Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Ada Pellegrini Grinover (Do Outro Lado da Lua)

 Teve a primeira crise aos sete anos. Estava na escola e de repente, no meio da aula, foi tomado por violentas convulsões. Caiu no chão, entre as carteiras, e ficou debatendo-se e espumando pela boca, os olhos revirados, a face cianótica, sem consciência. Em breve sobreveio o estado comatoso. Os coleguinhas afastaram-se, assustados. A professora não tinha a menor idéia do que fazer e foi correndo chamar o enfermeiro de plantão. Este mandou buscar água fria, passou um lenço no rosto sujo de muco, banhou-lhe as têmporas. Em cinco minutos Bernardinho voltou a si, num estado confusional, queixando-se muito de dor de cabeça. Foi transportado para a enfermaria e caiu num sono profundo. Quando acordou e viu os pais, não se lembrava de nada. Mas estava aparentemente normal.

O eletroencefalograma confirmou o diagnóstico do enfermeiro: epilepsia. Mas o neurologista disse mais. Tratava-se de epilepsia focal, interessando uma pequena área do córtex cerebral, podendo a crise ser precedida por sinais que antigamente eram denominados "aura": uma sensação de formigamento nos membros, perturbações visuais, alterações no gosto ou no olfato. O especialista receitou Gardenal, mas advertiu que as crises se repetiriam.

E assim foi. Os pais eram de meia idade - um casamento tardio, uma gravidez inesperada, que de início foi confundida com a menopausa. Pertenciam a uma geração que via a doença como estigmatizante e, depois da terceira crise, de novo na escola, resolveram que a criança estudaria em casa. A mãe era professora, o pai engenheiro, ambos qualificados para as aulas. No final do primário e do secundário, Bernardo superou brilhantemente os exames supletivos. Era muito inteligente e estudioso, lia o tempo inteiro e se interessava intensamente por artes. O melhor presente, para ele, eram os volumes que reproduziam as obras dos grandes mestres.

Quando terminou o colegial, os pais não quiseram que fizesse um curso superior. Apesar do Gardenal, continuava tendo crises freqüentes. Mas agora os sinais premonitórios permitiam que se retirasse a tempo num lugar apartado, até a crise passar, sem deixar sinais a não ser uma leve dor de cabeça.

A mãe já havia morrido, o pai estava aposentado. Montou um pequeno negócio de “bric-à-brac” no bairro da Consolação, onde a família morava. E o jovem, com 18 anos, começou a trabalhar na loja. Em pouco tempo, graças ao espírito de iniciativa e aos bons conhecimentos, começou a comprar obras de arte, que ia procurar no interior e nas casas de famílias paulistanas que precisavam de dinheiro. Bernardo fez bons negócios, seguiu um curso de restauração, e a loja se transformou num conceituado ponto de compra e venda de antiquariato.

O pai morreu quando o jovem estava com 26 anos. Já era um antiquário e um marchand de respeito. Mudou-se para os Jardins e transferiu a loja para a Rua Estados Unidos. Dedicava-se inteiramente a sua atividade, conhecia muita gente, freqüentava mostras e galerias, mas quase não tinha amigos, exceção feita ao novo neurologista, o Dr. Flávio, que substituíra o pai. Mais do que médico, o especialista era seu amigo e confidente. Bernardo não tinha segredos para ele.

Tivera uma única namorada, mas quando o envolvimento se tornou mais sério e a moça começou a insinuar coisas como viver juntos ou até casar, não teve coragem de lhe relatar a doença e, com um pretexto qualquer, rompeu com ela. Nunca mais namorou. Sabia que nunca se casaria e não queria alimentar falsas esperanças.

Tornara-se um homem bonito, de expressão séria e compenetrada, mas era amável e disponível. Inspirava respeito e confiança. Por causa de seus desaparecimentos imprevistos, no meio de uma conversa ou quando atendia um cliente, era considerado um tanto quanto excêntrico, mas todos gostavam dele.

Naquele sábado carregado de nuvens, uma caminhonete parou no estacionamento defronte à loja e um homem de uns 40 anos, bem vestido, desceu carregando um grande quadro, numa moldura prateada.

"Estou querendo vender esse retrato" - disse, tão logo Bernardo o atendeu.

O rapaz olhou para o quadro. Representava uma jovem esguia, pintada em tamanho natural. Pele alva, cabelos tão claros que pareciam brancos, lisos e escorridos, olhos da cor do gelo, boca muito séria. Trajava um longo vestido de baile imaculado, trazia na mão um ramalhete de rosas-chá, de um amarelo pálido, a mesma cor do fundo. O conjunto todo era mortiço, sem vida.

- "Do que se trata?", - perguntou Bernardo, tentando mostrar algum interesse. O quadro, pintado de maneira acadêmica, não tinha qualquer valor artístico, parecendo mais uma foto desbotada.

- "É o retrato de uma tia-avó", respondeu o homem. - "Pertenceu a minha família, de que hoje sou o único sobrevivente. Foi pintado por um retratista famoso, me disseram. Estou mudando para um apartamento e minha mulher acha que o quadro não combina com a nova decoração, moderna e sóbria".

Bernardo olhou para a assinatura, consultou um catálogo e confirmou:

- "Sim, confere. É de Pauto Fonseca, que teve alguma notoriedade nos anos 50. Mas hoje não tem valor comercial".

O homem ficou visivelmente decepcionado.

- "Não interessa, então?"

Bernardo ia dizer que não, mas sua amabilidade não permitia que despachasse bruscamente um cliente, ainda que potencial. Levantou o quadro, apoiou-o contra a parede e fingiu examinar com cuidado a pintura. E, enquanto o estudava, um raio de sol, filtrando das nuvens e penetrando pela ampla vidraça da loja, caiu diretamente sobre o retrato. Os olhos da moça se iluminaram, tomando a cor das safiras. Os cabelos ficaram dourados e pareceram se avolumar. A tez alva reluziu como alabastro. E a boca, a boca entreabriu-se num sorriso.

Bernardo ficou petrificado. Em instantes, a imagem reassumiu o aspecto de antes. Mas, olhando melhor, viu que a boca da moça ainda sorria e os olhos da cor do gelo faiscavam feito diamantes.

Sentiu um tremor nas mãos, um baque no coração. Temeu pela proximidade de um ataque. Mas de repente tudo passou e ele foi tomado por uma grande serenidade.

- "Quanto quer por ele?", perguntou.

- "Não faço a menor idéia. Mas o senhor é do ramo e tem fama de honesto. Diga-me quanto pode pagar."

Bernardo ofereceu um preço muito superior ao valor do quadro. Queria-o para si. O negócio foi fechado rapidamente. O vendedor saiu, satisfeito, enquanto o rapaz era tomado por uma sensação de urgência. Correu atrás do homem, que já estava destrancando a porta do carro.

- "Como se chamava a moça do retrato?".

O vendedor pareceu estranhar, mas respondeu:

- "Selene, chamava-se Selene".

- "E ela se casou?".

- "Não, não se casou. Morreu poucos meses depois de terminado o retrato. Anemia perniciosa".

Bernardo levou o retrato para casa e o pendurou na parede da biblioteca, no lugar de um quadro da escola de Canaletto extremamente valioso. Sentou na poltrona de couro antigo para contemplá-lo. A luz de um spot o iluminava, mas a moça continuou imóvel e desbotada.

"Selene, Selene", sussurrou o rapaz. "Você vai gostar daqui. Olhe quantas coisas bonitas. Veja as porcelanas, as pratarias, as estantes repletas de preciosidades. Os tapetes persas, o assoalho encerado".

A moça permanecia imóvel, distante, remota.

"O que é, Selene? Está amuada, está de mal?"

De repente, Bernardo teve uma inspiração.

"Já sei, estão faltando flores. Amanhã cedo vou comprar rosas-chá e colocá-las nos vasos. Dúzias de rosas-chá. Nunca lhe faltarão. Está bem assim?"

A moça sorriu.

Começou para Bernardo um período de encantamento total. Passava longas horas contemplando o retrato até que a moça se iluminava, mudava de semblante, tomava vida, sorria para ele. Aos poucos, os olhos de safira começaram a enviar mensagens, a boca sorridente a formar palavras, e os dois ficavam ali, Bernardo sussurrando, ela a responder com os olhos e as palavras insinuadas pelos movimentos da boca.

"Onde você está, Selene? A que mundo pertence? Onde repousa seu corpo? Está entre os mortos?"

"Não", dizia a moça rindo, "que idéia, meu amigo. Não estou entre os mortos e meu corpo não repousa. Estou viva, viva, viva...".

"Mas onde, Selene? Quero que saia desta moldura. Quero tocá-la, quero amá-la. Onde está você?"

A moça sorria seu sorriso de Mona Lisa.

"Estou na minha morada, Bernardo. Um dia, quem sabe, você vai saber. Mas é preciso saber esperar, é preciso ter paciência".

"Vou ter toda a paciência do mundo, meu amor. Mas não deixe de falar comigo, não deixe de se iluminar para mim, não deixe de me sorrir".

Os cabelos da moça esvoaçavam, formando uma auréola dourada. Os olhos brilhavam, a tez reluzia, a boca se tingia de vermelho. E Bernardo vivia como num sonho.

Começou a evitar os encontros, os vernissages, as recepções, só para ficar mais tempo com ela. Não tinha mais interesse pela profissão, que antes o fascinara. Durante o dia, enquanto trabalhava, só pensava nela. Uma vez, voltando para a casa, a encontrou amuada, distante. Foi difícil fazê-la falar. Mas finalmente a moça disse:

"Aquela jovem que entrou na loja hoje, você deu muita atenção para ela".

"Está com ciúmes, Selene?", perguntou Bernardo, deliciado.

"Claro que estou com ciúmes. Você anda por aí, eu posso vê-lo, mas não posso sair dessa moldura...".

Bernardo ficou fulgurado. Ela podia vê-lo, ela acompanhava seus passos, estava com ele o tempo todo.

"Era só uma cliente, querida, e eu preciso tratar a todos com amabilidade. Preciso demonstrar interesse, mas se trata de um interesse profissional. É você quem eu amo, Selene, é por você que estou esperando há tanto tempo. Só quero você. Mas você, se tem um pouco de ciúme, você também gosta de mim?"

A imagem apagou por um longo minuto. O rapaz ficou desolado, achando que aquela era a resposta. Mas de repente os olhos reluziram e lhe disseram, claramente:

- "Eu também amo você".

Passaram-se seis meses. Uma manhã o rapaz recebeu o telefonema do neurologista.

"Estou preocupado com você, Bernardo. Sumiu do consultório, nunca mais me procurou, nem mesmo para pôr a conversa em dia. Como vão as coisas?"

"Estou ótimo, Flávio. Só um pouco ocupado".

"Ocupado? Você não apareceu em dois vernissages importantes que ocorreram nos últimos quinze dias. Todos perguntam por você. Procurei-o na loja pela manhã e o gerente me disse que agora você só trabalha à tarde. Entrei na oficina a pretexto de estar interessado numa Tarsila que está restaurando, e vi tudo abandonado, com obras e obras em más condições, aguardando seus reparos. Ocupado com o que, Bernardo?"

O rapaz hesitou.

"Digamos que minhas ocupações agora são outras, Flávio".

"Está bem, se não quer falar... Mas me diga, ao menos, como vão as crises. Que espaçamento têm tido?"

"Faz seis meses que não tenho uma crise, meu doutor".

"Seis meses sem crises? Mas isso é ótimo. E você não me diz nada! Temos de fazer outro encefalograma e, provavelmente, diminuir a dose de Gardenal...".

Bernardo desconversou:

"Vou passar no consultório um dia desses, Flávio".

"Um dia desses uma ova! Vou marcar a consulta e a enfermeira o avisa. Pela manhã, já que você não trabalha...".

O rapaz suspirou:

"Está bem, Flávio. Marque e me avise".

"Porque está suspirando, amigo? Está deprimido?"

Bernardo riu:

"Deprimido, Flávio? Eu estou feliz, muito feliz!"

O médico sentiu na voz uma alegria incontida.

"Já sei, agora descobri. Está apaixonado..."

"Estou. Estou perdidamente apaixonado".

"E não vai me apresentar a moça?"

"Não posso, Flávio".

"Não pode? E por quê?" O médico teve uma dúvida. "Trata-se de uma moça, Bernardo?"

O rapaz respondeu, rindo:

"De uma certa maneira, sim".

No consultório, Bernardo abriu-se com o médico. Contou tudo. De como comprara o retrato tão logo viu a imagem se iluminar. De como a moça se transfigurava quando estavam a sós, de como os dois se comunicavam, de como se amavam. De como Selene lhe dissera que não estava morta, que o corpo, em carne e osso, ficara em sua morada, da promessa de que um dia ele saberia como encontrá-la. Flávio escutou o longo relato, em silêncio absoluto, sem nada perguntar. E quando o rapaz se recostou na cadeira, olhou gravemente para ele e disse, num tom pacato:

"Você está tendo alucinações, Bernardo. Às vezes acontece, na evolução da epilepsia. As crises passam, mas outros fenômenos se manifestam".

O rapaz ficou indignado e afirmou com firmeza que não se tratava de alucinações, não. Que ficava bem desperto, conversando com ela. Que tudo era real e verdadeiro.

"Vou dizer isso com outras palavras, meu amigo", recomeçou o médico serenamente. - "Trata-se de uma obsessão. Você há de admitir que está obcecado por um retrato".

Bernardo levantou-se e gritou:

"Não é um retrato qualquer. Ela está lá e se mexe, e fala comigo. E se estou obcecado, trata-se da obsessão que qualquer amante alimenta por quem ama".

"Acalme-se, Bernardo. Não vou tentar persuadi-lo. Mas deixe ao menos que lhe façam um eletroencefalograma".

"Para quê?", explodiu o moço. "Para você me dar um remédio que não me faça mais ter visões, que destrua minha obsessão? Muito obrigado, doutor. Estou muito bem do jeito que estou". E saiu batendo a porta, sem olhar para a cara espantada da enfermeira.

Andou longamente pelas ruas, sem perceber o sol do meio-dia e o calor sufocante. "Alucinações, obsessão", resmungava, agitado. Até que a raiva passou e pensou nela, que devia estar esperando sua volta.

Entrou na biblioteca, envergonhado, sentou na poltrona e levantou os olhos para o retrato.

A moça estava sorrindo:

"Por que ficou tão transtornado, meu amor? Você sabe muito bem que não se trata de alucinações e que sua obsessão é igual à minha...".

Bernardo acalmou-se imediatamente e perguntou:

"Fiz mal em falar com o Flávio, então?"

O sorriso dela se acentuou.

"Não, fez muito bem. Você superou a prova".

"A prova, você estava esperando por uma prova?"

"Não, eu tinha certeza. Mas meu povo ainda duvidava de você".

O coração pulou-lhe no peito, mas se conteve e perguntou baixinho:

"E agora, Selene?"

"Agora, se você quiser, posso levá-lo comigo. Se não estiver com medo, vou levá-lo à minha morada".

"Medo, meu amor? Medo? Ir com você é o que mais quero na vida. Com você vou a qualquer lugar desse mundo".

"Não vamos a um lugar desse mundo, Bernardo. Vamos à minha morada."

"E pode me dizer agora onde é sua morada?"

Ela sorriu o sorriso de Mona Lisa, os olhos fizeram um pouco de mistério, mas finalmente disse:

"Do outro lado da lua."

A mão saiu do retrato e pela primeira vez Bernardo pôde sentir seu toque macio. Era de carne e osso, sim, e a pele estava fresca e seca. A moça puxou-o para si, e ele atravessou a tela como se fosse uma cortina.

Bernardo desapareceu para sempre. Todas as buscas foram inúteis. Nunca mais foi encontrado, nem vivo nem morto. E a moça do retrato permaneceu como sempre fora, uma imagem mortiça e inanimada, incapaz de se iluminar...

Fonte:
O Conto Brasileiro Hoje – vol II

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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