Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Olivaldo Júnior (Dama da noite)

Para Marcel Barbosa*

Tinha nascido homem. Vaguinho, como era chamado na infância, virou Violetta quando jovem. Sim, era um homem que se travestia de mulher. Não era drag queen, era um travesti. Podia ser a Geni do Chico Buarque, a Neguinha do Caetano Veloso, ou qualquer outra em que se atire as pedras do preconceito, tão ferrenho ainda hoje. Não conheci o Vaguinho da várzea, dos campos de areia e de bola, das horas e horas de farra infantil. Na verdade, não conheço Vaguinho. Vaguinho é um mistério. Nem mesmo ele se conhece. Aliás, quem é que se conhece? Quem é que pode dizer com toda a certeza do mundo o que é? Ninguém, ninguém pode. Pode-se dizer que vejo Vaguinho passar, dia após dia, rumo ao trabalho. É servente, ajudante, num asilo de velhos. Trata-os com todo o amor que as famílias de origem lhes negam. Os vovôs e as vovós não sabem que, quando sai, Vaguinho, sim, vira a dama da noite.

Ao chegar a casa, toma um banho, e, traço a traço, tinta a tinta, peça a peça, Violetta, sufocada o dia todo, vem à tona, volta ao mar. Não quer dos marinheiros uma noite. Quer a noite azul-marinho nos lábios, na pele, nos olhos que choraram pela surra que o pai lhe deu quando o pegou travestido na rua e o levou à polícia. E, em vez de servir de capacho para os presos, foi respeitado, ninguém tocou nele aquela noite. Sabiam que ele era trabalhador. Gostava de se vestir de mulher e sair sob a lua buscando seu sol, seu sonho de amor. Sonhar é para os fortes? Então ele era forte. Das pedras que lhe jogaram (perdoe-me pela frase feita) fizera um castelo, reduto dos sonhos que ele mesmo tecera com os fios da saudade que tinha... Do que mesmo que ele tinha saudade? Ah, do sorriso da mãe, que sorria gostoso, a risada sem som que inundava o Vaguinho menino, o Vaguinho sem susto das tardes da infância! Agora é noite.

Sozinho, não mora com ninguém, a não ser com o fantasma da mãe, que já se fora. Seu pai, quando o vê na rua, rosna feio para ele e maldiz sua pessoa. Soa mal em sua alma o quanto o pai detesta o filho, ele mesmo, por sinal. Sai da frente e vai-se embora, dobra esquinas que nunca dobrou, quando vê seu pai. Não quer que ele sinta vergonha de alguém que só quer mesmo ser a dama da noite, a estrela mais d'alva que já raiou. Porque Vaguinho, ou Violetta, não incomoda ninguém. Só quer ser alguém para ele mesmo, alguém que ele inventou e pôs o pé na realidade. Ah, o que é realidade, nesse mundo de "meu" Deus!... Não sei, sei apenas que Vaguinho já vem. De cima do salto, ouve um "Fora, viado!", "Olha o sem vergonha!", mas segue seu passo. Sonha com o colo que perdeu há muito tempo, e que, pelo andar da carruagem, chegará bem tarde. Chegará? Será que um dia ainda chegará? "Boa" noite.
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* Marcel Barbosa, psicólogo, me escreveu um e-mail respondendo a um texto que enviei a ele anteriormente com o miniconto O velhinho. A partir de sua resposta, o Dama da noite nasceu. Obrigado, Marcel.

Fonte:
O Autor

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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