Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Florisbela Margonar Durante (1947)


Florisbela Margonar Durante nasceu em Itajobi/SP, em 1947. Filha de José Margonar e Florinda Cherutti Margonar, casada com Francisco Durante. Professora de Língua Portuguesa, Inglesa e respectivas Literaturas, graduada pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Paranavaí/PR. Especializou-se em Língua Portuguesa pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Jandaia do Sul/PR. Possui cursos de  aperfeiçoamento em nível de especialização pela Universidade Estadual de Maringá, além de dezenas de cursos de atualização. Exerceu sua profissão em Paraíso do Norte, Umuarama, Maringá e Rio das Pedras/SP.
Em Maringá fundou o grupo teatral "Só risos", montou coreografia para a apresentação de danças e peças teatrais no Cine Plaza e Teatro Barracão através do Colégio Est. João de Faria Pioli, onde atua.
            Classificou-se em segundo lugar num concurso de livros de poesias promovido pela Sociedade de Cultura Latina do Paraná e sétimo lugar no Concurso Nacional de Trovas. Seu projeto "Vale Saber" sobre produção de textos ficou entre os cinco melhores de Maringá.
Membro de União dos Escritores de Maringá, sócia fundadora da Academia de Letras de Maringá (ALM), onde ocupa a cadeira 38, tendo como patrono Tomás Antônio Gonzaga. Tem obras publicadas na Coletânea de Poetas de Maringá, Coletânea da Academia de Letras de Maringá e Maringá – Um olhar feminino em cores e versos. Autora do livro de poesias Photo – grafando o amor..

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Trovador Homenageado: Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho





Ao dar tudo o que ela quer,
a evitar que o amor se perca,
o corno cerca a mulher
mas a mulher pula a cerca.
___________
Após a noite que embaça
a janela do viver,
ressurge a luz na vidraça
com um novo amanhecer.
___________
Aprenda bem a lição, 
desde bem cedo, menino,
pois na vida a Educação
é base do seu destino.
___________
Canta o galo de matina
na Cantagalo florida,
saudando o sol que ilumina
duzentos anos de vida.
___________
Capiau faz dentadura
sem ter o dente frontal,
pois deste modo assegura
um sorriso natural.
___________
Com saudade do gramado,
da função desempenhada,
o gandula aposentado
corre atrás de uma pelada.
___________
 Dia das Mães! Não se esqueça
dos presentes de ninguém:
por incrível que pareça,
sua sogra é mãe também!
___________
Enquanto a gente descansa
na metade de um caminho,
um outro qualquer alcança
a outra metade sozinho.
___________
Ensinando ao aprendiz,
nosso professor Raimundo,
no quadro negro e com giz
sonhava mudar o mundo.
___________
Galopando sem receio
um indomável equino,
vou pela vida em rodeio
no cavalo do destino.
___________
Há uma lição que sem cola
pelo estudante é sabida:
– na vida a melhor escola
é a grande escola da vida.
___________
Luminar Academia,
plena de vitalidade,
a tua luz irradia,
a cultura na cidade.
___________
Manassés compositor,
com suas belas canções,
canta a vida, canta o amor,
despertando as emoções.
___________
Mostra a vida, mostra a história,
que a prática da coerência,
determina a trajetória
de uma correta existência.
___________
Natal! Campos do Jordão,
cidade em que o amor reluz,
faz de cada coração
o berçário de Jesus.
___________
O amanhecer se vislumbra
quando o sol em sua ida,
se elevando da penumbra
irradia a luz da vida.
___________
O autêntico jornalista,
expressa nos seus relatos,
correto ponto de vista
da realidade dos fatos.
___________
O garoto se insinua
perante a namoradinha:
– Minha sombra com a sua
será que fazem sombrinha?
___________

O jogador e a torcida
têm que ser disciplinados,
pois toda copa é vencida
dentro e fora dos gramados!
___________
O migrante em sua andança
parte do amado rincão.
Leva consigo a esperança
mas deixa o seu coração.
___________
O vovô vai à balada
e sem muito lero-lero,
na pista dança lambada
em compasso de bolero.
___________
Parece o craque Coalhada
com o galã falastrão:
- não aguenta uma pelada
mas diz que joga um bolão.
___________
Peão ardiloso paca,
do seu intento dá cabo:
- usa o cheirinho da vaca
para amansar touro brabo.
___________
Pela sua grande crença,
salvou-se, na Arca, Noé:
- não há dilúvio que vença
um homem cheio de fé!
___________

Proteja Deus o migrante
que com seu labor fecundo
faz de uma terra distante
a melhor terra do mundo.
___________
Quando a vejo na calçada,
de passagem pela rua,
minha sombra inconformada
ainda vai atrás da sua.
___________
Quando me sinto estressado,
fugindo da realidade,
vou do presente ao passado
pelo túnel da saudade.
___________
Quando toca Manassés
as canções de tempos idos,
tem o público aos seus pés
para os aplausos devidos.
___________
Se alastrando lentamente
qual um glaucoma, o rancor,
impede os olhos da gente
de enxergar a luz do amor.
___________
Seja de que modo for
e sem qualquer preconceito,
na casa onde mora o amor,
mora também o respeito.
___________
Teu corpo ardente, formosa,
caminho da perdição,
é uma rua perigosa
que eu subi na contramão.
___________
Toda natureza atesta
que esta vida é uma pintura,
onde Deus se manifesta
sem a Sua assinatura.
___________

Aparício Fernandes (Classificação da Trova) Trovas Populares Anônimas



        
Encerrando esta análise, temos, finalmente, as trovas populares anônimas. Sobre elas, assim se expressou J. G. , 6, de Araújo Jorge, no prefácio do livro "100 Trovas Populares Anônimas", (Editora Vecchi, 1962, Rio de Janeiro):
         "Trovas populares anônimas não são apenas trovas "eruditas" dos grandes poetas, as trovas literárias, que um dia se perdem no rio da grande popularidade, afogando seus autores, são também as trovas rústicas e imperfeitas que nascem da alma do povo, na boca dos cantadores, dos violeiros, dos sanfoneiros, dos poetas populares anônimos que enxameiam no interior do Brasil e de Portugal. Verdadeiros filões de ouro de nossa sensibilidade e de nosso espírito".
         Na síntese clara e expressiva de algumas poucas palavras, J. G. nos oferece uma esplêndida definição sobre a trova popular anônima. Quem não sente a alma do nosso povo, tão sentimentalmente romântico, nesta trova popular anônima, autêntica e deliciosa cantiga, uma das mais lindas que conhecemos?:

Vou-me embora, vou-me embora
segunda-feira que vem.
Quem não me conhece, chora,
que dirá quem me quer bem!

         Ao que tudo indica, esta trova deve ter surgido no Nordeste, uma vez que a expressão “que dirá”, significando quanto mais, é tipicamente nordestina. Quando éramos garoto e nadávamos no rio de nossa cidadezinha, ouvíamos diariamente as bravatas dos pequenos nadadores, em desafios mútuos: "Você, que é medroso, atravessou o rio, que dirá eu!"
         Outra deliciosa quadrinha popular é esta:

Todo homem é um diabo,
não há mulher que o negue.
Mas todas elas procuram
um diabo que as carregue!...

         Talvez em represália, apareceu esta quadrinha popular, muito ao sabor das mocinhas, que, mal começam a namorar, já sentem prazer em alfinetar os seus futuros maridos:

Deus, quando fêz o homem,
não precisou cerimônia:
– deu-lhe o corpo de um boneco
e a cara de um sem-vergonha.

         Muito embora "cerimônia" não rime com "sem-vergonha", a quadrinha é deliciosa; todavia, por êsse defeito de rima, não a consideramos Trova, na moderna acepção do termo. Sem dúvida poderia caber-lhe o título de trova, mas apenas no sentido mais amplo e vago da palavra, ou seja, de composição poética ligeira, despretensiosa, cantiga popular, etc.
         Concluindo, aqui ficam mais alguns exemplos de trovas populares anônimas:

O meu pai é Juca Caco;
minha mãe, Caca Maria;
ajuntando os cacos todos,
sou filho da cacaria.
___________
Ó beija-flor de asa branca,
que mora na pedra ôca,
toda menina bonita
merece um beijo na bôca!
___________
Não seja tão imprudente,
olhe bem por onde vai.
Sua mãe morreu sem dente,
de tanto morder seu pai.
___________
Dizem que o pito alivia
as mágoas do coração;
eu pito, pito e repito,
e as mágoas nunca se vão.

         Algumas vezes acontece que a trova, além de ser popular anônima, vem em linguagem chula ou caipira:

Bezerro de vaca preta
onça pintada não come.
Quem casa com muié feia
não tem mêdo de outro home.
___________
continua… Trovas mistas e trovas bipartidas

Fonte: Aparício Fernandes. A Trova no Brasil: história & antologia. Rio de Janeiro/GB: Artenova, 1972

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Aparício Fernandes (Classificação da Trova) Quanto à Origem



Vamos agora ao último aspecto da classificação de trovas: o da origem. Sob este ângulo, podemos situar a trova em três categorias: literária, popularizada e popular anônima.
        A trova literária é aquela de autor identificado, isto é, cuja autoria não padece dúvida, pelo menos para aqueles que se interessam de alguma forma pelo Movimento Trovadoresco ou pela literatura brasileira. É quase sempre assinada por trovadores atuantes e/ou de certo renome. Devido a isto, alguns a chamam também de erudita; preferimos, porém, a outra designação, por julga-la mais apropriada, embora talvez não seja ainda a ideal. Eis alguns exemplos de trovas literárias:

  _____________
Há tantos burros mandando  
em homens de inteligência,   
que às vezes fico pensando    
que a burrice é uma ciência...
SYMACO DA COSTA
 _____________       
Tanto se canta e enaltece,
do seu mal tanto se diz,
que saudade até parece
um modo de ser feliz.
ZÁLKIND PIATIGORSKY
  _____________
Quanta alegria semeia
quem vive sempre contente:
– A felicidade alheia
também faz feliz a gente.
OCTÁVIO BABO FILHO
  _____________
Que o verde é a cor da esperança  
vê-se logo que é mentira,
quando o nosso olhar alcança       
o céu azul de safira.       
MERCÊS MARIA MOREIRA LOPES       
  _____________
Ame a vida, cante e ria,
da mágoa não seja réu,
que a verdadeira alegria
tem o endereço do céu!
PEDRO GUEDES
  _____________
        Podendo-se apontar os autores dessas trovas, que são indubitavelmente aqueles cujos nomes figuram sob as mesmas, e sendo essa autoria de domínio público, comprovada através da publicação em livros, jornais e revistas, além da divulgação em programas radiofônícos, podemos seguramente classificar essas trovas como sendo literárias.
        Passemos agora às trovas poupularizadas. São aquelas que, caindo no gosto popular, são decoradas e repetidas pelo povo, incorporando-se praticamente ao folclore. O autor, como acontece sempre nestes casos, vai aos poucos ficando esquecido, pois o povo quer saber mesmo é da quadrinha, sem se preocupar em associar à mesma o nome de quem a compôs. A glória do anonimato é a paradoxal consagração do trovador. Os autores das trovas popularizadas são geralmente identificados pelos estudiosos mais atentos do trovismo. Todavia, mesmo entre os trovadores, são frequentes as controvérsias quanto à autoria de determinadas trovas popularizadas. Eis dois exemplos de trovas popularizadas:

Até nas flores se encontra      
a diferença da sorte:       
– umas enfeitam a vida, 
outras enfeitam a morte.
 _____________
Parece troça, parece,
mas é verdade patente:
– a gente nunca se esquece
de quem se esquece da gente.
  _____________
        A primeira destas quadrinhas é de autoria do cigano brasileiro Jerônimo Guimarães, que viveu no século XIX, e a segunda é do poeta pernambucano Jáder de Andrade. Milhões de brasileiros conhecem de cor estas duas trovas, mas, desses, quantos saberão os nomes dos autores? Em se tratando de trovas popularizadas, devemos ainda dizer que às vezes o       povo resolve    modificá-las, por conta própria, trocando palavras ou adulterando um ou mais versos; quando essas modificações são bem feitas e não atentam contra a metrificação, pode até mesmo acontecer que, com o passar do tempo, já não se tenha mais certeza de como era a trova originalmente.
        Na trova de Jáder de Andrade, por exemplo, o verso inicial, "Parece troça, parece", já tem sido modificado para “Parece incrível, parece", ou ainda "É incrível e não parece", enquanto que o resto da trova permanece o mesmo. Poderíamos citar ainda, como exemplo de trova popularizada, a conhecidíssima quadrinha de Bastos Tigre:


Saudade, palavra doce
que traduz tanto amargor!
Saudade é como se fôsse
espinho cheirando à flor.

continua… Trovas populares anônimas

Fonte: Aparício Fernandes. A Trova no Brasil: história & antologia. Rio de Janeiro/GB: Artenova, 1972

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Adélia Prado (1935)


Adélia Luzia Prado Freitas nasceu em Divinópolis, Minas Gerais, no dia 13 de dezembro de 1935, filha do ferroviário João do Prado Filho e de Ana Clotilde Corrêa. Leva uma vidinha pacata naquela cidade do interior: inicia seus estudos no Grupo Escolar Padre Matias Lobato e mora na rua Ceará. No ano de 1950 falece sua mãe. Tal acontecimento faz com que a autora escreva seus primeiros versos. Nessa época conclui o curso ginasial no Ginásio Nossa Senhora do Sagrado Coração, naquela cidade. No ano seguinte inicia o curso de Magistério na Escola Normal Mário Casassanta, que conclui em 1953. Começa a lecionar no Ginásio Estadual Luiz de Mello Viana Sobrinho em 1955.
Em 1958 casa-se, em Divinópolis, com José Assunção de Freitas, funcionário do Banco do Brasil S.A. Dessa união nasceriam cinco filhos: Eugênio (em 1959), Rubem (1961), Sarah (1962), Jordano (1963) e Ana Beatriz (1966). Antes do nascimento da última filha, a escritora e o marido iniciam o curso de Filosofia  da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis.

Em 1972 morre seu pai e, em 1973, forma-se em Filosofia. Nessa ocasião envia carta e originais de seus novos poemas ao poeta e crítico literário Affonso Romano de Sant’Anna, que os submete à apreciação de Carlos Drummond de Andrade.
“Moça feita, li Drummond a primeira vez em prosa. Muitos anos mais tarde, Guimarães Rosa, Clarisse. Esta é a minha turma, pensei.  Gostam do que eu gosto. Minha felicidade foi imensa.Continuava a escrever, mas enfadara-me do meu próprio tom, haurido de fontes que não a minha. Até que um dia, propriamente após a morte do meu pai, começo a escrever torrencialmente e percebo uma fala minha, diversa da dos autores que amava. É isto, é a minha fala.”
Em 1975, Drummond sugere a Pedro Paulo de Sena Madureira, da Editora Imago, que publique o livro de Adélia, cujos poemas lhe pareciam “fenomenais”. O poeta envia os originais ao editor daquele que viria a ser Bagagem. No dia 09 de outubro, Drummond publica uma crônica no Jornal do Brasil chamando a atenção para o trabalho ainda inédito da escritora.
“Bagagem, meu primeiro livro, foi feito num entusiasmo de fundação e descoberta nesta felicidade. Emoções para mim inseparáveis da criação, ainda que nascidas, muitas vezes, do sofrimento. Descobri ainda que a experiência poética é sempre religiosa, quer nasça do impacto da leitura de um texto sagrado, de um olhar amoroso sobre você, ou de observar formigas trabalhando.”
O livro é lançado no Rio, em 1976, com a presença de Antônio Houaiss, Raquel Jardim, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Juscelino Kubitscheck, Affonso Romano de Sant’Anna, Nélida Piñon e Alphonsus de Guimaraens Filho, entre outros.
O ano de 1978 marca o lançamento de O coração disparado que é agraciado com o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro.
Estréia em prosa no ano seguinte, com Soltem os cachorros. Com o sucesso de sua carreira de escritora vê-se obrigada a abandonar o magistério, após 24 anos de trabalho. Nesse período ensinou no Instituto Nossa Senhora do Sagrado Coração, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis, Fundação Geraldo Corrêa — Hospital São João de Deus, Escola Estadual são Vicente e Escola Estadual Matias Cyprien, lecionando Educação Religiosa, Moral e Cívica, Filosofia da Educação, Relações Humanas e Introdução à Filosofia. Sua peça, O Clarão,um auto de natal escrito em parceria com Lázaro Barreto, é encenada em Divinópolis.
“O transe poético é o experimento de uma realidade anterior a você. Ela te observa e te ama. Isto é sagrado. É de Deus. É seu próprio olhar pondo nas coisas uma claridade inefável. Tentar dizê-la é o labor do poeta.”
Em 1980, dirige o grupo teatral amador Cara e Coragem na montagem de O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. No ano seguinte, ainda sob sua direção, o grupo encenaria A Invasão, de Dias Gomes. Publica Cacos para um vitral. Lucy Ann Carter apresenta, no Departament of Comparative Literature, da Princeton University, o primeiro de uma série de estudos universitários sobre a obra de Adélia Prado.
Em 1981 lança Terra de Santa Cruz. De 1983 a 1988 exerce as funções de Chefe da Divisão Cultural da Secretaria Municipal de Educação e da Cultura de Divinópolis, a convite do prefeito Aristides Salgado dos Santos.
Os componentes da banda é publicado em 1984.
Participa, em 1985, em Portugal, de um programa de intercâmbio cultural entre autores brasileiros e portugueses, e em Havana, Cuba, do II Encontro de Intelectuais pela Soberania dos Povos de Nossa América.
Fernanda Montenegro estréia, no Teatro Delfim – Rio de Janeiro, em 1987, o espetáculo Dona Doida: um interlúdio, baseado em textos de livros da autora. A montagem, sob a direção de Naum Alves de Souza, fez grande sucesso, tendo sido apresentada em diversos estados brasileiros e, também, nos EUA, Itália e Portugal.
Apresenta-se, em 1988, em Nova York, na Semana Brasileira de Poesia, evento promovido pelo Comitê Internacional pela Poesia. É publicado A faca no peito.
Participa, em Berlim, Alemanha, do Línea Colorada, um encontro entre escritores latino-americanos e alemães.
Em 1991 é publicada sua Poesia Reunida.
Volta, em 1993, à Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Divinópolis, integrando a equipe de orientação pedagógica na gestão da secretária Teresinha Costa Rabelo.
Em 1994, após anos de silêncio poético, sem nenhuma palavra, nenhum verso, ressurge Adélia Prado com o livro O homem da mão seca.  Conta a autora que o livro foi iniciado em 1987, mas, depois de concluir o primeiro capítulo, foi acometida de uma crise de depressão, que a bloquearia literariamente por longo tempo. Disse que vê “a aridez como uma experiência necessária” e que “essa temporada no deserto” lhe fez bem. Nesse período, segundo afirmou, foi levada a procurar ajuda de um psiquiatra.
“O que se passou? Uma desolação, você quer, mas não pode. Contudo, a poesia é maior que a poeta, e quando ela vem, se você não a recebe, este segundo inferno é maior que o primeiro, o da aridez.”
Deus é personagem principal em sua obra. Ele está em tudo. Não apenas Ele, mas a fé católica, a reza, a lida cristã.
“Tenho confissão de fé católica. Minha experiência de fé carrega e inclui esta marca. Qual a importância da religião? Dá sentido à minha vida, costura minha experiência, me dá horizonte. Acredito que personagens são álter egos, está neles a digital do autor. Mas, enquanto literatura, devem ser todos melhores que o criador para que o livro se justifique a ponto de ser lido pelo seu autor como um livro de outro. Autobiografias das boas são excelentes ficções.”
Estréia, em 1996, no Teatro Sesi Minas, em Belo Horizonte, a peça Duas horas da tarde no Brasil, texto adaptado da obra da autora por Kalluh Araújo e pela filha de Adélia, Ana Beatriz Prado.
São lançados Manuscritos de Felipa e Oráculos de maio. Participa, em maio, da série “O escritor por ele mesmo”, no ISM-São Paulo. Em Belo Horizonte é apresentado, sob a direção de Rui Moreira, O sempre amor, espetáculo de dança de Teresa Ricco baseado em poemas da escritora.
Adélia costuma dizer que o cotidiano é a própria condição da literatura.  Morando na pequena Divinópolis, cidade com aproximadamente 200.000 habitantes, estão em sua prosa e em sua poesia temas recorrentes da vida de província, a moça que arruma a cozinha, a missa, um certo cheiro do mato, vizinhos, a gente de lá.
“Alguns personagens de poemas são vazados de pessoas da minha cidade, mas espero estejam transvazados no poema, nimbados de realidade. É pretensioso? Mas a poesia não é a revelação do real? Eu só tenho o cotidiano e meu sentimento dele. Não sei de alguém que tenha mais. O cotidiano em Divinópolis é igual ao de Hong-Kong, só que vivido em português.”
Em 2000, estréia o monólogo Dona da casa, em São Paulo, adaptação de José Rubens Siqueira para Manuscritos de Felipa. A direção é de Georgette Fadel e Élida Marques interpreta Felipa.
Em 2001, apresenta no Sesi Rio de Janeiro e em outras cidades, sarau onde declama poesias de seu livro Oráculos de Maio acompanhada por um quarteto de cordas. Em 2005 publica “Quero minha mãe”. No ano seguinte morre o irmão Frei Antonio do Prado.
Em 2010 lança “A duração do dia” e em 2011, “Carmela vai à escola”.

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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