aos negros do Uganda como é que se caçam feras...

Tanto tempo levou a construção da linha de cabos aéreos que o rinoceronte se foi familiarizando não só com as pessoas do sítio, como ainda com o pelotão de caçadores. Várias vezes chegou até o acampamento onde farejava com curiosidade o canhão-revólver e a metralhadora, sem saber para que serviam. Numa dessas vezes ajudou os construtores da linha a arrancarem um poste que fora fincado torto, trabalhando tal qual um elefante manso da índia.

Emília tornara-se amiga íntima do animalão. Ia sempre à Figueira-Brava vê-lo pastar arbustos, e com ele entretinha-se horas a ouvir casos da vida africana. Era um rinoceronte de boa paz, já velho, com a ferocidade nativa quebrada por longos anos de cativeiro no circo. Só queria uma coisa: sossego. Por isso fugira do circo e viera esconder-se ali, no silêncio do capoeirão dos Taquaruçus.

— Eles querem matar você — disse-lhe Emília certa manhã. — Trouxeram para esse fim um canhão-revólver e uma metralhadora.

O rinoceronte arrepiou-se todo. Jamais supusera que a atividade daqueles homens e toda a trapalhada das linhas, que andavam assentando, tivessem por fim dar cabo da sua vida.

— Mas por quê? — indagou, em tom magoado. — Que mal fiz eu a essa gente?

— Nenhum, mas você é o que os homens chamam “caça” — e o que é caça deve ser caçado. Quando os homens encontram no seu caminho uma lebre, uma preazinha, um inambu, um pato selvagem ou o que seja, ficam logo assanhadíssimos para matá-lo — só por isso, porque é caça. Mas você não tenha medo que não será caçado. Hei de dar um jeito.

— Que jeito?

— Não sei ainda. Vou ver. Mas não se incomode. Sou jeitosíssima! Dou um jeito de afugentar os homens e você ficará morando toda a vida neste sítio. Já temos em nosso bandinho um quadrúpede, o Marquês de Rabicó, que é leitão, conhece?

— Não tenho a honra.

— Pois é um senhor muito importante, apesar da sua covardia e gulodice (Emília não teve a coragem de contar que Rabicó era seu marido). Tem quatro pés, como você, mas nem um pingo de chifre. Com mais um companheiro, e este de formidável chifre na testa, havemos de pintar o sete pelo mundo...

Emília estava radiante com a idéia de ver o rinoceronte incorporado à família de Dona Benta. Tia Nastácia é que iria ficar tonta de susto...

— E que tenho de fazer nesse bando? — perguntou o rinoceronte, comovido com o oferecimento.

— Nada, por enquanto. Mais tarde, veremos. O pelotão dos caçadores já está com a linha aérea pronta. Breve farão o transporte do canhão-revólver, da metralhadora e do resto. Vão assestar essas armas na escadinha da varanda.

— Devo então continuar a deitar-me na porteira, não é?

— Está claro. Para que eles possam utilizar-se da linha de cabos aéreos é indispensável que você esteja atravessado na porteira.

O rinoceronte não entendia aquilo.

— Mas por que já não transportaram esse tal canhão no tempo que passei sem ir deitar-me à porteira?

— Não sei — respondeu Emília, que de fato não sabia. — Dona Benta também não sabe, nem Cléu, que foi quem conversou com o detetive X B2 pelo telefone, nem Narizinho, nem Pedrinho, nem o Visconde, nem Rabicó — ninguém sabe. Diz Cléu que são “coisas do governo”, um puro mistério.

O rinoceronte ficou pensativo. Devia ser uma bem estranha criatura esse tal governo, que fazia coisas acima do entendimento até da Emília!

Às três da tarde apareceu o animalão no terreiro, indo deitar-se no seu lugarzinho do costume. Grande alegria entre os caçadores. Podiam, afinal, fazer o transporte das armas e bagagens, e também de si próprios, utilizando-se da linha de cabos aéreos, e em seguida dar começo ao ataque à fera. Um entusiasmadíssimo telegrama foi passado para o Rio, nestes termos: “Trabalhos linha aérea brilhantemente concluídos ponto iniciaremos hoje transporte armas e bagagens ponto vitória segura ponto saúde e fraternidade”.

Os jornais publicaram a notícia com grandes elogios aos heróicos caçadores do rinoceronte, que tão bravamente arrostavam os maiores perigos a fim de limpar o solo da pátria daquele perigosíssimo animal. O detetive X B2 foi chamado “impertérrito”, e outros lindos adjetivos que a imprensa só usa para homens de pulso e tremendos heróis do mais alto calibre. Choveram telegramas de parabéns pela beleza dos trabalhos realizados.

Às três da tarde, logo que o rinoceronte se atravessou na porteira, a linha de cabos foi posta a funcionar. Primeiro passou, pendurado em carretilhas, o canhão-revólver. Depois a metralhadora. Depois passaram as munições, a bagagem, as violas e, por fim, os caçadores.

Dona Benta viu, com má cara, toda aquela gente encher o terreiro. Já andava enjoada deles, e quando Tia Nastácia falou em lhes oferecer um café com bolinhos, não consentiu.

— Nada de comedorias — disse ela. — Do contrário esses heróis nunca mais me abandonam o sítio.

— É isso mesmo, sinhá — tornou a preta. — O meu cafezinho parece que tem visgo.

Enquanto os homens descansavam, um tanto desapontados de não aparecer o café com bolinhos, Emília foi secretamente à caixa das munições e trocou a pólvora que lá havia por farinha de mandioca. Em seguida, mandou pelo Visconde um recado muito comprido ao rinoceronte, o qual terminava assim: “... e quando eu soltar um assobio, você levanta-se e dá uma investida de rinoceronte selvagem contra esses homens”.

— E se o rinoceronte errar e investir também contra algum de nós? — objetou com muita sabedoria o Visconde. — Porque aqui da casa ele só conhece você.

Emília refletiu um bocado. Depois:

— Diga-lhe para só chifrar os que não tiverem uma rodela de casca de laranja no peito.

Enquanto o Visconde dava o recado, Emília foi ao pomar com uma faca e trouxe meia dúzia de rodelas de casca de laranja, que colocou no peito de cada morador da casa sem perder tempo em explicar para que era. Só Tia Nastácia insistiu em saber as razões.

— Ah, não quer? — disse Emília. — Sua alma sua palma. Depois não se queixe — e deixou-a sem rodela no peito.

Nisto soou a voz do detetive X B2, dirigida aos seus homens.

— Tudo pronto? — indagava ele.

— Tudo pronto! — responderam os perguntados.

— Então, fogo!

— Parem! Parem! Não ainda! — berrou Tia Nastácia lá de dentro. — Estou procurando algodão para botar nos meus ouvidos e nos de Dona Benta. Onde já se viu dar tiro de peça na escadinha da varanda sem a gente estar com um bom chumaço de algodão nos ouvidos? Credo!

Os artilheiros esperaram que os ouvidos das duas velhas ficassem perfeitamente enchumaçados. Depois, ouvindo de novo a ordem de “Fogo!”, fecharam os olhos e bateram na espoleta.

A decepção foi completa. Em vez dum terrível Bum! que atroasse os ares, o que saiu do canhãozinho foi pirão de farinha de mandioca. O grande tiro falhara da maneira mais vergonhosa. Nesse momento Emília, imitando Pedrinho, meteu dois dedos na boca e tirou um assobio agudíssimo.

O rinoceronte ouviu lá longe. Levantou-se de cara feia e veio, que nem uma avalancha de carne, contra os seus perseguidores.

Soou um berro de pânico misturado com a ordem do detetive X B2 de “salve-se quem puder”. Todos puderam, porque todos se salvaram, como veados, pelos fundos do quintal, imperterritamente. Naquela velocidade, em menos de uma hora estariam no Rio de Janeiro.

Ao alcançar a escadinha, o rinoceronte não encontrou um só inimigo, isto é, uma só pessoa sem rodela de casca de laranja no peito. Minto. Encontrou uma: Tia Nastácia, e ao vê-la sem rodela pensou que fosse cozinheira da gente do governo. Abaixou a cabeça e investiu. A pobre preta mal teve tempo de trancar-se na despensa, onde fez, no escuro, mais pelo-sinais do que em todo o resto de sua vida.

— Toma! — gritou a diabinha da Emília. — Quis ser muito sabida, não é? Pois toma…
––––––––––––-
continua ... XII – Rinoceronte familiar
---------------------
Fonte:
LOBATO, Monteiro. Caçadas de Pedrinho/Hans Staden. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. III. Digitalização e Revisão: Arlindo_Sa

terça-feira, 28 de junho de 2011

José Tavares de Lima (Vozes do Coração) Parte VI – final


A mulher cresce e domina
seu desejo, seu temor;
porém volta a ser menina
quando vive um grande amor!

Aos fariseus não parece,
mas quem crê sabe e sustenta:
- quanto mais humilde a prece,
mais alta a Deus se apresenta!

Aquela canção que outrora
encheu nosso amor de encanto,
depois que te foste embora
serve de fundo ao meu pranto! ...

Busco-a com toda ansiedade
porém o destino estreito
não deixa a felicidade
ter espaço no meu peito! ...

Cada vez mais terno e amigo,
na verdade o nosso amor
tem muito do vinho antigo
que o tempo apura o sabor!

Chegaste... E a tua chegada
me trouxe o deslumbramento
de uma estrela inesperada
surgindo em céu nevoento!...

Cheia de graça e feitiço
ela diz: "Vê se me esquece";
sem saber que para isso
em vão já fiz muita prece!...

Desconfia precavido,
até de quem te aconselha,
que há muito lobo escondido
sob o disfarce de ovelha!

Desfez-se o sonho... Partiste ...
Fiquei num desgosto infindo ...
Mas o que me fez mais triste
foi que partiste... sorrindo...

De volta à minha cidade,
na emoção que me domina,
posso ver uma saudade
me acenando em cada esquina !...

Enquanto entre alguns se expande
a descrença a fé me alcança;
porque esta Pátria tão grande
cabe na minha esperança!

Eu tento, sem pranto ou queixa
tua ausência suportar..
Mas a saudade não deixa
que eu te lembre sem chorar!

Mesmo que a vida aos meus passos,
seja um caminho sem glória,
eu não percebo os fracassos
porque só penso em vitória!

Meu coração se afigura
um triste barco no mar,
carregado de ternura...
mas sem porto onde ancorar!

Não choro a mágoa, a desdita,
que trazem tristeza a tantos,
porque a vida ainda é bonita
mesmo com seus desencantos!

Não volto, orgulhoso, digo,
quando que eu volte ela insiste...
Mas, saudade, ao teu castigo
orgulho nenhum resiste! ...

Na vida sou barco ousado
cheio de sonhos e planos,
que sempre acaba encalhado
na praia dos desenganos!

No verde imenso, a cascata
de brancura cristalina,
lembra um caminho de prata
unindo o vale à colina !

Num mundo injusto é mister
que esta justiça se faça:
sem a graça da mulher
nada mais teria graça.

O mundo é enganoso e vão,
porém não deixo de crer
na esperança - esta ilusão
que ajuda a gente a viver!

Para o tormento em que vivo
desde o teu adeus confesso
que só tem um lenitivo:
o teu mais breve regresso!

Partiste... E o pranto que invade
o meu peito dolorido
tem suspiros de saudade,
tem tristezas de gemido! ...

Quem diz, na sua cegueira,
que reza em vão, desconhece
que Deus tem sua maneira
de atender à nossa prece...

Quem já venceu nos ensina
que a vitória é mais de quem,
mesmo por entre a neblina,
descobre um sol mais além! ...

Quem sofre mas, constrangido
retém a lágrima, ignora
que o tormento é mais dorido
no peito de quem não chora.

Quem sonha as mágoas olvida,
não perde a fé, nem fraqueja,
porque o sonho adoça a vida
por mais amarga que seja....

Riu-me um dia... Desde então,
com seu jeitinho suave,
entrou no meu coração
e deu sumiço na chave!...

Se a luta é penosa, inglória,
não percas a confiança,
que o segredo da vitória
está na perseverança!

Seja um minuto somente,
a ser feliz não me furto;
pois, dos caminhos da gente,
o da ventura é o mais curto!

Se o pranto fosse alegria,
se fosse festa a desdita,
a minha vida seria
uma risada infinita!...

Ser teu príncipe, não digo...
Tais honras nunca sonhei;
mas, nos momentos contigo,
tenho venturas de rei!

Se te aflige um desencanto
recorre à ilusão e sonha,
que a quem sonha não dói tanto
uma verdade tristonha !

Tão forte amor nos enlaça,
e de forma tão perfeita,
que a cada dia que passa
nossa união mais se estreita!

Tendo a graça como tema
e o encanto que o amor requer,
Deus escreveu um poema
que nós chamamos: - Mulher.

Tua ausência me faz ver
a vida tão sem motivo,
que eu vou teimando em viver
mas sem saber porque vivo!...

Vazia de explicação
foi a tua despedida,
mas encheu de solidão
as horas de minha vida!

Volta logo, antes que a espera
transforme, longa demais
meus sonhos de primavera
em suspiros outonais! ...

Vou sair de teu caminho...
Percebi que não compensa
dar tanto amor e carinho
em troca de indiferença

Fonte:
Colaboração de Darlene A. A. Silva
LIMA, José Tavares de. Vozes do Coração.

Ialmar Pio Schneider (Soneto a Canoas)

Município criado em 27 de junho de 1939

Altaneira cidade do progresso
rumo ao destino imenso te projetas;
das indústrias, fenomenal complexo,
exemplo de trabalho em tuas metas !

E irás rompendo curvas pelas retas
do amanhã promissor e do sucesso,
a fim de proclamarem os poetas
que em teu avanço não terás regresso...

Jovem ainda, contas com o vigor
de teus filhos natos e adotivos,
cada qual dedicado ao seu labor

para te verem mais engrandecida
em teus empreendimentos e atrativos;
e onde transcorra normalmente a vida.

Fontes:
Soneto enviado pelo autor
Imagem obtida em http://cathy.spaceblog.com.br

Canoas (Rio Grande do Sul)


Etimologia

Durante a construção da estrada de ferro que ligava Porto Alegre a São Leopoldo, inaugurada em 1874, uma timbaúva (Enterolobium contortisiliquum) foi aproveitada na antiga fazenda de Gravataí para construir embarcações. O lugar passou a ser chamado de Capão das Canoas, e deu origem ao nome do povoado. Ela também é a árvore símbolo do município

História de Canoas


A área onde hoje se localiza o município de Canoas era habitada pelos índios Tapes, quando em 1725 chegaram à região os tropeiros lagunistas e com eles o povoador e conquistador Francisco Pinto Bandeira. Em 1733 ele ocupou as terras e criou a Fazenda Gravataí, que foi herdada por Rafael Pinto Bandeira e mais tarde por Josefa Eufália de Azevedo (A Brigadeira). Posteriormente essas terras foram repartidas e vendidas.

Em 1871 a construção da estrada de ferro que ligaria São Leopoldo a Porto Alegre tem início. O primeiro trecho da ferrovia foi inaugurado em 1874 e na atual área de Canoas foi construída uma estação. O povoamento da região tem início em torno desta estação férrea, que ficava no centro da Fazenda Gravataí.

Os homens da guarda da estação utilizaram uma grande árvore na construção de uma canoa para o serviço da sede, situada às margens do rio dos Sinos. Outras canoas foram feitas com árvores do mato que havia no local que, por esse motivo, ficou conhecido como Capão das Canoas, o que originou o nome da estação, do povoado e, posteriormente, do município.
Estação férrea de Canoas em 1874.

O major Vicente Ferrer da Silva Freire, proprietário da Fazenda Gravataí na ocasião, aproveitou a viação férrea para transformar suas terras em um lote de chácaras de veraneio, que ele pôs à venda. Ponto de referência obrigatório, o local passou a ser designado como Capão das Canoas. Logo, as grandes fazendas foram perdendo espaço para as pequenas propriedades, chácaras e granjas.

Em 1908, Canoas foi elevada a Capela Curada. No mesmo ano vieram os irmãos Lassalistas e criaram uma escola agrícola, de ensino primário e de ensino secundário no centro da cidade. Em 1937, foi criada o 3º Regimento de Aviação Militar (RAV), hoje o 5º Comando Aéreo Regional (V Comar), isto foi decisivo para que ocorresse a emancipação do município. Victor Hugo Ludwig levou ao general Flores da Cunha, interventor federal no estado, as razões da emancipação.

A emancipação de Canoas ocorreria somente em 27 de junho de 1939. No dia 20 de março de 1992, a cidade perdeu seu 2º Distrito que, emancipado, se tornou o município de Nova Santa Rita.

A partir dos anos 1970, a economia e a população cresceram muito rapidamente. Pouco tempo depois a cidade já era grande, e hoje é a segunda maior economia do estado.

GEOGRAFIA

A geografia de Canoas é bem diversificada. A paisagem dominante é a da zona urbana, mas em alguns pontos isolados do município podem-se encontrar florestas, grandes bosques e um cenário parecido com os semidesertos.

O solo é pobre devido ao alto desgastamento e ao alto nível de poluição, por isso apenas plantas nativas sobrevivem, sendo que as demais plantas precisam de um tipo especial de terra. Canoas é banhada por dois rios, o rio dos Sinos e o rio Gravataí, além de estar na zona do Delta do Jacuí. O município também é banhado por diversos arroios e lagos, alguns poluídos e outros intactos. Na agricultura é dado o incentivo à produção de hortifrutigranjeiros, mas também são produzidos leite, lã, ovos e mel no município.

CULTURA

A cultura vem se desenvolvendo a pouco tempo na cidade. As atividades culturais ocorrem principalmente no sábado e no domingo. Cada bairro, com exceção da Ilha das Garças, tem seu próprio monumento ou uma praça simbólica, às vezes feitas até por moradores locais. O movimento cultural mais popular do município é a festa de Nossa Senhora do Caravaggio quando se reúnem milhares de fiéis nas ruas para comemorar o dia da santa.

Outros acontecimentos do município também atraem muitos visitantes, como o Carnaval, o Encontro dos corais, a Feira do Livro, o Festival de Ginástica e Dança

A Fundação Cultural de Canoas foi criada para preservar e promover a cultura no município e resgatar a cultura do povo canoense. Com a criação da Trensurb, a perda da identidade histórica do município era iminente por isso no dia foi 20 de novembro de 1984 ela foi criada. O prédio foi cedido em conseqüência de um contrato entre a Prefeitura Municipal e o Trensurb. A partir desta data começaram as atividades nas áreas de Literatura, Artes Plásticas, Teatro e Cinema, Folclore, Música e Dança. Na nova Lei Orgânica, a prefeitura cedeu verbas para que um capítulo importante do município não fosse perdido. Mas em 15 de abril de 2009 foi extinta dando lugar a Associação Cultural de Canoas-ASCCAN que tem por finalidade preservar e promover a fruição cultural através do apoio de associados, comunidade e parcerias com o público e privado. Hoje a ASCCAN realiza cursos de pintura e desenho, aulas de violão, guitarra, cavaquinho, danças entre outras atividades. O município promove Concurso de Literatura, que têm como objetivo premiar autores do município de outras regiões do Brasil e dos países que falam a língua portuguesa. O concurso abrange temas como conto, crônicas e poesias. Também ocorre a Feira do Livro.

Canoas também dispõe de algumas bibliotecas para pesquisas, sendo três as mais importantes: Biblioteca Pública Municipal João Palma da Silva (localizada em novo endereço desde maio de 2009, Rua Ipiranga, 105), Biblioteca Martinho Lutero (Ulbra) e a Biblioteca da Unilasalle. Existem no município nove CTGs, que incentivam a prática das tradições do Rio Grande do Sul no município. Os principais centros de tradições são o CTG Brasão do Rio Grande, a GPF Aldebarã, o CTG Mata Nativa, a DTG Morada de Guapos, a DTG Periquitos Amadores do Chasque, a GAG Piazitos do Sul, o CCT Rancho Crioulo, o CTG Raízes da Tradição e o CTG Sentinela do Rio Grande.

O teatro ainda vem se desenvolvendo lentamente, apesar de Canoas abrigar a AGTB (Associação Gaúcha de Teatro de Bonecos). A Fundação Cultural promove a Amostra de Cine-Vídeo de Canoas, com o objetivo de estimular o talento e a criatividade de profissionais e amadores que produzem cinema e vídeo no município. Dos filmes da última edição da amostra podem-se citar a Casa do Poeta de Canoas, de Maria Riggo; Os Donos da Ladeira, de Cláudio Piedras; Summertime, de Cláudio Piedras; Não Tem Preço, de Marcos Vinícius Cardoso Ribeiro; Siglas do Golpe, de Antônio Jesus Pfeil e Perturbação, de Cláudia Ávila.

O município oferece vários museus, que abrangem diversas áreas e assuntos, para pesquisa e visualização. Na semana nacional do museu o evento atrai um grande número de pessoas ao Museu Municipal do município e a atração mais procurada é a História do município. O público também se interessa pelo município desde sua urbanização até os dias atuais. Eis alguns museus presentes no município: Museu do Automóvel da ULBRA, Museu da Tecnologia da ULBRA, Museu de Ciências Naturais (Unilasalle), Museu e Arquivo Histórico La Salle, Museu Dr. Sezefredo Azambuja Vieira (Museu Histórico de Canoas)

O projeto Canta Brasil, no Mathias Velho, promove a dança e a música para jovens do bairro e sem nenhum custo. O projeto cultural já está sendo reconhecido na região.

O Carnaval de Canoas é um evento bastante conhecido na região e a partir de 2008 será um evento oficial e com o apoio da prefeitura.[22] O carnaval sempre atrai um grande número de pessoas do município. Canoas município possui ainda um sambódromo, localizado no Parque Esportivo Eduardo Gomes, onde as escolas do município se reúnem para o desfile. São onze as escolas de samba que participam do desfile no município: Acadêmicos da Grande Rio Branco, Acadêmicos de Niterói, Estado Maior da Rio Branco, Guardiões do Bom Sucesso, Imperatriz da Grande Niterói, Império da Mathias, Nenê da Harmonia, Nossas Raízes, Os Tártaros, Rosa Dourada e a Unidos do Guajuviras.

Canoas possui um número razoável de áreas de lazer para oferecer a seus habitantes. O município possui grandes parques e muitas praças (cerca de 113), mas nos bairros mais pobres ainda existe uma necessidade muito grande de locais que proporcionem lazer a sua população. O feriado municipal de Canoas é em Janeiro e é comemorada a Nossa Senhora dos Navegantes.

Entre os principais centros de lazer do município, estão os seguintes: Parque Municipal Getúlio Vargas (Capão do Corvo), Parque Esportivo Eduardo Gomes (Parcão), Canoas Country Club (somente para associados), Centro Olímpico Municipal e outros diversos. No interior do Parque Getúlio Vargas se localiza o Jardim Zoológico Municipal de Canoas (Minizôo).

Hino de Canoas

Em 24 de junho de 1965, a Lei Municipal 986 oficializou o hino composto por Wilson Dantur e Pedro Reinaldo Klein como o Hino do Município de Canoas.

Brava gente, canoense
Sob o sol tu surgirás
Pela grandeza do teu esforço
Só vitórias nos darás.

Teu escudo é a ordem
Tua força a união
O teu lema é o progresso
Pela grandeza da nação.

(Estribilho)
Canoas minha terra
Município de valor
Coração que dentro encerra
Tanta bravura tanto amor.

O teu povo, altaneiro
Vem cumprindo a sua missão
No caminho de luta e glória
Vem honrando a tradição.

São Luís, padroeiro
Deste povo varonil
Abençoai e protegei
Este pedaço do Brasil.

Fontes:
Wikipedia
Prefeitura de Canoas

III Encontro Catarinense de Escritores em setembro


A pequena e pacata cidade de Alfredo Wagner na região serrana de Santa Catarina receberá, no mês de Setembro, escritores de diversos países, estados e cidades. Será o III Encontro Catarinense de Escritores e o I Encontro Internacional de Escritores de Alfredo Wagner e Região nos dias 2 e 3 de Setembro de 2011 na Sociedade Recreativa União Club na Praça da Bandeira, S/N.

O Encontro receberá muitos escritores que já estão se cadastrando. Destacamos especialmente a presença do Dr. Mário Carabajal Lopes, Presidente da Academia de Letras do Brasil; da Prof. Dra. Lorena B. Ellis da Queensborough Community College, da Universidade de Nova York; do Dr. Prof. Ramesh Chandra, Fundador e Diretor da Ambedkar Center for Biomedical Research, da Universidade de Delhi, ìndia; do Eng. Altair Wagner, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, Fundador da Fundação Alfredo Henrique Wagner que mantem o Museu Arqueológico da Lomba Alta e membro fundador e vicepresidente da Academia de Letras do Brasil/SC municipal Alfredo Wagner; da Poetisa Neida Rocha, Coordenadora do Núcleo UBE - Canoas/RS e presidente da Academia de Letras do Brasil/RS, municipal Canoas;
Entre os palestrantes os alunos da Universidade do Planalto Catarinense, que estão se formando no curso de Letras, terão um espaço para apresentar seus trabalhos.

Cabe destacar que a Dra. Lorena Balensifer Ellis virá ao III Encontro para conhecer escritores, entrevista-los e inclui-los na Revista Virtual de Cultura Hispanoamericana e divulgar suas obras. Tornando-se uma ocasião importante para que escritores brasileiros tenham suas obras divulgadas a nível internacional.

A Academia de Letras do Brasil/SC municipal Alfredo Wagner, em Sessão Solene durante o Encontro, entregará diplomação para iniciativas e ações que visem o desenvolvimento humano e sóciocultural no município e no Estado.

Participe você também do III Encontro Catarinense de Escritores e o I Encontro Internacional de Escritores de Alfredo Wagner e Região. Acesse www.encontrodeescritores.com.br e faça sua inscrição.

Fonte:
Poetas del Mundo

José Faria Nunes (A Pessoinha)


Borgelândia, cidade histórica dos tempos do império. A rodoviária mais parece cena de filme de terror. Tudo velho e sujo: dependências de administração, guichês e uma lanchonete em cima, com acesso por mal conservadas escadarias. Embaixo, os boxes dos ônibus e estacionamento. Chega ônibus, sai ônibus, menos o que vem da capital. Impaciente, Danilo caminha de um lado para outro. Vai ao bar do outro lado da rua, volta, vai ao banheiro, aos boxes de embarque e desembarque. O ônibus já tem mais de hora de atraso. A passageira que Danilo espera é gente importante, cunhada do senador amigo do prefeito. Danilo tem que fazer das tripas, coração, e esperar. Levá-la para Carneirópolis, pequena cidade a umas duas horas dali. Sendo quem é a passageira, o prefeito jamais permitiria que ela fizesse aquele trajeto de ônibus, chão batido em boa parte da estrada.

Emprego difícil, Danilo reconhece que em suas condições tem que agüentar todo tipo de imposição. Até sujeitar-se, mesmo fora do horário de trabalho, a ficar ali parado, a esperar por alguém de quem apenas sabe o nome.

- Dona Rosenilda – disse o prefeito.

Danilo sabe que foi ele o escolhido para buscar a preciosa encomenda por ser, na equipe de motoristas, o de mais fino trato. Concluiu o ensino médio pelo projeto EJA. Se parece privilégio, para ele é mais castigo. Preferiria estar em casa com a família ou no Bar do Guim jogando uma canastrinha.

Na Prefeitura todos têm horário de chegar e de sair do trabalho. Os motoristas, assim como Danilo, não. Pior! Não recebem horas extras. Reclamar à Justiça do Trabalho? Nem pensar. Vai pra rua e ainda fica queimado. Ninguém mais lhe daria emprego.

- Ufa! Até que enfim! – Exclama Danilo, aliviado com a chegada do ônibus.

O carro, um Santana herdado da administração anterior, desliza suave e rápido pelo asfalto recapeado na véspera das eleições do primeiro domingo de outubro. Ao lado do motorista, a passageira permanece calada, desde a rodoviária. Poucas palavras trocaram.

- O prefeito disse que a senhora se chama Rosenilda.

- Roseni. Pode me chamar Roseni. Acho melhor. E não precisa me chamar “senhora”. Gosto de respeito, mas pode me chamar apenas Roseni.

Fala em tom terminativo e de autoridade. Danilo percebe a conveniência de permanecer calado. Como lhe ensinou o pai, deve-se falar com estranhos apenas quando tiver algo para dizer melhor que o silêncio. Vale a receita do velho.

Mudos, olham para o asfalto à frente descortinando-se pelo farol alto do carro que corta a escuridão. Ao longe, fagulhas de luz acendem fdaíscas de luz no céu. Daqui a pouco serão labaredas, prenúncio de tempestade.

Embora plantações e pastagens estejam necessitando de chuva, Danilo torce para que ela espere que eles cheguem primeiro. No asfalto, a chuva não seria problema. Na estrada de chão, a situação é outra. Há uns trechos críticos. Poderão encravar.

Os raios riscam o céu com mais intensidade e agora mais perto. Os trovões ressoam, como se o seu controlador estivesse nervoso. O motorista imagina o pior, a chuva deve chegar logo. E depois só Deus sabe do que poderá acontecer.

Enquanto a passageira dorme - ou finge dormir – Danilo percebe, pelo retrovisor, a luz alta dos faróis de outro veículo. Ele avança rápido e, em segundos, como um raio ou uma nave espacial, ultrapassa-os e some de vista à frente.

A placa de sinalização anuncia a proximidade da entrada para Carneirópolis. Danilo desacelera o veículo que perde velocidade. Seta para a esquerda, o carro quase parando, adentra-se pela estrada de chão que, na campanha eleitoral, ganhou promessa de asfaltamento pelo governador que se reelegeu.

Agora acordada a passageira ilustre reclama das bacadas:

- O senhor não pode ter mais cuidado?

- Tô fazendo o possível, dona. É que os buracos são grandes e muitos.

Ela fica a resmungar. Danilo finge nada ouvir, até porque nada tem a dizer e nem a ver com aquela situação. Ele mesmo tem suas críticas aos políticos, mas não as exterioriza fora da intimidade dos amigos. Questão mais de prudência e um pouco de respeito e reconhecimento pelo emprego. O mísero emprego que lha garante o aluguel do barraco, água, luz e o alimento para a mulher e três filhos. Lazer? Dinheiro não sobra.

Pela estrada de chão, agora já a alguns quilômetros da rodovia asfaltada, sem mais e sem menos o carro perde força do motor. Danilo reluta mas o motor apaga. E o carro pára.

Em volta o cerrado ermo que ele conhece bem. Estão pertos do cemitério dos heróis da guerra do Paraguai. O cemitério não o incomoda. Se tiver que ter medo, tem dos vivos, não dos mortos. Mortos não voltam para fazer mal a ninguém. Nem mal nem bem. Eles estão na deles, bem ou mal, onde quer que estejam. Danilo até duvida se há outra vida após a morte. Ainda que haja, nada tem a temer. Não faz mal a ninguém, vive em paz com todos. Alguns probleminhas com os credores, mas nada sério. Verdade que matou um homem, porém em legítima defesa. Até o promotor pediu sua absolvição. Ganhou só bolas brancas. Até a família da vítima reconheceu que ele, Danilo, era o menor culpado. Por que, então, se preocupar?

Chave de ignição e pés no acelerador. Nada consegue. Tem que dar um jeito. Ali parado no meio do cerrado é que não podem ficar. Ainda mais com aquela mulher importante, cunhada do senador. O que o prefeito iria dizer? Talvez até pudesse custar-lhe o emprego. Não, o emprego não. Ele não tinha culpa. Fez revisão no carro antes de sair de viagem, tudo nos conformes. E o prefeito iria acreditar nele? O que aquela mulher poderia dizer? Ali parados no cerrado, sem água, sem comida. Não comeram na rodoviária, preferiram ganhar tempo, chegar logo em casa. Sede não vão passar, o córrego está perto. O que não pode é ficar ali no mato sem cachorro.

Pega a lanterna no porta luvas, desce, vai ver o motor. Abre o capô, tudo lhe parece normal. Ainda inclinado sobre o motor, sente um toque em suas costas. Deve ser a passageira querendo lhe dizer algo, talvez pedir um tempinho para fazer xixi. Vira para dar-lhe atenção. Com a luz da lanterna vê em sua frente uma criança com jeito e trejeitos estranhos. A cara, uma mistura de chinês, coreano, japonês e de extra-terrestre. Talvez nada disso. Lembra-se da personagem que ele viu no filme da TV.

Perde a voz e as forças. Sem ação fita aquela pessoinha. Ato contínuo a pessoinha começa a mudar de cor, ganha uma áurea de luz e ele se sente como se adormecesse. Ao retornar-se à consciência, libertando-se da hipnose, percebe estar em um ambiente estranho com máquinas estranhas, pessoas estranhas, fazendo-lhe lembrar um laboratório. As pessoas, algumas como a Pessoinha, outras pareciam pessoas normais e falantes lusófonos. Ele próprio, Danilo, se sente estranho. Roupas diferentes das suas. O corpo, a princípio bambo, aos poucos ganha energia, uma energia que antes desconhecia. Ação do laser vindo de um ponto no teto direto a um botão de seu estranho casaco, mais parecido uma camisola de hospital.

Sente-se bem quando surge novamente a Pessoinha à porta e, com gesto, indica-lhe que o acompanhe. Ele segue a Pessoinha e, sem nada entender. Mal sente os passos. Como em um sonho. Mas convicto de que é real, segue como se em uma onda rumo à praia. Desliza suave, tranqüilo, apenas a mente percebe a transição. Como se levitasse.

Vê-se novamente junto ao carro. Â Pessoinha desapareceu como uma sombra ao chegar a luz. Entra, liga-o. A passageira ilustre nada percebe. Imagina ter sido uma simples parada para o motorista tirar água do joelho. E prosseguem para Carneirópolis.

Uma aeronave a esbanjar luz corta o espaço sobre eles. Velocidade escomunal. Seria um Miraje da base de Anápolis?

No veículo a caminho de Marte a tripulação comenta o êxito da pesquisa em curso na Terra. Em Carneirópolis o prefeito espera a convidada com uma festa. Danilo vai para casa jantar na companhia da esposa e dos filhos.

A pessoinha continua em sua memória como em um sonho.

Fontes:
Texto enviado pelo autor

Imagem obtida na Universidade Federal de Juiz de Fora

Monteiro Lobato (Caçadas de Pedrino) X – O Rio de Janeiro é avisado


Dona Benta enviou um telegrama para o Rio de Janeiro que dizia assim: “Meus netos acabam de informar-me que o famoso rinoceronte, que andam procurando pelo país inteiro, acha-se escondido nas matas deste meu sítio. Encarecidamente peço providências imediatas. Benta de Oliveira”.

Cléu, a quem ela ditara o telegrama, observou que era bom mudar a assinatura para Dona Benta de Oliveira, avó de Narizinho e Pedrinho e dona do Sítio do Pica-Pau Amarelo, pois do contrário lá no Rio todos ficavam na mesma. Bentas de Oliveira há muitas e “meus sítios” também há muitos.

Dona Benta concordou.

— Façam como quiserem, mas que o telegrama siga quanto antes. Chamem um camarada do compadre Teodorico para o levar à cidade, no galope.

O telegrama foi passado naquele mesmo dia. Na manhã seguinte veio a resposta: “Seguem forças armadas sob comando detetive X B2”

Fazia dois meses que o governo se preocupava seriamente com o caso do rinoceronte fugido, havendo organizado o belo Departamento Nacional de Caça ao Rinoceronte, com um importante chefe geral do serviço, que ganhava três contos por mês e mais doze auxiliares com um conto e seiscentos cada um, afora grande número de datilógrafas e “encostados”. Essa gente perderia o emprego se o animal fosse encontrado, de modo que o telegrama de Dona Benta os aborreceu bastante. Em todo caso, como outros telegramas recebidos de outros pontos do país haviam dado pistas falsas, tinham esperança de que o mesmo acontecesse com o telegrama de Dona Benta. Por isso vieram. Se tivessem a certeza de que o rinoceronte estava mesmo lá, não viriam!

Certa manhã, quando Tia Nastácia se levantou de madrugada e foi abrir a porta da rua, deu com o animalão a vinte passos de distância, olhando para a casa com os seus olhos miúdos. A negra teve um faniquito dos de cair desmaiada no chão. Ouvindo o baque de seu corpo, todos pularam da cama — e foi uma dificuldade fazê-la voltar a si. Desmaio de negra velha é dos mais rijos. Por fim, acordou e, de olhos esbugalhados, disse num fiozinho de voz:

— O canhoto já foi embora?

Ninguém sabia do que se tratava, porque ninguém ainda havia olhado para o terreiro.

— Que canhoto é esse? — indagou Dona Benta.

— O tal de um chifre só na testa — respondeu a negra.

— Estava aí fora quando abri a porta...

Só então os meninos espiaram pela janela e viram que o rinoceronte estava, de fato, no terreiro. Mas quieto, de cara pacífica, sem mostra nenhuma de ânimo agressivo. Olhava para a casa com toda a atenção, como se entendesse de arquitetura rural — isto é, de arquitetura de casas da roça. Depois, mansamente, dirigiu-se à porteira e lá se deitou de atravessado.

— Pronto! — exclamou Narizinho. — Atravessou-se na porteira e quero ver agora quem entra ou sai. Estamos bloqueados...

A aflição de Dona Benta aumentou. Viu que, de fato, estavam com a saída do sítio bloqueada por aquele monstruoso animal que parecia não ter a mínima intenção de afastar-se dali.

Nesse momento viram um grupo de homens que se aproximavam.

— São eles! — gritou Cléu. — São os homens da polícia secreta que receberam o nosso telegrama. Secretas a gente conhece de longe!...

E eram. Era o famoso grupo dos Caçadores do Rinoceronte, que se formara logo em seguida à fuga do misterioso paquiderme e que vinha percorrendo o país inteiro em sua procura. Comandava-os o espertíssimo detetive X B2, que tinha lido todos os fascículos das Aventuras de Sherlock Holmes existentes nas livrarias. Esses homens traziam consigo numerosas armas e armadilhas próprias para caçar rinocerontes — mundéus desmontáveis, ratoeiras de gigantescas proporções, correntes de aço, um canhão-revólver e uma metralhadora. A única coisa que não traziam era intenção real de apanhar o monstro.

Assim que chegaram ao pasto do sítio e deram com o enorme paquiderme atravessado na porteira, começaram a discutir se atiravam ou não. Um queria que se empregasse o “mundéu desmontável”. Outro queria que se armasse a “ratoeira gigante”. Por fim, o detetive X B2 decidiu empregar o canhão-revólver.

— Atirem — disse ele —, mas com pontaria que não venha a prejudicar os nossos empregados.

Disse e piscou. O que todos queriam era passar toda a vida caçando aquele mamífero.

Mas a Emília, que tinha terríveis olhos de retrós, viu de longe a piscadela cavorteira e percebeu a manobra.

— Vão atirar e errar! — gritou ela muito contente, porque já estava criando amor ao “seu rinoceronte” e não queria que lhe estragassem o couro com um furo de bala; apenas admitia que o caçassem vivo.

Ao ouvir aquilo Dona Benta protestou.

— Então não quero! — disse ela. — Se esses homens não têm boa pontaria, as balas podem passar por cima do alvo e virem quebrar algum vidro das nossas vidraças. Não quero!... E voltando-se para a Cléu, que tinha muito boa letra e sabia escrever com todos os ‘Fs’ e ‘Rs’:

— Escreva uma carta ao chefe daqueles caçadores dizendo que não admito que atirem de lá para cá. O Visconde que leve a carta.

Cléu escreveu a carta sem um erro, e pediu ao Visconde que a levasse. Como fosse pequenininho, o Visconde podia passar por trás do rinoceronte sem ser percebido — e ainda que fosse percebido e devorado não fazia mal, pois que era de sabugo e havendo muitos sabugos no sítio, Tia Nastácia num momento fazia outro Visconde.

O nobre mensageiro nem se deu ao trabalho de passar por trás do monstro. Subiu por cima dele como quem sobe um morro, e desceu do outro lado sem ser percebido. Depois foi correndo entregar a carta. Chegou no instantinho em que o artilheiro ia disparar o canhão.

— Alto! — gritou o detetive X B2. — Deixe-me primeiro ler esta carta.

Leu a carta, elogiou a boa letra e depois disse aos seus homens:

— A dona da propriedade não quer saber de tiros daqui para lá. Diz que as balas poderão quebrar os vidros das suas vidraças. Acho que ela tem toda a razão.

— Nesse caso, que fazer? — perguntou o artilheiro.

— Temos de passar para o lado de lá. Podemos colocar o canhão e a metralhadora na escadinha da varanda. Desse modo, se houver balas perdidas, poderão apenas alcançar algum macaco na floresta, lá longe.

Muito bem. Mas como atravessar para o outro lado, com o canhão e a metralhadora, se a única passagem era pela porteira, e o inimigo estava deitado ali, de través? O problema tornava-se dos mais sérios. Requeria estudos. O detetive X B2 reconcentrou-se cheio de rugas na testa, a refletir. Refletiu e, depois de muito refletir, disse:

— Antes de mais nada, temos de construir uma pequena linha telefônica que nos ponha em comunicação com a gente do sítio, a fim de que eu possa debater o caso com a Senhora Dona Benta e agir de acordo com ela e os demais moradores. Assim, por meio de cartas, a coisa levará toda a vida. Não há como o telefone para as comunicações rápidas. Vou telegrafar para o Rio de Janeiro, pedindo a remessa do material necessário para a construção duma linha telefônica.

Resolvido isso, retiraram-se todos para a vila próxima, onde ficaram tocando violão e contando casos pândegos até que o material encomendado chegasse. Isso levou um mês. Mas afinal chegou, e o detetive deu ordem para que no dia seguinte os trabalhos fossem iniciados.

Na manhã do dia seguinte os moradores do sítio viram reaparecer no pasto os caçadores do governo, seguidos duma turma de operários com rolos de arame, postes e mais coisas telefônicas. Nesse dia, porém, o rinoceronte falhou de vir deitar-se de atravessado na porteira, como era seu costume. O trânsito estava completamente livre.

— Ué! — exclamou o detetive X B2, muito admirado. — Para onde terá ido o malandro do rinoceronte?

Dirigiu-se à casa para falar com Dona Benta.

— Como foi isso, Dona Benta? — disse ele, subindo à varanda. — Deixei o rinoceronte deitado na porteira e agora não encontro o menor sinal do bicho.

Dona Benta explicou tudo quanto sucedera durante as semanas em que eles estiveram tocando violão na vila. O rinoceronte adquirira o hábito de passar o dia na Figueira-Brava, só vindo deitar-se à porteira lá pelas três horas da tarde.

— Chega sempre a essa hora, deita-se e fica a cochilar até à noite — explicou a boa senhora. — É um animal bastante sistemático.

— Bem — disse o detetive —, nesse caso teremos toda a manhã livre para trabalharmos na construção da linha telefônica.

Dona Benta arregalou os olhos.

— Que linha telefônica é essa? — perguntou.

— A linha que resolvemos construir para ligar esta casa ao nosso acampamento. Como naquele dia o rinoceronte estivesse atravessado na porteira, impedindo a passagem, eu não pude discutir com a senhora vários assuntos importantes. Tive então a excelente idéia de construir essa linha, com os fios passando por cima do “obstáculo”.

Dona Benta admirou-se da complicação.

— Sim — disse ela —, mas já que o senhor pôde chegar até aqui, creio que a linha telefônica já não é mais necessária.

O detetive sorriu da ingenuidade da velha e explicou que o material já havia chegado e que, portanto, a linha ia ser construída. Terminou piscando o olho vermelho e dizendo: — O Departamento Nacional de Caça ao Rinoceronte sabe o que faz, minha senhora.

— Pois façam lá como entenderem — concluiu Dona Benta. — Não entendo de tais serviços, nem quero entender. Aqui estamos nós para prestar aos senhores toda a ajuda possível. O que quero é que o quanto antes me livrem desse animalão. Mas, meu caro senhor, esse negócio não está me parecendo sério...

O detetive sorriu indulgentemente e respondeu:

— É que a senhora não conhece as condições. Para nós é um negócio da maior importância, visto como dele tiramos o pão de cada dia…
––––––––––––-
continua ... XI – Inaugura-se a linha
---------------------
Fonte:
LOBATO, Monteiro. Caçadas de Pedrinho/Hans Staden. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. III. Digitalização e Revisão: Arlindo_Sa

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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