Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 25 de junho de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 409)

Uma Trova de Curitiba/PR
Araceli Friedrich
Quando estou só e silente,
eu me ponho a meditar
porque o coração da gente
dói quando começa a amar.
Uma Trova de São Paulo/SP
J. B. Xavier
A beleza da poesia
- Eu vou contar pra você -
não vem da mente que a cria,
e sim, d'alma de quem lê!
Um Poema de Porto/Portugal
Augusto Gil
Balada da Neve
Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.
É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…
Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.
Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
. Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho…
Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…
E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…
Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…
E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.
Uma Trova Humorística de São Paulo/SP
Selma Patti Spinelli
A plateia se espantou…
o ator saiu do roteiro
desesperado, e gritou:
– “Meu reino por um banheiro!”
Uma Trova de São Paulo/SP
Domitilla Borges Beltrame
Com altivez, disse um dia:
- “Ir procurar-te? Jamais!”
Mas a saudade vadia
não respeita o “nunca mais”…
Um Poema de Porto/Portugal
Augusto Gil
DE PROFUNDIS CLAMAVI AD TE DOMINE
Ao charco mais escuro e mais imundo
Chega uma hora no correr do dia
Em que um raio de sol, claro e jucundo
O visita, o alegra, o alumia;
Pois eu, nesta desgraça em que me afundo
Nesta contínua e intérmina agonia,
Nem tenho um hora só dessa alegria
Que chega às coisas ínfimas do mundo!...
Deus meu, acaso a roda do destino
A movimentam vossas mãos leais
Num aceno impulsivo e repentino,
Sem que na cega turbulência a domem?
Senhor! Não é um seixo o que esmagais;
Olhai que é - o coração de um homem!...
Uma Quadra Popular
Autor Anônimo
Esta noite à meia-noite,
me cantava um gavião,
parecia que falava:
– Maria, meu coração.
Uma Trova Hispânica da França
Carlos Imaz Alcaide
La música celestial
que sale de la garganta
ella es como el manantial
que cuando nace ya canta.
Um Poema de Porto/Portugal
Augusto Gil
MANHÃ NO CAMPO
Manhã no campo. O som, a luz, o aroma, a cor,
Fundem-se alegremente em galas festivais.
A luz por todo o espaço, o aroma em cada flor,
O som na passarada, a cor nos vegetais.
É toda a natureza um êxtase de amor.
Por sob o céu, do tom das rosas outonais,
Concebe o lírio branco, a laranjeira em flor,
A abelha delicada, a pomba dos pombais.
O vento sul dissipa as brumas do nascente,
E como tem chovido a Primavera inteira,
Vai quase a transbordar o leito da ribeira.
O sol envolve o azul num longo beijo ardente
E pelo espaço vão, em fantasiosas linhas,
As boemias de além-mar, as meigas andorinhas.
Trovadores que deixaram Saudades
Cornélio Pires
Tietê/SP (1884  –1958) São Paulo/SP
Foi-se a infância fugidía...
Choro - a saudade é um açoite -
o tempo em que amava o dia
e tinha medo da noite!
Uma Trova de São Paulo/SP
Darly O. Barros
Frustram-me tantos fracassos:
– mais um cristal se estilhaça,
me devolvendo os teus traços,
nos estilhaços da taça...
Um Poema de Porto/Portugal
Augusto Gil
ORAÇÃO
Outono. Morre o dia.
Cai sobre as coisas plácidas e calmas
Um véu de sombra e melancolia
Que dulcifica e embrandece as almas.
Todo o meu ser se invade
De enervantes e místicas doçuras,
De mansidão, de paz, de suavidade,
De sentimentos bons, de ideias puras.
No coração perpassa
Uma piedade e compaixão serena
Por todos os validos da desgraça,
Por tudo quanto sofre e quanto pena:
Pelos pequenos entes
Sem abrigo, sem lar e sem carinho,
Que são como avezinhas inocentes
Postas por mão cruel fora do ninho;
Pelos encarcerados
Que lançam, dentre as grades da cadeia,
Ao ar, à luz, aos montes afastados
A vista aflita e de amarguras cheia;
Pelos que vão pedindo
De porta em porta o pão de cada dia,
Tristes, que sempre a morte olham sorrindo
Porque ela unicamente os alivia;
Pelos que andam distantes
Entre cruezas, fomes e perigos,
Sentindo a nostalgia lancinante
Da pátria, da família, dos amigos;
E numa emoção crente,
Numa fé viva, forte e benfazeja,
A Deus suplico fervorosamente
Que os guie, que os socorra, que os proteja.
Uma Trova de São Paulo/SP
Marly Rondan
Amor,  só quatro letrinhas,
sugerindo movimento,
correndo nestas quadrinhas
como luz e encantamento.
Um Haicai de Curitiba/PR
Rosalva do Rocio Freitas Brüsch
Por um momento
As folhas também voam
levadas pelo vento
Um Poema de Porto/Portugal
Augusto Gil
A GOTA DE ÁGUA
A lágrima triste
Que por ti surgiu
Mal que tu a viste,
Quase se não viu...
Como quem desiste,
Logo se deliu...
E, mal lhe sorriste,
Logo te sorriu!
Já não era a dor,
O sinal aflito
Duma funda mágoa;
Era o infinito
— O infinito amor,
Numa gota de água...
Uma Trova de São Paulo/SP
Humberto Rodrigues Neto
Minha vida passa, e enquanto
passa a vida eu penso nela;
só não passa este quebranto
que eu passo na ausência dela!
Uma Aldravia de Juiz de Fora/MG
Cecy Barbosa Campos
Pássaros
cumprimentam
o
sol
Sinfonia
matinal
Um Poema de Porto/Portugal
Augusto Gil
SOMBRA DE FUMO
Fumo, no entanto, alguma coisa é:
Porém sombra de fumo não é nada
Para o olhar que não abranja até
Onde a matéria já não faz jornada...
Gênios sutis (ou de ilusória fé)
Há, para quem a sombra assim gerada
É o irreal a palpitar ao pé
Da ansiedade duma chama ansiada.
 Esses, quando uma acha se incendeia,
Veem no fumo leve que se ateia
E na sombra que dele se produz,
As falas duma língua mal sabida,
A conversa do nada com a vida,
O diálogo do caos com a luz...
Uma Trova de São Paulo/SP
Divenei Boseli
Disfarço a mágoa com jeito
de quem crê no recomeço
e o disfarce é tão perfeito
que nem eu me reconheço…
Um Poetrix de Salvador/BA
Goulart Gomes
Rosa-dos-Ventos
olhos de Capitu
desgovernando-me a bússola
sem noite, sem céu, sem sul
Um Poema de Porto/Portugal
Augusto Gil
À MINHA MÃE
As ilusões semelham-se a um colar
 De pérolas alvíssimas, de espuma.
 Se o fio que as segura se quebrar,
 Caem no chão, dispersas, uma a uma.
 Caem no chão, dispersas, uma a uma,
 Se o fio que as segura se quebrar;
 Mas entre tantas sempre fica alguma,
 Sempre alguma, suspensa, há de ficar.
 Das minhas ilusões, dos meus afetos,
 Longo colar de amores prediletos,
 Muitos rolaram já no pó também.
 Um só dentre eles não cairá jamais:
 Aquele que eu mais prezo entre os demais,
 — O teu amor santíssimo de Mãe.
Um Haicai de Curitiba/PR
Álvaro Posselt
Viagem astral
Caiu um pedaço da lua
no meu quintal
Uma Trova de São Paulo/SP
Héron Patrício
Desde os tempos de criança
conheço a grande verdade:
– jovem vive de esperança,
velho vive da saudade!
Um Poema de Porto/Portugal
Augusto Gil
GRÃO DE INCENSO
 Encontraste com ar cansado
Numa igreja fria e triste.
Ajoelhei-me ao teu lado
– E nem ao menos me viste...
 Ficaste a rezar ali,
Naquela imensa tristeza.
Rezei também, mas a ti.
– Que aos anjos também se reza...
 Ficaste a rezar até
Manhã dentro, manhã alta.
Como é que tens tanta fé
E a caridade te falta?...
Recordando Velhas Canções
Hoje
(1969)
Taiguara
Hoje
trago em meu corpo as marcas do meu tempo,
meu desespero,
A vida num momento,
a fossa, a fome, a flor, o fim do mundo
Hoje
trago no olhar imagens distorcidas, cores, viagens,
Mãos desconhecidas trazem a lua,
a rua às minhas mãos, mas
Hoje
as minhas mãos enfraquecidas e vazias
procuram nuas
Pelas luas, pelas ruas,
na solidão das noites frias por você
Hoje
homens sem medo aportam no futuro,
eu tenho medo,
Acordo e te procuro,
meu quarto escuro é inerte como a morte
Hoje
homens de aço esperam da ciência,
eu desespero
E abraço a tua ausência,
que é o que me resta vivo em minha sorte, ah
Sorte,
eu não queria a juventude assim perdida
Eu não queria andar morrendo pela vida
Eu não queria amar assim como eu te amei
Sorte,
eu não queria a juventude assim perdida
Eu não queria andar morrendo pela vida
Eu não queria amar assim   
como eu te amei
Uma Trova de São Paulo/SP
Campos Sales
Cobra a vida o preço justo,
por nossos erros fatais,
ser feliz a qualquer custo,
é sempre caro demais !
Um Poema de Porto/Portugal
Augusto Gil
O PASSEIO DE SANTO ANTÓNIO
Saíra Santo António do convento,
A dar o seu passeio costumado
E a decorar, num tom rezado e lento,
Um cândido sermão sobre o pecado.
.
Andando, andando sempre, repetia
O divino sermão piedoso e brando,
E nem notou que a tarde esmorecia,
Que vinha a noite plácida baixando…
E andando, andando, viu-se num outeiro,
Com árvores e casas espalhadas,
Que ficava distante do mosteiro
Uma légua das fartas, das puxadas.
Surpreendido por se ver tão longe,
E fraco por haver andado tanto,
Sentou-se a descansar o bom do monge,
Com a resignação de quem é santo…
.
O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade,
O Menino Jesus baixou do céu,
Pôs-se a brincar com o capuz do frade.
.
Perto, uma bica de água murmurante
Juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Os rouxinóis ouviam-se distante.
O luar, mais alto, iluminava mais.
.
De braço dado, para a fonte, vinha
Um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha,
Ele trazia… o coração no peito.
.
Sem suspeitarem de que alguém os visse,
Trocaram beijos ao luar tranquilo.
O Menino, porém, ouviu e disse:
- Ó Frei António, o que foi aquilo?…
.
O Santo, erguendo a manga de burel
Para tapar o noivo e a namorada,
Mentiu numa voz doce como o mel:
- Não sei o que fosse. Eu cá não ouvi nada…
Uma risada límpida, sonora,
Vibrou em notas de ouro no caminho.
- Ouviste, Frei António? Ouviste agora?
- Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho.
.
- Tu não estás com a cabeça boa…
Um passarinho a cantar assim!…
E o pobre Santo António de Lisboa
Calou-se embaraçado, mas por fim,
Corado como as vestes dos cardeais,
Achou esta saída redentora:
- Se o Menino Jesus pergunta mais,
… Queixo-me à sua mãe, Nossa Senhora!
Voltando-lhe a carinha contra a luz
E contra aquele amor sem casamento,
Pegou-lhe ao colo e acrescentou: - Jesus,
São horas… E abalaram pro convento.
Um Haicai de Magé/RJ
Benedita Azevedo
No quintal da casa,
as folhas do pé de amora
ensombram o muro.
Uma Trova de São Paulo/SP
Marilúcia Rezende
Lembranças do meu passado,
tempos felizes, risonhos...
O baleiro era encantado
e os doces chamavam sonhos...
Um Poema de Porto/Portugal
Augusto Gil
LUAR DE JANEIRO
Luar de janeiro,
Fria claridade
Á luz dele foi talvez
Que primeiro
A boca dum português
Disse a palavra saudade...
Luar de platina,
Luar que alumia
Mas que não aquece,
Fotografia
D'alegre menina
Que há muitos anos já... envelhecesse.
Luar de janeiro,
O gelo tornado
Luminosidade...
Rosa sem cheiro,
Amor passado
De que ficasse apenas a amizade...
Luar das nevadas,
Algido e lindo,
Janelas fechadas,
Fechadas as portas,
E ele fulgindo,
Límpido e lindo,
Como boquinhas de crianças mortas,
Na morte geladas
-E ainda sorrindo...
Luar de janeiro,
Luzente candeia
De quem não tem nada,
-Nem o calor dum braseiro,
Nem pão duro para a ceia,
Nem uma pobre morada...
Luar dos poetas e dos miseráveis,
Como se um laço estreito nos unisse,
São similháveis
O nosso mau destino e o que tens...
De nós, da nossa dor, a turba - ri-se
– E a ti, sagrado luar ... ladram-te os cães!
Hinos de Cidades Brasileiras
Estado do Pará
Salve, ó terra de ricas florestas
Fecundadas ao sol do Equador
Teu destino é viver entre festas
Do progresso, da paz e do amor!
Salve, ó terra de ricas florestas
Fecundadas ao sol do Equador!
Ó Pará, quanto orgulhas ser filho
De um colosso, tão belo e tão forte
Juncaremos de flores teu trilho
Do Brasil, sentinela do Norte
E a deixar de manter esse brilho
Preferimos mil vezes a morte!
Salve, ó terra de rios gigantes
D'Amazônia, princesa louçã!
Tudo em ti são encantos vibrantes
Desde a indústria à rudeza pagã
Salve, ó terra de rios gigantes
D'Amazônia, princesa louçã!
Ó Pará, quanto orgulhas ser filho
De um colosso tão belo e tão forte
Juncaremos de flores teu trilho
Do Brasil, sentinela do Norte
E a deixar de manter esse brilho
Preferimos mil vezes a morte!
Uma Trova de São Paulo/SP
Roberto Tchepelentyky
A vida é um fogo de palha
e o tempo se mostra algoz,
mais parece uma fornalha
onde a palha...  somos nós! …
Um Poema de Porto/Portugal
Augusto Gil
O EDITAL
Manuel era um petiz de palmo e meio
(ou pouco mais teria na verdade),
de rosto moreninho e olhar cheio
de inteligente e enérgica bondade.
Orgulhava-se dele o professor…
No porte e no saber era o primeiro.
Lia nos livros que nem um doutor,
fazia contas que nem um banqueiro…
Ora uma vez ia o Manuel passando
junto ao adro da igreja. Aproximou-se
e viu à porta principal um bando
de homens a olharem o quer que fosse.
Empurravam-se todos em tropel,
ansiosos por saberem, cada qual,
o que vinha a dizer certo papel
pregado com obreias no portal…
“Mais contribuições!” – supunha um.
“É pras sortes, talvez” … outro volvia.
Quantas suposições! Porém, nenhum
sabia ao certo o que o papel dizia.
Nenhum (e eram vinte os assistentes)
sabia ler aqueles riscos pretos.
Vinte homens e talvez inteligentes,
mas todos – que tristeza analfabetos!…
Furou Manuel por entre aquela gente
ansiosa, comprimida, amalgamada,
como uma formiguinha diligente
por um maciço de erva emaranhada.
Furou, e conseguiu chegar adiante.
Ergueu-se nos pezitos para ver;
mas o edital estava tão distante,
lá tanto em cima, que o não pôde ler.
Um dos do bando agarrou-o então
e levantou-o com as mãos possantes
e calejadas de cavarem pão…
Houve um silêncio entre os circunstantes.
E numa clara voz melodiosa
a alegre e insinuante criancinha
pôs-se a dizer àquela gente ansiosa
correntemente o que o edital continha.
Regressava o abade do passal
a caminho da sua moradia.
Como era já idoso e via mal,
acercou-se para ver o que haveria…
E deparou com esse quadro lindo
duma criança a ler a homens feitos,
dum pequenino cérebro espargindo
luz naqueles cérebros imperfeitos…
Transpareceu no rosto ao bom abade
um doce e espiritual contentamento,
e a sua boca, fonte de verdade,
disse estas frases com um brando acento:
Olhai, amigos, quanto pode o ensino…
Alguns de vós são pais, outros avós,
pois só por saber ler, este menino
— É já maior do que nenhum de vós!
Augusto César Ferreira Gil nasceu na freguesia de Lordelo, Porto, a 31 de Julho de 1870; por um acaso, pois a sua mãe  encontrava-se ali acidentalmente. E viria a falecer a 26 de Fevereiro de 1929, em Lisboa.
Advogado e poeta português, viveu praticamente toda a sua vida na Cidade da Guarda onde colaborou e dirigiu alguns jornais locais.
Augusto Gil passou a maior parte da sua vida na mais alta cidade de Portugal, Guarda, a "sagrada Beira", de cuja paisagem encontramos reflexos em muitos dos seus poemas e de onde os pais eram oriundos. Aqui fez os primeiros estudos, frequentou, depois, o Colégio de S. Fiel em Louriçal do Campo, após o que regressou à Guarda, mais tarde formou-se em Direito na Universidade de Coimbra.
Começou a exercer advocacia em Lisboa, tornando-se mais tarde diretor-geral das Belas-Artes. Na sua poesia notam-se influências do Parnasianismo e do Simbolismo. Influenciado por Guerra Junqueiro, João de Deus e pelo lirismo de António Nobre, a sua poesia insere-se numa perspectiva neo-romântica nacionalista.
Na sua poesia notam-se influências do parnasianismo (sobretudo nos primeiros livros) quer de João de Deus e do seu domínio do soneto, quer de Cesário Verde no tom realista da descrição urbana e no coloquialismo; percebe-se igualmente alguma assimilação dos processos simbolistas (nomeadamente de Verlaine e de Eugênio de Castro). Influenciado pelo lirismo de António Nobre, a sua poesia insere-se numa perspectiva neo-romântica nacionalista.
Com efeito, deste encontro de tendências ressalta a sua característica mais pessoal: uma sensibilidade tipicamente portuguesa, de um lirismo terno e suave, atravessando, por vezes, de um humor agreste e sarcástico, traduzido em várias formas de ironia e auto-ironia.
Pode-se afirmar que foi melhor versejador do que poeta, pois é notável a forma e destreza como a quadra popular e o escrúpulo que põe tanto na forma como na metrificação.
As suas produções, entre o sentimental e o naturalista, tornaram-no quase tão popular como Guerra Junqueiro, sobretudo depois da publicação de Luar de Janeiro, livro que teve várias reedições.
Os restos mortais de Augusto Gil repousam num jazigo localizado logo à entrada do cemitério municipal da Guarda, ostentando dois versos de Alba Plena: “E a pendida fronte, ainda mais pendeu.../E a sonhar com Deus, com Deus adormeceu...”
Bibliografia:
Poesia:
Musa Cérula (1894), Versos (1898), Luar de Janeiro (1909), O Canto da Cigarra (1910), Sombra de Fumo (1915), Alba Plena (1916), O Craveiro da Janela (1920), Avena Rústica (1927) e Rosas desta Manhã (1930).
Crónicas:
Gente de Palmo e Meio (1913).

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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