Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 30 de junho de 2013

Varal de Trovas n. 2 - José Lucas de Barros (RN)


José Feldman (Universo de Versos n. 68)

Uma Trova do Paraná
-
MARIA ELIANA PALMA – Maringá

Para a alma aliviar
na dor, conflito, paixão,
a lágrima acalma o olhar;
um poema, o coração!
========================
Uma Trova sobre Esperança, de Petrópolis/RJ
-
GILSON FAUSTINO MAIA

Quando eu era bem criança,
as mãos limpas de aprendiz
transportavam esperança
de ser, um dia, feliz.
========================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Fortaleza/CE
-
FRANCISCO PESSOA

Ciúme é como se fosse
um veneno sedutor:
amargo, se mostra doce,
matando aos poucos o amor.
=======================
Uma Trova Humorística, de São Paulo
-
SÉRGIO FERREIRA

Confuso, o dono do empório
não anda bom da veneta:
na orelha um supositório,
mas nem sinal da caneta!
======================
Uma Trova do Ademar
-
ADEMAR MACEDO  - Natal/RN
1951 - 2013

Nos poemas que componho,
de beleza quase extrema,
eu ponho em verdade um sonho
dentro de cada poema!
========================
Uma Trova Hispânica dos Estados Unidos
-
CRISTINA OLIVEIRA

Sus ojos son tan brillantes,
son mis Soles de alegría,
las luces que culminantes,
¡borran mi melancolía!
===================
Uma Trova sobre Saudade, de Bandeirante/PR
-
MARIA LUCIA DALOCE

Entre os véus da noite, imerso,
insone em meu travesseiro,
escrevo apenas um verso
e a saudade... um livro inteiro!
========================
Trovadores que deixaram Saudades
-
NERO DE ALMEIDA SENNA – Jequitinhonha/MG
1874 – ????

Muito esquisitos eu acho
teus vestidos, minha prima:
são altos demais embaixo,
e baixos demais em cima...
========================
Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores
-
LUIZ OTÁVIO
1916-1977

A Trova definitiva,
ideal do Trovador,
por mais que eu padeça e viva
eu jamais hei de compor…
========================
Um Haicai de Curitiba/PR
-
JOSÉ MARINS
Verão


Calor de verão
A trabalheira que dá
ter essa preguiça
================
O Universo de Leminski
-
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 - 1989)


as folhas tantas
o outono
nem sabe a quantas
======================
Uma Trova do Rei dos Trovadores
-
ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

O regozijo da morte
Que ninguém sabe dizer
Tem a beleza da noite
No instante do amanhecer.
======================
O Universo de Cora
-
CORA CORALINA
(Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Goiás (1889 – 1985)
Poeminha Amoroso


Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu...
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu...
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
o tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo...
eu te amo, perdoa-me, eu te amo...”
==============================
Uma Poesia de Ubiratã/PR
-
ALESSANDRA GUIMARÃES
Madrugada Fria


Todos dormem,
num profundo sono.
Rua deserta e silenciosa,
pássaros quietos, se escondem.
Somente gotículas de orvalho,
caindo sobre a calçada,
na madrugada fria.

A lua se esconde,
atrás de uma nuvem que passa,
tornando a noite mais escura.
Nuvens formosas,
carregadas d’água,
se congelam,
na madrugada fria.

O brilho das estrelas,
no infinito desaparecem.
O riacho murmura, levemente,
o vento sopra calmamente,
o eco se cala lentamente,
somente o amor vibra,
na madrugada fria.
========================
O Universo de Pessoa
-
Fernando Pessoa
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935


O papagaio do paço
Não falava — assobiava.
Sabia bem que a verdade
Não é coisa de palavra.
========================
Uma Sextilha do Rio Grande do Norte
-
ANTONIO NUNES DE FRANÇA


Em Limoeiro do Norte,
a tarde mudou de clima;
assim houve duas chuvas:
uma d’água, outra de rima;
uma de cima pra baixo,
outra de baixo pra cima.
========================
Uma Poesia de Portugal
-
ALVES COELHO
Olhos Castanhos


Teus olhos castanhos
de encantos tamanhos
são pecados meus,
são estrelas fulgentes,
brilhantes, luzentes,
caídas dos céus,
Teus olhos risonhos
são mundos, são sonhos,
são a minha cruz,
teus olhos castanhos
de encantos tamanhos
são raios de luz.

Olhos azuis são ciúme
e nada valem para mim,
Olhos negros são queixume
de uma tristeza sem fim,
olhos verdes são traição
são cruéis como punhais,
olhos bons com coração
os teus, castanhos leais.
========================
Um Soneto de São Paulo/SP
-
PEDRO MELLO
A Difícil Arte de Fechar Gavetas


Nas gavetas estão os meus dias (felizes
e infelizes), a lua, um pouco de saudade,
resquícios de paixões, lembranças, ansiedade,
vestígios de mulher, amores sem raízes...

Nelas estão papéis, delírios e deslizes
de um homem descuidado e meio sem vontade,
retalhos de ilusão, sonhos pela metade,
pedaços de amargor formando cicatrizes...

Que faço se não sei fechar minhas gavetas?
Se navego o Universo em busca de planetas,
mas nada satisfaz e tudo é meio-tom?

Acostumar-me à Guerra ou procurar a Paz
- o que devo almejar? Para mim, tanto faz
eu viver ou morrer... Nenhum dos dois é bom...
========================
Uma Poesia Além Fronteiras
-
GERRIT KOUWENAAR
Amsterdam/Holanda (1923)
É um dia claro


é um dia claro é um mundo escuro
entre a verde erva a carne é vermelha
homens deixam-se vergar por um naco de pão
é um dia escuro é um mundo claro
riem os homens e tudo é possível

percorri o caminho para colher uma maçã
         mas no caminho havia uma cobra

a vida é boa mas a vida podia ser melhor
todas essas guerras entre tréguas eternas
todo esse morrer para viver ainda mais
a vida é boa mas a vida podia ser melhor
a carne é dura de roer mas mais tenra que os ossos

percorri o caminho para escapar à morte
         mas no caminho havia um homem de ferro

enquanto a boca mastiga o ar rarefaz-se
enquanto o pão se digere a mão invalida-se
enquanto falamos na casa ela incendeia-se algures
é um dia escuro é um mundo escuro
os jornais noticiam como aconteceu e como não acontecerá

percorri o caminho para construir uma cidade
         mas projetei torres em subterrâneos

no quadro o mestre-escola escrevia futuro amor e deus
salve a nossa pátria, e eu todo lábios e olhos
imitava-o na lousa
mas lá fora dançava a rapariga tangível
flutuando como se não houvesse leis da gravidade

         percorri o caminho para encontrar o caminho
         mas atrás do pudim havia um prato vazio
=====================
Um Poetrix de Guaíba/RS
-
PATRÍCIA ESSINGER
tato


o toque beija:
dedos,
insinuação de lábios.
========================
O Universo de Drummond
-
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 - 1987
Cidadezinha Qualquer


Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.

Devagar… as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.
========================
UniVersos Melodicos
-
JOÃO DE BARRO e LAMARTINE BABO
Uma andorinha não faz verão
(marcha/carnaval, 1934)

 

Esta andorinha teve dois verões. O primeiro em 1931, com letra e música de João de Barro, gravada por Alvinho, e o segundo em 1934, quando Lamartine Babo entrou na parceria e a marchinha tornou-se sucesso na voz de Mário Reis.
A reunião dos dois maiores autores de marchas carnavalescas deu-se por iniciativa de Lamartine que, admirador do refrão ("Vem moreninha / vem tentação / não andes assim tão sozinha / que uma andorinha / não faz verão"), propôs a Braguinha fazer uma nova segunda parte.
Proposta aceita, ele prontamente cumpriu a tarefa, apresentando música e letra que complementavam com perfeição o estribilho. Na verdade, as românticas estrofes originais eram boas, mas muito extensas. Lamartine preferiu compor versos mais carnavalescos, sobre uma melodia de oito compassos (o original tinha dezesseis), o que sem dúvida contribuiu para o sucesso.


Vem moreninha     
vem tentação
Não andes assim tão sozinha
Que uma andorinha não faz verão

Dizem morena  
Que teu olhar
Tem correntes de luz que faz secar
O povo anda dizendo 
Que essa luz do teu olhar
A Light vai mandar cortar
(Fonte: Cifrantiga)
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda
-
BOM DIA, MEUS SINHORINHOS


É uma fileira de meninas, com uma defronte. Canta esta sozinha:

Bom dia meus sinhorinhos }
Mande ô tire ô tire ô lá }  bis

As meninas respondem:
O que é que vós quereis }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

A menina:

Quero uma das vossas filhas }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

Todas:

Escolhei a qual quereis }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

A menina:

Quero a menina Fulana }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

A escolhida passa para a ponta da fila e as outras cantam:

Que ofício dás a ela }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

A menina sozinha:

Dou o ofício de ser pianista }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

Se as meninas se agradam do ofício. cantam:

Este oficio já me agrada }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

Se não se agradam, cantam assim:

Este ofício não me agrada }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

Para terminar, fazem a roda e todas cantam, pulando:

Fazemos a festa juntas }
Mande ô tire ô tire ô lá } bis

Fonte: Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo: Departamento de Cultura, 1953.

A. A. de Assis (Revista de Trovas “Trovia” n. 163 – Julho de 2013)

Se a inspiração vem chegando,
eu me vejo em pleno espaço,
vendo Deus metrificando
todos os versos que eu faço!
Ademar Macedo

Ah, que estranho desafio
e esquisita proporção:
quanto mais fica vazio,
mais nos pesa o coração!
Pe. Celso de Carvalho

Nossa rede balançando...
nossa conversa entretida...
a nossa vida passando...
a gente esquecendo a vida...
Edgard B. Cerqueira

Na quietude costumeira
de muita vida vazia,
solidão é companheira
dos que não têm companhia...
Luiz Otávio

A mulher é imponderável,
instável, imprevisível,
indócil, imperscrutável...
Não se esqueça: imprescindível!
Magdalena Léa

Tens tanto fascínio, tanto,
que as flores, puras e belas,
se curvam cheias de encanto
quando tu passas por elas!
P. de Petrus

18 de julho – dia do Trovador
Ah Luiz Otávio, ah Luiz, / abençoa os teus irmãos.
Com São Francisco de Assis, / une, ó mestre, as nossas mãos! (aaa)
 

Ao ver as meias, coitado,
o vovô pensa: – Já sei!
Essas dei no ano passado,
no retrasado as ganhei...
Clevane Pessoa – MG

Corpo mole, mal antigo,
não é dengue nem catiça...
O seu mal, meu velho amigo,
é o excesso de preguiça.
Eliana Palma – PR

No paraquedas fechado
uma etiqueta dizia:
– “Se falhar ao ser usado,
reclame. Tem garantia…”
Izo Goldman – SP

Nos conselhos que lhe dá,
qual pai que não tem chilique?
– Filhinha, fique, não vá...
E, se for, filha... não “fique”!...
José Ouverney – SP

Ao vê-lo sem dentadura,
diz a netinha, sapeca:
– Vovó, o meu vovô Jura
está com a boca careca!
Nélio Bessant – SP

– Cê sabe de argo, seu moço,
pra curá quem cai do gaio?
– Sei de um remédio colosso:
passa pó-pra-tapá-taio...
Osvaldo Reis – PR

Uma receita eu preparo,
e um gato me desanima:
chega perto… apura o faro…
e joga areia por cima.
Sérgio Ferreira da Silva – SP

 
Vaidade, doença triste
que nos condena a estar sós...
Não nos deixa ver que existe
ninguém mais além de nós.
A. A. de Assis – PR

Nos meus tempos de criança,
brincando à noite na rua,
nascia em mim a esperança
de um dia alcançar a lua!
Alberto Paco – PR

Em quatro linhas eu conto
qual é do amor todo o mal,
pois se resume num ponto:
o simples ponto final.
Amaryllis Schloenbach –SP

Na tarefa que lhe cabe,
Deus trabalha com você;
mas, por você, já se sabe,
Deus não faz nem diz por quê.
Amilton Monteiro – SP

Delírio é lira do poeta,
a rima do trovador.
É liturgia completa,
quer na alegria ou na dor.
Andréa Motta – PR
Em noites frias, sem lua,
quando meus versos componho,
eu cubro a verdade nua
com meu casaco de sonho.
Antonio Juracy Siqueira – PR

Muitas vidas sem aurora
levadas na fantasia,
são nas noites vida afora
uma carcaça vazia.
Benedita de Azevedo – RJ

No meu olhar já cansado,
guardo estrelas, guardo luas,
as mensagens de um passado
feito de noites só tuas.
Carolina Ramos – SP

Eu trago no pensamento
tantas angústias e apelos,
e sinto inveja do vento
quando roça os teus cabelos.
Clênio Borges – RS

Hoje a vitória te alcança...
Cuidado ao virar a mesa;
a vida é eterna cobrança
num mercado de surpresa.
Conceição Abritta – MG
Enganar que sou feliz
é coisa inútil, porque
meu sorriso triste diz
quanto eu sofro sem você.
Conceição de Assis – MG

Coração de mãe é grande,
infinito como o amor.
Sua ternura se expande
como o perfume da flor!
Cônego Telles – PR

Quiero siempre despertar
con trinos por la ventana,
que las aves saben dar
con fervor cada mañana.
Cristina Oliveira Chávez – USA
Fui dando tudo que tinha
e como o surrar de um sino
a dor foi somente minha,
nunca culpei o destino.
Dáguima Verônica – MG
Do cais, aceno ao vazio,
enquanto o remorso chora...
Castigo é alguém no navio
levando o perdão embora...
Darly O. Barros – SP

Trovador! Que trova fazes?
– Amigo, nem sei dizer!
Com ela, já fiz as pazes,
casados até morrer!
Diamantino Ferreira – RJ

Ultrapassando as fronteiras,
do Sim, do Não, do Talvez,
nosso amor vence barreiras
e o ciúme não tem vez!
Dirce Montechiari – RJ
A trova quando é sentida
viaja em nossa emoção
Nos faz fiéis toda a vida,
une os povos, faz irmãos.
Dinair Leite – PR

Amargando os dissabores
dos seus amores dispersos,
o poeta esconde as dores
nas entrelinhas dos versos.
Djalma Mota – RN

A exemplo de um bom peão,
eu já não tenho altivez;
se um amor me joga ao chão,
tiro o pó... tento outra vez!
Domitilla Borges Beltrame – SP
Coração deixado vago
lamenta ter que informar:
fizeram-lhe tanto estrago,
que não dá mais pra morar.
Dorothy Jansson Moretti – SP
A escolha do par perfeito,
farei nesta... em qualquer vida,
ao resgatar de outro peito,
minha metade perdida!
Élbea Priscila – SP

Desfazendo a natureza,
vai o homem construtor
desconstruindo a certeza
de um futuro promissor.
Eliana Jimenez – SC
Nesta longa caminhada
que fazemos sempre a sós...
nem o silêncio da estrada
quebra o silêncio entre nós!
Francisco Garcia – RN

Quem faz da vida um disfarce
e finge viver a esmo,
de tudo pode safar-se
mas não engana a si mesmo!
Francisco Pessoa – CE
Paz, amor, fraternidade,
eis o lema entre as nações;
porém quanta falsidade
em só três afirmações!
Gasparini Filho – SP

O progresso traz mudanças,
cria fábricas e usinas,
mas se esquece das crianças
que dormem pelas esquinas!
Gérson César Sousa – PR

Alvorada dos meus dias,
teus olhos - luzes pagãs -
acendem com poesias
o céu de minhas manhãs...
Gilvan Carneiro da Silva – RJ

Meus lábios apaixonados
bebem o orvalho dos teus,
desses teus lábios molhados,
que sonham com os lábios meus!
Gislaine Canales – SC

Qual um pastor diligente
cuidando do seu rebanho,
pastoreio no presente
minhas saudades de antanho!
Gutemberg de Andrade – CE
Da janela do avião
deslizo o olhar pelo espaço.
Entre flocos de algodão
revivo sonhos... Renasço.
Heloisa Crespo – RJ
A minha trova sem ela
– a musa que eu sempre quis –
é uma trova tagarela,
rima... rima... e nada diz...
Héron Patrício – SP

Da despedida ao regresso,
tanto mistério restou,
que eu já nem sei, te confesso,
se quem foi, foi quem voltou!
Istela Marina – PR

Responde, ó Deus, pela mão
que podes ver, calejada:
– por que há de ter tanto chão
quem nele não planta nada?
Jaime Pina da Silveira – SP

Deus! Que beleza me deste!
– Penso que ela é toda minha –
mas no espaço azul celeste
sou só uma nuvenzinha.
Janske Schlenke – PR
Um sorriso, uma indulgência,
um gesto ingênuo de adeus...
Por onde houver inocência
há um pedacinho de Deus...
JB Xavier – SP

Nesta imagem refletida
(tão bom se o espelho falasse...),
quanta história está contida
nos vincos da minha face!
Jeanette De Cnop – PR

A trova é uma obra de arte: merece ser tratada como tal.

Se o anoitecer no deserto
nos impedir de rompê-lo,
alguma estrela, por certo,
ouvirá o nosso apelo.
Joana D’Arc – RJ

Caminhei por esta rua
procurando o seu calor,
Ontem eu quis dar-te a lua,
hoje dou-te o meu amor!
José Feldman – PR

Como é belo ver a planta
que abre flores nos caminhos,
nas horas em que Deus canta
pela voz dos passarinhos!
José Lucas de Barros – RN

Sigamos nossos caminhos
feitos nessa longa estrada,
mesmo se vamos sozinhos
levando mala pesada.
José Marins – PR

Para o velho em desalento,
as ilusões, comparando,
são folhas secas que o vento
agita de vez em quando.
José Messias Braz – MG

A virtude de fazer,
grande verdade contém:
só quem faz por merecer,
merece ter o que tem.
José Reinaldo – AL
Meu desejo percorreu
teu corpo como compasso,
circulando o que é tão meu
na geografia do abraço.
Lisete Johnson – RS

Não sei se todos ponderam
a troca que o livro traz:
– grandes homens o fizeram,
grandes homens ele faz!
Lucília Decarli – PR
Queria envolver minha alma,
e às alturas supliquei...
e Deus respondeu-me: “– Calma!
Basta amar como eu te amei”.
Luiz Antonio Cardoso – SP

A comunidade da trova é formada, em sua imensa maioria,
por pessoas do bem. Zelemos para que seja sempre assim.


Tira o véu da hipocrisia,
joga longe esse teu manto,
e verás que a noite fria
se transforma em puro encanto.
Luiz Carlos Abritta – MG

Por te amar tanto é que a vida,
embora dure um segundo,
possui o espaço e a medida
das horas todas do mundo!...
Mara Melinni – RN
Na caneca... o bom "verdinho"!
Caldo verde... sobre a mesa!
Pão à farta! E o meu ranchinho
é uma "casa portuguesa"!
Maria Madalena Ferreira – RJ

Se a distância, por maldade,
tua presença me furta,
pelo atalho da saudade,
torno a distância mais curta.
Maria Nascimento – RJ

Tem gente que esconde o pranto;
sem razão, sente vergonha;
não sabe que o desencanto
é normal quando se sonha.
Mário Zamataro – PR

Beijando, a brisa, meu rosto,
meiga, me faz relembrar,
com saudade e muito gosto,
o amor que pude lhe dar.
Maurício Friedrich – PR
Quem me dera alguém pudesse
entender meu sentimento;
seria a trova uma prece
para o fim do sofrimento.
Neiva Fernandes – RJ
E na noite, noite fria,
estando só, eu chorei.
Fui buscar-te, alma vazia,
de alma vazia voltei...
Neusa Mattar – MG

No Vosso martírio, eu pude
ver quatro quedas, Jesus,
quando um velho, sem saúde,
caiu na fila do SUS!...
Newton Vieira – MG

Que bom poder chamar alguém de irmão/irmã!

De viver não tenha medo;
todo receio é bobagem...
Dessa receita, o segredo
é a pitada de coragem.
Olga Agulhon – PR

Como um triste passageiro,
descobri, só na partida,
que a saudade é o timoneiro
da caravela da vida...
Pedro Melo – SP
Amar e não demonstrar
é como estrela sem lume,
é boca sem paladar,
é flor que não tem perfume.
Raymundo Salles – BA

Dia tão cinza e tão frio,
chuva insistente lá fora...
Aqui, em meu peito, o vazio
abraça a saudade e chora.
Regiane Ornellas – SP

Bendiz a lida na enxada
o lavrador quando sente
cheiro da terra molhada
fertilizando a semente.
Relva do Egipto – MG

Pensei ser fogo apagado...
Mas ao ver-te, de repente,
vi que a chama do passado
arde, ainda, em meu presente.
Thereza Costa Val – MG
Eu não temo o que amealha
as pedras do ódio e rancor,
por crer que qualquer muralha
cede ... ante a força do amor.
Therezinha Brisolla – SP

Amigo, não tenha pressa,
pois a vida é um bem precioso.
A treva às vezes começa
em um sinal luminoso!
Wandira F. Queiroz – PR
De um amor que é só miragem
finjo agora ter o assédio,
para escapar da engrenagem
dessa moenda que é o tédio.
Wanda Mourthé – MG

Visite 
http://poesiaemtrovas.blogspot.com/
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sábado, 29 de junho de 2013

Varal de Trovas n.1 - Carolina Ramos (SP)


José Feldman (Universo de Versos n. 67)

Trova em imagem obtida no facebook, montagem sobre logo do UDV

 Uma Trova do Paraná
-
MÁRIO A. J. ZAMATARO – Curitiba

O tamanho do universo
não cabe em minha janela,
mas entra em pequeno verso,
quando estou de sentinela.
========================
Uma Trova sobre Esperança, de São Paulo/SP
-
RENATA PACCOLA

Um sorriso de criança
inocente, doce e aberto
é uma chuva de esperança
em meu caminho deserto!
========================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Chapecó/SC
 -
SILVÉRIO RIBEIRO DA COSTA
Nascemos mas não sabemos
quem somos nós, de verdade.
Por isso mesmo morremos,
sem saber a identidade.
=======================
Uma Trova Humorística, do Rio de Janeiro
-
EDMAR JAPIASSÚ MAIA

Pergunta a mestra ao menino,
aluno meio confuso:
– A porca… tem masculino?
– Tem, fessora… o parafuso!
======================
Uma Trova do Ademar
-
ADEMAR MACEDO  - Natal/RN
1951 - 2013

Das colheitas dadivosas
que Deus deixa nos caminhos,
uns curvam-se e colhem rosas,
outros, só colhem espinhos…
========================
Uma Trova Hispânica do Perú
-
PAÚL TORRES

Aunque la noche me cierra
no hay niebla que me doblega,
como el sol llega a la tierra
la luz de mi amor te llega.
===================
Uma Trova sobre Saudade, de Pindamonhangaba/SP
-
JOSÉ VALDEZ C.MOURA

Na praça da minha vida,
unidas, vi, a chorar,
abraçada a despedida
a saudade a soluçar…
========================
Trovadores que deixaram Saudades
-
JOSÉ RODRIGUES FERNANDES – Fortaleza/CE
1910 – ????

Chora o vento lá por fora...
Chora a chuva e vão-se as águas.
O coração também chora,
mas nunca se vão as mágoas.
========================
Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores
-
LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Como Colombo, singrando
esta vida - incerto mar,
vivo no mundo esperando
um Novo Mundo encontrar...
========================
Uma Poesia de Maringá/PR
-
ALBA KRISHNA TOPAN FELDMAN
Estrela


Agora o sol já se foi
Não mais sua alegria e suas cores
Não mais sua luz e seu calor.

Apenas uma estrela!

Lá no céu, pálida, triste
Está sozinha
como eu!

Mas todos têm a esperança
de que o sol nasça de novo amanhã
tingindo tudo de dourado novamente.

As cores, os amores…

Só eu que não tenho esperança!

Sonhei o mais louco dos sonhos,
Vivi a mais ousada das fantasias
Impossível!
Não vai se realizar…

Então, eu fico olhando
para aquela estrela
sozinha no céu.
Triste, abandonada…
Como eu!
========================
Um Haicai de São Paulo
-
EDSON KENJI IURA
Primavera


Chuva de primavera —
O casal na correria
rindo sem parar.
================
O Universo de Leminski
-
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 - 1989)


Você está tão longe
que ás vezes penso
que nem existo

nem fale em amor
que amor é isto
======================
Uma Trova do Rei dos Trovadores
-
ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

Sei que amor é sofrimento,
custa a vida querer bem,
mas custa o dobro da vida,
na vida não ter ninguém.
======================
O Universo de Cora
-
CORA CORALINA
(Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Goiás (1889 – 1985)
Das Pedras


Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.

Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.

Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida...
Quebrando pedras
e plantando flores.

Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos.
==============================
Uma Poesia de Fortaleza/CE
-
LÚCIA LUSTOSA
Quantos Ais!


Ai é o partilhado
que não é dividido,
mas somado, multiplicado,
nunca subtraído.

Se a vida se esvai,
quero levar comigo
os ais da vida.
========================
O Universo de Pessoa
-
Fernando Pessoa
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935


Linda noite a desta lua.
Lindo luar o que está
A fazer sombra na rua.
Por onde ela não virá.
========================
Uma Poesia de Porto/Portugal
-
ANA HATHERLY
(1929)
A Corrida em Círculos


I
O círculo é a forma eleita:
É ovo, é zero,
É ciclo, é ciência.
E toda a sapiência.

É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.

II
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.

A senda mais perigosa
Em nós se consumando,
Passamos a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando.
========================
Um Soneto do Ceará
-
FRANCISCO ALVES LIMA
Crepuscular


Banhando a fronte pálida e sombria
na luz dourada e tépida do sol,
eu meditava e, absorto, percorria
todas as vivas cores do arrebol.

Uma ária antiga dulçurosa epia
dos meus lábios, em notas sibilantes,
apaixonada e trêmula, caia
n’asa sutil das virações errantes.

Minh’alma as notas da canção seguia,
e, ouvindo a voz alegre que cantava,
fitava os céus e cândida sorria…

Quando a canção gemia e soluçava
minh’alma em sombra e mágoa s’envolvia
e olhando, ao longe, a imensidão chorava!…
========================
Uma Poesia Além Fronteiras
-
ANNA ENQUIST
Amsterdam/Holanda – 1945
Cena Campestre


A casa esperou por nós,
pensamos. O duplo renque de árvores
acena-nos que nos cheguemos. Num sussurro,
o rio vai escorregando cheio
entre as margens.

 À hora exacta, o sol vai esconder-se
por trás dos campos. A escuridão
envolve a casa que nos protege.
Acendemos o fogo, bebemos
entre as paredes.

 Vendi-me inteira à
segurança e debruço-me da janela.
Dormem cavalos e galos, a água
pisca o olho à lua, e eu a pagar,
sempre a pagar.

(tradução: Catherine Bare)
=====================
Um Poetrix de Brasília/DF
-
ROMILDO AZEVEDO
obstáculos


São tantos os percalços
Sol, chuva, vento, sereno…
E nós ainda andamos descalços.
========================
O Universo de Drummond
-
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 - 1987
Nudez


Não cantarei amores que não tenho,
e, quando tive, nunca celebrei.
Não cantarei o riso que não rira
e que, se risse, ofertaria a pobres.
Minha matéria é o nada.
Jamais ousei cantar algo de vida:
se o canto sai da boca ensimesmada,
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,
nem sabe a planta o vento que a visita.

Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite,
mas tão disperso, e vago, tão estranho,
que, se regressa a mim que o apascentava,
o ouro suposto é nele cobre e estanho,
estanho e cobre,
e o que não é maleável deixa de ser nobre,
nem era amor aquilo que se amava.

Nem era dor aquilo que doía:
ou dói, agora, quando já se foi?
Que dor se sabe dor, e não se extingue?
(Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha.)
Que sentimento vive, e já prospera
cavando em nós a terra necessária
para se sepultar à moda austera
de quem vive sua morte?
Não cantarei o morto: é o próprio canto.
E já não sei do espanto,
da úmida assombração que vem do norte
e vai do sul, e, quatro, aos quatro ventos,
ajusta em mim seu terno de lamentos.
Não canto, pois não sei, e toda sílaba
acaso reunida
a sua irmã, em serpes irritadas vejo as duas.

Amador de serpentes, minha vida
passarei, sobre a relva debruçado,
a ver a linha curva que se estende,
ou se contrai e atrai, além da pobre
área de luz de nossa geometria.
Estanho, estanho e cobre,
tais meus pecados, quanto mais fugi
do que enfim capturei, não mais visando
aos alvos imortais.

Ó descobrimento retardado
pela força de ver.
Ó encontro de mim, no meu silêncio,
configurado, repleto, numa casta
expressão de temor que se despede.
O golfo mais dourado me circunda
com apenas cerrar-se uma janela.
E já não brinco a luz. E dou notícia
estrita do que dorme,
sob placa de estanho, sonho informe,
um lembrar de raízes, ainda menos
um calar de serenos
desidratados, sublimes ossuários
sem ossos;
a morte sem os mortos; a perfeita
anulação do tempo em tempos vários,
essa nudez, enfim, além dos corpos,
a modelar campinas no vazio
da alma, que é apenas alma, e se dissolve.
========================
UniVersos Melodicos
-
MILTON AMARAL
Folhas ao vento
(valsa, 1934)


Tão mimosa
Graciosa e angelical
Nasceu em seu jardim uma linda flor
Naquela noite santa de Natal
No momento que juramos eterno amor
No entanto você tudo esqueceu
Trocando meu coração por outro ser
E a flor, ao ver a sua ingratidão
Murchou e em prantos se desfolhou
Até morrer.

Folhas ao vento
Já que o destino assim nos transformou
Envelheci
Na lucidez da imensa provação
Num labirinto
De tristeza e saudade
Num relicário, a cruci dor da ingratidão

Folhas ao vento
Quando a bonança veio me abraçar
Num desalento
Aquele amor fui encontrar
Numa igrejinha, tendo ao colo filho seus
Pedindo uma esmola
Pelo amor de Deus!
(Fonte: Cifrantiga)
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda
-
DE ONDE VEM AQUELA MENINA


É uma fileira de crianças e uma defronte. Cantam as da roda:

De onde vem aquela menina
De tão longe assim, assim
Ao redor de nossa terra
Mangicão, dão, dão

Responde a menina:

Eu ando por aqui assim, assim
À procura de uma agulha
Que aqui perdi

A fileira:

Volta para casa
Vai dizer a teus pais, teus pais
Que uma agulha que se perde
Não se acha mais

A menina:

Eu já fui, já voltei
Já disse a meus pais, meus pais
Que uma agulha que se perde
Não se acha mais

(Fonte: Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo: Departamento de Cultura, 1953.)

sexta-feira, 28 de junho de 2013

José Feldman (Universo de Versos n. 66)


Uma Trova do Paraná
-
LUIZ HÉLIO FRIEDRICH – Curitiba

Debruçada sobre o berço
do seu querido filhinho,
busca a mãe, com o seu terço,
indicar-lhe um bom caminho.
========================
Uma Trova sobre Esperança, de Belo Horizonte/MG
-
OLYMPIO DA CRUZ SIMÕES COUTINHO

Estrela que me seduz
és a imagem da esperança:
- brilhante, mas não traz luz;
tão linda, mas não se alcança.
========================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Fortaleza/CE
-
FERNANDO CÂNCIO

A ilusão da meninice
com os meus netos se fez,
agora em plena velhice
eu sou criança outra vez!
=======================
Uma Trova Humorística, de Nova Friburgo/RJ
-
SÉRGIO F. DOS SANTOS

Nem me lembro mais do gosto
da tal noite de verão,
e até hoje pago imposto
que ela chama de pensão...
======================
Uma Trova do Ademar
-
ADEMAR MACEDO  - Natal/RN
1951 - 2013

Com sua língua de trapo
disse, ao ser mandado embora:
– É moleza engolir sapo,
o duro é botar pra fora!
========================
Uma Trova Hispânica do México
-
MARIA ELENA ESPINOSA MATA

Que no haya sol en el cielo.
Que se resequen los mares.
¡Qué importa si tú, mi anhelo,
borras todos mis pesares!
===================
Uma Trova sobre Saudade, de Portugal
-
MARIA JOSÉ FRAQUEZA

Minha boneca de sonho…
vivências da mocidade!
Pensamento que transponho
no meu portal de saudade!
========================
Trovadores que deixaram Saudades
-
DELMAR BARRÃO – Rio de Janeiro/RJ

Talvez eu fosse feliz
se conseguisse esquecer
o bem que pude e não fiz,
o mal que fiz sem querer.
========================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores
-
LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Vendo inquieto o "costureiro",
tendo a barba bem cerrada,
diz de chacota, o barbeiro:
"chegou a vez da barbada..."
========================
Um Haicai de Magé/RJ
-
BENEDITA SILVA DE AZEVEDO

Noite de inverno-
A tremer sob jornais
O pobre na esquina
================
O Universo de Leminski
-
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 - 1989)


guerra sou eu
guerra é você
guerra é de quem
de guerra for capaz

guerra é assunto
importante demais
para ser deixado
na mão dos generais
======================
Uma Trova do Rei dos Trovadores
-
ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

O sol é que faz o trigo;
e o trigo, que faz o pão.
Mas se o trigo se faz hóstia,
faz-se sol no coração ...
======================
O Universo de Cora
-
CORA CORALINA
(Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Goiás (1889 – 1985)
O Chamado das Pedras


A estrada está deserta.
Vou caminhando sozinha.
Ninguém me espera no caminho.
Ninguém acende a luz.
A velha candeia de azeite
de lá muito se apagou.

Tudo deserto.
A longa caminhada.
A longa noite escura.
Ninguém me estende a mão.
E as mãos atiram pedras.
Sozinha...
Errada a estrada.
No frio, no escuro, no abandono.
Tateio em volta e procuro a luz.
Meus olhos estão fechados.
Meus olhos estão cegos.
Vêm do passado.

Num bramido de dor.
Num espasmo de agonia
Ouço um vagido de criança.
É meu filho que acaba de nascer.

Sozinha...
Na estrada deserta,
Sempre a procurar
o perdido tempo que ficou pra trás.

Do perdido tempo.
Do passado tempo
escuto a voz das pedras:

Volta...Volta...Volta...
E os morros abriam para mim
Imensos braços vegetais.

E os sinos das igrejas
Que ouvia na distância
Diziam: Vem... Vem... Vem...

E as rolinhas fogo-pagou
Das velhas cumeeiras:
Porque não voltou...
Porque não voltou...
E a água do rio que corria
Chamava...chamava...

Vestida de cabelos brancos
Voltei sozinha à velha casa deserta.
==============================
Uma Poesia do Rio de Janeiro
-
AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT
1906 – 1965
Quando Eu Morrer


Quando eu morrer o mundo continuará o mesmo,
A doçura das tardes continuará a envolver as coisas todas.
Como as envolve agora neste instante.
O vento fresco dobrará as árvores esguias
E levantará as nuvens de poesia nas estradas…

Quando eu morrer as águas claras dos rios rolarão ainda,
Rolarão sempre, alvas de espuma
Quando eu morrer as estrelas não cessarão de acender-se
no lindo céu noturno,
E nos vergéis onde os pássaros cantam as frutas
continuarão a ser doces e boas.

Quando eu morrer os homens continuarão sempre os mesmos.
E hão de esquecer-se do meu caminho silencioso entre eles,
Quando eu morrer os prantos e as alegrias permanecerão
Todas as ânsias e inquietudes do mundo não se modificarão.
Quando eu morrer os prantos e as alegrias permanecerão.
Todas as ânsias e inquietudes do mundo não se modificarão.
Quando eu morrer a humanidade continuará a mesma.
Porque nada sou, nada conto e nada tenho.
Porque sou um grão de poeira perdido no infinito.

Sinto porém, agora, que o mundo sou eu mesmo
E que a sombra descerá por sobre o universo vazio de mim
Quando eu morrer…”
========================
O Universo de Pessoa
-
Fernando Pessoa
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935

Tu És Maria das Dores,
Tratam-te só por Maria.
Está bem, porque deste as dores
A quem quer que em ti se fia.
========================
Uma Poesia de Porto/Portugal
-
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
1919-2004
Retrato de uma Princesa Desconhecida


      Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
 Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
      Para que a sua espinha fosse tão direita
         E ela usasse a cabeça tão erguida
    Com uma tão simples claridade sobre a testa
 Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
     De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
     Servindo sucessivas gerações de príncipes
         Ainda um pouco toscos e grosseiros
            Ávidos cruéis e fraudulentos

         Foi um imenso desperdiçar de gente
        Para que ela fosse aquela perfeição
           Solitária exilada sem destino
========================
Um Soneto de Vila Rica (atual Ouro Preto)/MG
-
Beatriz Francisca de Assis Brandão
1779 – 1868
Soneto

 
Estas, que o meu Amor vos oferece,
Não tardas produções de fraco engenho,
Amadas Nacionais, sirvam de empenho
A talentos, que o vulgo desconhece.

Um exemplo talvez vos aparece
Em que brilheis nos traços, que desenho:
De excessivo louvor glória não tenho,
E se algum merecer de vós comece.

Raros dotes talvez vivem ocultos,
Que o receio de expor faz ignorados;
Sirvam de guia meus humildes cultos.

Mandei ao Pindo os vôos elevados,
E tantos sejam vossos versos cultos,
Que os meus nas trevas fiquem sepultados.
========================
Uma Poesia Além Fronteiras
-
Robert Walser
Biel/Suiça = 1879 – 1956
Estrela D'Alva

 

Abro a janela,
uma luz opaca matinal perdura.
Já parou de nevar,
a grande estrela está no seu lugar.

A estrela, a estrela
como é maravilhosa!
O horizonte está branco de neve,
brancos de neve estão todos os cumes.

Fresca e sagrada
a quietude matinal no mundo.
Cada voz ressoa clara,
os telhados brilham como carteiras de escola.

Tão silencioso e branco:
um deserto enorme e magnífico,
cuja fria quietude torna inútil
qualquer pensamento. Dentro de mim tudo arde.
=====================
Um Poetrix de Minas Gerais
-
PEDRO CARDOSO
fome

 

o abismo
entre a mão e a boca,
tem nome…
========================
O Universo de Drummond
-
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 - 1987
Nota Social

 

O poeta chega na estação.
O poeta desembarca.
O poeta toma um auto.
O poeta vai para o hotel.
E enquanto ele faz isso
como qualquer homem da terra,
uma ovação o persegue
feito vaia.
Bandeirolas
abrem alas.
Bandas de música. Foguetes.
Discursos. Povo de chapéu de palha.
Máquinas fotográficas assestadas.
Automóveis imóveis.
Bravos...
O poeta está melancólico.

Numa árvore do passeio público
(melhoramento da atual administração)
árvore gorda, prisioneira
de anúncios coloridos,
árvore banal, árvore que ninguém vê
canta uma cigarra.
Canta uma cigarra que ninguém ouve
um hino que ninguém aplaude.
Canta, no sol danado.

O poeta entra no elevador
O poeta sobe
O poeta fecha-se no quarto.
O poeta está melancólico.
========================
UniVersos Melodicos
-
FRANCISCO ALVES e ORESTES BARBOSA
A Mulher que Ficou na Taça
(valsa, 1934)

 

Fugindo da nostalgia
Vou procurar alegria
Na ilusão dos cabarés
Sinto beijos no meu rosto
E bebo por meu desgosto
Relembrando o que tu és

E quando bebendo espio
Uma taça que esvazio
Vejo uma visão qualquer
Não distingo bem o vulto
Mas deve ser do meu culto
O vulto dessa mulher...

Quanto mais ponho bebida
Mais a sombra colorida
Aparece em meu olhar
Aumentando o sofrimento
No cristal em que, sedento
Quero a paixão sufocar

E no anseio da desgraça
Encho mais a minha taça
Para afogar a visão
Quanto mais bebida eu ponho
Mais cresce a mulher no sonho
Na taça, e no coração.
(Fonte: Cifrantiga)==========
Uma Cantiga Infantil de Roda
-
SAMBA LELÊ
1944

 

   Samba Lelê tá doente
Tá com a cabeça quebrada
Samba Lelê precisava
É de uma boa lambada

Samba, samba, samba, ô Lelê
Samba, samba, samba, ô Lalá
Samba, samba, samba, ô Lelê
Pisa na barra da saia, ô Lalá

Eliana Jimenez (Trova-Legenda até 30 de Junho. PARTICIPE!!!)


Envie uma trova baseada na figura acima para elianarjz@gmail.com. PARTICIPE!

Divulgação das trovas no blog http://poesiaemtrovas.blogspot.com 

Prazo Máximo: 30 de junho

Eliana Ruiz Jimenez (Trova-Legenda: Casal na Rede)

Que belo é poder amar
em doce e alegre aconchego:
– o mar, a brisa, o luar...
e a rede para o chamego!
A. A. de Assis – Maringá/PR

Com textura chamejante,
na foto  de alto valor,
perto do mar cintilante
surgem segredos de amor.
Agostinho Rodrigues – Campos/RJ

Das juras que ambos fizemos
sobre a rede a balançar,
belos frutos nós colhemos:
Nossas filhas! Nosso lar!
Alberto Paco – Maringá/PR

Não fosse cartão postal,
mataria minha sede...
vivendo um amor tão igual
defronte ao mar numa rede!
Ana Maria Guerrize Gouveia – Santos/SP

Céu calmo, rede macia,
no peito um grande calor...
Você falava, eu ouvia
embriagado de amor!
Amilton M. Monteiro – São José dos Campos/SP

Junto a ti en esta alborada
frente al mar, sobre la duna,
sintiéndome por ti amada
siento que eres mi fortuna
Ángela Desirée Palacios – Venezuela

Apreciando a natureza,
- belo por-do-sol no mar -
um casal, vendo a beleza,
mais amor vai externar.
Angelica Villela Santos - Taubaté/SP

Momento eterno, maiúsculo,
prenhe de amor e magia:
nós dois fitando o crepúsculo
na rede da poesia!
Antonio Juraci Siqueira – Belém/PA

Essa tarde e esse mar,
nossa infância assim sem medo,
nossa rede a nos ninar
fazem qualquer um aedo.
Antonio Cabral Filho – Jacarepaguá/RJ

No meigo céu tão dourado
onde a beleza seduz,
o lindo amor é moldado
na forma daquela luz.
Ari Santos de Campos - Itajaí/SC

Na vila dos pescadores
nem só de peixes se fala...
Também se fala de amores
que a rede à noitinha embala!
Bruno P. Torres – Niterói/RJ

Enquanto a rede balança,
embalando o nosso amor,
o mar,  sem ondas, descansa
baixando a voz... em louvor...
Carolina Ramos – Santos/SP

No  "Dia dos Namorados",
- tão propício para amar,
rapaz e moça sentados
numa rede à beira-mar !
Colavite Filho – Santos/SP

Romantismo sempre existe,
transporta épocas, idade...
ele ao amor não resiste,
fazendo cumplicidade !
Cristina Cacossi - Bragança Paulista./SP

Numa rede um sonho a dois
sob as cores do arrebol:
— Fazer amor e depois
deleitar-se à luz do sol.
Dáguima Verônica – Santa Juliana/MG

Em paz no final do dia,
só nós dois a contemplar
a beleza que irradia
o ouro do sol com o mar.
Dalva de Araujo – Santos/SP

O casal, a rede, o mar,
o olhar enlevado, atento,
à tela crepuscular,
em fase de acabamento...
Darly O. Barros – São Paulo/SP
 

Tendo o céu e o mar à frente,
imagem que impressionava,
um par de jovens presente,
a paisagem contemplava!
Delcy Canalles – Porto Alegre/RS

Na mesma rede embalados...
Porém a vida é tão dura!
- No que pensam namorados
se não na vida futura?!
Diamantino Ferreira – Campos/RJ

A lua inventa e comanda;
escondida, e de atalaia,
faz que a rede da varanda
sonhe embalar-se na praia.
Dorothy Jansson Moretti – Sorocaba/SP
 

No embalo dessa rede,
vejo a vida acontecer.
A chama do amor acende,
neste belo entardecer!
Edite Rocha Capelo – Santos/SP

Quem tem amor entardece
em suave balançar,
contemplando o sol que tece
mais um poente no mar.
Eliana Jimenez – Balneário Camboriú/SC
 

"Foi na rede, frente ao mar,
num sonho feito de ocaso,
que o "caso" deu que falar
quando surgiu um..."atraso".
Elisabete Aguiar - Mangualde/Portugal
 

Nós dois... a rede...o horizonte...
Nós dois... o tempo e...mais nada,
que, de repente, é uma fonte
de inspiração carregada!
Flávio Stefani – Porto Alegre/RS
 

Uma rede, a praia, o mar
e mais, a presença dela
faz a gente suspirar
olhando a formosa tela...
Geraldo Lyra - PE

Quero um mundo sem parede
ou procela, só bonança!
Nós dois no vaivém da rede
flertando o mar como criança.
Geraldo Trombin – Americana/SP
 

Felizes os namorados,
numa rede, frente ao mar,
sentindo-se emocionados,
conjugam o verbo amar!
Gislaine Canales – Balneário Camboriú/SC

A alegria de viver
vai depender do momento...
Veranear pode ser
perfeito acontecimento.
Glória Tabet Marson – S. J. dos Campos/ SP

A rede armada na praia,
lazer que embala o casal,
que no Ceará se espraia
ao longo do litoral.
Haroldo Lyra – Fortaleza/CE

Enquanto a rede balança,
tenho um pensamento louco:
eu deixei de ser criança
mas ainda sou um pouco...
Janske Niemann – Curitiba/PR
 

Pôr do sol... em frente ao mar,
na rede os jovens, sentados,
num cenário singular,
trocam segredos e agrados.
Jessé Nascimento - Angra dos Reis/RJ

Nessa onda vespertina
tocando a tépida areia
o que mais nos ilumina
desperta na lua cheia!
João Batista Xavier Oliveira – Bauru/SP

Abraçados numa rede,
o horizonte a contemplar,
era um quadro na parede…
de um amor pra recordar!
José Feldman - Maringá/PR

Para tão juntos estarem,
corações entrelaçados,
juras de amor a trocarem,
é certo, são namorados.
José Kalil Salles – Barbacena/MG

Enfim, sós – disse Medeia,
encanto que une e medeia,
no sucesso dessa ideia
o fogo que em nós ateia.
José Marins – Curitiba/PR

Numa tarde radiante
o céu cheio de esplendor,
os amantes confiantes
trocam mil juras de amor.
José Satiro – Natal/RN
 

Cuando al amor se lo mece
aunque sea en una hamaca
hasta el alma se enternece
y se afirma cual estaca.
Libia Beatriz Carciofetti - Argentina
 

Ao teu lado, não sei bem...
São as ondas em seu vagar
ou se é a rede num vai vem
que me dão o céu  e o  mar?
Lisete Johnson – Porto Alegre/RS
 

Numa rede o sol se pondo,
um casal de namorados,
conta pétalas compondo,
só versos... apaixonados...
Lora Saliba – São José dos Campos/SP
 

Embalando os namorados;
balançam a rede e o mar,
na tarde de tons dourados
que o amor faz despertar.
Luiz Moraes - São José dos Campos – SP

Se é o nascer ou pôr do Sol,
não difere a apoteose!
Assistimos no arrebol
imbuídos na hipnose...
Maryland Faillace – Santos/SP

Contemplar o mar infindo,
entender sua poesia,
ver o sol se despedindo
é sentir paz e alegria.
Marina Valente - Bragança Paulista/SP
 

Entardece todo dia,
não há quem não saiba disso,
mas... quem sabe da magia
de uma tarde com feitiço?
Mário A. J. Zamataro – Curitiba/PR

Mar sereno de águas calmas
- refletindo a luz da lua -
contemplai as duas almas
na rede que ao léu flutua!...
Mercedes Lisbôa Sutilo – Santos/SP
 

Basta ver o entardecer
vou à rede namorar.
Quero de tudo esquecer
ao som das ondas do mar.
Mifori -  São José dos Campos/SP

Um casal apaixonado,
Sob um luar deslumbrante,
curte um amor ritmado
numa rede balouçante...
Myrthes Masiero – São José dos Campos/SP

Desde que o dia amanhece,
até vir o por do  sol,
você é  luz que me aquece,
me ilumina, é meu farol.
Nadir Giovanelli - São José dos Campos /SP

No crepúsculo da vida
com você eu quero estar,
e ficar bem entretida
numa rede à beira mar!...
Nair Lopes Rodrigues – Santos/SP
 

Numa rede, apaixonados,
entre sonhos, a embalar,
os eternos namorados
fazem juras frente ao mar!
Nei Garcez - Curitiba/PR

Lancei minha rede ao mar
e pesquei bela sereia
que comigo foi deitar
noutra rede, em plena areia!
Nemésio Prata – Fortaleza/CE

Eu, a rede e a namorada,
nós curtindo o entardecer.
Amar é isso e mais nada...
poucos sabem perceber.
Olympio Coutinho – Belo Horizonte/MG
 

Enlaçados numa rede,
co’os pés à beira do mar,
saciamos toda sede,
na doida sede de amar...
Olga Maria Dias Ferreira – Pelotas/RS
 

O sol, a brisa e esta rede,
no entardecer, que esplendor!
E o mar morrendo de sede,
mata-me a sede de amor!
Prof. Garcia – Caicó/RN

Contemplando el horizonte
que el Dios Padre nos mandó,
ni una garza, ni un sinsonte
sólo el cielo, tú y yo.
Rafael Ramos Nápoles – Venezuela

Contemplando a maré calma,
que os corações enternece,
o casal é uma só alma
e o seu silêncio, uma prece!
Renato Alves - Rio de Janeiro/RJ
 

No balanço bem armado
e o luar a seu favor,
o casal apaixonado
celebra sincero amor.
Ruth Farah Nacif Lutterback - Cantagalo/RJ
 

Tendo o céu quase em queimada
vendo o sol que se retira
nos meus ombros minha amada
deita a cabeça... e suspira!!!
Secel Barcos – Cambridge/Canadá
 

Tu surgiste em minha vida
Como a rosa esfacelada
Pra eu juntar em terna lida
Tuas dores, doce amada!
Sinclair Pozza Casemiro-Campo Mourão-PR

Que beleza ver o mar
sempre em boa companhia
a ouvir o seu marulhar:
-quanta paz, quanta magia !...
Sônia Ditzel Martelo – Ponta Grossa/PR
 

Fim de tarde de verão,
numa rede, frente ao mar,
casal em contemplação
redescobre o que é amar.
Sonia Lodi Ferle – Santos/SP

Numa praia, é lindo amar,
contemplando o sol se pôr;
ondas balançando o mar,
e a rede embalando o amor!
Vanda Alves da Silva – Curitiba/PR
 

O mar, a tarde silente,
a rede, a troca de afeto...
Um momento, simplesmente,
mas... um momento completo!
Vanda Fagundes Queiroz – Curitiba/PR

S’o nascer gentil do sol
permite às gentes gostar,
a beleza do arrebol
bem mais os fará vibrar.
Victor Batista – Barreiro/Portugal

Nosso amor cabe num verso
e tem grandezas sem par -
guarda a expansão do Universo
e as sincronias do mar.
Wagner Marques Lopes - Pedro Leopoldo/MG
 

Visto a dois o entardecer
traz emoção diferente:
É como se amanhecer
se eternizasse na gente.
Wandira Fagundes Queiroz – Curitiba/PR
Fonte:
http://poesiaemtrovas.blogspot.com

Iº Jogos Florais da UBT em Los Angeles California -USA

Jamais desista de ser feliz, pois
a vida é um espetáculo imperdível,
ainda que se apresentem dezenas de
fatores a demonstrarem o contário”

Fernando Pessoa
Lisboa, Portugal.


O concurso será promovido por Carmen Rojas Larrazábal Delegada de UBT, com o apoio e patrocínio de (Organizações Públicas, escolas, empresas, etc), e dele constarão Os Iº Jogos Florais com concursos de trovas e festividades.

TROVA é uma composição poética de quatro versos heptasílabos ( sete silabas) contando até a ultima sílaba tónica. Rimando o 1º com o 3º e o 2º com o 4º ABAB. expressando um pensamento completo.

As Trovas em língua portuguesa poderão ser remetidas por sistema via e-mail para a Coordenadora em língua portuguesa Gislaine Canales ao e-mail: gislainecanales@gmail.com com cópia ao Presidente Internacional de UBT Cristina Oliveira Chávez. e-mail: CoLibriRoseBeLLe@aol.com com os dados completos de cada concursante.

Nome:
Domicílio:
Cidade:
País:
e-mail:

E as 3 Trovas concursantes

Prazo para entregar as Trovas Março do 2014.

Data das Festividades: do 6 ao 12 de Julho de 2014

Los Angeles California USA

A inscrição será de 280.00 dólares só para os que vão assistir ao Congresso do CUPHI.

Os que não vão assistir poderão concorrer como estão as regras abaixo

Cada Trovador-a poderá enviar, no máximo( 3 ) trovas, inéditas e de sua autoria.

As trovas serão qualificadas por notas a nota mais alta terá 500.00 dólares como parte seus prêmios.

Serão concedidos os seguintes prêmios:
5 Vencedoras (Troféu, diploma ) e 500.00 Dólares à nota mas alta dentro das 5 vencedoras.
5 Menções Honrosas (Troféu e diploma )
5 Menções Especiais (Troféu e diploma)
Não terá repetição de troféu dentro da mesma categoria.

Será constituída a comissão julgadora, formada por Trovadores de reconhecido mérito dentro da literatura Portuguesa.

As Trovas concursantes deverão ser Líricas ou Filosóficas.

O Tema das Trovas será a palavra HUMANIDADE. A palavra HUMANIDADE deverá ir dentro da trova.

O prazo para enviar as trovas concursantes termina o 31 de Março do 2014.

Os participantes que desejem ir às festividades deverão comunicá-lo a Gislaine Canales gislainecanales@gmail.com e A Cristina Oliveira Chávez CoLibriRoseBeLLe@aol.com

Para comunicar-lhes dos benefícios que se lhes outorgarão num pacote especial , em, onde, por 280.00 dólares terão:

Custo para participar 3º CONGRESSO UNIVERSAL DA POESIA HISPANO-AMERICANA (CUPHI III):

1. Taxa de inscrição, além:

Inclui:

A. Materiais (programa, mapa, lista de contatos de emergência, pin, identificação , saco com logotipo CUPHI III )

B. 6 almoços

C. Jantar de Gala de Abertura

D. Jantar de Encerramento

E. Excursão pós-histórico e cultural

F. O acesso a todas as atividades de conferência (incluindo palestras, debates, homenagens, concertos, exposições de arte, concertos, apresentação de livros)

G. Participação em concursos de poesia (Floral Jogos-Quatro Amores dos gregos, e baladas)

H. A publicação de um poema na antologia de CUPHI III:

I . Participação da missa em trovas na Catedral de Nossa Senhora dos Anjos.

Gislaine Canales Y Cristina Oliveira

Fonte:
Mifori

II Concurso Fulguras do Amor – Poesia (Vencedores)

MEDALHA DE OURO:
REGINALDO COSTA DE ALBUQUERQUE
(CAMPO GRANDE – MS)

A Estátua


Quando em minha janela a noite cresce,
corro até a pracinha aqui bem perto.
A um canto do jardim sempre deserto,
o vulto de uma estátua alto floresce.

Do jarro erguido aos ombros a água desce
ondeando a flor de um lago a céu aberto...
Na pedra ao lado, as mãos ao peito aperto,
dizendo o meu penar diluído em prece.

O bico da coruja adianta a hora...
Na quietação da rua espreita a aurora
detrás do vicejar de um malmequer.

E ao retornar a casa alguém me chama!
No lago, as lindas curvas de alva dama...
Era a estátua num corpo de mulher.

MEDALHA DE PRATA:
ROZELENE FURTADO DE LIMA
(TERESÓPOLIS – RJ)

Doce mel 


Hoje eu só quero encontrar 
Um amor carregado de vontade
Desejoso de morrer de amar
De ser momento na eternidade

Quero beijos muito ardentes
Carícia livre sem restrição
Entregar tudo, totalmente
Corpo, pele, sonhos e ilusão 

Sussurrando com estrelas deixar fluir
Provar o néctar, saborear o doce mel
Sem parcelar a liberdade de ficar

Pagar, receber, dar e dividir
Ser ponte, ser escada, ser céu 
Ir onde nunca olvidei chegar

MEDALHA DE BRONZE:
LARISSA LORETTI
(RIO DE JANEIRO – RJ)


Um amor cigano sem fronteiras

Pássaro nômade sem fazer história...
Um amor estranho, diferente.
Amor cigano
uma fonte que se faz presente
de carinhos e desejos...
Em torno da fogueira
o nosso amor ardente...
Em meio a ouro, prata,
castanholas,
taças de vinho
sons de violino,
e uma esteira de luz
em meu caminho...
Sobre uma rosa vermelha
o punhal cruzado,
sob o céu todo estrelado
Santa Sara protegendo e perdoando...
Dentro do meu destino
um amor cigano
partindo pelo mundo afora
um amor peregrino
guardado
em mim, e neste poema que
a emoção escreveu
apenas para dizer aqui
estrela, encanto, flor...
a melhor coisa que me aconteceu.

Fonte:
Paulo Caruso. http://www.reinodosconcursos.com.br/index.php?pagina=1501479057_20

Academia Brasileira de Trova (Palestra sobre Luiz Otávio, em 2 de Julho)

Prezados Acadêmicos e Membros de Honra da ABT e amigos trovadores ou amantes da trova:

DIA 2 (DOIS) DE JULHO (TERÇA FEIRA),
ÀS 16 HORAS
ACADEMIA BRASILEIRA DE TROVA
PALESTRA DA ACADÊMICA MARIA NASCIMENTO (CADEIRA Nº 53, PATRONÍMICA DE ELTON CARVALHO),
" A VIDA E A OBRA DE LUIZ OTAVIO, "O PRÍNCIPE DOS TROVADORES".

Contamos com Vossas presenças para abrilhantarem e prestigiarem uma das mais consagradas trovadoras vivas, que por muitos anos preside e foi fundadora da União Brasileira de Trovas (UBT-RJ)

horário: 16 horas

Local: sede da FALARJ (Federação das Academias de Letras do Rio de Janeiro)

À Rua Teixeira de Freitas, nº 5 , esquina com a Avenida Augusto Severo nº 8 , Sala 303 - 3º andar (Lapa Centro)

Fonte:
Messody Ramiro Benoliel

Diogo Fontenelle (O Fazer Crônica ao Lume da Poesia )

Bruno Paulino garimpa memórias – acontecidas e sonhadas! – ao longo de suas vivências de menino sertanejo. Nesse tear de gemas e gemidos, o jovem prosador lança mão dos lápis de cores do seu coração marinheiro a azular as miudezas do dia a dia mesquinho, a “...esverdejar”, qual berilo esmeralda, esperas e esperanças vazadas pelas negações e ausências do viver nordestinado.

Ergue-se então, o poeta que veleja pelas marés da tessitura da crônica, gênero que muitas vezes resvala pelo mero fotografar de lembranças encharcadas de desabafos em timbres confessionais. Ressalve-se que não é esse o “fazer crônica” do referido escritor que se afirma pelo ruminar da vida em contínua ancoragem no papel inundado pelos vestígios do sangrar e do sonhar de um menino do bravio sertão cearense. Nesse serpentear, o cronista reanima Quixeramobim à luz de um olhar apaixonado pelo desaguar da melodia da terra em suas florações de encontro e desencontro, de amor e desamor.

Eis assim, o despertar do cronista menino que não matava passarinhos, neto do Vô Luís, Tangedor de Sonhos a bordo de uma cadeira de balanço... Portanto, eis o menino poeta que se faz caçador de palavras multicores a voar pelos ares, como passarinhos em eterno cantar de invernia.

Nesse horizonte mágico do verbal lírico, confesso que volto a Quixeramobim em visita guiada pelo cronista poeta Bruno Paulino, encontro uma cidade inédita para mim, diferente das várias Quixeramobins que venho ajardinando em meus “lembrados” dourados. Descortinam-se dessa edição sopros de vivências infantis e juvenis pontuadas por filigranas do dia a dia que escondem relâmpagos de ternura e encantamentos de outros tempos e espaços que descolam da alma sertaneja sempre sedenta pelo tilintar do “Maravilhoso” em contínua cigania a cumprir a profecia de que “Deus quer ver o povo de Quixeramobim feliz!”

Causa-me especial surpresa que um jovem dos tempos tecnológicos contemporâneos movidos pelo domínio da “Era Digital”, venha escrever uma carta para Manuel Bandeira, Poeta Maior. A meu ver, escrever uma carta entre os caprichos de uma caligrafia vazada em papel azul é coisa de enamorado da Poesia em viagem à deriva pelos vapores do século dezenove. Mas, para meu espanto, é essa a escolha do citado jovem escritor que parece ancorar nos tempos presentes, acendendo luzes de romantismos perdidos e aparentemente extintos, mas ainda passíveis de um redespertar.

Será que os casarões de Quixerambim erguidos “à sombra dos pés de cajá e juazeiros” podem ainda guardar perfumes e melodias do luminoso beato Antonio Conselheiro, da bela Dona Guidinha do Poço, do menestrel Fausto Nilo, da mais que devota catequista Dona Carminha André, e do sábio Jorge Simão? Bruno Paulino vem me confirmar que sim, bem que eu desconfiava nas minhas romarias pelo Reino Insólito da Infância! Cabe-me acreditar que Quixeramobim possui “túneis do tempo” a operar quando bem dedilhados pelo talento de um mago das Artes em floração.

“Mago da Palavra” é o que o verdadeiro Poeta sonha constituir-se ao longo de duros pesares. Na Esfera transcendental da Profecia, regida por algum dom de intuição que eu talvez possa acessar, mediante as proezas do “vento aracati” tangido pelo três vezes Santo Padroeiro: Santo Antonio de Lisboa, Santo Antonio de Pádua, e o não menor Santo Antonio de Quixeramobim... Eu ouso vislumbrar que Bruno Paulino, enquanto cronista estreante, venha trilhar os labirintos do Fazer Poético em Sinfonia Maior.

Fonte:
Nilto Maciel. http://literaturasemfronteiras.blogspot.com/2013/06/o-fazer-cronica-ao-lume-da-poesia-diogo.html

Aluísio Azevedo (O Coruja) Parte 4

André o escutava, sem dar uma palavra, mas patenteando no rosto enorme interesse pelo que ouvia.

Era a primeira vez que se achava assim, em comunicação amistosa com um seu semelhante; era a primeira vez que alguém o escolhia para confidente, para íntimo. E sua alma teve com a surpresa deste fato o mesmo gozo de impressões que experimentara ainda há pouco o seu paladar com os saborosos doces até aí desconhecidos para ele.

E o Coruja, a quem nada parecia impressionar, começou a sentir afeição por aquele rapaz, que era a mais perfeita antítese do seu gênio e da sua pessoa.

Quando Salustiano veio abrir-lhes a porta à hora do jantar, encontrou Teobaldo de pé, a discursar em voz alta, a gesticular vivamente, defronte do outro que, estendido na cadeira, toscanejava meio tonto.

— Então? Exclamou o homem das barbas longas. — Que significa isto?

— Isto quê, ó meu cara de quebra-nozes? Interrogou Teobaldo soltando-lhe uma palmada na barriga.

— Menino! Repreendeu o homem; não quero que me falte ao respeito!

— E um pouco de Madeira, não queres também?

— O senhor bem sabe que aqui no colégio é proibido aos alunos receberem vinho.

— Para os outros, não duvido! Eu hei de receber sempre, se não digo ao velho que não empreste mais um vintém ao diretor.

— Não fale assim... O senhor não se deve meter nesses negócios.

— Sim, mas em vez de estares aí a mastigar em seco e a lamber os beiços, é melhor que mastigues um pouco de requeijão com aquele doce.

— Muito obrigado.

— Não tem muito obrigado. Coma!

E Teobaldo, com sua própria mão, meteu-lhe um doce na boca.

— Você é o diabo! Considerou Salustiano, já sem nenhum sinal de austeridade. E, erguendo a garrafa à altura dos olhos: — Pois os senhores dois beberam mais de meia garrafa de vinho?!.

André ao ouvir isto, começou a rir a bandeiras despregadas, o que fazia talvez pela vez primeira em sua vida. Pelo menos, o fato era tão estranho que tanto Salustiano como Teobaldo caíram também na gargalhada.

— E não é que estão ambos no gole?... Disse homem, a cheirar a boca da garrafa e, sem lhe resistir ao bom cheiro, despejou na própria o vinho que restava.

— Que tal a pinga? Perguntou Teobaldo.

— É pena ser tão mal empregada... Responde o barbadão a rir.

— Este Salustiano é um bom tipo! Observou o menino, enchendo as algibeiras de frutas e doces.

— Ora, quando o diretor não pode com o senhor eu é que hei de poder...

E, querendo fazer-se sério de novo:

— Vamos! Vamos! Aviem-se, que está tocando a sineta pela segunda vez!

— Não vou à mesa, respondeu Teobaldo — daqui vou para o jardim; diga ao doutor que estamos indispostos.

E, voltando-se para o Coruja.

— Oh! André! Toma conta de tudo isso e vamos lá para baixo ouvir a flauta do Caixa-d’óculos.

Desde então os dois meninos fizeram-se amigos.

Foi justamente a grande distância, o contraste, que os separava, que os uniu um ao outro.

As extremidades tocavam-se.

Teobaldo era detestado pelos colegas por ser muito desensofrido e petulante; o outro por ser muito casmurro e concentrado. O esquisitão e o travesso tinham, pois, esse ponto de contato — o isolamento. Achavam--se no mesmo ponto de abandono, viram-se companheiros de solidão, e é natural que se compreendessem e que se tornassem afinal amigos inseparáveis.

Uma vez reunidos, completavam-se perfeitamente. Cada um dispunha daquilo que faltava no outro; Teobaldo tinha a compreensão fácil, a inteligência pronta; Coruja o método, e a perseverança no estudo; um era rico; o outro econômico; um era bonito,
débil e atrevido; o outro feio, prudente e forte. Ligados, possuiriam tudo. E, com o correr do ano, por tal forma se foram estreitando entre os dois os laços da confiança e da amizade, que afinal nenhum deles nada fazia sem consultar o camarada. Estudavam juntos e juntos se assentavam nas aulas e à mesa.

Por fim, era já o André quem se encarregava de estudar pelo Teobaldo; era quem resolvia os problemas algébricos que lhe passavam os professores; era quem lhe arranjava os temas de latim e o único que se dava à maçada de procurar significados no dicionário Em compensação o outro, a quem faltava paciência para tudo isso, punha os seus livros, a sua vivacidade intelectual à disposição do amigo, e dividia com este os presentes e até o dinheiro enviado pela família, sem contar as regalias que a sua amizade proporcionava ao Coruja, fazendo-o participar da ilimitada consideração que lhe rendia todo o pessoal do colégio, desde o diretor ao cozinheiro.

De todas as gentilezas de Teobaldo, a que então mais impressionara ao amigo foi o presente de uma flauta e de um tratado de música, que lhe fez aquele volta de um passeio com o diretor do colégio. Coruja trabalhava à sua mesa de estudo quando o outro entrou da rua.

— Trago-te isto, disse-lhe Teobaldo apresentando-lhe os objetos que comprara.

— Uma flauta! Balbuciou André no auge da comoção. — Uma flauta!

— Vê se está a teu gosto.

Coruja ergueu-se da cadeira, tomou nas mão instrumento, e experimentou-lhe o sopro, e ficou tão satisfeito com o presente do amigo que não encontrou uma só palavra para lho agradecer.

— Que fazias tu? Perguntou-lhe Teobaldo.

Mas correu logo os olhos pelo trabalho que estava sobre a mesa e acrescentou:

— Ah! É ainda o tal catálogo!

— É exato.

— Gabo-te a paciência! Não seria eu!

E, tomando a bocejar uma das folhas escritas o outro tinha defronte de si.

— Isto vem a ser?...

— Isto é a numeração das obras, respondeu André.

— Ah! Vai numerá-las...

— Vou. Para facilitar.

— E isto aqui? [interrogou Teobaldo, tomando outra folha de pape].

— Isto é uma lista dos títulos das obras.

— E isto?

— O nome dos autores.

— Depois reúnes tudo?

— Reuno.

— Melhor seria fazer tudo de uma mais prático. Assim, não é tão cedo que te verás livre dessa maçada!

— Há de ficar pronto.

Mas estava escrito que o célebre catálogo não teria de ficar acabado nas férias deste ano. Urna circunstância extraordinária veio alterar completamente os planos do autor.

Logo ao entrar das férias, o pai de Teobaldo apresentou-se no colégio para ir em pessoa buscar o filho.

Entrou desembaraçadamente a gritar pelo rapaz desde a porta da rua.

— Ah! É V. Exa. exclamou o diretor com espalhafato, logo que o viu. E correu a tornar-lhe o chapéu e a bengala.

— Bela surpresa! Bela surpresa, Sr. Barão! Tenha a bondade de entrar para o escritório!

— Vim buscar o rapaz. Como vai ele?

— Muito bem, muito bem.! Vou chamá-lo no mesmo instante. Tenha a bondade V. Exa. de esperar alguns segundos.

E, como se a solicitude lhe dera sebo às canelas, o Dr. Mosquito desapareceu mais ligeiro que um rato. O Sr. Barão do Palmar, Emílio Henrique de Albuquerque, era ainda nos seus cinqüenta e tantos anos uma bela figura de homem. A vida acidentada e revessa, a que o condenara sempre o seu espírito irrequieto e turbulento não conseguira alterar-lhe em nada o bom humor e as gentilezas cavalheirescas de sua alma romântica e afidalgada. Como brasileiro, ele representava um produto legítimo da época em que veio ao mundo.

Nascera em Minas, quando ferviam já os prelúdios da independência, e seu pai, um fidalgo português dos que emigraram para o Brasil em companhia do Príncipe Regente e de cujas mãos se passara depois para o serviço de D. Pedro I, dera-lhe por mãe uma formosa cabocla paraense, com quem se havia casado e de quem não tivera outro filho senão esse.

De tais elementos, tão antagônicos, formou-se-lhe aquele, caráter híbrido e singular, aristocrata e rude a um tempo, porque nas veias de Emílio de Albuquerque tanto corria o refinado sangue da nobreza, como o sangue bárbaro dos tapuias. Crescera entre os sobressaltos políticos do começo do século, ouvindo roncar em torno do berço a tempestade revolucionaria, que havia de mais tarde lhe arrebatar a família, os amigos e as primeiras e mais belas ilusões políticas. Desde muito cedo destinado às armas, matriculou-se na Escola Militar, fez parte da famosa guarda de honra do primeiro Imperador, e, com a proteção deste e mais a natural vivacidade do seu temperamento mestiço, chegou rapidamente ao posto de capitão.

Teve, porém, de interromper os estudos para fazer a lamentável guerra de Cisplatina, donde voltou seis meses depois, sem nenhuma dar ilusões com que partira, nem encontrar os pais e amigos, que sucumbiram na sua ausência, e nem mais sentir palpitar-lhe no coração o primitivo entusiasmo pelos defensores legais da integridade nacional. Orfanato, pois, ao vinte e dois anos, senhor de uma herança como bem poucos de tal procedência apanhavam nessas épocas, pediu baixa do Exército e levantou o vôo para a Europa, fazendo-se acompanhar por um criado que fora de seu pai, o Caetano, aquele mesmo criado que, trinta e tantos anos depois, apareceu no colégio do Dr. Mosquito vestido de libré cor de rapé, com botões amarelos.

Ah! Se esse velho quisesse contar as estroinices que fez o querido amo pelas paragens européias que percorreu! Se quisesse dizer quantas vezes não expôs a pele para livrá-lo em situações bem críticas! Quantas vezes por causa de alguma aventura amorosa ou por alguma simples questão de rua ou de café não voltaram os dois, amo e criado, para o hotel com o corpo moído de pauladas e os punhos cansados de esbordoar!

Durante essas viagens levaram eles a vida mais aventurosa e extravagante que é possível imaginar; só voltaram para o Brasil no período da regência, depois da abdicação do Sr. D. Pedro I, por quem o rapaz não morria de amores. Tornando à província, Emílio, talvez na intenção de refazer os seus bens já minguados, casou-se, a despeito da oposição do Caetano, com uma rapariga de Malabar, filha natural de um negociante português que comerciava diretamente com a Índia.

Atirou-se então a especular no comércio, mas o seu temperamento não lhe permitia demorar-se por muito tempo no mesmo objeto e, achando-se viúvo pouco depois de casado, lançou as vistas para Diamantina, que nessa ocasião atraía os ambiciosos, e lá se foi ele,. sempre acompanhado pelo Caetano, explorar o diamante. Tão depressa o viram em 1835 na Diamantina como em 1842 em Santa Luzia na revolução ao dos liberais mineiros, lutando contra a célebre reação conservadora manifestada pela lei de 3 de Dezembro.

A galhardia e valor com que se houve nessas conjunturas valeu-lhe a estima de Teófilo Otoni e outros importantes chefes do seu partido. Dessa estima e mais dos bens particulares que então gastou na política foi que se originou o título, com que mais tarde o agraciaram. A sua atitude política, a sua riqueza e os seus dotes naturais haviam-lhe já conquistado na corte as melhores relações deste tempo.

Uma vez, por ocasião de trazer para aí uma excelente partida de diamantes, travou conhecimento com um importante fazendeiro de café, em cuja fazenda se hospedou por acaso. Esse homem, mineiro da gema, era no lugar a principal influência do partido conservador e, sem dúvida, um dos que primeiro explorou a famosa Mata do Rio, que então começava a cobrir-se de novas plantações. O fazendeiro tinha uma filha e Emílio cobiçou-a para casar. Mas o encascado político, descendente talvez dos antigos emboabas que avassalaram o centro de Minas, não cedeu ao primeiro ataque, e Emílio teve de lançar mão de todos os recursos insinuativos da sua raça para conseguir captar a confiança do pai e o coração da filha. Quando lá tornou segunda vez, deixou o casamento ajustado.

Então foi ainda a Diamantina liquidar os seus negócios e, voltando à Mata, recebeu por esposa a mulher que, mal sabia ele, estava destinada a ser a mais suave consolação e o melhor apoio do resto de sua vida. Foi desse enlace que nasceu Teobaldo, logo um ano depois do casamento. Emílio só reapareceu na corte em 1847, onde os seus correligionários, então no poder, o agraciaram com o titulo de Barão do Palmar; mas voltou logo para Minas e tratou de estabelecer com os seus capitais uma fazenda na vizinhança da do sogro, que acabava de falecer.

Foi esse o melhor tempo de sua vida, o mais tranqüilo e o mais feliz. Só depois de casado, Emílio pode avaliar e compreender deveras a mulher com quem se unira; só depois de casado descobriu os tesouros de virtude que ela lhe trouxe pura casa, escondidos no coração.

Laura, assim se chamava a boa esposa, era um destes anjos, criados para a boa segurança do lar doméstico; uma dessas criaturas que nascem para fazer a felicidade dos que a cercam. Em casa, senhores chamavam-lhe "Santa". E este doce tratamento conduzia com os seus atos e com a sua figura.

— Esta, sim! Exclamava o Caetano, entusiasmado Esta, sim, é uma esposa de conta, peso e medida!

Pouco a pouco, Emílio fui amando a mulher, ao ponto de chegar a estremecê-la, o que até aí lhe parecia impossível.

No meio de toda essa felicidade, Teobaldo deu os seus primeiros passos pela mão do pai, da Santa e do fiel Caetano, que já o adorava tanto como os outros. O pequeno era o mimo do casa; era o cuidado, o enlevo, a preocupação de quantos o viam crescer.
Com que sacrifício não consentiu, pois, o Barão do Palmar que o filho, daí a seis anos, seguisse sozinho para um colégio de Londres, donde havia de passar a Coimbra.

Mas assim era necessário, porque Emílio, então comprometido no tráfico dos negros africanos, viu-se atrozmente perseguido por Euzébio de Queiroz, terror dos negreiros e seu inimigo político.

Eis aí quem era e donde vinha o pai de Teobaldo.
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continua…

Nathalia Leal (Sarau Poético no I Arraial do Papel no Varal, de Maceió)

Uma noite de lua cheia, repleta de cores, bandeirolas e animação, marcou o I Arraial do Papel no Varal, nesse 25 de Junho. Ambientado no Arraial Central da Prefeitura de Maceió, o sarau poético atraiu um público extenso e heterogêneo – muitos foram os que estavam participando e lendo poesia pela primeira vez, o que enriqueceu ainda mais a celebração.

A recepção foi feita pelo grupo de forró Mistura Fina, que animou os presentes. Casais dançavam e rodopiavam próximos ao varal de sisal. A performance de abertura do sarau foi feita pelo animado ator Paulo Poeta, que leu uma poesia do alagoano Tonho Lambe-Sola, arrancando  palmas e risos calorosos do público. Zabumba, triângulo e sanfona do trio-pé-de-serra Os Mais Fortes do Forró introduziam a chegada animada de cada pessoa que ia ao palco dizer poesia.

Presente pela primeira vez no Papel no Varal, a estudante Karen Pimentel, 17, afirmou: “Estou gostando. É importante dar a oportunidade de todo mundo se expressar, mesmo que através da palavra dos outros”. Laryssa França, 21, leu Biu de Crisanto no palco e ressaltou a importância do evento: “É um encontro de poesia, e isso é muito raro”.

A presença de Eliezer Setton deixou a noite ainda mais calorosa e atraiu a atenção daqueles que passavam por perto: o músico, que introduzia suas canções através de causos e cantou clássicos como “Coco 2000”, acabou sua apresentação sendo aplaudido de pé. A Associação Alagoana de Ciclismo também prestigiou o I Arraial do Papel no Varal, com direito a leitura de poema no palco, com bicicleta e capacete.

Cantadas audaciosas enviadas pelo correio elegante, a boneca de pano, o “troféu macaxeira” e a irreverente apresentação de Ricardo Cabús aumentaram a dose de humor, já garantida pela seleção dos poemas matutos de Xexéu Beleléu, Chico Doido do Caicó, entre outros. Houve também entrega de brindes Ao Pharmacêutico àqueles que melhor entoavam os versos, como a jovem Eduarda Leite, de 12 anos.

Outras pessoas também se aventuraram na leitura. É o caso de Gerson Nunes Siqueira, de 55 anos: “Eu leio mal, gaguejando, mas vou ler. O poema fala da história de onde eu ‘vim’, do sertão.” – afirmou, enquanto esperava ansiosamente ser chamado ao palco.

Arriete Vilela, escritora e frequentadora assídua do Papel no Varal, demonstrou sua admiração à continuidade do projeto e sua capacidade de expansão: “É uma iniciativa que vem crescendo, e o melhor: saiu de um círculo pequeno de escritores e leitores alagoanos e hoje está num alcance popular. Gosto muito da ousadia do Ricardo Cabús”.

Apesar da seleção de poemas majoritariamente “matuta”, a leitura dos versos de Manuel Bandeira em “O Trem de Ferro”, feita por José Márcio Passos, arrancou aplausos – o ator também leu “O Gato do Vigário”, de Lêdo Ivo, num clima de grande descontração. As interpretações cuidadosas de Arilene de Castro e Demis Santana – com seu enfeitado chapéu de cangaceiro – também foram de grande destaque. Chico de Assis fez duetos interpretativos com Paulo Poeta, com direito a homenagem ao tradicional pastoril, coco de roda, guerreiro e às nuances coloquiais nordestinas, no encerramento do sarau. Os dois atores entoaram canções folclóricas e arriscaram uma paródia da típica procissão interiorana, aproveitando a animação do público. “A festa acabou. Até ano que vem, se ‘nós vivo for’!”, disparou Chico, em tom de brincadeira.

O evento encerrou-se ao som do trio Os Mais Fortes do Forró, que tocou peças do repertório de Jacinto Silva e Tororó do Rojão, de acordo com o tema escolhido pela Prefeitura de Maceió para os festejos juninos de 2013. Apesar do clima de fim de festa, os casais continuavam sua dança animada, ao som do forró.

O I Arraial do Papel no Varal superou as expectativas e recebeu o maior público de todas as edições do projeto: ao todo, é possível estimar um alcance de cerca de mil pessoas, dentre as que estavam de pé e outras que lotavam as 600 cadeiras ou permaneciam assistindo o sarau por algum tempo. Celebrando a rica cultura popular nordestina, o evento contou com uma atmosfera agradável e animada, permeada por sorrisos, cores e poesias, numa noite bastante interativa.

Fonte:
e-mail do Papel No Varal

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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