Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Clauder Arcanjo (A Criança que Há em Mim)

“Eu sou aquele menino
Que cresceu por distração.”
(Paulo Bomfim)

A criança que há em mim acorda chupando o dedo, com saudade do bico, consolo do fim da noite, no berço da rede branca, de varandas brancas. Em gostosa preguiça infantil. Quando flagrado em pesadelo, o mijo na rede, batismo do medo.

Levanta-se, acorda de olhos ainda fechados, água fria a abrir os olhos para a luz do dia, resquícios de sonho nas remelas a colarem as pálpebras sonolentas. No café, nunca foi de ter fome. O estômago inda não acordara, e o leite com açúcar a passar por entre os dentes cerrados. “Gut, gut, gut. Vamos! Gut, gut, gut.” A voz de minha mãe, Djanira, a me encorajar a esvaziar o copo, grande. “O café da manhã é a mais importante das refeições.” Conselho que, nos dias atuais, repasso credulamente para os meus rebentos.

      A criança que há em mim caminha com timidez em meio a homens e mulheres, fingidamente decididos, a socarem o chão com os seus sapatos apressados, sempre simulando compromissos inadiáveis, quando, na verdade, rodam em círculos, atrás do rabo de si e do nada.

A criança que há em mim adora parar na praça desabitada e sentar, sozinho, no banco mais ao fundo. Sem pressa, para ouvir a sinfonia sem regra dos pássaros. Passaredo a executar a matinê orquestrada. E, do meu canto, flagrar os velhos, presos pelas famílias às molduras das janelas. Seres de olhos capiongos, a catarem reminiscências nos becos e nas ruas, defronte do seu inexpugnável e vazio exílio.

Em torno do meio-dia, a criança retorna para a Rua Mateus Mendes, 75, e abre o portão da casa em Santana chamando pelos irmãos: “Dedé, Baía, Tito, Dr. Stygma! Onde estão vocês?” Lembrança que dói, e como dói.

A criança que há em mim consagra a madorna após o almoço à memória dos antepassados; costume que corre o rio de tantas existências, hábito de carne, espírito e osso. Por todas as gerações. Assim seja, amém. “Não atrapalhem o meu sono!” O aviso diário de Zequinha, o Arcanjo pai. De vez em quando, dado às barulhentas travessuras, o ringir dos armadores. E, “pernas pra que te quero!”, no aviso do Baía; aquele que ficasse para trás seria brindado com a sova do dia. Uma palmada na bunda. Hoje, bem sei, ela doía mais na mão de Zequinha de que em nossas nádegas.

A criança que há em mim sempre gosta de futebol. Futebol do drible certo, do passe preciso, da marcação sem falta, da jogada inesperada a gerar a festa do gol... mesmo sendo um péssimo jogador. A raça a suplantar a magia. No máximo, aplicado zagueiro. “Menino do Catecismo, você nunca foi de bola!”; goza-me o meu terceiro pai, o Chico de Neco Carteiro.

Nas partidas na tevê, sinto muita falta da companhia de Dederardo, de Gordinho, de Gazumba, de Totonho, de Gatinho... Enfim, de toda a meninada de Licânia. Quanta saudade!

A criança que há em mim, parece, hoje pouca coisa nova vive, apenas relembra, e recupera, as maravilhas que deixou enterradas nas ribeiras do passado. Gloriosa botija deste quase cinquentão.

Algumas vezes, distraído, flagro-me em gaitadas longas e gostosas, e acabo me dando conta de que serei sempre criança, mesmo que isso se dê por mera distração.

Fonte:
Nilto Maciel (Literatura sem fronteiras)

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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