Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Varal da Saudade em Trovas X


Teófilo Braga (A Noiva do Corvo)

Recolhido no Algarve

Havia numa terra uma mulher, que tinha em sua companhia um corvo. Defronte dela moravam três raparigas muito lindas. Como o corvo queria casar, mandou falar à mais velha; respondeu-lhe que não, e o corvo raivoso arrancou-lhe os olhos. Sucedeu o mesmo com a segunda, até que a terceira sempre se sujeitou a casar com o corvo.

Tempos depois de já viverem na sua casa, a rapariga falou a uma vizinha no seu desgosto de estar casada com um corvo; a vizinha aconselhou-lhe que lhe chamuscasse as penas, porque podia ser obra de encantamento, e assim se quebraria. Quando à noite se foram os dois deitar, a rapariga chegou a candeia às penas do corvo; ele acordou logo, dando um grande berro:

– Ai, que me dobraste o meu encantamento! Se me queres salvar, vai pôr-te àquela janela, e todos os pássaros que vires, chama-os e pede-lhes assim: «Venham, passarinhos, venham despir-se para vestir el-rei que está nu». De fato os passarinhos começaram a vir pousar na janela, e cada um deixava cair uma pena com que o corvo se foi cobrindo. Depois que ficou outra vez emplumado, o corvo bateu as asas, e desapareceu, dizendo para a mulher:

– Agora se me quiseres tornar a ver

Sapatos de ferro hás de romper.
   
A pobre rapariga ficou sozinha toda aquela noite, e logo que amanheceu foi comprar uns sapatos de ferro e meteu-se a correr o mundo. Tinha os sapatos quase estragados de andar, quando encontrou um velho e lhe perguntou se não tinha visto um pássaro. O velho respondeu:

– Eu venho da fonte da madrepérola, onde estavam bastantes.

Ela continuou o seu caminho, e antes de chegar à fonte ali encontrou um corvo, que lhe disse:

– Olha, se quiseres salvar o rei, vai à fonte, onde estará uma lavadeira a lavar um vestido de penas, tira-lho e lava-o tu. Ao pé da fonte está uma casa, e um velho que a guarda; entra aí, mata o velho para poderes quebrar todas as gaiolas e dar a liberdade aos pássaros que ele tem lá presos.

A rapariga chegou à fonte, e fez como o corvo lhe tinha dito; lavou o vestido de penas, e depois entrou na casa onde estava o velho, fingiu que via vir pelo mar uma linda embarcação; o velho chegou-se à janela e a rapariga pegou-lhe pelas pernas e deitou-o ao mar. Depois quebrou todas as gaiolas e os pássaros em liberdade tornaram-se príncipes que estavam encantados, e entre eles estava o seu marido, que era rei e lhes pôs obrigação de a servirem toda a vida.

Fonte:
Contos Tradicionais do Povo Português

Juvenal Galeno (Poesias)

A MODA

O que eu desejo, senhoras,
É que se cumpra o rifão:
— Cada terra com seu uso,
Cada roca com seu fuso: —
Eis a minha opinião!

Mas, vestir-se o brasileiro
Como lhe ordena o francês...
Não acho isso direito!
Viver o povo sujeito
Aos figurinos do mês!

É mesmo falta de brio,
É fazer-se manequim;
Dizem que somos macacos...
Pois antes trajarmos sacos,
Do que servir de saguim!

Devemos ter nossa moda,
Tenha a sua o japonês;
Vista o prusso à prussiana,
Ande o russo a russiana,
Ninguém roube a do chinês.

Cada qual conforme o clima
De sua terra natal;
Que se o Norte tem calores,
No sul existem rigores
Da viração glacial.

Mas ornar-se quem tirita
Como quem sopra... é de mais!
Se trajamos nos estios
Como a França nos seus frios,
Não somos racionais!

E que roupagem ridícula
Nos impõe o tal Paris!
Que não levem... rabos tais!
Às damas puseram rabo! —
Pois não é um menoscabo
A esta terra infeliz? —
(...)

Batinas e polonaise,
Hoje, bico — amanhã, não;
Muitas trouxas, muitos regos,
Babados e repolegos,
Arregaços... confusão!

E franjas, fitas e penas!
No meio dessa babel,
A mulher desaparece...
Nem o marido a conhece
Nequele horendo pastel!
(...)

E é tamanha a tirania,
Que aqui não sabe ninguém
Como andará pela rua,
Ou consorte ou filha sua,
Em dias do mês que vem!

Já disse o suficiente...
Às damas peço perdão!
Apenas bato o abuso...
Cada terra com seu uso...
Esta é minha opinião!

OS BARÕES

I

Eu não canto os barões assinalados
Por atos de virtude ou de heroismo...
Mas espertos e torpes titulados,
Egrégios na baixeza e no cinismo!
Que os primeiros são tão raros
Nesta terra em que nasci,
Ao passo que dos segundos
Mais de um cento conheci!
E deles cada qual o mais tratante,
Mais néscio e mais servil...
Em fidalgos ruins já ninguém vence
Por certo o meu Brasil!
E se alguém duvidar ponha a luneta
E o passado examine dos barões...
Empurre no presente uma lanceta
E verá o que sai... que podridões!
Ou procure, que tenho na gaveta,
Alguns apontamentos ou borrões...
Mas trabalho é demais... ninguém se meta,
Antes leia estes traços a crayons.

(...)

III

Que ativo contrabandista
Foi outrora, — e ainda o é —
Aquele esperto Fulgêncio,
O barão do Gereré!...

Quem mais ligeiro no ofício?...
Sagaz!
Por entre as trevas da noite...
Trás... zás!

As cousas vinham dos barcos,
Sem o fisco examinar...
Pelas artes de berliques,
Passavam todas no ar;

E por artes de berloques,
Nunca as poderam pegar!
E as que vinham pelo fisco
Mudavam de condição...
Popelinas despachadas
Por fazenda de algodão!

E desse modo Fulgêncio
Depressa se f'licitou...
Passando mil contrabandos
Em pouco tempo enricou,
E para não ser Fulgêncio,
Um baronato arranjou!

Hoje é fidalgo...
Dos nobres é:
Barão exímio
Do Gereré!...

(...)

ALFACE

A alface das nossas hortas
É do ópio sucedâneo:
Acalma dores e tosses,
Seu efeito é instantâneo.

Serve o chá das suas folhas
Para curar os nervosos,
E para banhar os olhos
Inflamados, dolorosos.

Quem o tomar, ao deitar-se,
Logo o sono concilia:
Galeno ceava alfaces,
Pois de insônia padecia.

As urinas facilitam,
E servem de laxativo;
Finalmente, em muitos males
Não há melhor lenitivo.

O CAIPORA

— No meio da mata, menino, não corras,
Que o vil caipora
Agora,
Nesta hora
Passeia montado no seu caititu;
E arteiro e malino
Se encontra o menino...
Ai dele! que o leva no seu grande uru!

Menino, não corras
Na mata a brincar,
Que o vil caipora
Te pode levar.

Seus olhos pequenos são negros, e feros,
Quais d'onça, luzentes,
Ardentes...
E os dentes
São como os do mero, ferinos, cruéis;
E o duro cabelo,
Assim, como o pêlo
Dos bravos queixadas, que são-lhe fiéis.

Menino, não corras
Na mata a brincar,
Que o vil caipora
Te pode levar.

Qu'ousado e valente o tal caboclinho,
De penas coberto,
Esperto...
Decerto
Se vê-te quer fumo, pedir-t'o lá vem;
Se acaso lh'o negas,
Se não lh'o entregas,
Quem é que te salva? Lá vais ao moquém!

Menino, não corras
Na mata a brincar,
Que o vil caipora
Te pode levar.

Se acaso te encontra... lá vais para a grota
Debalde lutando,
Gritando,
Chorando,
Na embira amarrado do seu grande uru!
Não corras menino,
Que o índio malino
Na mata passeia no seu caititu!

E o louco menino
Não quis escutar;
Fugindo de casa
Não pôde voltar.

Fontes:
GALENO, Juvenal. Lendas e canções populares. 4.ed. Fortaleza: Casa de Juvenal Galeno, 1859/1865.
GALENO, Juvenal. Medicina caseira. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 1969.
GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 1969.
GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno.

Juvenal Galeno (1836-1931)

Neto de Albano da Costa dos Anjos e do português Manuel José Theóphilo, Juvenal Galeno da Costa e Silva nasceu em Fortaleza, a 27 de setembro de 1836, em uma residência na Rua Formosa, nº 66 (hoje Barão do Rio Branco). Filho de José Antônio da Costa e Silva e Maria do Carmo Teófilo e Silva, abastados agricultores cafeeiros na encosta da Serra de Aratanha em Pacatuba. Primo pelo lado paterno de Capistrano de Abreu e Clóvis Beviláqua e pelo lado materno de Rodolfo Teófilo.

Ainda pequeno se mudou com a família para o Sítio Boa Vista, recanto aconchegante que lhe embalou os sonhos de criança. O tempo foi passando e o menino Juvenal trazia a seiva da imensurável ramificação cultural.

Seus estudos primários ele os fez numa escola de Pacatuba. Aos treze anos de idade, já com noções de latim ministradas pelo padre Nogueira Braveza, mal ainda havendo despertado para a adolescência, fundou e fez circular o primeiro jornal puramente literário no Ceará, o “SEMPRE VIVA”, destinado ao sexo feminino. O jornal teve efêmera existência, porque vivia ainda sob a tutela dos pais, não tinha condições de dar continuidade a esse empreendimento.

Ainda na infância, acompanhou o tio, Dr. Marcos Theóphilo, médico, pai de Rodolfo Theóphilo, à cidade de Aracati, onde frequentou uma escola pública ministrada por Porfírio Sabóia. Voltando de Aracati em 1851, matriculou-se no Liceu do Ceará onde cursou Humanidades até 1855.

Em 1853, fundou e fez circular o primeiro jornal da imprensa estudantil no Ceará, o jornal “Mocidade Cearense”, também de efêmera existência, em virtude, da transferência de seu sócio e colega Joaquim Catunda para o Rio de Janeiro.

Após o Curso, foi para o Sitio Boa Vista ajudar o pai na administração das atividades agrícolas, principalmente na cultura cafeeira, numa época em que o café assumia expressiva importância na economia cearense.

Com o intuito de aperfeiçoá-lo em assuntos agrícolas, seu pai mandou-o para o Rio de Janeiro em busca de adquirir maior conhecimento nas técnicas do plantio do café. Levava consigo uma carta de recomendação de Rufino José de Almeida apresentando-o a Francisco Paula Brito, proprietário da Marmota Fluminense. Ali Juvenal Galeno travou relações de amizade com Machado de Assis, Saldanha Marinho, Joaquim Manoel de Macêdo, Quintino Bocaiúva e outros.

Seduzido pelo convívio das letras, passou, a partir de então, a escrever poesias e a publicá-las na Marmota Fluminense ao lado de Machado de Assis e outros escritores. Demorou no Rio pouco mais de um ano, mas antes de seu regresso ao Ceará reuniu tais produções, editando-as em 1856, sob o título de Prelúdios Poéticos.

De volta ao Ceará, Juvenal Galeno trouxe dois exemplares de “PRELÚDIOS POÉTICOS”, ricamente encadernados com sua fotografia, que ofereceu a seus pais.

“PRELÚDIOS POÉTICOS” livro de estreia de Juvenal Galeno, editado em 1856, foi o primeiro livro da literatura cearense, tornando-se o marco inicial do Romantismo no Ceará, como afirmaram Mario Linhares, na sua “Historia da Literatura”, Antônio Sales e outros.

A partir de então sua existência passou a transcorrer entre o Sítio Boa Vista, na Serra de Aratanha, e a cidade de Fortaleza. Ainda por esse tempo ingressou como alferes nos quadros da Guarda Nacional, como também no Partido Liberal , em cujo jornal passou a colaborar. Em 1858 foi eleito Suplente de Deputado Provincial pelo círculo de Icó, onde defendeu um projeto para criação de uma escola prática de agricultura.

Em 1859, desembarcava em Fortaleza, trazida a bordo do Tocantins, a célebre Comissão Cientifica de Exploração, dirigida por Freire Alemão, composta por doze pessoas, entre as quais se destacavam Raja Gabaglia, Capanema e o poeta Gonçalves Dias, que chefiava a Seção Etnográfica e Narrativa da Missão.

De Fortaleza rumaram para Pacatuba ficando hospedados na casa dos pais de Juvenal Galeno. Ali na serra e na capital cearense, Juvenal teve como amigo e conselheiro, Gonçalves Dias, que lhe estimulou os pendores literários, aliás, já manifestados nas poesias “A Noite de São João”, “A Canção do Jangadeiro”, “Cantiga do Violeiro” e outras mais do livro “Prelúdios Poéticos”.

Gonçalves Dias, estabelecendo conversação com o poeta Juvenal Galeno, convidou-o para participar de um banquete com todos os membros da Comissão Cientifica de Exploração, do Senador Tomás Pompeu e de Silva Coutinho em Fortaleza. Juvenal Galeno atendeu de pronto ao convite do amigo, e em função do evento, deixou de comparecer à uma revista do Batalhão da Reserva do Exército a que pertencia. Isto irritou o Comandante da Guarda Nacional de Fortaleza, João Antônio Machado, que em seguida determinou o recolhimento do subalterno à prisão.

A penalidade lançada a Juvenal Galeno trouxe como resultado a confecção de um livro severíssimo e duro contra o tal Machado e, esse trabalho ele publicou num volume, o qual deu o título de “A MACHADADA”, aproveitando o simbolismo do sobrenome de João Antônio Machado. Esse livro foi a primeira obra literária impressa no Ceará.

Em 1861, Juvenal Galeno aparece em público como teatrólogo. É levada à cena, pela primeira vez, no Teatro Taliense, 3 de novembro de 1861, a comédia de sua autoria intitulada “ QUEM COM FERRO FERE COM FERRO SERÁ FERIDO”. Esse drama sociológico foi a primeira peça teatral produzida e encenada no Ceará. Nesse mesmo ano presenteou o público com o poemeto indianista denominado “A PORANGABA” (descrição em versos de uma lenda que Juvenal Galeno disse ter ouvido de um velho caboclo que escutara dos seus pais, e estes a seus maiores).

A poesia de Juvenal Galeno reflete toda a psicologia da alma da gente humilde, digo da alma da população do nordeste em todas as modalidades do seu sentir, nos seus lances heroicos, infelizes ou gloriosos.

Os sentimentos, os anseios dessa gente toda, da serra, praias e sertões, ele os gravou indelevelmente em seus versos.

Em 1865, no prólogo de “LENDAS E CANÇÕES POPULARES” ( obra-prima de Juvenal Galeno que foi saudado por Machado de Assis e outros renomados escritores, o que atesta o valor nacional do vate montanhês), ele declarou: “ Escrevi este livro acompanhando o povo no trabalho, no lar, na política, na vida particular e pública, na praia, na montanha e no sertão, onde ouvi os seus cantos e os reproduzi, ampliei sem desprezar a frase singela, a palavra de seu dialeto, a sua metrificação e até o seu próprio verso”.

Franklin Távora considerou-o não só como uma obra de arte em que se revelou o gênio do poeta, mas como documentário precioso devendo ser detidamente estudado, podendo se constituir um guieiro para a indagação e pesquisa dos usos, costumes e tradições populares.

O amor e a dedicação de Juvenal às Letras eram tais, que só aceitava empregos no setor intelectual. Desempenhou as funções de Inspetor Escolar, numa época em que os transportes eram difíceis,  penosos. Só havia acesso a certos lugares por meio de animais, fazendo-se o percurso de léguas, debaixo de uma soalheira causticante de uma escola para outra, tal a distância em que ficavam localizadas. Estradas inteiramente desertas. Contudo ele trabalhava com prazer e não sentia fadigas, gostava do convívio das crianças, orientava as professoras e tanto se fez a esse meio que chegou a compor singelas e tocantes “CANÇÕES DA ESCOLA”, que foram impressas e distribuídas nas escolas para serem cantadas. Esse livro que se esgotou em poucos dias, consagrou-o, também, como Poeta da Juventude. Essa obra foi adotada pelo Conselho de Instrução Pública do Ceará para uso das aulas primárias.

Nessa sua tarefa de Inspetor da Instrução Pública, ele se hospedava sempre em casa do velho pescador João Gomes, homem humilde, casado e com vários filhos, residia em Freixeiras. Numa destas ocasiões, Juvenal ouviu a narração dos sofrimentos que assaltaram inopinadamente o pescador e sua mulher, devidos à perseguição cruel de um potentado que, por vingança, aprisionara para o recrutamento militar o seu genro querido, deixando ao desamparo e na maior dor a esposa e o filho recém-nascido. Indignado, Juvenal tomou a si, com o entusiasmo que sentia na defesa das causas justas, retirar Vicente do recrutamento. Jurou que o conseguiria, afirmou destemido ao velho pescador que livraria seu genro e retornou logo a Fortaleza para não perder tempo. Escreveu então a seu cunhado e amigo Dr. José Gonçalves da Justa, que ocupava importante cargo no Rio de Janeiro, pedindo-lhe a liberdade de Vicente como o maior favor que lhe poderia prestar. O poeta era queridíssimo de toda família e seu cunhado conseguiu satisfazer-lhe o pedido.

Inspirado nessa verdadeira e altamente comovedora cena da vida real, escreveu ele o conto intitulado “AMOR DO CÉU” enfeixado no seu livro “CENAS POPULARES “ editado em 1891.

Sobre “Cenas Populares” disse José de Alencar: “ livro tão original ainda não se escreveu entre nós”. Ao invés do verso, o autor preferiu a prosa em que descreve lugares, pessoas, costumes típicos de sumo interesse para o folclore em alguns contos singelos: “Os pescadores”, “Dia de feira”, “Folhas secas”, “Noite de núpcias”, etc. Esse livro foi o primeiro livro de conto publicado no Ceará.

Juvenal Galeno montou uma tipografia expressamente para impressão de “LIRA CEARENSE”, livro impresso em fascículos e distribuídos aos domingos em formato de jornal, com o mesmo título, Lira Cearense, com seu primeiro número circulando a 7 de janeiro de 1872. Fascículos depois reunidos em um volume, dividido em três partes: Lira Popular, Lira Americana e Lira Íntima.

Foi nomeado em 19 de maio de 1876 terceiro suplente do Juiz Municipal de Pacatuba. Naquele ano casou-se com sua vizinha Dona Maria do Carmo Cabral , filha do Comendador Cabral de Melo. Depois de alguns anos, Juvenal e sua esposa querendo proporcionar uma melhor educação para os três filhos: José, Antônio e Maria do Carmo, deixam o sítio e vão morar num sobrado da Vila de Pacatuba. Até 1886, o seu domicílio seria a Vila de Pacatuba, em cujas ruas mantinha um estabelecimento de lojista.

Em 1887 fixa residência em Fortaleza, na Rua General Sampaio 1128, ali nascendo João, Henriqueta e Julinha.

Em 1887 quando da fundação a 4 de março do Instituto do Ceará, foi considerado Sócio Fundador daquela entidade. Dois anos depois, em 1889 foi nomeado pelo presidente da Província de Fortaleza, Caio Prado, para a função de Diretor da Biblioteca Pública, então localizada na Rua Sena Madureira, cargo que ocupou por longos dezenove anos. Nesta função divertia-se em policiar a leitura dos estudantes tirando-lhes das mãos as obras de Júlio Verne substituindo-as pela História de um Bocadinho de Pão. Juvenal Galeno costumava dizer, amava aquela repartição como se fosse um de seus próprios filhos.

O Conde D”Eu quando por aqui passou antes da inauguração do regime republicano, comparecendo à recepção que lhe foi oferecida, em palácio, pelo presidente da Província, foi apresentado ao nosso poeta. E para espanto da altas figuras ali presentes, o genro do imperador em voz alta, recitou, naturalmente querendo dar provas de que já conhecia muitas de suas poesias, algumas estrofes de “O Filho do Vaqueiro”.

Juvenal por algum tempo escreveu no Jornal “A CONSTITUIÇÃO”, um dos mais lidos no século XIX, em Fortaleza. Suas crônicas eram verdadeiras caricaturas dos costumes então em uso, e assim, ora em versos tersos e vibrantes, ora em prosa causticante, ele combatia a torto e direito os vícios e abusos daquela época.

Acastelhava-se por identificar o autor, e “A CONSTITUIÇÃO” aumentava a tiragem, esgotando-se, tal era a procura.

O poeta mostrou-se, nesse gênero, de uma verve admirável, e ora enérgico e destemido, ora trocista e brincalhão, ia fazendo cócegas e irritando aqueles em cuja cabeça a carapuça tão bem se ajustava. SILVANUS, com sua verve inesgotável, marcou um acontecimento no mundo social, e ele soube se haver com tal inteligência e habilidade, que não feriu diretamente a este ou aquele. E o sucesso foi tamanho que, quando o poeta deu por finda a sua publicidade, recebeu pedidos insistentes para enfeixar em livros aquelas produções. A princípio não quis fazê-lo, mas acabou cedendo, e eis, ereto e altivo o “FOLHETINS DE SILVANUS”, editado e descoberto em 1891 para gáudio de seus numerosos leitores. “Folhetins de Silvanus” é uma fina sátira dos costumes, hábitos, fielmente observados e descritos com um humorismo encantador.

A maior parte do livro foi escrita em verso, em que estigmatizava o luxo, o pedantismo provinciano, a falsa ciência dos diletantes, em plena Fortaleza do século XIX.

Aos setenta e três anos de idade, atacado de glaucoma, acaba por se aposentar do serviço público, já irremediavelmente cego, isso em 1908, passando a viver da aposentadoria, dos rendimentos próprios
auferidos não só da produção de seu sítio como dos aluguéis de suas vinte casas.

Em 1897, Juvenal Galeno dita à sua filha Henriqueta os seus versos de “Medicina Caseira”, livro somente impresso em 1969, no cinquentenário de fundação da Casa de Juvenal Galeno.

Continuou a produzir ditando poemas para sua filha, Henriqueta Galeno, que o assistiu, juntamente com sua esposa, até o fim da vida. Uma de suas imagens mais conhecidas retratou esse momento: no salão de sua residência, sentado em uma rede de varandas bordadas, as barbas alvas e longas, o olhar perdido, e a filha ao lado, sentada em uma cadeira, a tomar nota dos últimos versos ditados pelo grande bardo.

Desde 1916, a residência do poeta era frequentada por intelectuais como Alfredo Castro, Cruz Filho,
Leonardo Mota, Mário Linhares, Antônio Furtado, Irineu Filho, Antônio Sales, José Albano, Beni Carvalho, Papi Júnior, Sales Campos, José Sombra, entre outros.

Atribui-se às irmãs Júlia e Henriqueta Galeno a ideia de reunir o escol das letras cearenses, nos moldes dos salões literários franceses. Por iniciativa delas, a Casa se constituiu um palco de recitais, palestras, conferências, números de canto, audições ao piano, concertos de violões e danças. Tais eventos se realizavam a propósito de qualquer ocasião: despedidas, homenagens, aniversário de membros do círculo, lançamento de livros e recepção a visitantes ou intelectuais que tornavam à capital cearense, depois de longa ausência. Tudo era motivo para as sessões literárias que se realizavam na Casa de Juvenal Galeno, em presença do velho poeta, que não tomava parte nas apresentações, mas, segundo apontavam, fazia questão de ouvi-las.

Juvenal Galeno faleceu de uremia em 7 de março de 1931, aos noventa e cinco anos de idade, deixando uma volumosa produção literária e a Casa que se tornara referência e ponto de encontro preferido de intelectuais.

Dia 28 de setembro de 2013, na casa de Cultura Juvenal Galeno houve a solenidade de fundação da Academia de Letras Juvenal Galeno. Projeto da escritora Eliane Arruda, Patrono JUVENAL GALENO DA COSTA E SILVA. Presidente: Eliane Maria Arruda Silva – Cadeira 01.

Casa de Juvenal Galeno
Rua General Sampaio, 1128 - Centro
Fortaleza – Ceará
CEP: 60020030
Fone: (0xx85) 3252-3561
#############

Prêmio de Poesia e Trova Juvenal Galeno (ALJUG e UBT-Maranguape) 2014 (Prazo: 30 de Junho)

UNIÃO BRASILEIRA DE TROVADORES SEÇÃO DE MARANGUAPE (UBT-MARANGUAPE)

Academia de Letras Juvenal Galeno - ALJUG
aljug.concursos@gmail.com
UBT-Maranguape [ ubt.mpe@gmail.com ]
Programa Brasil Trovador - Rádio Maranguape FM [www.maranguapefm.com.br]

1. ÂMBITO: Nacional/internacional e Estadual, em língua portuguesa.

2. REQUESITOS: Poesias inéditas, destinadas a homenagear ao poeta, trovador, escritor, folclorista, ator, contista e teatrólogo Juvenal Galeno, natural de Fortaleza/Ceará nas seguintes categorias [constar o tema JUVENAL GALENO no trabalho, em qualquer categoria]:

2A) Cordel, sextilha, septilha, décima, glosa ou outro gênero de poesia popular;

2B) Poesia em trovas, poesia em quadras, acróstico, haicai, soneto, poema, poesia livre
ou outro estilo;

2C) Trova - duas trovas por tema, âmbitos Nacional/Internacional e Estadual:

i) “Trovador (es)” [duas trovas Lírica/filosófica (L/F)]

ii) “Juvenal Galeno” [duas trovas Lírica/filosófica (L/F)]

Obs: a) Serão desclassificadas as trovas que fugirem ao tema proposto e/ou sem métrica, sem rima, bem como aquelas postadas ou enviadas por e-mail após a data limite do concurso.

b) Constar o tema na trova. Nas poesias (demais categorias) deve constar o nome
de Juvenal Galeno.

c) informações sobre JUVENAL GALENO podem ser obtidas na Internet.

3. LIMITES: Um trabalho por concorrente, para cada categoria/gênero (2A e 2B), e duas trovas na forma do item 2C, de qualquer local do país/exterior.

4. PRAZO PARA REMESSA: Até 30 de junho de 2014

5. ENDEREÇO PARA REMESSA DAS TROVAS:

Por e-mail exclusivamente para o endereço eletrônico:.aljug.concursos@gmail.com indicando o nome do autor, endereço completo, município, estado CEP.

As poesias e trovas podem ser enviadas no próprio corpo do e-mail ou em arquivo anexo
para o e-mail: aljug.concursos@gmail.com.

6. PREMIAÇÃO:

Troféu Juvenal Galeno, instituído concedido pela ALJUG para o 1º. Colocado em cada categoria e diploma para cada um dos classificados: 3 vencedores, 3 Menções honrosas e 3 Menções Especiais, por tema, âmbito e categoria. Os diplomas serão enviados pela Internet quando o premiado residir em outro estado ou país.

A premiação está prevista para o dia 27 / 09 / 2014, data da comemoração do 1º aniversário da ALJUG, na Casa de Juvenal Galeno em solenidade programada pela Academia de Letras Juvenal Galeno. Não serão concedidos diplomas de participação especial em nenhum dos âmbitos e temas.

7) JULGAMENTO:

A UBT-Maranguape e o Conselho de UBTs do Ceará formarão as comissões julgadora e apuradora do concurso e suas decisões serão irrevogáveis. A simples participação no concurso autoriza a publicação dos trabalhos não eliminados pela UBTMaranguape e ALJUG.

Fortaleza, CE, em 26 / 02 / 2014.
Eliane Arruda
Presidente da Academia de Letras Juvenal Galeno - ALJUG
Fco. José Moreira Lopes (Dedé Lopes)
Presidente da UBT-MARANGUAPE/CE - Coordenador do Concurso e Acadêmico da ALJUG.

José Feldman (Chuva de Versos n. 56)


Uma Trova do Paraná
DARI PEREIRA

Poeta não faz escolha,
desafia qualquer tema,
desdobra folha por folha
e compõe o seu poema.

Uma Trova Humorística do Paraná
No Primeiro Festival de Maringá (1966), com três dias de festa, o A. A. DE ASSIS estava realmente cansado, e em dado momento, solicitado para dizer trovas, escapou com esta:

Senhores, estou cansado,
Embora muito feliz.
Por isso deixem sentado
O pobrezinho do Assis...

Uma Trova Premiada em Cantagalo/RJ, 2012
VANDA FAGUNDES QUEIROZ (PR)

Um casebre na favela…
o espaço ganhou fulgor,
quando alguém pôs na janela
um simples vaso de flor!

Uma Trova da Bahia
HILDEMAR DE ARAÚJO COSTA

Todo conto do vigário
encerra duplo sentido:
há sempre um sabido, otário,
e um otário mais sabido.

Um Poema da França
JEAN LA FONTAINE
A Rã e o Boi


Num prado uma rã
Um boi contemplou,
E ser maior que ele
Vaidosa intentou.

A pela enrugada
Inchando alargou,
E às leves irmãs
Assim perguntou:

- Maior que o Boi
Ó Manas, já sou?
- Não és, lhe disseram
E a rã lhes tornou,

- E agora, inda não?
E mais ainda inchou;
Eis logo de todas
Um não escutou.

Inchar-se invejosa
De novo buscou,
Mas dando um estouro
A vida acabou.

Também, se em grandeza
Vencer procurou
O pobre ao potente,
Por força estourou.

Trovadores que Deixaram Saudades
COLBERT RANGEL COELHO (MG)


A todo mundo insinuas
que não mando no que é teu,
mas tenho saudades tuas
e o dono delas sou eu.

Um Haikai de São Paulo
SILVIO GARGANO

Sob o sol de inverno
todos correm apressados
para se esquentar.


Um Epigrama do Rio de Janeiro
LAURINDO RABELO
(Laurindo José da Silva Rabelo)
1826 – 1864

 

Dizem que a Morte e Maurício
Andaram na mesma escola;
A Morte mata somente…
O Maurício mata e esfola

(Visava a José Maurício Nunes Garcia, médico e professor de anatomia)

Um Soneto do Rio de Janeiro
GIUSEPPE ARTIDORO GHIARONI
Continuidade


Existe um cão que ladra quando eu passo,
como se visse um bêbedo, um mendigo.
E no entanto, esse cão foi meu amigo,
como tantos amigos que ainda faço.

À noite, com que alegre estardalhaço
vinha encontrar-me no portão antigo;
enquanto a dona vinha ter comigo
e, sorrindo, apoiava-se ao meu braço.

Hoje ele faz a outro a mesma festa
e ela o mesmo carinho, tão honesta
como se nem notasse a transição.

Eu rio dessa triste brincadeira,
mas quando uma mulher é traiçoeira,
não se pode confiar nem no seu cão!

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

José Feldman (Universo de Versos n. 144)


Uma Trova de Caxias do Sul/RS
ALICE BRANDÃO


Que saudade dos brinquedos
do meu tempo de criança,
tendo os risos e folguedos
como arautos da esperança.
============================
O Universo Poético de FRANCISCO MACEDO
Natal/RN (1948 – 2012)

Bom Dia Emocional...


Receba, neste dia, meu Bom dia!
Em um arroubo, assim, feito um lampejo,
eu não apenas digo, mas, desejo,
e espero que ele encontre sintonia.

Até concordo que a tecnologia,
faz máquina dizer e com gracejo,
no impessoal e sem nenhum traquejo,
um bom dia, qualquer, sem energia...

Bom dia!... Não apenas cumprimento,
mas que traduza todo um sentimento,
e o dia será bom, se for assim...

Meu “Bom dia” tem forma de oração...
É um desejo que vem do coração,
Com a fé neste Deus que habita em mim!...
*****************************

Faça de um simples Bom dia,
um ato de comunhão...
Levando “ao outro” a energia
que está no seu coração!
============================
Um Haicai, de São Paulo/SP
HELEN S. RIBEIRO


Um pé de azaleia
Nesta imensidão de prédios
Carregado de flores!
============================
Uma Trova sobre Ecologia, de Natal/RN
ADEMAR MACEDO


O grande desmatamento,
por ganância ou esperteza,
põe rugas de sofrimento
no rosto da natureza...
============================
O Universo Poético de EMILIANO PERNETA
(Emiliano David Perneta)
Curitiba (1866 – 1921)

Quando Um Poeta Nasceu...


Quando um poeta nasceu, como o sol que desponte,
Logo por sobre o mar longas e brancas velas
Desfraldam-se; e por fim, tudo palpita, o monte,
O céu, a flor, a luz – ó róseas bambinelas!

É um barulho de rio, um murmúrio de fonte,
Uma palpitação universal de estrelas;
Um sussurro, um fragor de beijos quentes pelas
Ondulações sem fim e rubras do horizonte!

Menino, homem depois, de um assalto ele ganha
Os ermos, que transpõe, os vales e os barrancos,
Tendo sempre a sorrir nos olhos a Quimera...

Chegam os anos e vêm os cabelos brancos...
Todavia, ele só, em pé sobre a montanha,
Inda sonha, inda crê, inda deseja e espera!...
===================================
O Universo Poético de REGINA MÉRCIA
(Regina Mércia Sene Soares)
Novo Horizonte/SP

Beijo de Amor


Lábios se encontram
A luz do luar...
Sussurrando palavras de
Amor, carinho e emoção
Lábios que sussurram
Com carinho e paixão
Tudo vira magia...
Os corações palpitantes
No compasso de
Uma música ...
Suave que baila
Envolvendo os enamorados
Derramando só pura paixão
Seus sonhos e seus dramas
Suas ilusões...
Dois lábios que se
Encontram num
Beijo de amor .…
============================
Uma Trova Lírica Filosófica, de Belo Horizonte/MG
ARLINDO TADEU HAGEN


Dos meus tempos de criança,
 quase tudo se acabou;
 restam restos de esperança
 da esperança que restou!...
=============================
O Universo do Haicai de CARLOS SEABRA
(São Paulo/SP)


cai o granizo:
rapaz, fique em casa,
tenha juízo
===========================
O Universo Poético de RENATO SUTTANA
Barroso/MG
Perspectiva
 

Tudo é perspectiva.

Entre as colunas da tarde,
calcinadas de tédio,
entre as paredes brancas
que um sol entediado
recresta do alto –

tudo é dispersão
e tédio igual ao tédio:
pensamentos de areia
escorrendo secos
sobre superfícies secas.

Entre os devassados
esconderijos da tarde
(onde ninguém pode estar seguro,
onde ninguém alcança
proteger-se dos dardos) –

tudo é superfície,
tudo é terreno abrasado,
e paredes, e branco,
e tédio igual ao tédio
entre pensamentos de areia.

 Tudo é perspectiva.
==========================

Uma Trova do IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP

 

Partiste, e eu fiz o que pude,
num brinde  felicidade,
mas, quando eu disse -"saúde!"
ela respondeu...-"Saudade..."
=========================
Constelação Haicaista de JOSÉ MARINS
Curitiba/PR

.
ruídos dos carros –
esforço-me para ouvir
a voz do canário
=================================
Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas

ECO

 
É suposto que cada frase desta lengalenga seja repetida por outra pessoa depois de uma a dizer.

 - Ó que eco que aqui há!
 - Que eco é?
- É o eco que cá há.
- O quê? Há cá eco?
- Há eco, há.

(http://luso-livros.net/)
=================================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores
LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981


Morreu o abade. O terror
do pecado, o clero invade:
era uma trova de amor
o escapulário do abade.
================================
O Universo Poético de EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)

Um Paulistano Ufano


É um bandeirante novo, sem as botas
De andar em carrascais, ou serras brutas,
De penetrar nas mais profundas grotas
Ou se internar nas mais soturnas grutas.

É o bandeirante urbano nas devotas
Ânsias de ver em formas resolutas,
O esplendor das metrópoles remotas
Em plintos, colunatas e volutas.

Ele antevê, nas cores mais exatas
Da Paulicéia as graças infinitas,
No áureo fulgor de mágicas palhetas.

Porém, depois dos bons tempos de pratas,
Ele que é homem que detesta as fitas,
Sente a falta do "arame" nas gavetas.
=================================
Constelação Poetrix de GOULART GOMES
Salvador/BA (1965)
Janela


não posso vê-la
saio
por ela
=======================
Uma Trova Humorística, de São Paulo/SP
RENATA PACCOLA


Em física reprovada,
a garota deu um jeito
e teve a nota alterada
por seu físico perfeito...
=============================
O Universo Poético de ANTONIO MANOEL ABREU SARDENBERG
São Fidélis/RJ (1947)
Cenário


A branca bruma que envolve o mar
Toca de leve no seu corpo ardente
Que a lua cheia vem agasalhar
No espelho d’água frio e transparente.

O céu dourado quase se apagando
Faz despedir o dia que se finda,
Devagarinho a noite vem chegando,
Quer contemplar essa imagem linda:

Bruma branca
Corpo ardente
Mar...

Brahma
Aguardente
Amar...

Céu dourado
Espelho d’água
Amor
Você
Mais bela do que a flor
Mais linda do que o luar...
===============================
Uma Trova Hispânica, da Venezuela
CARLOS RODRIGUEZ SANCHEZ


Si la sonrisa te alumbra
el camino de la vida,
nunca sentirás penumbra
en la senda recorrida.
==========================
Constelação de Versos da DOROTHY JANSSON MORETTI
(Sorocaba/SP)
As Sombras


As sombras que escurecem meu caminho
fazem falhar, de súbito, meus passos.
Sangro meus pés ao rasgo de um espinho,
e tombo presa de um cipó nos laços.

Sinto-me às tontas, qual num torvelinho,
falta apoio se eu estendo os braços;
mas ergo-me de novo me encaminho;
eu quero luz para os meus olhos baços.

Ao termo desta faixa acidentada,
a trilha que se estende, iluminada,
conduz-me à paz perfeita e verdadeira.

É a minha própria fé que me assegura
que entre um raio de sol e a sombra escura,
não há mais que uma nuvem passageira.
========================
O Universo Poético de CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ
Cantarão os Galos


Cantarão os galos, quando morrermos,
 e uma brisa leve, de mãos delicadas,
tocará nas franjas, nas sêdas
mortuárias.
E o sono da noite irá transpirando
sobre as claras vidraças.
 E os grilos, ao longe, serrarão silêncios,
talos de cristal, frios, longos ermos,
 e o enorme aroma das árvores.
 Ah, que doce lua verá nossa calma
 face ainda mais calma que o seu grande espelho de prata !
Que frescura espessa em nossos cabelos,
livres como os campos pela madrugada !
 Na névoa da aurora,
a última estrela
subirá pálida.
Que grande sossego, sem falas humanas,
sem o lábio dos rostos de lobo,
 sem ódio, sem amor, sem nada !
Como escuros profetas perdidos,
 conversarão apenas os cães, pelas várzeas.
 Fortes perguntas. Vastas pausas.
Nós estaremos na morte
com aquele suave contorno
de uma concha dentro da água.
========================================
O Universo Poético de GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade e Almeida)
Campinas/SP, 1890-1969

Nós, XV


Falam muito de nós. Quanta maldade,
quanta maledicência, quanta intriga!
"É um pobre sonho de felicidade..."
"É um romance de amor à moda antiga!"

"Isso não passa de uma história, que há de
acabar como todas..." E há quem diga:
"Já são muito mal vistos na cidade
aquele moço e aquela rapariga!"

Diz-se... E eu sinto, num trêmulo alvoroço,
que vou ficando cada vez mais moço,
que vais ficando cada vez mais bela...

Nosso mundo (fale o outro: pouco importa!)
fica todo entre o quadro de uma porta
e o retângulo azul de uma janela.
=========================
Universo Poético de IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS
Cansaço


No corpo sentírás a lassidão
de uma canseira incrível, de um torpor
que te virá só para em ti depor
as esperanças que te morrerão…

E numa palidez verás, então,
teus olhos magoados pela dor,
vidrados sem o brilho sonhador
que te deixava tão alegre são…

Desejarás dormir nestes instantes.
O sono não virá dar-te um abraço.
Irás cantar, mas inda que tu cantes

passarás amarguras como passo
e enxergarás que em risos deslumbrantes
te sorrirá flamívolo cansaço…
=============================
Galáxia Triversa de ALVARO POSSELT
Curitiba/PR


Lá vem o vento
derrubando
tudo que invento
==========================
Uma Trova do Rei dos Trovadores
ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ


Ó lindos olhos magoados,
de tanta melancolia.
- Da tristeza desses olhos,
é que vem minha alegria.
======================
O Universo Poético de MARIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994)
Para Telmo Vergara


Era uma rua tão antiga, tão distante
que ainda tinha crepúsculos, a desgraçada...
Acheguei-me a ela com este velho coração palpitante
de quem tornasse a ver uma primeira namorada

em todo o seu feitiço do primeiro instante.
E a noite, sobre a rua, era toda estrelada...
havia, aqui e ali, cadeiras na calçada...
E o quanto me lembrei, então, de um amigo constante,

dos que, na pressa de hoje, nem se usam mais
como essas velhas ruas que parecem irreais
e a gente, ao vê-las, diz: "Meu Deus, mas isto é um sonho!"

Sonhos nossos? Não tanto, ao que suponho...
São os mortos, os nossos pobres mortos que, saudosamente,
estão sonhando o mundo para a gente!
====================
O Universo de Versos de BERNARDO TRANCOSO
(Bernardo Sá Barreto Pimentel Trancoso)
Vitória/ES, 1976
Simplesmente Amaste


Alguma vez sonhaste estar gostando
De alguém que mal puderas conhecer
E, após tanto sofrer, viver chorando,
Encontraste sorrindo o amanhecer?

Sentiste o coração, de vez em quando
Disparar, na visão daquele ser,
As pernas a tremer, as mãos suando
E não tiveste voz prá lhe dizer?

Superaste os portais da eternidade,
Em nome do desejo mais ardente,
Arriscando morrer de insanidade?

Ademais, viste um mundo diferente,
Formado de beleza e de igualdade?
Então, amaste, pura e simplesmente.
=============================
Universo Trovadoresco de CORNÉLIO PIRES
Tietê/SP (1884 – 1958) São Paulo/SP


Entram em curta oração
Meus sentimentos plebeus,
Agradeço os dons da vida
E peço a bênção de Deus.
==========================
O Universo Sonetista de ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)
A Alma do Poema


Já tudo é só poesia para mim,
E o poema não é algo destacado
Do viver, do ser, ou algo assim,
O justo sentido experimentado...

Mal posso conceber que uns não vejam
O mundo revelado como vejo,
E as coisas veladas mesmo estejam
Para alguns olhos eivados de desejo,

Que deveria ser motivo suficiente
Assim como o amor, para a poesia
Apresentar-se assim a toda gente.

Mas percebo afinal, e meio triste,
Que a alma do poema renuncia
A preencher um vazio que resiste...
==============================
Uma Poema Premiado de Balneário Camboriú/SC
ELIANA RUIZ JIMENEZ
Ser Poeta


Ser poeta é tão somente ser criança,
com o joelho eternamente machucado.
É correr pelo terreno capinado
e procurar no concreto envelhecido
a flor do campo nascida num jazigo.

É libertar-se mesmo preso a convenções,
sorver o sumo de fugazes alegrias.
É desfrutar de sentimentos sem razão
e inventar que borboletas fugidias
podem enfim centrifugar o coração.

É relembrar de seduções que não viveu
em tempos idos de tornozelos escondidos
com carruagens de trotes compassados,
levantando a poeira enquanto os anos
vão desfocando os flashes do passado.

É sentir o vento fresco num deserto
e calafrios onde o sol brilha ou deveria.
Apropriar-se de vidas outras, divergentes,
e em breve êxtase transpor à poesia
o que não sente ou o que sentirá um dia.

(Poema Vencedor do II Concurso Nacional de Poesias ‘Narciso Araújo’, da Academia de Artes, Cultura e Letras de Marataízes (ES)/ 2013
=================================
O Universo de FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935


Em vez da saia de chita
Tens uma saia melhor.
De qualquer modo és bonita,
E o bonita é o pior.
===============================
Uma Trova do Poeta do Amanhecer
ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 - 2013 Natal/RN


Numa beleza suprema,
por entre o céu e entre o mar,
Deus escreveu um poema
nas entranhas do Luar…
=================================
O Universo Sonetista de AFONSO FELIX DE SOUSA
Jaraguá/GO (1925– 2002) Rio de Janeiro
-
Sonetos Elementares
-
XVI


Teresa apareceu como essas chuvas
que nascem com a aurora e o dia todo
em tristezas afogam nossas almas,
e retornei-me à velha e nova música.

Uma nova planície e azuis lembranças
pousando-me no ombro. As esperanças
que buscavam um ninho em mim o acharam.
No sangue fez-se em pássaro a serpente.

Mas quem sou eu? Nos céus da minha infância
novamente me banho, e ainda ontem
eram lagos boiando na memória.

O mesmo corpo, as mesmas mãos conservo,
mas, como o orvalho, brotam de manhãs,
colhem meu canto em leves paisagens.
================================
O Universo Poético de AUTA DE SOUZA
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN
Celeste
 

(a uma criança)

Eu fiz do Céu azul minha esperança
E dos astros dourados meu tesouro...
Imagina por que, doce criança,
Nas noites de luar meus sonhos douro!

Adivinha, se podes, quanto é mansa
A luz que bóia sob um cílio de ouro.
E como é lindo um laço azul na trança
Embalsamada de um cabelo louro!

Imagina por que peço, na morte,
— Um esquife todo azul que me transporte,
Longe da terra, longe dos escolhos...

Imagina por que... mas, lírio santo!
Não digas a ninguém que eu amo tanto
A cor de teu cabelo e dos teus olhos!
===============================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores
LUIZ OTÁVIO
(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP


Que sina, que padecer
foi a Sorte aos cegos dar:
— Não ter olhos para ver
e tê-los para chorar...
========================
O Universo Poético de VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)
Soneto de Despedida


Uma lua no céu apareceu
Cheia e branca; foi quando, emocionada
A mulher a meu lado estremeceu
E se entregou sem que eu dissesse nada.

Larguei-as pela jovem madrugada
Ambas cheias e brancas e sem véu
Perdida uma, a outra abandonada
Uma nua na terra, outra no céu.

Mas não partira delas; a mais louca
Apaixonou-me o pensamento; dei-o
Feliz — eu de amor pouco e vida pouca

Mas que tinha deixado em meu enleio
Um sorriso de carne em sua boca
Uma gota de leite no seu seio.
=============================
O Universo de J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ
Ilha de Coral...

   
Por momentos me deste a sensação
de terra firme.

Cansado da inquietação do mar,
do balanço das ondas, os horizontes inumeráveis,
eu me atirei a ti, como um náufrago,
e teu corpo não me soube apenas à praia providencial,
mas a um país de tranquilidade
há tanto tempo esperado...

Ilusão. Eras uma pequena ilha, de morna areia
e traiçoeiros corais,
onde todo me feri na ânsia de salvar-me
e que logo desapareceria sob a maré cheia,
para nunca mais…
==============================
Universo Trovadoresco de JOUBERT DE ARAUJO E SILVA
Cachoeiro do Itapemirim/ES (1915 – 1993) Rio de Janeiro/RJ

 

Se quiser proceder bem
quem briga alheia ajuiza,
dê razão a quem não tem,
pois quem já tem, não precisa!…
=================================
Universo das Sextilhas de A. A. DE ASSIS
(Antonio Augusto de Assis)
Maringá/PR


Que bom quando a gente amarra
num feriado um domingo…
Domingo que pede cama,
ou pede da pinga um pingo;
domingo que quase rima
com  pé de cachimbo… bingo!
====================================
O Universo Poético de LEILA MICCOLIS
Rio de Janeiro/RJ
Natureza Morta


Na prática que tenho de silêncios, vi-me
a recordar, estranha, o tempo que regressa,
e como no que sinto não há mal nem crime,
eis que eu assim que posso escrevo, o mais depressa,

e em corajosa voz, antes que eu desanime,
venho dizer-te a falta que me fazes nesta
paixão enorme que, se me comprime,
fascina, atiça e, a ti, entregue, se confessa.

No entanto imóvel paro, ao me lembrar de tudo:
do amor insatisfeito por teu gesto alheio
que trago do passado e ríspida desnudo.

E então maldigo os frutos que em meu corpo aninho;
os belos grãos de uva e espigas de centeio
que não comeste em pão e nem bebeste em vinho.
====================
O Universo de Versos de  ANIBAL BEÇA
(Anibal Augusto Ferro de Madureira Beça Neto)
Manaus/AM (1946 – 2009)
Czardas para Serrotes com Arcos de Violino e Berimbau de Lata


Esta anábase é de hora aberta desnudada
tão desmedida como foi a minha vida
de nada me arrependo apenas me perdôo
por que meu vôo nem sequer se iniciou

E dessas nuvens que me espaçam esgarçadas
trapos e cordas dissonantes dessa lira
são acidentes de percurso em que recorro
como um Zenão o parafuso desse vôo

Assim nessa colméia em ziper me percorro
como um zangão no zigue-zague nos hexágonos
ando à procura de uma abelha desvairada

que me acompanhe na aventura pelos pântanos
exorcizando a desrazão desses escorços
essa não-ave desgarrada do meu nada
==============================
Galáxia de Aldravias da CECY BARBOSA CAMPOS
(Juiz de Fora/MG)

 

desesperança
restos
de
vida
em
frangalhos
==================================
UniVersos Melodicos
Miguel Lima e Luiz Gonzaga
XAMEGO

(samba, 1939)
 

O xamego dá prazer, o xamego faz sofrer
O xamego as vezes dói, as vezes não
O xamego as vezes rói o coração
Todo mundo quer saber o que é o xamego
Ninguém sabe se ele é branco, se é mulato ou negro 2x

Quem não sabe o que é xamego pede pra vovó
Que já tem 70 anos e ainda quer xodó
E reclama noite e dia por viver tão só   2x

Ai que xodó, ai que xamego, ai que chorinho bom
Toca mais um bocadinho sem sair do tom
Meu cumpade chega aqui, ai que xamego bom
Ai que xamego bom, ai que xamego bom
================================
Constelação Haicaista de MÁRIO ZAMATARO
(Mário Augusto Jaceguay Zamataro)
Curitiba/PR


Vento e movimento:
nada está parado agora…
Uma folha dança.
=========================
O Universo das Poetisas Paranaenses
LÚCIA CONSTANTINO
(Curitiba)
Quando um Poeta Morre


Quando um poeta morre
o céu se cobre de sombras
e um raio tomba
a luz foge.

Quando um poeta morre
a seara dorme.
Alforria do dar.
Fica remido no tempo
o intento do pensamento.
Sonetos do ar.

Quando um poeta morre
o céu incorre em engano
porque deixa de abrir a boca
por muitos anos.
======================
O Universo Poético de PEDRO DU BOIS
Itapema/SC (1947)
Ser


O ser presente
aumenta o espectro
em cores secundárias

painéis feitos
no sangue coagulado
dos amantes

pactos sangrentos
iludem a mente
em cicatrizes

presente abjurado
no inimigo feito
parceiro na escalada

a traição é constante verdade
em gestos e olhares

combinações colorem
as faces na chegada
em que nos despedimos.
===============================
O Universo de Versos de RAIMUNDO CORREIA
(Raimundo da Mota Azevedo Correia)
Baía de Mogúncia/MA , 1859-1911
Chuva e Sol


Agrada à visita e à fantasia agrada
Ver-te, através do prisma de diamantes
Da chuva, assim ferida e atravessada
Do sol pelos venábulos radiantes...

Vais e molhas-te, embora os pés levantes:
— Par de pombos, que a ponta delicada
Dos bicos metem n'água e, doidejantes,
Bebem nos regos cheios das calçadas...

Vais, e, apesar do guarda-chuva aberto,
Borrifando-te, colmam-te as goteiras
De pérolas o manto mal coberto;

E estrelas mil cravejam-te, fagueiras,
Estrelas falsas, mas que, assim de perto,
Rutilam tanto, como as verdadeiras...
====================
O Universo Poético de RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG
Entrega


E o vento leva, o vento traz
O galho dança no momento
O verde em cores se desfaz
Flor arreda do pensamento.

É dia, o sol novamente vem
Vem a tarde, e a noite chega
E amores no meu galho têm
Eu gosto de neles ser pega.

Então me doo para o amanhã
E abro a mão para alcança-lo
Com cheiro e gosto de maçã.

Borboleta se perde no orvalho
E eu permaneço em meu dia
Sou flor de cheiro nesse galho.
========================
Universo Poético de MACHADO DE ASSIS
(Joaquim Maria Machado de Assis)
-Rio de Janeiro (1839 – 1908)
Naquele Eterno Azul, Onde Coema


NAQUELE ETERNO azul, onde Coema,
Onde Lindóia, sem temor dos anos,
Erguem os olhos plácidos e ufanos,
Também os ergue a límpida Iracema.

Elas foram, nas águas do poema,
Cantadas pela voz de americanos,
Mostrar às gentes de outros oceanos
Jóias do nosso rútilo diadema.

E, quando a magna voz inda afinavas
Foges-nos, como se a chamar sentiras
A voz da glória pura que esperavas.

O cantor do Uruguai e o dos Timbiras
Esperavam por ti, tu lhe faltavas
Para o concerto das eternas liras.
================================
Galáxia Poética de AMAURY NICOLINI
Rio de Janeiro/RJ (1941)
Sem Palavras


Dizem que o silêncio é precioso
e vale mais do que a palavra, até,
mas o silêncio triste e pesaroso
não merece de mim nenhuma fé.

É esse silêncio que agora escuto,
quando você se arruma pra sair,
e se veste de negro como em luto
para um amor que deixa de existir.

À nossa volta tudo está silente,
e nenhuma palavra se pressente
além do som de passos na calçada.

E tudo que eu queria nesta hora
é que você, em vez de ir embora,
ficasse do meu lado, bem calada.
============================
Galáxia Poética de CARLOS NEJAR
(Luís Carlos Verzoni Nejar)
Porto Alegre/RS (1939)
A Bicicleta


A bicicleta de sóis que pedalava
pela calçada de um futuro insano,
era um menino que outro carregava
na lua, bicicleta pelos ramos.

E aquela que no tempo levitava
e a outra, de Deus nos desenganos.
Bicicleta que aos corpos conjugava
e a desta alma, roída nos seus planos,

na fera imperfeição. De seu pedal
o mar e a preamar forma um só gomo
de azuis, velocidades, tombos, mitos.

E do seu aro estranho, nasce o sono.
Da roldana, a agonia, seu ritual.
Os pés na vida, os pés no próprio grito.
===================================
Universo Poético de LUIS VAZ DE CAMÕES
Portugal (1524 – 1580)
XIV

           
Todo animal da calma repousava,
Só Liso o ardor dela não sentia;
Que o repouso do fogo, em que ele ardia,
Consistia na Ninfa que buscava.

Os montes parecia que abalava
O triste som das mágoas que dizia:
Mas nada o duro peito comovia,
Que na vontade de outro posto estava.

Cansado já de andar pela espessura,
No tronco de uma faia, por lembrança
Escreve estas palavras de tristeza:

Nunca ponha ninguém sua esperança
Em peito feminil, que de natura
Somente em ser mudável tem firmeza.
=======================
Galáxia Poética de MANUEL BANDEIRA
(Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho)
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ
Paráfrase de Ronsard


Foi para vós que ontem colhi, senhora,
Este ramo de flores que ora envio.
Não no houvesse colhido e o vento e o fio
Tê-las-iam crestado antes da aurora.

Meditai nesse exemplo, que se agora
Não sei mais do que o vosso outro macio
Rosto nem boca de melhor feitio,
A tudo a idade altera sem demora.

Senhora, o tempo foge... e o tempo foge...
Com pouco morreremos e amanhã
Já não seremos o que somos hoje...

Por que é que o vosso coração hesita?
O tempo foge... A vida é breve e é vã...
Por isso, amai-me... enquanto sois bonita.
==============================
Universo Poético de WILLIAM SHAKESPEARE
Stratford-upon-Avon, Reino Unido (1564 – 1616)
Soneto 16


Mas, por que não lutas com mais destemor
Contra o Tempo tirano e sanguinário,
E te fortificas contra teu declínio
Com meios mais abençoados que minha frágil rima?

Estás agora no ápice das horas felizes,
E em meio aos jardins ainda em flor,
Com o desejo virtuoso carregas as vívidas flores,
Mais do que as tuas falsas pinturas.

Então, deveriam as linhas que a vida repara
Com isto, o lápis do Tempo ou a pena de meu discípulo,
Nem pelo valor intrínseco ou beleza visível

Podem fazer-te viver diante dos olhos do mundo.
Ceder faz com que permaneças,
E vivas inspirada pelos teus doces dons.
==============================
O Universo Poético de PAULO VINHEIRO
(Paulo Vieira Pinheiro)
Monteiro Lobato/SP
Triste


A hora passa, assim, despercebida, distraída
Os números sucedem... Uma chuva deles...
Cada segundo tem vários momentos
Alguns que se abraçam, outros nem tanto
E entre bençãos e malsãs intenções
A palavra, aquela que insiste em pulsar
Atrevidamente grita sussurrando, ai de mim

Por bem dizer... continuamos vivos
Mesmo que nossas existências discordem
A reflexão do momento, de cada um deles
Nos faz voar como as folhas voam ao vento
Por mais que saibamos, a razão atordoa
Por mais que lutemos, tudo parece à toa
E na linha catorze... termino por que é o fim
=================================
Galáxia Poética de JOSÉ A. JACOB
(José Antonio de Souza Jacob)
Juiz de Fora/MG
Figurinhas


Por onde eu ando levo a mágoa estranha
De uma culpa, uma dor que me desola:
É uma pequena voz que me acompanha
Que é de uma criança que me pede esmola.

Assim como um vinil que na vitrola
Engasga na canção que a agulha arranha,
Meu velho coração no peito embola
Na mesma frase que o incomoda e assanha.

Para me distrair, da minha rede,
Enquanto me descanso do verão
Rabisco caretinhas na parede...

Risonhas figurinhas de carvão
Agradecidas de não terem sede
Nem de precisarem pedir-me pão.
========================
A Constelação Poética de LILIAN MAIAL
Rio de Janeiro/RJ
Soneto  de  Primavera


Hoje me penso atrasada em florir
E na função primavera de cor,
Adubaria e regava esse amor,
Acelerando o botão a se abrir.

 Contaminados os caules – banir!
Isolamento sem danos à flor,
Que na frescura do vento cantor,
Expõe a pétala ao sol sem sentir.

Sábias raízes de vida invernada,
Clone mais livre a cada nova poda,
Regenera-me em seiva imaculada.

 De galhos abertos, como um abraço,
Espalhando na brisa gozo e pólen,
Sou mais florida nos versos que faço.
=====================
O Universo Poético de VICENTE DE CARVALHO
(Vicente Augusto de Carvalho)
Santos/SP 1866 – 1924
Inteiramente Louco


Senhora minha, pois que tão senhora
Sois, e tão pouco minha, eu bem entendo
Que sorrindo negais quanto, gemendo,
Amor com os olhos rasos d'água implora.

Meu coração, coitado, não ignora
Que num sonho bem vão todo o dispendo
E é sem destino que assim vai correndo
Cansadamente pela vida afora.

Dizeis do meu amor que é coisa absurda,
E ele, teimando, faz ouvido mouco;
Nem há razão que o desvaneça ou aturda.

Não o escutais? Nem ele a vós tampouco.
Que, se sois surda, inteiramente surda,
Amor é louco, inteiramente louco.
==========================
O Universo Poético do Príncipe dos Poetas de Piracicaba
LINO VITTI
Piracicaba/SP (1920)
Minha Escola


Eu não sou o poeta dos salões
de ondeante, basta e negra cabeleira.
Não me hás de ver, nos olhos, alusões
de vigílias, de dor e de canseiras.

Não trago o pensamento em convulsões,
de candentes imagens, a fogueira.
Não sou o gênio que talvez supões
e nem levo acadêmica bandeira.

Distribuo os meus versos quais moedas
que pouco a pouco na tua alma hospedas,
raras, como as esmolas de quem passa.

Vou porém me sentir feliz um dia
se acaso alguém vier render-me a graça
de o ter feito ricaço de poesia.
============
Poesia Além Fronteiras
OLIVER FRIGGIERI
Floriana/ Malta (1947)
Manhã para Ti


Manhã, vou e comigo levo
Um jarro de água para apagar tua sede.
Manhã, vou ao jardim e recolho
O mais bonito ramo de flores para ti.

Manhã, dou uma volta por minha parreira
E te corto todos os cachos.
Manhã, arranco o coração de meu peito
E te presenteio.  Manhã, eu me morro.

(Tradução:  José Feldman)

José Feldman (Chuva de Versos n. 55)


Uma Trova do Paraná
ALDO SILVA JÚNIOR

Sempre que ponho em versos
as coisas do coração,
os pensamentos dispersos
tomam forma de oração.

Uma Trova Humorística do Paraná
OSVALDO REIS

Mostra o sábio o que destaca
 do burro a paca, e sussurra:
 – é que o burro sempre empaca,
 e a paca jamais emburra…

Uma Trova Premiada em Nova Friburgo/RJ, 2007
ADILSON MAIA (RJ)

Nos momentos de incerteza,
a mensagem de afeição
pode estar na sutileza
de um simples toque de mão.

Uma Trova do Ceará
FERNANDO CÂNCIO ARAUJO

Este amor que me consome,
e esta saudade – entonteia! …
traço nas dunas teu nome
e beijo as letras na areia!…

Um Poema do Paraná
ORLANDO WOCZICOSKY
Prova Convincente


O trovador Vasco Taborda fez ao Orlando Woczikosky aquela pergunta clássica:
- Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?
O Orlando não titubeou e, disparou:
- Nenhum dos dois! Foi o galo!!!
Alguns dias depois entregou ao Vasco uma “prova” do que dissera, nesta “jóia”!


Gente sábia ou adivinha,
me responda bem ligeiro:
Quem foi que nasceu primeiro,
foi o ovo ou foi a galinha?

Deixa comigo que eu falo:
Pela experiência minha,
não foi ovo nem galinha,
Deus fez por primeiro o galo.

Ao ver o galo sem tanga
botando no mundo a goela,
tirou dele uma costela
fazendo dela uma franga.

Depois de uma conversinha
e de uma boa “cantada”
que o galo deu na coitada,
a franga virou galinha.

Assim o casal distinto
caiu na boca do povo:
Nascendo o primeiro ovo
e, do ovo, o primeiro pinto.

Esclareci, num repente,
essa polêmica antiga.
Quem não gostou que me diga
se há prova mais convincente!

Trovadores que Deixaram Saudades
ALOÍSIO ALVES DA COSTA (CE)

Chega a noite…aumenta o frio…
e esta revolta em meu peito,
se faz maior que o vazio,
que tu deixaste em meu leito!…

Um Haikai de São Paulo
AKIKO KOIKE

Em pleno outono –
Flor de maio em penca
Enfeita a sacada. 


Um Epigrama de Serro/MG
JOÃO SALOMÉ QUEIROGA
1810 – 1878


Pagam médicos na China
Só quando eles curam lá.
Sofrerão fome canina
Se tal moda pegar cá.
 

Um Poema do Rio de Janeiro
HERMOCLYDES S. FRANCO
No Silêncio da Noite


No fim do dia, quando a noite vem,
Meu quarto triste, já sem claridade,
Depois da tarde em que partiu meu bem,
Nada mais guarda senão a saudade...

Nesta tristeza em que me abato, agora,
Marcando o fim dos dias de ventura,
Meu peito sofre e o coração deplora
A falta dos momentos de ternura.

A noite chega, enfim, e uma oração
Faço, contrito, a Deus Onipotente,
Para acalmar meu ser, em solidão,
E dar-me a luz e a paz, em tom silente!...

Bem nesse instante de silêncio e calma
Vejo, no céu, estrelas luminosas
Que parecem dizer para a minha alma:
"Enquanto a noite dorme, nascem rosas"!...

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Varal da Saudade em Trovas IX


Alfredo Mendes (Caderno de Poemas) I

A LIBERDADE 

Que se eliminem todas as grilhetas.
Que sejam retiradas as mordaças
Que seja o mundo livre de arruaças,
dos ditadores tipo, proxenetas.

Que se ouçam de novo as trombetas,
Anunciando ao povo novas graças.
Já bastam tantos ódios e desgraças,
Retirem as promessas das gavetas.
  
As promessas de paz anunciadas
E por conveniência propaladas.
Se querem dividendos receber.

Ao teatro da guerra digam não!
A Terra é um planeta em convulsão...
Não ponham tantos povos a sofrer!

AMAR O PRÓXIMO

Amar sem condição, amar somente!
Abrir o coração ao semelhante.
Fazer do nosso amor, uma constante,
E nas horas amargas, ‘star presente!

Amar sem condição, devotamente.
Amar só por amar, ser tolerante.
Com o próximo, não ser arrogante,
P’ra com seus impropérios, indulgente!

Tratemos toda a gente tal e qual.
Com a mesma ternura, e modo igual,
Como gostamos nós de ser tratados!

Se estendermos a todos nossas mãos!
E fizermos vivência como irmãos!
Por certo nós seremos mais amados!

A MINHA GUITARRA
(Sextilhas)

Dedilhei a guitarra em tom dolente.
Foi saindo um acorde confrangente,
Como um soluço preso na garganta!
O seu tanger é fado, mal fadado…
É fífia em coração atraiçoado,
Ciúme que no peito se agiganta!

A adaga que lançaste me acertou.
Teu beijo de mentira envenenou,
O ar que recebi da tua boca!
Que triste fado foi o nosso amor,
Uma letra sem rima, sem primor,
Cantada por fadista de voz rouca!

O ventre da guitarra soluçou.
A melodia, em ais se transformou…
Emitindo o tinir de alguém gemendo.
É a minha guitarra se finando…
As suas cordas frouxas se soltando,
Enquanto nossos fados vão morrendo!

 CALENDÁRIO

Arranquei uma folha ao calendário.
Foram mais trinta dias que passaram.
Tentei imaginar quantos ficaram,
privados deste gesto tão primário!

E a quantos foi mostrado o itinerário,
que as leis do passamento decretaram!
E o sono mais que eterno iniciaram...
Com suas mãos envoltas num rosário!
  
E tento equacionar o tempo ido.
Analisar o tempo decorrido...
E quantas folhas posso ‘inda mudar!

Fito o meu calendário e o seu mês!
E penso que chegada a minha vez...
A folhinha não mais vou arrancar!

CONTRADIÇÃO
 

Tenho meu coração amordaçado,
as asas lhe cortei p’ra não voar.
Não vá fugir de mim e te contar,
quanto anseio que estejas a meu lado!

Quero que faças parte do passado.
Não quero mais de ti me recordar.
Quero rasgar lembranças, apagar...
O sabor do teu beijo apaixonado!

A luz do teu olhar quero esquecer.
Teus lábios de carmim, não quero ver,
desejando o calor dos lábios meus!

Eu não quero teu corpo desejar...
Mas quanto mais eu quero me afastar,
mais desejo cair nos braços teus!

CORTAR O PASSADO

Rasguei as lembranças do tempo passado.
Os sonhos guardados, desfiz em pedaços.
Da caixa com fotos atada com laços,
Eu fiz um braseiro; foi tudo queimado!

Tristeza, amargura, tirei do meu lado.
Mandei-as embora para outros espaços.
Fugi da mentira, dos falsos abraços…
Que às vezes sentia, ao ser abraçado!

Do zero farei, outra forma de vida.
Será mais concreta, serena, sentida,
Apenas cercado p’los grandes amigos.

Amigos que sabem, o que é amizade.
Que no peito ostentam a fraternidade,
Que é arma letal para os seus inimigos!

DIA DA MULHER

Hoje se cantam odes à mulher.
Dizem ser o seu dia especial.
Hoje a mulher é símbolo nacional,
é superior a tudo e a qualquer!
  
Chegado o amanhã não é sequer,
lembrado o seu carinho maternal!
Tudo volta à rotina natural...
Outro ano virá, se Deus quiser!

Sendo por este, ou por aquele motivo.
Se foi criando um dia mais festivo,
ao sabor do que mais se lhe aprouver...
  
Os homens podem dias inventar...
Mas por mais voltas que lhes possam dar...
Sempre os dias serão: de ti, mulher!

ERRANTE

Caminhei pela noite sem destino.
Errando como um pobre peregrino
Que busca avidamente a fé de Deus.
A luz que iluminava meu caminho.
‘scondia tanto cravo, tanto espinho...
que foi rasgando a carne aos braços meus!

Indiferente à dor, ao sofrimento.
Ao frio gelado, à chuva, ao forte vento
Que me sulcava a face cruelmente.
Segui o meu caminho sem traçado,
Ao acaso, sem ter rumo acertado...
Seguia por seguir, seguia em frente!

Sentia-me empurrado por alguém...
Seria alguma força do além
Dando impulso à inércia dos meus passos?
Que forças me empurravam desse jeito?
Apertei minhas mãos juntas ao peito,
E tive a sensação de mil abraços!

Mil abraços de amor e de ternura,
Que eram bálsamo p’ra tanta tortura,
Que germinava dentro do meu ser!
Era farol intenso a me indicar
O caminho melhor p’ra te encontrar,
Que eu sabendo, fingia não saber!

Cheguei por fim a Ti, meu Bom Jesus!
À minha escuridão Tu deste luz,
E foste iluminando os passos meus.
A paz reencontrei no teu caminho.
Já não ando perdido, tão sozinho...
Obrigado por tudo Meu Bom Deus!

(2º Prémio Literário - Paul Harris 2001)

FANTASIA

Queria ser o Sol que te bronzeia.
O gel que no teu corpo vais usar.
O colar que teu colo vai beijar...
E ser para o teu mal, a panaceia!

Ser a seda que fez a tua meia.
O perfume que tens p’ra te aromar.
O lencinho que tens para limpar,
A lágrima teimosa que te enleia!

O lençol que te aquece em noite fria.
Do sonho, ser a tua fantasia.
De corpos se fundindo ternamente.

Ser o copo que toca em tua boca.
E ser o tal, da tua noite louca...
E te ficar beijando loucamente!

Alfredo Mendes (1933)

Alfredo dos Santos Mendes nasceu na cidade de Lisboa/Portugal, em 1933. Desde cedo, e talvez devido a seus hábitos de leitura, onde predominava a poesia, treinou a composição das suas primeiras quadras, com as quais enfeitava os vasos de manjericos, que tradicionalmente, e quase como que por obrigação, tinha de estar presente no meio da minúscula folhagem verde, do célebre manjerico. O tema das quadras era e continua a ser, o namorico e as fogueiras. Essa tradição ainda hoje se mantém, por ocasião das festas dos Santos Populares. Santo António, São Pedro e São João.

Teve uma infância muito ligada à leitura. Começou a ler toda a coleção de Júlio Dinis. O seu modo de escrever, inserindo nos diálogos o modo de falar de cada região, fascinou-o. Recorda também, que era raro Júlio Dinis não incluir nos seus livros, um pouco de poesia. Júlio Dinis, serviu de trampolim para outros voos. Camilo Castelo Branco, ensinou-o a gostar ainda mais da leitura. Na poesia, o seu soneto (AMIGOS), marcou-o de tal modo, que até hoje hoje não esqueceu. Fernando Pessoa, Florbela Espanca, assim como o poeta popular António Aleixo, foram os grandes responsáveis pela iniciação em poemas.

O primeiro soneto, foi escrito em 1952, dedicado à irmã, no dia do seu casamento.

Em 1995, fixou-se na cidade de Lagos Algarve.

Em 1998, começou a colaborar com alguns jornais locais, que regularmente editavam os seu poemas, e posteriormente começou a concorrer a Jogos Florais.

Em 1999, conseguiu três menções honrosas.

Em janeiro de 2012, possui: 6 Primeiras colocações. 4 Segundas colocações. 1 Menção Especial. 28 Menções Honrosas, nas modalidades: Soneto, Glosa, Poesia Lírica, e Quadra.

Nunca editou nenhum livro.

Rachel de Queiroz (Tragédia no mar)

Parece título de filme B - mas anda mesmo morrendo muita gente. São os recentes conflitos no Balcãs, são os judeus e palestinos se matando uns aos outros, são as bombas dos terroristas bascos, ou irlandeses, ou muçulmanos, e agora essa tragédia com a plataforma de petróleo, na bacia de Campos.

As pessoas se chocam com as perdas de vida, em massa; paira nos ares da mídia um clima de catástrofe - clima, aliás, criado pela própria mídia, que consegue cada vez mais eliminar distâncias, transmitindo as cenas de terremoto ao vivo, enquanto ele ocorre; ou pegando a queda livre dos pedaços do avião em chamas.

Antigamente valia aquela observação do Eça de Queiroz, segundo a qual a nossa reação de horror e pena diante de um desastre está na razão direta da nossa proximidade. E assim a gente se impressiona muito mais com a perna quebrada da vizinha do que com a morte de milheiros de pessoas na China. Mas foi-se esse tempo. Agora a gente vê ao vivo e em cores a cara das criancinhas sendo desenterradas dos escombros, e escuta os gemidos dos que ainda estão sob o entulho. Aquela espécie de privacidade que nos era facultada pelo fato de estarmos longe acabou. Hoje ninguém está longe. É uma das características da atual psicologia. De massa, e a reação dessa dita massa ante a notícia das mortes ocorridas uma a uma. Quero dizer; numa grande cidade como o Rio morre diariamente uma meia centena dos seus milhões de habitantes - como seria fácil de verificar nos obituários dos jornais, se eles dessem realmente a conta exata dos que morrem dentro da área urbana. (Parece que a publicação se faz por amostragem, já que não confere nunca sequer com os convites para enterro publicados na mesma página, ou com o número dos presuntos desovados por aí além, em praias e matagais.)

De qualquer forma, como todos, sem exceção, estamos à espera da morte, em qualquer esquina e em qualquer momento, deveríamos receber com naturalidade a notícia de que morreram alguns tantos de nós num acidente. Não é esse o destino de toda carne? Mas não. A gente se assombra, se apavora, se revolta. Como se Deus estivesse extrapolando dos seus privilégios, tirando-nos a vida de forma injusta e exagerada. Vá lá que venha a morte, mas que ela vá pinçando de uma em uma as suas vítimas, no meio da multidão. Pois até os massacres de presos dentro dos presídios chocaram muito, contrastando mesmo com a crença pouco cristã da maioria da população de que “bandido tem mesmo é que morrer”. Pois até morte de bandido, vindo em massa, assusta. O nosso acordo com Deus Nosso Senhor é que Ele nos mate de modo salteado, disfarçando. Filosofias à parte, foi horrível mesmo esse caso da plataforma da Petrobrás - a P-36. Primeiro, a grande dor pelos que se foram de repente, no acidente inesperado. Depois, a morte afogada, que só tem pior a do fogo. Afogados naquelas águas profundas e traiçoeiras.

Mas parece que a dor pior é a dos que sobreviveram. Deixando os seus no fundo do mar. Aquele sentimento de culpa: “eles foram e eu fiquei. Por que:” Ai, a vida é assim - ou antes, a morte é assim. Além da dor da perda, o misterioso sentimento de culpa - por que eles e não eu? Verdade que há também, em muitos casos, um sentimento oposto ( que ocorre especialmente entre os mais velhos): “Eles se vão, mas eu - eu estou ficando!” Espécie de triunfo do sobrevivente.

Fonte:
Correio Brasiliense. Brasília/DF, 09 de abril de 2001

4º Concurso de Poesias "Professor Aparecido Roberto Tonellotti" (Prazo: 31 de Março)

REGULAMENTO

1. Dos Objetivos

A Ôxe! Produtora Comunitária institui o IV Concurso de Poesias “Professor Aparecido Roberto Tonellotti” com o objetivo de incentivar e divulgar novos talentos na arte da poesia, bem como mapear a produção poética em Francisco Morato e Região.

2. Das Participações

Poderão concorrer autores brasileiros natos ou naturalizados, com obras obrigatoriamente inéditas (sem publicação), com temáticas e gênero livres, escritas em Língua Portuguesa, sob pseudônimo, desde que observem as particularidades de cada categoria. Fica vetada a participação de membros das Comissões Organizadora e Julgadora.

3. Das Categorias

Infantil (até 12 anos de idade);
Juvenil (de 13 a 18 anos de idade);
Adulta (a partir de 19 anos).

4. Das Inscrições e Apresentação das Obras

As inscrições encontram-se abertas no período de 01 de Fevereiro a 31 de Março de 2014 (valendo a data da postagem ou entrega).

Poderá ser inscrito apenas 01 (um) poema por autor.

A obra deverá ser apresentada em 05 vias, digitadas ou datilografadas em uma só face do papel A4.

As cinco vias da obra deverão ser inseridas em envelope grande,  acompanhadas da ficha de inscrição, informando externamente o nome do concurso, a categoria pretendida e o pseudônimo do autor.

A ficha de inscrição serão disponibilizados no sítio: www.blogduoxe.blogspot.com.

Endereçar para:

IV CONCURSO DE POESIAS
“PROFESSOR APARECIDO ROBERTO TONELLOTTI/2013” –
Ôxe Produtora Comunitária –
Av. São Paulo nº 965 – Vila Suíça –
Francisco Morato – SP –
CEP 07904-000.


Também poderá ser entregue no endereço acima, até a data limite das inscrições.

5. Do julgamento e da Premiação:

Os trabalhos serão apreciados por uma Comissão Julgadora composta por três profissionais ligados à Língua Portuguesa e Literatura, e esta, terá plena autonomia de julgamento, não cabendo recurso às suas decisões.

Será oferecida uma premiação com troféus e certificados de participação aos 3 (três) primeiros colocados de cada categoria.

As escolas que tiverem algum aluno entre os classificados também receberão certificados de participação.

6. Das Comissões e Disposições Gerais

A Comissão Julgadora poderá conceder Menção Honrosa para um ou mais trabalhos, se assim julgar necessário, que receberão certificados.

Todos os participantes que desejarem, poderão solicitar via e-mail seu certificado digital de participação no concurso. Fica também a critério da Comissão Julgadora uma seleção de trabalhos que, juntamente dos premiados, serão publicados no Informativo Ôxe!.

As premiações acontecerão no Sarau ConPoeMa, que integrará a programação do Oxandolá [In] Festa 2014, no mês de Maio deste ano (em local, data e horário a serem posteriormente divulgados).

Os resultados serão divulgados através do sítio: www.blogduoxe.blogspot.com, bem como, através do Informativo Ôxe! em sua publicação impressa.

Os trabalhos vencedores poderão ser declamados ou encenados, no todo ou em parte, na noite de premiação, por artista ou grupo teatral previamente contratado pela Ôxe! Produtora Comunitária.

Os trabalhos inscritos não serão devolvidos, sendo incinerados 30 dias após a data da divulgação dos resultados.

A inscrição implica automaticamente a aceitação das condições desse regulamento, bem como a autorização para a publicação das obras inscritas em quaisquer mídias que a comissão organizadora julgar conveniente, portanto o autor assume total responsabilidade pela autoria, podendo responder por plágio, cópia indevida e demais crimes previstos em lei.

O não cumprimento de qualquer item do regulamento implicará na desclassificação automática da obra inscrita.

Os casos omissos serão resolvidos pela Comissão Organizadora. .::

José Feldman (Chuva de Versos n. 54)


Uma Trova do Paraná
LOURDES STROZZI
 

O pranto na mocidade,
qualquer brisa põe em fuga;
E o que restar de umidade,
o toque de um beijo enxuga.

Uma Trova Humorística do Pernambuco
MARIO BARRETO FRANÇA

Case e estará sossegado
(ao solteiro alguém falou).
Assim fez ele (coitado)
e nunca mais sossegou!…

Uma Trova Premiada em Cantagalo/RJ, 2012
ÉLBEA PRISCILA DE SOUZA (SP)

A maquiagem pesada,
diante do espelho, desfaço
e em minha cara lavada
rugas brigam por espaço…

Uma Trova do Ceará
SINÉSIO CABRAL
 

Quatro versos: eis a prova,
sim, num texto independente,
da grandeza de uma trova.
Sete sílabas somente.

Um Poema do Rio de Janeiro
CECÍLIA MEIRELES
O Menino Azul

 

O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
— de tudo o que aparecer.

O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.

(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)

Trovadores que Deixaram Saudades
ERNESTO TAVARES DE SOUZA (SP)

Janela, a bem da verdade,
teu ranger, esse chiado,
são gemidos de saudade
na voz rouca do passado.

Um Haikai do Rio de Janeiro
BENEDITA AZEVEDO

Nas águas do lago
Uma sombra em movimento –
Voo da libélula.


Um Epigrama de São Paulo/SP 

MARTIM FRANCISCO III
(Martim Francisco de Ribeiro Andrada)
1853 – 1927


Ó caso feio! O caso extraordinário!
Caso que me entrou fundo na lembrança!
Tem o vigário a cara da criança,
Tem a criança a cara do vigário!

(Improvisado, por ocasião de um Batizado em Limeira, em 1876)
 


Um Soneto de Portugal
GLÓRIA MARREIROS
O Meu Relicário


No meu relicário há rosas sem fim,
já murchas, caídas, no tempo que passa,
perderam seu âmbar, vestígios de graça,
lembrando os pedaços que noivam meu fim.

E nesses sudários, meu rosto carmim,
carmim?... Mas na hora em que o riso esvoaça
em castos poemas, escritos com raça,
na chuva a bailar em redor do meu sim.

Mas eu já não sei dos fracassos da vida...
Torturas de outrora, deixando vencida
a caixa das contas que tem meu rosário.

Perdi a esperança no espaço da lei,
onde há rosas secas e beijos que dei
sem troca, a murcharem no meu relicário.

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to