Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A. A. de Assis (Estados do Brasil em Trovas) Minas Gerais

José Feldman (Devaneios Poéticos n. 12)


Uma Trova da Dorothy

Entre as mofadas estantes
do museu de minha vida,
choram fantasmas errantes,
buscando a ilusão perdida.
DOROTHY JANSSON MORETTI (SP)
Uma Trova Ecológica de Taubaté

A queimada, tão nociva,
para a terra é uma agressão;
vai-se a floresta nativa,
fica só desolação…
ANGÉLICA VILLELA SANTOS (SP)

Uma Trova Paranaense


Luzes! Músicas! E a mesa
como nunca alguém sonhou!
Mas havia uma tristeza
que eu não sei por onde entrou…
JANSKE SCHLENKER (PR)

Trova Premiada


1965 – I Jogos Florais de Bandeirantes/PR
Tema Nacional: Solidão - 10. lugar


Na quietude costumeira
de muita vida vazia,
solidão é companheira
dos que não têm companhia…
LUIZ OTÁVIO (RJ)

Um Poetrix

obstáculos
ROMILDO AZEVEDO (DF)


São tantos os percalços
Sol, chuva, vento, sereno…
E nós ainda andamos descalços.

Uma Trova do França

Case e estará sossegado
(ao solteiro alguém falou).
Assim fez ele (coitado)
e nunca mais sossegou!…
MARIO BARRETO FRANÇA (PE)
Trovadores que Deixaram Saudade

Querem que eu viva sorrindo,
desejo igual tenho eu;
mas não pode viver rindo
quem de rir já se esqueceu..
CARLOS ESTÊVAM DE OLIVEIRA (PE)

Carlos Estêvam de Oliveira foi um dos maiores pesquisadores brasileiros da cultura indígena. Nasceu em Olinda em 30 de abril de 1880. Formado em Direito, em 1907, pela Faculdade do Recife, foi nomeado promotor público da cidade de Alencar, no Pará, onde começou seus estudos etnográficos. Em 1913 é transferido para Belém. Em 1930 é nomeado diretor do Museu Emílio Goeldi nesta cidade, cargo que exerceu até 1946 quando do seu falecimento.

Foi membro do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico de Pernambuco, do Instituto Histórico do Pará e Ceará, da Academia Paraense de Letras e do Instituto de Estudos Brasileiros com sede em Belém. Poeta, autor de obras literárias e científicas, dedicou-se também ao estudo do folclore brasileiro.

Foi um dos cinco trovadores que lançaram o tradicional livro "Descantes", em 1907.

Um Haikai

Vida em tons pastéis
até encontrar seu olhar.
Paleta de cores.
ELIANA RUIZ JIMENEZ (SC)

Uma Trova do Petrarca


Se ela, afinal, com delícia
te deu a boca a beijar,
com um pouco mais de malícia
tudo o mais hás de alcançar…
PETRARCA MARANHÃO (AM)

Uma Fábula em Versos


O Leão e o Mosquito
JEAN LA FONTAINE (FRANÇA)


"Vai-te, excremento do Orbe, vil insecto!"
(Ao mosquito dizia o leão um dia)
Quando, clamando guerra,
Respondia o mosquito:

— Cuidas que tenho susto, ou faço caso,
De que rei te intitules? Mais potente
É um rei, que tu não és, e eu dou-lhe o amanho,
Que me dá na vontade. — Assim falando.

Trombeta de si mesmo, e seu herói,
Toca a investir, e pondo-se de largo,
Lança as linhas, e atira-se ao pescoço
Do leão, que enlouquece,
Que escuma, e que nos olhos relampeja:
Ruge horrendo, e pavor em roda infunde
Tão rijo, que estremece, e que se esconde
Toda a gente. — E era obra dum mosquito
Tão insólito susto:
Atormenta-o essa esquírola de mosca,
Que ora helfas lhe pica, ora o costado,
Ora lhe entra nas ventas. —
Então lhe sobe ao galarim a sanha,
Então triunfa, e ri do seu contrário.
O invencível, de ver no irado busto,
Que dentes, garras, em lavá-lo em sangue
Seu dever desempenham.
O costado do leão se esfola, e rasga,
Dá num, dá noutro quadril com a cauda estalos.
Fere a mais não poder, com o açoite os ares. —
Desse extremo furor, que o cansa, e quebra.
Fica prostrado e torvo. —
Eis que o mosquito ali blasona ovante;
Qual a investir tocou, vitórias toca,
Pelo Orbe as assoalha,
Pavoneando gira. — Mas no giro
Certa aranha, que estava de emboscada,
De sobressalto o colhe,
E lhe chupa a ufania.

Doutrinas serviçais há nesta fábula.
Eis uma: Que o que mais entre inimigos
Devemos de temer, são muitas vezes
Os mais pequenos deles.
Outra é: Que alguém escapa aos perigos,
Que em menor lance acaba.

Alguma Poesia

Utopia
AFONSO ALVES FRANCISCO(PR)


Pequeno eu sou
grande eu queria ser
ir além do além
além do infinito
ser maior do que os sonhos
de tudo eu saber
um ser tão grande
que não pudesse ser finito.

Estórias do Assis

Julgar é estressante
A.A.de ASSIS (PR)

Nos anos 1960, na efervescência dos primeiros concursos de trovas, rolava entre as más-línguas uma quadra debochada que ninguém sabia de quem era. Dizia assim:

”Ao julgador o desdouro,
quando, ofendendo a poesia,
deixa de fora o tesouro
e as abobrinhas premia...”

– Gracinha, não é?... Mas a coisa não é bem assim. De fato, em alguns casos, o erro é fruto de despreparo mesmo, ou de mau gosto, especialmente quando se premiam chavões ou surradas anedotas. Mas na maioria das vezes o que ocorre é simples cochilo. O julgador recebe aquele montão de trovas, lê, relê, seleciona as que lhe parecem melhores, lê de novo... Seu propósito é realizar um trabalho certinho, sem cometer nenhuma injustiça. Porém ninguém escapa ao risco de passar batido por cima de algum defeito técnico. Empenhado na caça ao tesouro (bons achados), o avaliador muita vez nem percebe, por exemplo, uma cacofonia, uma redundância, uma escorregada na rima, um probleminha ortopédico, uma bobeada na concordância, essas coisinhas aparentemente sem grande importância mas que comprometem o produto. Acaba dando boa nota a uma trova bonita mas fora dos conformes... e só depois de publicado o resultado é que ele vai dar conta do vexame.

Por essas e mais outras é que dá vontade de encarecidamente pedir aos organizadores de concursos: “Por favor, me deixem fora disso... Participar de comissão julgadora é estressante demais!”

Uma Trova do Stefani

Sendo forte, sendo inquieta,
com requintes de magia,
a trova é o cais do poeta
onde se amarra a poesia!
FLÁVIO R. STEFANI (RS)

Um Soneto

Aquele Mesmo Vento
JANSKE NIEMANN SCHLENKER (PR)


Quando ele vinha – aquele vento amigo -
a me chamar com um sussurro doce,
eu já sabia: vem brincar comigo!
E eu me ia leve, qual se brisa fosse…

Quantos momentos divinais me trouxe
aquele nosso passatempo antigo
até que um dia (qual de nós cansou-se?)
a brincadeira fez-se afago… E sigo…

Pelos lugares antes percorridos
caminho ainda: lábios contraídos,
andar sem rumo, olhar de quem padece…

Hoje ele passa – ainda é o mesmo vento -
e após olhar-me só por um momento
passa por mim…e não me reconhece!

Fontes:
seleção por José Feldman

Wagner Marques Lopes / MG (A FAMÍLIA em trovas), parte 6

A Família (pintura de Simon Silva)

Estações da família

Em questões familiares,
tempos amenos se espera:
depois dos mais frios ares,
bons ventos de primavera.

Parente e orgulho

Parente - teste seguro,
renteando nossa paz.
Teremos melhor futuro
livres do orgulho tenaz.

Os rios dos sentimentos

Fontes de vários lugares
formam rios de portento:
unidos, familiares
dão força aos bons sentimentos.

A educação que de fato conta

Olhar grave... Assim era
na educação muita antiga...
Hoje, a palavra sincera,
compreensão, mão amiga.

Fonte:
trovas enviadas pelo autor

domingo, 29 de abril de 2012

Academia de Letras do Brasil (Falecimento do Escritor Paranaense Valter Martins de Toledo)


A Academia de Letras do Brasil (ALB), através de seu Presidente Nacional, Prof. Dr. Mário Carabajal e ALB para o Estado do Paraná, na pessoa do Presidente Pró-tempore, escritor Imortal, Dr. José Feldman, somam-se aos familiares, amigos e leitores do Confrade, escritor Imortal VALTER MARTINS DE TOLEDO, ocupante da Cadeira n. 4 da Academia de Letras do Brasil/Paraná, Patrono: Ildefonso Pereira Correia, Barão do Serro Azul. Seu falecimento ocorreu às 6 horas da manhã do dia de hoje, 29 de abril de 2012, em Curitiba. O velório realiza-se no Tribunal de Justiça do Paraná, Av. Cândido de Abreu, ao lado da Assembléia Legislativa do Paraná, a partir das 18 horas

Valter Martins de Toledo
Formado em Direito e Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), autor do projeto “Exercício da Cidadania”.

Era Magistrado aposentado do Tribunal de Justiça do Paraná. Conciliador voluntário do Núcleo de Conciliação do Egrégio Tribunal de Justiça do Estado do Paraná.

Membro:
Academia de Cultura de Curitiba,
Academia de Cultura do Paraná, com sede em Londrina
Centro de Letras do Paraná,
Academia de Artes,
Academia Sul Brasileira de Letras,
fundador e presidente da Academia Paranaense de Letras Maçônicas, no período de 1996 a 2006.
Academia de Letras do Brasil pelo Paraná
entre outros.

Condecorações:
Membro Honorário da Força Aérea Brasileira
Medalha do “Mérito Santos Dumont” da FAB.

A. A. de Assis (Estados do Brasil em Trovas) Mato Grosso do Sul

José Feldman (Devaneios Poéticos n. 11)


Uma Trova Do Assis

Prometi-lhe, amada minha,
mil estrelas, as mais belas.
Bobagem…Você sozinha
brilha mais que todas elas!
A. A. de ASSIS (PR)

Uma Trova de Nova Friburgo


Foi um erro, reconheço,
o nosso medo de amar…
E hoje pagamos o preço
por nosso medo de errar!…
RODOPLHO ABBUD (RJ)

Uma Trova Paranaense


Poeta não faz escolha,
desafia qualquer tema,
desdobra folha por folha
e compõe o seu poema.
DARI PEREIRA (PR)

Trova Premiada


1988 – Certame de Trovas Adelmar Tavares – UBT/SP
Tema Nacional: Castelo - Vencedor


Neste alaúde singelo,
dedilhando sons tristonhos,
vou, de castelo em castelo,
cantando em trovas meus sonhos.
VASQUES FILHO (CE)

Um Poetrix

nu divã
ROONALDO RIBEIRO JACOBINA (BA)


Id ao divã divagar
Vã tentativa
de voar

Uma Trova do Prof. Garcia

Em cada verso que eu faço,
brota uma trova, uma flor,
e em cada flor, o regaço
de quatro versos de amor.
PROF. GARCIA (RN)

Trovadores que Deixaram Saudade


Não há quem se esforce à toa,
é rotina o desafio,
sendo a vida uma canoa
que atravessa o grande rio.”
FERNANDO VASCONCELOS (PR)

2 de setembro de 1937 (Diamantina/MG) - 17 de abril de 2010 (Ponta Grossa/PR)

Fernando Vasconcelos (Fernando Silvio Roque de Vasconcelos), jornalista e publicitário, mineiro de Diamantina e paranaense de Ponta Grossa.

Filho de Sandoval Roque dos Santos e Maria de Lurdes de Vasconcelos Roque (poética Tia Velha), casado com Jelena Ruta e sete filhos e três netos.

Recebeu várias honrarias do poder público e da iniciativa privada, entre os quais
Título Cultural
Placa do Mérito Regional
Prêmio Rotary 98/área de Artes
Placa Homenagem por Incansável Jornada Literária (Sesc)

Título de Cidadão Ponta-Grossense (Lei 3.207 de 11/12/1979),
Mérito Leonístico Putanqui - Cultural,
Honra ao Mérito do Rotary Club 2009.

Pertence a dezenas de entidades culturais, inclusive em Portugal, sendo o vice-presidente da Academia de Letras dos Campos Gerais.
Conta com 170 premiações literárias nacionais e internacionais.

São seus livros publicados:
– Pequena Consciência (1974) ;- As Narrativas de Nhô Fela (1983) ; - Nos Espaços D'Alma (1985) ; - Êta Vida Besta, Sô! - (1990) ; - Estou Nascendo Para a Trova (1994) ; - Pô, Meu! (1995) ; - A Danadinha da Crase ( 1997) ; - Da Cacimba do Coração (1998) ; - Fiapico (1998) ; – Abaretama - a sedução do guerreiro (1999) ; - Os Pombinhos do Deus Tupã (2003) ; - Eu Conto (2004) ; - Gotinhas de Orvalho (2005) ; - Branduras (2007).


Um Haikai

Primavera
CLICIE PONTES (SP)


Calmo entardecer —
Revoada de beija-flôres
alegra o jardim...

Uma Trova da Sara Josefina

O imortal trovador
Luiz Otávio nos ensina
somente onde existe amor
a poesia não termina
Sara Josefina de Souza [14 anos] (PR)

Uma Fábula em Versos

O Lobo Pleiteando Contra o Raposo Perante o Macaco
JEAN LA FONTAINE (FRANÇA)


Queixou-se uma vez o lobo
De que se via roubado,
E um mau vizinho raposo
Foi deste roubo acusado.

Perante o mono foi logo
O réu pelo autor levado,
E ali se expôs a querela
Sem escrivão, nem letrado.

"À porta da minha fuma.
Dizia o lobo enraivado.
Pegadas deste gatuno
Tenho na terra observado."

Dizia o réu em defesa:
"Tu, que és ladrão refinado!
O que, se vives de roubos.
Podia eu ter-te furtado?

— Furtaste! — Mentes! — Não minto!
Questões, gritos, muito enfado.
Já do severo juiz
Tinham a testa azoado.

Nunca Têmis vira um pleito
Tão dúbio, tão intrincado!
Nem que pelos litigantes
Fosse tão bem manejado.

Mas da malícia dos dois
Instruído o magistrado,
Lhes disse: "Há tempo que estou
De quem vós sois informado:

Portanto, em custas em dobro
Seja um e outro multado,
E tanto o réu como o autor,
Por três anos degredado".

Dando por paus e por pedras
O mono tinha assentado,
Que sempre acerta o juiz,
Quando condena um malvado.

Uma Estória da Trova

Jogos Florais de Niterói…Reunião para a seleção das trovas recebidas. As trovas vão sendo lidas e os trovadores dizem que “sim” ou que “não”. De repente aparece:

A chuva qual se escutasse
o que em pensamento eu disse,
passou, pra que ela chegasse,
firmou, pra que não partisse…

O Izo, dando um pulo, grita:
“Sim! Sim! Sim! É linda !!!”
A Manita esbraveja:
– “DE jeito nenhum! Não!!! Tem dois “pras”!
O Izo retruca:
– “Podia ter até dez “pras”! É linda!!!”
Depois de muita discussão a Trova fica.
No dia da apuração ela recebe Menção Honrosa, e a Manita continua protestando:
– “Tá vendo! Agora ela vai para o livro de premiadas dos Jogos Florais de Niterói!”
O Izo vibra e faz questão de abrir o envelope e identificar o autor… O nome é de: J. G. Pires de Mello, nada mais, nada menos que… o irmão de Manita!!!
Nem por isto ela se deu por achada, continuou protestando contra a premiação…


Alguma Poesia

Vai ao Encontro
AGENIR LEONARDO VICTOR (PR)


Essa pressa é sua.
Vai ao encontro sem espera
Parece que tudo é tão calmo, mas não é!
O mundo é um agito só.
Um corre-corre interminável
Chega noite e volta manhã
Quantos problemas que não se acabam
É bom parar para pensar!
E no outro mundo, como será?
Espero ser bem melhor que esse!
Aqui as pessoas vivem no mesmo teto,
Num céu criado por Deus
Mas, ainda não chegaram à conclusão
Que esse teto lindo azul, nublado
Ensolarado, enluarado ou estrelado
Também não é seu!

Uma Trova do Manicardi

Maringá do sertanejo,
da viola e do violão,
cidade linda que vejo
nascida de uma canção.
ANTONIO MARIO MANICARDI (PR)

Um Soneto

De Bem com a Vida
ARMANDO BETTINARDI (PR)


Na minha rua há um menininho doente.
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o sapateiro bater sola.

Ouve também o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola.
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento que ele tem se evola. . .

Mas nesta rua há um operário triste:
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe.

Ele trabalha silenciosamente. . .
E está compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente.

Fontes:
seleção por José Feldman

Wagner Marques Lopes /MG (A FAMÍLIA em trovas), parte 5

A Família (pintura de Tarsila do Amaral)

Família cristianizada

Família cristianizada -
que adota e vive as virtudes -
é o bem ganhando a empreitada
pelos caminhos mais rudes.

Notícia para o grupo familiar

Um viver abençoado
no qual de fato confio:
se o grupo põe mão no arado,
vence o passado sombrio.

A família na ação social

A vida ganha sentido,
expressão, muita beleza,
quando o pão é repartido
muito além de nossas mesas.

Parentela e paciência

Paciência! - eis a senha!
Renovação das mais ricas:
tem domínio quem se empenha -
largando o ódio e futricas…

Fonte:
trovas enviadas pelo autor

sábado, 28 de abril de 2012

Errata

Nos Devaneios Poéticos n.6, no Soneto do dia, houve um pequeno erro de digitação no nome do autor, que está sendo corrigido no blog.

Onde constava Cecil Calixto,
o correto é Cecim Calixto.

Perdoe a falha.

J.Feldman

A. A. de Assis (Estados do Brasil em Trovas) Mato Grosso

Wagner Marques Lopes/MG (A FAMÍLIA em trovas) parte 4

Pintura de Lasar Segall (A Família)

Agregando riqueza

Quando a família descobre
a trilha certa do bem,
todo o viver se faz nobre,
mais riqueza ela detém.

Na sustentação da família

No núcleo familiar,
um só farol alumia:
aquele que sabe amar
e mais dispensa alegria.

Ternura

Atenção, boa palavra
no meio familiar -
gestos ternos de quem lavra
nas terras do verbo amar.

Rebelde sem causa

A mãe se faz conselheira
para um filho todo dia,
que ao repetir tanta asneira,
sofre mais... Por rebeldia.

Fonte:
trovas enviadas pelo autor

Ialmar Pio Schneider (Soneto a Alberto de Oliveira)


– Aniversário de nascimento do poeta : 28.4.1857.

Para escrever este soneto agora
e render homenagem ao poeta,
que foi dos mais românticos, outrora,
empunho a lira mágica e discreta...

Pois quem do “Vaso Grego” foi esteta
e fez versos que o tempo não descora,
foi muito mais além, foi um profeta
que aqui permaneceu sem ir embora...

E quando, enfim, a lira já quebrada,
tomou-a onde a deixou dependurada
ao vento, entoa um hino de louvor,

escutam-se canções na voz sentida
do velho sino, que a rezar convida,
a todos os que tem um grande amor...

Fonte:
Soneto enviado pelo autor

Aécio Nordman Lopes Cavalcante (Livro de Sonetos)


SONETO A UMA PRINCIPIANTE

Os versos teus, tão dolentes,
(Por Deus, como não minto)
Por serem tudo o que sentes,
Não são mais do que eu sinto;

Que se vês alegre e extinto
De pranto e ranger de dentes
O peito meu - antes recinto
Das chagas mais maldizentes,

É que esse peito teu, criança,
Era alheio ao mal que se sente
Quando mal se vai a esperança;

E o meu, se sorri de repente,
É que esconde os ais da lança,
Dentro de um coração dormente!

ENTRE CACHORRO E GATO

Fosse eu um mágico, em um estranho truque
Roubava, do King, os olhos; do Kicão, o pêlo;
Do Tuli, a fome; e o cheirinho do Baruque,
De tudo eu faria, para eternamente tê-lo.

Tirava-me de vez da cartola e do smoke,
E de tudo o que antes fora, longe de sê-lo,
Eu iria a latir e a miar, e a mais querê-lo
Longe de mim, para do que sou mais lucre...

Quem sabe assim, se entre cachorro e gato,
Fosse eu ser-te o eterno guardião eleito,
A cheirar, do solo, a sola do teu sapato.

Mas, ai! Como me dói a idealização do feito!
Vai-te-me sonho! Não me sejas tão insensato,
Que trocar-me não posso o coração do peito!

A MINHA JURA

Ontem eu jurei: nunca mais hei eu
De amá-la! Tampouco querer vê-la!
Ela é para mim como uma estrela
Que já não brilha porque já morreu.

Seguirei meu caminho mesmo sem ela...
Posso lembrar que um dia lhe pertenceu
Todo este amor que sufoca o meu
Peito, mas contente e longe dela.

Isso eu jurei ontem, porque ainda
Hoje cedo minha vista quis revê-la,
E, louca, a procurou em busca infinda...

E o meu amor, que jamais atura
Um instante sequer sem merecê-la,
Hoje me fez quebrar a minha jura!

EIS O POETA

Tive de amar Joana, para amar Dolores;
Meu grito de amor, guardar bem quedo;
Ando mui lento, mas se avisto horrores,
Corro mil léguas, que não sou de enredo;

Sorrio ao inimigo que me apronta dores,
Tranco-me ao amigo que se faz de ledo;
Não sou nacional, por estar tão cedo,
E sou nacional, por sufocar rancores;

Por ti, leitor, vou de escravo a amo;
Quando em vida, dou milhões de flores,
Quando em morte, não aceito um ramo;

Em toca de santo eu não ponho o dedo;
O que mais detesto é o que mais amo,
E o que mais temo... é o medo.

SONETO A UM AMIGO HERÓI

Fraco guerreiro, já sem fé e sem trilho,
Descrido por todos nas feições do porte,
Eis que surgiste dos bordões da morte,
A gritar: “vencer!” - o teu só estribilho.

E deixaste lar, pátria, mulher e filho...
Em tua mente otimista, sorrias da sorte:
“- Hei de vencer, como só vence um forte:
Com coragem e bravura e garra e brilho!...”

E marchaste então à luta, grande soldado,
Sem corcel e sem escudo, tendo apenas
Por arma, a esperança no ideal traçado.

Foste e venceste, e tuas feições serenas
É incentivo maior ao viajor cansado,
Que não alcança na luta a razão das penas!

SONETO DA FALSA EXPRESSÃO

Se abro da pena e traço-te estes versos
No louco afã de decantar meu amor,
É que, afogado entre pranto e dor,
Quero afastar-me d’alma os ais imersos.

Mas na ânsia de dizer-te o quanto for,
Peco nos ditos, que os vês inversos
E frágeis, e de tão maus e reversos
Põem falso o poema que te vou compor.

Nem sei o que te diga, e sinto, e penso
Que por mais que eu t’o pinte infinito,
Minto; o meu amor é bem mais intenso.

Para o ter, não basta um frasear bonito,
Que há, nas palavras, o final tão denso,
E há, no amor, sempre algo pra ser dito!

SONETO A UMA MULHER BRIGUENTA

Dou toque-e-retoques sem achar-te o jeito
De veres-me perfeito nesses teus ciúmes:
Se avisto os cumes, estufas-te o peito,
E me pões afeito ao fedor de estrumes...

Nada te faço sem que, apressada, arrumes
Fingidos queixumes com arte e despeito:
Dou-te o direito a sentires-me ciúmes,
Dares-me aos perfumes o mais vil defeito;

Que eu, bem é certo, ouvir-te-ei calado
O injusto ralhar, e alheio ao meu enfado,
Estender-te-ei a mão para mais um bolo.

E se passo, de ti, indiferente a tudo,
Nem sequer percebes, do meu ódio mudo,
O quanto sou sábio em me fazer de tolo!

SONETO DO DESENCANTO

Ontem, quando pela primeira vez
Vi-te ali prostada ao pé de mim,
Sem a dúvida cruel do teu “talvez”,
Sem a negação do teu próprio “sim”,

Fitei então com tamanha altivez
Tua face roxo-clara de cetim,
Que todo o teu encanto se desfez
E pude constatar, surpreso, enfim,

Que não eras visão, mas carne e osso;
E a veste que te cobria, do mesmo pano
Que sempre cobriu o meu corpo de moço.

Eras mais uma Maria (morto o engano)
Com os pés em terra, incapaz de dano,
A puxar um cãozinho pelo pescoço.

SONETO DA BUSCA DA FELICIDADE

Seguindo sempre a atraente senda,
Fui-te, felicidade, com a fama:
Sempre mais alto do odor da lama,
Cri teu corpo por detrás da venda.

Oh! dor de ver tão cheia esta tenda
De tudo o que é belo e se mais ama,
E só ouvir o som que se derrama
Por vasta fenda de invisível fenda!

Cerra os meus olhos do vazio aberto
Aonde vai a estrela pueril e errante;
Sana, ó destino, cavaleiro incerto,

Da vida, a realidade ora jorrante:
A dor de vê-la cada vez mais perto,
E tê-la cada vez mais distante!

SONETO A OLAVO BILAC

“Príncipe dos Poetas” - o eterno eleito
De todos foste, brasileiro e forte,
A cantar, em gloriosa lira, o peito
Em dores mil, sem que da dor suporte

Os ferrões... E eu nada sou, que malfeito
É-me o estilo, e de desprezível porte
Ante o teu estilo, que, já sem jeito,
Maldigo, do saber, minha pouca sorte

De nunca achar em verso meu o estilo
Mais justo para as mágoas que abrigo,
E só compor-me verso como viste:

Sem perícia; que me acho, ao redigi-lo,
Pequeno ante as glórias que conseguiste,
E grande ante as glórias que não consigo!

Fonte:
http://www.sonetos.com.br/meulivro.php?a=83&x=15&y=8

Olivaldo Júnior (Cristais Poéticos)


COMPENSAÇÃO

Não tinha nome,
mas tinha fome.

Não tinha casa,
mas tinha asa.

Não tinha onde,
mas tinha aonde.

Não tinha graça,
mas tinha a praça.

Não tinha hoje,
mas tinha ontem.

CHUVINHA FINA

Não é chuva forte,
mas chuvinha fina.

A chuvinha fina,
que, mansinha, escorre
e concorre ao mar.

Folha a folha, molha,
a chuvinha fina.

A chuvinha fina,
que, sozinha, escolhe
onde ser e estar.

Não é chuva forte,
mas chuvinha fina.

DESCOBRIR
(Poema ao Descobrimento de um Brasil não descoberto)

Um Brasil não descoberto,
todo dia, pela tela,
aparece em minha casa
e me leva.

Um Brasil não descoberto,
toda noite, na novela,
aparece em minha casa
e me vela.

Um Brasil não descoberto,
toda tarde, pela tela,
aparece em minha casa,
cara cela.

Um Brasil não descoberto
sente falta de Cabral,
aparece em minha casa
num canal.

Um Brasil não descoberto
comemora o Carnaval,
aparece em minha casa
num jornal.

Um Brasil não descoberto,
todo dia, se revela.

Um Brasil não descoberto
sente muito e passa mal.

DUPLO SENTIDO

Minha vida está vazia,
foi-se embora de uma vez.

Foi-se agora a fantasia,
não se vê nenhum talvez.

Minha vida está vadia,
foi-se embora ao fim do mês.

Foi-se agora a poesia,
não se vê ninguém feliz.

Minha vida está vazia,
foi-se embora a cicatriz.

Foi-se agora a letargia,
não se tem sequer um bis.

Minha vida está vadia,
foi-se embora como nós.

Foi-se agora a nostalgia,
não se fica mais a sós.

Minha vida está vazia,
já se encheu de Mario Bros.

Foi-se agora a companhia,
não se liga mais a luz.

Minha vida está vadia,
foi-se embora com Jesus.

Foi-se agora o que existia,
mas existe a minha cruz.

Minha vida está vazia,
mas preenche seu lugar.

Fonte:
Poemas enviados pelo autor

Roda de Leitura (5 de Maio, em Guarulhos/SP)


sábado, 5 de Maio de 2012

Das 15h até 17h

Grátis

Biblioteca Comunitária do Coletivo 308
- Rua Paschoalina Migliorini, 121, Ponte Grande, Guarulhos/SP
(Próximo ao E. E. Dom Paulo Rolim Loureiro)


CICLO DISTOPIAS

Dando prosseguimento ao Ciclo Distopias, no mês de maio faremos a discussão da leitura de A REVOLUÇÃO DOS BICHOS, de George Orwell, publicado originalmente em 1945.

Mediação de Lucia Sasaki, bibliotecária, contadora de histórias e mediadora de Rodas de Leitura desde 2008.

É importante que os interessados compareçam com a leitura individual já realizada para facilitar as discussões a respeito do livro, que pode ser emprestado nas bibliotecas públicas.

O projeto Roda de Leitura visa oferecer ao público a oportunidade de leitura e discussão mediada de obras literárias.

Fonte:
Clevane Pessoa

Clevane Pessoa (Das Livrarias)


Livrarias são guardiãs temporárias
da Cultura Literária.

Quando as luzes se apagam, saem das páginas adormecidas
toda a Vida ali guardada:estórias, História e pesonagem,
vêm graves ou lépidos ,
conversar, cantarolar, trocar idéias.
Dançam sílfides e fadas,
feiticeiras espalham filtros e magia.
Por isso, as livrarias são encantadas, sempre.

As livrarias são as guardiãs responsáveis
da cultura de um lugar, do Universo,
dos autores e leitores.

E quando vendem Poesia,
estendem um tapete de alegoria
estampado de metáforas.

Mesmo o poema mais metonímico,
mais mínimo,
sempre será anímico
e pleno de parábolas,
chamamentos e sinalizações.
Atinge a alma, com dardos de flores
e perfuma os ares.

A Poesia, é a essência da literatura.

E o livreiro que a elege,
uma alma que a depura
e expõe a quintessência
da palavra.

Fonte:
Poema enviado pela autora

Clube de Escritores de Ipatinga (Premiação e Lançamento de Coletânea, dia 5 de Maio)

clique sobre a imagem para melhor visualização
Mais uma vez, o Clube de Escritores de Ipatinga nos brinda com uma antologia.

A poeta Marília Siqueira Lacerda organiza certames -inclusive o respeitado CECON_Circuito Estadual de Contos - o jornal da entidade, divulga livros, enfim ,bastante movimentação cultural, agregadora por natureza.

Será dia 05 de maio, haverá a premiação do 11o Circuito de Literatura e a entrega das coletâneas, cuja impressão sempre agrada ao olhar.

A partir das 20 horas, no Centro Cultural USIMINAs. Ipatinga fica no "Vale do Aço", em Minas Gerais, Brasil.

85 escritores nacionais:

A. Zarfeg
Adriano Alcantara
Aglaé Torres
Agnaldo Tadeu
Alzira Umbelino
Amélia Luz
Andreia Donadon Leal
Angela Togeiro
Angélica Vaccarini
Antônio de Oliveira
Antônio Geraldo
Aroldo Chagas
Braz Henriques
Carlos Alberto Cavalcanti
Carlos Soares de Oliveira
Cesar Cardoso
César Teixeira
Chames Salles Rolim
Cida Pinho
Cirlena Costa
Clara Lúcia
Clauder Arcanjo
Cláudia Bergo
Clevane Pessoa
Dalva Abrahão
Daniel Retamoso
Dércio Braúna
Désio Cafiero Filho
Éder Rodrigues
Édson Roberto
Elza Teixeira de Freitas
Erna Pidner
Eustáquio Gorgone
Fabrício Gortes
France Gripp
Frederico Spada
Gabriel Bicalho
Geraldo Dias Cruz
Geraldo Magela
Goretti de Freitas
Hebe Rôla
Humberto Venuto
J.B.Donadon-Leal
Jefferson Silveira
Jhonatan Oliveira
João Batista Trevenzoli
José Carlos Aragão
José Di Lorenzo Serpa
José Manuel
José Senaldoria
J.S.Ferreira
Kelson Oliveira
Lázaro Barreto
Lenemar Calhau
Ligia Porto
Lúcia Trevenzoli
Luiz Dias Vasconcelos
Luis Pimentel
Marcelo Leite
Marcelo Rocha
Márcia De Conti
Maria Helena Camargos
Marilda Ladeira
Marilia Siqueira Lacerda
Mário Roberto
Marta Miranda
Merivaldo Pinheiro
Moacir Chrisóstomo
Nélio Canêdo
Nely Morato
Nena de Castro
Nivaldo Resende
Odemir Tex Júnior
Pérola Gandra
Romero Lamego
Santos Peres
Sebastião Nascimento
Simone Eberle
Tanussi Cardoso
Vagner Canuto
Vanda Gallinari
Valdir Azambuja
Vanderlei Lourenço
Zarife Selim de Salles

Visitem o site do CLESI:
www.clesi.com.br

Fonte:
Clevane Pessoa (Haruko)
Diretora Regional do InBrasCi em belo Horioznte
Acadêmica Fundadora da ALB/Mariana.

Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato, SP/SP (Teatro Infantil: Apresentação de "Lado de Lá")


Com Cia Luarnoar

O infantil relata um pouco das histórias africanas contadas a partir das curiosidades e das observações que este povo faz na natureza. Como, por exemplo: Por que a girafa não fala, por que o morcego só sai à noite, por que o cachorro se tornou um fiel amigo do homem...

Esses questionamentos e inquietações viraram lendas, que revelam a riqueza do povo africano.

Livre.

50 min.

2 de maio (qua) – 14h30

Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato

Fonte:
Secretaria Municipal de Cultura de SP

Vivaldo Terres / SC (Não Sei Por Que lembro?)


Não sei por que lembro agora?
Quando vinhas da escola
Sorrindo a cantarolar.
Com a mochila as costas...
Fazendo zigue e zague.
Para das pedrinhas
Te livrar.

Isso porque tu jogavas...
Nas colegas com o fito...
...de brincar.
E elas faziam o mesmo,
Felizes a caminhar.

Mas durante o trajeto.
Não deixavas de me olhar.
Foi coisa de adolescente...
Mas que te amei...
...loucamente!
Isso não podes negar!

O tempo passou.
Fosses para outra cidade.
Visando um futuro melhor.

Durante esse tempo...
Muita coisa aconteceu.
Foi fácil de me esqueceres...
Pois só quem amou fui eu!

Fonte:
Poema enviado pelo autor

Fernando Sabino (O Agrônomo Suíço)


O poeta estava calmamente no bar, tomando um aperitivo, quando lhe telefonaram.

Quem o chamava era eu. O poeta não tem telefone em casa e há dias que eu o vinha procurando: a menos que me tivesse enganado, ele sabia de um amigo seu que conhecia um agrônomo suíço, interessado em administrar fazendas. Ora, outro amigo meu, a quem dei conhecimento da existência desse suíço, me disse que estava precisando exatamente de uma pessoa assim. E me pediu que conseguisse maiores informações com o poeta.

No bar, àquela hora, fazia um barulho infernal. O poeta veio ao telefone e mal conseguiu ouvir o meu nome:

- Quem?

- Eu, rapaz! Então não está conhecendo a minha voz?

- Eu quem?

Levou uns bons cinco minutos para descobrir com quem estava falando. Talvez já tivesse tomado mais de um aperitivo, é possível.

- Que houve? Aconteceu alguma coisa?

Eu mal conseguia escutá-lo e ele não me ouvia de todo:

- Você se lembra daquele agrônomo que um conhecido seu…

- Daquele o quê?

- Daquele AGRÔNOMO!

- Você está enganado, não conheço ninguém com esse nome.

- Eu nem falei ainda o nome dele! É um suíço.

- Luís?

- SUÍÇO! Você um dia me falou...

- Não conheço nenhum Luís. Eu estava pensando que ...

- Fale mais alto! Sua voz está sumindo.

- Não, estou por aí mesmo... Você é que anda sumido.

Respirei fundo e voltei à carga:

- Eu sei que você não conhece o suíço. Um conhecido seu é que conhece.

- Escuta, que brincadeira é essa? Eu estava aqui tomando o meu uísque...

- Desculpe incomodá-lo no bar, mas você não tem telefone em casa...

- Não tem importância. Só que está parecendo brincadeira. Entendi você falar num suíço...

- Isso!

- Isso? Ah, eu tinha entendido suíço, imagine.

- Pois é isso mesmo, quer dizer: é suíço mesmo. O homem está em cima de mim para arranjar...

- Que homem? Não estou entendendo nada, muito barulho aqui.

- Um amigo meu, você não conhece. Está precisando de um agrônomo para a fazenda dele.

- Fazendo o quê?

Perdi a paciência:

- Olha, telefona para minha casa amanhã de manhã, está bem?

Mas o poeta agora estava interessado:

- Não precisa se zangar! Aconteceu alguma coisa com você?

- Conversar com bêbado dá é nisso.

- Você está bêbado?

- Bêbado está você, essa é boa!

- Espera! Entendi direitinho você falar que estava bêbado. Deve ser o barulho. Espera um pouco. Ouvi pelo fone sua voz para os que o rodeavam:

- Vocês aí, querem fazer o favor de falar um pouco mais baixo? Um amigo meu está em dificuldades, e eu não escuto nada.

De novo para mim:

- Alô! Pode falar agora que estou ouvindo perfeitamente. Você está precisando de alguma coisa?

- Estou: que você me telefone amanhã de manhã. E desliguei. No dia seguinte era ele quem me procurava:

- Você talvez não se lembre, mas ontem eu estava calmamente no bar, tomando um aperitivo, quando você me telefonou no maior pileque para me contar que estava sendo perseguido por um sujeito chamado Luís. Que você quis dizer com isso?

- Isso, não: suíço - arrematei.

Fonte:
Para gostar de ler. Vol. 3. SP: Ed. Ática, 1978.

Clarice Lispector (A Quinta História)


Esta história poderia chamar-se “As Estátuas”. Outro nome possível é “O Assassinato”. E também “Como Matar Baratas”. Farei então pelo menos três histórias, verdadeiras porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.

A primeira, “Como Matar Baratas”, começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matá-las. Que misturasse em partes iguais açúcar, farinha e gesso. A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de-dentro delas. Assim fiz. Morreram.

A outra história é a primeira mesmo e chama-se “O Assassinato”. Começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me. Segue-se a receita. E então entra o assassinato. A verdade é que só em abstrato me havia queixado de baratas, que nem minhas eram: pertenciam ao andar térreo e escalavam os canos do edifício até o nosso lar. Só na hora de preparar a mistura é que elas se tornaram minhas também. Em nosso nome, então, comecei a medir e pesar ingredientes numa concentração um pouco mais intensa. Um vago rancor me tomara, um senso de ultraje. De dia as baratas eram invisíveis e ninguém acreditaria no mal secreto que roía casa tão tranqüila. Mas se elas, como os males secretos, dormiam de dia, ali estava eu a preparar-lhes o veneno da noite. Meticulosa, ardente, eu aviava o elixir da longa morte. Um medo excitado e meu próprio mal secreto me guiavam. Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe. Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha. E eis que a receita estava pronta, tão branca. Como para baratas espertas como eu, espalhei habilmente o pó até que este mais parecia fazer parte da natureza. De minha cama, no silêncio do apartamento, eu as imaginava subindo uma a uma até a área de serviço onde o escuro dormia, só uma toalha alerta no varal. Acordei horas depois em sobressalto de atraso. Já era de madrugada. Atravessei a cozinha. No chão da área lá estavam elas, duras, grandes. Durante a noite eu matara. Em nosso nome, amanhecia. No morro um galo cantou.

A terceira história que ora se inicia é a das “Estátuas”. Começa dizendo que eu me queixara de baratas. Depois vem a mesma senhora. Vai indo até o ponto em que, de madrugada, acordo e ainda sonolenta atravesso a cozinha. Mais sonolenta que eu está a área na sua perspectiva de ladrilhos. E na escuridão da aurora, um arroxeado que distancia tudo, distingo a meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas se espalham rígidas. As baratas que haviam endurecido de dentro para fora. Algumas de barriga para cima. Outras no meio de um gesto que não se completaria jamais. Na boca de umas um pouco da comida branca. Sou a primeira testemunha do alvorecer em Pompéia. Sei como foi esta última noite, sei da orgia no escuro. Em algumas o gesso terá endurecido tão lentamente como num processo vital, e elas, com movimentos cada vez mais penosos, terão sofregamente intensificado as alegrias da noite, tentando fugir de dentro de si mesmas. Até que de pedra se tornam, em espanto de inocência, e com tal, tal olhar de censura magoada. Outras — subitamente assaltadas pelo próprio âmago, sem nem sequer ter tido a intuição de um molde interno que se petrificava! — essas de súbito se cristalizam, assim como a palavra é cortada da boca: eu te... Elas que, usando o nome de amor em vão, na noite de verão cantavam. Enquanto aquela ali, a de antena marrom suja de branco, terá adivinhado tarde demais que se mumificara exatamente por não ter sabido usar as coisas com a graça gratuita do em vão: “é que olhei demais para dentro de mim! é que olhei demais para dentro de...” — de minha fria altura de gente olho a derrocada de um mundo. Amanhece. Uma ou outra antena de barata morta freme seca à brisa. Da história anterior canta o galo.

A quarta narrativa inaugura nova era no lar. Começa como se sabe: queixei-me de baratas. Vai até o momento em que vejo os monumentos de gesso. Mortas, sim. Mas olho para os canos, por onde esta mesma noite renovar-se-á uma população lenta e viva em fila indiana. Eu iria então renovar todas as noites o açúcar letal? como quem já não dorme sem a avidez de um rito. E todas as madrugadas me conduziria sonâmbula até o pavilhão? no vício de ir ao encontro das estátuas que minha noite suada erguia. Estremeci de mau prazer à visão daquela vida dupla de feiticeira. E estremeci também ao aviso do gesso que seca: o vício de viver que rebentaria meu molde interno. Áspero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem adeus, e certa de que qualquer escolha seria a do sacrifício: eu ou minha alma. Escolhi. E hoje ostento secretamente no coração uma placa de virtude: “Esta casa foi dedetizada”.

A quinta história chama-se “Leibnitz e a Transcendência do Amor na Polinésia”. Começa assim: queixei-me de baratas.

Fonte:
LISPECTOR, Clarice. A Legião Estrangeira. São Paulo: Ática, 1977.

Esopo (Fábula 6: O Cão e a Sombra)


Um cão, que levava um naco de carne na boca, passava numa ponte sobre um rio, quando viu a sua sombra refletida na água lá em baixo. Pensando que era outro cão que levava um segundo naco de carne, o insaciável do cão não resistiu a atirar-se à água para lhe roubar a carne. É claro que, em vez de lhe roubar o segundo naco de carne, perdeu o que tinha, que caiu ao fundo do rio.

Moral da história

Quem tudo quer, tudo perde. A cobiça acaba por perder aquilo que deseja, e aquele que pretende mais do que lhe é devido merece perder o que tem.

Fonte:
Fábulas de Esopo. Coleção Recontar. Ed. Escala, 2004.

Joaquim Manuel de Macedo (As Vítimas-Algozes - Quadros da Escravidão)


O livro As Vítimas-Algozes, de Joaquim Manuel de Macedo, foi escrito na segunda metade do século XIX, em 1869, 19 anos antes da Abolição da Escravidão. O livro pertence ao Romantismo, que foi uma escola literária de grande importância para a história de nossa literatura.

A obra não agradou o público oitocentista e recebeu várias críticas publicadas na imprensa, sendo considerado por Ubiratan Machado como “o livro mais atacado pela crítica durante o período romântico”.

As Vítimas-Algozes é, ao seu modo, um romance abolicionista. Não daquele abolicionismo que encontramos nas obras dos poetas acima relacionados. Como explica Macedo, na nota “Aos Nossos Leitores”, não lhe interessou, nas “educativas” e “moralizantes” histórias que entregava aos consumidores de sua vasta obra, pintar “o quadro do mal que o senhor, ainda sem querer, faz ao escravo”, mas, sim, o “quadro do mal que o escravo faz de assento propósito ou às vezes irrefletidamente ao senhor”. Dito de maneira mais direta, o romance antiescravista de Macedo quer convencer os seus leitores de que é preciso libertar os escravos não por razões humanitárias, mas porque os cativos, sempre imiscuídos nas casas-grandes e sobrados, introduzem a corrupção física e moral no seio das famílias brancas.

Na obra o autor expressa a idéia de que a escravidão faz vítimas algozes e deve ser gradualmente extinta, sem prejuízo para os grandes proprietários de terra. Num tom conservador e usando personagens como a escrava Lucinda, o autor defende a tese de que a escravidão cria vítimas oprimidas socialmente, mas com uma perversão lógica, imoral e com influência corruptora.

O tratamento entre patrão e escravo nos últimos anos do cativeiro, uma intimidade que beira o sado-masoquismo foi retratada por Joaquim Manuel de Macedo neste livro. Ele denuncia que, se o escravo é inegavelmente vítima de um regime desumano, a sua presença igualmente desagrega a sociedade branca no que ela teria de mais recomendável.

A obra é um retrato perfeito do Brasil pós-abolicionista.

De acordo com o contexto histórico da época, Joaquim Manuel alertava ao leitor burguês de que o melhor a fazer era gradualmente abolir a escravidão. Depois da abolição, ele explica que os negros foram 'largados' nas favelas, como acontece no início do filme "Cidade de Deus".

Desfilam pelas páginas das três histórias que compõem o livro: o negro feiticeiro, o “moleque” traiçoeiro, a escrava assassina, as negras que se amasiam com seus patrões, a mucama lasciva, os negros desocupados dos botequins, os mulatos espertalhões, enfim, um sem número de tipos que demonstram ao leitor o quão comprometedor da estabilidade social era a presença do escravo na intimidade doméstica.

O objetivo político das três histórias que compõem o livro está claro desde a nota inicial aos leitores. Professando narrar apenas “histórias verdadeiras”, queria firmar, na “consciência” do público, “as verdades que vamos dizer”. Obra de convencimento, portanto, As vítimas-algozes era tentativa de obrigar os leitores a “encarar de face, a medir, a sondar em toda sua profundeza um mal enorme que afeia, infecciona, avilta, deturpa e corrói a nossa sociedade, e a que nossa sociedade ainda se apega semelhante a desgraçada mulher que, tomando o hábito da prostituição, a ela se abandona com indecente desvario”. A retórica é semelhante àquela dos conselheiros de Estado em 1867, e Macedo recita as estrofes do isolamento internacional do país, do exemplo da guerra civil americana, do processo de emancipação em Cuba, e do caráter “implacável” da reforma, “exigência (...) da civilização e do século”. Afirma que a escravidão é “cancro social”, que se não “estirpa (...) sem dor”; mas o “adiamento teimoso do problema” agravaria o mal, pois o país poderia ter de enfrentar a “emancipação imediata e absoluta dos escravos”, colocando “em convulsão o país, em desordem descomunal e em soçobro a riqueza particular e pública, em miséria o povo, em bancarrota o Estado”.

O cenário apocalíptico que Macedo antevê como decorrência de uma possível emancipação imediata dos escravos revela já de início o que seria esta obra, a forma como faz desfilar uma galeria medonha de escravos astuciosos, trapaceiros e devassos, sempre dispostos a ludibriar os senhores e ameaçar os valores e o bem-estar da família senhorial. Preocupado em não deixar nada por explicar, Macedo esclarece que havia dois caminhos a seguir para mostrar aos leitores “a reprovação profunda que deve inspirar a escravidão”. O primeiro consistiria em narrar as misérias e os sofrimentos dos escravos, suas vidas “de amarguras sem termo”, o “inferno perpétuo no mundo negro da escravidão”. Seria o quadro do mal que o senhor faz ao escravo, “ainda sem querer”. O segundo caminho, aquele escolhido por Macedo, mostraria “os vícios ignóbeis, a perversão, os ódios, os ferozes instintos dos escravos, inimigo natural e rancoroso do seu senhor”. Seria o quadro do mal que o escravo faz ao senhor, “de assentado propósito ou às vezes involuntária e irrefletidamente”.

1ª narrativa - "Simeão, o crioulo"

O protagonista, Simeão, perdera a mãe, que fora ama-de-leite da sinhazinha, aos dois anos, tendo sido criado pelos patrões. Até os oito anos de idade Simeão teve prato à mesa e leito no quarto de seus senhores, e não teve consciência de sua condição de escravo.

Tinha algumas regalias em função disso, mas não deixava de ter o estatuto e o tratamento de escravo, fator que se agravava e se tornava mais claro conforme ele se fazia adulto.

Depois dos oito anos apenas foi privado da mesa e do quarto em comum; continuou, porém, a receber tratamento de filho adotivo, mas criado com amor desmazelado e imprudente, e cresceu enfim sem hábito de trabalho.

Devia ter 20 anos, crioulo de raça pura africana, cabelos penteados, vestido com asseio e certa faceirice, era calçado e tinha vícios de linguagem.

Havia, no entanto, a expectativa de que seria alforriado quando o patrão morresse, o que não acontece, tendo este, em seu testamento, transferido a alforria certa para o momento em que a esposa falecesse.

Simeão, que já alimentava ódio contra os patrões, trama e realiza, juntamente com um comparsa, o assassinato da família toda e o saque do ouro e da prata que guardava. O quadro se reveste de maior crueldade porque os proprietários de Simeão se achavam, no íntimo, protetores bem-intencionados do mesmo, tendo, inclusive, na véspera do crime, decidido que iriam alforriá-lo imediatamente. Não eram, no entanto, capazes de questionar o sistema que os privilegiava, em todos os sentidos, e desumanizava o outro pólo (os escravos) da sociedade. Sistema que, Macedo diz com todas as letras, produz o ódio e o crime, no que o romancista estava se apoiando em dados da sociedade real.

Sua personalidade era ingratidão perversa, indiferença selvagem, inimizade, raiva, vícios, era vadio, dissimulado, ladrão, tinha instintos animais e era atrevido.

Seus senhores eram: Domingos Caetano, Angélica, Florinda e Hermano de Sales. Eram bons e humanos, tinham delicadeza de sentimentos e sentimentos generosos. Honestos e trabalhadores.

O autor constrói um perfil aterrorizante para o escravo, misto de tigre e serpente, de vítima e algoz, capaz de atacar quando menos se espera. Claramente procura amedrontar os brancos senhores de escravos e sugere como solução o fim da escravidão. Solução que configura a tese básica que passa pela conclusão de cada um dos três quadros da escravidão.

A novela não tem por final um desfecho romanesco, mas a reafirmação da tese do autor:

Simeão foi o mais ingrato e perverso dos homens.
Pois eu vos digo que Simeão, se não fosse escravo, poderia não ter sido nem ingrato, nem perverso.
A escravidão degrada, deprava, e torna o homem capaz dos mais medonhos crimes.

O narrador é didata: ele explicita a conduta, a forma de agir a ser adotada pelo leitor: Se quereis matar Simeão, acabar com Simeão, matai a mãe do crime, acabai com a escravidão.

2ª narrativa - "Pai-Raiol"

O feiticeiro. Algumas considerações do autor: o feitiço, como sífilis, veio da Àfrica; o escravo africano é o rei do feitiço.

Paulo Borges era um rico fazendeiro. Casara-se aos quarenta anos com Teresa, uma senhora ainda jovem que já lhe dera 2 filhos.

A compra de 20 escravos, entre eles Pai Raiol e Esméria. É o ano fatal de Paulo Borges. Acontece o adultério.

Os personagens são:

Paulo Borges - 46 anos. Alto, cabelos castanhos e crespos; fronte baixa sob sobrancelhas bastas; olhos pretos e belos, nariz aquilino; boca rasgada, lábios grossos e eróticos; rosto oval e bronzeado; seco de músculos; peitos largos e mãos engrandecidas e calejadas pelo trabalho. O tipo do lavrador honesto que hoje raramente se encontra, do pobre rico que se subtraia ao mundo, e só queria conhecer a roça e a casa, os escravos e a família, trabalhando sempre, gastando pouco, ajuntando muito, e não pesando a nenhum outro homem como ele. Não comprava homens, comprava máquinas; queria braços e não corações; gabava-se de senhor severo e forte, entrava nos seus timbres amansar os negros altanados e incorrigíveis.

Teresa - Jovem, simples de costumes, honesta, laboriosa, afeita à vida rural dos fazendeiros. Dirigia a dispensa, a enfermaria, e a grosseira rouparia dos escravos.

Os filhos Luís e Inês

Pai Raiol - Negro africano de 30 a 36 anos; baixa estatura, corpo exageradamente maior que as pernas; cabeça grande; olhos vesgos, mas brilhantes e impossíveis de se resistir à fixidez do seu olhar pela impressão incômoda do estrabismo duplo e por não sabermos que fruição de magnetismo infernal. Nas faces cicatrizes vultuosas de sarjaduras recebidas na infância: um golpe de azorrague partira pelo meio o lábio superior, e a fenda resultante deixara a descoberto dous dentes brancos, alvejantes, pontudos dentes caninos que pareciam ostentar-se ameaçadores. Sua boca era pois como mal fechada por três lábios; dous superiores e completamente separados, e um inferior perfeito. O rir era hediondo por semelhante deformidade. A barba retorcida e pobre, mal crescida no queixo, como erva mesquinha em solo árido. Suas orelhas perdera o terço da concha na parte superior, cortada irregularmente em violência de castigo ou furor de desordem. Tinha má reputação: desordem com os parceiros, furtos, envenenamentos. Já tivera 4 senhores. O último morrera de ulcerações no estômago e intestinos. Pai– Raiol acabara por dobrar-se humilde às condições da escravidão. Dizem que mudara devido aos seus felizes amores com a crioula Esméria, que com ele convivia e o dominava.

Esméria - Era uma crioula de 20 anos com as rudes feições da sua raça abrandadas pela influência da nova geração em mais suave clima; em seus olhos, porém, e no conjunto de seus traços fisionômicos, havia certa expressão de inteligência e de humildade que agradou à senhora. Esméria não era o que parecia. Refinara o fingimento. Via nos filhos de seus senhores futuros e aborrecidos opressores, e beijava-lhes os pés que às vezes desejava morder. Luzia-lhe nos olhos o amor da senhora, que a amava e distinguia, e lhe dispensava favores, e no fundo do coração maldizia dela. Invejava-lhe os vestidos, os gozos, a condição. Em sua louca vaidade pretendia ser mais bonita, mais bem feita, mais sedutora que Teresa. Era possessa do demônio da luxúria; amava os amantes de sua raça, preferia-os a todos os outros, mas envergonhava-se deles. Aspirava a fortuna do amor, da posse, da paixão delirante de um homem livre e rico. Ao contrário do que se pensava não havia uma influência benéfica de Esméria sobre o Pai-Raiol e sim uma influência satânica do Pai- Raiol sobre Esméria.

Tio Alberto

Lourença


O plano de Pai-Rayol: seis meses depois, os bois e as bestas morriam, e não havia peste: tornaram-se evidentes os sinais de envenenamento.

Em uma noite de ventania, o fogo devorou o imenso canavial. Mais uma vez as bestas, os bois e os carneiros morreram às dezenas, envenenados.

Paulo Borges amava Teresa, mas grosseiro escravo da sensualidade sucumbiu à sedução de Esméria. O demônio da lascívia deu poder à crioula. O senhor, o velho senhor ficou escravo da sua escrava.

O adultério hediondo faz da escrava rival da senhora, rival preferida que desordena a casa, enluta a família, e é cratera aberta do vulcão que espalha a ruína.

Teresa descobre o adultério e a traição: envelhecera 20 anos em 8 dias.

Atropelando a decência, insultando manifestamente a esposa, semeando a indisciplina e a mais perigosa desmoralização na fazenda, Paulo freqüentou de dia e aos olhos de todos, a senzala de Esméria.

Morre Teresa envenenada por Esméria. Esméria assume a casa do amante. Morre o filho recém-nascido de Teresa e Paulo, por falta do aleitamento materno; morrem Luís e Inês envenenados; Esméria começa a envenenar Paulo.

Lourença denuncia Esméria e prova a verdade a Paulo. Pai-Raiol é morto em uma luta pelo tio Alberto que é alforriado por Paulo. Esméria é presa. Paulo Borges arrasta sombria velhice atormentado pelos remorsos.

3ª narrativa - "Lucinda - A mucama"

É o terceiro e último romance em As vítimas-algozes.

Os personagens são:

Lucinda - "Engomo, coso, penteio e sei fazer bonecas"; a mulher escrava, uma filha da mãe fera, uma vítima da opressão social, uma onda envenenada desse oceano de vícios obrigados, de perversão lógica, de imoralidade congênita, de influência corruptora e falaz, desse monstro de criaturas humanas, que se chama escravidão. Tem 12 anos, um pouco magra, de estatura regular, ligeira de movimentos, afetada sem excesso condenável no andar. Muito viva e alegre com pretensões a bom gosto no vestir; com aparências de compostura decente nos modos; diligente e satisfeita no trabalho. Trazia dissimuladamente escondidos os conhecimentos e noviciados dos vícios e das perversões da escravidão; corrupta, licenciosa, imoral; indigna de se aproximar de uma senhora honesta, quanto mais de uma inocente menina.

Plácido Rodrigues - padrinho de Cândida, o mais opulento fazendeiro e capitalista do lugar; pai de Frederico.

Frederico - perdeu a mãe ao nascer e foi amamentado por Leonídia. Inteligente e estudioso. Reflexão fria e segurança de juízo. Foi juntamente com Liberato à Europa para fazer estudos regulares de agricultura e pretendiam continuar os estudos nos Estados Unidos. Fronte magnífica, a face porém descarnada, de ossos salientes, pálida, desproporcionada e melancólica, os olhos ardentes. Dedicado aos amigos e na dedicação capaz de ir até a heroicidade. Muito racional. Era ele o planejado noivo de Cândida.

Cândida - loura, olhos azuis e belos, olhar de suavidade cativadora; rosto oval da cor da magnólia com duas rosas a insinuarem-se nas faces; os lábios quase imperceptivelmente arqueados, lindíssimos, os dentes iguais, de justa proporção e de esmalte puríssimo; as mãos e os pés de perfeição e delicadeza maravilhosas; o pescoço e o corpo com a gentileza própria de sua idade. Cândida antes de Lucinda tinha 11 anos e com a perfeita inocência de sua primeira infância; espírito cheio de luz suave e idéias serenas e preciosas; eeu coração era um altar adornado pelo amor de seus pais. Cândida de pois de Lucinda era capaz de ser ardilosa e dissimulada para enganar a mãe; "prendeu a alma às palavras venenosas, às explicações necessariamente imorais da escrava".

Florêncio da Silva - honrado, inteligente e rico negociante; um pouco agricultor por distração e gosto: bom, afável e generoso, repartindo as sobras da riqueza que acumulava com os pobres que não eram vadios; tinha poderosa e legítima influência eleitoral e política na sua comarca.

Leonídia - esposa modelo; mãe extremosa.

Liberato - irmão mais velho de Cândida; bonito de rosto e elegante de figura; fazia seus estudos preparatórios na Corte; muito amigo de Frederico, inteligente e estudioso; possuía brilhantismo de imaginação.

Alfredo Souvanel - Amigo de Liberato e Frederico. Encontraram–se na Suíça. Tinha 26 anos, estatura regular, louro, de olhos cintilantes, era de aspecto agradável, bem talhado de corpo. Esmerava-se no trajar, embora não tivesse muitos recursos. Tinha instrução superficial, mas inteligência fácil, espírito, e gênio alegre. Habilíssimo pianista e excelente voz de barítono. Era francês, mas esperava ganhar dinheiro no Brasil ensinando piano e canto. Era o mais alegrão, travesso, original, espirituoso e endiabrado companheiro de folganças. Tornou-se professor de Cândida.

A narrativa conta a história de Cândida, filha de honrado negociante e agricultor do interior da província do Rio de Janeiro. Em seu aniversário de onze anos, a menina recebera de presente do padrinho, Plácido Rodrigues, “o mais opulento fazendeiro e capitalista do lugar”, uma escrava crioula chamada Lucinda, de doze anos, que havia sido enviada à Corte para aprender a servir de mucama. A mucama logo conquistou a senhorinha ao dizer que sabia fazer bonecas e penteá-las. O padrinho empenhara-se em conseguir uma escrava que pudesse agradar a afilhada porque sabia que a menina andava triste devido à recente partida de Joana, “uma boa senhora, mulher pobre, mas livre e de sãos costumes, que fora sua ama de leite e a idolatrava como seus pais”. Joana, que enviuvara ainda moça, encontrara segundo noivo num “laborioso e honrado lavrador”, deixando por isso a sua adorada Cândida “com o maior pesar”.

Macedo oferece uma primeira ilustração de sua tese no romance ao contrastar a virtuosíssima Joana com a mucama Lucinda. Joana é descrita como uma “segunda mãe”, “criada amiga”, “companheira do seu quarto de dormir”, mulher “simples, boa e religiosa”. Cândida perdera “a companhia da mulher que era nobre, porque era livre” e que servia com o “coração cheio de amor generoso”, algo só possível “quando a liberdade exclui toda imposição de deveres forçados por vontade absoluta de senhor”. Em substituição, a menina recebera a crioula quase de sua idade, “a mulher escrava, uma filha da mãe fera, uma vítima da opressão social, uma onda envenenada desse oceano de vícios obrigados, de perversão lógica, de imoralidade congênita, de influência corruptora e falaz, desse monstro desumanizador de criaturas humanas, que se chama escravidão”. Diante desse quadro os acontecimentos desenrolam-se naturalmente, sendo que o maior desafio é entender o porquê de Macedo ter achado necessário escrever quase quatrocentas páginas para contar essa história. A mucama tem uma influência nefasta sobre a donzela, de quem se torna a única confidente nos anos seguintes. Ensina-lhe o que ocorre quando a menina vira moça, desperta-lhe a curiosidade pelos rapazes, ministra-lhe lições de flerte e namoro, mostra-lhe ser mais divertido namorar vários rapazes ao mesmo tempo, e assim por diante, num desfilar constante de idéias destinadas a “excitar os sentidos” da donzela cândida e pura. As lições de amor da mucama eram inspiradas “pelo sensualismo brutal, em que se resume todo o amor nos escravos”; portanto, “a mucama escrava ao pé da menina e da donzela é o charco posto em comunicação com a fonte límpida”.

Com a mucama escrava infiltrada no quarto da donzela, foi possível a um conquistador barato, um francês estróina e ladrão, insinuar-se aos amores de Cândida, conquistá-la efetivamente e tirar-lhe o maior símbolo da honestidade feminina. Lucinda, criatura ruim como nunca se viu mesmo em folhetins televisivos hodiernos de horário nobre, tornara-se ela mesma amante de Souvanel, tramara tudo com ele, e até abrira o quarto da virgem para a consumação do delito. A idéia dos biltres era forçar o casamento de Souvanel com Cândida; dado o golpe do baú, Lucinda ganharia a liberdade e ficaria teúda e manteúda do francês. No final, Frederico, criatura virtuosa como nunca se viu mesmo em folhetins televisivos hodiernos de horário nobre, filho do padrinho de Cândida, apaixonado por ela desde menino, perdoa o erro da amada e casa com ela. Descobrira-se que Souvanel era na verdade Dermany, criminoso procurado na França. O vilão é preso e deportado. Lucinda e o pajem do pai de Cândida, também envolvido na trama para aproximar Souvanel da donzela, fogem dos senhores, são capturados, mas acabam abandonados ao poder público pela família. Frederico, o anjo, fecha o romance e o nosso martírio com um discurso abolicionista que aqui transcrevo, para martirizar o leitor, ou ao menos para dividir com ele o meu sofrimento. O discurso aparece nas páginas 388 e 389 do segundo volume de As vítimas-algozes (o primeiro volume, com outras duas histórias). Referindo-se a Lucinda e ao pajem, “esses dous traidores e perversos”, Frederico disse:

- Árvore da escravidão deram seus frutos. Quem pede ao charco água pura, saúde à peste, vida ao veneno que mata, moralidade à depravação, é louco. Dizeis que com os escravos, e pelo seu trabalho vos enriqueceis: que seja assim; mas em primeiro lugar donde tirais o direito da opressão? ...em face de que Deus vos direis senhores de homens, que são homens como vós, e de que vos intitulais donos, senhores, árbitros absolutos? ... e depois com esses escravos ao pé de vós, em torno de vós, com esses miseráveis degradados pela condição violentada, engolfados nos vícios mais torpes, materializados, corruptos, apodrecidos na escravidão, pestíferos pelo viver no pantanal [“patanal”, no original] da peste e tão vis tão perigosos postos em contato convosco, com vossas esposas, com vossas filhas, que podereis esperar desses escravos, do seu contato obrigado, da sua influência fatal? ...Oh! bani a escravidão!... a escravidão é um crime da sociedade escravagista, e a escravidão se vinga desmoralizando, envenenando [“evenenando”, no original], desonrando, empestando, assassinando seus opressores. Oh! ...bani a escravidão! bani a escravidão! bani a escravidão!....

Nota: Ainda que Macedo atribua os defeitos morais de Lucinda e seus pares à instituição da escravidão, a sua descrição dos cativos é tão impiedosamente desfavorável que torna-se difícil pensar na possibilidade de que essas pessoas, uma vez libertas, possam usufruir de direitos de cidadania e participar da vida política. De fato, uma característica intrigante de vários pronunciamentos favoráveis à lei de 1871 era a descrição dos escravos como seres quase destituídos de humanidade, pois a violência da instituição os desprovia de cultura, de regras de comportamento; por conseguinte, não desenvolviam laços de família, relacionavam-se sexualmente como animais, atacavam os senhores como bestas feras. Enfim, pareciam condenados a uma espécie de coisificação moral, resultado direto de sua condição de propriedade, de sua representação como coisa no direito positivo.

Fonte:
Passeiweb

sexta-feira, 27 de abril de 2012

A. A. de Assis (Estados do Brasil em Trovas) Maranhão

José Feldman (Devaneios Poéticos n. 9)

Gato Maestro

Uma Trova do Pessoa

Mesmo que lhe desagrade
dentre os sabores prefira
o amargo de uma verdade
ao doce de uma mentira.
FRANCISCO JOSÉ PESSOA (CE)

Uma Trova de Porto Alegre


Num encontro repentino,
sem promessas, sem espera,
tu foste meu desatino
e nosso amor foi quimera
CLÊNIO BORGES (RS)

Uma Trova Paranaense


O pranto na mocidade,
qualquer brisa põe em fuga;
E o que restar de umidade,
o toque de um beijo enxuga.
LOURDES STROZZI (PR)

Trova Premiada


1994 – XI Jogos Florais de Ribeirão Preto/SP
Tema Nacional: Brega - 1. Lugar


“Meu bem” – indaga o marido
“O que é brega… que eu não sei?”
“– É aquela saia, querido,
que me deste e eu, nunca usei.
HELOISA ZANCONATO PINTO (MG)

Um Poetrix

oh jardineira
SILVANA GUIMARÃES (MG)


eu vou te contar um caso:
o vaso ruim quebrou,
mas sobrou eu, seja como flor.

Uma Trova da Vânia

O elemento H2O
Fonte de vida e energia,
vale mais do que ouro em pó.
Nossa maior loteria!
VÂNIA MARIA SOUZA ENNES (PR)

Trovadores que Deixaram Saudade


Vem, palhaço, sem tardança,
com teus trejeitos, teus chistes,
e acorda a alegre criança
que dorme nos homens tristes…
ELTON CARVALHO (RJ)

Élton Carvalho nasceu em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, no dia 29 de agosto de 1916 e faleceu na mesma Cidade, no dia 03 de março de 1994. Foi casado com Maria Nascimento Santos Carvalho.

Élton Carvalho iniciou sua carreira militar na Arma de Infantaria e, graças aos seus esforços e dedicação, pôde encerrá-la como General-de-Divisão do Exército Brasileiro, depois de permanecer na instituição por mais de quatro décadas. Exerceu, por muitos anos, a função de Professor Catedrático de Filosofia, no Colégio Militar do Rio de Janeiro.

A partir de 1970, ingressou, como Professor, na Escola Superior de Guerra, tendo realizado mais de 100 Conferências, em todo o território nacional.

Como era contista e compositor, compôs o dobrado do 13º Batalhão do Exército de Ponta Grossa – PR, em coautoria com o General de Exército Ernani Airosa, ex- ministro da Guerra no governo do General João Figueiredo e Everaldo José da Silva. Este dobrado até hoje é executado nos eventos militares da região.

Em 1983, reformou-se no Exército.

Élton publicou vários livros: “Instantâneos”, 1973 (200 Trovas líricas e filosóficas); “Sogra, Coroa, Bebida e Outras Bombas”,1974 (200 trovas humorísticas); “Ciranda de Sonhos”, 1979, (200 trovas líricas e filosóficas); “Aquarelas”, 1981 (500 trovas líricas e filosóficas); “Rosas na Pedra” 1984 , (com 40 poemas e 25 sonetos) e “Sogra... & Outras Piadas” 1993, (com 250 trovas humorísticas).

Foi o único autor a produzir dois livros exclusivamente com trovas humorísticas. Escreveu um mini romance: “A História do Sapateiro” infanto-juvenil e “Miragens” Sonetos.

Deixou inéditos os livros : Oásis; Ferro Velho; Rosas na Pedra; A Vida em Quatro Versos; Feira de Humor; Piadas sem Sal; Sucata; (todos de trovas) A História do mau Sapateiro; (mini-conto), Miragens; (sonetos) etc

Élton Carvalho, que fazia Trovas de todos os gêneros, apesar de produzir muitas trovas humorísticas brincando com as sogras, as coroas, era um grande admirador das mulheres e um genro excepcional, que demonstrava em cada palavra, em cada gesto, o carinho e o respeito que devotava à sua sogra, à sogra de seus amigos, às pessoas idosas, aos humildes.

Um Haikai

Primavera
EUNICE ARRUDA (SP)


Por entre as flores
procurando pela mãe
Dia de Finados

Uma Trova Do Ademar

Todinho, suco e licor,
ou qualquer outra iguaria,
jamais se iguala ao sabor
do “café que mãe fazia”!
ADEMAR MACEDO (RN)

Uma Fábula em Versos

O Carvalho e o Caniço
JEAN LA FONTAINE (FRANÇA)


Dizia ao caniço robusto carvalho:
"Sou grande, sou forte;
És débil e deves, com justos motivos,
Queixar-te da sorte!

Inclinas-te ao peso da frágil carriça;
E a leve bafagem.
Que enruga das águas a linha tranqüila
Te averga a folhagem.

Mas minha cimeira tufões assoberba.
Com serras entesta;
Do sol aos fulgores barreiras opondo,
Domina a floresta.

Qual rija lufada, do zéfiro o sopro,
Te soa aos ouvidos,
E a mim se afiguram suaves favônios
Do Norte os bramidos.

Se desta ramagem, que ensombra os contornos,
A abrigo nasceras,
Amparo eu te fora de suis e procelas,
E menos sofreras.

Mas tens como berço brejais e alagados,
Que o vento devasta.
Confesso que sobram razões de acusares
A sorte madrasta."

Responde o caniço: "Das almas sensíveis
É ter compaixão;
Mas crede que os ventos, não menos que os fracos,
Minazes vos são.

Eu vergo e não quebro. Da luta com o vento
Fazeis grande alarde:
Julgais que heis de sempre zombar das borrascas?
Até ver não é tarde."

Mal isto dissera, dispara do fundo
Dum céu carregado
O mais formidável dos filhos que o Norte
No seio há gerado.

Ereto o carvalho, faz frente à refrega;
E o frágil arbusto
Vergando, flexível — do vento aos arrancos
Resiste, sem custo.

Mas logo a nortada, dobrando de força,
Por terra lançava
O roble que às nuvens se erguia e as raízes
No chão profundava.

Uma Estória da Trova

Na década de 70, havia no Rio e Janeiro, um “artista”, que se apresentava em boates, restaurantes e bares, dizendo Trovas! Seu nome era Milton e ele se assinava de forma original: “1.000ton”.
Milton Santos Lima, carioca, funcionário aposentado da Prefeitura, fazia sucesso com trovas assim:

Para uma mesa onde não havia mulheres

Quem não bebe, joga ou fuma,
tem o seu valor qualquer.
Mas não vale cousa alguma
quem não gosta de mulher!
(ARAIFE DAVID)

Numa mesa onde havia uma mulher bonita


Ai, Maria Maricota,
que beleza tem você!
Quem vai na frente não nota,
quem vai atrás é que vê!!!
(NELSON LUZ)

Quando sabia que os ocupantes da mesa eram noivos


Lá vem os noivos chegando…
Assisto a festa e… depois…
fico invejoso pensando
na festa só deles dois…
(ADAUTO GONDIM)

Apesar do gosto e do conhecimento de Trovas, ao que se saiba, o Milton nunca fez trovas ou participou de entidades trovadorescas.

Alguma Poesia

Envelhecer Feliz
ROBERTO CALDAS (CE)


Olhar a vida,
depois dos anos passados
é perguntar ao tempo
o que foi feito mesmo
do tempo que nos foi dado.

Sentir que os cabelos embranqueceram,
os filhos, sempre pequenos, cresceram;
apareceram deles outros herdeiros
e que tantos carnavais vividos
é sempre um convite para vivê-los mais.

Viver mais, no limite máximo
que o desígnio do viver permita;
não ser econômico em gostar da vida:
fazer festa, ser a comida, a bebida,
ser espetáculo para ser visto e pedido bis.

Não ter vergonha de ser feliz,
se quadrado, quadrado,
se moderno, moderno… e daí?

Passou o tempo de ter compostura,
mergulhar em alegria pura,
ser, como nunca antes, audaz.

Saber-se obra por Deus construída
e jamais lamentar as feridas,
aos ingratos esboçar perdão,
das saudades fazer um colchão,
pra lembrar das maravilhas fruídas.

Ser idoso é coroamento
de um ciclo que o sol simboliza,
é passar de calor abrasante
que a força da juventude esparge
para o calor plácido e amigo
que, sem ele,
talvez nenhum ser sobreviva.

Envelhecer feliz
é provar que VIVER VALE A PENA!

Uma Trova do Sinésio

Quatro versos: eis a prova,
sim, num texto independente,
da grandeza de uma trova.
Sete sílabas somente.
SINÉSIO CABRAL (CE)

Um Soneto

Auto-Retrato
EDMAR JAPIASSU MAIA (RJ)


Nem sei há quanto tempo que um sorriso
não enfeita o meu rosto macerado
pelas dores que têm me dominado,
pelos árduos caminhos que hoje piso…

Bem sei o quanto tenho me esforçado
para encontrar o amor de que preciso,
e transportar-me em luz ao paraíso
de sonhos que a ilusão me tem negado…

Quando tristonho ao pranto me condeno,
percebo ser no pranto um Ser pequeno,
que na apatia busca o seu abrigo.

E a sorte, nos seus rasgos de avareza,
não deixa que eu me dispa da tristeza,
e possa parecer menos comigo!

Fontes:
seleção por José Feldman
– O Trovadoresco. Natal/RN , outubro de 2006, n. 16.
– Calêndula Literária – UBT Porto Alegre, n. 327. 2005.
– Boletim Informativo Nacional da UBT – junho 2006, n. 455.
– Boletim Informativo Nacional da UBT – 2009, n. 494
– Mensageiro da Poesia, Fortaleza/CE – outubro 2009, n. 275.
– Mensageiro da Poesia, Fortaleza/CE – agosto 2009, n. 273
– Binóculo, Fortaleza/CE – julho 2009, n. 92.

Biografia de Élton por Maria Nascimento Santos Carvalho. in http://www.recantodasletras.com.br/teorialiteraria/2690883

Wagner Marques Lopes /MG (A FAMÍLIA em trovas), parte 3


Mãe

A mãe é o ser que confia
em seu filho, a toda prova.
Ora, age e renuncia
para vê-lo em senda nova.

A fórmula da paz caseira

Brigas em casa, à vontade?
Eis a fórmula eficaz:
ouvir com serenidade
+ perdão = a paz.

Família - opção pelo ser

Fama, glória, altas vistas...
Minimiza sempre o ter.
Liberdade tu conquistas
Aperfeiçoando o Ser.

Amor em família

Em família, a vida é feita
de senões, a cada instante.
Não podendo ser perfeita,
tendo o amor... Eis o bastante.

Fonte:
trovas enviadas pelo autor

Clotilde Tavares (Aconteceu na Caatinga)


Era meio-dia e a caatinga brilhava à luz incandescente do Sol. O pequeno Calango deslizou rápido sobre o solo seco, cheio de gravetos e pedras, parando na frente do majestoso Mandacaru, que apontava para o céu seus espinhos, os grandes braços abertos em cruz.

- Mandacaru! Mandacaru! Eu ouvi os homens conversando lá adiante e eles estavam dizendo que, como a caatinga está muito seca e cor de cinza, vão trazer do estrangeiro umas árvores que ficam sempre verdes quando crescem e estão sempre cheias de folhas.

- Mas que novidade é essa? - falou a Jurema.

- Coisa de gente besta - disse o Cardeiro, fazendo um muxoxo irritado e atirando espinhos para todo lado.

- Eu é que não acredito nessas novidades - sussurrou o pequeno e tímido Preá.

A velha Cobra, cheia de escamas de vidro e da idade do mundo, só fez balançar a cabeça de um lado para o outro e, como se achasse que não valia a pena falar, ficou em silêncio.

E no outro dia, bem cedinho, os homens já haviam plantado centenas de arvorezinhas muito agitadas, serelepes e faceiras, que falavam todas ao mesmo tempo na língua lá delas, reclamando de tudo: do Sol, da poeira, dos bichos e das plantas nativas, que elas achavam pobres, feias e espinhentas. Enquanto falavam, farfalhavam e balançavam os pequenos galhos, que iam crescendo, ganhando folhas e ficando cada vez mais fortes.

Enquanto isso, as plantas da caatinga, acostumadas a viver com pouca água, começaram a notar que essa água estava cada vez mais difícil de encontrar. As raízes do Mandacaru, da Jurema e do Cardeiro cavavam, cavavam e só encontravam a terra seca e esturricada.

O Calango então se reuniu com os outros bichos e plantas para encontrar uma solução. E foi a velha Cobra quem matou a charada:

- Quem está causando a seca são essas plantinhas importadas e metidas a besta! Eu me arrastei por debaixo da terra e vi o que elas fazem: bebem toda a nossa água e não deixam nada para a gente.

- Oxente! - gritou o Calango. - Então vou contar isso aos homens e pedir uma solução.

Mas logo o Calango voltou, triste e decepcionado.

- Os homens não me deram atenção - disse. - Falaram que eu não tenho instrução, não fiz universidade e que eu estou atrapalhando o progresso da caatinga.

E todos os bichos e plantas ficaram tristes, mas estavam com tanta sede que nem sequer puderam chorar: não havia água para fabricar as lágrimas. Por muitos dias ficaram assim e quando estavam à beira da morte houve um movimento: era o Preá, que levantou o narizinho, farejou o ar e, esquecendo a timidez, gritou:

- Estou sentindo cheiro de água!

- É mesmo! - gritaram todos.

- O que será que aconteceu? - perguntou a Jurema.

- Eu vou ver o que foi - e o Calango saiu veloz, espalhando poeira para todos os lados.

O Mandacaru estirou os braços, espreguiçou-se e sorriu:

- Estou recebendo água de novo! Hum... É muito bom! Mas vejam! O Calango está de volta com novidades!

E espichando meio palmo de língua de fora, morto de cansado pela carreira, o Calango contou tudo.

- As pequenas bandidas verdes, depois de beber quase toda a água da caatinga, estavam ameaçando a água dos rios e dos açudes perto das cidades. Os homens então viram o perigo e deram fim a todas elas. Estamos salvos!

E todos ficaram alegres, sentindo a água subir pelas raízes. Olharam para o céu azul da caatinga, aquele céu claro, o Sol brilhante, olharam uns para os outros e viram que eram irmãos, na mesma natureza, no mesmo tempo, na mesma Terra.

E a velha Cobra, desenroscando-se toda lentamente, piscou o olho e concluiu:

- É como dizia minha avó: cada macaco no seu galho!

Fonte:
Revista Nova Escola

Clotilde Tavares (1947)


CLOTILDE TAVARES é paraibana de Campina Grande (dezembro de 1947), filha de Nilo e Cleuza.

Graduou-se em Medicina pela UFRN em 1975, e em 1983 obteve o título de Mestre em Nutrição em Saúde Pública pela UFPE.

Radicou-se em Natal e, como professora da UFRN desde 1976, dedicou-se à pesquisa no campo da Saúde Pública. Especialista em Epidemiologia pela UFRN.

O Teatro, a Literatura e os estudos sobre cultura popular também ocuparam lugar de destaque na sua vida, como atividade paralela.

A partir de 1993 passou a se dedicar exclusivamente às atividades artísticas e intelectuais, transferindo-se do Departamento de Saúde Coletiva e Nutrição da UFRN, onde ensinava desde 1976, para o Departamento de Artes da mesma Universidade.

Mesmo aposentada, continua exercendo intensa atividade cultural. Escreve em jornais, é atriz e diretora de teatro, dramaturga e desenvolve estudos na área da cultura popular, além de promover eventos culturais.

Divide suas atividades entre os estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco.

Fontes:
http://www.clotildenews.digi.com.br/eumesma.htm
http://www.skoob.com.br/autor/1543-clotilde-tavares

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to