Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Paulo Leminski ("Nunca quis ser freguês distinto")

Eliana Ruiz Jimenez (Trova-Legenda: Coração Engaiolado)


Corações apaixonados
não aceitam repressão.
Explodem, se condenados
a engaiolar a emoção!
A. A. de Assis – Maringá/PR

Coração enclausurado
por amor sentimental,
devia ser libertado,
nos dias de carnaval!
Alberto Paco – Maringá/PR

Por quê prender um amor
e viver na solidão?
não é curtindo uma dor
que encontramos solução.
Alcyr Rocha – São Fidélis/RJ

Coração apaixonado
te procura com fervor;
só tu abres o cadeado
que aprisionou meu amor.
Alice Brandão - Caxias do Sul/RS

Corazón encarcelado
esperando por tu beso
líberalo bien amado
ven, que anhelo tu regresso
Angela Desiré - Venezuela

Meu coração, na gaiola
do teu amor, ficou preso;
mas, ali, ele estiola,
na tortura do desprezo...
Angelica Villela Santos- Taubaté/SP

Coração encarcerado
Em quatro noites de folia
Pra não vir despedaçado
Encher-me de melancolia.
Anna Servelhere - Bragança Paulista/SP

Um coração sofredor,
tendo a prisão seu destino,
brota momento de dor,
numa figura sem tino.
Agostinho Rodrigues – Campos/RJ

Meu coração desvairado,
por te amar com tanto ardor,
hoje vive aprisionado
na jaula do teu amor.
Antonio Juraci Siqueira – Belém/PA

Não posso me libertar
das grades desta prisão
sem antes poder achar
a chave do coração.
Ari Santos de Campos – Itajaí/SC

Meu coração sofredor
nunca teve a liberdade.
Ontem - escravo do amor...
Hoje - refém da saudade...
Arlindo Tadeu Hagen – Belo Horizonte/MG

Tão perto, mas separados,
o pijama e a camisola...
– Dois corações mal-amados
partilhando uma gaiola...
Bruno P. Torres – Niterói/RJ

Tantas vezes foi flechado;
em algumas, abatido:
coração engaiolado
é bem menos perseguido.
Cida Vilhena – João Pessoa/PB

Coração duro, fechado,
prenhe de angústia e rancor,
constrói cárcere privado
com grades feitas de dor.
Dáguima V. Oliveira – Santa Juliana/MG

Castigo, atroz sobrepeso
em que o teu rancor se escora:
- Meu coração, ao teu, preso,
e a chave...jogada fora...
Darly O. Barros – São Paulo/SP

Prenderam meu coração
com as chaves de um cadeado!
Hoje, chora de emoção:
sozinho, triste, alquebrado!
Delcy Canalles – Porto Alegre/RS

Sendo a solidão um entrave,
é o coração que se enrola,
até que alguém pegue a chave
abrindo aquela gaiola!
Dilva Moraes – Nova Friburgo/RJ

Esta vida me sequestra
numa espera de ilusão...
- Só o amor tem chave-mestra
para abrir meu coração.
Eliana Jimenez – Balneário Camboriú/SC

Só uma prisão eu respeito,
quando rendo-me à paixão...
Qualquer castigo eu aceito,
se a cela é o teu coração!
Francisco Macedo - Natal/RN

Amor não correspondido
não é amor, é ilusão...
e o coração tão sofrido
se isola numa prisão!
Francisco José Pessoa – Fortaleza/CE

Meu coração enjaulado
não pode se libertar,
pois o cupido malvado
não quer mesmo me alforriar!
Gislaine Canales- Balneário Camboriú/SC

Meu coração, entre grades,
prisioneiro, enjaulado,
vive cantando às saudades
de um grande amor do passado!
Héron Patrício – São Paulo/ SP

Liberta meu coração
preso ao teu farto ciúme.
Imita a flor em botão
prestes a exalar perfume!
João Batista Xavier Oliveira – Bauru/SP

Meu coração aprisionado
em sua beleza e encanto,
deixou-me hipnotizado,
que eu não sei se choro ou canto.
José Feldman - Maringá/PR

Eu prendi teu coração
nas grades do meu abraço,
por uma simples razão:
eu já nem sei o que faço...
José Solha – Bragança Paulista/SP

Pulsa tanto neste peito,
coração preso e febril,
ao mirar o vago leito
co’a sombra do teu perfil!!
Lisete Johnson – Porto Alegre/RS

Com quem estará a chave
que solta meu coração?
Venha esse alguém e o destrave
com amor em transfusão.
Lóla Prata – Brangança Paulista/SP

Nesse mundo tão carente
de amor e fraternidade
temos urgência premente
de corações em liberdade!
Maria Lucia Fernandes – São Fidélis/RJ

Para não ser mais traído
nem alvo de falsidades,
trago o coração ferido
protegido atrás de grades.
Marina Valente - Bragança Paulista/SP

Não há grade que consiga
segurar um sentimento...
Sentimento é uma cantiga
que se move como o vento!
Mário A. J. Zamataro – Curitiba/PR

Não se tranca o coração,
nem se joga a chave fora;
prejudicando a união,
deste coração que chora.
Mifori – São José dos Campos/SP

Meu coração prisioneiro,
já sem forças pra chorar,
num suspiro derradeiro,
jurou nunca mais amar.
Myrthes Spina de Moraes – Atibaia/SP

Na jaula da vil paixão
terminou encarcerado
o iludido coração
loucamente apaixonado!
Nemésio Prata – Fortaleza/CE

Numa prisão desolado
escondendo sua dor;
vive triste abandonado
um coração sem amor.
Neiva de Souza Fernandes – Campos/RJ

O Ibama não permite
periquito na gaiola;
mas coração com grafite
em cana quem o consola.
Nilton Manoel – Ribeirão Preto/SP

Meu coração foi detido
e trancado nessa grade,
com o teu beijo aquecido
o meu coração se evade.
Peixoto Jr – Bragança Paulista/SP

Um coração não se algema,
nem se prende um coração.
Seu bater se faz poema
nas horas de solidão!
Prof. Garcia – Caicó/RN

Trago o coração cativo,
Enjaulado nos teus braços,
Por isso mesmo inda vivo,
Sonhando com teus abraços...
Olga Maria Dias Ferreira - Pelotas /RS

Meu coração prisioneiro
sofre por ser infeliz
mas se nunca fui inteiro
é porque ele não quiz.
Olympio Coutinho – Belo Horizonte/MG

Seguindo estrada deserta,
quase perdendo a razão,
hei de achar a chave certa
para abrir seu coração!
Rodolpho Abbud – Nova Friburgo/RJ

Meu coração, condenado
só por te amar do meu jeito,
bate triste, engaiolado
na ingratidão do teu peito.
Thalma Tavares – São Simão/SP

Nas grades da solidão,
em triste monotonia,
suplica o meu coração:
- Vem fazer-me companhia!
Vanda Fagundes Queiroz - Curitiba/PR

Rosa que se refestela
mas não exala perfume:
coração tombado em cela
pelo egoísmo e ciume.
Wagner Marques Lopes - Pedro Leopoldo/MG

Fonte:
http://poesiaemtrovas.blogspot.com

A. A. de Assis(Revista Virtual Trovia n. 147 - março 2012)


Inesquecíveis

De compromissos te esquivas
mas é fácil de notar,
que o prazer do qual me privas
vive escrito em teu olhar...
Analice Feitoza de Lima

Riquezas tenhas tão grandes,
e tal bondade também,
que ao redor donde tu andes
não fique pobre ninguém.
Augusto Gil

Hoje eu sei que foi loucura...
Mas ao louco que fui eu
devo o pouco de ternura
que o bom senso não me deu.
Cesídio Ambroggi

Ah se eu pudesse saber
qual a mulher que ele quer!
Que não iria eu fazer
para ser essa mulher?
Magdalena Léa

O poeta, em sua lida,
ainda que o mundo o afronte,
tem sempre um sopro de vida
que o leva além do horizonte...
Milton Nunes Loureiro

Saudade!... Foto em pedaços,
que eu colei, com mão tremida,
tentando compor os traços
de quem rasgou minha vida!...
Waldir Neves

A grande páscoa será aquela que marcará a passagem de um mundo
sem alma para um mundo onde haja espaço para o amor e a poesia.


Brincantes

Fogão de lenha limpinho;
chapa a luzir, de areada.
Parecia tão fresquinho...
e teve a popa queimada!
Eliana Palma – PR

Maria, o que foi que eu fiz
para ficares queimada?...
– Ainda pergunta, infeliz?
Há tempo não fazes nada...
Istela Marina – PR

Casamento de verdade
pouca gente ainda procura:
querem ter a propriedade
sem pagar pela escritura!
Jotão Silva – RJ

Depois de um beijo molhado,
sentiu algo diferente...
Perguntou ao namorado:
– Onde foi parar meu dente?
Mª Lúcia Godoy Pereira – MG

Afoita, entra de cabeça,
e ao se dar conta declara:
– Por incrível que pareça,
o que eu quebrei... foi a cara!!!
Mª Madalena Ferreira – RJ

Quando a feia se “embeleza”,
mas o resultado é trágico,
diz o espelho – que se preza:
– Ela pensa que sou mágico!...
Renato Alves – RJ

Da abelha o casal tem tudo:
primeiro o mel da paixão;
segunda fase – abelhudo;
terceira fase: – ferrão!...
Roza de Oliveira – PR

Líricas e filosóficas

Entre o pássaro e o poeta
há perfeita identidade:
seu canto só se completa
se há completa liberdade.
A. A. de Assis – PR

Saudade é tarde chorando
um tempo em que foi aurora,
ao ver a noite levando
o brilho do sol embora.
Adélia Vitória Ferreira – SP

Versos já fiz – não sei quantos –
relembrando a mocidade...
Hoje servem de acalantos
para ninar a saudade.
Ademar Macedo – RN

Costumo dizer que a trova
é diminuta poesia,
mas que sempre põe à prova
a nossa sabedoria.
Agostinho Rodrigues – RJ

Depois de uma certa idade,
entramos na contramão,
transformando em amizade
o que antes era paixão!
Alberto Paco – PR

Ah, se eu pudesse algum dia
ter asas para voar...
Quem sabe talvez iria
em tua boca pousar!
Almir Pinto de Azevedo – RJ

Quero sim, você diz não!
Assim é tudo impossível...
Não quero viver em vão,
nessa dúvida terrível.
Benedita Azevedo – RJ

O mar da vida parece
que às vezes quer me afogar,
mas Deus, que nunca me esquece,
atira a boia no mar!
Carolina Ramos – SP

Eu confesso hoje, sem medo,
que este amor em mim guardado
não é só o meu segredo,
é também o meu pecado!
Clenir Neves Ribeiro – RJ

Sou rainha afortunada,
você meu rei, meu senhor.
Doce ilusão implantada
no reino do nosso amor!
Conceição Abritta – MG

Uma página arrancada,
jogada ao léu, esquecida:
assim sou eu – quase nada –
no livro da sua vida!
Conceição de Assis – MG

Não sou ave nem sou peixe,
nunca aprendi a nadar,
mas peço a Deus que me deixe
num dia desses voar!
Diamantino Ferreira – RJ

Inútil, desagradável,
tornar alguém diferente,
para que seja ajustável
aos interesses da gente.
Djalma da Mota – RN

O nosso amor escondido,
sem promessa de aliança,
tem o sabor proibido
do fruto da vizinhança!...
Domitilla B. Beltrame – SP

“O que é o amor?”, me perguntas,
e, em coro, os anjos entoam:
“São duas pessoas juntas
que se amam e se perdoam!”
Eduardo A.O. Toledo – MG

Sol e mar... calor, beleza...
vêm mostrar à humanidade
que o homem e a natureza
têm a mesma identidade.
Eliana Jimenez – SC

O nosso beijo envolvente,
na rotina que amanhece,
é o apelo mais urgente
para que a noite se apresse!
Elisabeth S. Cruz – RJ

Ao tempo que está passando,
peço: – Vá mais devagar!
E ele segue me esnobando,
fingindo não me escutar.
Francisco Macedo – RN

A velhice que me encurva
desacelera meus passos,
torna a minha visão turva...
Apoio? Só nos teus braços.
Francisco Pessoa – CE

A saudade da saudade
varreu de mim a alegria,
levando a felicidade
que eu pensava que existia!
Gislaine Canales – SC

Quando uma lágrima cresce
e cai dos olhos de um pai,
pesa tanto que parece
ser a própria dor que cai.
Héron Patrício – SP

Olho o céu. A lua, um lume,
se desloca magistral...
Nunca vi um vaga-lume
tão soberbo e pontual.
Humberto Del Maestro – ES

Não dou conselhos na luta
que cada um realiza,
pois o tolo não escuta
e o sábio jamais precisa.
J. B. Xavier – SP

A presença do Senhor
se faz sentir plenamente
desde a beleza da flor
à humildade da semente.
Jeanette De Cnop – PR

Amor, dádiva divina,
semente humilde e perfeita;
a luz que nos ilumina
pela caminhada estreita!
João B. de Oliveira – SP

Dê vida ao seu dia a dia,
dedicando-se as labor.
Trabalho gera alegria,
quando é feito com amor!
Jorge Fregadolli – PR

Amor há no coração
que é feito brasa apagando.
Se vai virando carvão,
surge a saudade soprando...
José Fabiano – MG

Vivo em busca de carinho,
em castelos de ilusão...
Tanto tempo estou sozinho,
quem me aquece é a solidão.
José Feldman – PR

O sonho busca o futuro,
desenha um novo horizonte;
é flecha através do muro,
é visão em nossa fronte.
José Marins – PR

O mar, nas lutas que travo
ao dar combate à procela,
parece um cavalo bravo
e a jangada, a minha sela!
José Messias Braz – MG

De uma forma muito astuta,
a mentira nunca falha:
Hoje atinge a quem a escuta,
amanhã, a quem a espalha...
José Ouverney – SP

Meu corpo colado ao teu...
dois seres: um sentimento!
Sonho que sobreviveu
apenas em pensamento...
Luiz Antonio Cardoso – SP

Não pergunte a um trovador quantas trovas ele
já escreveu. Pergunte-lhe quantas trovas já leu.


Segue o tempo, indiferente,
pela idade, em despedida...
Passa, mas deixa presente
o doce encanto da vida!
Mara Melini Garcia – RN

Sonhar quando a gente dorme
é comum e é natural.
A diferença é enorme
é quando o sonho é real.
Maria Lúcia Fernandes – RJ

Muito pouco foi preciso
para em Deus acreditar.
No encanto do teu sorriso
eu vejo o céu se espelhar.
Mª Luíza Walendowsky – SC

Às vezes, tudo exigimos
que Deus faça a todo custo,
sem pensar que o que pedimos,
tornaria Deus injusto.
Maria Nascimento – RJ

Reticências: uma frase
que alguém pensa mas não diz...
justamente aquele "quase"
que nos faria feliz.
Mª Thereza Cavalheiro – SP

Tenho por certo, em verdade,
bem vivo, embora pungente,
que a mais pungente saudade
é aquela de alguém presente!
Maurício Friedrich – PR

Cortina lembra passado
e nela não vou mexer.
Tenho até muito cuidado:
eu a lavo sem torcer.
Messody Benoliel – RJ

Toda mentira promete
o que não pode lhe dar;
só à verdade compete
fazer justiça e mostrar.
Mifori – SP

Por estar na solidão, / tu de mim não tenhas dó. / Com trovas
no coração, / eu nunca me sinto só. – Luiz Otávio


Neste mundo em que a atitude
poderá causar um mal,
a prudência é uma virtude
de expressão universal.
Nei Garcez – PR

Sonhos são bolas infladas
pelos ares da ilusão,
que os espinhos das estradas
vão fincando pelo chão...
Nilton Manoel – SP

No rosto, um leve sorriso
disfarça a dor da saudade...
– Há vezes em que é preciso
fingir a felicidade.
Olga Agulhon – PR

Da despensa de Deus Pai,
sou mordomo e sou fiel;
só quem pensa que Ele trai
vira as costas para o céu.
Olivaldo Júnior – SP

A tristeza em minha casa
está num quarto vazio.
De dia a saudade abrasa,
à noite mata de frio.
Roberto Acruche – RJ

Contemplo o céu para vê-las
com um respeito profundo,
pois na raiz das estrelas
eu vejo o dono do mundo.
Rodolpho Abudd – RJ

Piedade infeliz tem sido...
Com santa piedade orava
pelo seu amor bandido,
que, sem piedade, matava.
Rose Mari Assumpção – PR

No refúgio desmanchamos,
quando ficamos a sós,
esses nós que carregamos
no fundo de todos nós!
Selma Patti Spinelli – SP

Um abraço grande a todos os divulgadores de trovas.
Sem eles os nossos trabalhos não seriam conhecidos.


Nada mais nos aproxima...
e, nessa ausência de afeto,
nós somos trova sem rima
e sem sentido completo!
Sérgio Ferreira da Silva – SP

Sim, eu sou paranaense,
com orgulho e "pé vermeio";
e aprendi que a vida vence
quem pra aqui com garra veio.
Sinclair Casemiro – PR

Eu penso em mãos carinhosas,
espero um beijo faceiro;
quero sussurros e rosas
e um romance por inteiro.
Therezinha Tavares – RJ

Na vida vivo tentando
tornar meu mundo risonho,
pois a tristeza vem quando
existe ausência de um sonho.
Vanda Alves – PR

Em tédio avassalador
daqueles que não têm cura,
num minuto o Trovador
transforma tudo em ventura!
Vânia Ennes – PR

Meu diário! Em tuas folhas
morrem desejos sem fim...
Pago o preço das escolhas
que outros fizeram por mim.
Wanda Mourthé – MG

Não sei como Deus sabia,
mas deu-me, quando nasci,
a família que eu queria
e os amigos que escolhi.
Wandira F. Queiroz – PR

Sabiá de peito roxo,
passarinho cantador...
Seus gorjeios sem muxoxo
são melodias de amor!
Vidal Idony Stockler – PR
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http//www.falandodetrova.com.br/

J. G. de Araujo Jorge (Uma Estrela Para Você)


É hora da gente pensar como no poema: “Um dia...”

Um dia... E para nós há sempre um dia
que tudo modifica de repente,
dando outro rumo, inesperadamente,
ao caminho que a gente percorria...

E então, a hora inesperada de alegria
se transforma em tristeza, rudemente,
ou a dor se desfaz, e a alma sente
imprevisto prazer que não sentia.

Ouço falar assim desde menino
e me deixo ficar, sempre esperando,
por esse estranho dia do destino...

E às vezes, esta espera me intimida,
porque não sei o que trará, nem quando
chegará esse dia à minha vida...


Não me lembro. Mas talvez tenha escrito este soneto num fim, ou num começo de ano, quando inexplicavelmente nos deixamos ficar com a alma em suspenso, como se alguma coisa tivesse, ou estivesse para acontecer. Fim de ano é época propícia às velhas superstições. Todos nós, mesmo os mais céticos, os mais materialistas, percebemos que nosso pretensioso racionalismo se turva, que resíduos místicos vêm à tona agitados sabe-se lá por que misteriosos elementos.

Afinal, a Terra completou mais uma volta em torno do Sol, tal qual fazia nos tempos dos faraós egípcios, e dos “patesis” sumérios. O que não impediu que muitos povos, através da história, comemorem o ano solar de formas diversas, como os gregos, os russos, os mulçumanos, os judeus. Mas todos nós, povos cristãos, o festejamos da mesma maneira e na mesma ocasião, desde a reforma gregoriana.

E então, a 31 de dezembro, à meia-noite, atordoados pelo rumor da alegria nos salões e nas ruas, por entre contos fetichistas e marchinhas carnavalescas, ressurgem em nós crenças e temores que julgávamos desaparecidos. Já não discutimos a força dos signos, nem as previsões dos horóscopos.

De súbito, acreditamos no Destino e na Felicidade, que ganham a força de entidades, de uma efêmera religião que nasce e morre ao espocar das garrafas de champanha, ou enquanto se derretem as velas de cera dos rituais pagãos a Iemanjá, à beira do mar.

Há um transe coletivo, em que todos se engolfam, nas festas de passagem de ano.

Vagamente se acredita que alguma coisa está terminando, e que algo de novo se inicia, e com esse algo de novo, novas oportunidades, novas possibilidades diante da vida. Você já experimentou se analisar naquelas horas, naqueles momentos, em que se comemora o Ano Novo?

Subitamente o Destino está presente, como um deus. É o Deus-Destino ao qual festejamos, diante de quem comparecemos, como as almas dos mortos egípcios, no tribunal de Osíris. E se não nos confessamos, e se não estamos em penitência pelos nossos erros e pecados, esperamos que ele nos absolva de tudo, e que nos dê aquela felicidade que ainda não conseguimos conquistar.

Exaltei-o nas quadrinhas:

Deus poderoso, maneja
nosso mundo pequenino...
Quem, por mais forte que seja,
tem mais força que o Destino?

Que somos nós? Indefesos
pobres bonecos, sem pés...
O Destino nos tem presos
aos seus estranhos cordéis...


E isto porque, todos nós, a cada nova manhã

Saímos, pelos caminhos
quais D. Quixotes, bisonhos,
lutando contra os moinhos
de vento, dos nossos sonhos!


A verdade é que, ao fim de cada ano, a cada ano novo, não podemos fugir às sugestões que a oportunidade suscita. Há um fato astronômico ? trezentos e sessenta e cinco dias, cinco horas, quarenta e nove minutos e doze segundos ? o tempo necessário para o nosso velho planeta completar a sua volta em torno do Sol, mas criamos com isso todo um mundo complexo de implicações emotivas e imaginosas, e então, sentimos, como se realmente nós também começássemos uma “volta” nova em nossas vidas. Mas, em torno de quê?

O fato é que realimentamos o coração de desejos. Que poderoso manancial de sonhos e esperanças há nesta simples expressão: Ano Novo! E todos nós nos desejamos, ardentemente, com estranha convicção: um feliz Ano Novo! Levantamos no tempo (o que é o tempo?) uma barreira quase material: o que passou, passou! Sim, há um ano novo, e poderá haver também uma vida nova. Estamos, na realidade, desejando: Feliz Vida Nova para Você!

E nessa hora de festa, é como se todos se sentissem obrigados a ser felizes. Como se temessem a tristeza como uma doença, ou como se receassem aparecer diante dos seus deuses com as máscaras de suas dores e de seus desenganos. As claridades que estão no céu não são apenas as de um novo dia, mas as de uma felicidade entressonhada, nunca tarde demais para chegar.

Estranho. Nessas ocasiões me acovardo. As festas coletivas me intimidam. Receio não ter forças nem condições para sintonizar com as grandes felicidades.

Naquele exato momento, entre o ano que finda e o que nasce, quando uma onda de alegria contagia a todos, quase que indistintamente, fico à margem, numa invisível praia solitária, como um náufrago. À toa, sem saber que fazer da vida. Uma das horas mais pungentes para mim, inexplicavelmente, é sempre aquela em que os ponteiros se casam na meia-noite do dia 31 de dezembro de cada ano. Enquanto sobem foguetes, espocam garrafas de champanha, tinem taças, ouvem-se cantos, bocas se beijam, abraços se estreitam, não consigo evitar meu invencível e súbito estado de levitação interior, entre atordoado a atônito.

Tal como no carnaval, ou no Natal, o último dia do ano me apanha sempre desprevenido. O encontro com essa felicidade barulhenta, exibicionista, que estoura como um petardo, me paralisa. Caio em mim, e sinto-me de repente, fundo, distante de todos, incapaz de segui-los, de entrar em seus “ranchos” e “blocos”. Como já escrevi, certa vez: Me sinto cada vez mais no “bloco do eu sozinho”. Desculpem-me esta cinza com que escrevo. Alguma coisa ainda se queima, e o vento trouxe. Resta o consolo de que alguma coisa ainda há para queimar, para arder. Podia ser pior.

Francamente, sou um homem incapaz de “entrar no Ano Novo”. Não sei que gostaria de fazer, quem gostaria de encontrar. Talvez porque não consiga mesmo distinguir essa “última noite” do ano de todas as outras noites. Não gosto das datas vermelhas dos calendários. Gosto dos feriados que a vida, avaramente, cada vez mais avaramente, decreta para mim. Meu Ano Novo começa qualquer dia e qualquer hora.

Me lembro, por exemplo, de que esse último dia do ano, enquanto a festa atordoante se diluía na noite, e pulsava em todos os segundo, eu me sentia um homem banal, perdido, sem contatos com a Terra. Receio muito que esteja me tornando, cada vez mais, um homem difícil, nesses tempos difíceis.

Mas, de coração, desejo felicidades para todos vocês.

Afinal o Ano Novo é um estado de espírito. Que o tenham, festejando como um Natal - algo novo que nasce, que brilha como uma estrela.

Sim, desejo a todos vocês uma estrela brilhante, neste Ano Novo que se inicia!

Fonte:
JG de Araujo Jorge. "No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969

Ademar Macedo (Mensagens Poética n. 496)

Monte do Galo - Carnauba dos Dantas/RN

Uma Trova de Ademar

Sem ter interlocutores,
aos Trovadores, diria:
quem faz trovas, são doutores,
com mestrados em poesia!!!
–ADEMAR MACEDO/RN–

Uma Trova Nacional


“Mãe-Natureza!” – eis o nome
de quem, em nome do amor,
gera o fruto e estanca a fome
do seu próprio predador!
–JOSÉ OUVERNEY/SP–

Uma Trova Potiguar


Certo vaqueiro, tristonho,
já vencido pela idade,
afaga, como num sonho,
seu alazão – a saudade...
–REVOREDO NETTO/RN–

...E Suas Trovas Ficaram


Tão calmo e frio eu te vejo,
que tristemente recordo:
acordava com o teu beijo
e hoje nem vês quando acordo...
–NYDIA IAGGI MARTINS/RJ–

Uma Trova Premiada


2009 - Cantagalo/RJ
Tema: SERTÃO - 6º Lugar

Sou sertanejo e não nego
crestei meus pés neste chão.
Nestas marcas que carrego ,
carrego o próprio sertão!
–PROF. GARCIA/RN–

Simplesmente Poesia

Não Sei
–ROLDÃO AIRES/SP–


Não sei se são os teus olhos,
ou se o teu jeito inocente,
faz com que eu sinta, pelo
meu corpo inteiro, algo que
não sentia, alguma coisa
diferente.
Me pego às vezes, pelos cantos
a falar, palavras que há muito
não dizia.
Sinto que renovo-me,
que procuro uma maneira,
de poder vir a possuir um novo
sonho para ser vivido,
um novo amor, que dentro tenho,
e não pode ser contido.

Estrofe do Dia

Sinto falta da voz de Gonzagão
decantando a canção "TRISTE PARTIDA"
que retrata a família e sua vida
apos retirar-se do Sertão.
Já não ouço Luiz Rei do Baião
cantando "DEPOIS DA DERRADEIRA"
Dominguinhos, sanfona de primeira
Genival e o "ROCK DO JUMENTO";
Precisamos fazer um movimento
Em defesa da música Brasileira.
–RODRIGUES LIMA/SP–

Soneto do Dia

Tempo de Amar
–JOSÉ LUCAS DE BARROS/RN–


Se a gente olhar a vida com carinho,
inda que more embaixo de uma ponte,
verá flores à margem do caminho
e sorrisos de estrelas no horizonte.

Quem sabe ouvir o borbulhar da fonte
e o sereno trinar de um passarinho
já não se entrega à dor, mesmo defronte
de ingratidões, de pedras e de espinho.

Nem a velhice pesa, quando a gente
se faz jovem no espírito e na mente,
cultivando a alegria de viver,

e, na existência pecadora e santa,
escuta a voz de um coração que canta
o amor que o tempo não logrou vencer.

Teatro da Terra (O Ciclista, de Karl Valentin) 1 a 11 de Março


Maria João Luís encena e encarna Karl Valentin, autor maior da dramaturgia alemã.

Valentin, artista dos sete ofícios cria, fotografa, representa, filma, escreve, enquanto a sua Alemanha atravessa duas guerras mundiais, sempre atento ás dificuldades que um pais em guerra impõe, sem se conformar com a tendência que a propaganda nazi alinhava com a superioridade da raça ariana, foi por isso censurado e esquecido. Só a partir dos anos 70, com traduções francesas, é redescoberto e reconhecido como um dos maiores autores cômicos de sempre.

O Teatro da Terra leva à cena o seu humor corrosivo e irreverente para que não caia outra vez no esquecimento, este talento gigante, muitas vezes apelidado como o Charles Chaplin dos dadaístas de Munique.

de 1 a 11 de Março

4ª a Sábado às 21h30 | Domingos às 16h00


Teatro Cinema de Ponte de Sor

Info e reservas
967 710 598 | 242 292 073
teatrodaterra@gmail.com

bilhetes preço único: 7€

texto Karl Valentin
tradução Maria Adélia Silva Melo e Jorge Silva Melo
encenação Maria João Luís
com Inês Pereira, Maria João Luís, Pedro Mendes, Joaquim Rocha, João Fernandes
cenografia Maria João Luís
figurinos Maria João Castelo
dir. produção e luz Pedro Domingos


Com os melhores cumprimentos
Pedro Domingos
(Direcção de Produção)


TEATRO DA TERRA
CENTRO DE CRIAÇÃO ARTÍSTICA DE PONTE DE SOR, CRL
Herdade do Colmeal, Ribeira das Vinhas
7400-070 Galveias
+351 967 710 598
teatrodaterra@gmail.com | https://teatrodaterra.wordpress.com

Escritório de Produção
Av. da Liberdade, 64
7400-218 Ponte de Sor
+351 242 292 073

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

J. G. de Araújo Jorge (Uma Casa na Lembrança)


Com a mecanização avassalante da vida moderna, muitas vezes me pergunto qual será a imagem do lar do futuro?

A dona-de-casa trabalha fora, absorvida por mil e uma preocupações estranhas ao seu tradicional mundo doméstico; desaparecem as empregadas; os apartamentos se resumem a cubículos, com peças únicas, escamoteáveis, armários embutidos, sofás e poltronas-camas, quitinetes; aparelhos elétricos capazes de improvisar papas liquidificadas à guisa de refeições. Os filhos amontoam-se em camas-beliches, em espaços exíguos de camarotes de navio.

Amanhã, numa sociedade-síntese, em que se unirão as conquistas do conforto capitalista ao sistema de vida socialista, como sobreviverão o homem, a mulher e os filhos?

Francamente, não sei se serão agradáveis as casas dos nossos tetranetos. E quando digo casa, na me refiro apenas ao espaço onde nos recolhemos depois da luta de cada dia, mais justamente aos elementos humanos que a compõem e que, somados, transforma a casa em lar.

Confesso que não gosto de imaginar essa casa solitária, despojada de tantos valores tradicionais, espécie de robô habitado, onde as coisas acontecem sumariamente, a simples toques mágicos, sem a presença necessária e o calor da convivência humana.

Lembro-me de como me senti, certa vez, num pós-operatório, imobilizado num leito de hospital, ligado por tubos que me alimentavam e satisfaziam necessidades, numa cama que se mexia por mim.

Temo que a casa do futuro desumanize o homem. Tire-lhe uns restos de paisagem que ainda resistem como decoração. A intromissão da máquina em nossa vida particular vai reduzindo ao mínimo as perspectivas desse poético mundo prosaico que é o mundo de nossas casas, tão rico de belezas singelas em seu aconchego e em sua tranqüilidade.

A casa do futuro talvez acabe tornando o homem mais solitário que o faroleiro, montado numa penha perdida, em mar alto.

E como será esse homem que prescinde de seus semelhantes, que vive cercado de instrumentos, alimentando-se de pastilhas, procriando por inseminação artificial, em companhia de seres que estarão mais longe de seu espírito que os planetas de seu universo?

Não acredito que a dona-de-casa feliz seja a dona-de-casa sem casa, sem empregadas, para quem os afazeres naturais que constituem a sua vida e a sua alegria se transformem em gestos mecânicos, em atos frios e automáticos.

Eu, por mim, gosto das casas grandes, antigas, impregnadas de histórias, de tradições. Numa delas deixei minha infância, minha adolescência. E quando falo de casas antigas, lembro-me da casa de meu avô, o casarão dos Tinoco, na Rua da Piedade, em Bota-fogo. Está num poema:

“Me lembro da minha rua
velha rua da Piedade
Mudou pra Clarice Índio
Clarisse Índio do Brasil;
o nome de alguma dama
muito importante, quem sabe?
Muito importante, quem viu?”

(A Outra Face).

Bem que o guardo na memória, abrindo suas janelas altas, com grades de ferro, para a rua; o jardim lateral, a grande amendoeira, as acácias; e ao fundo, como uma vaga reminiscência das senzalas, as casas das empregadas. E me ocorrem visões de nossa velha aristocracia patriarcal.

Os romances de Manuel de Macedo e de Alencar fixaram para sempre os aspectos e a paisagem dessa sociedade de fins do século passado. Casas com telhados coloniais; janelas com gelosias românticas; amplas varandas com cadeiras de balanço, com redes preguiçosas, arrastando franjados no assoalho; quintais com uma infinita variedade de árvores, cada vez mais raras: abieiros, caramboleiras, sapotizeiros; salas-de-visitas com lustres e candelabros como jóias cintilantes, espelhos bisotês, estofados rococós; uma quantidade de quadros, salas, corredores, onde os filhos dos senhores brancos andavam de cambulhada com toda uma gama de mulatinhos vivos, filhos das escravas, das mucamas, às vezes com o senhor branco, cuja elástica moral era a do “faça o que eu digo e não o que eu faço...”

O casarão do meu avô Tinoco era, evidentemente, mais recente, mas recendia a sociedade patriarcal, quase ao tempo dos “sinhôs” e das “sinhás”, quando os maridos tratavam respeitosamente as esposas por Vossa Mercê... Lá estava, junto ao quarto de dormir, o oratório dedicado a Nossa Senhora da Conceição, com a candeia de azeite sempre acesa, as jarras com flores, a palha benta.

E a copa e a cozinha, enormes, fervilhantes de empregadas e tias (nesse tempo eu tinha 16!) nos dias de festas, onde pontificava a Maria Cozinheira e seus quitutes! Minha infância está presa à memória pelo paladar. Falar nela é ficar com água na boca, e lembrar-me da hora do lanche, quando a grande mesa da sala-de-jantar (nosso reino encantado!) ficava rodeada por minha avó, tias, primos, primas e suas amigas. Lá estavam os biscoitos de polvilho, os rocamboles, os pãezinhos de minuto, de bolos, as tortas, por entre bules fumegantes de chocolate, café, chá, leite. E nos aniversários e festas vinham os quindins, canudinhos de coco, baba-de-moça, as ameixas recheadas, bolos de nozes, que sei eu?

Sim, ficou-me no coração a nostalgia das casas-grandes, povoadas pelo bulício e a algazarra de tantos parentes e amigos, numa época em que as próprias empregadas como que faziam parte da família também. Até hoje com a carapinha algodoada, ainda vive a Maria Cozinheira, mãe-preta de nossa infância, que recorda com os olhos marejados de lágrimas aquele tempo. E não me esqueci também da Juventina, da Conceição, da Adriana, e até das babás, moças e roliças, que me ajudaram em algumas primeiras “lições de coisas...” Não sei como serão as casas do futuro, cada vez mais apartamentos, ou “apertamentos”. Mas não trocaria, por nada deste mundo, algumas das casas da minha infância, intactas, de pé, nas ruas da memória e do coração.

As casas são como seres que nos envolvem, com suas paredes, nos abrigam e protegem; nos falam; partilham de tantos dos nossos momentos; nos amam e passam, e às vezes morrem, como entes queridos.

Assim ficou o velho casarão de meu avô Tinoco: não como uma casa comum, mas como a lembrança de um primeiro amor, ideal que nunca se esquece e que não morre nunca!

Fonte:
JG de Araujo Jorge. "No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969

Ademar Macedo (Mensagens Poética n. 495)


Uma Trova de Ademar

A minha fé não se abala
e sinto uma força estranha
toda vez que alguém me fala
sobre o sermão da montanha!...
–ADEMAR MACEDO/RN–

Uma Trova Nacional

A mentira mais fingida
que aprendi desde criança,
foi ouvir, que pela vida,
quem espera sempre alcança!
–EDUARDO A. O. TOLEDO/MG–

Uma Trova Potiguar

Gotinhas d'água na aurora
sobre a mata destruída,
traduzem pranto que chora
a Natureza agredida.
–CLARINDO BATISTA/RN–

...E Suas Trovas Ficaram

Pelo tamanho não deves
medir valor de ninguém.
Sendo quatro versos breves
como a trova nos faz bem.
–LUIZ OTÁVIO/RJ–

Uma Trova Premiada

2009 - Cantagalo/RJ
Tema: SERTÃO - 13º Lugar


Este silêncio enlutando
de cinzas o pobre chão...
é a voz do sertão chorando
a morte da plantação.
–VANDA FAGUNDES QUEIROZ/PR–

Simplesmente Poesia

Quem
–ISABEL CÂMARA/MG–


Quem diante do amor
ousa falar do Inferno?
Quem diante do Inferno
ousa falar do Amor?
Ninguém me ama
ninguém me quer
ninguém me chama de Baudelaire.

Estrofe do Dia

Como a onda que bate e deixa espuma
teu encanto chegou de sobressalto
invadindo meu mundo de assalto
como o vento que passa e deia a bruma;
teu sorriso me acalma e me perfuma
transformando meu mundo mais perfeito,
se te amar demais é meu defeito
mas a alma se sente aliviada;
teu olhar é trovejo de invernada
que inunda a vazante do meu peito.
–HÉLIO CRISANTO/RN–

Soneto do Dia

Mocidade Efêmera
–DIAMANTINO FERREIRA/RJ–


Reparaste, algum dia – na fumaça
que de um cigarro evola – em espirais?...
não poderás em breve vê-la mais,
de célere e fugaz que ela esvoaça...

Mas, nesse breve instante, à mente lassa,
quanta saudade e sonhos divinais
que tu não podes esquecer, jamais,
não vêm, enquanto aquele fumo passa!...

E assim, tão breve quanto o fumo, a vida
passa tão rápida e despercebida
que o nascimento e a morte são rivais;

tudo se esvai, tudo sucumbe e passa;
e parte, junto aos rolos de fumaça,
a mocidade – que não volta mais!...

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Alerta Sobre as Postagens

Esta semana, em virtude de que estarei mudando de residência, as postagens poderão ser irregulares. Procurarei ao menos manter uma certa regularidade, dentro do possível das Mensagens Poéticas do Ademar Macedo, para que não fiquem muito desatualizadas.

Espero a compreensão dos leitores do blog, caso ocorra algum dia sem postagem.

Estando instalado na nova residência, volto às postagens normais.

Aproveito este para solicitar aos irmãos trovadores de Minas Gerais que me enviem suas trovas ou dos trovadores mineiros falecidos ou não, para o lançamento do Minas Gerais Trovadoresco.

Obrigado
José Feldman

Paulo Leminski ("Você")


Mário A. J. Zamataro/PR (Livro de Trovas)

A força de uma palavra
semeia uma flor em mim;
palavra, essa pá que lavra
poemas no meu jardim!

A linha esticada e tensa,
na conta era um peixe enorme,
mentira não se dispensa
e a história fica conforme.

Constato em tanto malfeito
neste estado de cobiça:
sobra Estado de Direito,
falta Estado de Justiça!

De amarga não basta a vida,
também quero o chimarrão
(e amigos com quem divida
o que vai no coração).

Eu, ontem, falei de mim,
mas hoje eu tentei falar
das coisas que vão, no fim,
fazer o que foi voltar.

Meu sono fugiu de mim...
Passeio os olhos no breu
da noite que não tem fim...
Procuro-me, sim, sou eu!

No buraco da memória,
cabe muita coisa dentro:
tantas cenas, tanta história...
e eu em quase todas entro!

O dinheiro classifica
nossa escala social,
põe no centro a gente rica,
diz que pobre é marginal...

O Frajola abana o rabo
quando quer ganhar um pão
e rebola assim de lado
dando mais animação!

O tempo medido em anos
não revela o relevante.
Melhor se contado em planos...
Fica mais interessante!

Outro momento e mais um:
a sequência estabelece
se haverá ganho ou nenhum...
Esse é o tempo que acontece...

Para escrever os sentidos,
companheiros da ilusão,
não servem versos contidos:
tem que abrir o coração!

Passei por alguém na rua
que pregava a todo mundo
que a verdade é sempre nua,
e o contrário, mais fecundo!

Quando o passado me invade,
afugento os desenganos,
revivo a doce saudade...
Velhos olhos, novos planos!

Quanto custa? - Perguntei.
E você me disse: um conto!
Não quis desconto e paguei.
Hoje sou dono do ponto!

Quem tem os olhos noturnos,
as sombras todas conhece;
perscruta mundos soturnos,
mesmo em dias de quermesse.

Se a tarde encontra o poente
e a vida vai devagar,
toda maré tem corrente
e a noite é clara ao luar...

(A um falso)
Se curvei, à sua ordem;
se perdi minha coragem;
se me pus entre os que mordem,
faço jus a uma homenagem?

Sem os dons dos jardineiros,
às floreiras me dedico,
e planto versos inteiros
com perfumes que fabrico!

Seu comentário eu aceito,
mas a "responsa" é só sua,
sendo correto e bem feito,
ponha o seu bloco na rua!

Tanto faz se é cedo ou tarde,
se desdenha ou se procura;
silencia, faz alarde,
e maltrata com ternura!

Tenho uma coisa a dizer
a você que não me entende:
ninguém tem nada a vender,
porém, todo mundo vende!

Toda coisa tem limite:
parafuso e até deboche!
Havendo graça que incite,
aperte, mas não arroche.

Toda mudança importante
acontece, paulatina,
ponto a ponto, a cada instante,
cada passo e cada esquina...

Uma gripe um tanto forte
me deixou dias de cama,
mas já tive melhor sorte,
já livrei-me do pijama!

Onde falta massa crítica
é lugar que tem bobagem
Onde tem muita política
é lugar de sacanagem

Ao meu tio Antonio Valentim Rufatto (2 trovas)

Sei que sou só um aprendiz.
Pra saber cada vez mais,
sigo ouvindo quem me diz,
se esse gosta do que faz.
Fonte:
Trovas obtidas no site do autor em http://www.umavirgula.com.br/ 
Navegue em seu site e veja outras trovas, haicais, poemas, etc.

J. G. de Araújo Jorge (Um "Quadro " de Rimbaud)

Escrevi uma vez: um poema, um quadro, uma estátua, uma partitura, existem, têm vida própria, como um organismo, independente do artista que os criou.    Na realidade,  um poema tem sangue, nervos, coração, voz, alma, fala, comove, tal como ser, tal como o próprio homem. Daí um poeta chileno, Vicente Huidobro ter afirmado:

    “Um poema és um poema, tal como uma naranja és uma naranja y no uma manzana.”

A arte é o reverso da grande criação. Deus morre nos homens todos os dias. O artista se eterniza todos dias, em sua obra. O eterno criou o efêmero; o efêmero cria o eterno. Na realidade tudo é eterno e efêmero:  o artista, mortal, cria “seres” eternos; Deus eterno, cria seres  mortais.

Ocorreram-me estas idéias no dia em que me dispus a realizar as primeiras traduções. Preparava os originais da antologia que publicaria com o título de “Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou”.    

Lançaria o primeiro volume, só de sonetos brasileiros,  mas  queria  completar a obra,  com  um  volume de sonetos  estrangeiros.

Nossos leitores têm muito poucas oportunidades de conhecer a poesia de outros povos. Raros podem ler o francês, o inglês, ou mesmo o espanhol. Pedi, pois, a escritores, poetas, meus amigos, que me ajudassem. O que vinha encontrando, já realizado no passado,  pelos poetas românticos  e parnasianos,  era pouco, ou de difícil aceitação.  As traduções encontram-se  eivadas  de preciosismos, palavras mortas, expressões em completo desuso.                                                                  

Desde o momento, entretanto, em que comecei a receber a colaboração de meus amigos, senti-me na obrigação de participar também do livro, não apenas como seu idealizador, mas com alguns trabalhos. Tratava-se de uma experiência inteiramente  nova  para  mim,  mas,  que não se dissesse depois, que eu estava apenas explorando a produção alheia. E pus mãos a obra.                                     

Convenci-me, então, que traduzir é uma tarefa apaixonante. Não se trata de um simples  jogo  de  palavras.Em  sua  realização,  opera-se  uma  verdadeira “reencarnação” literária. Não trocamos apenas o corpo do poema  -suas palavras-,  de  um   idioma  para  outro,  mas  sopramos-lhes  um  novo   espírito,  o nosso, ao tentarmos captar a inspiração do original. E cada poema que sentimos, que se comunica conosco, que de alguma forma se identifica com a nossa sensibilidade, transforma-se num desafio, naquele justo momento em que nos dispomos a trocá- lo por um material diferente, para reconstruí-lo num idioma diverso.                     

Há no trabalho de recriação, todas as alegrias da verdadeira criação.                    

Surpreende-nos a emoção de suas revelações, quando  as vamos  descobrindo, assim como um arqueólogo em suas escavações, saboreando os detalhes do seu achado, um a um, a proporção que o vai vislumbrando.                                          

Foi  o  que  se deu, por   exemplo,  quando  me  dispus  a  escalar  as   alturas rimbausianas, atendendo a um concurso promovido pela página literária de um de nossos matutinos. Tratava-se de traduzir um soneto de Rimbaud; “Lê dormeur du Val”. E a escolha recaira intencionalmente, sobre uma das peças mais difíceis do grande  simbolista,  não  apenas  pela  sua   peculiar semântica poética, mas pela própria complexidade sintática de sua escola literária.                                          

Aceitei o desafio. Estava justamente com a “ mão na massa ”. Mandei a tradução, com um pseudônimo, e afinal para a minha surpresa, “entre mais de mil trabalhos lidos e selecionados”, como acentuou a Comissão julgadora, acabei saindo vencedor.

Eu trabalhava com cuidado. Para me manter, tanto quanto possível, fiel, não apenas à idéia central do soneto, mas à beleza das imagens, e a certos detalhes, indispensáveis à visão do conjunto e ao efeito final. E porque tentei reproduzir o ritmo dos versos, tive que sacrificar alguns elementos clássicos: adotei versos brancos (sem rimas, portanto), e não respeitei a cesura interna dos alexandrinos. No que diz respeito, aliás, a tonicidade, Rimbaud adotou liberdades que eram comuns entre os simbolistas.

Mas o soneto é uma pequena obra-prima. E Rimbaud, nele, não é apenas o poeta, mas  se desdobra  no  músico  e   no  pintor,  pela  sonoridade  de   alguns vocábulos, suas relações dentro dos versos, e pelo colorido do quadro esboçado.

Sim, trata-se de um pequeno quadro, descrito por um passeante, que avista a cena à distância, vai se aproximando encantado, e... o imprevisto final. O leitor o acompanha  despreocupado,  e  participa  da  emoção   do poeta  ante o desfecho surpreendente. Eis o “encontro” com                                                                       
LE DORMEUR DU VAL

C’est un trou de verdure, où chante une rivière
accrochant follement aux herbes des haillons
I’argent, oú le soleil, de la montangne fière
luit. C’est un petit val qui mousse de rayons.

Un soldat jeune, bouche ouverte, tête nue
et la nuque baignant dans le frais cresson bleu,
dort; il est étendu dans l’herbe, sous la nue,
pâle dans son lit vert où la lumière pleut.

Les pieds dans les glaïeuls, il dort. Souriant comme
sourirait un enfant malade, il fait un somme.
Nature, berce-le chaudement: il a froid!

Les parfuns ne font pas frissonner sa narine;
Il dort dans le soleil, la main sur sa poitrine,
tranquile. Il a deux trous rouges au côté droit.
    E a tradução:
O ADORMECIDO DO VALE

É uma clareira verde, onde canta um riacho
prendendo alegremente às ervas seus farrapos
prateados; onde o sol da orgulhosa montanha
brilha. É um verdadeiro a espumar claridades.

Um jovem soldado, a boca aberta, e a cabeça
descoberta a molhar-se na erva fresca, azul,
dorme; está estirado ao chão, a céu aberto,
pálido no seu leito verde, à luz que chora.

Os pés nos lírios roxos, dorme. E sorri como
sorriria uma criança enferma, em sono leve.
Natureza. - aconchega-o bem: êle tem frio!

Os perfumes não mais lhe excitam as narinas;
Dorme ao sol; tem a mão abandonada ao peito.
Dois rubros orifícios sangram-lhe à direita.

Repito: uma tradução é uma estranha e singular “reencarnação” em palavras.

Ninguém discutirá, está claro, que o original é o original, a cópia a cópia, a tradução a tradução. Mas, na medida do possível, quando as figuras de linguagem, as  imagens,  são  reconhecíveis;  quando  as   palavras  comunicam,  e t êm correspondentes nos dicionários; quando suas combinações fixam símbolos e realidades subjetivas universais, sem projeções esotéricas ou hermetismos pessoais,  uma  tradução pode  ser   tentada, de poeta para poeta, com bons resultados. Mas, só entre poetas. Como no caso de uma “transfusão” de sangue, só possível com sangues do mesmo tipo.                                                                 

Então vale a pena tentar.

Fonte:
JG de Araujo Jorge. "No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969

Gladis Deble/RS (Livro de Poemas)

BIOGRAFIA

Se o espelho conservasse as imagens
Eu desfilaria sem roupas
por extensas paisagens
mas o espelho não tem memória.
Não retém o formato dos corpos,
tão pouco devolve o feedback
das histórias vividas.
Da aparência de ontem
nem a sombra,
Na dispersão dos ventos
nenhum oi.
No pequeno infinito
do espelho do meu quarto
cruzo as asas...
Ao descer a cortina
pinto a boca distraída,
Não sei porque fui esquecer
a senha desse acesso.
Só os trevos cultivados
em torno da retina
continuam a gravar
minha biografia.

LÁPIS

Emcaixado confortável
bailando entre meus dedos
grava marcas no papel
este objeto delgado.

Fino lenho preparado
com recheio de grafite
traz a história preservada
torna a arte permanente.

A terna função de escriba
que assumo intuitiva,
não mais me torna cativa
dos sonhos que construí.

Seguindo o velho roteiro
dos sonhos que encoragei
Surgiu o esboço vivo,
no poema me libertei.

Esta pequena varinha
que carrego como fada
vai desenhando o caminho
risca o lápis minha estrada.

A POESIA

A poesia salta da idéia
e cria vida própria.
Sonda lugares fantásticos,
descreve outras paisagens

Percorre distantes países
pensa novas matrizes
dança e reluz
como grão de poeira
projetado na luz.

Descreve trajetória errante
esmiuça sentimentos alheios,
redescobre lugares
que nunca esteve,inventa matizes.
Abraça todos os povos,
faz acordos com o insólito.

A poesia saltitante itinerante
navega na rede,traduz signos gravados
para o mundo ela escapa...
depois de cansado seu corpo de letras,
enroscada na folha como bicho inocente
adormece no livro protegida na capa.

PASTORIL

Apascentei rebanhos nas encostas
conduzi os animais a boa aguada
trouxe ramos de alecrim e flor do campo.
Compuz versos singelos na caverna
junto as cabras espiando o chuvisqueiro
e a neblina pondo a capa na campina.

A luzir a lanterna nos caminhos
rodopiei audaz,desviando o precipício
onde rolam pedras sózinhas no desfiladeiro.

A voz do bosque atraente me chamando
para um encontro mágico na fonte
com água transparente e oração
margeiam musgos, fungos na vertente
santuário verde onde em versos pastoris
esparramei minha canção.

GARATUJAS

Da grafite silenciosa
surgem figuras reais,
rabisco na santa paz
imagens do inconsciente.

O desenho em fragmentos
surge livre no papel
faz deliciosos os momentos
pensando num tal rapaz.

O fundo dessa gravura
de tal forma é texturado
que parece usar recursos
da velha xilogravura.

Rabiscos que crio hoje
tentando fazer desenhos
fugiram pela tangente.
E a imagem que eu queria
desmanchou-se em garatujas
virou pequena poesia.

DAS NAVEGAÇÕES...

Se teu olhar oblíquo descobrisse
a viagem que acontece a revelia
eu nem me atreveria a explicar.

Esfarelo versos na ponta dos dedos
adormeço salpicada de vontades
no afã de te encontrar ...

Acarinho certas verdades
escovo a cabeleira revolta
querendo ancorar conforto.

Desdobrada e solitária
sigo a jornada, embora
navegues em mim

Nunca nós dois atracaremos
nossos barcos para dormir
juntos no mesmo porto.
Fonte:
http://gladisdeblepoesia.blogspot.com/

Gladis Deble

Gladis Cleonice Veloso Deble reside em Bagé, RS. Professora de artes e ativista cultural.

Formada em Educação Artística e Artes Plásticas com Pós-graduação em Arte-educação pela Urcamp-Universidade da Região da Campanha.

Foi presidente da AGA Associação Gaúcha de Arte-educação de 1987 até 1990.

Participou da oficina de Arte dramática do CENARTE da Urcamp.

Realizou projetos para a Secretaria Municipal de Cultura Desporto e Lazer como o 'Passeio Poético por Bagé' destacando os locais históricos da cidade e sua rica arquitetura.

Promoveu atividades culturais com jovens na comunidade da Colônia Nova.

Cultura alemã e gaúcha e características do povo da fronteira,[Uruguai e Brasil] no município de Aceguá.

Peça de teatro 'Nós Aceguá e o Meio Ambiente'.

Publicou seus poemas na Antologia da Poemas a Flor da Pele, lançada em Bento Gonçalves no XVII Congresso Brasileiro de Poesia.

É conselheira do CPERS Centro de Professores do Estado do Rio Grande do Sul.

Tem uma página no site;Poemas a flor da pele.ning, e os blogs;www.danacd.blogspot.com www.gladisdeblepoesia.blogspot.com

Nilto Maciel (A Salvação da Alma)

Constantino acordou sobressaltado. Mais um minuto de sono e chegaria atrasado à igreja. O padre estaria nervoso e seria capaz de o mandar embora.

— Você não se emenda, traste — brigava a mulher.

Aquilo acontecia quase todo dia. Saía da igreja e entrava nas bodegas. E bebia feito uma raposa. Insaciado, antes de ir para casa, Constantino pedia uma garrafa cheia e mandava o bodegueiro anotar a despesa. No fim do mês, quando o padre pagasse o ordenado, saldaria a dívida.

E assim era há muitos anos.

— Cala a boca, mulher — gritava.

E se preparava para sair. Mais um dia de muita labuta naquela igreja imensa e sempre cheia de poeira.

Como todo dia, pôs-se a espanar o altar e seus arredores. Nenhum cisco poderia ficar sobre nada. O padre exigia limpeza total. Padre exigente!

Passou aos bancos onde os fiéis se sentavam e oravam. Sempre havia sujeira. E objetos esquecidos: terços, missais, véus, dinheiro, bilhetes.

Imensa igreja para um homem só zelar. Aquele padre era também mesquinho. Podia arranjar mais um zelador. E pagar ordenado maior.

Ninguém, no entanto, falava mal do padre na cidade. Nem mesmo nas bodegas. Todos preferiam falar de si mesmos, dos vizinhos, dos cachorros de rua...

— Como vai a igreja, Constantino?

Além do altar e dos bancos dos fiéis, havia outros lugares e móveis a limpar. Como os confessionários.

E o cansado zelador abriu a portinhola de um dos confessionários. Olhou para o assento de palha. Nenhuma sujeira aparente. Nenhum cheiro de mofo ou peido. Nada a limpar. No entanto, que bom lugar para descansar! E Constantino sentou-se, puxou a porta, abraçou o espanador. Num minuto, virava padre. Do lado de fora do confessionário uma fiel contava pecados. Nem muito graves nem pouco leves.

— A senhora está perdoada.

— Nenhuma penitência, padre Constantino?

— Sim, a senhora vai limpar a igreja todo dia, até o fim de sua vida.

— E tem pagamento?

— Tem: a salvação de sua alma.

Mal ditou a penitência da pecadora, um berro o acordou:

— Constantino, saia já daí, seu preguiçoso!

Dos olhos do padre saltavam chispas de ódio.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Pescoço de Girafa na Poeira, contos. Brasília: Secretaria de Cultura do Distrito Federal/Bárbara Bela Editora Gráfica, 1999.

Clevane Pessoa em Xeque

Entrevista concedida à Vânia Moreira  para o Jornal/Ecos

Querida amiga Clevane, você nasceu no importante Estado do Rio Grande do Norte, em São José do Mipibu guarda alguma recordação da cidade em que nasceu e gostaria de falar um pouco do período em que viveu lá?

Na verdade, apenas nasci lá, porque meus avós ali estavam: mamãe, que se casara aos quinze anos, por ser a caçula e muito inexperiente, foi dar à luz perto dos pais. Ela e papai moravam em Natal. Mesmo depois de adulta, tendo morado em muitas cidades e Estados, nunca fui lá. Noutro dia, pela Internet, é que a "visitei". Ainda bem pequena, além de Natal, morei em João Pessoa(PB), Japurá(fronteira com a Colômbia),Manaus(AM),Recife(PE) e por último, fomos para a Ilha de Fernando de Noronha, onde, aos cinco anos, fiz minha Primeira Comunhão, na Igrejinha dos Remédios. Da Ilha, lembro-me muito bem e foi dela que viemos para Minas gerais. Completei sete anos ao chegar em Juiz de Fora. Meus pais adoravam mudanças, escolhiam um lugar que os atraía e nos comunicavam. Nós, as crianças, aprendíamos geografia e, naturalmente, um pouco de História, Ciência e Astronomia, ao vivo...Era muito divertido viajar tanto...

Em Belo Horizonte a bela capital mineira, com foi sua chegada e os primeiros anos passados lá?

Vim morar em Belo Horizonte quando casei-me pela segunda vez, com o engenheiro Eduardo Lopes da Silva, em 1979.Aproveitava todo tempo livre para conhecer a cidade, mas estava no último ano de Psicologia, fazia estágios e trabalhava no INAMPS,era muito ocupada.Passei aqui três anos,e quando Gabriel, meu segundo filho completou três meses de vida, fomos para S.Luiz, a Ilha do Amor, terra de Gonçalves Dias,onde passamos seis anos.De lá para S.Paulo e depois para a capital do Pará, Belém.Somente retornei a Belo Horizonte em 1990,parando, por fim , com tantas andanças...Somente agora é que realmente estou conhecendo a cidade...Mas adoro viajar, o costume ficou enraizado em mim.

Gostaria muito que falasse um pouco de sua família e da influência dela em suas decisões futuras?

Minha família era maravilhosa, éramos alegres e talentosos para isto ou aquilo...Tive pais incríveis, avançados para a época, por exemplo, quando a inglesa Mary Quant lançou a minissaia minhas colegas eram recriminadas pela família se a usavam e meu pai mandava encurtar mais," pois o que é bonito, deve-se mostrar". Aprendemos, minha mana Cleone e eu, que a moral não está no modo de vestir apenas... Dançávamos muito-meu pai uma vez foi ao Rio de janeiro aprendeu Twist e fazíamos bailinhos no qual ele e mamãe ensinavam a nova moda às minhas colegas e rapazinhos... Ele comprava-me dezenas de livros, incentivava a leitura mesmo de revistas em quadrinhos, quando a maioria dos adultos decretava que "gibi" fazia mal... Também adoravam Cinema - e os filmes impróprios para menores tinham o enredo contado por mamãe que apenas atenuava as cenas mais fortes. Aos domingos, nos levavam às matinèe, no Cine central em Juiz de Fora... Ela era grande missivista e eu naturalmente, a imitava, correspondia-me com os parentes e amigos distantes, o que me tornou sem preguiça para escrever, desde pequena, longas redações. Papai ensinou-me ortografia .Creio que minha mãe preparou-me, oralmente, para ser escritora. Contava "histórias de Trancoso", cantava todas as músicas que aprendia, sapateava, ensinou-me a declamar. Sou a mais velha de seis: Cleone, Luiz Máximo, Cleber Franck, Nildo Roberto e Lourival Jr. Eles gostavam de ter crianças pequenas em casa e quando um estava grandinho, papai convidava mamãe a arranjar outro nenê, o que ela aceitava alegremente.O filho caçula, Juninho, por ser especial (Síndrome de Down), precisou de mais atenção então as gravidezes acabaram. Também criaram filhas adotivas.

 Meu avô materno, paraibano, era jornalista e poeta. Ensinou-me a versificar. Eu sempre me senti a neta predileta... Mais tarde eu própria, nos Anos de Chumbo, trilhei o jornalismo. A primeira poesia brotou-me aos dez anos, em plena aula...O avô paterno era maestro e adoro música, embora nada toque. Qual a tia Terezinha, irmã de papai, pinto a óleo. Qual o tio Franck, irmão de mamãe, desenho, embora não tinha convivido tanto com eles, por causa das viagens. Somente voltei a natal, onde a minoria reside, já adulta.

Escolheu a psicologia para atuar por mero acaso, por algum fato determinante ou era algo que estava já dentro de você?

Sempre fui escolhida como confidente de pessoas mais velhas às de minha faixa etária.Mamãe tinha esse dom também. Ainda por cima, ela fez-me sua confidente, desde criança...Eu adorava exercer todas as modalidades de jornalismo, mas quando separei-me de meu primeiro marido, o jornalista Messias da Rocha, pai de Cleanton Alessandro, meu primogênito,fiz cursinho e fui da segunda turma de psicologia do CES (Centro de Ensino Superior, em Juiz de Fora),pois o nascimento de Juninho motivou-me mais a fazer Psicologia e ajudá-lo.Sempre fui fascinada pelo comportamento humano, meus personagens não são criações aleatórias e sim explicadas em vários ângulos.Sempre li muito essa matéria, muito antes de cursar a faculdade.O último ano, fiz em Belo Horizonte,na FUMEC, pois me uni ao Eduardo no último semestre do curso.

Quais foram os grandes mestres que lhe fascinaram ?

Jesus Cristo(eu achava que era a queridinha do filho de Deus), meu pai, Sidarta ("Buda"). Depois Ghandi, a garça, Golda Meir, Martin Luther King, Mandela, meus avós...

Tem orgulho consciente e justo da vida que está trilhando?

Fico bastante contente com minhas vitórias, respeito as minhas lutas como um desafio a crescer ainda mais. Não sou vaidosa, quanto a premiações, por exemplo. Acho um golpe de sorte que um determinado texto, preenchendo os requisitos básicos de originalidade, correção ortográfica, tenham um estilo que vá agradar justamente àquele tal corpo de jurados entre tantos outros concorrentes. O contrário pode ocorrer: um escrito perfeito, por ser diferente, desagradar...Quando ganhei o prêmio ex-aequo de Primeiro lugar de conto, nos XXIII Jogos Florais do Algarve, em Portugal, por exemplo, eu ficava sorrindo sozinha: "Primeiro Lugar", repetia, contentíssima. Nem pude ir receber o prêmio, porque não consegui um patrocínio. Na premiação constava uma excursão à zona medieval de Portugal e três dias em Hotel. Para a viagem ficar menos cara, era preciso ficar pelo menos uma semana, então eu teria de arcar com os demais dias de hospedagem. Não houve ONG nem órgão governamental que quisesse ajudar. Disseram, de Brasília, que eu teria de ter entrado pelo menos com quarenta e cinco dias antes, com o pedido, da data da viagem. Mas tentei, até esgotar recursos. Recebi, do Governo do Faro, um prato de bronze lindíssimo, onde atrás agradeciam, à contista brasileira, "a presença entre nós". Devem ter gravado julgando que iria .Com o prato, veio uma grande e pesada Medalha com o rosto de Samora Barros, o poeta homenageado e a coletânea. Todos os prêmios e troféus, valorizo, amo...

 Também tenho a maior alegria de ter trabalhado com população carente, em especial com adolescentes e idosos, famílias, mulheres. Quando fui homenageada na Assembléia Legislativa de Belo Horizonte, no Dia da Mulher, no ano de 2001, já aposentada ,recebi, emocionada, uma placa, mas o que fez-me chorar foi um adulto jovem, de cuja adolescência eu cuidara no Hospital Júlia Kubitscheck, onde criei e coordenei a casa da Criança e do Adolescente, dizer-me, após a cerimônia: "Clevane nenhum de nós que passou por você, deu prá coisa ruim". Na realidade, são todos jovens de bem, líderes e empoderados, em franco progresso ou pobreza digna...


A Revolução de 64 marcou muito sua juventude? Pode relatar algum fato mais doloroso nessa época de incertezas?

Vivi muitas dolorosas experiências, por exemplo, com a prisão de colegas. Um deles, o astrônomo Roberto Guedes era noivo da atriz Marta Sirimarco, que escrevia a coluna de Teatro e foi um horror sabê-lo desaparecido, acompanhar a luta da jovem para conseguir-lhe uma fuga. Muitos anos depois, abri um grande Jornal e lá estava ele, falando de seus queridos astros e estrelas...Muitas pessoas vinham a mim contar torturas, porque papai era militar, tentando ajuda, no entanto ele não compactuou com o regime. Era sargento telegrafista, ficando no seu gabinete, mas quando foi promovido a tenente e teve de sair do casulo, pediu a reforma, mesmo tendo curso até major. Ele, que sempre foi muito bondoso com crianças e animais, adoeceu e teve de ser hospitalizado .Por questões de ética militar, jamais nos contou nada. Eu levava, sem problemas, para almoçar lá em casa, jovens que recolhia, às vezes sem lugar para ir. Um dos lugares onde se escondiam durante o dia, era a galeria de Arte Celina, mantida pela família Bracher, em homenagem à artista morta. Penso que os "milicos", não se lembravam de procurar "subversivos" ali...Muitas vezes, como repórter, fui ameaçada, por exemplo, quando, num evento da Escola Federal de Engenharia, cheguei a um lançamento de livros do Carlos Heitor Cony e do Poerner, com meu amigo Cláudio Augusto de Miranda Sá, fomos recebidos por metralhadoras na mão de jovens PM's. Eu sempre mantinha, nesses momentos críticos, um facies de alienada e nos deixaram ir. Fomos...diretamente para o hotel onde estavam. Fizemos uma entrevista e tanto. Eu sempre publicava tudo. A "Gazeta Comercial", onde escrevia, era a linotipos, então eu ia à gráfica e entregava as matérias diretamente a um linotipista, o Zequinha, de quem era comadre. Quando Rubens Braga, Vinicius de Moraes e Fernando Sabino, bastante reprimidos no Rio, estiveram em Juiz de Fora, o diretor, temeroso das minhas clevanices, disse que não os entrevistasse. Eu queria, inclusive, fotos. Não iria perder a chance de estar com meus ídolos. Liguei então para a redação. Atendeu-me o "Seu" Théo Sobrinho, o dono do jornal. Eu falei: "Seu Theo, o Vinicius chegou". Ele: "Quem o Ministro?" E eu": Sim, o Ministro". O fotógrafo chegou e eu conversei por muito tempo com o trio, ficando encantada porque o Vinicius me elogiou. galante, os longos cabelos, Braga a juventude e Sabino, a "inteligência". O redator chefe, Sr. Paulo Lenz, irmão do diretor, vibrava com minha "coragem", talvez a inconseqüência inocente da juventude...

 Uma vez um advogado pediu-me, cheio de mistérios, que fosse visitar o irmão machucado, fazer-lhe companhia. O rapaz estava engessado, muito ferido, cheio de alucinações. Haviam conseguido retirá-lo, após tortura. Passei uma tarde dando uma de psicóloga, muito antes de entrar nessa faculdade, horrorizada, penalizada...Jamais contei a meus pais essa visita, para não preocupá-los. O pai de uma amiga também desapareceu e quando a mãe dela soube das circunstâncias de sua tortura e morte, urrava, dizendo que o marido era um bom homem e que aquilo era "um insulto de Deus", uma injustiça...Eu, pessoalmente, jamais fui perseguida abertamente, embora sempre tivesse alguém a vigiar-me, em várias circunstâncias.


Como surgiu a literatura de forma definitiva em sua vida?

Penso que já na escola, queria ser escritora, minhas redações iam "para livros de ouro", eram afixadas no pátio, e, em Itajubá, sul de Minas, onde morei dos doze aos dezesseis anos, fui escolhida para redatora -chefe de um jornal da Escola Sagrado Coração de Jesus,( Irmãs da Congregação da Previdência) chamado Voz das Mil Também tive uma crítica literária publicada na revista da congregação. Como uma premonição, chamei-a..."Sapatilhas e Botinas".
 Ao retornar a Juiz de Fora, enviei textos a um concurso de crônicas. Passei dias me torturando, achando que nem os leriam porque os temas eram Operária, Satélite e um outro. Para o primeiro, escrevi sobre o trabalho materno, a mãe, "uma operária completa", em vez de falar das mulheres que trabalhavam nas muitas fábricas existentes na cidade. Sobre "satélite", em vez de falar do espacial, falei de pessoas "puxaquistas militantes", que gravitam na órbita de alguém para favorecer-se. E ganhei o primeiro lugar, troféu Domervilly Nóbrega, com Operária....O radialista, mais tarde professor de jornalismo, José Carlos de Lery Guimarães, clamava pelo programa:" senhor Clevane, por favor, apareça, comunique-se, o segundo e o terceiro lugar já apareceram Precisamos marcar a entrega de prêmios". Cleonice Rainho, se não me engano e Marilda Ladeira, foram classificadas, eram mulheres feitas, escritoras já conhecidas, o que me constrangia. A partir daí, minha carreira de escritora ficou definida Mais tarde, estudei, no Vice- Consulado de Portugal, Literatura Portuguesa, com Cleonice Rainho e lhe contei isso. Ela achou muita graça...Um dia, reuni minhas crônicas e levei às redações dos jornais da cidade. Fui aprovada, escolhi a Gazeta Comercial,, onde ganharia menos, mas poderia fazer "de um tudo". E adorei.


Seu momento de criação vem de algum acontecimento específico ou pode surgir repentinamente?

Às vezes, um personagem chega e se instala, pede-me que conte sua história, insistentemente, fico inquieta enquanto não sento e o imagino, para descrever. Noutras, uma história "lateja" até que a desenvolvo. Não raro, o protagonista muda tudo que eu tinha planejado. Muito observadora, costumo ver acontecências e depois as reconto, com fantasia e criatividade. Não há nenhum método, mas escrever é sempre um prazer, nenhum sofrimento. Se pudesse, escrevia sem parar. Poesias, é só apaixonar-me por uma palavra, que elas se desenrolam da meada poética. É só experenciar uma emoção ou a de outrem, idem...Trovas são mais elaborada, sextilhas e sonetos, idem. Mas transito livremente da poesia concreta ou processo, para os versos brancos, a prosa poética. Gosto tanto de haikais, minipoema e agora Poetrix, como dos longos e das crônicas Na Gazeta Comercial tinha, por exemplo, uma coluna diária, chamada Clevane Comenta e, aos domingos, uma página inteira, de Artes e Letras, onde fazia crítica literária, colocava entrevistas, etc. E era só sobrar espaço, que eu escrevia uma poesia...Só ia lê-la no outro dia, quando saia a tiragem...Quando estou triste, escrevo mais.

Pode citar algum fato curioso envolvendo seu primeiro nome?

Sim, muitos, mas quando eu estava na Gazeta, achavam que eu era homem, mesmo meu nome sendo feminino, a meu ver. À época da minissaia(nos Anos 60), escrevi um artigo na revista "O Lince"(hoje extinta), sobre a nova moda. O desembargador Vasques Filho, de Fortaleza, Ceará, mandou-me longa missiva, de" homem para homem", comentando como se sentia vendo pernas de fora e desejava que "Oxalá as mulheres em breve, passassem a vestir-se como Evas, ou seja, com nada", algo assim. Respondi num papel cor-de-rosa, dizendo-me uma senhorita. A partir daí, nos correspondemos, ele se lembrando da Juiz de Fora que conhecera e mandando-me lindos cartões, pois era aquarelista. Quando eu ia nascer, papai queria um Cleber. Não havia ultra-sonografia, então nasci e ele escreveu numa lista, nomes iniciados por "Cle". mamãe e ele optaram por Clevane, por ser diferente. E tive de ser, à força dessa sinalização... Mamãe, que era parteira, muitas vezes dava seu nome, a pedido das parturientes, às meninas (Terezinha). Quando já havia uma, resolviam dar o meu ou o de minha irmã Cleone. Em sites de busca, já vi algumas "Clevane", todas mais novas que eu. Jamais encontrei pessoalmente, alguma. Curiosamente, meu segundo marido, antes de mim, namorou uma Cleivan... Sou chamada de Cleovane, Cleivane, Clivane,etc. Na Internet há uma poeta Clivânia. Adoro meu nome, que me distingue e marca.

Você nasceu numa cidade pequena do Nordeste e foi criada na tradicionalista Minas Gerais , pelo menos há alguns atrás, contrastando com a atuação de uma escritora, poeta e mulher. Sofreu algum tipo de preconceito?

Nunca experenciei preconceitos, sempre coloquei-me lado a lado com o homem, lutei e luto pelos direitos da Mulher, e a educação que recebi deu-me sempre muita segurança. tanto o Nordeste quanto Minas são tradicionalistas, Meus pais eram rigorosos apenas em certas questões: caráter, honestidade e... virgindade. Acho que fui a" penúltima donzela" até casar-me... O papel da escritora é usar a palavra como sua arma, na defesa do belo, do amor, sim, mas principalmente, em prol das militâncias sociais, das denúncias, dos exemplos edificantes...

Sua vida de psicóloga ajuda na composição de seus "cantos"?

Muitíssimo, porque a pessoa ,com seus significantes e significados, bem como a palavra, instrumento deles, me fascinam e oferecem suas múltiplas faces para a descrição verbo-poética.
O que o desenho, o colorido significou para você e sei que seus leitores gostariam de saber desse seu lado de "artista plástica", entre tantos talentos.

Sempre desenhei, mas foi aos doze anos que comecei a desenhar mulheres, porque uma prima o fazia e eu me encantei quase ludicamente, ao ver que podia representar a figura humana também além as coisas. Uma professora, no Ginásio Estadual de Juiz de fora, Nanci Ventura Campi, recomendou-me a Escola de Belas Artes Antonio Parreiras. Adorei e falei com papai , que imediatamente foi lá sondar o ambiente para sua princesinha, e colocou-me como aluna do presidente, Clério de Souza, que assinava como Pimpinela. Ele, rigoroso, ensinou-me a desenhar em perspectiva, sombra e luz, usando o fusain, o crayon, em papel cinza, que era usado nos açougues para embrulhar carne. Até hoje, o reflexo, a sombra e a luz me fascinam. Meu primeiro livro editado chama-se Sombras feitas de Luz(*).O segundo, Asas de Água, possui quatro ilustrações minhas a bico-de-pena e a capa é de meu filho, Allez Pessoa, que herdou meu dom...Fiz, aos quinze anos, uma tela a óleo com professora, mas saí logo da sua escola,, por não suportar cópia, sem poder criar. Autodidata, a partir daí, fiz muitos quadros, que andam pelos brasis, porque viajei muito. Fiz muitos posterpoemas, para exposições. Meu estilo literário é sempre cheio de nuances, como se eu desenhasse escrevendo.

 Tenho ilustrado livros, criei o Projeto Poesia no Pano, desenhando e escrevendo diretamente em páginas de tecido e montando os livros artesanalmente. Atualmente desenho uma capa e ilustro um livro de contos.

Quem é Clevane Pessoa, a psicóloga, a escritora, a poeta? Conseguiria em algumas frases defini-la?

*A psicóloga: uma pessoa que gosta de - e respeita - pessoas, sem preconceitos, atenta na relação de ajuda, para que cresçam, se modifiquem para ser mais felizes. Luto pela justiça social, pelo empoderamento da mulher, dos direitos humanos, das minorias necessitadas. Gosto de criar dinâmicas de grupo, técnicas para manejo, fazer oficinas, dar palestras. A relação de ajuda faz-me muito feliz.

 *A escritora: sempre a escrevinhar, com mais de dez livros para editar, sem nenhuma perspectiva de parar de criar, um dia...

 *A poeta: minha essência reside no castelo mágico da Poesia. Estou e sou perenemente em/cantada por essa feiticeira do Bem...


Jornal/Ecos- Agradecemos sua linda entrevista e a oportunidade de ouvi-la e de saber um pouco mais de você.

Vânia: a oportunidade que você me deu, aqui no Jornal Ecos, não tem preço: adorei rememorar-me (reenamorar-me de mim ?). Quantas vezes, preocupadas com os outros esquecemos um pouco de nós mesmas? Agora, acabo de reenrolar o fio multicolorido de minha vida, novelo com cinqüenta e sete anos, renovando-o... Agradeço eu, a você e ao Jornal Ecos.

Fonte:
Garganta da Serpente.

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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