Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 26 de agosto de 2012

Alfredo Monteiro Filho (Memória e Coração de um Cão)

Varando a névoa do anoitecer, o vulto de um homem bastante esguio, montado num mulo e acompanhado de um vira-latas adentrou a Grande Porteira, para, lentamente, vir na nossa direção, com a montaria trotando e ziguezagueando entre os corpos das reses que rotineiramente pernoitavam no grande pátio da fazenda Engenho Novo.

Se, naquela tarde-noite, fosse outra a minha idade e outros os meus conhecimentos, eu teria certamente fantasiado o cavaleiro, como o faço atualmente, mais de seis décadas depois, quando sua figura me invade a memória com um elmo na cabeça, armadura cobrindo-lhe o corpo e uma longa lança numa das mãos, montado num rocinante, e emparelhado com um cachorro bem pançudo. Mas estas imaginações de agora não devem emoldurar um quadro real, que, vindo de tão longe, ficou-me dependurado neste meu brumoso e exorcizante memorial. Entretanto, ainda que tentando ser fiel à realidade, retomo, nas descendentes linhas, a minha narrativa, sem ser também demasiadamente avesso à ficção.

Após vários "Quem será?...", "Será algum conhecido?...", "Será que vem pedir para pousar?...", além de outras cogitações da platéia que o aguardava, o viajante, já a uns cinco metros do casarão, puxou o freio da montaria e, do alto da sela e de uma fidalguia incomum, estranha mesmo naquele sertão, indagou: "É com o Coronel Totonho que tenho a satisfação de falar?...".

- Às suas ordens!... - respondeu meu pai, que, juntamente com o nosso capataz e alguns dos agregados, já se posicionara para a recepção.

- Martinho Lobo Penteado, seu criado!... - apresentou-se o desconhecido.

- Obrigado!... Vamos apear, seu moço!...

Só após o convite do meu pai, o homem pisou o chão e tirou o chapéu, não só para reverências não menos incomuns, mas também para as necessárias preocupações com o seu cachorro, o "Leão", que já estava tendo dos nossos três fiéis cães uma recepção de rosnados e ranger de dentes.

Curta foi a prosa ali no pátio, tendo o senhor Martinho, com gestos e palavras que lhe davam credenciais de pessoa educada e respeitável, recusado aceitar qualquer alimento ou mesmo a água que lhe foram oferecidos, já que se dizia bem abastecido de matula e de provisão de líquidos.

Cerca de meia hora depois, o Sr. Martinho Lobo Penteado e seu cão já estavam acomodados num galpão que ficava no lado direito da nossa casa, e que proporcionava, em redes, sono para alguns agregados da nossa fazenda e para rudes viajantes que, com certa freqüência, nos pediam uma pousada. Naquela noite, o Sr. Martinho Lobo Penteado, pelos seus requintados modos, pela seriedade e serenidade, e até mesmo pela impostação com que declinava o seu nome, era uma raríssima exceção na nossa fazenda - um nobre pernoitando numa rústica estalagem.

Recomposta a nossa platéia, o inesperado visitante, cujo nome tinha curiosa sonoridade, transformou-se no tema do resto das conversações daquela noite. "Martinho Lobo Penteado, seu criado!... O Lobo e o Leão!... Não é engraçado?!..." - comentou meu pai, sorrindo e adivinhando a jocosidade que aquela apresentação havia provocado em praticamente todos os que, liderados por ele, compunham a rotineira assembléia vespertina da fazenda, na calçada do casarão.

No dia seguinte, logo cedo, o Sr. Martinho Lobo Penteado, depois de esclarecer que, vindo do norte do estado, estava indo para a Capital, resolveu deixar conosco o Leão, com o compromisso de recambiá-lo quando estivesse em viagem de volta, que deveria ocorrer dentro de poucas semanas.

E "Martinho Lobo Penteado, seu criado..." ficou como expressão jocosa não só na noite da sua chegada, mas também durante muito tempo, uma vez que muito tempo se passou sem que o Sr. Martinho sequer desse quaisquer notícias suas. Tanto tempo que, quando dele se lembravam, durante os soturnos bate-papos, na porta do casarão, quase que o transformavam num personagem meio mítico, de origem e destino nebulosos, uma vez que nem meu pai nem os agregados da fazenda se lembravam da cidade de onde ele viera, nem punham muita fé naquela história de estar indo para a Capital, a negócios.

Tanto tempo que, aos poucos, eu e meus irmãos fomos esquecendo as nossas zombarias e as tentativas de nos apelidarmos de "Martinho Lobo Penteado, seu criado". Tanto tempo que o Leão se apegou à nossa família, enturmou-se com os nossos cachorros, engordou, e passou a fazer parte das nossas vidas.

E assim foi até que, num entardecer não muito nebuloso, um cavaleiro no dorso de um belo corcel surgiu lá na porteira de entrada do grande pátio da fazenda, para provocar mais uma rodada daqueles "Quem será?...", "Será algum conhecido?...", indagações estas que foram prematuramente interrompidas porque, quando o forasteiro estava a uns trinta metros do casarão, um dos nossos cachorros ergueu-se e correu em sua direção abanando prazerosamente a cauda.

– É o seu Martinho!... Como é que pode?... Fazendo mais de dois anos e o cachorro já farejou ele... – exclamou o nosso capataz.

– E você já viu um Leão esquecer um Lobo?... Ainda mais quando os dois se dão muito bem um com o outro!... Mesmo que fossem dez anos, o Leão estaria com o suor do Lobo nas ventas...

– Isso é verdade, patrão!... – asseverou o capataz.

Nessa noite, quando eu e meus dois irmãos mais velhos fomos dormir, levamos o Sr. Martinho para o nosso quarto, pelo menos durante o tempo que durou nossos protestos contra ele, que, nas nossas cogitações, cometeria uma grande ingratidão se quisesse reaver o Leão, depois de tão longa temporada de hospedagem e dos bons tratos que demos ao cachorro. Antes do mergulho no sono, ainda ouvi um dos meus irmãos afirmar: "Se ele quiser mesmo levar o cachorro, o papai devia cobrar dele um dinheirão".

No dia seguinte, cedo, depois de mais um pernoite na nossa fazenda, o Sr. Martinho Lobo Penteado manteve, com o meu pai e o capataz, próximo do casarão, longa e meio sussurrada cerimônia de despedida e de uma certa negociação a que eu e meus irmãos assistíamos de longe, muito apreensivos, aguçando os ouvidos e captando apenas algumas palavras. O esquálido mulo, da primeira visita, fora substituído por um belo cavalo de ancas robustas, apetrechado com arreio novo e sofisticado, testemunhando que a capital do estado havia sido, naqueles dois anos, praça de bons negócios para aquele homem cujo reaparecimento não mais esperávamos, muito menos desejávamos. Mas, se ele, pronto para retornar às suas origens no norte do estado, confabulava com meu pai e o capataz, eu, meus irmãos e os nossos cachorros, inclusive o Leão, éramos apenas uma platéia agitada e ansiosa, à espera de uma decisão, que acabou chegando pela voz do Sr. Martinho, propositadamente alteada:

– Os senhores querem saber de uma coisa?... Ele é quem vai decidir!...

Após renovados agradecimentos e repetidas reverências, o Sr. Martinho, já com as rédeas nas mãos, ficou, por alguns instantes, do alto do seu trono e da sua fidalguia, a olhar para o Leão, lançando-lhe o anunciado desafio.

Como ansiosos espectadores, mais sentimos do que vimos o cão a olhar, com um ganido sofredor, ora para o seu antigo dono, ora para nós. Entretanto, o Sr. Martinho não lhe concedeu muito tempo. Manobrando as rédeas, fez com que sua montaria se virasse e saísse trotando em direção à Grande Porteira. Na verdade, ele, não o cachorro, acabava de tomar a decisão. E definitivamente o cão ficaria e ele se iria...

 Fonte:
O Conto Brasileiro Hoje – vol. II.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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