Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 29 de março de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 390)


 Clarice Lispector
Sobre a Escrita

Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio.
Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma ideia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.
Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos. Sempre achei que o traço de um escultor é identificável por um extrema simplicidade de linhas. Todas as palavras que digo – é por esconderem outras palavras.
Qual é mesmo a palavra secreta? Não sei é porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não pode e não deve ser pronunciada. Parece-me que todo o resto não é proibido. Mas acontece que eu quero é exatamente me unir a essa palavra proibida. Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma fruta proibida. As palavras é que me impedem de dizer a verdade.
Simplesmente não há palavras.
O que não sei dizer é mais importante do que o que eu digo. Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal, e mineral e vegetal também. Sim, mas é a sorte às vezes.
Sempre quis atingir através da palavra alguma coisa que fosse ao mesmo tempo sem moeda e que fosse e transmitisse tranquilidade ou simplesmente a verdade mais profunda existente no ser humano e nas coisas. Cada vez mais eu escrevo com menos palavras. Meu livro melhor acontecerá quando eu de todo não escrever. Eu tenho uma falta de assunto essencial. Todo homem tem sina obscura de pensamento que pode ser o de um crepúsculo e pode ser uma aurora.
Simplesmente as palavras do homem.

Fonte: Clarice Lispector. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

____________________________
Clarice Lispector (Chaya Pinkhasovna Lispector) (Chechelnyk, 10 de dezembro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977) foi uma escritora e jornalista nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira — e declarava, quanto à sua brasilidade, ser pernambucana —, autora de romances, contos e ensaios e considerada uma das escritoras brasileiras mais importantes do século XX. Sua obra está repleta de cenas cotidianas simples e tramas psicológicas, sendo considerada uma de suas principais características a epifania de personagens comuns em momentos do cotidiano.
___________________________________________
Uma Trova de Maringá/PR
Arlene Lima

O amor, para muita gente,
é diversão perigosa.
Quem não sabe ser prudente
transforma em espinho a rosa.

Uma Trova de Portugal
Domingos Cardoso

A vida faz-se tecendo
finos elos que nos atam
aos sonhos que vão morrendo
e que, morrendo, nos matam…

Um Poema de São Paulo/SP
Renata Pallottini

FINAL

Eu te perdi como uma coisa irremediável.
Na luminosa e grave tarde eu te perdi.
Eras o único ser. E agora és sombra,
enquanto as longas ruas se incorporam
ao que do sonho resta.

Eras cilício e rosa,
mas nunca foste verdade.

Olha: o sol colhe retas pelo espaço,
meus dedos se projetam e estendem lâminas
onde se ferem meus pensamentos.

Perdi-te, e Deus não me reencontrou.
Quem sou não sabe de si mesmo, e assim prossigo,
pois te perdi e nada mais importa.

Lembra-te: mais um dia. O tempo cai
como folhas de aço, e uma, e outra...
Entre uma e outra a Hora te roubou
ao meu tempo interior.
                            Perdi-te
e fico, e nada me concedes,
nem coração, nem mesmo alguma vida...

Tu chegas pelo trem de nunca-e-meia
e eu sempre de partida,
de partida!

Uma Trova Humorística de Nova Friburgo/RJ
José Coelho de Babo

No festival imponente
a um consagrado goleiro,
a mulher dele, contente,
deu bola pro time inteiro!

Uma Trova de Porto Alegre/RS
Gislaine Canales

O meu viver enfadonho,
só de amarguras composto,
põe as rugas do meu sonho
sobre as rugas do meu rosto!

Um Poema de São Paulo/SP
Renata Pallottini

SONETOS DE VILA REAL, VII

Há um mar entre esse porto e o nosso porto,
um mar de olvido e de distância, um mar
que faz o esposo sombra, o filho morto,
e da esposa e da mãe, o recordar.

Há nesta terra o ardor dos frutos verdes,
não espereis de volta o vosso irmão;
se o amais, consolai-vos de o perderdes
que ele é conquista e planta deste chão.

Se permitis que se desligue o laço,
(se o permites, Antonio) que se corte
a potência comum do vosso braço,

contai que está desfeita a antiga sorte:
distantes do renovo que vos deixe,
tereis áspero o fruto e amargo o peixe.

Uma Quadra Popular
Autor Anônimo

Da folha da bananeira
pingou três pingos de prata.
Da família de meu bem
é só ele quem me mata.

Uma Trova Hispânica da Argentina
Stella Maris Taboro

Trovador, trovas en aguas
a  esas divinas sirenas,
abismal en sus enaguas
van hilando tus cadenas.

Um Poema de São Paulo/SP
Renata Pallottini

MEMÓRIA

A luz habitual tornou-te um mito:
o mago precursor de estranhas lavas
com que, gênio do amor, iluminavas
o, entre outros leitos, simplesmente grito.

Por sereno que foste, e por bendito
ficaste, e ninguém soube que ficavas.
Hoje há muito de ti sobre as aldravas
e tua voz floresce do granito.

Os livros crescem tua esplêndida ilha,
sombrios exemplares do teu porte,
testemunhos da em ti nobre vertigem;

herança frágil deixas para a filha:
a efígie vaga em aparente morte
e a sensação do amor, morta na origem.

Trovadores que deixaram Saudades
Nádia Huguenin
Nova Friburgo/RJ (1946 – 2008)

Caprichoso, o meu destino,
de mansinho, sem alarde,
feito um travesso menino,
mostrou-me o amor… e era tarde!…

Uma Trova de Pouso Alegre/MG
José Vitor de Paiva

A praça da madrugada,
sob um céu de plena lua,
é uma sala iluminada,
para os meninos de rua!

Um Poema de São Paulo/SP
Renata Pallottini

SONETO DA PARTIDA

Que golpe decisivo ou força nova
arrasta assim um homem para a treva?
Que estranho impulso a um mundo estranho o leva
que enorme sonho o sonho seu renova?

Não é o gélido ouro, nova lava,
de excessivos vulcões deusa excessiva,
não é o quente amor que prende e priva,
nem coroa de ouro excelsa e flava.

Morto, se for, será perdido e pobre,
vivo, se vier, será tão pouco nobre
como se não partira e não tornara.

Que força, então, seus membros nus recobre,
que o faz surgir como uma estátua rara
e enche de luz sua pupila clara?

Uma Trova de Magé/RJ
Regina Célia de Andrade

Que todo projeto inclua
com firmeza e sem tardança:
– toda criança é uma rua
na qual trafega a esperança.

Um Haicai de São Paulo
Cyro Armando Catta Preta
São Paulo/SP (1922 – 2010) Orlândia/SP

SONO

Incorpóreo fujo,
sonhando me libertando
do meu caramujo.

Um Poema de São Paulo/SP
Renata Pallottini

SONETO DO PESADELO

Lá numa praia escura e impossível,
em angra morta e negra, onde os mistérios
marítimos misturem-se ao terrível
dos obscuros viajantes aéreos,

onde o mar não sussurre, estronde e grite,
onde o vento construa pesadelos
e entre os negros rochedos precipite
mulheres infernais pelos cabelos,

e de onde um miasma bruto se levante
entontecendo a vista e o pensamento,
e as árvores se curvem, como diante

de um deus de medo e fúria e de tormento,
terra de onde não se volta mais,
nessa praia, marujo, aportarás.

Uma Trova de São Fidélis
Antonio Manoel Abreu Sardenberg

É hiper minha saudade,
é super minha emoção;
tão grande é minha vontade,
que quase perco a razão!

Uma Quadra Popular
Autor Anônimo

Lá vai a garça voando
com as penas que Deus lhe deu.
Contando pena, por pena,
mais pena padeço eu.

Um Poema de São Paulo/SP
Renata Pallottini

SONETO DO FINAL

Com lâminas de espadas pactuei
e entre punhais esguios fiz meu canto.
Meu coração é um malfadado rei
que depôs, roto e pálido, o seu manto.

Cores de antigamente abandonei,
abandonei-vos, flâmulas, e entanto
morre dentro de mim (onde não sei)
tudo o que outrora conheci de santo,

tudo o que conheci de antigo e puro
(ah, o último veleiro deixa o porto...)
oceano de fadigas, mar escuro,

silêncio, meus vassalos, tudo é findo,
não desperteis o marinheiro morto,
vede como é sereno e como é lindo!

Uma Trova de São Paulo/SP
Jaime Pina da Silveira

Melhor ficasse eu silente
que cortejá-la cantando.
Há serenatas que a gente
faria melhor calando.

Uma Grinalda de Trovas, de Itanhaém/SP
Filemon F. Martins

Ramo:
Nenhum poema é mais belo
e inspira tanta esperança,
do que um sorriso singelo
no rosto de uma criança.

Grinalda:
Quero um mundo de ventura
mundo de paz, meu anelo,
porque do amor, da ternura,
– nenhum poema é mais belo.

Nenhum poema é mais belo,
quando o amor dá segurança,
o mundo vira um castelo
e inspira tanta esperança.

E inspira tanta esperança
este quadro que revelo:
– nenhuma paz é tão mansa
do que um sorriso singelo.

Do que um sorriso singelo,
nunca nos foge à lembrança,
vejo assim sem paralelo
no rosto de uma criança.

Um Poema de São Paulo/SP
Renata Pallottini

ÊXODO

Aqui repousa o bicho; nasce o homem
da mão que tenta o gume e prova o sopro.
Aqui, da fonte se elevou um corpo
e as águas claras o saudaram, ontem.

Aqui te amo inútil, sutilmente,
provo o gume e o sopro e sobrevivo,
sou mesquinha, soberbo é ser vivente,
aqui resisto à morte e ao seu convívio.

Musgo de pedra são as oferendas,
líquida é a voz com que te banqueteio
e, farto, és uma ânfora perfeita.

Permites-me te amar sem que te ofendas;
tua serena integridade odeio:
— amor, total, a forma com que é feita.

Um Haicai de Fortaleza/CE
Nemésio Prata

Chuva de Versos

Quase madrugada...
Pela janela da tela
vejo a chuvarada!

Uma Trova de Natal/RN
Maria Antonieta B. Dutra

Que em doce feitiço, a Paz
- nobre e etéreo talismã,
seja um guia forte e audaz
na construção do amanhã!

Um Poema de São Paulo/SP
Renata Pallottini

CÂNTICO DOS CÂNTICOS

O meu amor é meu e eu sou dele.
O linho horizontal é nossa casa
e eu me aninho a dormir sob sua asa;
amo-o com minha boca e minha pele.

Ele é quem vela e não me diz que vele
porque sua é a chama e minha a brasa.
O seu fervor ao meu fervor se casa,
clara coma de luz que nos impele.

Desci ao campo raso: ele é meu campo
onde me deito e a erva se derrama;
é meu olhar que voa, pirilampo.

Sem terra irei por terra; ele me chama.
Vou, sem saber por onde, ao mar ou monte.
Sem sua boca eu já não sei ser fonte.

Recordando Velhas Canções
Eu e a brisa
(balada, 1967)

Johnny Alf

Ah ,se a juventude que essa brisa canta
Ficasse aqui comigo mais um pouco,
Eu poderia esquecer a  dor
De ser tão só
Pra ser um sonho,
E aí então quem sabe alguém chegasse,
Buscando um sonho em forma de desejo
Felicidade então pra nós seria!        

Depois que a tarde nos trouxesse a lua,
Se o amor chegasse eu não resistiria,
E a madrugada   acalentaria  a nossa paz 
Fica, Oh! brisa, fica pois talvez quem sabe,
O inesperado faça uma surpresa
E traga alguém que queira te escutar
E junto a mim  
Queira ficar...
(Bem junto a mim queira ficar...)

Uma Trova de Belém/PA
Alonso Rocha

Ao teu "fogo" sou submisso
(mesmo sabendo quem és)
e me basta esse "feitiço"
para que eu viva a teus pés.

Um Haicai de São Paulo/SP
Áurea de Arruda Féres

Num vaso solitário
perfuma toda a sala
um único jasmim.

Uma Trova de Recife/PE
Geraldo Lyra

Na previsão do destino,
o sortilégio, em segredo:
– "Tu serás sempre menino
à procura de um brinquedo..."

Um Poema de São Paulo/SP
Renata Pallottini

LIVRO DE JÓ

O cervo que suspira pela sombra
e o homem que trabalha e espera a paga
sonham com o leito; duro e cruel, meu sonho,
és tu: sonhar a noite e após o dia;

pois se me deito e a fronte se me ensombra
repouso não me dá, nem forma vaga
de vão sonhar, o leito onde me ponho;
meu pobre corpo esquálido vigia.

Luz e luz, noite e noite, areia e tempo
deu-me Deus; essa dádiva persiste
mais além do que é sonho o pesadelo.

E deu-me a boca com que me lamento,
a carne com que sangro e sinto triste,
o sal que choro e a força de fazê-lo.

Hinos de Cidades Brasileiras
Witmarsun*/SC

No início, Nova África.
Dos heróicos desbravadores
Witmarsum hoje és berço
De orgulhosos vencedores.

Outrora foste um grande sonho
Hoje és nossa realidade
Trabalhamos com amor e justiça
Construindo esta linda cidade.

Witmarsum, a tua história
És orgulho da nossa nação
Os teus filhos são tua glória
De geração em geração.

As montanhas que te rodeiam
A mata verde de tuas terras
Tuas altivas cachoeiras
Te destacam entre as mais belas.

As riquezas da nossa terra
Nas mãos fortes do agricultor
Cultivam a semente do progresso
De um amanhã promissor.

Refrão

Embora pequena, és próspera
Estrela azul, no céu de anil
Brava gente, braço forte
O trabalho nos uniu.

É no aconchego dos lares
Que a tua história se faz
Seguindo em frente, nós iremos
Construir um futuro de paz.

Refrão
–––––––––––
         * O fim da Primeira Guerra Mundial contribuiu para a colonização do município de Witmarsum. A companhia colonizadora trouxe soldados alemães que buscavam um novo lar, distante da Alemanha em crise. Em 1924, um grupo deles estabeleceu-se no interior do distrito de Hamônia (atual Ibirama), batizando o lugar de Nova África porque os soldados haviam combatido no Continente Africano.
         Imigrantes russos oriundos da Ucrânia chegaram seis anos depois e deram ao local o nome de Witmarsum, que significa “estrela azul”. Há, porém, uma versão baseada em pesquisas de uma universidade da Holanda que também explica a denominação: Witmar seria o nome do fundador da religião menonita e “sum” significa jardim.
         Mais tarde chegaram os italianos. Quando Presidente Getúlio se desmembrou de Ibirama, Witmarsum passou a pertencer ao novo município, tornando-se independente em 1962.

Uma Trova de Maringá/PR
A. A. de Assis

De barro se faz  o homem,
e de luz principalmente.
O barro, os anos consomem;
a luz eterniza a gente.

Um Poema de São Paulo/SP
Renata Pallottini

O GRITO

 Se ao menos esta dor servisse
se ela batesse nas paredes
abrisse portas
falasse
se ela cantasse e despenteasse os cabelos

 se ao menos esta dor se visse
se ela saltasse fora da garganta como um grito
caísse da janela fizesse barulho
morresse

 se a dor fosse um pedaço de pão duro
que a gente pudesse engolir com força
depois cuspir a saliva fora
sujar a rua os carros o espaço o outro
esse outro escuro que passa indiferente
e que não sofre tem o direito de não sofrer

 se a dor fosse só a carne do dedo
que se esfrega na parede de pedra
para doer  doer  doer visível
doer penalizante
doer com lágrimas

 se ao menos esta dor sangrasse
____________________
Chuvisco Biográfico da Poetisa
Renata Pallottini, nasceu em São Paulo/SP, em 1931.
         Cursou Direito na Universidade de São Paulo (USP), onde publicou seus primeiros poemas, nas revistas da faculdade. Também fez o Curso de Filosofia Pura na Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP).
         Em 1952, publicou Acalanto, seu primeiro livro de poesia.
         Na França, em 1959, iniciou estudos de teatro nos cursos livres da Sorbonne Nouvelle, em Paris. De volta ao Brasil, entra para a Escola de Arte Dramática (EAD), cursando dramaturgia e crítica de 1961 e 1962.
         Em 1960 ocorreu a montagem de sua peça A Lâmpada, com direção de Teresa Aguiar, em Campinas/SP.
         Lecionou História do Teatro Brasileiro na Escola de Arte Dramática da USP, em 1964.
         Em 1965, é a vez de O Crime da Cabra, sua estreia no teatro profissional, com direção de Carlos Murtinho, numa produção da Companhia Nydia Licia, já arrematando os Prêmios Molière e Governador do Estado de melhor texto.
         Entre 1969 e 1982 publicou oito peças de teatro, foi roteirista do programa infantil Vila Sésamo e diretora da Escola de Arte Dramática da USP.
         Nas décadas de 1970 e 1980 trabalhou como tradutora e roteirista de telenovelas e séries para a TV, entre as quais Malu Mulher (TV Globo).
         Renata Pallottini doutora-se pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo - ECA/USP, em 1982.
         Apesar de intensa atividade no teatro, na TV, como professora e em atividades administrativas ou políticas, é na poesia que Renata Pallottini encontra seu chão mais rico e fecundo. Todas as outras formas em que se tem debruçado levam a marca inconfundível do poético, o que a caracteriza e diferencia como criadora.
         Publicou livros de contos, poesia infantil e ensaios.
         Em 1997 recebeu o Prêmio Jabuti de Literatura, concedido pela Câmara Brasileira do Livro.
         Sua obra poética inclui os livros A Faca e a Pedra (1962), Os Arcos da Memória (1971), Noite Afora (1978), Esse Vinho Vadio (1988) e A Menina que Queria Ser Anja (1987).
         A poesia de Renata Pallatini vincula-se à terceira geração do Modernismo. Para o crítico Wilson Martins, "poeta independente das escolas transitórias e modas efêmeras, Renata Pallottini restituiu à poesia brasileira o elemento de emoção pessoal e literária de que começou perigosamente a se despojar com João Cabral (...), assim como, e por isso mesmo, passou a evidenciar uma integração cada vez mais sensível na vida coletiva, na existência política do Brasil enquanto nação, pagando o tributo inevitável, oneroso e paradoxal de restringir o alcance de sua poesia no ato mesmo de parecer expandi-lo".
         “Renata Pallotini revela um completo domínio do verso e um capacidade rara de criar, dentro de moldes e temas antigos, uma linguagem nova. Seus poemas bíblicos ocuparão um lugar todo especial na poesia de nossos dias.” Paulo Bonfim

Fontes:
Itaú Cultural – Wikipedia
____________________________
Trovadores de Caxias do Sul/RS

Adalice Maria de Campos de Villa
O sorriso meigo e doce
no teu retrato gentil,
beija-me, como se fosse
a brisa primaveril.

Alice Cristina Velho Brandão
Velejando pela vida
vai meu barco em solidão,
procurando achar guarida
em teu porto-coração.

Amália Marie Gerda Bornheim
Cada semente lançada,
    com amor e com cuidado,
    traz a colheita sagrada
    do sonho mais esperado.

Antonia Viana Machado
Desempenhando papéis
lá vai ela, a mãe querida,
fazendo do amor, pincéis
para colorir a vida.

Antônio Nely Fardo
Faz do ponto de chegada
novo ponto de partida.
Troque o luar da florada
por dia de sol na vida.

Carolina de Souza de Rossi
Com a magia da festa
e com cor no coração
o doce vinho nos testa,
seu sabor dá emoção!

Cássia Bolson
Santo Antônio está chegando,
os solteiros se preparem!
Se estiverem namorando,
chega a hora de rezarem...

Eduardo Trindade
Todo mundo sempre diz
que dia de sol e chuva,
dá casamento feliz
de uma bonita viúva!

Elisabete Scholz
Professor, meu velho amigo,
és de um labor incansável!
Que bom partilhar contigo
desse otimismo invejável!

Eloy Maria de Oliveira Fardo
Escritor não se aposenta,
escreve e lê a vida inteira.
A idade não aparenta...
Jamais pendura a chuteira!

Genny Ignez Paggi
Procurando o rumo certo,
quantas léguas percorri...
Mas tudo estava tão perto,
apenas eu que não vi!

Hédilon Bitencourt
O sorriso em tua boca
é um botão que desabrocha.
Mas tu tens cabeça oca,
minha querida cabrocha!

Inês Furlin Renosto
No coração, guardo apenas
as relíquias da amizade.
As lembranças mais serenas
são retalhos de saudade!

Ivani de Souza
O amor, assim como a casa,
deve ter boa estrutura.
Se nasceu em cova rasa,
logo vai pra sepultura...

Ivone Vebber
Com o ciúme que prende,
briguei com meu namorado...
Não há nada que remende
coração despedaçado!

Jussara Custódia Godinho
Desde o plantio à colheita
quanto trabalho e beleza!
A família, satisfeita,
alegra de uvas a mesa!

Lia Rosa Reuse
Como posso ver beleza
sem sentir no coração
toda a mágoa e a tristeza
daquele que não tem pão?

Luci Barbijan
Ontem acordei cantando
e fazendo peraltice;
hoje só acordo chorando
com a droga da velhice.

Luiz Damo
Quem perder algum instante
para o bem da humanidade,
verá crescer seu montante
nos cofres da eternidade.

Lydia Lauer
Vem dos Andes esse vento,
de outras pátrias… lá de trás;
Minuano, teu lamento
são quero-queros de paz.

Maria Cardoso lo
Ser herói no dia-a-dia
é lutar com dignidade,
sem medalha ou honraria
no mar da dificuldade.

Maria Helena Binelli Catan
Os versos de cada trova
são pétalas perfumadas,
cada qual essência nova
de quimeras renovadas.

Marilene Caon Pieruccini
Três rosas no meu jardim
são de Deus pura magia.
Elas trazem para mim
o encanto da poesia.

Raul Poli
Acendo estrelas do nada
com meu condão de magia,
derramo luzes na estrada
com o farol da poesia.

Renato Padilha
O nosso amor tem doçura.
É livre. Não tem fronteira.
O amor é a jóia mais pura
que resiste a vida inteira...

Ualasse Boeira Rabelo
Meu coração é confuso
e gira e fica girando
como fosse um parafuso
que fica me machucando.

Zélia Maria De Nardi
Não sejas indiferente
na construção do futuro,
se não plantares semente,
não terás fruto maduro.
__________________________________________________________
J.B. Xavier
Cunhaporã - Uma história de amor

VI
A LUTA

O dia surgiu bonito, refrescante, ensolarado
Com pássaros coloridos e pinheiros perfumados.
Adiante, na clareira, beirando o lago de Yara,
As tribos se encontravam. Vários povos e nações.
Na luta todos falavam, disfarçando as emoções.

E veio o prisioneiro, em passos lentos, pausados.
Guardas à sua frente. Guardas atrás e nos lados.
No centro do aro humano, formado por tanta gente
Nhuamã  parou, olhando com serena majestade
Aqueles que se espremiam para ver tal crueldade.

E trovejou sua voz num discurso comovente:

“Guerreiros da tabas
Distantes, remotas,
Ouví  minha voz
E o lamento em meu canto!
Cruzastes a selva,
Perigos e grotas
P’rá  ver no suplício
Da morte o encanto.

Mais sangue quereis!
Que louco desejo!
Que sede de morte
É  essa em seu povo?
Se olho ao sul e ao norte
Que vejo?
Batalhas de porte,
E nada de novo!

Por  fado da vida
Caí  prisioneiro
Do povo que em dias
De fama passados
Gozou do bom nome
De hospitaleiros!
E hoje declina,
Antigo e cansado...

Entrai o valente
Que a morte me lança,
E que a vida em meu seio
Deseja tomar.
Entrai, ó  guerreiro!
Aproxima-te! Avança!
Que um de nos dois
Hoje aqui vai tombar!”

Silêncio mortal apossou-se da mata.
Ao longe se ouvia o troar da cascata
E os gritos dos monos em louca algazarra,
Que aos poucos também foram silenciando,
Enquanto o tupi, na arena entrando
Gritou  aos guerreiros:

“Soltai as amarras!”

Partiu-se em tom seco o linho torcido
Deixando então livre o punho ferido.
E os braços penderam do grande guerreiro.
Dormentes que estavam, já  não os sentia.
O sangue nas veias já pouco corria
De luas e luas de vil cativeiro.

“Que tens, ó  valente,
Que vinde dos prados
Mostrar cá na selva
Teus doces agrados
Àquela que um dia
Ao Grande Oyakã
Ainda menina
Jurou pertencer?

Erguei vossos braços
Charrua maldito!
Pois antes que possas
Sequer dar um grito
Por minha borduna
Havereis de morrer!”

Desceu o tacape, certeiro, assassino,
Tão rápido quanto o fora um felino,
Levando a morte ao incauto inimigo.
Rasgando o ar o tacape voou
Zunindo macabro, mas nada encontrou.
Nhuamã , bem a tempo, evitou o perigo.

Zangou-se o tupi com a falha tão rara,
Surpreso ao ver que o charrua escapara,
E ao lado contrário postava-se atento.
Apenas instantes durou a surpresa.
Saltou o charrua com grande destreza
Causando ao contrário sutil ferimento.

O oyakã sentiu que o sangue escorria
Ao longo da face, mas dor não havia.
O ódio tomou-lhe o ser por inteiro.
Brandindo o tacape assassino no  ar
Os  golpes desceram buscando matar
O ousado, veloz e valente guerreiro.

Em todas as guerras por onde esteve
Jamais  algum braço seus golpes susteve.
Mas neste combate cruel e sangrento,
O braço que a tantos brindara com a morte
Agora sentia mudar sua sorte
Golpeando e acertando apenas o vento.

O som surdo e oco dos pés sobre a terra
Ecoaram lá longe, nos picos das serras
Levando da morte a nefanda mensagem.
E a selva tremia a cada investida
Dos golpes que um fim buscavam p’rá vida,
Levando o estertor à linda paisagem.

Recônditos verdes! No vale o lamento
Dos golpes perdidos levados ao vento
Fremiam pulsantes na insana batalha.
No céu ecoava o incessante bramido
E o azul festejava, qual teto incendido
Por sobre a disputa, qual grande mortalha.

O Oyakã  pressentiu que seu grande inimigo
Buscava sua morte, e sentiu o perigo
Daquela batalha terrível e crua.
Jamais algum dia alguém tão valente
Após desafiá-lo ficou à sua frente
Assim tanto tempo como esse charrua.

Os velhos, as moças, e todos que viam -
Guerreiros, crianças - também pressentiam
A grande tragédia que estava por vir.
Dobraram de força os golpes insanos,
E a louca junção do esforço inumano
Previa o que então viria a seguir.

"Tupã  assim quis
Maldito guerreiro
Das tribos do sul,
Por sorte infeliz
Morresses ligeiro
Sob Ygarussú .

A morte te leve
No abraço gelado
Aos campos distantes.
Teu corpo em breve
Inerte ao meu lado
Terei num instante."

E um último esforço, titânico, louco
Tentou o Oyakã . Errou por bem pouco.
Saltando de lado enviou o revés
O índio charrua. O punho fechado
Desceu martelando. Um crânio rachado!
E o cacique tupi tombou a seus pés.

Silêncio mortal. Que foi que ocorreu?
Acaso o charrua o tupi, pois, venceu?
Acaso os olhos erraram ao ver?
Mas não! Lá estava o tupi destroçado.
Do crânio seu sangue se havia escoado
Em grandes torrentes. Estava a morrer.

"Pajé! Os ungüentos!" - Gritou Nhuamã
"Impeça que a vida abandone o Oyakã !
Guerreiros ilustres não morrem assim!
Queria-me a morte, por certo, porém,
Até  este dia não  houve ninguém
Que assim a pusesse diante de mim."

E enfim recobrada do susto cruel
A selva acordou num tremendo escarcel,
Erguendo nos ombros o novo Oyakã .
O corpo cansado aos céus elevaram,
E os olhos atentos em vão procuraram
Os olhos sonhados de Cunhaporã .

Por dias e noites reinou o festim.
Das bilhas, nas sombras, saía o cauim
Que a todos felizes e alegres tornava.
Só luas mais tardem já embriagados,
Voltaram às tabas, já  fracos, cansados,
Contando a peleja que ainda encantava.

Enfim o silêncio voltou à floresta.
Partiram as tribos. Findara-se a festa.
O pajé ao tupi reentrega a vida.
E a beira do lago, Nhuamã , o charrua,
Sentava-se às vezes, nas noites de lua
Nos quentes abraços da doce querida.

continua… penúltima parte: O Silêncio do Lago
________________________________________________________
Profa. Ana Suzuki
Aula sobre Haicai

AULA 3
O HAICAI E A MÉTRICA

         Não ia falar sobre métrica, ainda, mas muitos podem estranhar os haicais que tenho mostrado, quanto ao número de sílabas.
         - Todo mundo, com certeza, já notou ou já sabia que o haicai é composto de três versos, três linhas.
         - Na métrica original, japonesa, o primeiro verso tem exatamente cinco sílabas, o segundo sete e o terceiro cinco. É o famoso 5-7-5, que dá no total 17 sílabas.
         - Dezessete lá no Japão, onde a coisa é simples porque a língua é composta de um silabário. Sério! As únicas consoantes que aparecem sozinhas são o m e o n, mas pronunciadas demoradamente, assim formando uma sílaba.
         - Como se não bastasse, a acentuação lá é flutuante. É como se pudéssemos dizer lâmpada, lampada ou lampadá.

         No Brasil, adotamos a contagem poética, que é diferente da contagem gramatical, por levar em conta o ritmo. E é aqui que autores acostumados aos versos livres se enroscam. Trata-se, realmente, de um grande desafio, mas minha experiência revela que muitos se dispõem a superá-lo. Afinal, são apenas três regrinhas básicas, que além de fáceis fazem com que a gente entenda melhor grandes poetas, como Castro Alves por exemplo, cujos versos têm impressionante cadência.

         São estas as três regrinhas básicas:

         1. Quando uma palavra acaba em vogal átona, ambas formam uma só sílaba:

Ouviram do Ipiranga = Ou-vi-ram-doi-pi-ran-ga
Estava ela aqui = Es-ta-vae-laa-qui
Aberto o portão = A-ber-too-por-tão.

         2. Se a vogal da sílaba final é tônica, não ocorre a elisão:

Você acertou = Vo-cê-a-cer-tou
Vi uma má ocasião = Vi-u-ma-má-o-ca-si-ão
Café e poesia = Ca-fé-e-poe-sia

         3. Na palavra final de um verso, não se contam as sílabas que se encontram após a sílaba tônica. Se a palavra refú-gio figurar no fim de um verso, só contaremos até essa sílaba, desprezando as demais.

Um gato busca refúgio = Um-ga-to-bus-ca-re-fú (gio) (7 sílabas)
O vento do outono = O-ven-to-doou-to (no) (5 sílabas)
Enxugue essa lágrima = En-xu-guees-sa-lá (grima) (5 sílabas)

         Sugiro que esta aula seja lida e relida muitas e muitas vezes, pois embora a métrica faça parte dos estudos de Língua Portuguesa, nem todas as nossas escolas primaram ou primam por seu ensino. Usar, penso eu, é opcional, conhecer é obrigatório.

continua… O Haicai e o Sen-Ryu
____________________________________________________________
Folclore de Campo Mourão/PR
O Caminho de Peabiru

         Num dos dias mais frios do mês de junho, Nhô Juca, figura muito conhecida na região, por ser uma personagem enigmática e muito amável com todos que o conheciam, estava em seu rancho, às margens do rio Piquiri, acendendo uma pequena fogueira para se aquecer. Ia assar pinhão, fruto da Araucária. Era costume dos moradores dali comer pinhão e também saborear o chimarrão, a erva nativa.
         Nhô Juca tinha muitos compadres, pois sendo uma pessoa muito antiga no lugar, ajudava todos que o procuravam, com seus remédios caseiros, seus conselhos de ancião e seus belos causos. No rústico rancho onde vivia, nos finais de tarde, recebia seus amigos. Sentados em banquinhos, ou pedaços de troncos, ouviam e contavam histórias, principalmente causos de assombração, boitatá, saci-pererê e muitas outras. Além da iluminação da fogueira, no centro do rancho usava-se uma lamparina de querosene.
         Então nesse final de tarde, como um ritual, seus companheiros, após um dia de lida na roça, vieram conversar com o compadre Juca e também ver se ele não estava precisando de nada, pois era sozinho na vida. Dele não se conhecia a existência nem de mulher, nem de filhos. A conversa estava tão animada que nem perceberam a tempestade que se aproximava. O vento era tão forte que atravessava de um lado para outro do rancho, ficando impossível manter a lamparina acesa.
         Os visitantes estavam assustados, porém Nhô Juca, em sua calma, começou a lhes contar uma nova história. Disse que aquela região já havia pertencido aos índios e que estes haviam construído um caminho muito importante: o caminho do Peabiru. Era uma trilha muito antiga e comprida, começava no Oceano Atlântico e terminava no Oceano Pacífico, atravessando a América do Sul. Tinha mais ou menos 3 mil quilômetros de comprimento e cerca de 1,4 metro de largura, mais parecendo uma grande valeta no meio da floresta.
         – E este caminho ainda existe? Perguntou Pedro, maravilhado.
         – Pois bem, os índios, nossos antepassados, tinham a sua sabedoria, não eram bobos não. Eles plantavam nesse caminho uma grama miúda que evitava que a chuva lavasse a terra e, ao mesmo tempo, impedia que as ervas daninhas invadissem a valeta. Assim, o caminho ficaria sempre limpinho, mais parecendo um corredor encarpetado de verde, bem fofinho.
         – Ah! Que espertos, hein, compadre? Disse Pedro, admirado.
         – Pois bem, como eu lhes falei, os índios não eram burros não, essa grama era plantada em alguns trechos e ia se reproduzindo e avançando o caminho. E também soltava umas sementinhas gelatinosas que grudavam nos pés e pernas dos que por ali passavam e a levavam pelo caminho; dessa forma, as sementes iam caindo e novos trechos iam sendo formados.
         E a conversa continuou, falaram dos índios, seus costumes e até da sua saída da região. Nhô Juca, então, resolveu contar-lhes sobre a lenda que envolve este caminho milenar.
         – Sabem, compadres, dizem que por este caminho andava muita gente importante da nossa história. Ouvi, certa vez, um moço lá da capital, que tava cavoucando uns buracos na beira do rio, procurando sei lá o que, dizer que por aqui passou um homem branco, pois só existiam os índios e este homem fez muita coisa boa para eles. Dizem que ele veio das águas e que seu nome era Tomé ou Pai Zumé, como os índios o chamavam. Era um homem branco, alto, com longas barbas. Usava cabelos curtos com uma tonsura no alto da cabeça, igual às que os padres tinham. A roupa branca ia até os pés, amarrada por um fino cinturão de couro. Nas mãos trazia um livro semelhante ao Breviário dos sacerdotes e também uma cruz.
         – Por todos os lugares onde passava, deixava seus ensinamentos, condenando a poligamia e a antropofagia. Ele evangelizava os índios falando sobre o único Deus. Também ensinou aos índios o cultivo de outras culturas como a cana-de-açúcar e o milho. Por pregar a palavra do bem e censurar a imoralidade, causou grande revolta nos chefes e pajés que, furiosos, mandaram persegui-lo, incendiando as cabanas onde se abrigava para descansar, disparando flechas e pedras no profeta. Ileso dos atentados sofridos, sempre fugia pelas águas dos rios ou do mar.
         – Muitos dos antigos dizem que o homem branco era Tomé, apóstolo de Jesus Cristo, o mesmo que duvidou da ressurreição, pois pediu para colocar seus dedos nas chagas de Cristo para ver o sinal dos cravos em suas mãos. Como foi descrente, Jesus lhe deu a missão de pregar o evangelho nas terras mais longínquas do mundo. Naquela época, o mundo era apenas o Oriente, a Europa, África e a Ásia. Dizem que Tomé foi primeiro para a Pérsia. Assim que concluiu suas pregações, entrou num barco de mercadores rumo às Índias. Alcançou a Índia chegando até a China. Depois avançou no mar, indo parar em ilhas não determinadas. Como chegou ao Brasil, não se sabe, apenas alguns padres jesuítas relatam sua passagem por estas terras. Seu percurso começava no oceano Atlântico e terminava no Pacífico.
         – Nossa, compadre, esse caboclo viajou muito, hein! Exclamou Pedro.
         – Pois é, era a sua missão e nada o impedia. Porém, certo dia os inimigos conseguiram pegá-lo e o amarraram numa grande pedra. Furiosos, surraram-no e o largaram desmaiado. Então, três grandes águias desceram do céu, cortaram as amarras e o libertaram.
         Ele fugiu pelas águas da mesma maneira que havia chegado e nunca mais ninguém soube do seu paradeiro.
         – E esse caminho do Peabiru ainda existe, compadre? Pergunta Pedro.
         – Olha, eu escutei uns moços, lá no boteco do seu João-Pé-Grande, falando desse caminho, dizem que ainda existem alguns lugares dele. Mas ainda tem mais. O Apóstolo Tomé ou Pai Zumé, dizia que era para preservarem o caminho do Peabiru, e se um dia ele fosse destruído pelos gigantes de ferro e aço, haveria muita seca, as aves e animais iriam acabar e as águas dos rios se tornariam escuras.
         Nhô Juca enche a cuia com a água fervente da chaleira preta de ferro e repassa para Pedro. Todos ficam em silêncio. Apenas a fumaça dos palheiros sobe no ar.
         – É preciso ver para crer.
–––––––––------------------------------------------------------------
Sobre o Caminho de Peabiru
         São milenárias a Rota do Estanho (Ilhas Britânicas – Cassitérides, talvez as atuais Scilly – do primeiro milênio de nossa era; a Rota da Seda, que tornou esse produto conhecido pelos gregos no III século antes de Cristo, indo ao Pamir, até a Torre de Pedra, onde se realizavam os mercados fornecidos pelos negociantes chineses; a Rota do Lapis-Lazuli, do terceiro milênio; a Rota da Prata, pela qual os Tírios iam procurar na Espanha a prata e outros metais com os “navios de Tarsis”, de que fala a Bíblia, e tantas outras.
         As civilizações se fizeram pelas rotas. Por elas se aculturaram povos, se enriqueceram nações, se conquistaram mundos. Nem todas as rotas, porém, permanecem vivas. Algumas, sim, permanecem, pelo menos na memória de suas gentes. Outras, resgatadas, continuam guiando seus povos a caminho de novos sonhos, novas riquezas, adaptadas aos novos tempos.
         O Caminho de Peabiru era uma “estrada” milenar, transcontinental que ligava o oceano Atlântico ao Pacífico, atravessando a América do Sul, unindo quatro países. No Brasil, passava por Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul e depois seguia para Paraguai, Bolívia e Peru, cortando mata, rios, cataratas, pântanos e cordilheiras.
         O caminho, no Brasil, começava em São Vicente ou Cananéia, no litoral paulista, cruzava o Estado do Paraná de Leste a Oeste, penetrava no chaco paraguaio, atravessava a Bolívia, ultrapassava a Cordilheira dos Andes e alcançava, finalmente, o sul do Peru e a costa do Pacífico. Este era o chamado tronco principal, mas havia vários ramais. Um deles cruzava o rio Paranapanema, na divisa entre São Paulo e Paraná, onde segundo a historiadora Rosana Bond, baixava o sul quase em linha reta, passando pelas atuais cidades paranaenses de Peabiru e Campo Mourão. Outro ramal dava no litoral de Santa Catarina e outro, ainda, provavelmente, no Rio Grande do Sul; ao todo tinha aproximadamente 3 mil km de extensão, possuía oito palmos de largura (cerca de 1,40 metros) e aproximadamente 0,40 centímetros de profundidade. Para evitar o efeito erosivo da chuva, a trilha era forrada com vários tipos de grama, que também impediam que a via fosse tomada por ervas daninhas. O professor Moysés Bertoni, pesquisador da cultura dos índios guaranis, afirma que a grama foi plantada apenas em alguns trechos, mas as sementes que grudavam nos pés e nas pernas dos viajantes acabaram estendendo o revestimento aos demais trechos.
         Segundo o professor Moysés Bertoni, o Peabiru é algo fantástico por seu tamanho, sua função e suas características, diz; ainda que até hoje a civilização moderna não conseguiu construir nenhuma rodovia ou ferrovia ligando os dois oceanos de ponta a ponta.
         A verdadeira história do Peabiru, segundo estudiosos ainda é um mistério, uma das teorias mais aceitas é que o caminho é a menor e melhor rota entre os oceanos Atlântico e Pacífico, tendo um importante papel no intercâmbio cultural e na troca de produtos entres as nações indígenas. Dizem ainda que foi aberto pelos guaranis em busca constante de uma mitológica “Terra sem Mal”, aconselhados pelos seus deuses – base da religião guarani. Esse território mágico seria a morada dos ancestrais, descrito como o lugar onde as roças cresciam sem serem plantadas e onde a morte era desconhecida. Segundo o professor Samuel Guimarães da Costa, o Paraná seria esse “Nirvana” indígena e o Peabiru uma espécie de caminho santo que percorria o paraíso perdido, (para os índios, o Paraná se chamava Guairá, que em tupi-guarani quer dizer “terra da eterna juventude)”.
         Existem mais duas hipóteses para a criação do Peabiru: a de São Tomé e/ou Pay Sumé, apóstolo de Cristo, e a da civilização Inca.
         Uma das mais importantes heranças indígenas encontradas pelos colonizadores ao chegar ao Brasil foi, sem dúvida, o Peabirú, uma estrada de mais de 2.500 quilômetros – e com inúmeras rotas secundárias – que ligava o alto dos Andes até o litoral sul brasileiro.
         O Peabirú era uma valeta de 1,40 metro de largura e 40 centímetros de profundidade, forrado por uma gramínea que impedia erosões. Os primeiros relatos sobre o caminho datam de 1516 e são envoltos em mistérios e lendas.
         Entre eles, a de que o Peabirú fazia parte da Estrada do Sol, construída durante o Império Inca. O seu formato mais largo em relação às outras trilhas existentes em território brasileiro na época reforça a tese dos defensores dessa teoria.
         Já os jesuítas acreditavam que ele havia sido construído por São Tomé. Especulações à parte, o fato é que o caminho, ladeado por muitas aldeias de índios guaranis, foi amplamente usado por diversos conquistadores, em diferentes períodos da colonização.
         O trecho inicial do Peabiru, chamado de trilha dos tupiniquins, era o único meio conhecido na época de cruzar a Serra do Mar. Passou a ser muito utilizado também pelos jesuítas, principalmente por José de Anchieta, quando estes colocaram em prática o trabalho de catequização dos índios. Por isso, a trilha foi rebatizada como “Caminho do Padre José”.

Importância Histórica
         Segundo a escritora Rosana Bond, autora do livro “O Caminho de Peabiru” o caminho possui grande importância histórica, pois entre outras coisas serviu para as andanças e até grandes migrações de povos indígenas e, mais tarde, para a descoberta de riquezas, criação de missões religiosas, comércio, fundação de povoados e cidades.
         Segundo as crônicas coloniais, os relatos do Padre Montoya e os historiadores Sérgio Buarque de Hollanda, Jaime Cortesão e Eduardo Bueno, o Peabiru é o principal caminho para a penetração da região sul do Brasil e do Paraguai.
         Pelo Peabiru transitaram além dos indígenas, São Tomé e/ou Pay Sumé, Incas, ou seja, os possíveis criadores da trilha, também outros desbravadores ainda que considerado somente o período pós-Cabralino: soldados sacerdotes, aventureiros, os artifícies de nossa América, pessoas que construíram a história da região sul do Brasil.
         Aleixo Garcia um português que utilizou o Peabiru, foi o primeiro europeu a fazer contato com os Incas, e a penetrar o interior do Brasil e do Paraguai em busca de um acesso às riquezas desse povo, no ano de 1524, a partir do litoral de Santa Catarina e, rumando para oeste, seguindo o caminho traçado pelos índios, chegou à região de Assunção, no Paraguai. Depois de diversas peripécias e confrontos com inúmeras tribos uma pequena parte de sua expedição retornou com peças de ouro e prata tomadas dos Incas.
         Segundo o historiador Eduardo Bueno, depois da jornada de Aleixo Garcia, o Peabiru se tornou um caminho bastante conhecido e muito percorrido. Por ele seguiria, em 1531, a malfadada expedição de Pero Lobo, um dos capitães de Martim Afonso de Sousa.
         Também pelo Peabiru passaram Alvar Nuñes Cabeza de Vaca em 1541 e Ulrich Schmidel em 1553, jesuítas como Pedro Lozano e Ruiz de Montoya também o percorreram em suas missões de catequese aos guaranis. Um século mais tarde, seria também pela via do Peabiru que Raposo Tavares e outros bandeirantes paulistas seguiriam para realizar seus devastadores ataques às missões do Guairá, no atual estado do Paraná.
         Segundo Jaime Cortesão, foi pelo Peabiru que a civilização européia adentrou a oeste e subiu aos Andes. E para expressar a velocidade da penetração, basta assinalar que o gado, introduzido em 1502 em Cananéia, aparecia já em 1513 na Corte Incaica. Esta rapidez na disseminação de um elemento cultural prova quanto eram rápidas e ativas as comunicações através do continente.
         Ainda no século XVI, o Peabiru foi o caminho usado para a fundação de Assunção, no Paraguai, para a criação de três ou quatro cidades espanholas no atual Estado do Paraná, para a implantação de 15 reduções jesuítas e até para a descoberta da maior mina de prata do mundo em Potosi, Bolívia.
         Cortesão relata que, se julgamos tal caminho merecedor de tantas referências, é porque não somente foi o mais importante da face atlântica da América Latina, mas também o maior viradouro cultural e civilizador .
         Depois de 1630, quando os bandeirantes entraram no Paraná e destruíram as cidades espanholas e as missões dos jesuítas, o Peabiru foi praticamente abandonado. O caminho ainda conseguiu retomar vida no século XIX, quando serviu, mais uma vez, para entrada de uma nova leva de homens brancos, os colonizadores pioneiros do interior do Paraná.
         É notória a importância que o Caminho de Peabiru possui seja pelo traçado que cortava o continente, seja pelas personagens que por ele transitavam, pois é através dele que a verdadeira história e cultura de nossos antepassados são transmitidas nos dias de hoje, apesar da colonização europeia que, utilizando do Peabiru adentrou na nossa região a fim de explorar o povo e a grandiosa riqueza natural aqui encontrada. O Peabiru é um caminho de importância inquestionável e deve ser resgatado para que as raízes do nosso povo sejam mantidas vivas entre o maior número de cidadãos e não apenas na memória de poucos estudiosos.

Fontes:
A imagem representa Sumé (Pai Tumé ou São Tomé) descerrando mata adentro o Caminho de Peabiru
Renato Augusto Carneiro Jr. (coordenador). Lendas e Contos Populares do Paraná. 21. ed. Curitiba : Secretaria de Estado da Cultura , 2005. (Cadernos Paraná da Gente 3).
_________________________________________________________

Aventuras de Pedro Malasartes

O Doutor Saracura

         Anda que anda, Pedro Malasartes chegou a uma cidade onde o maior edifício era o hospital. Havia para mais de duzentos enfermos ali internados, cada um deles padecendo dos mais variados males.
         Malasartes matutou um pouco e foi procurar o diretor do hospital.
         -Não há mais lugar – foi-lhe dizendo este ao vê-lo entrar, com medo que fosse mais um doente.
         Realmente, velho e cansado, o doutor Pulsação já não conseguia dar conta de tantos enfermos. E estava ficando difícil arranjar comida e roupa lavada para toda aquela gente. É que mais da metade eram de espertalhões que se fingiam de doentes para comer e beber de graça.
         – Meu bom colega – disse Pedro Malasartes. – Imagine que soube das suas dificuldades e viajei de muito longe para ajudá-lo. Meu nome é doutor Saracura e já acabei com muitas epidemias. Pela módica importância de duzentas moedas prometo esvaziar seu hospital amanhã ao meio-dia.
         O velho diretor ficou exultante. Estava mais do que barato. O grande médico estrangeiro ia pôr toda aquela gente na rua, curada!
         Havia muitos doentes de verdade, aleijados, paralíticos, loucos… Mas Malasartes deu um jeito de se aproximar de um por um, sempre com a pose de um grande doutor, e, fingindo examiná-los, dizia-lhes no ouvido:
         – Homem, quem não estiver em condições de sair correndo pela porta da rua amanhã ao meio-dia, será torrado para se preparar um xarope para os outros.
         Mesmo os que estavam em pior estado – e até os loucos – compreenderam muito bem suas palavras e arregalaram os olhos. E todos trataram de preparar suas trouxas para escapulir dali logo que pudessem.
         No dia seguinte, Pedro Malasartes mandou abrir de par em par os portões do hospital.
         Então subiu até a enfermaria, junto com o doutor Pulsação, e bradou:
         – Quem se sentir curado pode sair correndo pelo portão!
         Não ficou um só doente na cama. Todos, sem exceção, dos que tinham bronquite a dor de cabeça, pularam do leito e, com a trouxa nas costas, trataram de dar o fora com quantas pernas tinham. E os que não tinham pernas ou eram paralíticos arranjaram quem os carregasse.
         O doutor Pulsação ficou boquiaberto com aquele milagre. Em poucos minutos o hospital ficou deserto. O único doente que permaneceu deitado foi um que morrera de noite e por isso mesmo não podia se levantar.
         Pagou ao extraordinário médico estrangeiro as duzentas moedas pedidas, ao que este se despediu:
         – Tenho muito que fazer em outras terras.
         Passou-se uma semana na mais perfeita paz. O doutor Pulsação nunca tivera tanto sossego. Então, meio ressabiados, começaram a voltar os doentes. Mas só os doentes de verdade, que não se aguentavam de pé. Os outros, os aproveitadores, resolveram ficar longe do hospital onde se torrava gente para fazer remédio…
________________________________________________________
Nilto Maciel
Sobre Livros e Escritores

         Publicam-se todo ano no Brasil milhares de livros de poesia e prosa de ficção, quase sempre às custas dos próprios autores e em pequenas tiragens. A maioria desses livros não chega às livrarias, que hoje se dedicam a vender obras científicas (literatura médica, por exemplo), jurídicas, religiosas, filosóficas, infantis, ao lado de livros de auto-ajuda, política, amenidades, romances norte-americanos de segunda categoria e os clássicos da literatura universal e nacional.
         O fim da editora tradicional talvez já tenha chegado. A literatura já estaria praticamente fora dos interesses dos editores e livreiros. A exceção a esta regra seriam os clássicos, que têm, como leitores, estudantes e escritores. A literatura nova (presente e futura) será editada por conta dos próprios autores ou pequenas editoras.
         Para alguns escritores, as editoras não investem em literatura (daqui em diante empregarei o termo literatura apenas para me referir à poesia e à prosa de ficção), a mídia não dá a mínima importância ao livro, não há editoras e livrarias em número suficiente para acolher todas as obras escritas etc. E aí estaria o grande problema do escritor. No entanto, críticos e jornalistas acreditam mais na incapacidade de comunicação da maioria dos escritores com o leitor, uns por serem pobres de talento e conhecimento, outros por terem muito talento e conhecimento e se isolarem na torre de marfim da poesia para poetas, do romance para romancistas etc. Muitos escreveriam para si mesmos ou para outros escritores. Seria uma literatura para iniciados, como se a literatura fosse a linguagem de uma sociedade secreta, com seus símbolos próprios. Seria a literatura fora de mercado, não-mercantil, em contraposição à subliteratura e a uma literatura “popular”, do gosto das massas.
         Edgar Morin, em Cultura de Massas no Século XX (O Espírito do Tempo), teoriza: “A corrente média triunfa e nivela, mistura e homogeneíza, levando Van Gogh e Jean Nohain. Favorece as estéticas médias, as poesias médias, os talentos médios, as inteligências médias, as bobagens médias. É que a cultura de massa é média em sua inspiração e seu objetivo, porque ela é a cultura do denominador comum entre as idades, os sexos, as classes, os povos, porque ela está ligada a seu meio natural de formação, a sociedade na qual se desenvolve sua humanidade média, de níveis de vida médios, de tipo de vida médio.”
         E acrescenta: “Um exemplo de vulgarização ininterrupta esclarecerá esse propósito: O Vermelho e o Negro de Stendhal se torna um filme adaptado aos padrões comerciais; desse filme nasce O Vermelho e o Negro, folhetim em quadrinhos publicado num diário.”
         Esses escritores não-mercantis não estariam voltados para o leitor, para o outro, mas para si mesmos. Segundo Emanuel Medeiros Vieira, “escrevemos para perdurar, para vencer a poeira do tempo, para despistar a morte, para regar nossos fantasmas e obsessões, para nos comunicar”. Porém como vamos os escritores nos comunicar com os leitores? Se escrevermos para nós mesmos, não haverá comunicação, e escrever será apenas catarse, psicoterapia, auto-análise.
         Haveria, então, uma literatura sem mercado ou fora dele e uma literatura produzida especialmente para o mercado. Os livros produzidos para o mercado têm cotação: os mais vendidos, os best-sellers, os que interessam diretamente às editoras, aos livreiros e à mídia. Segundo Juan Liscano, em entrevista a Floriano Martins, no livro Escritura Conquistada: “Enquanto o best-seller, um produto para o mercado, constitui hoje em dia a meta da literatura, a poesia situa-se no extremo contrário, representando, portanto, o não mercantil literário, o trabalho nobre artesanal, o ofício tradicional, mesclado com as funções xamânicas de expressar o humano em transe de universalização arquetipal (a tribo de que falou Mallarmé).” Não está descartada a hipótese de uma obra literária tornar-se best-seller. Porém isto se dará quase que por acaso ou dependendo do merchandising do editor. Assim, um grande romance pode em determinado tempo tornar-se o mais vendido em algum país ou em parte do mundo. Foi o caso dos Versos Satânicos, de O Nome da Rosa e outros.
         São ainda de Edgar Morin as seguintes observações: “Em certo sentido aplicam-se as palavras de Marx: “a produção cria o consumidor… A produção produz não só um objeto para o sujeito, mas também um sujeito para o objeto”.
         De fato, a produção cultural cria o público de massa, o público universal. Ao mesmo tempo, porém, ela redescobre o que estava subjacente: um tronco humano comum ao público de massa.
         Em outro sentido, a produção cultural é determinada pelo próprio mercado. Por esse traço, igualmente, ela se diferencia fundamentalmente das outras culturas: estas utilizam também, e cada vez mais, as mass-media (impresso, filme, programas de rádio ou televisão), mas têm um caráter normativo: são impostas, pedagógica ou autoritariamente (na escola, no catecismo, na caserna) sob forma de injunções ou proibições. A cultura de massa, no universo capitalista, não é imposta pelas instituições sociais, ela depende da indústria e do comércio, ela é proposta. Ela se sujeita aos tabus (da religião, do Estado etc.), mas não os cria; ela propõe modelos, mas não ordena nada. Passa sempre pela mediação do produto vendável e por isso mesmo toma emprestadas certas características do produto vendável como a de se dobrar à lei do mercado, da oferta e da procura. Sua lei fundamental é a do mercado.”
         Em outra página o filósofo francês acrescenta: “No entanto, se nos colocarmos do ponto de vista dos próprios mecanismos do consumo e do ponto de vista do tempo, podemos considerar que ao longo dos anos, os temas que desabrocham ou desfalecem, evoluem ou se estabilizam no cinema, na imprensa, no rádio ou na televisão, traduzem uma certa dialética da relação produção-consumo.
         Não se pode colocar a alternativa simplista: é a imprensa (ou o cinema, o rádio) que faz o público, ou é o público que faz a imprensa?
         A cultura de massa é imposta do exterior ao público (e lhe fabrica pseudo-necessidades, pseudo-interesses) ou reflete as necessidades do público? É evidente que o verdadeiro problema é o da dialética entre o sistema de produção cultural e as necessidades culturais dos consumidores. Essa dialética é muito complexa, pois, por um lado, o que chamamos de público é uma resultante econômica abstrata da lei da oferta e da procura (é o “público médio ideal” do qual falei) e, por outro lado, os constrangimentos do Estado (censura) e as regras do sistema industrial capitalista pesam sobre o caráter mesmo desse diálogo.
         A cultura de massa é, portanto, o produto de uma dialética produção-consumo, no centro de uma dialética global que é a da sociedade em sua totalidade.”
         Na verdade, o grande problema do livro não está na distribuição, ao contrário do que afirmam algumas pessoas. Porque mesmo que as livrarias * que são poucas no Brasil * aceitassem os livros de todos os escritores, ou de grande parte deles * mesmo assim não estaria garantida a comercialização dos livros editados. Não há leitor para literatura, especialmente poesia e prosa de ficção. A circulação das obras literárias é e deverá ser sempre restrita a outros escritores, estudiosos, pesquisadores, críticos, estudantes etc. Livros com distribuição garantida a todas livrarias e bancas de revistas são aqueles livros produzidos com os ingredientes da violência, cenas de sexo, drogas etc. Os best-sellers norte-americanos são o melhor exemplo desse tipo de “literatura”.
         As livrarias não aceitam livros editados por pequenas editoras, geralmente criadas por um escritor para editar os próprios livros. E quem são os escritores que têm leitores? Os melhores? E quem são os melhores? Geralmente os melhores são eleitos pelos professores de literatura e pelos críticos. Os primeiros, talvez por falta de tempo, já chegam às cátedras das Faculdades de Letras com os mesmos nomes de sempre, os escritores que leram e estudaram: Fernando Pessoa, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Carlos Drummond, Manuel Bandeira e poucos outros. Mesmo grandes poetas e prosadores são esquecidos, como Jorge de Lima. Dirão: daqui a 50 anos outros nomes serão incluídos nessa lista dos melhores. Será a sua vez * dizem, como consolo ao escritor de hoje. O grande público, porém, não conhece esses bons escritores. Isto é, um pequeno número de pessoas, ilustres leitores e estudiosos, seleciona os melhores.
         Moacyr Scliar resumiu a questão escritor-leitor, valendo-se de palavras de outros grandes escritores: “Quem não espera um milhão de leitores não deveria escrever, dizia Goethe, mas desde então as expectativas têm sido mais modestas. Stendhal: “Escrevo para apenas cem leitores, e desses seres infelizes, amáveis, encantadores, conheço apenas um ou dois”. Arthur Koestler levou mais adiante a fórmula dos “cem leitores”: uma centena, sim, mas que possam ser trocados por dez ao cabo de uma década e por um único no fim de um século.” (Revista Literatura n.º 3, dezembro, 1992).
         O público de jornal, de revista semanal e de televisão não tem interesse por literatura. Mesmo a literatura mais banal, mais popularesca, mesmo essa não tem grande público. Daí a mídia não ter interesse nela. Ora, a política, nacional e internacional (agora mais do nunca, com a globalização da informação), os esportes, o crime, a música pop têm público, grande público. Daí as muitas páginas nos jornais. E os melhores horários na televisão.
         Eloésio Paulo, em seu recente Teatro às Escuras – Uma Introdução ao Romance de Uilcon Pereira, afirma: “A propósito das relações entre o texto literário e o padrão de comunicação estética estabelecido pelos veículos de comunicação de massa, o poeta João Cabral de Melo Neto já apontava em 1954 para a necessidade de um comércio maior entre as formas poéticas e novos meios de difusão. Cabral destacava principalmente as virtualidades do rádio como difusor da poesia; apresentava, como uma direção inevitável para o poeta moderno, reformular sua posição enquanto agente de um processo de comunicação, ao mesmo tempo mantendo a alta elaboração estética na base de seus objetivos e procurando abrir-se à possibilidade de atingir o grande público. Via-se o poeta, portanto, diante de um impasse representado pela concorrência dos mass media, que por outro lado encerrava, dialeticamente, a própria saída ou solução, já que o tornar a poesia capaz de “entrar em comunicação com os homens nas condições que a vida moderna oferece” era, para Cabral, a “contraparte orgânica” da luta pela expressão poética desobstruída do tom oratório característico do lirismo tradicional.”
         E diz mais: “Se a ficção do período (anos 50 e 60) não ignorava a cultura de massas, é certo que encerrou a problemática em outros termos, distanciando-se do mundo racionalmente administrado da sociedade em industrialização para mergulhar nos impasses da consciência individual e nas indagações metafísicas, coincidindo os escritores mais importantes numa pesquisa estética em nada dirigidas para a massificação da literatura.”
         Há alguns anos os jornalistas eram, antes de tudo, escritores, como Machado de Assis e outros. Os donos dos jornais ou os editores-chefes precisavam desses escritores. Sem eles, não teriam como editar seus periódicos. Daí também os suplementos literários, que certamente nunca ressurgirão. Não havia ainda os cursos de comunicação. Mesmo assim, ainda hoje temos os artigos assinados, sim. Porém seus autores geralmente são políticos profissionais, sociólogos ou economistas. Que eventualmente podem ser escritores.
         Edgar Morin cita um trecho de Robert Musil, em O Homem sem Qualidades, quando o personagem Arnheim pergunta: “Você não notou que nossos jornalistas ficam sempre melhores e nossos poetas sempre piores?” E tira sua conclusão: “Efetivamente, os padrões se enchem de talento, mas sufocam o gênio. Um copy desk do Paris-Match escreve melhor que Henri Bordeaux, mas não saberia ser André Breton.”

Fontes:
http://www.vastoabismo.xpg.com.br/
_____________________________________________________
Estante de Livros
Nilto Maciel
Contos Reunidos I e II

Artigo por José Feldman, sob o título, “Nilto Maciel: Mago das Almas”

O que podemos falar de Nilto? Antes uma breve apresentação do escritor, para passarmos aos comentários sobre seus textos.
Nilto nasceu em Baturité, cidade localizada ao norte do Ceará, cerca de 100 km, cuja população é de cerca de 30 mil habitantes. Foi o ano de 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará em 70. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 regressou a Fortaleza onde reside atualmente. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil.
Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999).
Deste modo, no total são 188 contos para que o leitor possa viajar em suas folhas, entre o trágico e a comédia, a paisagem nordestina e a cidade grande. Seus contos fazem aflorar as nossas emoções mais profundas, desde a revolta pela vida de pessoas, como a Última Guerra de Hiroito, e mesmo dos animais (Carlim). Como no caso de Carlim, a revolta pela injustiça da vida de uns, misturada à tristeza que nos domina pelo resultado final. Mas, Nilto não para só em sentimentos de desconfortos, segue adiante percorrendo cada emoção, a dúvida, a curiosidade que o ser humano possui, como neste que classifico como “fantástico conto fantástico”, O Riso do Gato, em que coloca em um caldeirão a dúvida, o suspense, a curiosidade, o fantástico e o humor.
Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.
Segundo João Carlos Taveira, no prefácio do livro de Nilto, Vasto Abismo: “Sua oficina romanesca comporta o absurdo, o fantástico, o linear, o surreal e, não raras vezes, o satírico, o burlesco, o humorístico. Seus temas, por diversos, exploram desde o corriqueiro e trivial triângulo amoroso, passando por perquirições do gênero policial, até o mais intrincado universo psicológico. Carpintaria digna dos melhores mestres da arte ficcional”.
Enfim, Nilto nos faz navegar num oceano de sentidos, com as velas da realidade içadas, mas fazendo-nos entregar-se as ondas da ilusão. Nos leva a enfrentar ventos contrários, hora fazendo com que sejam brisa em nosso rosto, hora tempestades que nos jogam contra os rochedos. Sorrisos, lágrimas, desespero, ansiedade, desejos, sonhos, dores, ressurreição são as águas deste oceano. Em cada conto encontramos um refúgio para a nossa dor, que nos transforma e faz com que cada página seja como o mar a beijar a areia, deixando sua marca.
Contos Reunidos vol. I e vol. II são momentos de magia que nos fazem transgredir as fronteiras do conhecimento e do desconhecido. Nilto faz com que o leitor deixe de ser um mero espectador e seja personagem integrante de seus textos.
_____________________________________________________
XI Concurso de Trovas UBT-Maranguape/2015

PRAZO MÁXIMO: Até 30 de abril de 2015

Retificando o comunicado anterior, só serão aceitas as trovas enviadas por correio, segundo as normas da União Brasileira dos Trovadores.

Registrar se é NOVATO ou VETERANO abaixo da trova, de acordo com a orientação da UBT-Nacional].

Será considerado Novato aquele trovador que não obteve até a divulgação deste regulamento 03 (três) classificações em concursos de trova oficiais da UBT em nível nacional.

Nacional/Internacional

Novatos e veteranos [duas trovas por tema – constar o tema na trova]:

“Razão” (Lírica/Filosófica) e
“Garoto (a)” (Humorística)

ABERTO
(a todos os trovadores – Nacional / internacional, estadual e municipal – Novato e veterano):

Destinado a homenagear a profissão de Jornalista

duas trovas–constar o tema na trova]:

“Jornalista (s)” (Lírica/Filosófica)

MUNICIPAL

duas trovas – constar o tema na trova

“Cascatinha” (Lírica/Filosófica)

[com referência ao Cascatinha Clube de Serra de Maranguape ou Cascatinha Park Hote]

ENDEREÇO PARA REMESSA DAS TROVAS:

XI Conc. Trovas UBT-MARANGUAPE/2015
Fco. Moreira Lopes
Rua Major Agostinho, 558 – Centro
CEP: 61.940-090 – MARANGUAPE/CE

Para todas as modalidades e âmbitos (nacional, internacional, estadual, e municipal)deverá constar no envelope como remetente Luiz Otávio, e o mesmo endereço do destinatário.

PRAZO PARA REMESSA: Até 30 de abril de 2015.

A premiação com previsão para 28.06.2014.
Os diplomas serão enviados pela internet. Não serão concedidos diplomas de participação especial em nenhum dos âmbitos e temas.

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to