Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Ialmar Pio Schneider (Soneto para a Alma Gêmea)


O poeta é aquele que vê mais longe:
pode saber de tudo ou quase nada....
Tanto é um pecador quanto é um monge,
vive numa caverna ou segue a estrada

dos sonhos. Às vezes parece um conde
a procurar sua alma gêmea, a maga
que num castelo medieval se esconde,
cuja lembrança a solidão lhe afaga.

Também não deixa de sofrer por isso
e nunca se conforta no prazer
de sempre se afastar do rebuliço;

assim é que pretende compreender
o destino que leva no feitiço
questionável do “ser ou do não ser” !

Canoas (RS), 01 de dezembro de 1999.
---
Fonte:
Soneto enviado pelo autor

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 350)


Uma Trova Nacional

O perdão é tão sublime
que, por mais que a ofensa doa,
põe uma paz que redime
no coração que perdoa.
-ZENAIDE MARÇAL/CE-

Uma Trova Potiguar


Entre o amor e o sonho vão,
eu sei que foste, querida,
a chave de uma ilusão
na porta da minha vida.
-SEBASTIÃO SOARES/RN-

Uma Trova Premiada

2011 - ATRN-Natal/RN
Tema : VERTENTE - 1º Lugar

Quando ilusões apagaram
as luzes daquele encanto,
meus olhos se transformaram
numa vertente de pranto...
-ANGÉLICA VILLELA SANTOS/SP-

Uma Trova de Ademar


Tendo o verso em parceria
mesmo aqueles mais tristonhos,
fiz um sarau de Poesia
numa varanda de sonhos.
-ADEMAR MACEDO/RN-

...E Suas Trovas Ficaram


Ao lembrar que o teu brinquedo
é decifrar-me, sorrio...
- De nada vale o segredo
de um velho cofre vazio.
-ALONSO ROCHA/PA-

Simplesmente Poesia


No Prelo.
-ABÍLIO PACHECO/BA-

Se a minha palavra é a minha busca
de uma vida inteira em todo mundo
e ela dorme encantada à sombra
de um livro raro, quiçá
encontrá-la-ei num alfarrábio,
num sebo, numa biblioteca pública...
Quem sabe minha resposta ainda
esteja no prelo.

Estrofe do Dia :


"Para Maria Teresa, Filha de Delcy Canalles/Rs"

Bem cedinho eu olhando o calendário
descobri que hoje é dia de alegria,
pois Teresa hoje faz aniversário
e eu compus para ela esta poesia.
Com essa jovem senhora e sonhadora
grande Mãe, grande Avó, grande Pintora,
eu irei festejar, mesmo daqui;
e pelos anos que hoje ela completa
vai aqui os parabéns deste Poeta
e um beijo carinhoso de Delcy.
-ADEMAR MACEDO/RN-

Soneto do Dia


Soneto Para Teresa.
-DELCY CANALLES/RS-
"Para a filha Maria Teresa"

30 de setembro, hoje, eu gostaria
de poder te abraçar, filha querida!
Tu és a causa da minha alegria
e a maior emoção, por mim, sentida!

56 anos de Arte e Estesia,
me fazem esta mãe agradecida,
que pede a Deus, por ti, neste teu dia,
e em cada dia de uma longa vida!

Brilhas na profissão de jornalista
e assombras, na pintura, como artista!
As tuas telas são uma beleza!

Junto ao esposo, aos filhos e aos teus netos,
desejo que tu vivas entre afetos,
querida filha, MARIA TERESA!

Fonte:
Textos enviados pelo autor

Florbela Espanca (Mensageira das Violetas) IV


RÚSTICA

Ser a moça mais linda do povoado,
Pisar, sempre contente, o mesmo trilho,
Ver descer sobre o ninho aconchegado
A bênção do Senhor em cada filho.

Um vestido de chita bem lavado,
Cheirando a alfazema e a tomilho...
Com o luar matar a sede ao gado,
Dar às pombas o sol num grão de milho...

Ser pura como a água da cisterna,
Ter confiança numa vida eterna
Quando descer à "terra da verdade"...

Meu Deus, dai-me esta calma, esta pobreza!
Dou por elas meu trono de princesa,
E todos os meus reinos de ansiedade.

CONTO DE FADAS


Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, amor!
E para as tuas chagas o ungüento
Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento...
Trago no nome as letras duma flor...
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento...

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é d´ouro, a onda que palpita.

Dou-te comigo o mundo que Deus fez!
- Eu sou aquela de quem tens saudade,
A princesa de conto: "Era uma vez..."

EU


Até agora eu não me conhecia,
Julgava que era eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era eu não o sabia
E, mesmo que o soubesse, o não dissera...
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim...

E não me via!
Andava a procurar-me - pobre louca!
- E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
É a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!

PASSEIO NO CAMPO

Meu amor! Meu amante! Meu amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!

Eu tenho, amor, a cinta esbelta e fina...
Pele dourada de alabastro antigo...
Frágeis mãos de madona florentina...
- Vamos correr e rir por entre o trigo!

Há rendas de gramíneas pelos montes...
Papoulas rubras nos trigais maduros...
Água azulada a cintilar nas fontes...

E à volta, amor... tornemos, nas alfombras
Dos caminhos selvagens e escuros,
Num astro só as nossas duas sombras...

MENDIGA


Na vida nada tenho e nada sou;
Eu ando a mendigar pelas estradas...
No silêncio das noites estreladas
Caminho, sem saber para onde vou!

Tinha o manto do sol... quem mo roubou?!
Quem pisou minhas rosas desfolhadas?!
Quem foi que sobre as ondas revoltadas
A minha taça de ouro espedaçou?

Agora vou andando e mendigando,
Sem que um olhar dos mundos infinitos
Veja passar o verme, rastejando...

Ah, quem me dera ser como os chacais
Uivando os brados, rouquejando os gritos
Na solidão dos ermos matagais!...

SUPREMO ENLEIO


Quanta mulher no teu passado, quanta!
Tanta sombra em redor! Mas que me importa?
Se delas veio o sonho que conforta,
A sua vinda foi três vezes santa!

Erva do chão que a mão de Deus levanta,
Folhas murchas de rojo à tua porta...
Quando eu for uma pobre coisa morta,
Quanta mulher ainda! Quanta! Quanta!

Mas eu sou a manhã: apago estrelas!
Hás de ver-me, beijar-me em todas elas,
Mesmo na boca da que for mais linda!

E quando a derradeira, enfim, vier,
Nesse corpo vibrante de mulher
Será o meu que hás de encontrar ainda...

TOLEDO


Diluído numa taça de ouro a arder
Toledo é um rubi. E hoje é só nosso!
O sol a rir...Viv´alma...Não esboço
Um gesto que me não sinta esvaecer...

As tuas mãos tateiam-me a tremer...
Meu corpo de âmbar, harmonioso e moço,
É como um jasmineiro em alvoroço
Ébrio de sol, de aroma, de prazer!

Cerro um pouco o olhar, onde subsiste
Um romântico apelo vago e mudo
- Um grande amor é sempre grave e triste.

Flameja ao longe o esmalte azul do Tejo...
Uma torre ergue ao céu um grito agudo...
Tua boca desfolha-me num beijo...

SER POETA


Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de infinito!
Por elmo, as manhãs de ouro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

ALVORECER


A noite empalidece. Alvorecer...
Ouve-se mais o gargalhar da fonte...
Sobre a cidade muda, o horizonte
É uma orquídea estranha a florescer.

Há andorinhas prontas a dizer
A missa d´alva, mal o sol desponte.
Gritos de galos soam monte em monte
Numa intensa alegria de viver.

Passos ao longe...um vulto que se esvai...
Em cada sombra Colombina trai...
Anda o silêncio em volta a q´rer falar...

E o luar que desmaia, macerado,
Lembra, pálido, tonto, esfarrapado,
Um Pierrot, todo branco, a soluçar...

Amar!


Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui...além...
Mais este e aquele, o outro e toda a gente....
Amar!Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar.

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Fonte:
ESPANCA, Florbela. A mensageira das violetas: antologia. Seleção e edição de Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 1999. (Pocket).

Hermoclydes S. Franco (Proposições a um Vocabulário em Trovas) Letra "B"


BABÁ: que não cause danos,
Para quaisquer afazeres...
BACALHÁU: Dos lusitanos
Eis o maior dos prazeres!

BACO: Grande Deus do vinho.
BAÇO: Glândula. Sem brilho.
BACORIM: É leitãozinho.
BAFEJO: A vida no trilho.

BAGUNÇA: Pândega; Inteira
E ruidosa reinação...
BAILE: Na côrte ou gafieira
Sempre a mesma animação.

BAITA: Grande; Bem crescido.
BAIXEL: Uma embarcação.
BAIXELA: Brinde querido
Que vira “de estimação”...

BANDA: Marcial ou “furiosa”,
Sons para todos os gostos.
Também rasteira maldosa
Que machuca muitos rostos...

BANDEIRA: A própria nação;
Símbolo para se amar;
Praça que, em pleno verão,
No Rio... parece o mar....

BOCEJO: Em marmanjo é sono
Mas, em nenê, é gracejo...
Enfado em que nem o dono
Da boca, doma-la, vejo.

BORDEL: Velho lupanar,
Ou melhor, casa suspeita.
(Depois do motel chegar,
agora, tudo se ajeita).

BOTE: Embarcação pequena
Que ajuda na pescaria...
De uma cobra que envenena
Deus nos livre! Ave-Maria!

Fonte:
O Autor

Silvia Araújo Motta (Envelhecer sem Notar)


Poema Nº 1582

Vejo nas folhas que caem
que o inverno vai chegar,
Nas estrelas que se apagam,
meu tempo de descansar.
Relógio? Desnecessário.
Valorizo minha hora,
no segundo extraordinário,
vivo pensando no "agora".
Meio século de vida
e os sete cumpro a somar...
na música, amor, poesia,
Trago a missão bem cumprida
com metas, planos de um dia...
Nos sonhos e fantasias,
um trabalho útil, honroso
de incontáveis alegrias,
fez-me o mundo prazeroso.
Valores transcendentais
aos minutos cultivados
a buscar cada vez mais
espíritos elevados...
Ficarei "sex"? Pois sim!
Com perfeita lucidez?
SEXagenária? Ah! Sim...
Daqui a pouco é minha vez!
SEXOxigenada nos cabelos...
Mais adolescente, talvez...
A história de cada saudade
dos momentos e pessoas...
Olhos miúdos!!!!!Verdade!
Muito para recordar!
Tantos fatos! Coisas boas!
Na infância e maturidade!
Meus quinze ou vinte anos!
Milagres! Maturidade!
Recebi e dei nos carinhos,
amor, atenção, compreensão!
Trabalhei com inteligência,
pra gostar do que fazia!
Filhos amados!...Meus amores!
Até netos... quem diria!
Lutei pra ter paciência!
Enfrentei tantos problemas!
Alguns consegui vencer
pela Fé que me carrega.
Meu espelho interior
Diz-me até...que já cresci!
Da gravidez... na balança,
faço o parto da alegria...
Agradeço todo dia
a Deus, pelo meu talento,
pelo amor, pela alegria
e pelo conhecimento.
O sol nasce acima das nuvens
e a lua inteira brilha no lago
porque alta vive, a cada dia!
Envelheci e não vi...por isso,
começaria tudo outra vez.

Fonte:
Poesia enviada pela autora

Raquel Amélia dos Santos (Ler com a Alma)


Ler é muito mais do que simplesmente decifrar o código escrito. A leitura plena e eficaz de qualquer tipo de texto, só acontece quando o que se dispõe a fazê-lo, assume-se participante do objeto da leitura no sentido de utilizar mais do que seus conhecimentos sobre o código.

É uma atividade complexa e carregada de possibilidades de criação, interação e interpretação entre indivíduos e contextos.

O leitor aplica ao ato de ler, conhecimentos linguisticos e gramaticais, que são internalizados durante sua trajetória e vivência com a linguagem escrita.

Além desses conhecimentos, ainda pode e deve contar com a imaginação, o raciocínio, a vontade, e uma flexibilidade suficiênte para deslocar-se para o ponto de vista do escritor.

Esse deslocamento acontece mesmo que seja inconsciente e provisório.

Vale lembrar também, que nem escritor, nem leitor estão neutros diante de uma produção textual, seja ela literária ou não.

Escritor e leitor são portadores de uma história e de uma bagagem cultural que acabam por determinar e porque não dizer, personalizar os modos de leitura, interpretação e aplicação do objeto lido.

Saber-se participante de uma produção textual, pode ser um bom caminho na construção da necessária flexibilidade que deve permear o ato de ler.

Por meio da leitura é possível conhecer novas e antigas idéias, rever, elaborar e reelaborar pensamentos, informações e conhecimentos.

O que é escrito em papel, numa tela de computador ou em qualquer outro portador, não traz consigo uma verdade absoluta e irrevogavel. Um texto escrito, comporta apenas parte de modos de pensar, parte de uma filosofia, parte de crenças e até parte da imaginação e fantasia de alguém.

O texto escrito, tem suas limitações. A linguagem escrita não pode contar com todos os elementos contextuais, com gestos, expressões faciais, movimentos ou expressões corporais. Apesar de seus limites, mobiliza tanto o que escreve como o que lê o que foi escrito.

Leitor e escritor fazem uma espécie de trabalho em equipe. E neste trabalho, há constante movimento.

O leitor lê, pode ler, reler, fazer anotações, pensar, comparar, parar a leitura, continuar e utilizar-se dela de várias maneiras. O escritor também conta a mobilidade de reelaborar, rever, repensar e reeditar suas produções. E em muitos casos, o faz em decorrência do retorno e interação gerados pelo público alvo de seu trabalho.

A mobilidade da qual escritor e leitor utilizam-se, promove aprendizagem mútua e aciona mais que a habilidade de reconhecer o código escrito e decifrá-lo, pois a relação que se estabelece entre esses agentes, é permeada de elementos pessoais, emocionais, sociais, intelectuais, culturais e até afetivos.

Vendo por este ângulo, pode-se afirmar que é possivel escrever e ler com a alma.
Ler com a alma é ler com a plenitude do ser. O ser é o que se é de fato, a essência. O que há de permanente na personalidade ou no caráter de cada pessoa.

É certo que há um estar sendo, uma parte de atitudes e pensamentos de cada pessoa, que é transitória. É o ser é quem decide sobre a parte transitória que há em cada um.

Pode ser que a leitura seja em alguns momentos motivada pelo ser, em outros momentos pelo estar sendo e as vezes pelos dois.

Um tema sobre o qual algum escritor decide escrever pode servir como alimento do ser ou do estar sendo.

Na perspectiva de alimentar a alma ou o intelecto por exemplo, a leitura é sempre motivada pelo desejo ou necessidade de cada pessoa, que são regidos pelo Ser.

No entanto, a necessidade por si só, nem sempre tem força para acionar o desejo. Já o desejo, atua com mais eficácia sobre o ser que o porta. Este atua mesmo não havendo necessidade.

O desejo é mais poderoso que a necessidade em muitos casos. Uma pessoa tem a necessidade de alimentar-se, mas pode não sentir fome ou vontade de comer. Neste caso, a necessidade pura e simples, não é suficiente para provocar a ação. Já o desejo, busca seus interesses, mesmo não havendo uma real necessidade.

A leitura é uma atividade que muitas vezes é tratada como mera necessidade. Como em muitos casos nos processos de ensino/aprendizagem na educação formal, em que a ação de ler é tratada unicamente objetivando a apreensão de conteúdos propostos em uma disciplina que compõe o currículo.

O desejo de ler, nem sempre apoia-se em razões bem claras e definidas. Mas também pode surgir por várias razões. Até por "razões mágicas", afirma Rubem Alves: "Ler é um ritual antropofágico. (...) A antropofagia não se fazia por razões alimentares. Fazia-se por razões mágicas. Quem come a carne do sacrificado se apropria das virtudes que moravam no seu corpo. (...) Cada leitura é um ritual mágico."

Desejo e necessidade, nem sempre andam juntos. Mas são elementos impulsionadores da alma humana.

Quando criança deleitava-me com uma professora que lia histórias em voz alta para a turma. A leitura feita por ela, continha aspectos singulares como, entonação de voz, ritmo e uma musicalidade que lhe eram próprias, fez toda diferença para minha formação como leitora.

Uma de minhas irmãs, Rute, lia para mim e para meus irmãos. Lia trechos da bíblia, histórias do livro "As mil e uma noites" e outros. Ela também me ensinou a ler. Quando entrei para a escola, já sabia ler.

Sua voz, postura e visão sobre os textos lidos nunca saíram da minha memória.
Ela despertou em mim disposição e desejos por "rituais mágicos", que são realizados através da poder proporcionado pela leitura.

Hoje assumo a ação de ler como necessidade movida pelo desejo.

Aprender a ler com a alma, é mais que uma necessidade, é ler com a plenitude do ser, tomando emprestado o desejo da alma de alguém, aliando-o ao próprio desejo. Pode ser forma mais flexível de viver e estar no mundo.

Fonte:
Texto enviado pela autora

Francisco Pessoa (De Pessoa para Pessoa)


2º lugar no Concurso Nacional (LITTERIS EDITORA - RJ) dentre 942 poesias concorrentes.

Comemoração do nascimento do grande Fernando Pessoa.

O concurso solicitava que se fizese uma poesia em alusão à sua mais comhecida poesia entre nós. " O poeta é um fingidor, finge tão.......!

Fernando Pessoa

Autopsicografia


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.


27/11/1930


Fco. José Pessoa De Pessoa para Pessoa

Poesia é um sonho e, se sonhado,
Sobre nuvens volutas, pictóricas,
Rédeas soltas sem bridas, metafóricas,
Faz do poeta um ser místico e alado.
Quem o lê, leia certo ou leia errado,
Sempre os versos encontram seu intento...
Lamentar cada um com seu lamento,
E sorrir cada um com seu sorriso,
Coração de poeta é sem juízo
E a razão de fingir é seu talento!
27/11/2009

Fonte:
Francisco Pessoa

Ialmar Pio Schneider (Soneto Quixotesco IV)


Nascimento de Miguel de Cervantes Saavedra 29 de setembro de 1547

Naquela tarde volta Dom Quixote
de um dos combates contra os moinhos
de vento e vem andando a largo trote,
em seu Rocinante, nos caminhos...

Sancho Pança o acompanha, o bom velhote,
não pertencia ao grupo dos mesquinhos,
vêm devagar sem que ninguém os note,
ouvindo gorjear os passarinhos...

O Cavaleiro Andante está cansado,
em vão tem combatido, tem lutado,
defendendo com fibra sua ideia...

Em que pensava assim andando a esmo?
Um sonho guarda dentro de si mesmo:
conquistar e viver com Dulcineia !

Fonte:
Soneto enviado pelo autor

Academia Sul-Brasileira de Letras (Sarau Poético-Musical)


CONVITE

Tenho a alegria de convidá-los para o Sarau Poético-Musical que a Academia Sul-Brasileira de Letras realizará no Auditório da Casa dos Conselhos, à rua 3 de maio, 1060, no próximo dia 04/10, às vinte horas e trinta minutos, tendo como fonte inspiradora São Francisco de Assis.

Encareço aos apreciadores das Letras levarem textos a serem lidos na ocasião, se assim o desejarem, para maior brilho do evento.

Após será servido coquetel.

Pelotas, 29 de setembro de 2010.

Olga Maria Dias Ferreira
Presidente
--
Fonte:
Ligia Leivas

Amosse Mucavele (Conversa do Pão e da Escrita)


Ao Marcelo Panguana*

Pão- Oi! Ví aquele homem que certa vez disse que conhecia o local onde foram sepultados os Ossos de Ngungunhane** a andar como um louco.

Escrita- Quando?

Pão- Ontem, ao fim da tarde! Acreditas que ele falava para si mesmo dizendo falta-me algo.

Escrita- O que é que fizeste para o ajudar?

Pão- Nada! Somente fiquei com pena dele,e é por isso que estou partilhando consigo este pesadelo, que não sai da minha cabeça mesmo acordado.

Escrita- Sabes! Deverias ter lhe arranjado um livro para ele (pro)ler.

Pão- Pareces que não conheces esta nossa cidade? Na avenida em que cruzei com ele não tem nem sequer uma bilbioteca,ou livraria, o que tem de mais são barracas,discotecas,e drogarias. Mas, amigo! O porquê do livro? Achas que a leitura poderia ter curado a loucura que o acompanhava naquela tarde?

ESCRITA- Sim! Lembro-me dele ter me segredado que quando encotra-se com os livros e lê, ele sente os seus pés a pisarem o chão das coisas que o rodeiam, e a sua alma a dançar a balada dos deuses, e quando anoitece convida o amigo à volta da fogueira, conversam com os seus antepassados e compartilham as estórias de reconciliação.

Pão- Oh,interessante! É por isso que o chamam a voz que fala verdades!A propósito, quando o encontrares, peça-o para me ensinar a tocar xipalapala.***
==============
Notas:

* MARCELO PANGUANA - escritor e jornalista moçambicano,Charrueiro,atualmente é diretor da Revista Proler Fundo Bibliográfico da Lingua Portuguêsa),onde assina uma coluna denominada Algum Algo. Xipalapala nome da coluna que assinava no Jornal Notícias na decada 90.

Publicou - As vozes que Falam de Verdade, 1987; A Balada dos Deuses, 1991; Os Fazedores da Alma, 1997 (com Jorge de Oliveira - entrevistas, Estórias de Reconciliação - com Ungulani Ba Ka Cossa, Os Ossos de Ngungunhane, 2006; Como um Louco ao Fim da Tarde, 2010,e tem no prêlo o livro O Pão e a Escrita.

** NGUNGUNHANE, Mdungazwe Ngungunyane Nxumalo, N'gungunhana, Gungunhana ou Reinaldo Frederico Gungunhana (Gaza, c. 1850 — Angra do Heroísmo, 23 de Dezembro de 1906) foi o último imperador do Império de Gaza, no território que actualmente é Moçambique, e o último monarca da dinastia Jamine. Cognominado o Leão de Gaza, o seu reinando estendeu-se de 1884 a 28 de Dezembro de 1895, dia em que foi feito prisioneiro por Joaquim Mouzinho de Albuquerque na aldeia fortificada de Chaimite. Já conhecido da imprensa europeia, a administração colonial portuguesa decidiu condená-lo ao exílio em vez de o mandar fuzilar, como o fizera a outros. Foi transportado para Lisboa, acompanhado por um filho de nome Godide e por outros dignitários. Após uma breve permanência naquela cidade, foi desterrado para os Açores, onde viria a falecer onze anos mais tarde

*** XIPALAPALA - Substantivo feminino e singular derivado de "Xi-pala-pala", termo incerto no idioma Ronga (também reconhecido como XiRonga) que é um dialecto do sudeste africano e da família Tswa-Ronga, especialmente audível nas regiões do sul de Moçambique e nordeste da África do Sul.


O vocábulo é designativo de uma corneta produtora de magnas sonoridades, sintetizada a partir de uma haste de um antílope cuja específica identificação é impala.

É muito comum em Moçambique, onde diversos povos nativos a utilizavam e ainda usam como meio de chamamento, de convocação para variados mas determinados fins; e.g., para juntar os líderes intelectuais e políticos em uma reunião importante onde cruciais assuntos eram e são debatidos ou, até mesmo, somente para unificar o povo em alguma celebração ocasional ou oficializada, alguma ocorrência espontânea ou preestabelecida.

Exemplo: O chefe da tribo fez soar a xipalapala, chamando todos os constituintes do grupo à sua presença.

Ele tem voz de xipalapala. Todo o bairro escuta suas profundas falas quando ele conversa na intimidade de sua casa com sua mulher


Fontes:
O Autor
NGUNGUNHANE e XIPALAPALA = wikipedia

Silvia Araújo Motta (Acróstico para O Voo da Gralha Azul numero 7)


Acróstico nº 3949 de agradecimento ao Presidente, Acadêmico José Feldman/PhI/ALB/Paraná.
Por Sílvia Araújo Motta/BH/ALB/MG.

O-O VOO da GRALHA AZUL nº SETE...

V-Veio do Paraná-Junho/Agosto de 2011.
O-O Acadêmico J.Feldman, na internete
O-Ostenta a Idealização, Seleção e Edição;

D-Digno de aplausos, em sua Presidência:
A-Academia de Letras do Brasil, do Paraná.

G-Garante o sucesso do excelente Blogspot,
R-Rico de pura e clássica LITERATURA...
A-Agora, em cento e sessenta e nove páginas,
L-Leva o ALMANAQUE que semeia cultura!
H-Hoje, pode colher seus sonhos plantados:
A-A Poesia e Prosa criam asas pela inspiração!

A-A Gralha Azul chegou silenciosamente...
Z-Zelosamente, trouxe de Sílvia Araújo Motta
U-Uma nota autobiográfica, em seis sonetos...
L-Liderando a esperança de mudança na rota.

---Muito Obrigada,Presidente J.Feldman!---

Fonte:
A autora

Casa do Poeta de Canoas (Sarau Comemorativo 9. Aniversário)


A Casa do Poeta de Canoas convida para as atividades comemorativas ao seu 9º aniversário.

SARAU COMEMORATIVO 9º ANIVERSÁRIO

Sexta-feira - 30/9/2011 - 19h

Clube Cultural Canoense
Rua Dr. Barcelos, 1271 - Centro / Canoas

Contamos com o prestígio da presença de nosso associados, amigos e simpatizantes.

Maria Santos Rigo
Presidente da Casa do Poeta de Canoas

Fone: (51) 3476.4431 / 9669.4615
www.casadospoetas.com.br

poetas@casadospoetas.com.br

Fonte:
Casa do Poeta de Canoas

Calendário Poético de Mesa


A Editora Alcance realiza, pelo décimo ano, seu querido projeto Calendário Poético de Mesa.

Mais do que em livros, livrarias, internet, e-books, destacamos honrosamente suas poesias ilustradas com fotos, pinturas, desenhos.

Pelo Calendário Poético de Mesa os autores estarão presentes com sua arte, ao alcance dos olhos encantados de seus amigos e leitores em geral… o ano inteiro. Por 12 meses seus versos brilharão para todos. Nós cuidamos da criação, apresentação e impressão de sues trabalhos.

Características:
Calendário de mesa com 12 meses, impresso em papel couchê 180 gramas, tamanho 15x18 cm, com suporte e wiro. Um luxo!

Tiragem:
250 calendários ou mais, a combinar.

Data de Entrega:
Lançamento e autógrafos dos Calendários na Feira do Livro de Porto Alegre em novembro deste ano. Um belo presente ou comercialização junto ao seu público.

Prazo de Inscrições:
até o dia 07 de outubro de 2011.

Mais informações:
Fones: (51) 3346-5001/ e-mail: atendimentoalcance@gmail.com

Modelos do calendário acima.

Marcelo Spalding (Oficina de Escrita Criativa à Distância)


Faça do seu computador, de qualquer lugar do Brasil...

OFICINA DE ESCRITA CRIATIVA À DISTÂNCIA

Curso de extensão Uniritter com 20 horas de duração

Técnicas de criação literária para a utilização em textos ficcionais ou não-ficcionais, narrativos e dissertativos. A oficina será integralmente realizada em ambiente EAD, com conteúdos postados ao longo de 8 semanas e interação entre os participantes.

Alguns dos temas abordados:
subtexto;
tipos de narrador;
verossimilhança;
tempo da narrativa;
concisão;
to show, not to tell.

ATENÇÃO:
não é vídeo-aula, é curso de verdade, com postagens periódicas, interação professor-aluno e interação entre os alunos da turma.

Ministrante: Marcelo Spalding (jornalista, escritor e professor)

Período: 07 de outubro a 25 de novembro/2011

Investimento: R$ 260,00 o curso todo

Inscrições pelo fone 51-3464-2000, com Elizabeth
ou pelo email marcelo@marcelospalding.com

VAGAS LIMITADAS

Fonte:
Marcelo Spalding

Olavo Bilac (Alma Inquieta: poesias) 3


VANITAS

Cego, em febre a cabeça, a mão nervosa e fria,
Trabalha. A alma lhe sai da pena, alucinada,
E enche-lhe, a palpitar, a estrofe iluminada
De gritos de triunfo e gritos de agonia.
Prende a idéia fugaz; doma a rima bravia,
Trabalha... E a obra, por fim, resplandece acabada:
“Mundo, que as minhas mãos arrancaram do nada!
Filha do meu trabalho! ergue-te à luz do dia!

Cheia da minha febre e da minha alma cheia,
Arranquei-te da vida ao ádito profundo,
Arranquei-te do amor à mina ampla e secreta!

Posso agora morrer, porque vives!” E o Poeta
Pensa que vai cair, exausto, ao pé de um mundo,
E cai – vaidade humana! – ao pé de um grão de areia...


TERCETOS


I

Noite ainda, quando ela me pedia
Entre dois beijos que me fosse embora,
Eu, com os olhos em lágrimas, dizia:

“Espera ao menos que desponte a aurora!
Tua alcova é cheirosa como um ninho...
E olha que escuridão há lá por fora!

Como queres que eu vá, triste e sozinho,
Casando a treva e o frio de meu peito
Ao frio e à treva que há pelo caminho?!

Ouves? é o vento! é um temporal desfeito!
Não arrojes à chuva e à tempestade!
Não me exiles do vale do teu leito!

Morrerei de aflição e de saudade...
Espera! até que o dia resplandeça,
Aquece-me com a tua mocidade!

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
Repousar, como há pouco repousava...
Espera um pouco! deixa que amanheça!”

- E ela abria-me os braços. E eu ficava.


II

E, já manhã, quando ela me pedia
Que de seu claro corpo me afastasse,
Eu, com os olhos em lágrimas , dizia:

“Não pode ser! não vês que o dia nasce?
A aurora, em fogo e sangue, as nuvens corta...
Que diria de ti quem me encontrasse?

Ah! nem me digas que isso pouco importa!...
Que pensariam, vendo-me, apressado,
Tão cedo assim, saindo a tua porta,

Vendo-me exausto, pálido, cansado,
E todo pelo aroma de teu beijo
Escandalosamente perfumado?

O amor, querida, não exclui o pejo...
Espera! até que o sol desapareça,
Beija-me a boca! mata-me o desejo!

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
Repousar, como há pouco repousava!
Espera um pouco! deixa que anoiteça!”

- E ela abria-me os braços. E eu ficava.

IN EXTREMIS

Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia
Assim! de um sol assim!
Tu, desgrenhada e fria,
Fria! postos nos meus os teus olhos molhados,
E apertando nos teus os meus dedos gelados...

E um dia assim! de um sol assim! E assim a esfera
Toda azul, no esplendor do fim da primavera!
Asas, tontas de luz, cortando o firmamento!
Ninhos cantando! Em flor a terra toda! O vento
Despencando os rosais, sacudindo o arvoredo...

E, aqui dentro, o silêncio... E este espanto! e este medo!
Nós dois... e, entre nós dois, implacável e forte,
A arredar-me de ti, cada vez mais, a morte...

Eu, com o frio a crescer no coração, - tão cheio
De ti, até no horror do derradeiro anseio!
Tu, vendo retorcer-se amarguradamente,
A boca que beijava a tua boca ardente,
A boca que foi tua!

E eu morrendo! e eu morrendo
Vendo-te, e vendo o sol, e vendo o céu, e vendo
Tão bela palpitar nos teus olhos, querida,
A delícia da vida! a delícia da vida!

A ALVORADA DO AMOR

Um horror grande e mudo, um silêncio profundo
No dia do Pecado amortalhava o mundo.
E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo
Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,
Disse:

“Chega-te a mim! entre no meu amor,
E à minha carne entrega a tua carne em flor!
Preme contra o meu peito o teu seio agitado,
E aprende a amar o Amor, renovando o pecado!
Abençôo o teu crime, acolho o teu desgosto,
Bebo-te, de uma em uma, as lágrimas do rosto!

Vê! tudo nos repele! a toda a criação
Sacode o mesmo horror e a mesma indignação...
A cólera de Deus torce as árvores, cresta
Como um tufão de fogo o seio da floresta,
Abre a terra em vulcões, encrespa a água dos rios;
As estrelas estão cheias de calefrios;
Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o céu...

Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu,
Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos!
Arda em chamas o chão; rasguem-te a pele os ramos;
Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos;
Surjam feras a uivar de todos os caminhos;
E, vendo-te a sangrar das urzes através,
Se emaranhem no chão as serpes aos teus pés...
Que importa? o Amor, botão apenas entreaberto,
Ilumina o degredo e perguma o deserto!
Amo-te! sou feliz! porque, do Éden perdido,
Levo tudo, levando o teu corpo querido!

Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar:
- Tudo renascerá cantando ao teu olhar,
Tudo, mares e céus, árvores e montanhas,
Porque a Vida perpétua arde em tuas entranhas!
Rosas te brotarão da boca, se cantares!
Rios te correrão dos olhos, se chorares!
E se, em torno ao teu corpo encantador e nu,
Tudo morrer, que importa? A Natureza és tu,
Agora que és mulher, agora que pecaste!

Ah1 bendito o momento em que me revelaste
O amor com o teu pecado, e a vida com o teu crime!
Porque, livre de Deus, redimido e sublime,
Homem fico, na terra, à luz dos olhos teus,
- Terra, melhor que o céu! homem, maior que Deus!”

VITA NUOVA

Se ao mesmo gozo antigo me convidas,
Com esses mesmos olhos abrasados,
Mata a recordação das horas idas,
Das horas que vivemos apartados!
Não me fales das lágrimas perdidas,
Não me fales dos beijos dissipados!
Há numa vida humana cem mil vidas,
Cabem num coração cem mil pecados!

Amo-te! A febre, que supunhas morta,
Revive. Esquece o meu passado, louca!
Que importa a vida que passou? Que importa,

Se ainda te amo, depois de amores tantos,
E inda tenho, nos olhos e na boca,
Novas fontes de beijos e de prantos?!

MANHÃ DE VERÃO


As nuvens, que, em bulcões, sobre o rio rodavam,
Já, com o vir de manhã, do rio se levantam.
Como ontem, sob a chuva, estas águas choravam!
E hoje, saudando o sol, como estas águas cantam!

A estrela, que ficou por último velando,
Noive que espera o noivo e suspira em segredo,
Desmaia de pudor, apaga, palpitando,
A pupila amorosa, e estremece de medo.

Há pelo Paraíba um sussuro de vozes,
Tremor de seios nuns, corpos brancos luzindo...
E, alvas, a cavalgar broncos monstros ferozes,
Passam, como num sonho, as náiades fugindo.

A rosa, que acordou sob as ramas cheirosas,
Diz-me: “Acorda com um beijo as outras flores quietas!
Poeta! Deus criou as mulheres e as rosas
Para os beijos do sol e os beijos dos poetas!”

E a ave diz: “Sabes tu? Conheço-a bem... Parece
Que os Gênios de Oberon bailam pelo ar dispersos,
E que o céu se abre todo, e que a terra floresce,
- Quando ela principia a recitar teus versos!”
E diz a luz: “Conheço a cor daquela boca!
Bem conheço a maciez daquelas mãos pequenas!
Não fosse ela aos jardins roubar, trêfega e louca,
O rubor da papoula e o alvor das açucenas!”

Diz a palmeira: “Invejo-a! ao vir a luz radiante,
Vem o vento agitar-me e desnastrar-me a coma:
E eu pelo vento envio ao seu cabelo ondeante
Todo o meu esplendor e todo o meu aroma!”

E a floresta, que canta, e o sol, que abre a coroa
De ouro fulvo, espancando a matutina bruma,
E o lírio, que estremece, e o pássaro, que voa,
E a água, cheia de sons e de flocos de espuma,

Tudo, - a cor, o clarão, o perfume e o gorjeio,
Tudo, elevando a voz, nesta manhã de estio,
Diz: “Pudesses dormir, poeta! No seu seio,
Curvo como este céu, manso como este rio!”

DENTRO DA NOITE

Ficas a um canto da sala,
Olhas-me e finges que lês...
Ainda uma vez te ouço a fala,
Olho-te ainda uma vez;
Saio... Silêncio por tudo:
Nem uma folha se agita;
E o firmamento, amplo e mudo,
Cheio de estrelas palpita.
E eu vou sozinho, pensando
Em teu amor, a sonhar,
No ouvido e no olhar levando
Tua voz e teu olhar.

Mas não sei que luz me banha
Todo de um vivo clarão;
Não sei que música estranha
Me sobre do coração.
Como que, em cantos suaves,
Pelo caminho que sigo,
Eu levo todas as aves,
Todos os astros comigo.
E é tanta essa luz, é tanta
Essa música sem par,
Que nem sei se é a luz que canta,
Se é o som que vejo brilhar.

Caminho em êxtase, cheio
Da luz de todos os sóis,
Levando dentro do seio
Um ninho de rouxinóis.
E tanto brilho derramo,
E tanta música espalho,
Que acordo os ninhos e inflamo
As gotas frias do orvalho.
E vou sozinho, pensando
Em teu amor, a sonhar,
No ouvido e no olhar levando
Tua voz e teu olhar.

Caminho. A terra deserta
Anima-se. Aqui e ali,
Por toda parte desperta
Um coração que sorri.
Em tudo palpita um beijo,
Longo, ansioso, apaixonado,
E um delirante desejo
De amar e de ser amado.
E tudo, - o céu que se arqueia
Cheio de estrelas, o mar,
Os troncos negros, a areia,
- Pergunta, ao ver-me passar:

“O Amor, que a teu lado levas,
A que lugar te conduz,
Que entras coberto de trevas,
E sais coberto de luz?
De onde vens? Que firmamento
Correste durante o dia,
Que voltas lançando ao vento
Esta inaudita harmonia?
Que país de maravilhas,
Que Eldorado singular
Tu visitaste, que brilhas
Mais do que a estrela polar?”

E eu continua a viagem,
Fantasma deslumbrador,
Seguido por tua imagem,
Seguido por teu amor.
Sigo... Dissipo a tristeza
De tudo, por todo o espaço,
E ardo, e canto, e a Natureza
Arde e canta, quando eu passo,
- Só porque passo pensando
Em teu amor, a sonhar,
No ouvido e no olhar levando
Tua voz e teu olhar...

Fonte:
BILAC, Olavo. Antologia : Poesias. São Paulo : Martin Claret, 2002. Alma Inquieta. (Coleção a obra-prima de cada autor). Digitalizado por Anamaria Grunfeld Villaça Koch – São Paulo/SP

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 349)


Uma Trova Nacional

Por mais louca ... mais confusa ...
que eu esteja em meus anseios,
quem me dera ser a musa
dos teus doces devaneios!
-MARIA NELSI SALES DIAS/SP-

Uma Trova Potiguar


Buscando a felicidade
por este mundo sem fim...
Descobrir uma verdade:
Ela está dentro de mim!
-FRANCISCO MACEDO/RN-

Uma Trova Premiada


2010 - CTS-Caicó/RN
Tema: OCASO - 8º Lugar

O ocaso... o ajuste da lente...
o clique... a fotografia:
- a imagem do sol poente,
nos braços do fim do dia...
-DARLY O. BARROS/SP-

Uma Trova de Ademar


A Saudade na pessoa
faz ela ficar doente;
por mais que saudade doa,
mas só quem ama é quem sente!
-ADEMAR MACEDO/RN-

...E Suas Trovas Ficaram


A igreja, as flores e o eleito,
ela de branco e eu tristonho;
foi o cenário perfeito
para o enterro de meu sonho.
-ALONSO ROCHA/PA-

Simplesmente Poesia

Descaminhos. (Para Ela)
-SERGIO SEVERO/RN-

Por que teimo em dirigir
minha atenção a Você,
que em "contra marchas", não vê,
todo o meu Amor fluir?

Que a Estrada do seu Porvir,
seja, quiçá, asfaltada,
e cada curva fechada,
bem lhe faça refletir.

Olhe a conversão na Via!
Não atropele a Poesia,
na contramão dos meus passos...

... e à margem da Compaixão,
deixar o meu Coração,
por inteiro, aos pedaços.

Estrofe do Dia

Se for um parlamentar
pode ter crime a vontade
que o dedo da impunidade
não deixa lhe investigar,
se alguém o denunciar
é sujeito a ser punido,
processado e ser tangido
pra o beco da emboscada;
toda lei ultrapassada
só favorece o bandido.
-GERALDO AMÂNCIO/CE-

Soneto do Dia


Página Virada
-REGINALDO ALBUQUERQUE/MS-

Tarde da noite, em meio à quietude das ruas,
encontro nesta banca há muito abandonada,
no entulho de jornais e traças junto à entrada,
revista masculina, expondo moças nuas.

E tremo ao desfazer a página virada...
No encarte especial, fotografias tuas
em poses sensuais dizem verdades cruas
que sangram cicatriz que imaginei curada.

A propaganda exalta algum lugar distante...
A lua espreguiçada em seu quarto minguante
lança cintilações sobre esta saudade oca...

Por um momento a banca agita a velha porta...
Se o teu vulto é ilusão ou real, o que importa?
Aplaco a minha dor beijando a tua boca...

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

Monteiro Lobato (O Presidente Negro) VII – Futuro e Presente


CAPÍTULO VII

Futuro e Presente

Ao entrar no gabinete iluminei-me todo por dentro. Estava miss Jane adiante do globo de cristal, absorvida com certeza na visualização de um corte anatômico. Um raio de sol coado pela vidraça transfazia em luz o louro de seus cabelos. Miss Jane era toda atenção. Seus olhos azuis verdadeiramente bebiam algum maravilhoso quadro. O professor Benson estacou á porta, fazendo-me gesto de silencio, e assim permaneceu até que a moça desse volta a um comutador e regressasse ao presente.

— Papai, exclamou ela, estou no fim da tragédia, no crepúsculo da raça. Dudlee ganhou uma estatua... Boa tarde, senhor Ayrton. Desculpe-me o estar dizendo a meu pai coisas que nem por sombras o senhor pode desconfiar o que sejam. Compreendo que é indelicado falar em língua estranha na presença de pessoas que a desconhecem...

A bondade de miss Jane encantou-me; e, como a jovem não me olhasse nos olhos, pude replicar:

— Mas tudo nesta casa me é linguagem estranha! O que acabo de ver assombra-me de tal maneira que tão cedo não me reconhecerei a mim mesmo.

— Está fazendo progressos, Jane, disse o professor. O amigo Ayrton compreendeu muito bem a parte teórica da minha exposição.

— Ou compreendi, exclamei, ou pareceu-me compreender. Aqui o professor fala com tal simplicidade e clareza que nem parece um sábio. Conheci um lá na cidade, e grande, a avaliar pela fama, com quem tive de tratar a mandado da firma. Pois confesso que não pesquei coisa nenhuma do que o homem disse. Esse, sim, parecia falar uma linguagem de mim nem sequer suspeitada...

— Não era um verdadeiro sábio, interveio miss Jane. Os verdadeiros são como meu pai, claros e fecundos como a luz do sol. Mas quer saber o senhor Ayrton o que eu fazia ha pouco?

— Não lhe contes ainda, Jane. Explica-lhe primeiro a função do porviroscopio, enquanto vou repousar um bocado. Sou velho e qualquer esforço além do habitual me cansa.

Antes que o professor Benson se retirasse, deu miss Jane um salto na cadeira, leve como a corça, e veio beijá-lo no rosto.

— Este querido paizinho! Murmurou, acompanhando-o com os olhos amorosamente.

Depois voltando-se para mim:

— Não é uma benção das fadas ter um pai destes? Como sabe conciliar a máxima inteligência com a máxima bondade!

— E com a máxima simplicidade! Acrescentei. Não caibo em mim de gosto ao ver o homem que podia ser dono do mundo, se quisesse, tratar-me como se eu fora alguém.

— Não se espante disso. Meu pai é coerente com as suas idéias.

Todos para ele somos meras vibrações do éter.

— Até miss Jane?

— Eu serei vibração de um éter especial, muito afim do que vibra nele, explicou ela a sorrir. Mas, sentemo-nos, senhor Ayrton, que ha muito que conversar.

Já disse que eu era um rapaz acanhado, sobretudo em presença de moças bonitas; mas o ambiente de familiaridade e franqueza daquela casa modificou-me logo. Cheguei até a suportar nos olhos os olhares da linda jovem, sem perder a tramontana como da primeira vez. É que nem remotamente lembrava aquele olhar o olhar malicioso das mulheres que eu conhecera. Fui percebendo aos poucos que de feminino só havia em miss Jane o aspecto. Seu espírito formado na ciência e seu convívio com um homem superior, dela afastavam todas as preocupações de coquetismo, próprias da mulher comum.

Isso me pôs á vontade. Sentia-me, não um moço em frente de uma donzela, mas um espírito diante do outro.

Aproveitei o ensejo para esclarecer-me a respeito do professor Benson. Soube que era descendente de um mineralogista norte-americano que um século antes viera ao Brasil estudar a composição de certa zona aurífera. Gostou da terra e nela se fixou, casando-se com a filha de um fazendeiro de S. Paulo.

— Desse consorcio, explicou miss Jane, só veio ao mundo meu pai, que cedo foi enviado á Europa, onde se dedicou a estudos científicos. Lá se casou tarde e lá residiu por certo tempo. Veio depois tomar posse dos bens deixados pelo meu avô — e aqui nasci eu. Mas não me lembro de minha mãe. Morreu muito moça, anos 9 anos... Desde essa época estabeleceu-se meu pai neste recanto e consagrou-se integralmente á sua invenção. Passou o nosso mundo a
resumir-se neste laboratório. Raras vezes vamos á cidade, pouco interesse, aliás, achando nós dois em seu tumulto.

— Pudera! Quem tem o passado e o futuro nas mãos...

— Realmente é isso. Este aparelho fornece-nos tamanhas maravilhas, que a bem dizer vivemos muito mais no porvir do que no presente. Meu gosto é realizar estudos dos anos mais remotos, e só lamento não ter um cérebro imenso qual o oceano para reter tudo o que vejo. Outra coisa que lamento é não podermos dar a publico a nossa invenção. A bondade de meu pai o impede.

— Não alcanço muito bem o porquê...

— Pretende ele, e com muita lógica, que a humanidade não está apta a suportar a revelação do futuro. Acha que a sua invenção cairia no poder de um grupo o qual abusaria da tremenda soma de superioridade que a descoberta lhe concederia. Fosse meu pai um homem vulgar, de pouca sensibilidade de coração, e ele mesmo assumiria o predomínio que receia ver na posse de outrem. Basta dizer que até hoje apenas se utilizou deste invento para reunir o dinheiro necessário á nossa vida e aos enormes dispêndios dos seus estudos.

— Agora me lembro, miss Jane, que lá fora é o professor Benson conhecido como um jogador de cambio que jamais perde.

— E assim é. Fizemos experiência com o marco e o franco e os fatos corresponderam com exatidão ás indicações deste aparelho. Mas meu pai limitou-se a ganhar o necessário para o trem de vida que leva. Estamos na posse de elementos para alcançar o que quisermos, para reunirmos nas mãos a maior soma de ouro com que se possa sonhar. Isso, porém, nos seria de todo inútil. Para que necessitamos da mesquinha riqueza do mundo se nada não nos dá ela que se aproxime do que temos aqui?

— Por mais espantosa, miss Jane, que seja a descoberta do professor Benson, espanta-me ainda mais o caráter das duas pessoas que estão no seu segredo. Podem ser tudo e não querem ser nada...

— Ser tudo!... Que significa ser tudo? Quando penso nas grandezas do mundo, rio-me delas...

Miss Jane conversou comigo por mais de um hora sobre os mais variados assuntos. E explicou-me depois o funcionamento do aparelho, recorrendo ás suas imagens habituais, tão pitorescas. A corrente perdia no globo de cristal a sua forma concentrada e visualizava-se como numa projeção de cinema, reproduzindo momentos de vida futura cora a exatidão que vai ter um dia.

— Ficamos na posição de um espectador imóvel num ponto. Só vemos e ouvimos o que passa ao alcance dos nossos olhos ou soa ao alcance dos nossos ouvidos. Isso ás vezes dificulta a compreensão de certos momentos da vida futura. Aparecem-nos coisas que não podemos compreender por falta dos elos anteriores da evolução. No ano 3.527, por exemplo, vi na população da França evidentes sinais de mongolismo. Os trajes não lembravam nada do que usam hoje as criaturas em parte nenhuma da terra, nem sequer pude perceber de que seriam feitos. Esqueci-me de dizer que o nosso aparelho não vai além do ano 3.527. Sua potencia pára aí. Focalizado para o ano de 3.528 já dá uma visão de tal modo baça que não distinguimos nada. Ficamos, eu e meu pai, perplexos ante aquele mongolismo da França. Só depois, fazendo cortes menos recuados e combinando uns com os outros, conseguimos decifrar o mistério. Tinham-se derramado pela Europa os mongóis e se substituído á raça branca.

Não pude conter um gesto de espanto, e fiz tal cara que miss Jane sorriu.

— Que horror! Vai então acontecer essa catástrofe? exclamei.

A jovem sabia respondeu com serena impassibilidade:

— Por que, catástrofe? Tudo que é tem razão de ser, tinha forçosamente de ser; e tudo que será terá razão de ser e terá forçosamente de ser. O amarelo vencerá o branco europeu por dois motivos muito simples: come menos e prolifera mais. Só se salvará da absorção o branco da America. E como esta, quantas revelações curiosas! Outra, que muito me impressionou, foi a transformação das ruas que se nota no ano 2.200 em diante. Cessa a era dos veículos. Nada de bondes, automóveis ou aviões no céu.

—Como pode ser isso, miss Jane? É quase um absurdo.

—Pois para lá caminhamos. Em cortes sucessivos que fiz de dez em dez anos observei a diminuição rápida dos veículos atuais. A roda, que foi a maior invenção mecânica do homem e hoje domina soberana, terá seu fim. Voltará o homem a andar a pé. O que se dará é o seguinte: o radio-transporte tornará inútil o corre-corre atual. Em vez de ir todos os dias o empregado para o escritório e voltar pendurado num bonde que desliza sobre barulhentas rodas de aço, fará ele o seu serviço em casa e o radiará para o escritório. Em suma: trabalhar-se-á á distancia. E acho muito lógica esta evolução. Não são hoje os recados transmitidos instantaneamente pelo telefone? Estenda esse principio a tudo e verá que imensas possibilidades para vir trazê-lo. O progresso foi grande, mas repare quando á radiocomunicação se acrescentar o radio-transporte. Outrora, por exemplo, se o senhor Ayrton quisesse fumar um charuto tinha de mandar um criado buscá-lo á charutaria; hoje pede-o pelo telefone, mas o charuteiro ainda é obrigado a mobilizar um carregador para vir trazê-lo. O progresso foi grande, mas repare que atraso ainda! Mobilizar um homem, isto é, uma massa de 60 ou 70 quilos de carne, fazê-lo dar mil ou cinco mil passos, gastando vinte ou trinta minutos da sua vida. só para transportar um simples charuto! Chega a ser grotesco...

— Realmente. Mas no futuro?

— No futuro o senhor Ayrton fumará á distancia. Veja quanta economia de tempo e esforço humano!

Julguei que miss Jane estivesse a caçoar comigo e até hoje permaneço na duvida. Em seu rosto, porém, não vi a menor sombra de motejo.

—Pode ser, mas... duvidei.

—Esse mesmo "pode ser, mas..." diria um romano do tempo de Cesar se alguém lhe predissesse que um romano do tempo do óleo de rícino não precisaria sair de sua casa para conversar com um cidadão de Paris. Sabe o senhor Ayrton, no entanto, que isso é comezinho hoje e nem sequer admira a ninguém.

—Falar é uma coisa e fumar é outra.

—Hoje, que só temos a radio-comunicação. Mas chegará o dia da radio-sensação e do radio-transporte, com radical mudança do nosso sistema de vida. Os veículos ao sistema corrente desaparecerão um por um. Voltará o homem a caminhar a pé, por prazer, e as ruas se tornarão uma delicia. O senhor Ayrton sabe o que quer dizer uma rua hoje...

—Ninguém melhor do que eu, miss Jane, pois desde menino vivo nelas. Que angustia, que permanente inquietação! Temos que andar com cinquenta olhos arregalados, para prevenirmos trancos e atropelamentos.

— Tudo isso desaparecerá, e adquirirão as cidades uma calma deliciosa, como hoje a de certas aldeias. Vi New York nesse período. Que diferença do atropelado e doido formigueiro de agora!

— Deve miss Jane ter observado coisas maravilhosas!...

— Menos maravilhosas do que desnorteantes para as nossas idéias atuais. As invenções vão sobrevivendo no decurso do tempo, umas saídas das outras, e as coisas tomam ás vezes rumo muito diverso do que a lógica, com ponto de partida no estado atual, nos faria prever,

O professor Benson reapareceu nesse momento e a conversa tomou outro rumo. Eu me achava na situação de um homem que ingerisse um estupefaciente desconhecido. Estava com a minha capacidade de assimilação de idéias esgotada e já com uma ponta de dor de cabeça a dar sinal de que o cérebro exigia repouso. Sem que eu o dissesse, o velho sábio, mais sua filha, compreenderam-no perfeitamente e dali até o jantar só me falaram de coisas repousantes.

Á noite custei a conciliar o sono, o que era natural. Mas sinceramente o digo: o que mais me dançava na cabeça não era o desvendamento do futuro nem as suas abracadabrantes maravilhas, e sim a imagem de miss Jane. A estranha criatura loura, de olhos tão azuis, impressionara por igual meu cérebro e meu coração. Comecei a ver nela o verdadeiro tudo; e se me dessem a opinar entre a posse da descoberta do professor Benson e o tê-la ao meu lado para o resto da vida, não vacilaria um instante na escolha.

Dormi por fim e, em vez de sonhar com o mundo futuro entrevisto na palestra da moça, sonhei no encanto do presente, todo resumido em conjugal convivência com o meigo anjo sábio.
---------------
continua… VIII – A Luz que se Apaga

Fonte:
Monteiro Lobato. O Presidente Negro. Editora Brasiliense, 1979.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Wagner Marques Lopes (Trova Ecológica)

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 348)


Uma Trova Nacional

Exilio, os sonhos da gente
perdidos na multidão,
numa vaga simplesmente
de um quartinho de pensão.
–NILTON MANOEL/SP–

Uma Trova Potiguar

Nos percalços desta vida,
quando a maldade nos corta,
é graça bem recebida
se alguém nos abre uma porta.
–REINALDO AGUIAR/RN–

Uma Trova Premiada

2007 - Belo Horizonte/MG
Tema: GRAÇA - Venc.

Quem cumpre as metas que traça,
sem perder de vista o norte,
tem em suas mãos a graça
dos rumos da própria sorte.
–WANDA HORILDA DE LIMA/MG–

Uma Trova de Ademar

A distância cria uns laços
que enrosca qualquer um bamba.
A saudade não tem braços,
mais aperta pra caramba!
–ADEMAR MACEDO/RN–

...E Suas Trovas Ficaram

Não sabe, quem não aceita
as cruzes que carregamos,
que a nossa vida é colheita
daquilo que nós plantamos.
–ALICE ALVES NUNES/DF–

Simplesmente Poesia

Preservação
R. C. LIMA/PB

Tudo estava preservado,
cada cor no mesmo tom.
O mesmo jarro quebrado,
o mesmo sofá marrom.
Mesmo tapete vermelho,
e aquele adeus no espelho
que ela “escreveu” com batom.

Estrofe do Dia

Eu não creio em quem faz economia
passa fome com pena de gastar,
vê um pobre faminto e não lhe dar
um pedaço do pão de cada dia,
tem dinheiro, tem terra e vacaria
nega um copo de leite a uma criança,
junta tudo que pode e ainda avança
pra tomar um pedaço do alheio;
pode até se salvar mas eu não creio
só se Deus der um toque na balança.
–DIMAS BIBIU/PB–

Soneto do Dia

Os Parceiros
–MARIO QUINTANA/RS–

Sonhar é acordar-se para dentro:
de súbito me vejo em pleno sonho
e no jogo em que todo me concentro
mais uma carta sobre a mesa ponho.

Mais outra! É o jogo atroz do Tudo ou Nada!
E quase que escurece a chama triste…
E, a cada parada uma pancada,
o coração, exausto, ainda insiste.

Insite em quê? Ganhar o quê? De quem?
O meu parceiro… eu vejo que ele tem
um riso silencioso a desenhar-se

numa velha caveira carcomida.
Mas eu bem sei que a morte é seu disfarce…
Como também disfarce é a minha vida!

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

Hermoclydes Siqueira Franco (Proposições a um Vocabulário em Trovas) LETRA “A”


NOTA EXPLICATIVA

Em novembro de 1985, por ocasião da festa de encerramento dos JOGOS FLORAIS DE NITERÓI, tive ocasião de conhecer JACY PACHECO.

Realizava, então, o talentoso membro da Academia Niteroiense de Letras, o lançamento do trabalho a que denominou ‘VOCABULÁRIO EM TROVAS” – algo de novo no campo das trovas – composto de mais de 300 trovas e abrangendo mais de 400 vocábulos.

Em sua “nota ao leitor” esclarecia que, compulsando o trabalho, “... o leitor encontrará, em meio ao rigor das rimas e da métrica, ora o significado exato de um termo, ora o disparate, proposital, capaz de provocar o riso e quebrar o tom severo e característico dos dicionários...”

A transcrição acima é necessária para esclarecer que foi sob o contágio da beleza, espirituosidade e precisão da obra de Jacy, e com a preocupação de captar-lhe o espírito e a forma, que elaboramos, como contribuição ao seu trabalho, cerca de 130 trovas, incluindo 222 vocábulos novos, de tal forma que poderiam ser, perfeitamente, inseridos nos espaços permitidos pela ordem alfabética seguida pelo excelente bardo fluminense.

Esta nossa NOTA EXPLICATIVA é importante para que, agora, 25 anos passados da elaboração deste nosso trabalho, que infelizmente não pôde ser adicionado ao Vocabulário de JACY, em face de seu falecimento, possam os leitores compreender alguns pormenores incluídos nos verbetes que criamos e, também, a razão da escassez de palavras que poderiam ampliar o âmbito da nossa PROPOSIÇÃO AO VOCABULÁRIO EM TROVAS.

Hermoclydes S. Franco - Texto de 1986 resumido em 2011

ABRIL: Mês da reverência
A Tancredo e Tiradentes;
Liberdade, Inconfidência
E alegrias pertinentes...

AÇUCAR: É a sacarose;
Doçura, (quase lhaneza).
ACUPUNTURA: É uma dose
De agulhadas, à chinesa.

ADEUS: Triste interjeição,
Diz quem parte, diz quem fica.
Quase sempre é rejeição.
Quase sempre não se explica.

AGÔSTO: Mês singular,
Que marca bem nosso inverno.
Traz as ressacas ao mar
E ao céu um luar eterno...

ALABASTRO: É uma gipsita
Que tem alvura translúcida.
ÁLACRE: Alegria (aflita)
De gente nem sempre lúcida.

ALAMBIQUE: Que destila.
ALAMEDA: Arborizada,
Qual “Boulevard” lá da Vila,
Por Noel eternizada.

ÁLBUM: Família vistosa.
ALBUMINA: A proteína
Que dizem ser perigosa
Quando encontrada na urina.

ALCATRA: Carne de boi;
Boa de panela ou tacho.
ALCATRÃO: Se não é, foi
O conhaque do borracho.

ÁLCOOL: Um líquido forte,
Derruba qualquer valente.
ALCÓOLATRA: Ser, ser sorte,
Que esbarra, sempre, na gente.

ALMAÇO: Papel de prova
Que nos relembra o passado.
ALMEJAR: Vencer com trova
Que não tenha “pé-quebrado”.

ALMIRANTE: É oficial
Mesmo depois do “pijama”.
ALMOÇAR: No “natural”
Sem engordar um só grama.

ALMOFADINHA: Rapaz
Que se traja com apura.
ALMOTOLIA: É o que faz
O óleo entrar, mesmo no escuro.

AMÉRICA: O Novo Mundo
Descoberto por Colombo.
AMESTRAR: Treinar, a fundo,
Sem dar lambadas no lombo.

ARQUITETO: É o engenheiro
Que dizem que até deu certo.
ARQUIVO: Só de dinheiro;
E há tanto ladrão por perto.

Fontes:
Trovas enviadas pelo autor
Imagem - O Trovadorismo

Olavo Bilac (Alma Inquieta: poesias) 2


NOTURNO

Já toda a terra adormece.
Sai um soluço da flor.
Rompe de tudo um rumor,
Leve como o de uma prece.

A tarde cai. Misterioso,
Geme entre os ramos o vento.
E há por todo o firmamento
Um anseio doloroso.

Áureo turíbulo imenso,
O ocaso em púrpuras arde,
E para a oração da tarde
Desfaz-se em rolos de incenso.

Moribundos e suaves,
O vento na asa conduz
O último raio da luz
E o último canto das aves.

E Deus, na altura infinita,
Abre a mão profunda e calma,
Em cuja profunda palma
Todo o Universo palpita.

Mas um barulho se eleva...
E , no páramo celeste,
A horda dos astros investe
Contra a muralha da treva.

As estrelas, salmodiando
O Peã sacro, a voar,
Enchem de cânticos o ar...
E vão passando... passando...

Agora, maior tristeza,
Silêncio agora mais fundo;
Dorme, num sono profundo,
Sem sonhos, a natureza.

A flor-da-noite abre o cálix...
E, soltos, os pirilampos
Cobrem a face dos campos,
Enchem o seio dos vales:

Trêfegos e alvoroçados,
Saltam, fantásticos Djins,
De entre as moitas de jasmins,
De entre os rosais perfumados.

Um deles pela janela
Entre no teu aposento,
E pára, plácido e atento,
Vendo-te, pálida e bela.

Chega ao teu cabelo fino,
Mete-se nele: e fulgura,
E arde nessa noite escura,
Como um astro pequenino.

E fica. Os outros lá fora
Deliram. Dormes... Feliz,
Não ouves o que ele diz,
Não ouves como ele chora...

Diz ele: “O poeta encerra
Uma noite, em si, mais triste
Que essa que, quando dormiste,
Velava a face da terra...

Os outros saem do meio
Das moitas cheias de flores:
Mas eu saí de entre as dores
Que ele tem dentro do seio.

Os outros a toda parte
Levam o vivo clarão,
E eu vim do seu coração
Só para ver-te e beijar-te.

Mandou-me sua alma louca,
Que a dor da ausência consome,
Saber se em sonho o seu nome
Brilha agora em tua boca!

Mandou-me ficar suspenso
Sobre o teu peito deserto,
Por contemplar de mais perto
Todo esse deserto imenso!”

Isso diz o pirilampo...
Anda lá fora um rumor
De asas rufladas... A flor
Desperta, desperta o campo...

Todos os outros, prevendo
Que vinha o dia, partiram,
Todos os outros fugiram...
Só ele fica gemendo.

Fica, ansioso e sozinho,
Sobre o teu sono pairando...
E apenas, a luz fechando,
Volve de novo ao seu ninho,

Quando vê, inda não farto
De te ver e de te amar,
Que o sol descerras do olhar,
E o dia nasce em teu quarto...

VIRGENS MORTAS

Quando uma virgem morre, uma estrela aparece,
Nova, no velo engaste azul do firmamento:
E a alma da que morreu, de momento em momento,
Na luz da que nasceu palpita e resplandece.

Ó vós, que, no silêncio e no recolhimento
Do campo, conversais a sós, quando anoitece,
Cuidado! – o que dizeis, como um rumor de prece,
Vai sussurrar no céu, levado pelo vento...

Namorados, que andais, com a boca transbordando
De beijos, perturbando o campo sossegado
E o casto coração das flores inflamando,
- Piedade! elas vêem tudo entre as moitas escuras...
Piedade! esse impudor ofende o olhar gelado
Das que viveram sós, das que morreram puras!

O CAVALEIRO POBRE
(Pouchkine)

Ninguém soube quem era o Cavaleiro Pobre,
Que viveu solitário, e morreu sem falar:
Era simples e sóbrio, era valente e nobre,
E pálido como o luar.

Antes de se entregar às fadigas da guerra,
Dizem que um dia viu qualquer cousa do céu:
E achou tudo vazio... e pareceu-lhe a terra
Um vasto e inútil mausoléu.

Desde então, uma atroz devoradora chama
Calcinou-lhe o desejo, e o reduziu a pó.
E nunca mais o Pobre olhou uma só dama,
Nem uma só! nem uma só!

Conservou, desde então, a viseira abaixada:
E, fiel à Visão, e ao seu amor fiel,
Trazia uma inscrição de três letras, gravada
A fogo e sangue no broquel.

Foi aos prélios da Fé. Na Palestina, quando,
No ardor do seu guerreiro e piedoso mister,
Cada filho da Cruz se batia, invocando
Um nome caro de mulher,

Ela rouco, brandindo o pique no ar, clamava:
“Lumen coeli Regina!” e, ao clamor dessa voz,
Nas hostes dos incréus como uma tromba entrava,
Irresistível e feroz.

Mil vezes sem morrer viu a morte de perto,
E negou-lhe o destino outra vida melhor:
Foi viver no deserto... E era imenso o deserto!
Mas o seu Sonho era maior!

E um dia, a se estorcer, aos saltos, desgrenhado,
Louco, velho, feroz, - naquela solidão
Morreu: - mudo, rilhando os dentes, devorado
Pelo seu próprio coração.

IDA

Para a porta do céu, pálida e bela,
Ida as asas levanta e as nuvens corta.
Correm os anjos: e a criança morta
Foge dos anjos namorados dela.

Longe do amor materno o céu que importa?
O pranto os olhos límpidos lhe estrela...
Sob as rosas de neve da capela,
Ida soluça, vendo abrir-se a porta.

Quem lhe dera outra vez o escuro canto
Da escura terra, onde, a sangrar, sozinho,
Um coração de mão desfaz-se em pranto!

Cerra-se a porta: os anjos todos voam...
Como fica distante aquele ninho,
Que as mães adoram... mas amaldiçoam!

NOITE DE INVERNO


Sonho que estás à porta...
Estás – abro-te os braços! – quase morta,
Quase morta de amor e de ansiedade...
De onde ouviste o meu grito, que voava,
E sobre as asas trêmulas levava
As preces da saudade?

Corro à porta... ninguém! Silêncio e treva.
Hirta, na sombra, a Solidão eleva
Os longos braços rígidos, de gelo...
E há pelo corredor ermo e comprido
O suave rumor de teu vestido,
E o perfume subtil de teu cabelo.

Ah! se agora chegasses!
Se eu sentisse bater em minhas faces
A luz celeste que teus olhos banha;
Se este quarto se enchesse de repente
Da melodia, e do clarão ardente
Que os passos te acompanha:

Beijos, presos no cárcere da boca,
Sofreando a custo toda a sede louca,
Toda a sede infinita que os devora,
- Beijos de fogo, palpitando, cheios
De gritos, de gemidos e de anseios,
Transbordariam por teu corpo afora!...

Rio aceso, banhando
Teu corpo, cada beijo, rutilando,
Se apressaria, acachoado e grosso:
E, cascateando, em pérolas desfeito,
Subiria a colina de teu peito,
Lambendo-te o pescoço...

Estrela humana que do céu desceste!
Desterrada do céu, a luz perdeste
Dos fulvos raios, amplos e serenos;
E na pele morena e perfumada
Guardaste apenas essa cor dourada
Que é a mesma cor de Sírius e de Vênus.

Sob a chuva de fogo
De meus beijos, amor! terias logo
Todo o esplendor do brilho primitivo;
E, eternamente presa entre meus braços,
Bela, protegerias os meus passos,
-Astro formoso e vivo!

Mas... talvez te ofendesse o meu desejo...
E, ao teu contacto gélido, meu beijo
Fosse cair por terra, desprezado...
Embora! que eu ao menos te olharia,
E, presa do respeito, ficaria
Silencioso e imóvel a teu lado.

Fitando o olhar ansioso
No teu, lendo esse livro misterioso,
Eu descortinaria a minha sorte...
Até que ouvisse, desse olhar ao fundo,
Soar, num dobre lúgubre e profundo,
A hora da minha morte!

Longe embora de mim teu pensamento,
Ouvirias aqui, louco e violento,
Bater meu coração em cada canto;
E ouvirias, como uma melopéia,
Longe embora de mim a tua idéia,
A música abafada de meu pranto.

Dormirias, querida...
E eu, guardando-te, bela e adormecida,
Orgulhoso e feliz com o meu tesouro,
Tiraria os meus versos do abandono,
E eles embalariam o teu sono,
Como uma rede de ouro.

Mas não bens! não virás! Silêncio e treva...
Hirta, na sombra, a Solidão eleva
Os longos braços rígidos de gelo;
E há, pelo corredor ermo e comprido,
O suave rumor de teu vestido
E o perfume subtil de teu cabelo...

Fonte:
BILAC, Olavo. Antologia : Poesias. São Paulo : Martin Claret, 2002. Alma Inquieta. (Coleção a obra-prima de cada autor). Digitalizado por Anamaria Grunfeld Villaça Koch – São Paulo/SP

Monteiro Lobato (O Presidente Negro) VI – O Tempo Artificial


CAPITULO VI
O Tempo Artificial

Quando de novo me encontrei com o professor Benson no laboratório prosseguiu ele na exposição interrompida.

— Onde estávamos, senhor Ayrton?

— Na pré-determinação.

— Sim. Foi nesse ponto que Jane nos interrompeu. Pois bem: se tudo inexoravelmente se determina pela influencia recíproca das vibrações, se é isto pura mecânica, embora duma meta-mecânica inacessível ás forças da inteligência do homem, é lógico que a predeterminação é possível em teoria.

— E na prática também! aventei eu iluminado de súbita ideia. Homens há que adivinham ocorrências futuras. Eu mesmo já tive ocasião de observar comigo um curioso caso de pressentimento lá nos negócios da firma. Veio-me não sei de onde a ideia de que um freguês ia falir. Disse-o ao senhor Sá, o qual me chamou de tolo. Um mês mais tarde esse freguês abria bancarrota! Nunca me pude explicar isso pois nada conhecia dos seus negócios, nem coisa nenhuma ouvira falar a respeito.

— Esse caso pode ser visto de outra maneira. A ideia de requerer falência podia estar em ação no cérebro do freguês. Ideia é vibração que repercute em ondas como tudo mais, e certos cérebros possuem bela faculdade emissiva ou receptora. Emitiu esse freguês uma vibração da ideia e o cérebro do senhor Ayrton agiu como polo receptor.

— Mas a leitura das linhas da mão? A quiromante que na Martinica predisse a Josefina, então simples burguesinha crioula, que seria imperatriz da França?

— Aí já o caso é diverso, como no de todas as profecias comprovadas. Havemos que conceber certas organizações possuidoras duma faculdade pré-determinante. E não me custa admitir isso, já que construi o pré-determinador.

— Que significa essa nova palavra, professor?

— Vamos ao pavilhão vizinho; lá me compreenderá melhor. Passamos á sala imediata, recinto envidraçado e em forma de funil, cujo bico era uma das tais torres de ferro enxadrezado.

— Aqui temos o nervo ótico do futuro. Chamo a este conjunto "o grande coletor da onda Z."

Eu andava de novidade em novidade e por mais alerta que pusesse o cérebro tinha de fazer paradas constantes, pedindo ao professor explicações parciais.

— Onda Z, professor Benson? Ainda não me falou nela.

— Só agora chegou o momento. A multiplicidade infinita das formas, isto é, das vibrações do éter, produz turbilhões ou ondas, que consegui classificar uma por uma e captar por meio deste conjunto receptor que as polariza...

— ?I

— Polarizar é reunir tudo num só ponto, num polo.

— Compreendo.

— Este conjunto receptor polariza os turbilhões e os funde numa espécie de corrente continua, ou, usando de imagem concreta, de um jato. Suponha milhões de gotas de chuva a caírem num imenso funil e a saírem pelo bico sob a forma continua de um jorro cristalino. Todas as gotas estão no jato, mas fundidas e sob outra forma. Assim o meu coletor. Apanha o turbilhão das ondas e as polariza naquele aparelho.

Olhei para o aparelho que o dedo do professor apontava e apenas vi um emaranhado de fios e grandes carretéis de arame, que em calão eu definiria muito bem com a palavra estrumela. Mas guardei o vocábulo, visto que a lição da Groenlândia ainda estava muito fresca em minha memória.

— Consigo assim, prosseguiu o sábio, concentrar em minhas mãos o presente, isto é, o momento atual da vida do universo, como imensa paisagem panorâmica que toda se reflete numa chapa fotográfica e nela se conserva latente até que vá ao banho revelador. Quer isto dizer que na corrente continua, invisível como o fluido elétrico, que gira naquele caos aparente de fios, solenoides e bobinas, está tudo quanto constitui o momento universal!

Apesar da segurança do velho sábio e da solidez de suas deduções eu permanecia numa vaga duvida. Na minha curteza mental eu achava excessivo estar tudo quanto existe reduzido a tão homeopáticas proporções e, ainda mais, impalpável e invisível. O professor Benson adivinhou a minha indecisão e esmagou-a como quem esmaga uma pulga.

— Sabe o que é isto? perguntou mostrando-me uma coisinha de minúsculas dimensões.

— Uma semente, respondi.

— E que é uma semente? Uma pré-determinação. Aqui dentro está predeterminada uma árvore de colossais dimensões que se chama jequitibá. Se o amigo admite que desta semente, que analisada só revela a presença de um bocado de amido, sais, graxa, etc. Surja sempre, e de um modo fatal, um majestoso jequitibá, porque vacila em admitir um fenômeno semelhante, qual a polarização do momento universal numa semente, que no caso é o fluido que circula no meu aparelho?

O símile matou-me de vez todas as veleidades de ceticismo e foi como quem ouve a voz de Deus que dali por diante me entreguei sem reservas ás palavras do sábio.

— Prossiga, doutor, murmurei.

O professor Benson prosseguiu.

— Obtenho, pois, neste aparelho, uma corrente continua, que é o presente. Tudo se acha impresso em tal corrente. Os cardumes de peixes que neste momento agonizem no seio do oceano ao serem apanhados pela agua tépida da Corrente do Golfo; o juiz bolchevista que neste momento assina a condenação de um mujik relapso num tribunal de Arkangel; a palavra que, em Zorn, neste momento, o kronprinz dirige ao ex-imperador da Alemanha; a flor do pêssego que no sopé do Fushiama recebe a visita de uma abelha; o leucócito a envolver um micróbio malévolo que penetrou no sangue dum fakir da India; a gota d'agua que espirra do Niagara e cai num líquen de certa pedra marginal; a matriz de linotipo que em certa tipografia de Calcutá acaba de cair no molde; a formiguinha que no pampa argentino foi esmagada pelo casco do potro que passou a galope; o beijo que num estúdio de Los Angeles Glória Swanson começa a receber de Valentino...

— A fatura que neste momento o senhor Sá está acabando de somar... Compreendo, professor. Toda a vida, todas as manifestações poliformes da vida, tudo está ali, como o jequitibá, com todos os seus galhos e folhas e passarinhos que pousam nele e cigarras que o elegem para palco de suas cantorias, está dentro da sementinha. Não é isso? conclui radiante.

O professor Benson riu-se do meu entusiasmo e pareceu-me na realidade satisfeito com o discípulo.

— Perfeitamente, amigo Ayrton. Tudo está ali. Pela primeira vez desde que o mundo é mundo consegue o homem esse espantoso milagre — mas só eu sei o que isso me custou de experiencias e tentativas falhas!... Fui feliz. O Acaso, que é um Deus, ajudou-me e hoje me sinto na estranha posição de um homem que é mais do que todos os homens...

Sua fisionomia irradiava tanta luz — a luz da inteligência, — que só a poderia suportar um inocente da minha marca. Estou convencido de que se outro sábio o defrontasse naquele instante estarreceria de assombro, considerado como Isaías diante das sarças ardentes quando delas trovejou a voz de Jeová. A minha ingenuidade, a minha inocência mental salvou-me. Hoje estremeço quando penso em tudo isso, como estremeceu Tartarin de Tarascon ao saber que os abismos que com risonha coragem ele arrostara nos Alpes eram de fato abismos e não cenografia como, iludido por Bompard, no momento supôs. Hoje que já nada mais existe do professor Benson a não ser uma lápide no cemitério, e nada existe senão cinzas do seu maravilhoso laboratório, se me ponho a analisar esse período da minha vida tenho sensação de que convivi com um Deus humanizado.

O professor Benson falava das suas invenções com tanta simplicidade e me tratava tão familiarmente que jamais me senti tolhido em sua presença — como me sentia, por exemplo, na do Senhor Pato, o socio comendador lá da firma. Sempre que me cruzava com o comendador eu tremia, tanto se impunha aos subalternos aquela formidável massa de banhas, vestida de fraque, com anel de grande pedra no dedo e uma corrente de relógio toda berloques que nos esmagava a humildade sob a arrogância e o peso do ouro maciço. Diante do comendador Pato eu tremia e balbuciava; mas diante do professor Benson, um deus, sempre me senti como em face de um igual.

Compreendo hoje o fenômeno e sei que a verdadeira superioridade num homem não o extrema dos "inocentes", como dizia o professor — e por isso chamava Jesus a si os pequeninos. Até na indumentária aqueles dois homens eram antípodas. Na do comendador, o fraque propunha-se a impressionar imaginações, a estabelecer categorias, a amedrontar os paletós sacos com a imponência da sua cauda bipartida; na do professor Benson tinha a rouca por única função vestir um corpo a modo de resguarda-lo das bruscas variações atmosféricas.

Mas voltemos atrás. Ao ouvir dizer ao professor Benson que todo o momento universal estava ali, olhei para a maranha de fios e bobinas com um sentimento misto de orgulho e piedade. Orgulho de ver o Tudo escravizado diante de mim. Piedade, porque havia nisso uma certa humilhação para o Tudo...

A voz pausada do velho sábio tirou-me de tais cogitações.

—Até aqui permanecemos no presente. A onda Z ali captada só diz respeito ao presente, e se eu ficasse nessa etapa de pouco valeria a minha descoberta. Mas fui além. Descobri o meio de envelhecer essa corrente á minha vontade.

—Envelhecer?... murmurei refranzindo a um tempo todos os músculos da cara.

—Sim. Faço-a passar pelo aparelho que tenho no pavilhão imediato e ao qual denominei cronizador. Vamos para lá.

O professor tomou a dianteira e eu o segui, ainda repuxado de músculos faciais. O pavilhão imediato possuia ao centro um novo aparelho tão incompreensível para a minha inteligência como os anteriores.

—Aqui temos o cronizador, disse o meu cicerone apontando para o esquisito conjunto. Este mostrador, que lembra o dos relógios, me permite marcar no futuro a época que desejo estudar.

— ? !

—Perca o hábito de assustar-se, porque senão acabará cardíaco. A corrente penetra por este fio, sofre um turbilhonamento e envelhece na medida que eu determino com o movimento deste ponteiro. É como se eu tomasse a semente e por um golpe de mágica dela fizesse brotar a árvore aos dez anos de idade, ou aos cinquenta, ou aos cem — ao arbítrio do experimentador. Compreende? —

– Compreendo...

— E destarte a evolução, que com o decorrer do tempo necessariamente vai ter a vida atual do universo, eu a apresso e a detenho no momento escolhido. Este meu cronizador, em suma, é um aparelho de produzir o tempo artificial com muito mais rapidez do que pelo sistema antigo, que é esperar que o tempo transcorra. Obtenho um ano num minuto de turbilhonamento; penetro no futuro, no ano 2.000, por exemplo, em 74 minutos. Opera-se durante a cronização uma zoada, que é o som dos anos a se sucederem, som muito semelhante a um eco distante...

— Sei. O que ouvi na hora do almoço.

— Exatamente. Quis Jane visualizar o futuro no ano 2.336, ou seja a 410 anos deste em que estamos. Para isso colocou aqui o ponteiro e abriu o comutador. A corrente envelheceu e automaticamente parou no ponto marcado, isto é, no ano 2.336.

A minha curiosidade crescia. Percebi que chegara ao ponto culminante da descoberta do professor Benson.

— E depois? indaguei ansioso. Para ver, ou como diz o professor, para visualizar esse futuro, como procede?

— Devagar!... Consigo, como ia dizendo, envelhecer a corrente até o ponto desejado. Ao obter isso, a evolução determinista que rigorosamente vai dar-se no universo com o decorrer normal do tempo dá-se artificialmente dentro do aparelho. E, chegada ao termo da cronização que visamos, a corrente turbilhonada torna-se estática, por assim dizer congelada. E fico eu na posse dum momento da vida universal futura — isto é, com o 4 da nossa primitiva imagem do 2 + 2. Resta-nos agora a ultima parte da operação, a qual, por comodidade, executo no meu gabinete. Não notou lá uma espécie de globo cristalino?

— Foi a primeira coisa que me impressionou neste castelo.

— Pois é o porviroscopio, o aparelho que toma o corte anatômico do futuro, como pitorescamente diz Jane, e o desdobra na multiplicidade infinita das formas de vida futura que estão em latência dentro da corrente congelada.

— Por que, corte anatômico? indaguei, para não deixar ponto obscuro atrás de mim.

— Nunca esteve num laboratório de microscopia? Com uma navalha afiadissima o anatomista opera um corte na ponta do seu dedo, por exemplo. Tira uma lâmina de carne, a mais fina que possa, e estuda-a ao microscópio. A essa fatia do seu dedo chamará ele "corte anatômico". É Jane uma menina muito viva e gosta de falar por imagens, algumas extraordinariamente pitorescas...

A evocação de miss Jane veio perturbar a contenção do espirito com que eu acompanhava as revelações do mestre. Meu espirito cansado repousou nesse gracioso oásis, e foi com infinita inocência que indaguei:

— Que idade tem ela, professor?

Mas o velho sábio talvez nem me ouvisse, porque entrou a dar explicações sobre a segunda função que possuía o cronizador: involuir a corrente, rodar para trás — o que permitia cortes anatômicos no passado.

— Mas isso não interessa, aventei levianamente. O passado é velho conhecido nosso.

— Engano. É tão desconhecido como o futuro e o presente.

Desta vez abri a boca, e lá por dentro me soou como tolice a frase do sábio. Mas vi logo que o tolo era eu.

— Do presente que é que sabe o amigo Ayrton? Sabe apenas que está neste minuto conversando comigo. Mais nada. Não sabe nem sequer se os senhores Sá, Pato & Cia. estão a esta hora de falência aberta.

— Impossível! Aquela gente é solida como as montanhas!... Só vendem á vista...

— Quantas planícies não marcam hoje o lugar outrora ocupado por montanhas!... Do presente o amigo Ayrton só sabe, isto é, só tem consciência do que no momento lhe afeta os sentidos.

— Na verdade! exclamei. Nem o meu Ford, que era tudo para mim, sei onde pára...

— E se ignoramos o presente, que dizer do passado?

— Mas a História?

O professor Benson sorriu meigamente um sorriso de Jesus.

— A História é o mais belo romance anedótico que o homem vem compondo desde que aprendeu a escrever. Mas que tem com o passado a História? Toma dele fatos e personagens e os vai estilizando ao sabor da imaginação artística dos historiadores. Só isso.

— E os documentos da época? insisti.

— Estilização parcial feita pelos interessados, apenas. Do presente, meu caro, e do passado, só podemos ter vagas sensações. Há uma obra de Stendhal, La Chartreuse de Parme, cujo primeiro capitulo é deveras interessante. Trata da batalha de Waterloo, vista por um soldado que nela tomou parte. O pobre homem andou pelos campos aos trambolhões, sem ver o que fazia nem compreender coisa nenhuma, arrastado às cegas pelo instinto de conservação. Só mais tarde veio a saber que tomara parte na batalha que recebeu o nome de Waterloo e que os historiógrafos pintam de maneira tão sugestiva. Os pobres seres que inconscientemente nela funcionaram como atores, confinados a um campo visual muito restrito, nada viram, nem nada podiam prever da tela heróica que os cenógrafos de história iriam compor sobre o tema. Eis o presente... Vamos agora ao gabinete, concluiu o professor. O mais interessante se passa lá.

Acompanhei-o, literalmente apatetado. Aquele homem pensava de modo tão diferente de todo mundo que suas ideias me davam a impressão de algo novo e operavam em meu cérebro como luz que invade aos poucos uma sala de museu. Mil coisas que nunca supus existirem em minha cabeça revelaram-se-me de pronto. Coisas mínimas, germes de ideias, antigas impressões recolhidas nos vaivéns do viver quotidiano ressurgiam animadas de estranha significação. Outras, que eram capitais outrora, diluiam-se. O comendador Pato, até vinte dias antes tido por mim como o mais formidável expoente do gênio humano, decaia a irrisórias proporções. Oh, como desejei vê-lo ali em contato com o professor, para gozar a derrocada das ridículas ideias de fraque que ele tinha na cabeça!
––––––––
continua… VII – Futuro e Presente

Fonte:
Monteiro Lobato. O Presidente Negro. Editora Brasiliense, 1979.

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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