Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Luci Collin (Poemas Escolhidos)


PLAY IT, SAM

Se não tinha lua
Se nua aquela cena toda
Se não teve flores
Se dores o que irrompeu
Se o vento levou
Até o último tango
Até o último trago
Até a última gota
Se não teve jura
Se você não veio

Não tinha
Não teve
Não veio

A gente não tem um amor
Pra se sentir triste
__________________ 

CONSPECTIVO

Consagração das ausências
na debandada dos verdes
nos ninhos desabitados

Até as visitas rareiam

Malogro das sementes
Desarrimo das mudas
Gorada das enxertias

Lenha que crepita
Chá e reminiscências

Olho pela janela:

do limoeiro, a coruja me fita impassível
                    - tem este junho divisado

Da paisagem
nenhum ocre que não seja
cumprir-se calmamente
a invernosa razão
dos existentes
__________________ 

 HUPÓNOIA

dos restos
eu fiz uma história
fui recolhendo folhas soltas
recuperei desperdícios
e fiz um rascunho brotar

dos risos
eu fiz uma história
fui recompondo esquecidos
rebatizei luz e escuros
e fiz a memória transbordar

de avessos
da minha aventura
vim segredar os contornos
expor silêncios que supuram
eu vim aos poucos confessar
: eu fiz a escolha dos loucos
fazendo valer da fala os ecos
no cumprimento das juras
eu fiz uma noite
voltar
__________________ 

ORA

Com aquele amor eu rascunhei eternidades
Plantei e colhi tresvarios
Ouvi os risos orvalhando
E então admiti todos os blefes

Com o outro eu rastreei recônditos
Comi e dormi sobre o linho
Ouvi as auroras partindo
E então reconheci os entretantos

Com este rebatizei absolutos
(Encontro das frases no estrelo)
E um indivisível se biparte
E aquilo não miscível se conjuga

A maçã que não se devia agora já foi
__________________ 

ESPÉCIE

vestido e tempo na caixa
só o relógio compreendeu o rigor dos pactos
as plantas do vaso não
o pó sobre os móveis não
as botas num canto não

e tudo fora de moda
vincos e adamascados
falar em silêncio
esperar pela conjuntura
regar imutáveis

acreditar naquele telefonema
é quase servir conhaque a fantasmas

até as escadas mentem
até o gelo no copo
a lâmina de rematado aço
deixa vazar árido murmúrio

rostos quedarão desconhecidos
depois de um tempo o entrevisto se firma

na lixeira a presença dura dos papéis rasgados
e por dentro um infinito de exclamações
__________________ 

O QUE CONTA

    na vida sabedoria
(que o contrário se prove)
    é sem qualquer teoria
         tirar dez
         naquela prova
                         dos nove
__________________ 

 ATENUANTE

entre as mentiras que invento
e aquelas que os sábios ensinam
as minhas

                 — preto no branco —
                são brancas 
                                     mentiras
         que, dando sorte,
                                   inda rimam
__________________ 

 DESSA FORMA

as palavras são flamas
milhas talvez
veios

um apelo denso
este assim imenso
que enfim se faz
escutar

contando a história dos dias
este exercício semelha
a trajetória do pêndulo
cumprindo a eterna aventura
de impresumível desfecho

                                      ora inicio
                                      ora meio
                                    ora extremo
__________________ 

ONÍMODO

dentro de mim
alguma coisa mais do que pulsa
dança
mais do que arde
ferve
mais do que soa
freme

mais do que muito
— completamente
mais do que às vezes
— sempre

insurge
bem mais do que sugere

sente

tanta coisa
desta alguma coisa

que nos maravilhe
sentir

          — sem encobrir coisa alguma
__________________ 

LOAS

               os pássaros
          que cantam á noite
peludos           e         obscuros
              são serenos
vadios           e           ¡nocentes 
             em sua lógica
             peluda e obscura

com ela vigiam a noite
mensuram a noite
regem
dominam

                    louvam

no escuro
cantar
o escuro

                              não bem com salmos 
                              mas com gritos
__________________ 

PASSADO A LIMPO

despregar
num lance definitivo
a máscara grudada ao rosto

retirar
a trava que nos encobre
o pálido vero da pele
quase que nos delindo
a estampa real do siso
(preço que enfim se paga
pelo emprestar-nos
                              o sorriso)

demover
o sarro a borra o limo o véu
mesmo que se revele
as manchas de umidade
no rosto deixado ao tempo
os rombos dos estilhaços
na estampa de papel fino

devassar
o falso da face e as suas vozes

o que sobrar é a verdade

mesmo que ali
as cicatrizes
__________________ 

DE MEU CANTO

Não fabrico o pranto            
  e não pranteio
      o ponto
que angario
que trabalho
      e não encontro
                           pronto.
Não chamo por chamas
      que vislumbro
sem grandes esforços;
           — Sereias cederam-me encanto,
                    e dele não morro;
                    apenas viverei
                                    em meu canto.

     Canto para o sempre
          e ainda
             depois dele;
                ajudo sereias
                       em seus cânticos.

                Entoo palavras belas
                          — verdadeiras.
                Da miséria,
                     lindos os desenhos,
                          se da verdade...

      Mas,   
             não tenho recursos
               que outros
                 deste curso caudaloso
                   em que me espio.

             Perdoem-me incisivos erros;

                Aceitem um meu desvario.
__________________ 

NOÇÃO 

não foi
          para ficar
deitado
          que te puseram
no mundo

não foi
          para ficar
no mundo
              que te fizeram
          deitado

puseram-te
                 inteiro
no me io
            de meio
            mundo

fizeram-te
               meio
no meio
            do mundo
            inteiro

  no fundo
     não foi no mundo
     onde te fizeram

                         foi apenas
                           onde a mão
                         deitou-se

                                        em pé
                                          no chão

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to