Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa (S. Tomé e Príncipe – 2. Narrativa, 3. A Expressão em Crioulo)

2.    NARRATIVA

Modestíssima, quantitativa e qualitativamente, é a narrativa de S. Tomé e Príncipe. As esporádicas experiências de Viana de Almeida (Maiá Pòçon, contos, 1937) e de Mário Domingues. (O menino entre gigantes, 1960) não chegam a ser uma contribuição relevante. O primeiro, nesse tempo, prejudicado ainda por um ponto de vista subsidiário de uma época colonial; o segundo (também natural de S. Tomé e Príncipe, mas tornado escritor português pela obra e pela radicação) talvez pela carência da dramatização da personagem principal, o mulato Zezinho, nado e criado em Lisboa. De acaso teria sido o conto «Os sapatos da irmã», sem qualquer relação com S. Tomé, que Francisco José Tenreiro, em 1962, publicou na colectânea Modernos Autores Portugueses (Lisboa). Acidentais ainda, mas já com uma visão ajustada a um real africano, foram também as experiências de Alves Preto, limitada, cremos, a dois contos: «Um homem igual a tantos» e «Aconteceu no morro» [118]. E ainda o caso de Sum Marky (i. e. José Ferreira Marques), branco nascido em S. Tomé, autor de vários romances, de importância discutível, alguns no entanto parcialmente com interesse, valendo citar Vila Flogá, 1963, como testemunho acusatório da exploração colonialista.

3.      A EXPRESSÃO EM CRIOULO

Não obstante ser bilingue, visto que a população utiliza, além da língua portuguesa, o crioulo de S. Tomé, a criação literária é reduzida em dialecto, domínio que a tradição oral vem monopolizando com substancial interesse. Praticamente conheciam-se as composições poéticas de Francisco Stockler e uma experiência de Tomaz Medeiros. No entanto, após a independência nacional, parece haver sintomas de uma revitalização no uso literário do crioulo, ao nível popular, pelo menos a partir de agrupamentos musicais. Exemplo são os casos dos caderninhos de Sangazuza e o caderno do Agrupamento da Ilha, 1976, compostos de músicas revolucionárias e, de um modo geral, vertidos em nimbas, sambas, marchas, valsas, boleros e sòcòpés.
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Nota
[118] Alves Preto, «Um homem igual a tantos» in Mensagem. Lisboa, Casa dos Estudantes de Lisboa, ano II, n.° 2, fevereiro de 1959, pp. 21-23. «Aconteceu no morro», idem, ano II, n.°s 5-6,1960, pp. 2-6.


Continua…Guiné-Bissau

Fonte:
Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa I Biblioteca Breve / Volume 6 – Instituto de Cultura Portuguesa – Secretaria de Estado da Investigação Científica Ministério da Educação e Investigação Científica – 1. edição — Portugal: Livraria Bertrand, Maio de 1977

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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