Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Contos do Egito Antigo (O Tesouro de Rhampsinit)

0 rei Rhampsinit possuía um tão grande tesouro que ninguém, nenhum de seus sucessores, o teve nem maior, nem perto do que ele era. Para conservá-lo com segurança, ele mandou construir uma sala de pedra talhada e quis que uma das suas muralhas se projetasse para além do corpo da construção e dos limites do palácio; no entanto, o construtor talhou e colocou uma pedra de tal modo perfeita que nem dois homens, quanto mais um só, poderiam tirá-Ia ou removê-Ia.

Construída a sala, o rei ali reuniu todas as suas jóias. Algum tempo depois, o pedreiro-arquiteto, ao sentir que se aproximava do final de sua vida, reuniu os filhos, que eram dois, e contou-lhes como realizara a empreitada e o artifício que havia usado ao construir a câmara do rei, a fim de que eles pudessem viver sem problemas de dinheiro. E depois de claramente ter-lhes feito entender a maneira de tirar a pedra, deu certas instruções e avisou-os de que, se elas fossem bem observadas, seriam eles os grandes tesoureiros do rei. E em seguida, expirou. E seus filhos não tardaram de pôr mãos à obra: foram à noite até o palácio do rei e, achando sem dificuldades a tal pedra, conseguiram deslocá-Ia e saíram de lá com grande quantidade de ouro. Porém, quando quis o destino que o rei fosse visitar sua sala do tesouro, encheu-se: ele de espanto ao perceber que suas ânforas estavam desfalcadas, e ficou sem saber a quem acusar ou de quem suspeitar, pois as marcas que colocara estavam intactas, e a sala muito bem fechada e refechada. E voltando lá por duas ou três vezes para constatar que suas ânforas continuavam se desfalcando, resolveu ele afinal, a fim de impedir que os ladrões ali voltassem com tanta facilidade, mandar construir armadilhas e colocá-Ias bem perto das ânforas onde estavam os tesouros.

Retornaram os ladrões, como seria de se esperar, e um deles entrou na câmara e, mal se aproximando de uma das ânforas, viu-se capturado pela armadilha. Percebendo a extensão do perigo, chamou depressa o irmão e mostrou-lhe o estado em que se encontrava, aconselhando-o a ali entrar e que lhe cortasse a cabeça para que ele não viesse a ser reconhecido e assim não prejudicasse também o irmão. Este achou que fazia sentido o que ele lhe dizia e seguiu-lhe enfim o conselho; e depois de repor a pedra, voltou para casa carregando a cabeça do irmão.

Na manhã seguinte, entrou o rei na sua câmara especial; e ao ver o corpo do ladrão preso na armadilha, e sem cabeça, muito espantado ficou já que não havia vestígio nem de entrada nem de saída do recinto. E, matutando como deveria proceder em tal circunstância, mandou que pendurassem o corpo do morto na muralha da cidade e encarregassem alguns guardas de prenderem e levarem à sua presença aquele homem ou mulher que vissem chorar ou demonstrar pena do degolado.

Ao ver o corpo desta forma exposto, a mãe, pela grande dor que sentia, exigiu do outro filho que, fosse lá como fosse, tratasse de trazer o cadáver do irmão, ameaçando-o de, caso se negasse a fazê-lo, denunciá-lo ao rei como o ladrão do tesouro. O filho, notando que a mãe falava sério, e que de nada lhe valiam suas argumentações, concebeu o seguinte ardil: mandou que albardassem alguns asnos com odres cheios de vinho e pôs-se a andar com eles, tocando-os com uma vara. Ao chegar ao local onde estavam os guardas, isto é, no local do morto, desatou dois ou três de seus odres e, vendo o vinho escorrendo pelo chão, começou a esmurrar a própria cabeça e a praguejar, como se não soubesse para qual dos asnos devia se voltar em primeiro lugar. Os guardas, ao perceberem que grande quantidade de vinho se derramava, acorreram até lá com vasilhas, considerando o ganho que teriam se apanhassem o vinho perdido. O mercador pôs-se então a xingá-los, dando sinais de viva indignação. Mas os guardas mostraram-se gentis e aos poucos ele foi se acalmando; moderou então sua raiva, afastando por fim os asnos do caminho para tornar a carregá-los; demorando-se no entanto com pequenas conversas com uns e outros, tanto que um dos guardas disse uma pilhéria ao mercador, que riu e até lhe deu, ainda por cima, um odre de vinho. E então os guardas resolveram sentar-se ali mesmo para continuar a beber, pedindo ao mercador que ficasse e bebesse com eles, o que foi aceito; e vendo que eles revelavam nisso grande prazer, o mercador ofereceu-lhes o resto de seus odres de vinho. 

Quando estavam já caindo de bêbedos, viram-se dominados pelo sono e adormeceram ali mesmo. O mercador esperou até alta noite; depois foi despendurar o corpo do irmão e, rindo-se dos guardas, raspou-lhes a todos a barba da face direita. Colocou o corpo do irmão sobre um dos asnos e tocou-os todos em direção de casa, executando assim a
ordem de sua mãe.

No dia seguinte, quando o rei tomou ciência de que o corpo do ladrão fora roubado misteriosamente, ficou muito aborrecido e, querendo porque querendo encontrar o autor de tal astúcia, fez tal coisa que, por mim, mal consigo acreditar: abriu a casa da sua filha e mandou que ela recebesse quem quer que por prazer viesse a procurá-Ia, indiferente de quem fosse, com a condição de que ela, antes de se deixar tocar, induzisse cada um deles a dizer o que fizera em sua vida de mais prudente e de mais perverso; aquele que lhe contasse o caso do ladrão deveria ser detido por ela, que não podia deixá-lo sair do seu quarto. A princesa obedeceu ao pai; mas o ladrão, ao perceber para que objetivo a coisa era feita, quis ficar a cavaleiro de todas as astúcias do rei e deu-lhe o seguinte contragolpe: cortou o braço de um recém-falecido, ocultou-o sob suas próprias vestes e foi ao encontro da moça. Logo que entrou, ela o interrogou, como fizera com os outros, e ele contou-lhe que o crime mais monstruoso por ele cometido fora o de arrancar a cabeça do irmão, preso na armadilha do tesouro do rei. Por outro lado, a ação mais avisada que praticara fora despendurar aquele seu mesmo irmão depois de ter embriagado os guardas. Assim que isso tudo ouviu, ela procurou detê-lo; mas o ladrão, valendo-se da escuridão do quarto, estendeu-lhe a mão morta que trazia oculta, e que ela apertou como se fosse a mão daquele com quem falava; enganava-se, porém, pois o ladrão facilmente encontrara como se escapar.

Quando este fato foi relatado ao rei, ele mostrou-se especialmente espantado com a astúcia e ousadia de tal homem. Por fim, ordenou que se fizesse anunciar por todas as cidades do seu reino que ele perdoava tal pessoa, e que se ela quisesse vir se apresentar ao rei, ele lhe concederia largos favores. O ladrão deu crédito à publicação real e foi ter com ele. Quando o rei o viu, ficou assombrado; no entanto, deu-lhe a filha em casamento. Pois - isso pensou ele - os egípcios eram superiores a todos os demais homens, e ele era superior aos próprios egípcios...

Fonte:
COSTA, Flávio Moreira da (organizador). Os 100 Melhores Contos de Crime e Mistério da Literatura Universal. RJ: EDIOURO, 2002.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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