Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Alcy Cheuiche (O Escritor em Xeque)

Entrevista realizada para o site de Leandro Rodrigues (SC), Escritores do Sul (hoje desativado), em 2010

Gaúcho típico - nascido em Pelotas, criado em Alegrete - Alcy Cheuiche é um dos nomes mais importantes da literatura do Rio Grande do Sul. Autor de livros como "Sepé Tiarajú", "Ana Sem Terra", "O Mestiço de São Borja", "Guerra dos Farrapos", entre muitos outros, o escritor conversou com a revista Escritores do Sul e contou um pouco de sua bela e interessante história de vida. 

 Qual seu nome completo?
Alcy José de Vargas Cheuiche.

Onde e quando nasceu?
Em Pelotas, Rio Grande do Sul, no dia 21 de julho de 1940, o mesmo dia e mês de Hemingway, meu escritor predileto.

Como você se define?
Hoje? Sou um escritor e ponto.

Como foi a sua infância? Você era uma criança que já costumava ler? Se sim, do que você gostava?
Minha infância foi maravilhosa, em Alegrete, onde cheguei com 4 anos de idade. Meu pai era veterinário do Exército, no tempo da Cavalaria. Ele arrendou uma granja a poucos quilômetros da cidade para produção de leite, mas o que mais produziu foi a felicidade da minha mãe e de todos nós. Ali aprendi a andar a cavalo, a nadar, a subir em árvores, a respeitar a natureza em todas suas manifestações, formas e cores. Não por acaso, o meu livro “O Mestiço de São Borja”, de 1980, é considerado um dos primeiros romances ecológicos do Brasil.
Antes de ser alfabetizado no Instituto de Educação Oswaldo Aranha, ouvia extasiado as histórias contadas pelo meu pai, um fantástico narrador. Aliás, depois fique sabendo que a narrativa oral é uma característica comum dos árabes, em especial dos libaneses. E meu avô emigrou do Líbano, como narrei no romance “Jabal Lubnàn, as aventuras de um mascate libanês”.
Os primeiros livros que li foram de Monteiro Lobato e me acompanham até hoje. Eu tinha sete anos quando ele morreu e chorei como se fosse uma pessoa da minha família. Quando fui à Grécia, fiquei impressionado com o que aprendera em criança nos seus livros, em especial nos romances históricos infanto-juvenis “O Minotauro”e “Os Doze Trabalhos de Hércules”.

E a sua família? Como era?
Meu pai, Alcy Vargas Cheuiche, era um homem enérgico, disciplinador, mas paciente para tudo explicar aos filhos e aos amigos dos filhos. Inclusive, as razões porque participara das revoluções de 1930 e 1932. Era getulista, mas, embora fosse Vargas por parte de mãe, nunca se aproveitou disso em sua carreira. Fanático pela educação e cultura, diplomou-se em medicina veterinária e direito, numa época em que um só diploma era raro. Depois de aposentado, dedicou-se a tarefas comunitárias sem remuneração, tendo presidido a Fundação Educacional de Alegrete por cerca de vinte anos. Criou uma dezena de cursos superiores, entre outras façanhas.
Minha mãe, Zilah Tavares Cheuiche, era uma pessoa inteiramente dedicada à família. Muito inteligente, pouco falava, mas não tinha medo de nada. Aliás, pelo lado dela, sou descendente em linha reta do Coronel João da Silva Tavares, o Visconde do Cerro Alegre, que lutou contra os farroupilhas durante os dez anos da Guerra dos Farrapos, tema de outro romance meu. Eu adorava quando meu pai narrava essas histórias em que os Silva Tavares e os Vargas eram protagonistas, o que foi muito estimulante para a minha vocação de escritor.

O que lhe fez cursar medicina veterinária? Você já pensava em ser escritor nesta época?
Estive entre a medicina veterinária e o direito, porque eram as profissões do meu pai, a quem sempre admirei. Escolhi a primeira porque, aos dezoito anos, eu era um gaúcho de verdade e não queria me separar do campo. Nunca me arrependi dessa escolha. O veterinário me sustentou por muitos anos, até que me tornasse um escritor profissional. E isso impediu que eu enveredasse por caminhos errados na literatura, apenas para sobreviver.
Comecei a escrever na escola e ganhei o meu primeiro prêmio literário aos dez anos de idade. Foi um concurso de redações sobre o “Duque de Caxias” que mobilizou muitas crianças da cidade. O prêmio foi entregue na praça, antes do desfile do “Dia do Soldado”. Nunca deixei de lhe dar valor.
Sim, sempre pensei em ser escritor. Um dia, mal alfabetizado, peguei a máquina de escrever da minha mãe (com a qual ela batia os discursos do meu pai) e iniciei meu primeiro romance. Acho que não passou de quatro linhas.

Como foi a sua experiência na Europa com a bolsa conquistada na faculdade?
Foi na França, onde cheguei com 23 anos, que a minha vocação se firmou para a literatura. Hemingway dizia que “se você teve a sorte de viver em Paris quando jovem, sua presença o acompanhará pelo resto da sua vida”. Essa é uma grande verdade. Paris é muito mais do que a França, é uma encruzilhada universal. E a arte é uma só. Você se prepara para ser escritor, não só lendo bons livros, mas também apreciando pinturas, ouvindo música, indo ao cinema e ao teatro. Descobrir Brecht no Teatro Nacional Popular, onde os estudantes pagavam uma ninharia, foi uma revelação. O mesmo com Buñuel na Cinemateca do Palais de Chaillot. O mesmo com os pintores impressionistas, pois Hemingway já me ensinara que queria escrever como Cézanne pintava.
Durante dois anos, enviei crônicas semanais para o jornal “Correio do Povo”, de Porto Alegre, sob a rubrica: “Cartas de Paris”. Até hoje considero a crônica um exercício fundamental para o romancista. E me orgulho de ter dois livros de crônicas publicados.
Foi em Hannover, na Alemanha, onde também fiz pós-graduação em veterinária, que escrevi minha primeira novela “O Gato e a Revolução”. Naquele momento, tomei a decisão de dar prioridade à literatura, mesmo sacrificando a carreira científica. Não foi fácil, eu tinha 26 anos e já me iniciava na cirurgia experimental de transplantes de órgãos. Mas nunca me arrependi.

Você fez muitas viagens quando trabalhou na Johnson & Johnson. Alguma lhe marcou mais? O que lhe marcou mais neste período de sua vida?
Quando meu livro “O Gato e a Revolução” foi cassado, após o Ato Institucional de dezembro de 1968, comecei a sofrer perseguições na universidade e tive que buscar trabalho em São Paulo. O curioso é que eu era chamado de “comunista e subversivo” em Porto Alegre, o que não impediu uma empresa americana de me contratar. Pragmatas, eles confiaram mais no meu currículo de veterinário.
Além de viver em São Paulo, uma cidade muito profissional e culta, viajei por diversos países a serviço da Johnson&Johnson, tendo feito um estágio de três meses na Bélgica e de um mês na Austrália. Foi voltando da Austrália que visitei a Ilha da Páscoa, cuja descoberta narro no livro “Sepé Tiaraju, romance dos Sete Povos das Missões”, um dos mais conhecidos, com edições em Braille, quadrinhos, e em outros idiomas.

Seus livros já foram muito elogiados em espanhol e em alemão também, pois relatam um Brasil que os estrangeiros não estão acostumados a ver. Fale sobre isso.
Eu acredito, como Tolstoi, “que o universo começa no pátio da nossa casa”. Assim, os temas brasileiros podem agradar leitores de todo o mundo e, se não somos mais conhecidos, os escritores do Brasil, é porque dependemos de agentes literários com experiência internacional (temos pouquíssimos) e tradutores competentes (menos escassos, mas também em falta). Quando viajei pela Alemanha, em 1997, realizando conferências e lançando as versões em alemão dos livros “Sepé Tiaraju” e “Ana Sem Terra” fiquei impressionado com o interesse despertado nas quinze cidades visitadas, inclusive Berlim. A tônica da imprensa alemã foi a afirmativa de que livros como os meus abrem uma porta para a compreensão da literatura e da saga brasileira atual, uma vez que abordam temas históricos e sociais, inclusive com personagens que sofreram com a imigração. É a vantagem dos romances que popularizam esses temas.

Quando inicia um livro, sabe antecipadamente seu conteúdo, já o planejou na cabeça ou vai construindo-o aos poucos?
O roteiro está na minha cabeça e só começo quando termino o fundamental da pesquisa, o que, às vezes, pode levar até dois ou três anos. Mas nunca me coloco num trilho e sim numa trilha, o que me permite enriquecer o romance, a qualquer momento, com novas situações e personagens.

Você começou imitando alguém? Quem?
Sofri a influência de Erico Verissimo, como os escritores rio-grandenses da minha geração e ainda considero “O Tempo e o Vento” e “O Prisioneiro” como duas obras primas da nossa literatura. A Hemingway já me referi, sendo sua lição principal a necessidade de conhecer a fundo um tema antes de transformá-lo em livro, como é claro em toda sua obra, mas especialmente em “Por quem os sinos dobram?” e “O velho e o mar”. Aliás, Lobato, a quem já me referi, foi tradutor de Hemingway.
Durante o período francês, outros escritores me influenciaram, como Roger Martin du Gard, André Malraux, Exupéry, Sartre e Simone de Beauvoir, Sagan, Pagnol. Muitos, muitos deles, sem citar os mais modernos.

Há algum livro seu que você já amou e hoje não gosta mais, como acontece com alguns escritores? Por que?Acho que tive muita sorte, como expliquei acima, em poder me sustentar como veterinário. Assim, não aceitei escrever livros pornográficos, que eram muito bem pagos na década de setenta a oitenta, quando vivi em São Paulo. Também não me preocupei em publicar um livro por ano, o que é o erro de muitos, até por necessidade material. Livro é como a gente, tem período de gestação.

Qual o seu objetivo com a escrita?
Contar histórias, como meu pai fazia, só que por escrito. Criar personagesn e dar vida a outros que merecem ser conhecidos, como o índio Sepé Tiaraju, o negro João Cândido e o branco Alberto Santos Dumont, cuja história é mal contada nos livros e nas escolas, ou nem é narrada aos alunos, como no caso do “Almirante Negro”.
Acredito na literatura como caminho ético e estético. E o ato de escrever, como disse alguém, é tanto uma vocação como uma condenação.
Para mim, também, uma ótima maneira de manter o alto astral, o equilíbrio psíquico. Gosto tanto, que até pagaria para escrever. Se me pagam, é ainda melhor.

Quais são, na sua opinião, suas principais qualidades e seus principais defeitos como escritor?
As qualidades acho que são ligadas ao respeito com o tema e com o leitor. Como sempre digo aos meus alunos, é preciso preparar-se para escrever como um atleta olímpico se prepara para competir. Só o talento não basta.
Dos defeitos não vou falar. Os livros são como filhos, não é verdade?

E a sua rotina, como funciona? Você escreve todos os dias? Tem horários próprios para isso? Concilia com facilidade a vida profissional e a vida pessoal?Não sou escritor de fim de semana. Quando estou escrevendo um livro, reservo para ele todas as manhãs. Antes, quando tinha expediente de outro trabalho a cumprir, era comum começar a escrever de madrugada, acordando cada vez mais cedo. Lembro de um dia que acordei a uma e meia com um trecho do livro na cabeça, levantei e segui escrevendo até às sete da manhã. Tomei café e fui para o outro trabalho. Sou matinal para escrever. O sono me descansa e me inspira.
Hoje só escrevo, traduzo, participo de reuniões do Conselho Estadual de Cultura do RS, faço palestras e dou aulas de oficina literária. Posso organizar melhor o meu tempo, como fiz nos últimos seis meses, em que escrevi um romance e um livro para o público infantil.

E o seu fascínio por Santos Dumont, de onde veio? Sua pesquisa levou muito tempo para ser feita? Você prefere trabalhar com livros como esse ou com ficção?Meu fascínio nasceu quando li um livro de Santos Dumont, publicado em Paris, em 1904, e cujo original em francês só foi traduzido no Brasil 37 anos depois. Nesse livro, que achei na biblioteca do meu pai, descobri que o nosso inventor já era famoso muito antes do primeiro voo do 14-Bis, pois foi ele quem deu dirigibilidade aos balões. Assim, ao contrário dos irmãos Wright, que fabricavam bicicletas antes de seu pretenso voo com o Flyer, em 1903, Santos Dumont já era reconhecido como aeronauta no mundo todo, desde 1901, após seu famoso voo de balão dirigível em torno da Torre Eiffel.
Outro aspecto que me impressionou foi seu idealismo e sua coragem. Nunca vendeu nenhum dos seus inventos, doou-os todos para o patrimônio comum da humanidade. E nunca contratou pilotos de provas, ele próprio arriscava a vida para provar suas teorias revolucionárias.
Tenho dois livros sobre o “Pai da Aviação”, ambos em edição de bolso, pela L&PM. O primeiro é um romance “Nos céus de Paris” e o outro “Santos Dumont” uma biografia encomendada para a enciclopédia em fascículos, da editora. O romance foi muito mais difícil porque me exigiu uma pesquisa super cuidadosa sobre Paris da Belle Époque, e não se brinca com Paris. Quando Alberto voava em seus balões, o que via lá em baixo? Isso, sem contar que, num romance, é preciso criar diálogos. Para que fossem autênticos, tive que pesquisar nos jornais franceses da época, retirando frases pronunciadas por ele. Um romance histórico precisa recriar também outros detalhes sobre personagens coadjuvantes. Tive que estudar a vida da Princesa Isabel porque foi amiga de Santos Dumont. O mesmo com o jornalista Jean Jaurès, outro amigo dele, que foi assassinado às vésperas da Primeira Guerra Mundial, por ser pacifista. Tudo isso exige muito tempo e paciência. Felizmente eu domino o francês e meus amigos de Paris me ajudaram bastante.

E por Sepé Tiaraju?
Porque o meu primeiro livro, “O Gato e a Revolução”, uma sátira política, tinha sido cassado pela ditadura. Assim, eu queria escrever sobre um tema social que não fosse só meu, e sim, de respeitabilidade universal. Além disso, nunca aceitei as teses colonialistas sobre a incapacidade dos índios. E a “República Guarani” com sua estrutura econômica, social e política, com sua cultura expressa na pedra, na madeira, na música, é um desafio para os que ainda defendem o genocídio do povo guarani. Para os que não aceitam que somos uma sociedade gerada pelo caldeamento de muitas raças que os índios e negros representam a maioria da nossa herança.
Hoje, Sepé Tiaraju é reconhecido oficialmente como herói rio-grandense e brasileiro. As ruínas de São Miguel Arcanjo, cidade missioneira da qual foi prefeito, foram tombadas pelo UNESCO como Patrimônio da Humanidade. Meu livro deu sua gota d’água para isso, o que me deixa feliz.

Para você, Espanha e Portugal devem desculpas ao povo Guarani? Fale um pouco sobre isso.
Não só desculpas. Na Alemanha existe uma lei chamada “Auschwitz Lüge” (Mentira de Auschwitz) que proíbe qualquer pessoa a mentir, dizendo que não houve o Holocausto dos judeus e outras minorias raciais, pessoas assassinadas aos milhões pelos nazistas. Além disso, a Alemanha investe ainda muito dinheiro para reparar uma pequena parte desse erro monstruoso. Acho que poderíamos ter uma lei semelhante, no Brasil, para os que negam o holocausto dos nossos índios, desde o descobrimento. E Portugal e Espanha deveriam investir para preservar a vida e a cultura dos guaranis e de outros povos indígenas sobreviventes.

Na história nacional e mundial da literatura, quais as personagens mais bem construídas que conhece e por quê?
Ana Terra, de Erico Veríssimo (que me inspirou Ana Sem Terra) continua viva, respirando, levando no ventre um filho do índio Pedro Missioneiro para iniciar uma nova família rio-grandense e brasileira.
Blau Nunes, o gaúcho pobre de Simões Lopes Neto, continua narrando histórias preciosas, exemplo de decência e honra.
O Jagunço Riobaldo de João Guimarães Rosa é um desafio para os que ainda consideram esses párias da história brasileira, Lampião, entre outros, como meros bandidos e assassinos.
Jean Valjean, de Victor Hugo, ainda continua sendo condenado, como todos os miseráveis do mundo, pelo crime famélico de roubar um pão.
A cigana Pilar, de Ernest Hemingway, continua representando toda a mística e personalidade autêntica da alma espanhola.
Muitos mais, muitos mais.

Você acha que para se tornar um grande escritor é necessário trabalho duro, como um “operário da escrita”, ou é uma questão de mero talento?
Acho que já respondi essa pergunta aí por cima. Como dizemos nas oficinas de criação literária: Ars sine scientia nihil est. Ou seja, a arte sem a ciência nada é. Talento é essencial, mas deve ser burilado, como as pedras preciosas.

Quais personagens que já criou que mais se identificam pelas ideias ou como ser humano? Criou-os já se tendo como modelo ou escreveu e se reconheceu apenas depois?
Oswaldo Winterfeldt é uma personagem de ficção, criada por mim, que me apaixona. Quando algum leitor de “O Mestiço de São Borja” pergunta se le é o meu alter ego, costumo responder que não, ele é muito melhor que eu. Não nasceu pronto. Foi evoluindo como ser humano através da vida. Chorei ao descrever a sua morte e me orgulho disso.
O velho Tiovô, do livro “A mulher do espelho” também me encanta. Dou boas risadas quando releio seus diálogos com o sobrinho neto, um engenheiro esquecido de apreciar a vida como ela é. Os nonagenários ainda são raros como personagens da nossa literatura. Inspirei-me, em parte, no meu tio Joaquim Tavares, que morreu com 93 anos, completamente lúcido, sem nunca deixar de amar a vida.
De pura ficção, tenho outros personagens que me tocam muito, como a menina Vavá, de “Lord Baccarat”, mas vamos ficar por aqui.

Você se sente mais à vontade escrevendo crônicas, contos, romances, ensaios. . .o quê?
Sou um romancista, no essencial. São as águas em que nado com maior desenvoltura.
A poesia é também minha companheira. Sempre que posso, digo um verso. Não necessariamente meu. O poeta predileto é Garcia Lorca.

O que o levou a escrever literatura infanto-juvenil?
Uma promessa que fiz a mim mesmo, que só o faria quando tivesse os cabelos grisalhos. Não deu para esperar mais. Experiência de vida e de literatura são essenciais nesse segmento. Escrever para crianças é muito mais difícil do que escrever para adultos, podem ter certeza.

E suas oficinas de literatura? Quando surgiu a idéia e como elas vem sendo? Já pode destacar alguns talentos que por lá passam ou passaram?
Pratico oficinas de criação literária desde 2002. Estou com vinte e um livros na estante dos meus alunos. Entre eles, alguns romances, em que dizem que sou o pioneiro, por ter iniciado em 2003.
A idéia consolidou-se depois de uma visita na PUC-RS ao meu amigo e colega Luiz Antônio de Assis Brasil, um dos introdutores das oficinas no Rio Grande do Sul e no Brasil. Ele foi generoso comigo, passando-me o essencial do método que, aos poucos, fui adaptando ao meu jeito de pensar e escrever.
Hoje tenho um prazer enorme em ser professor novamente, vocação antiga, da qual fui afastado durante a ditadura.
Alunos de talento tive e tenho muitos. Não vou destacar nenhum, porque são ciumentos, embora muito unidos em seus trabalhos.
Também destacaria alguns livros das oficinas que dirigi como muito bons. Mas, como maestro da orquestra, não posso nomear os que gosto mais.

Você é membro vitalício da Academia Rio-Grandense de Letras e sócio fundador da Associação Gaúcha de Escritores. Na sua opinião, o que essas tantas academias e associações de escritores hoje em dia representam? Qual a importância delas para a literatura e para a sociedade?
Entrei na Academia Rio-Grandense de Letras com 46 anos e na primeira reunião fui apresentado ao romancista Dyonélio Machado, cujo livro “Os ratos” morou muito tempo na minha cabeceira. Dyonélio faleceu naquele ano, mas ainda consegui conversar com ele, trocar algumas idéias.
Para mim o mais importante dessa Academia, a única que frequento, é o convívio que tenho tido. De início, apenas com os mais velhos. Agora, também, com os da mesma faixa etária e com os mais moços. Não sei como são as outras academias, mas a nossa tem poucos bens materiais, mas é honesta e digna. E uma curiosidade: nosso atual presidente, em pleno exercício de suas capacidades, tem 97 anos de idade. Francisco Pereira Rodrigues é o nome dele. Um escritor e uma figura humana admirável.
Quanto à AGEs, sou orgulhoso de ter assinado a ata de sua fundação, há 30 anos, porque ela se preocupa com o sucesso de cada um dos seus filiados.

Como você vê as universidades atualmente?
Como sempre vi: sou apaixonado por elas. Universidade significa preocupação com o conhecimento universal. São nossa plataforma de lançamento para a chegarmos a cidadãos do planeta Terra. Utopia? Adoro as utopias.
Existem muitas universidades que não prestam? É só investir nelas.

Defina em algumas palavras:

Amor: raro e genial.
Sexo: verdadeiro, só por amor.
Liberdade: essencial.
Religião: coisa íntima.
Deus: idem.
Inteligência: privilégio.
Burrice: uma praga.
Prosperidade: necessária, mas para todos.
Vida: nosso maior patrimônio.
Morte: sai prá lá.

Qual o sentido da vida para você?
Acordar cada manhã sorrindo e cheio de planos.

Já usou drogas, inclusive bebidas?
Se vinho e cerveja estão aí classificados, sim. E gosto muito, nos momentos que considero certos. Não bebo todos os dias e nunca sozinho.

Qual seu próximo lançamento?
O romance “João Cândido, o Almirante Negro”, dedicado ao centenário da Revolta da Chibata. Editora L&PM. Lançamento previsto para o dia 4 de novembro de 2010 na Feira do Livro de Porto Alegre, minha paixão.
O livro para crianças “O Ventríloquo”, dedicado a esse artista em extinção. Editora Libretos. Lançamento previsto para o dia 5 de novembro de 2010 na Feira do Livro de Porto Alegre, minha paixão.

Gostaria de dizer mais alguma coisa que não foi perguntado ou deixar uma mensagem para os leitores?
Para ler e escrever é preciso uma ferramenta essencial da espécie humana: a emoção.
Quem não é capaz disso, ou coloca em segundo plano esse sentimento, nunca será bom escritor, nem leitor.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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