Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Olivaldo Júnior (Pierrô)

Começaria o Carnaval sexta-feira, à noite, e só o daria por encerrado ao meio-dia da Quarta-Feira de Cinzas. 

Não tinha como dar errado. Moço ainda, pintou sua cara, vestiu-se à caráter e se fez um Pierrô. Aquela lágrima triste pintada em relevo. "Não, não sei se devo...". Deve. Pinta sua cara, amigo, e que a Colombina o queira! Colombina? Onde estaria ela? Num baile qualquer (no que ele estaria), num filme bem velho, nas ruas antigas, no tempo remoto da delicadeza. Onde o Chico para nos cantar uma marchinha? Não sei. Só sei que o moço sairia logo em busca da flor, da única rosa que o quer bem: a dele. Haveria mesmo essa tal de tampa da panela de que os mais velhos falavam? Hoje há mais tampa que panela, né? 

Bem, ele estava decidido. Vestiu-se todo para isso. Ei! A marchinha ao longe não me deixa mentir! Vai, "menino", vai para o seu sonho! Colombina está na esquina! Arlequim? Sai já de mim! Pega o seu lugar no bloco, desbloqueia a mente e tenha fé. "Quem é você / Adivinha se gosta de mim"... É o Chico, rapaz, vai lá! Que os mascarados sejam por você! Eu, daqui de cima, o vejo ir. Está bonito. Quisera eu ter seu porte alegre, seu compromisso com o próximo beijo, com a próxima lua em seus braços! Palhaço, não achei minha "mina", a Colombina, minha alma, e voo só. Boa sorte, amigo! A noite não é mais uma criança. É uma rua de esperança sob os pés de quem não dança: ama.

Fonte:
O Autor

Gaveta de Haicais n. 16

Passa o temporal
mas um chorão desfolhado
mostra desamparo
Alba Christina Campos Netto
2
Amigos no bar.
A chuva de primavera
estica a conversa.
Alberto Murata
3
Piscada no céu.
Risco de luz pelo espaço,
o trovão estronda.
Analice Feitoza de Lima
4
Frio leve de outono —
Casaco sai da gaveta
logo de manhã...
Benedita Azevedo
5
Moço educado
cumprimento de chapéu.
Festa junina.
Carlos Roque B. de Jesus
6
Cessa o aguaceiro —
Com a roupa colada ao corpo
a moça que passa.
Carol Ribeiro
7
Logo que o botão se abre,
o amor poliniza a flor,
para um novo milagre...
Cyro Armando Catta Preta
8
Peixes acrobatas
vencem a força das águas.
Segue a piracema...
Darly O. Barros
9
Nêsperas maduras,
espalhadas sobre a terra.
Pepitas de ouro.
Dercy de Freitas
10
Num empurra-empurra
dançam as nuvens no céu
ao som do trovão...
Ercy M. M. de Faria
11
Fiel pisa em chão,
os pés desnudos, com fé,
brasas de São João...
Fernando L. A. Soares
12
Galhos entrelaçados,
é impossível subir.
Nêspera madura!
Fernando Ribeiro da Cruz
13
Na frente da casa,
uma explosão do vermelho.
Suinã florida.
Fernando Vasconcelos
14
Acelga no prato.
O menino faz careta
a cada colherada.
Franciela Silva
15
Bando de urubus ciscam
na fímbria das ondas...
Praia no inverno.
Guin Ga
16
Lindas pitangas
ornamentam o pomar.
Os pássaros se alegram.
Helvécio Durso
17
Esqueço da vida,
na batida de pitanga.
E acabo... abatido!
Hermoclydes S. Franco
18
Noite de quermesse
internet mão-a-mão.
Correio elegante.
Héron Patrício
19
Briga ao telefone!
No Dia dos Namorados,
ausências e lágrimas.
Humberto Del Maestro
20
Cessa o aguaceiro —
Um frescor invade o barraco
ao abrir das janelas...
Jeane Carreti
21
Casais no jardim,
os saquinhos de pipocas
e beijos salgados.
João Batista Serra
22
Vaquejada a rigor:
vaqueiro derruba a vaca
dando uma gravata!
João Elias dos Santos
23
Saudade da relva.
Repousa no chão arado
a sombra de brócolis.
José N. Reis
24
Lanço, desatenta,
um longo olhar à janela —
Longe, o aguaceiro...
Kazue Yamada
25
Em vão escuro
bicho-de-pé preenche
dedos prensados.
Larissa Lacerda Menendez
26
Água quente à espera.
Viçoso verde do brócolis,
com medo, amarela.
Lávia Lacerda Menendez
27
Visita à tarde.
Bolo de aipim e café.
Carinho gostoso!
Leonilda H. Justus
28
Têm a mesma idade
o vovô e sua netinha
na festa junina...
Luís Koshitiro Tokutake
29
Pequeninos sóis
suam a boca... são nêsperas!
Saliva dourada.
Marcelino R. de Pontes
30
Arraiá deserto...
Fogueira apagada... – Fim
da festa junina!...
Maria Madalena Ferreira
31
Após simples rango,
que surpresa, a sobremesa:
torta de morango!
M. U. Moncam
32
Pululam pratas.
Mariscada de peixes.
É rio minguante.
Nadyr Leme Ganzert
33
Salada de brócolis
criança deixa de lado
a mãe não convence.
Olga Amorim
34
Arbusto vaidoso
enfeitado de pitanga.
Pássaros namoram.
Olga dos Santos Bussade
35
Um rio minguante
vai deixando à sua margem
peixes fora d’água.
Renata Paccola
36
Um vento sem bússola
levanta o pó no sertão.
Segue a vaquejada.
Roberto Resende Vilela
37
Espuma do mar
uma pequena garça oculta
na vastidão
Rosa Clement
38
No quintal vizinho
cada vez mais passarinhos
vão à nespereira...
Sandra Parana
39
a sala de estar
ganhou aromas de velas.
tempo de advento.
Sérgio Pichorim
40
Visita ao chiqueiro.
Descoberta curiosa,
um bicho-de-pé.
Yedda Ramos Maia Patrício

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Dáguima Veronica (Grinalda de Haicais) VII


Contos do Oriente (O Homem que vendia fantasmas)

Quando Sung Tingpo, de Nanyang, era ainda rapaz estava passeando certa noite quando encontrou-se com uma fantasma. Perguntou à aparição quem era e ela respondeu que era um fantasma. 

- "Quem é você ?" perguntou por sua vez o fantasma. 

Tingpo mentiu e respondeu - "Eu também sou um fantasma." 

O fantasma então quis saber para onde ele ia e Tingpo informou - "Estou a caminho para a cidade de Wanshih." 

- "Também vou para lá," afirmou a aparição. 

Assim puseram-se a caminhar juntos. Após uma milha, se tanto, o fantasma disse que era estupidez estarem andando ambos quando um podia carregar o outro, por turnos. 

- "Ótima ideia," achou Tingpo. 

O fantasma pôs Tingpo às costas e depois de ter andado uma milha disse: - "Você é pesado demais para um fantasma. Tem certeza de que é um fantasma mesmo?" 

Tingpo explicou que ainda era um fantasma novo e que, por conseguinte, ainda pesava um pouco. Tingpo, por sua vez, pôs-se a carregar o fantasma, mas esse era tão leve que tinha a impressão de não estar carregando nada. Assim foram caminhando, revezando-se, até que Tingpo perguntou ao companheiro qual era a coisa que metia mais medo aos fantasmas. 

- "Os fantasmas têm um medo horrível da saliva humana", afirmou o fantasma. 

Assim foram andando, andando até que chegaram a um rio. Tingpo deixou que o fantasma fosse adiante e observou que ele não fazia barulho algum ao nadar, mas quando ele entrou n’água, o fantasma ouviu o estalar na água e pediu-lhe uma explicação. 

Tingpo explicou novamente - "Não se surpreenda, pois ainda sou muito novo e não estou ainda acostumado a atravessar a correnteza." 

No momento em que se aproximavam da cidade, Tingpo começou a carregar o fantasma nas costas apertando-o fortemente. O fantasma pôs-se a gritar e a chorar lutando para apear-se, porém Tingpo o apertou com mais fôrça ainda. 

Ao chegar às ruas da cidade, soltou-o e o fantasma se transformou num bode. Tingpo cuspiu no animal a fim de que não pudesse transformar-se outra vez, vendeu-o por mil e quinhentos dinheiros e foi para casa. 

Eis a razão do ditado de Shih Tsung: "Tingpo vendeu um fantasma por mil e quinhentos dinheiros.”

Fonte: 

Chuva de Versos n. 468


Uma Trova de Maringá/PR
Jeanette De Cnop

Precisa o mundo, imperfeito,
saber o quanto é capaz
a ausência de preconceito
de ser prenúncio de paz…
-
Um Poema de São Fidélis/RJ
Antonio Manoel Abreu Sardenberg

O MEU NATAL

Bem pertinho do Natal,
Entro no céu estrelado,
Pego uma estrela cadente
E fujo pro meu passado.

Com astúcia de criança
E abusando da sorte
Seguro na cauda da estrela,
Vou em busca do meu Norte.

Lá de cima quando vejo
A ponte, minha matriz,
Meu coração quase explode,
De tanto que sou feliz!

Ao relembrar meus amigos,
A casa de minha avó,
O campinho da escola,
Na garganta vem um nó.

Cada um com seu presente
A correr pelo quintal...
Em Belém Jesus nascia;
E em nós, nosso Natal.

Nossos pais, irmãos e primos,
Os tios, tão bons pra gente...
No semblante o sorriso
De uma criança contente.

E a família reunida
Era só felicidade:
No centro vovó Zizi,
No coração, a saudade.

Quando a noite vai caindo,
Devolvo ao céu estrelado
Aquela estrela cadente
Que me levou ao passado.
-
Uma Trova Hispânica da Argentina
José Héctor Rodríguez 

Quisiera muchos hermanos
para compartir la vida
y poder llegar a ancianos
en una familia unida.
-
Uma Trova de Maringá/PR
Pedro Paulo

Na distância, a saudade
pisca o acelerado,
para chegar mais depressa
nos braços do meu amor!
-
Um Poetrix do Recife/PE
Antonio Carlos Menezes

indesejável

um gosto amargo
na boca úmida
do beijo forçado.
-
Um Poema de Lisboa Portugal
Carmo Vasconcelos

NATAL 

Todos os Natais tento me conter
Enterrar fundas as recordações
Lágrimas de saudade em mim suster
Vedar na mente antigas emoções

Ofuscando esse tempo que não volta
Espalho cores, iluminações
Visto o pinheiro, fantasia à solta
E invento doces substituições

E nada falta na alegre aparência
Dos risos e cantares em convivência
No cenário da infância imitado

E lá... Do presépio iluminado
Os olhos do Menino em complacência
Adoçam-me as saudades do passado
-
Trovadores que deixaram Saudades
Antonio Facci
(Cedral/SP, 1941 – 2008, Maringá/PR)

Se de barros fomos feitos
nesta olaria divina,
somos dois corpos perfeitos,
partilhando a mesma sina!
-
Um Poetrix de São Paulo/SP
Argemiro Garcia

caminho do sertão

Levanta-se pó na estrada,
rodando: será saci?
canta longe um bem-te-vi.
-
Uma Trova Humorística de Maringá/PR
A. A. de Assis

Mostra o sábio o que destaca
do burro a paca, e sussurra:
– é que o burro sempre empaca,
e a paca jamais emburra… 
-
Um Poetrix de Limeira/SP
Carlos Alberto Fiore

medos

Mais moderado.
Muito modesto.
Minto meus medos.
-
Recordando Velhas Canções
Disritmia 
(1974) 

Martinho da Vila 

Eu quero me esconder debaixo
Dessa sua saia prá fugir do mundo
Pretendo também me embrenhar
No emaranhado desses seus cabelos
Preciso transfundir meu sangue
Pro meu coração que é tão vagabundo
Me deixa te trazer um dengo
Prá num cafuné fazer os meus apelos

Eu quero ser exorcizado
Pela água benta desse olhar infindo
Que bom é ser fotografado
Mas pelas retinas desses olhos lindos
Me deixe hipnotizado
Prá acabar de vez com essa disritmia
Vem logo, vem curar seu nêgo
Que chegou de porre lá da boemia
-
Uma Trova de Maringá/PR
Francisco Jorge Ribeiro

Quem semeia, põe mais vida
na vida de todo mundo:
transforma em flor e comida
a força do chão fecundo!
-
Um Poetrix de Novo Hamburgo/RS
Denise Severgnini

teus olhos

Meros oásis transitórios
Singulares palmeiras sem viço
Sem sal… Secura explícita…
-
Uma Trova de Maringá/PR
Dari Pereira

Em cada verso da trova
que componho nesta vida,
sempre guardo a rima nova
pra minha terra querida!
-
Um Poema de Bauru/SP
Diógenes Pereira de Araújo

SER MAIS VOCÊ

Você é você: alguém tão soberano 
Que atravessa decênios de coerência 
em teimosia, birra e prepotência; 
em faz de conta, máscara e engano.

Você, fiel à própria inteligência: 
é sempre o mesmo, entre ou saia o ano 
Mas isto é privilégio só do humano: 
ser sempre como quer, ter ingerência sobre o próprio ser.

Sobre o próprio ser?! 
Ser ou não ser, de novo eis a questão, 
que no crescer encontra a solução:

Para ser mais, importa-nos crescer. 
Que eu luto pra crescer, você não vê? 
Quanto a você - se vê! -: Você é você.
-
Uma Trova de Maringá/PR
Conêgo Benedito Telles

Quando morre um trovador,
o céu fica mais bonito.
– Mais uma estrela de amor
a cintilar no infinito.
-
Hinos de Cidades Brasileiras
Hino do município de Bituruna/PR

Quando os índios em tempo de outrora
Vagueavam por esta região,
Já anteviam os dias de agora
Pela força invulgar deste chão

Ante o verde de luz inundado
Visionários da linda comuna,
Escolheram teu nome acertado,
Que nobreza traduz, Bituruna.
Bituruna!
És o “Passo do Índio”, imponente.
Qual coluna
Da economia desta brava gente

Uva e Trigo
São riquezas que o solo produz
Berço amigo
Teu futuro triunfal te conduz.

Conta o Rio Iguaçu o heroísmo
Do trabalho que te construiu
Desse grande e vital dinamismo
Que o destino a teu povo imprimiu

Santa Bárbara vê com carinho
E recobre de bênçãos sem fim,
A paisagem de milho e de pinho
Entre os rios Jangada e Iratim.
-
Um Poetrix de São Paulo/SP
Edison Veiga

tempestade de ideias

Poeta lavra palavras
Deus semeia vento
Eu colho letras revoltas
-
Um Poema de Curitiba/PR
Celito Medeiros

NÃO CHORES

Não chores, não por mim, meu amor
Tivemos oportunidades dos dois lados
É, é assim mesmo, não tenhas temor
Nós ficamos, nem sempre consolados

Vem cá meu bem, vem mais uma vez 
Vem dizer o que gosto de ouvir 
Vem ouvir com toda a sensatez 
Vem novamente tudo isto sentir

Não, por favor não chores mais 
Foi tudo muito bom, mas já passou 
Agora estamos em situações iguais

Tu sabes o que tem importância 
Muita coisa ainda nos restou 
Temos o amor em abundância
-
Uma Trova de Maringá/PR
Jorge Fregadolli

Chove-chove, chuva amiga,
chove sobre a plantação…
Multiplica o fruto e a espiga,
dá mais vida e força ao chão!

Estante de Livros (Jorge Amado: Tieta do Agreste)

Tieta do Agreste, publicado em 1977, é uma das mais populares obras de Jorge Amado, autor baiano, que criou personagens sensuais engajando criticas politico-sociais sobre o cenário nacional e especial baiano, seja na capital baiana, Salvador, ou no interior do estados nos campos cacaueiros, exportando a cultura nacional, a partir daí considerado ”embaixador simbólico do Brasil”. Tieta tem um enredo divertido e envolvente.

escritor retoma a leitura crítica do regime de exceção governamental, em moda na América Latina, e, particularmente, no solo brasileiro. A história contada em Tieta do Agreste é vivida entre os anos de 1965 e 1966, como claramente expressam trechos textuais, reafirmando ser Amado um contador continuado de histórias datadas.

Antonieta Esteves Cantarelli, apelidada de Tieta, era pastora de cabras quando foi expulsa pelo seu pai e volta ao lar anos depois, em busca de redenção e justiça, para fazer as pazes com a família, incluindo Perpétua, sua irmã gananciosa e beata solteirona.

A chegada de Tieta na pequena cidade de Santana do Agreste vai gerar grande rebuliço, Tieta tem grandes pretensões: levar luz elétrica para a cidade, já que esta era considerável ”viúva” rica vinda de Sampa. No inicio da história Tieta não aparece, na verdade nem se sabe se ela está viva, a curiosidade dos parentes da família Esteves na pequena cidade é grande, como Tieta está? O que aconteceu? E como já não bastasse, uma indústria pretende se fixar na cidade.

Um dos temas fortes no livro é o meio-ambiente e desenvolvimento, em um certo momento da história a Brastânio, uma empresa de dióxido de titânio, ameaça se instalar nos arredores de Mangue Seco (praia próxima à cidade) e destruir os manguezais, a população se divide e discussões politicas começam, retratando as peculiaridades da politica nacional como um todo e em plena ditadura Jorge dá alfinetadas ao regimento militar. 

Existem na pequena comunidade duas facções: a dos que desejam o progresso na localidade, com a atração de turistas, pouco importando com as mudanças de crenças e comportamentos (sob o comando de Ascânio Trindade, responsável pela Prefeitura local), e a dos que preferem manter o lugar protegido, evitando a invasão de turistas com a seguida alteração de crenças e comportamentos (sob o comando do Comandante Dário). Inicialmente, dá-se a oposição de interesses, focada nas alterações na paisagem – a flora e a fauna – de Mangue Seco. A “luta” acontece sob a tutela da multinacional Brastânio, do lado da instalação da fábrica e do progresso turístico, com o apoio direto da Prefeitura; em oposição, os contrários a destruição ambiental, tendo, além do Comandante, dona Carmosina e seu “Areópago”. Do lado da Brastânio, estão em cena viagens, mulheres, farras, dinheiro, interesses políticos e a boa fé de Ascânio Trindade; do outro lado aparecem artigos de jornais, as leituras de dona Carmosina, o conservadorismo do Comandante Dário etc. De um lado, a falta de escrúpulo, a ganância, a usura; de outro lado, a defesa do interesse coletivo, a preservação da ecologia, o princípio igualitário da justiça.

O cotidiano da cidade é nostálgico para quem já morou em cidades interioranas: beatas, meninos travessos, prostitutas, políticos ferrenhos e uma pitada de interesse-na-vida-alheia, ou seja, fofocas, Tieta adicionada à vinda da indústria de titânio é um prato cheio para as línguas afiadas, com um adicional de meia-xícara de romance, romances proibidos, romances líbidos: sexo. As palavras nos livros de Jorge são escolhidas, amaciadas, dançantes, um dialeto que às vezes só se pode entender ao buscar no dicionário, ou para quem vive ou viveu no interior.

Antonieta criou um próprio personagem para a sua vida, viúva rica, enquanto na verdade é dona de um bordel, moral vs realidade, ela precisa desse disfarce para se aproximar de sua família, se adequando às commodities sociais para se encaixar ou sofrerá a irá de seu pai novamente, uma das criticas de Jorge quanto a auto-aceitação.

O ciclo narrativo das peripécias aventureiras da personagem central encerra-se com a volta às propostas do exórdio, inscrito no final do primeiro capítulo, quando o narrador supostamente dialoga com seu provável leitor, dando mostra da longa e constante produção que lhe aguarda, ambiguamente carnavalizada: “Agradecerei a quem me elucidar quando juntos chegarmos ao fim, à moral da história. Se moral houver, do que duvido”

Fontes:
http://www.torredevigilancia.com/resenha-tieta-do-agreste/
excertos de Benedito Veiga em http://www.filologia.org.br/ixcnlf/7/09.htm

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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