Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

José Feldman (Universo de Versos n. 118)

Uma Trova do Paraná
-
WALNEIDE F. S.GUEDES
 

-
Trova, essa doce magia,
faz o que o poeta quer,
levando sua alquimia
aonde o leitor estiver.
============================
Uma Trova sobre a Ecologia, de Belo Horizonte/MG
-
ARLINDO TADEU HAGEN

-
Pela imagem desolada
que, após o incêndio, nos resta,
as luzes de uma queimada
são as trevas da floresta!
============================
Uma Trova do Izo
-
IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP

-
Perdoa, amor, o meu jeito
de te olhar quando te vejo,
teu olhar me diz... Respeito!,
meu olhar te diz... Desejo!...
============================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Porto Alegre/RS
-
DELCY CANALLES

-
 Há muita gente com fome
 e há tanta riqueza em mim!
 Amazônia   é  o  meu nome.
 Por favor, cuidem  de  mim!
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Uma Trova Humorística, de Juiz de Fora/MG
-
MESSIAS DA ROCHA

-
No boteco do Zé Galo
tanto a sujeira se agrupa
que servem bife à cavalo
com mosquito na garupa.
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Uma Trova do Ademar
-
ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 - 2013 Natal/RN

-
Lágrimas, fuga das águas
por um riacho inclemente
que numa enchente de mágoas
inunda o rosto da gente!
============================
Uma Trova Hispânica, da Venezuela
-
HILDEBRANDO RODRÍGUEZ

-
Sigo llamando al amor
para que acabe su ausencia;
con su luz y resplandor
alumbrará mi presencia.
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Uma Trova sobre Respeito, de São Paulo/SP
-
         MARTA MARIA DE O. PAES DE BARROS

 -
Quem, gritando, impõe  respeito
e se julga um grão senhor,  
não vê  que impõe, deste jeito,
não respeito e sim, temor...
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Trovadores que deixaram Saudades
-
FAGUNDES VARELA
Rio Claro/RJ (1841 – 1875) Niterói/RJ

-
A mais tremenda das armas,
bem pior que a durindana,
atentai, meus bons amigos…
se apelida: – a língua humana!
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Uma Trova do Príncipe dos Trovadores
-
LUIZ OTÁVIO

(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP

-
Não digo não: “minha” Trova
quando faço um verso novo:
– não é minha e nem é nova
quando cai na alma do povo…
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Um Haicai de São Paulo/SP
-
JEFFERSON HENRIQUE MODESTO

-
Vovô na varanda
Só tem um pensamento –
Mais uma geada!
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Uma Trova da Rainha dos Trovadores
-
LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981

-
Meu amor foi acabando ...
Mas a saudade chegou:
chuva boa refrescando
o chão que o sol causticou.
============================
O Universo de Leminski
-
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 - 1989)

-
madrugada     bar aberto
deve haver algum engano
por perto
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  O Universo das Glosas de Gislaine
-
GISLAINE CANALES
Porto Alegre/RS
-
Glosando Amália Max
   SE ME DEIXAS...


MOTE:
SE ME DEIXAS POR VONTADE...
SE VAIS PARA NÃO VOLTAR...
O QUE É QUE EU DIGO À SAUDADE
QUANDO AMANHÃ ACORDAR?

GLOSA
SE ME DEIXAS POR VONTADE...
se amar-me, não podes mais,
sofrerei muito, é verdade.
Não te perdoarei jamais!

Se vais pra longe de mim,
SE VAIS PARA NÃO VOLTAR...
eu já prevejo o meu fim:
chorar... chorar e chorar...

E nessa minha orfandade
de amor, carinho e ternura,
O QUE É QUE EU DIGO À SAUDADE
nesta minha desventura?

Poderei sobreviver
sem fitar teu lindo olhar,
ou sem ele vou morrer
QUANDO AMANHÃ ACORDAR?
============================
Uma Trova do Rei dos Trovadores
-
ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ

-
A Ventura que hei buscado
pela Vida, sempre em vão,
que vezes não tem passado
à altura de minha mão! ...
============================
O Universo do Haicai de Seabra
-
CARLOS SEABRA
(São Paulo/SP)

-
folhas no quintal
dançam ao vento
com as roupas do varal
============================
O Universo Poético de Emilio
-
EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)
-
Matina

-
Noite! Cesse o teu ar imoto e quedo!
Quero manhã! todos os sons que vazas!
Fujam do ninho ao lépido segredo
Todas as bulhas de reflantes asas.

Sol! tu que a terra fecundando a abrasas.
Desce da aurora em raio doce e a medo,
Todas as luzes travessando o enredo
Diáfano e leve das nevoentas gazas.

Telas festivas deslumbrai-me a vista!
Cantos alegres desferi-me em roda
Em toda a luz, em todo o som que exista.

E a natureza toda em harmonia,
Iluminada a natureza toda,
Surja gloriosa no raiar do dia.
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O Universo Poético de Sardenberg
-
ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)
-
Andarilho

-
Sou andarilho da vida!
Enfrentando chuva e vento,
Eu sempre estou de partida -
Não gosto de despedida,
Meu teto é o firmamento...

Minha bagagem é a esperança,
A paz o meu alimento,
No embornal levo a lembrança
Do meu tempo de criança
Que não sai do pensamento.

No peito levo a saudade
Daquele abraço apertado,
Daquele sonho dourado
Que virou realidade...

No coração a certeza
De ter trilhado o caminho
Que me ensinou a entender:
É só pisando em espinho
Que o homem aprende a viver.
============================
O Universo Poético de Cecília
-
CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ
-
Retrato

 -
Eu não tinha este rosto de hoje,
                assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?
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O Universo Melódico de Assumpção
-
MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

-
Eu sou o rei da floresta ,
Tenho a coragem nas mãos
Não temo trovão, trovoada,
Injeção, confusão,
Nem estouro da manada
Eu sou o rei da floresta
Amigo presta atenção,
Eu sou o rei leão
Eu sou o rei da floresta
Não tenho medo nem de avião
Sou mais valente que qualquer
Mocinho, ou herói
De filme de caubói
Agora lá no meio da floresta
Tá na hora da festa
da coroação.

Coragem é o que não me falta
Eu sou o mais valente dos animais
Enfrento o inimigo, não conheço o que é perigo
Todos me temem, eu sou demais
Eu sou o rei da floresta
Tenho a coragem nas mãos
Agora lá no meio da floresta
Tá na hora da festa
da coroação
============================
O Universo Haicaista de Guilherme
-
GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP
-
Pacaembu

-
Chuva e sol. Repara
nas giestas atrás das frestas
das persianas claras.
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O Universo Sonetista de Alma
-
ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)
-
Viver, pensar

-
Viver é duro ao se pensar a Vida,
Melhor é não pensá-la e vivê-la.
Mas se não pensada é pura lida
É preciso parar para bem vê-la.

Mas se paramos começamos a pensar
E enxergamos pois o lado escuro
Que é a face da Morte a assombrar
Quanto mais do pensar se faz apuro.

Báh! Pensar e não pensar é impossível
Viver em plenitude é doloroso
Mas não querer sofrer é desprezível.

Pois se não vivemos, só pensamos,
Um gosto fica, assim, meio travoso
De não saber pra quê na Vida estamos...
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Uma Poesia de Belo Horizonte/MG
-
ANTONIO AGOSTINHO GOMES DE QUEIRÓS
-
Desenho

-
 Finda-se o dia.
 Linda! abre-se a noite estrelada.
 Brisa perfumada passeia pela prata;
 Profetisa a chegada da primavera.

 Homens jogam damas;
 Consomem o tempo desfiando tramas.
 Moles mulheres tricotam mazelas;
 Reles fiapos do dia.

 Vida tal qual tartaruga;
 Lida enfadonha, cansativa.
 Qual sentido tem essa vida;
 Tal não fosse acreditá -la?

 Cidade pequena... sem muitas ambições;
 Felicidade aqui ‚ um arco-íris.
 Desconhece as tramas dos grandes centros;
 Acontece, somente!
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O Universo de Francisca
-
FRANCISCA JÚLIA
1871, Xiririca (atual Eldorado Paulista)/SP - 1920, São Paulo/SP)
-
A um Artista


Mergulha o teu olhar de fino colarista
No azul: medita um pouco, e escreve; um nada quase:
Um trecho só de prosa, uma estrofe, uma frase
Que patenteie a mão de um requintado artista.

Escreve! Molha a pena, o leve estilo enrista!
Pinta um canto do céu, uma nuvem de gaze
Solta, brilhante ao sol; e que a alma se te vaze
Na cópia dessa luz que nos deslumbra a vista.

Escreve!... Um céu ostenta o matiz da celagem
Onde erra o sol, moroso, entre vapores brancos,
Irisando, ao de leve, o verde da paisagem...

Uma ave banha ao sol o esplêndido plumacho...
Num recanto de bosque, a lamber os barrancos,
Espumeja em cachões uma cachoeira embaixo...
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Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas
-
À MORTE NINGUÉM ESCAPA

 -
 À morte ninguém escapa,
Nem o rei, nem o papa,
Mas escapo eu.

Compro uma panela,
Custa-me um vintém,
Meto-me dentro dela
E tapo-me muito bem,
Então a morte passa e diz:
- Truz, truz! Quem está ali?
- Aqui, aqui não está ninguém.
- Adeus meus senhores,
Passem muito bem
-
http://luso-livros.net/
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O Universo Poético de Quintana
-
MARIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994)
-
Alma errada

-
Há coisas que a minha alma, já mortificada não admite:
assistir novelas de TV
ouvir música Pop
um filme apenas de corridas de automóvel
uma corrida de automóvel num filme
um livro de páginas ligadas
porque, sendo bom, a gente abre sofregamente a dedo:
espátulas não há... e quem é que hoje faz questão de virgindades...
E quando minha alma estraçalhada a todo instante pelos telefones
fugir desesperada
me deixará aqui,
ouvindo o que todos ouvem, bebendo o que todos bebem,
comendo o que todos comem.
A estes, a falta de alma não incomoda.
(Desconfio até que minha pobre alma fora destinada
ao habitante de outro mundo).
E ligarei o rádio a todo o volume,
gritarei como um possesso nas partidas de futebol,
seguirei, irresistivelmente, o desfilar das grandes paradas do Exército.
E apenas sentirei, uma vez que outra,
a vaga nostalgia de não sei que mundo perdido…
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O Universo de Pessoa
-
FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935

-
A terra é sem vida, e nada
Vive mais que o coração...
E envolve-te a terra fria
E a minha saudade não!
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O Universo Poético de Vinicius
-
VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)
-
Balada da Praia do Vidigal

-
A lua foi companheira
Na Praia do Vidigal
Não surgiu, mas mesmo oculta
Nos recordou seu luar
Teu ventre de maré cheia
Vinha em ondas me puxar
Eram-me os dedos de areia
Eram-te os lábios de sal.

Na sombra que ali se inclina
Do rochedo em miramar
Eu soube te amar, menina
Na praia do Vidigal...
Havia tanto silêncio
Que para o desencantar
Nem meus clamores de vento
Nem teus soluços de água.
Minhas mãos te confundiam
Com a fria areia molhada
Vencendo as mãos dos alísios
Nas ondas da tua saia.
Meus olhos baços de brumas
Junto aos teus olhos de alga
Viam-te envolta de espumas
Como a menina afogada.
E que doçura entregar-me
Àquela mole de peixes
Cegando-te o olhar vazio
Com meu cardume de beijos!
Muito lutamos, menina
Naquele pego selvagem
Entre areias assassinas
Junto ao rochedo da margem.
Três vezes submergiste
Três vezes voltaste à flor
E te afogaras não fossem
As redes do meu amor.
Quando voltamos, a noite
Parecia em tua face
Tinhas vento em teus cabelos
Gotas d'água em tua carne.
No verde lençol da areia
Um marco ficou cravado
Moldando a forma de um corpo
No meio da cruz de uns braços.
Talvez que o marco, criança
Já o tenha lavado o mar
Mas nunca leva a lembrança
Daquela noite de amores
Na Praia do Vidigal.
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Uma Poesia de Portugal
-
ANTERO DE QUENTAL
-
No turbilhão

-
A Jaime Batalha Reis
No meu sonho desfilam as visões,
Espectros dos meus próprios pensamentos,
Como um bando levado pelos ventos,
arrebatado em vastos turbilhões...

Num espiral, de estranhas contorções,
E donde saem gritos e lamentos,
Vejo-os passar, em grupos nevoentos,
Distingo-lhes, a espaços, as feições...

- Fantasmas de mim mesmo e da minha alma,
Que me fitais com formidável calma,
Levados na onda turva do escarcéu,

Quem sois vós, meus irmãos e meus algozes?
Quem sois, visões misérrimas e atrozes?
Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!...
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O Universo de Auta
-
Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN
-
Prece

-
Ó Santa estremecida,
Formosa e Imaculada!
Estrela abençoada
Do Céu de minha vida!

Rainha casta e Santa
Das virgens do Senhor,
Eterno resplendor
Que o mundo inteiro encanta.

Tu és minha alegria.
Meu único sorriso,
Ó flor do Paraíso,
Angélica Maria!

Ai! quantas vezes, quantas!
A minha fronte inclina
Orando a ti divina,
Ó Santa entre as mais santas!

Ó virgem tão serena!
Tu és meu sonho doce,
Perfume que evolou-se
De um seio de Açucena!

Amada criatura,
Lança-me estremecido
O teu olhar ungido
De imaculada doçura!

Ó Arco da Aliança,
Celeste e branco lírio,
Salva-me do martírio,
Senhora da bonança!

Envolve no teu véu
A minha triste sorte,
E mostra-me na morte
A porta de teu Céu!
============================
O Universo Triverso de Millôr 

-
MILLÔR FERNANDES
(Milton Viola Fernandes)
Rio de Janeiro (1923 – 2012)

-
Passeio aflito;
Tantos amigos
Já granito.
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O Universo de J. G.
-
J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ
-
Amor: Positivo

-
A gente sabe que é amor, quando de repente encontra
razões para perdoar o que nunca se perdoou,
quando os mais duros pensamentos são palavras de ternura
fora da boca
- a gente sente, sente
mas não pensa...

Que o diga o meu coração, que deseja ofender-te
e transforma em poesia a minha mágoa imensa.
============================
Um Soneto
-
HAROLDO SIQUEIRA
-
Sinto Saudade

-
 Sinto saudade de tomar-te aos braços
 E dizer-te palavras de carinho.
 Sinto saudade, agora que sozinho,
 Não tenho mais teus beijos, teus abraços.

 Sinto saudade de estar preso aos laços
 Dessa tua amizade e do "charminho"
 Com que mantinhas vivo o nosso ninho
 De amor... Do qual não restam nem os traços.

 Apesar de saber que não me amavas,
 O meu amor bastava: - Isso pensei...
 E, então mandei o pessimismo "às favas"

 E fui viver o sonho que sonhei.
 -Como redondamente me enganei !
 Era só a saudade, o que "plantavas"
============================
O Universo do Martelo Agalopado de Prof. Garcia
-
PROF. GARCIA
(Francisco Garcia de Araújo)
Caicó/RN (1946)

-
Quando escuto o bramido da procela
e os gemidos do mar, quando se alteia,
eu respeito o furor da maré cheia
e a bravura do mar que se encapela.
Fica mais perigoso o barco à vela
do que a nossa chalana pantaneira,
que é mais leve, mais dócil, mais faceira,
onde as ondas são todas pequeninas,
me lembrando as canoas nordestinas
sossegadas na paz da ribanceira!
============================
O Universo Poético de Lúcia Constantino
-
LÚCIA CONSTANTINO
(Maria Lúcia Siqueira)
Curitiba/PR
-
Quando Ainda Era Dia...

-
               (a minha mãe Hilda, in memoriam)
-

Quando ainda era dia
e as nuvens passeavam no céu,
eu ouvia tua palavra,
por mais cansada que estivesses.
Estavas ali com teu coração,
então minha angústia se calava
porque a tua palavra  era prece.

Quando ainda era dia
mas a chuva desmanchava meus sonhos
sempre estavas ali
carregando em teu colo não os teus,
mas os meus abandonos.

Quando ainda era dia
e meu olhar parava nas distâncias
fitando o nada do horizonte
inocentemente me perguntavas
- O que estás vendo tão longe?

Depois a noite desceu
sobre os nossos jardins,
sobre os teus canteiros,
as tuas hortaliças.
O galo não mais cantou.
Os  espinhos sorriram  pra  mim.
A alegria me perdeu de vista.

Aninhou-se  no mais alto da árvore
um pássaro chorando na tarde.
E os anjos te envolveram no ocaso
de tua própria luz
como Verônica envolveu em seu braços
o lenço que roçou o rosto de Jesus.
============================
Uma Poesia Além Fronteiras
-
EMILY DICKINSON
Estados Unidos (1830 – 1886)

-
A Dor Tem um Elemento de Vazio
-
A Dor - tem um Elemento de Vazio -
Não se consegue lembrar
De quando começou - ou se houve
Um tempo em que não existiu -

Não tem Futuro - para lá de si própria -
O seu Infinito contém
O seu Passado - iluminado para aperceber
Novas Épocas - de Dor.

(Tradução de Nuno Júdice)
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O Universo de Adélia
-
ADÉLIA PRADO
(Adélia Luzia Prado Freitas)
Divinópolis/MG (1935)
-
Explicação de Poesia Sem Ninguém Pedir

-
Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.
============================
O Universo Poético de Bilac
-
Olavo Bilac
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)
-
Justiça

-
Chega à casa, chorando, o Oscar. Abraça
Em prantos a Mamãe.

“Que foi, meu filho?”

—“Sucedeu-me, Mamãe, uma desgraça!
Outros, no meu colégio, com mais brilho,
Tiveram prêmios, livros e medalhas...
Só eu não tive nada!”

—“Mas porque não trabalhas?

Porque é que, a uma existência dedicada
Ao trabalho e ao estudo,
Preferes os passeios ociosos?
Os outros, filho, mais estudiosos,
Pelas suas lições desprezam tudo...
Pois querias então que, vadiando,
Os outros humilhasses,
E que, os melhores prêmios conquistando,
Mais que os outros brilhasses?
Para outra vez, ao teu prazer prefere
O estudo! e o prêmio alcançarás sem custo:
E aprende: mesmo quando isso te fere,
É preciso ser justo!”
============================
O Universo de Carlos Drummond de Andrade
-
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 - 1987) Rio de Janeiro/RJ
-
Nomes

-
As bestas chamam-se Andorinha, Neblina
ou Baronesa, Marquesa, Princesa.
Esta é Sereia.
aquela. Pelintra,
e tem a bela Estrela.
Relógio, Soberbo e Lambari são burros.
O cavalo, simplesmente Majestade.
O boi Besouro.
outro. Beija-flor
e Pintassilgo, Camarão,
Tem mesmo o boi chamado Labirinto.
Ciganinha, esta vaca; outra. Redonda.
Assim pastam os nomes pelo campo,
ligados à criação. Todo animal
é mágico.
============================
UniVersos Melodicos
-
Alcir Pires Vermelho e Lamartine Babo
-
ALMA DOS VIOLINOS

(valsa, 1942)
-
Sinto n'alma um violino
Um violino que acompanha
O meu triste adeus
Que vai por trás de uma montanha
Montanha pequenina
Diante dos olhos meus
Meus olhos tão imensos
Oh! Perguntem aos lenços
Quando dizem adeus

Sinto n'alma um violino
Um violino tão sonoro
Que acompanha melodias
Quando eu canto e choro
Eu choro porque os risos
Dei ao meu amor
Meu grande amor
Nestas valsas que eu componho
Vive o meu sonho
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Uma Cantiga Infantil de Roda
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ANDA À RODA

-
É uma roda de crianças e uma no meio. A menina do centro canta:

Anda à roda }
Porque quero }
Porque quero }
Me casar } bis

A roda responde:

Escolhei nesta roda
A quem mais vos agradar,
A quem mais vos agradar.

A criança do meio:

Não me serve, não me agrada,
Só a ti, a ti hei de querer,
Só a ti hei de querer.

A escolhida passa a ser a do centro na vez seguinte. E assim por diante.

Fonte:
Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo: Departamento de Cultura, 1953.

============================
O Universo Poético de Feitosa
-
SOARES FEITOSA
(Francisco José Soares Feitosa)
Ipu/CE (1944)
-
Adolescíamos

-
Esta névoa do chocolate
quente;
muito mais, Ela
do que a filha do circo,
bonita:

era um dia, domingo e suas vestes,
enquanto as nossas mães conversavam,
nós nos recostávamos à máquina de costura,

Singer, a velha máquina - se não tínhamos um piano;
quando me dei conta, suavemente eu lhe olhava os cabelos,
que também lhe olhava
rapidamente os olhos calmos.

Se algum gesto foi feito à tesoura
era apenas um disfarce:
nada haveria de nenhum corte.

E se confundem todas as luzes
numa névoa fina
de xícara e cálice:
Mirtes,
adolescíamos.
=====================================
O Universo Poético de Du Bois
-
PEDRO DU BOIS
Itapema/SC (1947)
-
Esgotar

-
Esgotado em gestos
na imobilidade da tela repintada
em cenas: o modelo
imobilizado no olho
do pintor
na mão do escultor
no obturador fotográfico.

O gesto desnecessário
do corpo em aceno de adeuses
e até logo.
==========================
O Universo Acróstico de Motta
-
SILVIA MOTTA
(Silvia de Lourdes Araujo Motta)
Belo Horizonte/MG (1951)
-
Quando o Amor Apaga a Chama

Acróstico sob encomenda Nº 5116
-
Q-Quantas vezes fiquei a observar pares...
U-Um casal fica sempre agarradinho
A-Aos olhares estranhos nos bares;
N-Não se intimidam com o risinho!
D-De outras vezes, no Restaurante
O-O casal calado lê o cardápio;
 -
O-O garçon entende o tom sussurante:
 -
A-Às vezes nem se olham nos olhos...
M-Muitos pagam a conta,sem nada falar!
O-Outros jovens, em grupo flutuante
R-Religam e ligam celulares, sem parar!
 -
P-Palavras não falam, mas bebem!
E-Entre os casais, clássicos amantes,
R-Retribuem beijos, dançam e riem...
D-Dia seguinte, trocam seus pares,
E-E novos amores querem provar!
-
A-A chama do AMOR quando
 -
C-Consegue ser apagada, não
A-Há fósforo, nem guindaste,
 -
C-Capaz de avivar o amor ardente
H-Humano, nem isqueiro ou pranto,
A-Angústia ou reclamação:
M-Morta a chama, torna-se cinza,
A-As brasas com água tornam-se carvão.
========================
O Universo Poético de Ordones
-
RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG
-
É fato
 

-
E quando aparece o sol, logo me esquento
E na pele acendo o que o coração já sente
Num deleite de vida quase não me agüento
Tapo-me a visão, mas tudo ela compreende.

Deito junto às lembranças de mim, reprises
Minh’alma se espreguiça: presente, passado
Vejo saudade que me chama sob marquises
Fazendo com que o meu céu seja estrelado.

E o ato triste entra em cena, não convidado
Pois é condimento que vem o belo aquilatar
Inda deitada sinto um Deus tudo “aquarelar”.

Abro os olhos... E tudo ao meu redor é fato
Vejo uma felicidade que sobressai a tristeza
As oportunidades me instigam sobre a mesa.
===================
O Universo Poético de Ialmar
-
IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS
-
O Jogador de Bocha
 

-
Cancha do jogo de bocha
transformada em tradição,
onde encontro a diversão
para as horas de lazer,
eu não posso te esquecer
e te trago na lembrança
desde quando fui criança
e começava a entender.

Pois até sinto saudade
das façanhas que eu fazia,
quando no braço soerguia
uma bocha e arremessava
num estilo de tuxava
que desfere com certeza,
a boleadeira na presa
e uma clavada na tava.

E mesmo jogando a ponto
sempre fazia por mim,
pois colava no bolim
uma riga ou uma lisa
e como quem não precisa
de seguir por mão alheia,
não provocava peleia:
que briga não dá camisa.

Por estes pagos então,
neste jogo de campanha,
dono de muita façanha,
era muito respeitado,
porque dentro do tablado
que neste verso retrato
jogava até por barato,
nunca apostava fiado.

Outro princípio que trago
desde os tempos de piazote:
quem se atira de garrote
contra touro colmilhudo
e de chifre pontiagudo,
nunca consegue vantagem,
mesmo que tenha coragem
acaba perdendo tudo.

Mas até por passatempo
a bocha tem muita graça,
por um copo de cachaça
ou um maço de cigarro,
que o guasca feito de barro
nesta terra se apresilha
ao moirão de coronilha
do velho pago bizarro.

Hoje os recuerdos me trazem
grandes partidas de bocha
e como uma acesa tocha
certa doença me invade,
queimando barbaridade
no peito meu coração,
quero voltar ao rincão
onde me leva a saudade!

E numa sombra campeira
reviver meu jogo antigo;
e se outra coisa não digo
neste sentimento adverso,
para encerrar o meu verso
minh’alma xucra se plancha
junto ao mistério da cancha
que envolve todo o Universo!...

domingo, 29 de setembro de 2013

Trova 264 - Roberto Pinheiro Acruche (São Francisco de Itabapoama/RJ)

Imagem obtida no facebook

Clevane Pessoa de Araújo Lopes (Passagem)

A Gonçalves Dias

Poeta -saudoso, agônico, voltas à terra natal
Frágil, trêmulo, febricitante,
Mas com relembranças fortes
A plenificar-te a alma de energia
Embora estejam enfraquecidas as esperanças...
Queres chegar a São Luiz do Maranhão,
Chegar e andar pelas ruas estreitas,
Pelas calçadas de pedras,
Da ilha de praias singulares
Cujo areal extenso
É lambido pelo mar cor de rio,
Cuja extensão vai dar nas terras de Portugal...
Queres rever pessoas, ouvir os sons
Dos sinos das igrejas, da siringe dos sabiás festivos
Que não esqueceste em teu exílio.
A mulher amada acode-te em teu delírio,
a rememória faz-se musa e te inspira versos
que não mais escreverás...
Um piedoso anjo de cristal,que parece orvalho,
Cheirando a rosas e à maresia,
Faz com que olvides as razões de teu martírio
Pela separação cruel e indevida
Da mulher amada...
Que culpa tens por teu sangue a correr nas veias
Brasileiras, é mestiço,a gerar tantos preconceito .

Súbito, a vida se esvai, a breve vida

As águas em movimento, frias ao teu corpo ardente
Sereias de prata conduzem-te ao Absoluto,
O desconhecido –assustador, por ignoto,
Até que se chegue aos portais dessa outra dimensão.
Teu anjo Estelas, que tantas vezes desceu à Terra
para consolar-te e enxugar-te as lágrimas,
ampara-te, e tomando-te pela mão,
leva-te ao gênese de tua essência,,
pelo túnel pleno de magnífica luminescência...
As asas angelicais, energia em movimento,
Criam mil arco-íris deslumbrantes, o que te encanta na passagem...

Percebes que enfim, estás livre
De qualquer sofrimento e provação
Não tens cor-de pele que te torne um rechaçado,
Carne alguma, cuja carnação de mulato
Marque tua destinação!
Nada que te faça um auto-exilado...
Súbito, ouves risos e canções.
Outros poetas estão à tua espera, Gonçalves Dias.
Ajudam-te, dizem-te teus próprios versos e os deles,
Convincentes de que todos os bardos são iguais de alma
Abraçam-te, cordifraternalmente.
Nem em todas as tuas fantasias,
Te imaginaste assim, igual entre iguais,
diferente entre diferentes,
quais o são todas as criaturas de um mesmo Criador...
Percebes que nesse mundo , não há preconceitos
E que aqui, experimentarás um espaço de estar para ser...
Leve, em pianíssimo, , sentindo uma felicidade inusitada
À tua vida antes atribulada, tributada
de preços que não podias pagar,
deixas-te conduzir ,em agonia agora.
Seria o fim, mas é um recomeço
Afinal, poetas não devem morrer
-não se sua Poesia permanecer
Após sua délivrance ao contrário.
Para sempre, teus versos serão lembrados,
Enquanto houver sabiás, enquanto a serpente dormitar
Enroscada no contorno da Ilha .
Teus poemas são o retrato de teu talento,
De teu perfil, de tua história...
O mar foi o derradeiro abrigo de teu corpo.
A alma...continua em expansão!

Fonte:
A autora

Aparecido Raimundo de Souza (Meu Anjo)

Eu tenho um anjo.

Um ente espiritual que me guarda os passos, que me guia dia e noite onde quer que vá ou esteja. Esse anjo é minha luz sempre acesa, a estrela maior no infinito, o sol mavioso que aquece o meu frio e a água pura e cristalina que mata a minha sede.

Eu tenho um anjo.

Não um desses comuns que se compram nessas lojinhas de R$ 1.99, espalhadas pela cidade, mas um anjo de verdade, com asinhas nas costas, vestida de azul (embora brigue com ela pedindo que use o branco), os cabelos à Jennifer Garner (aquela da série “Aliás”).  Esse meu anjo anda numa carruagem de cristal com dois bonitos cavalos brancos — tão alvos como as nuvens de um céu de brigadeiro. É ela, meu anjo encantado, que todas as manhãs me acorda e toma café ao meu lado. É ela que me faz ajoelhar antes de sair para o trabalho e pedir com a mão direita posta sobre a Bíblia, proteção ao Pai numa oração silenciosa endereçada ao Altíssimo.

Eu tenho um anjo.

Da falange de Jesus, da legião que presta serviços constantes a Deus. Um anjo que lembra Viviane Araújo por causa da sua meiguice, da sua ternura e do seu sorriso constante. Um anjo inteligente como a Carol Trentini que entende de moda e chega a arriscar alguns palpites nas roupas que devo usar. Eu tenho um anjo, tenho sim, um anjo autônomo, perfeito, incansável, senhora de si, cabeça feita. Vive a proteger minha vida, quer seja na rua, no trânsito, no carro, dentro da condução. Um anjo que caminha lado a lado, que marcha ombro a ombro, que segue comigo, de mãos dadas, um anjo que me desvia da estrada ruim evitando que siga em frente e caia num precipício sem volta.

Pois é: eu tenho um anjo.

Um anjo, eu tenho, acreditem. Um anjo de luz intensa. É ela que enfrenta, em meu lugar, as balas perdidas, que se põe à frente dos malfeitores e dos assaltantes que tentam cruzar meu caminho. É ela que, igualmente, me orienta, protege, vigia, aconselha, ensina, governa e dirige os meus passos. É também esse meu anjo bom, essa criatura com poderes divinos, que me ampara nas viagens longas e não me perde de vista um minuto sequer — mesmo quanto baixinho, lhe implore, que me espere, do lado de fora, no corredor. Meu anjo é bonito. Seu rosto não me parece com ninguém conhecido, embora diga a ela, de vez em quando, ter uma leve aparência com a Sabrina Petraglia.

Quando isso acontece, ela se limita a sorrir e ralhar com ares maternais, observando que deixe de lado as bobagens, que amadureça e encare com mais seriedade o viço que me cerca. Foi com esse anjo que aprendi a comer a fondue de carne em garfos compridos, mergulhados na panela de óleo quente. Com ela conheci o verdadeiro sentido da paz, pois o meu anjo é todo feito de Paz!

O meu anjo tem os traços de Jesus, age como Ele, e, como tal, caminha comigo em direção à felicidade que procuro a cada nova manhã, para mudar de uma vez para sempre os destinos da minha vida.

Eu tenho um anjo!

Fontes:
SOUZA, Aparecido Raimundo de. Havia uma ponte lá na fronteira. São Paulo: Ed. Sucesso, 2012.
Imagem = Gisele Santos da Silva

Rita Rocha (À Chegada da Primavera)

Do ano, uma encantadora fração
no cenário nova vestimenta
a Primavera vem falar aos corações
e aos nossos sonhos... acalenta.

É o esvoaçar das aves, é a floração...
se estendendo em opulência.
É no milagre da renovação
alegrando a terra e nossa vivência.

É encantamento em profusão
no esbanjar d`um róseo colorido
num pôr-do-sol temos a sensação
de que o Pai está ali... refletido.

Primavera não é apenas mais uma estação
é o sentir da vida, é encanto, é magia,
é a natureza em perfeita comunhão
que ao ser humano só traz alegria.

Santo Antônio de Pádua, 24/09/2013

Fonte:
A autora

Folclore dos Estados Unidos (Origem da Terra dos Haida)

O corvo saiu da Terra e escalou o céu, causando grande confusão entre o Povo Celestial. Por isso, eles acabaram jogando ele nas águas.

Antes dos dias de nossos avós não havia nada, além de água. Era tudo água, com exceção de um único recife. Lá viviam seres sobrenaturais.  Mas eles ficavam todos amontoados. O corvo voou tentando arrumar um lugar onde pudesse ficar de pé,  mas ele não podia imaginar aonde.

Então ele olhou para o céu. Era sólido. Era tão lindo e o corvo estava fascinado por ele. Ele disse: “vou até lá!”, então ele correu o bico pelo céu e o escalou.

Ele viu que a Cidade dos Céus era um lugar bem grande. O chefe vivia lá e na casa do chefe havia um bebê.  Quando a noite chegou,  o corvo pegou o bebê pelo calcanhar e balançou os ossos para fora. Então ele vestiu a pele e fingiu que era o bebê.  Porém, mais tarde ele saiu da pele do bebê e virou corvo novamente.  Ele voou de casa em casa e fez muita bagunça. Enfim uma mulher o viu e avisou para todos.

Então o chefe reuniu sua gente e eles cantaram uma canção para o corvo. Era uma canção mágica, e no meio da canção o corvo deixou de se segurar, e caiu do Cidade dos Céus até que atingiu as grandes águas;

Então o berço ficou a deriva nas águas por um bom tempo. O corvo chorou, então ele mandou a si mesmo que dormisse, mas quando o corvo dormiu, alguma coisa disse: “Seu poderoso pai manda você entrar”. O corvo se recobrou rápido. Ele olhou em direção ao som, mas não viu nada, não havia coisa alguma ali. Logo a voz repetiu as palavras.

Corvo olhou através do buraco em seu lençol de pele de marta. Então, através das águas veio um mergulhão dizendo, “Seu poderoso pai diz para você entrar!”.

O corvo desceu pelo totem até chegar a uma casa submersa, onde encontrou o Homem Gaivota, seu pai. Figura: Totem de uma casa Haida.

O corvo se levantou. Seu berço estava indo ao encontro de uma grande alga marinha. Ele caminhou sobre ela, e olhem! Na verdade era um totem de duas cabeças feito de pedra. Quando o corvo desceu, descobriu que ele podia respirar tão facilmente quando no ar acima.

Abaixo do totem havia uma  casa. Alguém disse, “venha, entre meu filho, eu ouvi falar que você quer emprestar algo de mim”. O corvo entrou. No fundo da casa estava sentado um velho Homem Gaivota (1). O ancião mandou ele até uma caixa que estava pendurada em um canto. O corvo a abriu e tirou de dentro dois grandes pedaços de alguma coisa. Uma era preta e a outra estava coberta com pontas brilhantes.

O Homem Gaivota pegou os dois pedaços e mostrou para o corvo. Ele disse. “coloque este pedra pontuda na água primeiro, e depois coloque a preta. Então tire um pedaço de cada e cuspa fora e os pedaços vão se reunir;” assim ele falou.

Quando o corvo saiu, ele colocou o pedaço preto na água primeiro. Quando ele bicou um pedaço da pedra com pontos brilhantes e jogou na água, as pontas se juntaram novamente. Ele não fez como tinha sido orientado. Então ele voltou para a pedra preta, bicou e cuspiu fora de novo. Os pedaços ficaram presos. Então eles começaram a se transformar em terra. Ele colocou isso na água, e isso se esticou até se tornar a terra dos Haida (2). Do outro pedaço ele fez o continente.
---------------------
Notas:
(1)
Para os haida, os animais são seres muito poderosos, que podem se transformar a seu bel-prazer, provavelmente o homem gaivota deveria ser uma gaivota que no momento estava assumindo a forma humana.

(2)
A tribo haida é um tribo norte-americana, cujos territórios se estendem desde os Estados Unidos até o Canadá. A nação é dividida em clã das Águias e clã dos Corvos. Eles são hábeis em construir canoas e outras tribos sempre tiveram medo de guerrear com eles no mar.

Fonte:
JUDSON, Katherine B. Myths and Legends of British America. 1917.
Texto em portugues obtido em http://casadecha.wordpress.com

Ciranda da Primavera (Seleção por Simone Borba Pinheiro) Parte 3

DETH HAAK
Ao tempo …


 Chegando Lírica a Primavera
 Bordando de Flores os sonhos
 Tramando corrimões pra chegar
 Ao mar que remexe risonho…

 Cortejando a janela um lindo
 Quadro suponho…
 Nas velas que sopram a brisa
 O olor das Açucenas vindo.

 É mágico! O tempo de sonhar
 Estrelas ornamentadas
 Brilhando pro farol ofuscar
 No valsar das samambaias…

 A musica a se despedir do verão
 Que amarelou suas folhas,
 Que hoje destilam o verdejar
 No serenar da maresia o tom…

 Das Petúnias Cravíneas, a canção
 Que ao horizonte embala e matiza
 Dando vida as cores na emoção,
 Que esparge o Vento…

 As sementes que espocam ao ver
 O vergel enamorado a engalanar
 A Primavera que chega do mar
 Em guirlandas de conhas no SER;

 A arte pincela o terno entardecer
 Que abraça a noite saudando o dia
 Que explodirá em Flores ao amanhecer
 Orvalhado as pétalas da Poesia…
---------------------------------
EFIGÊNIA COUTINHO
Festa das Flores


 Que alegria naquelas flores
 que perfume de juventude!
 Viva!...Viva!...Venha dançar
 nesta Festa das Flores...

 As Flores vêem anunciar a
 a ressurreição da natureza.
 E cantam a canção colorida
 e sorriem aos raios do astro sol.

 Cantam um dia, uma hora, e
 depois inclinam a cabeça,
 deixando que outras Flores
 se abrem á Luz da vida...

 Pra que nunca seja quebrada
 a grinalda das cores e dos
 Perfumes...Que Alegria nesta
 dança das Flores na vida!
--------------------------
ERMÍNIA (BEL-BA)
Primavera


 É quando a vida se abre como uma flor
 E em seus braços meu corpo inerte
 Deitado sobre a relva macia
 Numa manhã de setembro
 Vive sem pudor
 O amor....
------------------------
FAFFI (SÍLVIA GIOVATTO)
Amadurecer Florindo


 A maturidade no amor
 não é uma equação matemática,
 agindo racionalmente, ela chega... e
 fica no seu cantinho...
 Nem é preciso ser valente e forte,
 mas é bom tomar cuidado com o bichinho do ciúme,
 esquecer as desigualdades conjugais...
 e meter na cabeça que o amor não é só um sentimento,
 é uma escolha de vida a dois...
 Nunca confundir maturidade com comodidade,
 precisamos estar sempre investindo no amor..
 mudar hábitos, trocar carinhos,
 nunca deixar que o amor vire rotina...
 Só assim ele amadurece florindo,
 e fica durável por tempo indeterminado.
----------------
FAFFI (SÍLVIA GIOVATTO)
Primavera


 A estação do amor está chegando
 a primavera está no ar...
 No ar que passa
 No ar que respiro
 No ar que te vejo passar
 As árvores se enfeitam,
 as folhas ganham um verde de esperança,
 mais forte, mais brilhante, mais vibrante...
 A calmaria está no ar!
 é a primavera chegando,
 estação da paz, estação do amor,
 as flores vão começar a desabrochar a colorir a vida...
 O sol vai chegar mais cedo
 esquentando a terra, desabrochando a Rosa...
 é o amor chegando...
--------------------
FERNANDO REIS COSTA
O Poeta e a Primavera


 Começa a Primavera... E que alegria!
 Abrem-se os corações, brotam as flores,
 E os poetas, nas canções da poesia,
 Mais inspirados estão com seus amores!...

 Cantam mais alto, em verso, os seus louvores!
 E aos seus amores, em grande apologia,
 Doam versos em forma de flores
 De toda a Primavera deste dia!

 Renasce a Primavera! E, na poesia,
 Os cânticos d'amor e de saudade!
 E quanta dor e pranto, e nostalgia...

 O poeta transforma em alegria
 Nos versos d'amor e d'amizade
 Da sua Primavera: - a Poesia!...
------------------------------
GISLAINE CANALES
 
Primavera
 Glosando P. de Petrus

 MOTE:
 A primavera vem vindo!...
 Há festas, risos e amores...
 é deus que chega sorrindo
 pelo sorriso das flores...

GLOSA:
 A primavera vem vindo,
 perfumada e colorida,
 e o inverno vai fugindo
 em sua louca corrida!

 Nessa gostosa estação,
 há festas, risos e amores,
 que servem de inspiração
 aos poetas trovadores!

 Tudo é mais que muito lindo
 na inigualável beleza...
 É Deus que chega sorrindo
 nas flores da natureza!

 A Primavera nos traz
 numa imensidão de cores,
 a felicidade e a paz
 pelo sorriso das flores...
--------------------
GLADYS OVADILLA
Primavera


 La primavera sonriente
 Detrás de los árboles verdes,
 Mirando maravillada,
 La juventud para verte,
 Se acuesta con su hermosura,
 Llena de tules y flores,
 Danza como una diosa
 En el rincón de las rosas,
 El viento se envaneció
 Callo sus fuertes soplidos,
 Encontró la primavera
 Estaba sola en el camino,
 La miro muy suavemente,
 Ella no quiso confianza, y el
 Regreso por donde vino,
 Todos ocuparon sus lugares,
 El agua corrió por el rió,
 Los peces encandilaron el día,
 Se movía mi canoa de madera
 Sintiendo el perfume en el aire,
 Llego, llego, la primavera

Fonte:
Seleção por Simone Borba Pinheiro. in http://www.familiaborbapinheiro.com

Monteiro Lobato (A Reforma da Natureza) Capítulo 3 – O passarinho-ninho

A resposta foi um "Aqui!" vindo do pomar. Correndo no rumo da voz, a menina encontrou Emília tão entretida com um passarinho que nem sequer a olhou. Estava afundando as costas dum tico-tico. Todos os passarinhos têm costas "convexas", isto é, arredondadas para cima. Emília estava fazendo um passarinho de costas "côncavas", isto é, com um afundamento redondo nas costas. A Rã ficou a olhar para aquilo sem entender coisa nenhuma, até que Emília explicou.

- Estou fazendo o passarinho-ninho. A boba da Natureza arruma as coisas às tontas, sem raciocinar.

Os passarinhos, por exemplo. Ela os ensina a fazer ninhos nas árvores. Haverá maior perigo? Os ovos e os filhotes ficam sujeitos à chuva, às cobras, às formigas, às ventanias. O ano passado deu por aqui um pé–de-vento que derrubou o ninho deste tico-tico, ali da minha pitangueira - e lá se foram três ovos tão bonitinhos, todos sardentinhos. E mais uma vez me convenci da "tortura" das coisas. Comecei a reforma da Natureza por este passarinho.

A Rã não entendeu que reforma era aquela e perguntou:

- Para que esse afundamento aí nas costas do tico-tico?

- Pois é o ninho - respondeu Emília. - Faço o ninho dele aqui nas costas e pronto. Para onde ele for, lá vão também os ovos ou os filhotes - e não há perigo de cobra, nem de ventania, nem de chuva.

- De chuva há - disse a Rãzinha. - Nos ninhos em árvores a fêmea está sempre em cima dos ovos.

Mas aí...

Emília fez um muxoxo de superioridade.

- Já previ todas as hipóteses - disse ela. - Faço a caudinha dele bem móvel, de modo que possa virar para trás e cobrir os ovos quando for preciso, como se fosse um telhadinho.

A Rã deu-se por satisfeita e com a maior atenção acompanhou o preparo do primeiro passarinho ninho do mundo.

- Pronto! - exclamou Emília por fim. - Passam só os ovos. Corra ali e me traga o tico-tico fêmea que está na gaiola.

A Rã foi e trouxe o passarinho. Emília pegou-o com muito jeito e espremeu-o de modo que saíssem três ovinhos sardentos, os quais depositou com muito cuidado no ninho de penas feito nas costas do tico-tico macho - e soltou os dois, pelo ar.

Emília estava radiante.

- Lá se foram! - exclamou. - Acabaram-se as inquietações, os medos de cobra, formiga ou vento. E também se acabou o desaforo de todo o trabalho de botar e chocar os ovos caber só à fêmea. Os homens sempre abusaram das mulheres. Dona Benta diz que nos tempos antigos, e mesmo hoje entre os selvagens, os marmanjos ficam no macio, pitando nas redes, ou só se ocupam dos divertimentos da caça e da guerra, enquanto as pobres mulheres fazem toda a trabalheira, e passam a vida lavando e cozinhando e varrendo e aturando os filhos. E se não andam muito direitinhas, levam pau no lombo. Os machos sempre abusaram das fêmeas, mas agora as coisas vão mudar. Este tico tico, por exemplo, tem que tomar conta dos ovos. A fêmea fica com o trabalho de botá-los, mas o macho tem que tomar conta deles.

- Mas assim os ovos não chocam - objetou a Rãzinha.

- Para que choquem é preciso que as fêmeas fiquem uma porção de dias sentadas sobre eles. As galinhas levam 21 dias no choco.

- Já "previ a hipótese" - disse Emília - e reformei esse ponto. No meu sistema de passarinho ninho quem choca não é a fêmea e sim o sol, como acontece com os ovos dos jacarés, tartarugas, lagartixas e cobras.

- E quando não houver sol? Às vezes passam-se dias sem o sol aparecer.

- Nesse caso os ovos que tenham paciência e esperem que o sol apareça. Para que pressa?

A Rã não teve mais nada a dizer. Estava certo. Só então é que Emília se lembrou de cumprimentá-la e saber como iam todos lá da casa. Também lhe examinou as mãos para ver se as unhas estavam de luto.

E fê-la voltar-se de perfil e de costas, e dar três pulos. Era a primeira vez que as duas se encontravam pessoalmente.

- Estou gostando do seu físico - disse Emília no fim do exame. - Tive medo de que não correspondesse à idéia que fiz. Muitas vezes a gente imagina uma pessoa e sai o contrário.
–––––––––––-
continua…

3.º Concurso de Quadras Populares do Clube da Simpatia/2013 (Prazo: 30 de novembro)

Ao concurso podem concorrer com quadras inéditas e obrigatoriamente escritas em língua portuguesa, todos os cidadãos, maiores de 16 anos, sócios ou não do Clube da Simpatia e que respeitem o “caráter” proposto.

O concurso é quadrimestral e só serão válidas as quadras enviadas pela Internet.

Será enviada só (1) uma quadra a qual terá de ser em redondilha maior, (sete sílabas) de rima ABAB (lírica ou filosófica).

Para este 3.º concurso de 2013 é válida a letra - ( M ) –

A palavra é escolhida pelo concorrente, mas tem que começar por ( M ), pode estar escrita em qualquer lugar dos quatro versos da quadra e ter qualquer forma gramatical, no entanto, não pode haver a repetição da palavra escolhida, nem mais nenhuma começada por ( M ).

Haverá 5 vencedores aos quais serão enviados, através da Internet, os respectivos diplomas que levam a quadra inscrita.

Haverá ainda 10 menções honrosas cujos poetas vão também receber os respectivos diplomas.

A quadra, onde constará o nome do autor, e-mail e morada, será enviada, para:

clubedasimpatia-algarve@sapo.pt

O prazo para o envio das quadras termina no dia 30 de novembro de 2013.

Os resultados serão publicados no último dia do mês de dezembro de 2013 no Blogue do Clube da Simpatia:

http://clubedasimpatia.blogspot.com

Os vencedores serão avisados por e-mail.

Fonte:
Clube da Simpatia

XIII Concurso Nacional PoeArt de Literatura – 2013 (Prazo: 20 de Outubro)

HOMENAGEM A UM RENOME DE NOSSA LITERATURA
 
Inscrições até o dia 20 de outubro de 2013

(Preferencialmente pela INTERNET ou pelos Correios)

A PoeArt Editora institui o XIII Concurso Nacional PoeArt de Literatura – 2013 (depois do sucesso dos primeiros, que resultaram nas Antologias Poéticas de Diversos Autores, Vozes de Aço, do volume I ao volume XIV e das Coletâneas Século XXI, volumes I, II, III e IV – que homenageia a grande poeta Olga Savary pelos seus 80 anos de vida), para premiar autores de ambos os sexos, maiores de dezoito anos, amadores ou profissionais, somente residentes no país, nas categorias: Poesia Verso Livre e Soneto, em língua portuguesa, tendo como objetivo principal a descoberta de novos autores e o intercâmbio cultural entre os participantes.

Ao efetuar a sua inscrição, o autor estará concordando com as regras do Concurso, e, se selecionado, autorizando a publicação dos trabalhos no livro Vozes de Aço – XV Antologia Poética de Diversos Autores – 2013. Em caso de cópia indevida e demais crimes previstos na Lei do Direito Autoral, será responsabilizado judicialmente.

Tema e Apresentação:

- O tema é livre em ambas as categorias.

- Cada autor poderá inscrever até três OBRAS por categoria, cada uma em uma página, inéditas ou não, máximo de até 30 versos cada – as que se excederem e tiverem erros serão desclassificadas -, fonte Times New Roman, corpo 12, digitadas somente em um dos lados da folha, onde deverá constar o título de cada poesia. Não é necessário pseudônimo. Se for enviar pelos correios:

- Uma via de cada trabalho, no mesmo envelope, mais um CD com as poesias gravadas e uma foto de perfil recente em alta resolução.

- Em anexo um envelope menor, lacrado, sem qualquer identificação do lado de fora, contendo:

- Nome completo, nº do RG, nome do concurso, títulos dos trabalhos, endereço completo, dados biográficos

(no máximo dez linhas), telefone e e-mail.

- As obras que chegarem sem esses dados não serão consideradas inscritas.

- Todos os trabalhos enviados (selecionados ou não) serão incinerados, após a divulgação do resultado.

Forma de Inscrição:

As obras deverão ser enviadas (preferencialmente pela INTERNET para: poearteditora@gmail.com) ou pelos correios, para: PoeArt Editora: Caixa Postal: 83967 – Cep: 27255-970 – Volta Redonda – RJ.

Premiação:

Os cinco melhores poemas de cada categoria serão publicados sem qualquer ônus no livro Vozes de Aço – XV Antologia Poética de Diversos Autores – 2013 e cada um dos cinco autores de cada categoria premiados receberão 3 exemplares da obra pelos direitos autorais, diploma e sua foto no livro.

Os demais autores concorrentes serão convidados a participar do livro pelo sistema de cooperativismo.

APOIADORES CULTURAIS: Grêmio Barramansense de Letras, Academias de História e Letras de BM, TEATRO GACEMSS, A imprensa escrita e virtual, Vitor Contabilidade, Gráfica Drumond, Colégio Garra Vestibulares, Câmara Municipal de Volta Redonda, Reprográfica Barrense DENTRE OUTROS...

Jean Carlos Gomes / Organizador e Editor Contatos: 24 - 9993-0615 | 33457252
SOMENTE à Noite

E-mail: poearteditora@gmail.com http://poearteditora.blogspot.com
http://www.olhovivoca.com.br/colunistas/jean-carlos-gomes/

Fonte:
Clevane Pessoa

Bernardo Guimarães (Poemas Humorísticos e Irônicos : Hino à Preguiça)

...     Viridi projectus in antro...
Virgilio

Meiga Preguiça, velha amiga minha,
Recebe-me em teus braços,
E para o quente, aconchegado leito
Vem dirigir meus passos.

Ou, se te apraz, na rede sonolenta,
À sombra do arvoredo,
Vamos dormir ao som d’água, que jorra
Do próximo rochedo.

Mas vamos perto; à orla solitária
De algum bosque vizinho,
Onde haja relva mole, e onde se chegue
Sempre por bom caminho.

Aí, vendo cair uma por uma
As folhas pelo chão,
Pensaremos conosco: — são as horas,
Que aos poucos lá se vão. —

Feita esta reflexão sublime e grave
De sã filosofia,
Em desleixada cisma deixaremos
Vogar a fantasia,

Até que ao doce e tépido mormaço
Do brando sol do outono
Em santa paz possamos quietamente
Conciliar o sono.

Para dormir à sesta às garras fujo
Do ímprobo trabalho,
E venho em teu regaço deleitoso
Buscar doce agasalho.

Caluniam-te muito, amiga minha,
Donzela inofensiva,
Dos pecados mortais te colocando
Na horrenda comitiva.
O que tens de comum com a soberba?...
E nem com a cobiça?...
Tu, que às honras e ao ouro dás as costas,
Lhana e santa Preguiça?

Com a pálida inveja macilenta
Em que é que te assemelhas,
Tu, que, sempre tranqüila, tens as faces
Tão nédias e vermelhas?

Jamais a feroz ira sanguinária
Terás por tua igual,
E é por isso, que aos festins da gula
Não tens ódio mortal.

Com a luxúria sempre dás uns visos,
Porém muito de longe,
Porque também não é do teu programa
Fazer vida de monge.

Quando volves os mal abertos olhos
Em frouxa sonolência,
Que feitiço não tens!... que eflúvios vertes
De mórbida indolência!...

És discreta e calada como a noite;
És carinhosa e meiga,
Como a luz do poente, que à tardinha
Se esbate pela veiga.

Quando apareces, coroada a fronte
De roxas dormideiras,
Longe espancas cuidados importunos,
E agitações fragueiras;

Emudece do ríspido trabalho
A atroadora lida;
Repousa o corpo, o espírito se acalma,
E corre em paz a vida.

Até dos claustros pelas celas reinas
Em ar de santidade,
E no gordo toutiço te entronizas
De rechonchudo abade.

Quem, senão tu, os sonhos alimenta
Da cândida donzela,
Quando sozinha vago amor delira
Cismando na janela?...

Não é também, ao descair da tarde,
Que o vate nos teus braços
Deixa à vontade a fantasia ardente
Vagar pelos espaços?...

Maldigam-te outros; eu, na minha lira
Mil hinos cantarei
Em honra tua, e ao pé de teus altares
Sempre cochilarei.

Nasceste outrora em plaga americana
À luz de ardente sesta,
Junto de um manso arroio, que corria
À sombra da floresta.

Gentil cabocla de fagueiro rosto,
De índole indolente,
Sem dor te concebeu entre as delícias
De um sonho inconsciente.

E nessa hora as auras nem buliam
Nas ramas do arvoredo,
E o rio a deslizar de vagaroso
Quase que estava quedo.

Calou-se o sabiá, deixando em meio
O canto harmonioso,
E para o ninho junto da consorte
Voou silencioso.

A águia, que, adejando sobre as nuvens,
Dos ares é princesa,
Sentiu frouxas as asas, e do bico
Deixou cair a presa.

De murmurar, manando entre pedrinhas
A fonte se esqueceu,
E nos imóveis cálices das flores
A brisa adormeceu.

Por todo o mundo o manto do repouso
Então se desdobrou,
E até dizem, que o sol naquele dia
Seu giro retardou.
+
E eu também já vou sentindo agora
A mágica influência
De teu condão; os membros se entorpecem
Em branda sonolência.

Tudo a dormir convida; a mente e o corpo
Nesta hora tão serena
Lânguidos vergam; dos inertes dedos
Sinto cair-me a pena.

Mas ai!... dos braços teus hoje me arranca
Fatal necessidade!...
Preguiça, é tempo de dizer-te adeus,
Ó céus!... com que saudade!

Vocabulário de termos e expressões regionais e populares do Centro Oeste (Mato Grosso e Goiás) F, G, H, I e J

FAISQUEIRO — Garimpeiro de ouro; catador de faíscas de ouro em lavras velhas.

FASES-DA-LUA — O sertanejo anda pelas fases da lua. Os barreiros das olarias são sangrados na minguante. Extrai-se madeiras, para não carunchar ou apodrecer, na minguante. Na nova faz-se plantações e muda-se de casa (se fôr dia de sexta-feira). Quatro dias depois de lua-nova, castram-se porcos e bois. Até remédios e negócios aguardam as determinadas fases da lua. .

FIÚZA — Confiança pouco justificável em alguém, ou em algo.

FOBA — Ruim: precipitado.

FÔLHA-DE-COUVE — Nota de quinhentos cruzeiros.

FOLIA — Bando de ociosos devotos que percorrem as roças pedindo esmolas para festas de igreja, levando consigo bandeira "benta" e charanga. "Folia do Divino…"

FORNALHA — Fornalha é mais usado como termo industrial: boca de forno.

FRUITA — Jabuticaba.

FULMINANTE — Espingarda de carregar pela boca.

FUNDURA — Profundidade. Também se usa em sentido extensivo. "Não me meto em tais funduras…"

FUZIL — Pedaço de aço, com que se fere a pedra de isqueiro para tirar fogo.

G

GAMBIRAR — Barganhar; fazer trocas. No sertão faz-se mais gambiras que mesmo negócios a dinheiro.

GÁS — Querosene.

GÁSTURA — Mal estar; perturbação gástrica; opressão do peito.

GAZO — Olho branco. "Cavalo gazo…" de olhos brancos.

GERAIS — Vegetação homogênea.

GIRAU — Cama, mesa, prateleira de paus roliços.

GODERAR — Olhar gulosseimas, cobiçando-as.

GODÓ, GODO — Água viscosa, lamacenta, ou coisa que se lhe assemelhe.

GOIACA — Cinta larga de couro, com diversas divisões para documentos e dinheiro; capa do revólver e baleira. A côr preferida pelos boiadeiros é sempre a amarela. Var. Guaiaca.

GORGULHO — Cascalho; particularmente seixos de tapio-canga decomposta.

GORINO — Lugarejo de romaria.

GRAXA — Engraxar o encarregado do negócio: soltar dinheiro por fora.

GRITALHADA — Gritaria.

GUAMPO — Copo feito de chifre, usado em viagem.

GUANXUME — O mesmo que coivara ou emaranhado de mato.

GUARIROBA — Espécie de coqueiro que fornece um palmito amargoso, muito apreciado.

GUATAMBU — Pequeno arbusto de tronco reto, especial para cabos de ferramentas, como enxada, enxadão, foice etc.

GUMERIM, GUAMIRIM — Fruta roxa que dá nos barrancos dos rios, caindo, quando madura, dentro d’água, cevando pacus e piaus. Tem o diâmetro de uma cereja de café.

H

HO — Marca de revólver muito usado no sertão. O Schmidt é mais afamado, mas poucos podem ter um Schmidt.

I

INDACAS — "Procurar inda-cas": pretexto para arengar ou brigar.

INGÁ — Fruto do ingàzeiro, de gosto adocicado e muito apreciado pelas crianças; vende-se nas feiras. Serve para iscar anzol para peixes de escamas.

INZONAR — Ser moroso no trabalho; procurar pretexto fútil para se esquivar do trabalho.

INZONEIRO — Malandro; mole; que perde tempo em futilidades.

ISCA — Acendalha de algodão queimado, de que se enche a binga.

J

JACUBA — Farnel de rapadura e farinha, socadas em pilão.

JARDINEIRA — Ônibus, diligência, auto para transporte de passageiros.

JAÚ-DE-CAMA — Um dos maiores peixes de couro de agua doce mora enlocado nas pedras, onde faz a sua cama (de pedras).

JIRISA — Ojerisa.

JUÇARA — Pêlos finos, duros e espinhosos que cobrem frutos, folhas ou caules. "Juçaras de gravatas".

Fonte:
Estórias e Lendas de Goiás e Mato Grosso. Seleção de Regina Lacerda. . Ed. Literat. 1962

sábado, 28 de setembro de 2013

José Feldman (Universo de Versos n. 117)


Uma Trova do Paraná
-
VANDA ALVES DA SILVA
Curitiba
-
Não se ata  pelas algemas,
mazelas ao cidadão,
que enfrenta  tantos dilemas
doando vida à  nação.
============================
Uma Trova sobre Saudade, do Rio de Janeiro
-
ANIS MURAD
-
Maria, só por maldade,    
deixou-me a casa vazia...  
Dentro da casa: saudade! 
E na saudade: Maria!       
============================
Uma Trova do Izo
-
IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP
-
Partir  é quase morrer...
é deixar na despedida
um pouco do próprio ser
e muito da própria vida!
============================
Uma Trova Lírica/ Filosófica, de Juiz de Fora/MG
-
CEZÁRIO BRANDI FILHO
-
Se os elos de nossos braços,
não mais se unirem na vida,
seremos sempre pedaços
de uma corrente partida.
============================
Uma Trova Humorística, de São Paulo/SP
-
JAIME PINA DA SILVEIRA
-
Olha lá...não te machuques!
És rico, mas tens oitenta!
E...ela...vinte! Quais os truques?...
– Menti que tinha noventa!
============================
Uma Trova do Ademar
-
ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 - 2013 Natal/RN
-
Lágrimas, águas em fugas,
que num trajeto indolente,
deixam escritos nas rugas,
os sofrimentos da gente…
============================
Uma Trova Hispânica, do México
-
CRISTINA OLIVEIRA CHÁVEZ
-
 No es no querer perdonar
la deserción de mi padre,
es que no puedo olvidar
las lágrimas de mi madre...
============================
Uma Trova sobre Respeito, de Ribeirão Preto/SP
-
RITA MARCIANO MOURÃO
-
      No lar que me fez honrado,
     ante os conceitos de espaço,
     o respeito era sagrado,
     mesmo que o pão fosse escasso!
============================
Trovadores que deixaram Saudades
-
ROBERTO FARIA DE MEDEIROS
Juiz de Fora/MG (1923 – 1995)
-
Não há criança vadia ...
E as que esmolam a teus pés
são anjos que Deus envia
para saber quem tu és.
============================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores
-
LUIZ OTÁVIO
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP
-
Não desejo nem capela
nem mármore em minha cova…
Apenas escrevam nela
pequenina e humilde Trova…
============================
Um Haicai de São Paulo/SP
-
JOSUÉ ROODER SALOMÃO
-
Manhã de geada
Sob o banco da pracinha
Cão todo enrolado
============================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores
-
LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981
-
Para rimar com teu nome,
que é do céu a obra-prima,
mãe, não existe um vocábulo!
Nem mesmo Deus achou rima.
============================
O Universo de Leminski
-
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 - 1989)
-
ver
é dor
ouvir
é dor
ter
é dor
perder
é dor

só doer
não é dor
delícia
============================
  O Universo das Glosas de Gislaine
-
GISLAINE CANALES
Balneário Camboriú/SC
-
Glosando Aloísio Alves da Costa
RELÓGIO DO MEU PEITO

MOTE:
NÃO VENS... E A MINHA ANSIEDADE,
NUM TIQUE-TAQUE PERFEITO,
MEDE AS HORAS DA SAUDADE
NO RELÓGIO DO MEU PEITO!

GLOSA:
NÃO VENS... E A MINHA ANSIEDADE,
vai se agigantando em mim.
Onde estás felicidade?
Essa espera não tem fim!

Eu sinto o passar das horas
NUM TIQUE-TAQUE PERFEITO,
contando as tuas demoras...
Fico triste e insatisfeito!

Na minha realidade,
o relógio da emoção
MEDE AS HORAS DA SAUDADE
dentro do meu coração!

Os ponteiros, ternamente,
tento adiantar, com meu jeito,
para unir, pra sempre, a gente,
NO RELÓGIO DO MEU PEITO!
============================
Uma Trova do Rei dos Trovadores
-
ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ
-
Celeste amor que perdura
Atende a roteiro assim:
Ilimitada ternura
No entendimento sem fim.
============================
O Universo do Haicai de Seabra
-
CARLOS SEABRA
(São Paulo/SP)
-
trigo dourado
pelas mão do vento
é penteado
============================
O Universo Poético de Emilio
-
EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)
-
Gota d'água

Olha a paisagem que enlevado estudo!...
Olha este céu no centro! olha esta mata
E este horizonte ao lado! olha este rudo
Aspecto da montanha e da cascata!...

E o teu perfil aqui sereno e mudo!
Todo este quadro que a alma me arrebata,
Todo o infinito que nos cerca, tudo!
D'água esta gota ao mínimo retrata!...

Chega-te mais! Deixa lá fora o mundo!
Vê o firmamento sobre nós baixando;
Vê de que luz suavíssima me inundo!...

Vai teus braços, aos meus, entrelaçando,
Beija-me assim! vê deste azul no fundo,
Os nossos olhos mudos nos olhando!…
============================
O Universo Poético de Sardenberg
-
ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)
-
Andança

Na rua morta move-se o meu passo
Seguindo errante em busca de um amor
Sob esse luar tristonho que há no espaço
Também vagueia a esmo a minha dor.

E neste acaso eu ando solitário,
Por onde passo eu passo descontente,
E vem comigo a dor desse calvário
No frágil  som de um coração fremente.

Se o seu olhar eu já perdi de vista
  Nele não vi meu sonho desejado
Então por que buscar essa conquista?

Mas a esperança é a última a morrer...
E adiante vou no sonho tão sonhado,
Buscar o amor que tanto quero ter!
============================
O Universo Poético de Cecília
-
CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ
-
Discurso

 E aqui estou, cantando.

Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.

Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada,
porque as ervas cresceram
e as serpentes andaram.

Também procurei no céu
a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.

Pois aqui estou, cantando.

Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar
que algum ouvido me escute?

Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar
que venha alguém gostar de mim?
============================
O Universo Melódico de Assumpção
-
MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ
-
A Coragem De Cada Um De Nós
(CD O Mágico de Oz)

 Quanta coragem precisamos ter
Pra enfrentar o medo que trazemos em nós ?
Pra cruzar a ponte e o escuro,
Pra vencer seu inimigo mais feroz ,
Basta despertar dentro da gente a coragem adormecida ,
Escondida agora em cada um de nós

Quanta coragem precisamos ter
Pra enfrentar o medo que trazemos em nós ?
A coragem é tudo aquilo que voce precisa,
Acredite, voce pode mais, acorde o grande rei
Que há em ti pra descobrir que na verdade,
A coragem dorme em cada um de nós
============================
O Universo Haicaista de Guilherme
-
GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP
-
Noroeste

Dilaceramentos...
Pois tem espinhos também
A rosa-dos-ventos.
============================
O Universo Sonetista de Alma
-
ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)
-
Ao Poeta em mim

Ingenuamente movido por certezas
Pensas abrir sendas neste mundo
Quando apenas seguir podes correntezas
Que levaram a tantos para o fundo.

Mas além dentro de ti, algures
Se encontra a chave do Mistério
Que talvez nem saibas que procures
Pois até uma criança brinca a sério...

Repara à tua volta, meu amigo,
A vida solene e atarefada
Que gira em torno ao teu umbigo!

E já que és o centro do universo,
Cuida da precisão do teu destino
Que é só caber inteiro num teu verso...
============================
Uma Poesia de Pato Branco/PR
-
ELIZABETH MARIA CHEMIN BODANESE
-
Encanto

 Ipês cor-de-rosa...
 Pinheiros bem verdes...
 Violetas e amores-perfeitos
 De todas as cores alegram a vida
 Dos verdadeiros amores.

 Um beija-flor poliniza a flor...
 Uma bola voa de um lado a outro
 Nas mãozinhas  ágeis dos pimpolhos!
 Um balanço faz sonhar,
 No espaço o menino brincar...
 A Primavera está  chegando...
 Advento do florescer...
 A vida pulsa numa eterna busca
 De quem quer aprender,
 Saber, conhecer
 Antes de a outra vida transcender...

 Os galhos secos e a neve
 Não assustam mais nas janelas
 Da casa no alto do morro...
 A chuva e o frio se rendem
 Ao sol e ao calor...
 Flores exalam perfumes
 Nesse tempo de amor
 Na cidade sem preconceitos
 Pato Branco dos amores-perfeitos...
 Terra de amor, amizade e respeito.
============================
O Universo de Francisca
-
FRANCISCA JÚLIA
1871, Xiririca (atual Eldorado Paulista)/SP - 1920, São Paulo/SP)
-
A um Velho

Por suas próprias mãos armado cavaleiro,
Na cruzada em que entrou, com fé e mão segura,
Fez um cerco tenaz ao redor do Dinheiro,
E o colheu, a cuidar que colhia a Ventura.

Moço, no seu viver errante e aventureiro,
O peito abroquelou dentro de uma armadura;
Velho, a paz vê chegar do dia derradeiro
Entre a abundância do ouro e o tédio da fartura.

No amor, de que é rodeado, adivinha e pressente
O interesse que o move, o anima e o faz ardente;
Foge por isso ao mundo e busca a solidão.

O passado feliz o presente lhe invade,
E vive de gozar a pungente saudade
Das noites sem abrigo e dos dias sem pão.
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Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas
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A CASA DO JOÃO

Aqui está a casa
 Que fez o João.

Aqui está o saco do grão e feijão
Que estava na casa
 Que fez o João.

Aqui está o rato
Que furou o saco de grão e feijão
Que estava na casa
Que fez o João.

Aqui está o gato
Que comeu o rato
Que furou o saco de grão e feijão
Que estava na casa
Que fez o João.

Aqui está o cão
Que mordeu o gato
 Que comeu o rato
Que furou o saco de grão e feijão
Que estava na casa
Que fez o João.

(http://luso-livros.net/)
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O Universo de Pessoa
-
FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935
-
Duas horas te esperei
Dois anos te esperaria.
Dize: devo esperar mais?
Ou não vens porque inda é dia? 


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O Universo Poético de Quintana
-
MARIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994)
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Ah! Os relógios

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia em for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais um necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são…
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O Universo Poético de Vinicius
-
VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)
-
Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
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Uma Poesia de Portugal
-
Sophia de Mello Breyner Andresen
Porto (1919 – 2004) Lisboa
-
Exílio

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades
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O Universo de Auta
-
Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN
-
Ciúme

Não brinques ao sol, menina!
É tão preto o teu cabelo,
Que exposto ao sol que ilumina,
Jamais, jamais quero vê-lo.

Não sabes por que, Maria?...
Do sol o brilhante açoite
Só vem à terra de dia
Porque não gosta da noite.

E eu temo que ao ver formoso
O teu cabelo, um tesouro!
O sol, que é tão invejoso,
Não queira torná-lo louro.

Louro, Maria! o repouso
Onde vacilo com a cruz,
O doce abrigo onde pouso
Meus olhos fartos de luz?

Não quero, flor de minh’alma,
Linda esperança em botão...
O dia não é que acalma
As mágoas do coração.

Quando a dor em fúria brusca
Lhe vem magoar o seio,
A treva da noite busca
Para chorar sem receio.

E a minha noite mais pura
No teu cabelo é que eu vejo;
Esqueço toda a amargura
Se a tua cabeça beijo!

E agora, santa, avalia
Que pena teria eu
Se chegasse a ver um dia
O teu cabelo, Maria,
Da cor dos astros do céu!
============================
O Universo Triverso de Millôr
-
MILLÔR FERNANDES
(Milton Viola Fernandes)
Rio de Janeiro (1923 – 2012)
-
À nossa vida
A morte alheia
Dá outra partida.
============================
O Universo de J. G.
-
J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ
-
Amor... e Morte...

    O amor
é como a morte
ato banal de todo dia...

Emoção forte
de tristeza ou de alegria,
ele sempre nos surpreende, e a ele nunca nos acostumamos
talvez...

O amor é como a morte:
quando amamos
é sempre a primeira vez.
============================
Um Soneto
-
LUIZ CARLOS DE OLIVEIRA

A Dor da Perda

 Num dos quartos do Pronto Atendimento
 Adentra a mãe com a filha prematura,
 Não desfeito o negror da noite impura
 E o galo nem cantava no momento...

 Nenhum repórter dava cobertura:
 Era só mais um rotineiro evento...
 Logo o médico atesta o passamento
 E manda agilizar a sepultura.

 Um nódulo instalou-se na garganta
 Da mãe, como invisível funeral
 Da filha morta... O olhar, naquele exato

 Momento de estupor, que se agiganta,
 Perde-se num vazio sem igual:
 A sua dor é o próprio anonimato!
============================
O Universo do Martelo Agalopado de Prof. Garcia
-
PROF. GARCIA
(Francisco Garcia de Araújo)
Caicó/RN (1946)

No repente, ninguém traça uma meta,
mas é bom que um roteiro a gente trace,
pois do nada, um improviso sempre nasce
e a beleza da vida se completa.
Não precisa que seja em linha reta,
pode ser por caminho tortuoso,
pois o verso sofrendo é mais famoso
aos primeiros suspiros da manhã,
quando o sol salpicando o morro e a chã
torna o verso mais belo e mais formoso!
============================
O Universo Poético de Lúcia Constantino
-
LÚCIA CONSTANTINO
(Maria Lúcia Siqueira)
Curitiba/PR
-
Tenho Saudades

Tenho saudades do meu amor que te amava
vestido de silêncios e conflitos tão sinceros.
Um amor que era sol -  um amor tão belo
que até aos anjos a sonhar  ele ensinava.

Tenho saudades do amor que eu sentia,
momentos manuscritos dentro do coração.
Tinha linhagem aquele sonho que eu vivia.
Era uma luz passando a limpo a escuridão.

E onde estás? Não te encontro mais
e nesses meus sonhos, o que buscais
ó anjos?  -  a esperança já vencida?

Não entendo mais essa linguagem.
Sei que a dor muda toda paisagem
do livro interior, onde se escreve a vida.
============================
Uma Poesia Além Fronteiras
-
JOHN DONNE
Inglaterra (1572 – 1631)

A Isca

Vem viver comigo, sê o meu amor
E alguns novos prazeres provaremos
De areias douradas e regatos de cristal
Com linhas de seda e anzóis de prata.

Aí o rio correrá murmurando, aquecido
Mais por teus olhos do que pelo sol;
E aí os peixes enamorados ficarão
Suplicando a si próprios poder trair.

Quando tu nadares nesse banho de vida
Cada peixe, dos que todos os canais possuem,
Nadará amorosamente para ti,
Mais feliz por te apanhar, que tu a ele.

Se, sendo vista assim, fores censurada
Pelo Sol, ou Lua, a ambos eclipsarás;
E se me for dada licença para olhar
Dispensarei as suas luzes, tendo-te a ti.

Deixa que outros gelem com canas de pesca
E cortem as suas pernas em conchas e algas;
Ou traiçoeiramente cerquem os pobres peixes
Com engodos sufocantes, ou redes de calado.

Deixa que rudes e ousadas mãos, do ninho limoso
Arranquem os cardumes acamados em baixios;
Ou que traidores curiosos, com moscas de seda
Enfeiticem os olhos perdidos dos pobres peixes,

Porque tu não precisas de tais enganos,
Pois que tu própria és a tua própria isca,
E o peixe que não seja por ti apanhado,
Ah!, é muito mais sensato do que eu.

(Tradução de Helena Barbas)
============================
O Universo de Adélia
-
ADÉLIA PRADO
(Adélia Luzia Prado Freitas)
Divinópolis/MG (1935)
-
Impressionista

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.
============================
O Universo Poético de Bilac
-
Olavo Bilac
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)
-
A Madrugada

Os pássaros, que dormiam
Nas árvores orvalhadas,
Já a alvorada anunciam
No silêncio das estradas.

As estrelas, apagando
A luz com que resplandecem,
Vão tímidas vacilando
Até que desaparecem.

Deste lado do horizonte,
Numa névoa luminosa,
O céu, por cima do monte,
Fica todo cor-de-rosa;

Daí a pouco, inflamado
Numa claridade intensa,
Se desdobra avermelhado,
Como uma fogueira imensa.

Os galos, batendo as asas,
Madrugadores, já cantam;
Já há barulho nas casas,
Já os homens se levantam,

O lavrador pega a enxada,
Mugem os bois à porfia;
— É a hora da madrugada
Saudai o nascer do dia!
============================
O Universo de Carlos Drummond de Andrade
-
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 - 1987) Rio de Janeiro/RJ
-
Lembrança do mundo antigo

Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranqüilo em redor de Clara.

As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim, pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!
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UniVersos Melodicos
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Ataulfo Alves e Mário Lago
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AI, QUE SAUDADES DA AMÉLIA
(samba, 1942)

"Ai Que Saudades da Amélia" tem três personagens: o protagonista, sua mulher e Amélia, a mulher que ele perdeu. O tema é um confronto dos defeitos da mulher atual com as qualidades da mulher anterior. A atual, a quem o protagonista se dirige, é exigente, egoísta, "Só pensa em luxo e riqueza", enquanto a anterior é um exemplo de virtude e resignação - "Amélia não tinha a menor vaidade, (...) achava bonito não ter o que comer... '. Em suma, a primeira é o presente, a realidade incontestável; a segunda é o passado, uma saudade idealizada na figura da mulher perfeita, pelos padrões da época.

Este primoroso poema popular, coloquial espontâneo, escrito por Mário Lago , recebeu de Ataulfo Alves uma de suas melhores melodias, que expressa musicalmente o espírito da letra. E o paradoxal é que não sendo carnavalesco, este samba fez estrondoso sucesso no carnaval.

Segundo Mário Lago, "Amélia nasceu de uma brincadeira de Almeidinha, irmão de Araci de Almeida, que sempre que se falava em mulher costumava brincar - 'Qual nada, Amélia é que era mulher de verdade. Lavava, passava, cozinhava..."'. Então, Mário achou que aquilo dava samba e fez a letra inicial de "Ai Que Saudades da Amélia". Brincadeiras à parte, a verdade é que a Amélia do Almeidinha existiu e, possivelmente, ainda vivia à época da canção. Era uma antiga lavadeira que serviu à sua família. Morava no subúrbio do Encantado (Zona Norte do Rio) e trabalhava para sustentar uma prole de nove ou dez crianças.

Com a letra pronta, Mário pediu a Ataulfo Alves para musicá-la. O compositor executou a tarefa, mas alterou algumas palavras e aumentou o número de versos de doze para quatorze. "Isso é natural" - comentava Ataulfo, em depoimento para o MIS do Rio de Janeiro, em 17.11.65 -, "as composições dos parceiros que são letristas sofrem influência minha, que sou autor de letra e música. Mas o Mário não gostou. E não adiantou dizer que a música me obrigara a fazer as modificações". De qualquer maneira, como o samba estava bom, ficaram valendo as alterações.

Começou então a batalha da gravação. Ataulfo ofereceu "Amélia" em vão a vários cantores, inclusive a Orlando Silva. Como ninguém queria gravá-la, gravou-a ele mesmo na Odeon, no dia 27.11.41, acompanhado por um improvisado conjunto, batizado de Academia de Samba. Convidado na hora, Jacó do Bandolim participou dessa gravação, tocando cavaquinho, sendo sua a introdução.

Lançado no suplemento de janeiro de 1942, "Ai Que Saudades da Amélia" foi conquistando aos poucos a preferência do público, graças, principalmente, a uma intensa atuação de Ataulfo junto às rádios. Relembra Mário Lago que o locutor Júlio Louzada chegou a dedicar, na Rádio Educadora, uma tarde inteira de domingo a "Amélia", com entrevistas e o disco tocando dezenas de vezes. O resultado é que às vésperas do carnaval, quando houve o concurso para escolher o melhor samba, "Ai Que Saudades da Amélia" dividia o favoritismo com "Praça Onze", de Herivelto Martins e Grande Otelo. Realizado no estádio do Fluminense, este concurso reuniu uma enorme platéia que, de acordo com o regulamento, elegeria por aplauso os vencedores.

Precedendo "Amélia", apresentou-se "Praça Onze", valorizada por um verdadeiro show, preparado por Herivelto. Primeiro foram mostrados os instrumentos, explicando-se as funções de cada um; em seguida, vieram as passistas, um grupo sensacional de mulatas rebolando; e, finalmente, cantou-se o samba, que levou a platéia ao delírio, dando a impressão de que o certame já estava decidido. Acontece, porém, que "Amélia" também tinha seus trunfos. Tim e Carreiro, amigos de Mário e craques do time do Fluminense, que acabara de ganhar o bicampeonato carioca de futebol, haviam feito um excelente trabalho junto à torcida tricolor.

Para completar, no momento da apresentação, Mário Lago subiu ao palco e, num rasgo de eloqüência e demagogia, fez um discurso emocionante, proclamando "Amélia" símbolo da mulher brasileira. Assim, quando Ataulfo e suas pastoras começaram a cantar o estádio veio abaixo, praticamente exigindo a vitória dos dois sambas. Sem a possibilidade de desempatar, o presidente do Fluminense, Marcos Carneiro de Mendonça - por coincidência, casado com uma "Amélia", a poeta Ana Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça - autorizou o pagamento em dobro do prêmio de campeão a "Ai Que Saudades da Amélia" e "Praça Onze", cada um recebendo como se tivesse ganho sozinho.

Nunca vi fazer tanta exigência
Nem fazer o que você me faz
Você não sabe o que é consciência
Não vê que eu sou um pobre rapaz

Você só pensa em luxo e riqueza
Tudo que você vê você quer
Ai, meu Deus, que saudades da Amélia
Aquilo sim é que era mulher

Às vezes passava fome ao meu lado
E achava bonito não ter o que comer
Mas quando me via contrariado
Dizia: meu filho, o que se há de fazer ?

Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era a mulher de verdade

Fonte:
(http://www.cifrantiga3.blogspot.com
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Uma Cantiga Infantil de Roda
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CAI, CAI, BALÃO

Cai, cai, balão
Cai, cai, balão,
Na rua do sabão

Não cai não,
Não cai não,
Não cai não,
Cai aqui na minha mão
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O Universo Poético de Feitosa
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SOARES FEITOSA
(Francisco José Soares Feitosa)
Ipu/CE (1944)
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À vista de ti

Nunca te vi, melhor que seja assim.
Teus cabelos seriam trinados ao vento?
Poderia eu dizer “treinados”, eles seriam - porque aí corre
o vento da tardinha - sempre me dizes
do vento.
Guardo teus papéis eu guardo.
Perco-os, justo que me percam!
Um cartãozinho..., teu, a te encontrar, azul...,
azul seria
a saia de sair?
Ou, haverias de preferir uma roupinha amarela
e os olhos vagos de nenhuma palavra?
O que poderei dizer quando te encontrar?..., se.
Nestes tempos modernos, teria lugar para um
silêncio?

Falarias? De que nos diríamos? Melhor que teus cabelos fiquem
ao vento.
Ah, vento doce, da noite, como me perfumas o hálito desta noite cedo!
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O Universo Poético de Du Bois
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PEDRO DU BOIS
Itapema/SC (1947)
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VÃO

Enquanto sonho esperanças vãs
desencontro o árduo caminho
além da curva derradeira

debruçado ao restante da paisagem
anoiteço sons desprestigiados

em sonhos determino o anárquico
senso dos encobrimentos.
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O Universo Acróstico de Motta
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SILVIA MOTTA
(Silvia de Lourdes Araujo Motta)
Belo Horizonte/MG (1951)
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VIDA DE EQUAÇÕES
Acróstico-filosófico nº 5354

V-Vida de soluções bem resolvidas
I-Inspiram alegrias alcançadas;
D-Das equações mal resolvidas
A-As decepções dão outras caminhadas;
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D-Dos vários quilômetros percorridos
E-Em estradas sem flores e perdões,
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E-Enfrentamentos dos pesos doloridos...
Q-Quedas pedem orações convincentes!
U-Um corpo que cai, precisa levantar!
A-As ferramentas próprias e eficientes,
Ç-Com vontade, fé e livre-arbítrio,
Õ-Oferecem o futuro, perto novamente;
E-Encontram lições nas feias lesões...
S-Sensações novas que dão força à mente.
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O Universo Poético de Ordones
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RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG
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  Queria ser sua música favorita

E eu apetecia ser aquela melodia
Que fluiu da alma na madrugada
Bateu a porta do peito em poesia

E se jogou entre notas; musicada.

Queria ser essa canção que te toca
E queria mil vezes que me ouvisse
Queria ser essa letra que te invoca

Que por todo sempre me repetisse.

Queria ser essa canção de saudade
Da grande ternura que em ti reside

Segundo em segundo em ti incide.

Enfim... Eu queria ser essa canção
Para saber de onde sua lágrima vem
Sinceramente só quero te fazer bem.

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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