Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Boanerges Ribeiro (Histórias da Estrada)

 Foi ao regressar do Tibet que o “sadu” Sundar Singh passou por uma das experiências mais desagradáveis da sua vida.

A Igreja Indiana desenvolvia-se sob o bafejo de orientação perigosa: possuidores de desejo incontido de ajudar, os missionários facilitavam muito a vida aos jovens convertidos que revelassem inteligência e desejo de aprender, admitindo-os aos estudos nos seus colégios sem qualquer sacrifício que correspondesse ao bem recebido.

A noção de sacrifício na carreira cristã obliterava-se. A cruz de que Cristo falava seria imposta por circunstâncias externas: animosidade do ambiente, perseguições. Mas nunca deveria ser voluntariamente procurada. Quem tivesse oportunidade de ser cristão e viver tranqüilo, necessariamente devia fazê-lo. Gestos como o de Sundar Singh, que buscava tarefas difíceis e perigosas, e elegia como campo do seu apostolado o país mais perigoso do mundo, eram raríssimos na Igreja da índia.

Tal atitude espiritual necessariamente repontaria com maior nitidez nos Seminários.

O doutor Lefroy, superintendente de Lahore, nutria pelo “sadu” profunda amizade e não abandonara a esperança de enriquecer o ministério anglicano com a colaboração daquela vigorosa personalidade cristã. Em 1909 convidou-o para cursar o Seminário de Lahore. Constrangido pela amizade, Sundar resolveu tentar.

Logo compreendeu o erro. Sentia-se isolado. Os colegas não o compreendiam e chegavam a aborrecê-lo. Faltava espírito de sacrifício àqueles futuros ministros cristãos. Preparavam-se para teólogos e oradores, sairiam cheios de ambição, dispostos a conquistar rapidamente um lugar onde brilhasse como merecia a luz dos seus talentos. O seminário de Lahore fazia mestres de teorias religiosas, mas não edificava grandes personalidades cristãs.

Entre os demais, um dos jovens candidatos ao ministério salientou-se pela antipatia que votava ao "místico". Certo dia o “sadu”, isolado à sombra de uma árvore, contemplava o chão, esquecido do mundo. Sorrateiramente o inimigo aproximou-se, pronto para uma boa peça. Os lábios do santarrão moviam-se. Estaria falando sozinho? Pareceu ao rapaz ouvir o próprio nome. Curioso, aplicou o ouvido. Sundar Singh, orando, pedia a Deus que lhe perdoasse qualquer ofensa cometida contra aquele colega. Que Deus o ajudasse a conquistar a sua simpatia, para que ambos vivessem como amigos. A partir dessa data iniciou-se entre os dois sólida amizade, só interrompida quando o “sadu” desapareceu.

Mas o constrangimento permanecia. Não se adaptava à carreira eclesiástica. Andrews, que freqüentemente o visitava tinha a impressão de que ele era uma ave engaiolada, saudosa da liberdade e dos vôos amplos.

Mesmo o superintendente logo compreendeu que o seu amigo nunca seria bom ministro. Chegava o tempo de ele ser ordenado diácono. Antes do exame foi perguntar se após a ordenação teria licença para pregar em qualquer Igreja Cristã.

- Não - respondeu-lhe o superintendente. - Nem para pregar, nem para comungar na Ceia do Senhor.

Depois de examinar cuidadosamente o assunto, Sundar Singh renunciou uma vez mais, e para sempre, às oportunidades do ministério regular e voltou à vida livre, aventurosa e rica de experiências das estradas indianas, deixando-se guiar e governar inteiramente pela Providência Divina.

Os anos que viveu obscuramente, de aldeia em aldeia, reforçaram as qualidades da sua alma. Uma série de incidentes ligados a esses anos ajudar-nos-á a compreendê-lo. Alguns narrados por ele próprio; outros, por testemunhas oculares. É difícil estabelecer datas: o “sadu” não se preocupava excessivamente com elas.

Encontrava almas famintas que mal viam a sua roupa de “sadu”, imediatamente o procuravam para pedir conselhos. Encontrava também malandros endurecidos e cínicos. As estradas da Índia são como quaisquer outras.

Certa vez dirigia-se para uma aldeia, quando dois homens passaram por ele, andando depressa, e desapareceram numa curva da estrada. Ao fazer a mesma curva viu um homem em pé, consternadíssimo. Aproximou-se e verificou que era um dos que haviam passado por ele. Apontava um vulto coberto, à beira do caminho. Erguendo a capa, o “sadu” viu uma face rígida de cadáver.

- Caiu morto aqui, de repente. Ai de mim! Nem uma moeda de cobre tenho para enterrar o meu maior amigo! Santo Homem, socorre-me!

Adiante havia uma ponte e o “sadu” recebera duas moedas para pagar a licença de atravessá-la. Tomou as moedas e entregou-as ao infeliz, com uma palavra de simpatia. Continuou o caminho, mas logo depois ouviu rumor de passos na estrada. Voltou-se e deu com o homem, ofegante, olhos esbugalhados de pavor.

- “Sadu”, o meu amigo morreu mesmo!

Não compreendeu bem. Morreu mesmo. Como?

E o outro pálido, explicou que era um velho truque com que costumava enganar os viajantes: cada vez um se fingia de morto e o outro pedia a esmola. Pois desta vez, vendo que o companheiro não se erguia, descobrira-o e o encontrara imóvel, sem vida. E acrescentou:

- Benditos sejam os deuses; não era a minha vez! Estava certo de que o “sadu” era um grande santo; a divindade matara o seu companheiro por castigo. Pedia perdão Não o amaldiçoasse, ali estavam as moedas...

O “sadu” expôs ao infeliz a mensagem evangélica.

- Santo Homem, quero ser teu discípulo.

- Mas como serás meu discípulo, se eu próprio já o sou de outro?

- Mas permite ao menos que eu te acompanhe, Santo Homem. Quero reformar a minha vida.

E assim o acompanhou algumas semanas. Depois Sundar encaminhou-o aos missionários de Garhwal, que mais tarde o batizaram.

 Fonte:
RIBEIRO, Boanerges. O Apóstolo dos Pés Sangrentos.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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